A ONU alertou, nesta segunda-feira, que as reservas alimentares para o Sudão se esgotam em Outubro e a ajuda económica será suspensa em Setembro, caso não receba financiamento imediato, o que deixará 1,5 milhões de pessoas sem apoios.
Segundo o último relatório do Programa Alimentar Mundial (PMA), a organização necessita urgentemente de 288 milhões de dólares para manter os seus níveis mínimos de assistência durante os próximos seis meses, sem ser obrigada a reduzir as rações nem a excluir beneficiários.
No entanto, para operar na escala necessária e cumprir o plano anual completo no país africano, o orçamento necessário ascende a 624 milhões de dólares, indicou a agência da Organização das Nações Unidas (ONU).
Apesar do défice financeiro e dos crescentes obstáculos no terreno, o PAM conseguiu prestar assistência, em Julho, a 3,7 milhões de pessoas em todo o país, atingindo, assim, o seu nível de cobertura mensal mais elevado desde o início do ano.
Deste número, um milhão de beneficiários recebeu alimentos em zonas classificadas como estando em risco iminente de fome, enquanto 1,3 milhões de pessoas beneficiaram de ajudas económicas directas para adquirir alimentos em mercados locais que ainda se mantêm em funcionamento.
As operações humanitárias continuam gravemente prejudicadas pelo recrudescimento do conflito armado – que inclui ataques com drones e confrontos entre comunidades em Darfur (região fronteiriça a oeste) e no Cordofão (centro-sul) –, bem como pelos graves obstáculos burocráticos e pelo impacto da estação das chuvas torrenciais.
No estado do Cordofão do Norte, os combates em torno de Al-Obeid – cidade estratégica que liga Cartum e o centro do país a Darfur – continuam a provocar deslocações em massa da população, enquanto nas regiões de Kassala, Gedaref, Nilo Branco e Nilo Azul, as graves inundações danificaram infra-estruturas essenciais e bloquearam a passagem de comboios.
A estes obstáculos junta-se o bloqueio de dezenas de camiões com milhares de toneladas de alimentos retidos nas estradas do interior.
Apesar disso, a agência conseguiu reativar vários postos fronteiriços essenciais, alargar a assistência médica e nutricional a mulheres e crianças e retomar a distribuição de alimentos nas escolas após a sua reabertura.
A guerra no Sudão entre o Exército e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) causou dezenas de milhares de mortos desde o seu início, em 15 de Abril de 2023, e forçou o êxodo de cerca de 14 milhões de pessoas na pior crise de deslocamento e fome do mundo, segundo a ONU.
Pelo menos dois milhões dos cerca de cinco milhões de sudaneses que abandonaram Cartum durante o conflito já regressaram às suas casas, numa altura em que a capital começa, lentamente, a dar sinais de retoma, após a vitória militar sobre as Forças de Apoio Rápido. Contudo, o regresso decorre num cenário marcado pela destruição e pela escassez de serviços essenciais.
O centro de Cartum permanece profundamente devastado. Onde antes existiam mercados movimentados, edifícios empresariais e bairros prósperos, predominam agora ruas desertas, edifícios destruídos, valas comuns e áreas contaminadas por minas terrestres.
A população enfrenta ainda sérias dificuldades no acesso aos serviços básicos. O fornecimento de electricidade continua irregular, a água potável é escassa e grande parte das infra-estruturas essenciais permanece sem funcionamento.
Apesar das adversidades, milhares de famílias decidiram regressar na esperança de reconstruir as suas vidas. No entanto, o reencontro com a cidade tem sido marcado pela desilusão, perante a dimensão dos estragos e a lentidão do processo de recuperação.
As autoridades haviam prometido um rápido restabelecimento da normalidade após a vitória militar, mas a realidade no terreno revela um quadro bastante diferente. As infra-estruturas continuam severamente danificadas, o abastecimento de energia mantém-se instável e muitos trabalhadores acumulam meses sem receber salários.
