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A crescente insatisfação da população sul-africana com a falta de água, electricidade e recolha de lixo está a enfraquecer o apoio ao Congresso Nacional Africano (ANC), numa altura em que o país se prepara para as eleições municipais, marcadas para 4 de Novembro. Várias sondagens recentes indicam uma redução da popularidade do partido, que enfrenta críticas pela corrupção e má gestão das autarquias.

A degradação dos serviços públicos tem levado alguns cidadãos a ameaçar boicotar as eleições, sobretudo nos bairros periféricos de Joanesburgo, onde milhares de famílias enfrentam dificuldades no acesso a serviços básicos.

Em Katlehong, nos arredores de Joanesburgo, cerca de 180 famílias dependem de ligações eléctricas ilegais há mais de 20 anos. Os cabos atravessam as calçadas e transportam energia de outras zonas da comunidade, numa tentativa dos residentes de contornar a falta de fornecimento regular. O líder comunitário Lesiba Rankapole afirma que os moradores decidiram não votar enquanto não tiverem acesso à electricidade. “Tomámos uma decisão colectiva: sem electricidade, sem voto”, declarou, defendendo que a falta de energia compromete o futuro das crianças e o desenvolvimento da comunidade.

A mesma revolta é manifestada por Enock Majola, outro residente de Katlehong, que acusa as autoridades de não resolverem os problemas locais, incluindo a deposição ilegal de lixo. O cidadão, que afirma ter crescido a apoiar o ANC, diz já não querer ouvir falar do partido devido às dificuldades que enfrenta.

Em Alexandra, outro bairro periférico de Joanesburgo, a situação também é preocupante. O lixo acumula-se nas ruas, as águas residuais correm a céu aberto e muitos residentes não dispõem de água canalizada.

Para vários cidadãos, a corrupção e a má gestão municipal estão entre as principais causas da deterioração dos serviços públicos e da perda de confiança nas autoridades. “Não vou votar porque já não acredito no nosso Governo. Decepcionou-nos inúmeras vezes”, afirmou o residente Sipho Mandala.

Apesar do descontentamento, alguns eleitores continuam fiéis ao ANC, sobretudo pelo seu papel histórico na luta contra o apartheid. Um morador de Katlehong, mesmo confrontado com problemas de saneamento na sua residência, admitiu que voltaria a votar no partido, caso conseguisse chegar a uma assembleia de voto.

O ANC, que tem no antigo Presidente Nelson Mandela uma das suas principais figuras históricas, conquistou quase 70 por cento dos votos nas eleições nacionais de 2004. Contudo, a sua influência eleitoral tem vindo a diminuir. Nas eleições municipais de 2021, o partido obteve 46 por cento dos votos, ficando pela primeira vez abaixo da fasquia dos 50 por cento.

A perda de apoio tornou-se ainda mais evidente nas eleições nacionais de 2024, quando o ANC conseguiu pouco mais de 40 por cento dos votos, resultado que o obrigou a formar uma coligação governamental.

Segundo o analista político Sethulego Matebesi, as eleições municipais tendem a registar uma participação inferior à das eleições nacionais. Ainda assim, os resultados poderão ajudar os partidos a avaliar a sua base de apoio e a preparar a disputa eleitoral de 2029.

Dos 257 conselhos municipais em disputa, Joanesburgo destaca-se como um dos principais campos de batalha política, devido à sua importância económica e à dimensão da população, estimada em mais de 4,8 milhões de habitantes.

Em Alexandra, o funcionário de manutenção Patrick Saohatse considera que o ANC não conseguiu melhorar as condições de vida da população, apesar de governar a região há vários anos. Por essa razão, afirma que pretende votar na Aliança Democrática (DA), o segundo maior partido da coligação governamental.

A DA, que governa a Cidade do Cabo, tem intensificado as críticas ao ANC, apontando falhas na prestação de serviços públicos e problemas de gestão. Num comício recente, Helen Zille, candidata à presidência da Câmara de Joanesburgo, alertou que mais cinco anos de corrupção e degradação das infra-estruturas poderão colocar a cidade numa situação irreversível.