Para numerosos sudaneses, o regresso não representou uma escolha, mas antes a única alternativa possível, face ao agravamento das condições de acolhimento dos refugiados no vizinho Egipto.
De acordo com dados das Nações Unidas, menos de 80 mil pessoas regressaram até ao momento ao centro de Cartum, uma das zonas mais afectadas pelo conflito.
Uma investigação que propõe uma mudança profunda no ensino da língua portuguesa em Moçambique valeu a classificação máxima na Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes (FCLCA) da Universidade Pedagógica de Maputo. O docente e investigador Lucílio Orlando Manjate obteve 20 valores na defesa da tese de doutoramento intitulada “Estudo das representações discursivas das narrativas sobre Magaíza: um contributo para a didáctica da língua portuguesa”.
Realizada a 7 de Julho, a defesa foi considerada de excelência pelo júri do Programa de Doutoramento em Ciências da Linguagem Aplicadas ao Ensino de Línguas, tornando-se uma das raras teses a alcançar a nota máxima.
Mais do que estudar a figura do Magaíza, o trabalhador migrante moçambicano que regressa das minas da África do Sul, a investigação analisa a forma como diferentes gerações de escritores moçambicanos o representaram e demonstra como essas narrativas podem ser utilizadas para melhorar o ensino da língua portuguesa.
Em entrevista concedida ao O País, Manjate explica que o objectivo foi compreender os discursos presentes nas obras literárias produzidas desde o período colonial até à actualidade.
“Quis perceber como é que estas diversas gerações de escritores moçambicanos têm estado a representar esta figura e qual seria a aplicação didáctica destes textos sobre o Magaíza”, afirmou.
A pesquisa identifica mudanças significativas na construção desta personagem ao longo do tempo. Uma das conclusões é o reforço do papel da mulher nas narrativas mais recentes, onde deixa de ser uma figura secundária para assumir um lugar de coprotagonista.
Contudo, é na área da educação que o investigador considera estar a principal contribuição da tese.
Segundo o pesquisador, o ensino da língua portuguesa em Moçambique afastou-se progressivamente da literatura, privilegiando textos institucionais e exercícios gramaticais, uma opção que, na sua perspectiva, tem consequências na qualidade da aprendizagem.
“Estamos a substituir textos literários por temas transversais e textos institucionais. Isto tem impacto no processo de ensino da língua portuguesa”, defendeu.
Para o académico, a literatura não deve servir apenas para ensinar regras gramaticais, mas para formar cidadãos críticos.
“O texto literário não deve estar apenas ao serviço da gramática. A nossa perspectiva é olhar para a linguagem como um fenómeno social e formar melhores cidadãos.”
Na investigação, o autor sustenta que o afastamento dos textos literários das salas de aula contribui para as dificuldades de leitura, interpretação e comunicação observadas entre muitos estudantes que chegam ao ensino superior.
“Temos estado a receber estudantes que não têm domínio da língua portuguesa e competências básicas da própria língua.”
Outra conclusão apontada pela tese é que os programas escolares continuam excessivamente centrados em autores das décadas de 1950, 1960 e, em menor medida, dos anos 80, deixando praticamente ausentes os escritores da chamada “geração 21”.
Para Manjate, esta realidade impede que o ensino acompanhe as transformações sociais e culturais do país.
“Os textos da nova geração praticamente não existem nos nossos manuais. É uma lacuna grave.”
O investigador defende uma reforma curricular que valorize mais a literatura moçambicana contemporânea e incentive uma abordagem mais participativa nas aulas, colocando o aluno no centro da construção do conhecimento.
Além das conclusões académicas, Manjate partilhou o percurso pessoal até à obtenção do grau de doutor. Sem beneficiar de bolsa de estudos, conciliou a investigação com a actividade docente e suportou integralmente os custos da formação.
“Fui uma das vítimas desta nova dinâmica de atribuição de bolsas. Tive de arcar com todas as despesas inerentes à minha formação.”
Reconhece que o apoio da família foi decisivo para alcançar o resultado.
“O suporte familiar foi extremamente fundamental. Houve muitos sacrifícios, noites sem dormir e compromissos familiares adiados.”
Depois da classificação máxima, o investigador afirma sentir que a responsabilidade aumenta.
“A palavra agora é responsabilidade. Continuar a investigar com maior rigor para produzir conhecimento válido para Moçambique, para África e para o mundo.”
Os próximos passos passam por aprofundar o estudo da figura do Magaíza noutras formas de expressão artística, como a música, o cinema, a fotografia e as artes plásticas, bem como analisar a forma como esta personagem é representada na África do Sul, destino histórico da migração mineira moçambicana.
Com a nota máxima atribuída pelo júri, a investigação de Lucílio Orlando Manjate junta-se ao restrito conjunto de teses distinguidas com 20 valores, propondo uma reflexão sobre o ensino da língua portuguesa e defendendo o regresso da literatura ao centro da formação dos estudantes moçambicanos.
Manjate destacou igualmente o papel desempenhado pela Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo) ao longo do processo de doutoramento, considerando que o ambiente académico e o apoio institucional foram determinantes para a conclusão da investigação. Segundo o investigador, a universidade garantiu o acompanhamento necessário em todas as etapas da formação, desde os procedimentos administrativos até à defesa da tese.
“A UP-Maputo desempenhou um papel absolutamente crucial, por me acolher e por permitir que todo o processo decorresse sem sobressaltos. Trabalhei com professores excelentes e encontrei uma dinâmica burocrática que nos dá conforto”, afirmou, acrescentando que recomenda o programa de doutoramento a outros investigadores interessados em prosseguir a formação avançada.
A província de Cabo Delgado regista, em média, cinquenta casos de corrupção por ano, envolvendo, sobretudo, funcionários dos sectores da saúde e da educação. Entre os crimes mais frequentes destacam-se o desvio de fundos públicos, o suborno e outras práticas ilícitas relacionadas com a administração do Estado.
Apesar do elevado número de denúncias recebidas, a Procuradoria Provincial de Cabo Delgado revela que uma parte significativa dos processos acaba por ser arquivada, devido à insuficiência de provas que permitam sustentar a acusação em tribunal.
Os funcionários públicos continuam a liderar a lista dos arguidos, sendo os sectores da saúde e da educação apontados como os mais vulneráveis à prática de actos de corrupção.
Segundo a Procuradoria, o suborno para obtenção de serviços públicos ou de benefícios estatais de forma ilegal figura entre as modalidades de corrupção mais recorrentes na província.
Com o objectivo de aproximar a justiça dos cidadãos e incentivar a denúncia de práticas ilícitas, a Procuradoria Provincial tem vindo a promover campanhas denominadas “Tendas da Justiça”, uma iniciativa que permite recolher preocupações e denúncias da população fora do ambiente formal das instituições judiciais, reforçando a participação dos cidadãos no combate à corrupção.
Tensão e revolta popular marcaram a madrugada desta sexta-feira no distrito de Limpopo. Uma viatura onde, segundo relatos da população, seguiam supostos agentes da polícia, do SERNIC e outros 3 suspeitos de envolvimento em assaltos foi incendiada por populares. Em resposta, a polícia retirou os indiciados do local, mas a população voltou a bloquear a Estrada Nacional Número Um e cercou o comando distrital, exigindo justiça e esclarecimentos.
A madrugada desta sexta-feira foi marcada por momentos de tensão no distrito de Limpopo, província de Gaza.Populares incendiaram uma viatura na qual supostamente seguiam um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), um membro do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) e três mecânicos, suspeitos de envolvimento em assaltos registados no distrito.
“A revolta popular surge na sequência de uma alegada tentativa de saque desta viatura na comunidade de Licilo” o mais recente caso atribuído ao grupo, disse uma fonte local.
Perante a agitação, a polícia interveio e conseguiu neutralizar e transferir pelo menos três dos suspeitos para um local seguro. Entretanto, dois indivíduos colocaram-se em fuga.
Insatisfeita com a atuação das autoridades, a população voltou a bloquear a Estrada Nacional Número Um (N1), na zona de Chicumbane, e concentrou-se junto ao comando distrital da PRM para exigir a entrega dos suspeitos.
Detidos na Segunda Esquadra da PRM, em Xai-Xai, um dos indiciados recusou-se a prestar declarações à imprensa, enquanto outros negaram qualquer envolvimento nos crimes de que são acusados.
A polícia não confirmou a existência de dois suspeitos em fuga nem esclareceu se entre os implicados existem agentes das forças de defesa e segurança. O Porta-Voz, Júlio avançou que ainda continuam investigações para apurar o paradeiro dos dois suspeitos em fuga.
Esta é a segunda vez, em menos de três meses, que a população do distrito de Limpopo bloqueia a N1 em protesto contra a alegada falta de esclarecimento de casos de assassinato e de roubos que têm preocupado as comunidades locais.
As bancadas parlamentares da FRELIMO e do PODEMOS realizaram visitas de fiscalização a unidades sanitárias da província de Inhambane, onde constataram vários constrangimentos que continuam a comprometer a prestação de cuidados de saúde, com destaque para a escassez de profissionais.
A Bancada Parlamentar da FRELIMO iniciou a acção no Hospital Provincial de Inhambane, a maior unidade sanitária da província, com o objectivo de avaliar as condições de funcionamento dos serviços e inteirar-se dos principais desafios enfrentados pelo sector. Durante a visita, os deputados receberam informações sobre o desempenho da unidade e constataram que a insuficiência de recursos humanos continua a constituir uma das maiores dificuldades para assegurar um atendimento adequado aos utentes.
Entretanto, os deputados da Bancada Parlamentar do PODEMOS deslocaram-se ao Hospital Rural de Chicuque, uma das mais antigas unidades sanitárias da província, onde percorreram diversos sectores da instituição para avaliar as condições de funcionamento. A visita surge na sequência de preocupações manifestadas por utentes e profissionais de saúde relativamente à qualidade dos serviços prestados e às limitações existentes.
No término das visitas, os parlamentares afirmaram que as constatações efectuadas serão reunidas num relatório a ser submetido ao Governo. Entre as principais preocupações figuram a carência de profissionais de saúde e outras limitações que afectam o funcionamento das unidades sanitárias.
Os deputados defenderam a adopção de medidas que permitam reforçar a capacidade do sector da saúde na província, com vista à melhoria da qualidade dos serviços e do atendimento prestado à população.
Salimo Abdula assumiu, no dia 1 de Julho, a presidência do Conselho de Administração (PCA) da empresa Vodacom Moçambique. O anúncio foi feito pela empresa em comunicado. O mandato é de três anos.
Abdula foi eleito por consenso dos accionistas. O empresário sucede a Lucas Chachine, cujo mandato chegou ao fim. “A entrada de Salimo Abdula representa, para a Vodacom, um regresso de uma figura profundamente ligada à história da empresa”, lê-se na nota de imprensa.
Salimo Abdula é accionista da Vodacom desde 2007, através do Grupo Intelec Holdings. Já presidiu ao Conselho de Administração da empresa, tendo liderado, nos últimos três anos, o Conselho de Administração da Vodafone M-Pesa.
“Este percurso confere-lhe um conhecimento aprofundado do negócio, do ecossistema de telecomunicações e da agenda de inclusão financeira do País”, explica a empresa na nota de imprensa.
Fundador e presidente do Conselho de Administração da Intelec Holdings, grupo com actuação em sectores estratégicos como energia, telecomunicações, finanças, recursos minerais e turismo, Salimo Abdula é uma das figuras mais influentes do tecido empresarial moçambicano.
Foi presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) e da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP), com um contributo para a promoção do investimento, do empreendedorismo e da capacitação da iniciativa privada nacional.
No arranque do mandato, a liderança da Vodacom reafirma o compromisso da empresa com a expansão e a qualidade da rede, a conectividade rural e a continuada agenda para a aceleração da digitalização da economia moçambicana, consolidando a posição da operadora como parceira no desenvolvimento do País e na vida quotidiana dos moçambicanos.
“É com enorme sentido de responsabilidade que regresso à presidência do Conselho de Administração da Vodacom Moçambique, uma empresa que conheço bem e na qual acredito profundamente. Herdo um legado sólido e comprometo-me a dar continuidade a uma estratégia centrada nas pessoas, em ligar cada moçambicano, aproximar serviços e capacidades, e contribuir para um país mais próximo, coeso, inclusivo e competitivo tendo as telecomunicações como base”, afirma Salimo Abdula, presidente do Conselho de Administração da Vodacom Moçambique.
A Lucas Chachine, a Vodacom Moçambique deixa uma palavra de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido ao longo do seu mandato.
O antigo presidente do Banco Africano de Desenvolvimento defende que Moçambique deve apostar na aquacultura em grande escala para reforçar a segurança alimentar, reduzir a dependência das importações e criar mais oportunidades de emprego para a juventude. Akinwumi Adesina, que também apontou a industrialização, a saúde e a mobilização de investimento como prioridades para o desenvolvimento do País, foi recebido nesta quinta-feira, em audiência, pelo Presidente da República.
Depois de participar na Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, o antigo presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Akinwumi Adesina, foi recebido, nesta quinta-feira, pelo Presidente da República, Daniel Chapo.
Durante a audiência, realizada à porta fechada, Daniel Chapo e o antigo dirigente de uma das maiores instituições financiadoras do desenvolvimento em África abordaram a situação económica do País, as estratégias de desenvolvimento e os sectores com maior potencial para atrair investimento.
Nas breves declarações prestadas à imprensa após o encontro, Akinwumi Adesina revelou que discutiu com o Chefe do Estado as potencialidades económicas de Moçambique.
“Discutimos, nessa área específica, vários aspectos. Analisámos como é que se podem, de facto, transformar os recursos naturais do País em desenvolvimento inclusivo e crescimento económico de longo prazo. Seja através do gás para a industrialização, o que é muito, muito importante, seja através da produção de metanol, etanol e ureia, o que vai criar muitas oportunidades aqui”, afirmou Adesina.
O potencial agrícola e as oportunidades oferecidas pela economia azul foram outros temas em destaque durante o encontro. Segundo Akinwumi Adesina, estes sectores podem desempenhar um papel determinante na criação de emprego, sobretudo para os jovens.
“Falámos muito sobre agricultura. Ele falou-me da sua visão para este sector. Discutimos também a forma como o País deve apostar na economia azul, porque ela é muito, muito importante, e desenvolver a aquacultura em grande escala para reduzir as importações alimentares, mas também para criar muitos postos de trabalho”, explicou.
O antigo presidente do BAD manifestou ainda disponibilidade para apoiar Moçambique na mobilização de investimento, na qualidade de presidente da Cimeira Global de Investimento em África.
Segundo Adesina, “todos os moçambicanos merecem cuidados de saúde de qualidade, e a prosperidade de um país deve reflectir-se na vida das pessoas. Foi também sobre isso que discutimos”.
Relativamente à Cimeira Global de Investimento em África, da qual é presidente, o economista garantiu que continuará a trabalhar para que esta continue a ser um vínculo de atracção de investimento para atrair investimento sustentável para o País, para além de permitir a convergência com outros agentes económicos mundiais.
“Estamos a trabalhar em estreita colaboração com o Presidente e com o País para atrair investidores para Moçambique, mas investidores que estejam empenhados na transformação de longo prazo deste país e comprometidos com o povo moçambicano. Por isso, é um prazer estar aqui a trabalhar com Sua Excelência o Presidente”, concluiu.
Para Akinwumi Adesina, a valorização dos recursos naturais, em particular do gás natural, poderá impulsionar a instalação de indústrias, promover a criação de empregos e acelerar o desenvolvimento económico de Moçambique.
O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu, durante a abertura da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, nesta semana, a transformação dos recursos naturais do País em prosperidade nacional, através da diversificação económica e fortalecimento das instituições.
O Chefe do Estado moçambicano destacou ainda os avanços alcançados pelo País nas últimas décadas, mas apontou desafios como a pobreza, desigualdades, baixa produtividade e necessidade de industrialização ainda por ultrapassar.
Chapo apelou à construção de consensos nacionais e anunciou a continuidade de reformas para promover um desenvolvimento inclusivo e sustentável, esperando que o encontro resulte em compromissos estratégicos para os próximos 25 anos.
Segundo Virgínia Videira, antiga directora nacional do Plano, o desalinhamento entre a Agenda Nacional 2025 e os Planos Quinquenais do Governo travaram o desenvolvimento do País nos últimos 25 anos.
“De cinco em cinco anos, nós mudamos as instituições, os planos, e parece que já não são os mesmos objectivos que pretendemos atingir. Há muitos documentos feitos, mas difíceis de implementar”, concluiu Virgínia Videira.
Da academia, uma voz que dispensa apresentações. O cientista político José Macuane apontou como falha a divisão do poder entre partidos políticos e a transferência do poder político para nível local sem competências técnicas.
“Nós teríamos evitado algumas crises que nos colocaram numa situação que teve um impacto em múltiplas áreas que retardaram o nosso desenvolvimento se tivéssemos conseguido criar algum quadro institucional de governação que distribuísse de forma um pouco mais equitativa o poder”, disse José Macuane.
No entender do académico, teria sido fundamental criar uma base efectiva para resolver problemas de desenvolvimento que o País hoje enfrenta. Entende que não bastava distribuir poder, era necessário também criar condições para que houvesse um desenvolvimento socioeconómico mais equitativo e que resolvesse algumas questões relacionadas com os desequilíbrios regionais.
Mas nem tudo gira na política e nos planos. O jovem economista Egas Daniel entende que o Estado falhou o cálculo ao isentar os megaprojectos de impostos.
“Não era determinante a magnitude com a qual nós abrimos mão das receitas para que o investimento viesse para cá. Então, 25 anos depois, temos a certeza de que a economia cresceu por causa desses grandes projectos, mas, ao mesmo tempo, temos a certeza de que cresceu apenas a parte relacionada aos grandes projectos, que não tinham ligações com o resto da economia e não conseguimos arrecadar receitas para que o Estado tivesse a capacidade financeira para poder investir em sectores para diversificar a economia. Então, no fim, temos agora a lição tirada de que este modelo não deu certo”, defende Egas Daniel.
Por sua vez, Luís Magaço, gestor e um dos produtores da Agenda 2025, acrescenta que tudo começou a falhar entre 2005 e 2014, quando a aposta do Estado deixou de ser as Pequenas e Médias Empresas (PME).
“Entre 2005 e 2014, o nosso foco mudou, infelizmente. O nosso foco foi no carvão e depois no gás natural. Então, houve poucas reformas que permitiram que as PME crescessem. Nesse período, as taxas de juro de financiamento às empresas aumentaram imenso. Não é possível a empresa crescer a taxas de juro de 20%. (…) Há preferência pelo financiamento do Estado e, infelizmente, neste momento, todos os bancos estão entalados, porque os bancos não estão a pagar”, referiu o gestor empresarial Luís Magaço Júnior.
Por sua vez, o antigo ministro dos Recursos Minerais e Energia, Castigo Langa, falou de falhas na Educação nos 25 anos e deu ênfase às interferências políticas como factor que prejudicou as empresas e, por fim, o desenvolvimento.
“Porque, 25 anos depois, ainda não foi construído o Mphanda Nkuwa? E, se a gente vê a história, há-de ver que não, é porque houve interferências no meio, fora daquilo que estava decidido ou que era o caminho a seguir para a construção deste projecto. Uma coisa fundamental que foi dita aqui é a empresa que tem de ser acarinhada por todos nós. O Estado tem de acarinhar a empresa, como uma mãe acarinha o seu bebé. Não podemos permitir que indivíduos corruptos que estão no Estado inviabilizem as empreass”, disse Castigo Langa.
Da experiência internacional, o Banco Mundial esteve presente no evento e sua economista, Elisa Gamberoni, deixou ficar sugestões para os próximos 25 anos.
“Ouvimos o orador anterior, por exemplo, mencionar como o crescimento médio de 8% que observámos entre 1995 e 2015 foi cada vez mais impulsionado pelo sector extractivo e era muito intensivo em capital. E, agora, isto não está a conduzir à criação de emprego nem a empregos melhores. Portanto, penso que é precisamente isto que o Banco Mundial tem tentado implementar com o nosso novo quadro de parceria com Moçambique, ou seja, ter um crescimento que gere muitos empregos, e o nosso foco é alcançar isso através de um ambiente macrofiscal estável e da diversificação para a energia, agro-negócios e turismo e competências que são vitais para sustentar este tipo de crescimento”, defendeu a economista do Banco Mundial em Moçambique.
MOÇAMBIQUE DEVE INVESTIR NO HOMEM PARA SE DESENVOLVER
Moçambique deve investir no capital humano para poder evitar erros do passado e dar um salto no desenvolvimento nos próximos 25 anos. O pensamento saiu da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável.
Depois de 25 anos de implementação da Agenda 2025, é chegada a hora de reflectir sobre as lições e definir passos para as próximas duas décadas e meia.
O sociólogo Elísio Macamo recorre à famosa expressão “o cabrito come onde está amarrado” para explicar a importância da produtividade do capital humano.
“O problema não é o cabrito estar amarrado onde ele está. O problema é quem amarrou o cabrito ali. O cabrito é muito auto-suficiente e contenta-se com o pouco. O caranguejo, com aquelas voltas que ele dá, ele está a explorar o mundo. Tem muita curiosidade. O cágado é prudente. Então, em vez de nos concentrarmos apenas num animal, devíamos procurar saber quais são as qualidades que cada animal tem e que condições nós podemos criar para tirar proveito das boas qualidades que cada animal tem”, defendeu o sociólogo.
Já o economista Fáusio Mussá defende a aposta na educação e no interesse comum, para que as pessoas acreditem cada vez menos em conversas de rua.
“Se nós não abdicarmos um pouco do interesse pessoal para o interesse colectivo e se nós não começarmos a educar os nossos filhos dessa forma para influenciar as próximas gerações, eu penso que nós vamos correr o risco de nos próximos 25 anos viver ciclos de instabilidade”, alerta o economista.
Por seu turno, o reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão, propôs um pacto entre a educação e a planificação, para reduzir as desigualdades e a ausência dos alunos e professores nas escolas.
“O segundo pacto seria desenharmos respostas diferenciadas por província, por distrito e por grupo social, porque essas desigualdades educativas, elas também são desigualdades territoriais”, concluiu o académico.
Caso prevaleça a cultura de ódio, a deputada Ivone Soares alerta que será difícil alcançar o desenvolvimento. Por isso, sugere a criação de um projecto da Nação.
“É importante olharmo-nos como irmãos e trabalharmos como irmãos e quebrarmos completamente esta cultura de que se não está comigo, está contra mim, então não tem direito sequer a ter um biscate, em como limpador, varredor. É isso que agudiza as diferenças e as tensões”, considera Soares.
Para recriar a Nação, serão necessários fundos, que, para o Banco Africano de Desenvolvimento, África possui, mas está concentrado em algumas entidades.
“Estimamos que hoje nós estamos sentados, no continente africano, em quatro trilhões de dólares em poupanças. Esse dinheiro está em fundos de pensões africanos, milionários africanos, africanos fora do continente, seguradoras, etc. Só com esse dinheiro, nós iríamos conseguir mobilizar o capital necessário anualmente para cumprir a lacuna de desenvolvimento”, disse Rômulo Correia, representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Moçambique.
Quem também deve contribuir são as multinacionais. Porém, Marica Calabrese, CEO da Eni em Moçambique, entende que estas não devem impor regras internacionais arbitrariamente, ignorando a realidade das empresas locais.
“Quando trabalho com alguma empresa internacional, eu posso pagar em 90 dias. Não posso fazer o mesmo com empresas pequenas. Em 90 dias, a empresa vai fechar. Então, a empresa internacional deve fazer a sua parte com prazos de pagamento mais curtos, os bancos têm de fazer a sua parte e, claramente, as autoridades devem também garantir o quadro legal”, disse Marica Calabrese.
Diante das ideias, o PNUD, braço das Nações Unidas para o Desenvolvimento, espera que o País defina prioridades para as duas décadas e meia que se seguem.
O Governo considera o reforço do subsector das sementes uma aposta estratégica para aumentar a produção agrícola, reduzir a pobreza e promover o desenvolvimento económico nas zonas rurais. A posição foi reafirmada esta sexta-feira, durante o lançamento do Projecto de Fortalecimento do Subsector das Sementes, avaliado em 12,5 milhões de euros.
Segundo o Executivo, cerca de 65 por cento da população moçambicana reside nas zonas rurais e, deste universo, aproximadamente 70 por cento depende da agricultura e de actividades conexas para garantir a sua subsistência. Neste contexto, a disponibilização de sementes certificadas é apontada como um dos principais factores para elevar a produtividade agrícola, em conjugação com o acesso a fertilizantes e outros insumos.
O projecto terá como principais beneficiários os pequenos produtores dedicados ao cultivo de arroz, milho, mandioca, hortícolas e outras culturas de importância económica, numa iniciativa que visa aumentar a produção, melhorar o rendimento das famílias rurais e promover um crescimento económico mais inclusivo, contribuindo para a redução das desigualdades sociais.
O Governo defende ainda que a iniciativa se enquadra na estratégia de diversificação da economia nacional e de valorização do potencial agrícola do País. Neste âmbito, anunciou que continuará a reforçar o papel das agências regionais de desenvolvimento, transformando-as em instituições mais capacitadas para impulsionar o crescimento económico sustentável e criar oportunidades para as micro, pequenas e médias empresas, em articulação com outros programas de financiamento e promoção do investimento.
Entretanto, a Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze (ADVZ) esclareceu que a eventual implementação de uma segunda fase do projecto dependerá dos resultados alcançados ao longo dos primeiros cinco anos de execução. A instituição considera ainda prematuro avançar com essa possibilidade, uma vez que a iniciativa acaba de ser lançada, embora manifeste confiança de que os resultados obtidos poderão justificar a sua continuidade.
O projecto resulta de uma parceria entre a Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze e a Embaixada do Reino dos Países Baixos, no âmbito de uma cooperação iniciada em 2012 para o fortalecimento do sector agrícola em Moçambique.
A implementação será assegurada por um consórcio que integra, entre outras instituições, a Universidade Eduardo Mondlane, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) e outros parceiros especializados.
Ao contrário de mecanismos como o Fundo Catalítico, esta iniciativa não prevê a distribuição directa de recursos financeiros aos pequenos produtores. O seu principal objectivo consiste em reforçar o quadro institucional e técnico do subsector das sementes, promovendo a investigação, a produção e a disponibilização de sementes certificadas de qualidade, consideradas fundamentais para o aumento da produtividade agrícola e para a segurança alimentar no País.