Entretanto, a campanha eleitoral do ANC tem sido marcada por dificuldades, incluindo a ausência de um candidato escolhido para disputar a presidência da Câmara de Joanesburgo, segundo a informação divulgada.

O responsável pela comissão eleitoral do partido, Mdumiseni Ntuli, reconheceu que existem razões para a insatisfação dos eleitores, sobretudo em Joanesburgo e nas zonas circundantes.

Os analistas prevêem que vários municípios poderão terminar as eleições sem uma maioria absoluta, obrigando os partidos a negociar coligações. A instabilidade destes acordos poderá agravar os problemas de governação e comprometer ainda mais a prestação de serviços públicos, aumentando a pressão sobre o ANC.

 

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O secretário-geral interino da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), James Njiji, questionou a decisão do Tribunal Supremo de ordenar o desbloqueio das contas bancárias de Venâncio Mondlane, que continua acusado no processo relacionado com as manifestações pós-eleitorais de 2024.

A posição foi manifestada esta quinta-feira, em Maputo, à margem da I Conferência Anual sobre Democracia Eleitoral, promovida pela Plataforma Eleitoral Decide, um dia depois de ser conhecida a decisão judicial que determinou o levantamento da medida, por considerar que já não subsistem os pressupostos para a sua manutenção.

“Sentimo-nos felizes por ver o nosso presidente com as suas contas libertas e, realmente, como podem imaginar, ter as contas bloqueadas durante dois anos não foi coisa fácil”, afirmou James Njiji, manifestando solidariedade para com o fundador do partido.

O dirigente questionou, contudo, a compatibilidade entre o desbloqueio das contas e as acusações de incitamento ao terrorismo que pesam sobre Mondlane. Apesar disso, afirmou encarar o julgamento do líder do Anamola com “esperança de justiça”, embora considere que este está a responder por crimes que não cometeu.

Venâncio Mondlane enfrenta acusações de apologia pública ao crime, incitamento à desobediência colectiva, instigação pública à prática de crime, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo, no âmbito do processo-crime movido pelo Ministério Público na sequência das manifestações pós-eleitorais.

O julgamento está marcado para 17 de Novembro, no Tribunal Supremo. Segundo o despacho de acusação do Ministério Público, a prova contra o político inclui apelos à contestação, greves, paralisações e mobilização para protestos, divulgados através de transmissões em directo nas redes sociais.

As contas bancárias de Mondlane estavam bloqueadas desde Novembro de 2024, quando o Tribunal Judicial da Cidade de Maputo determinou a aplicação da medida e solicitou informações sobre os respectivos movimentos e extractos bancários.

O secretário-geral interino garantiu ainda que o Anamola continua a funcionar normalmente, independentemente do processo judicial contra o seu líder, e disse esperar que os simpatizantes acompanhem o julgamento da forma que considerarem adequada.

A construção e reabilitação de infra-estruturas, a melhoria do acesso à água e à electricidade, o reforço dos serviços de saúde e a formação profissional fazem parte das iniciativas de responsabilidade social desenvolvidas em várias províncias do país.

Da Zambézia ao Niassa e a Nampula, diferentes projectos empresariais têm apoiado a construção e reabilitação de infra-estruturas, a prestação de serviços básicos e a formação de quadros moçambicanos, através de investimentos em estradas, pontes, poços, energia, saúde, bolsas de estudo e oportunidades de emprego.

As iniciativas são desenvolvidas pelas empresas do Grupo Jinan Yuxiao nas respectivas áreas de actividade, em colaboração com as autoridades locais e as comunidades abrangidas.

Infra-estruturas para melhorar a circulação e o acesso à energia

No distrito de Inhassunge, na província da Zambézia, a estrada que liga Chiremane a Boone, uma importante via de acesso à cidade de Quelimane, era frequentemente danificada pelas chuvas e inundações. Perante as dificuldades de manutenção, a Africa Great Wall Mining mobilizou máquinas e trabalhadores para a sua reabilitação, na sequência de um pedido do governo local.

Em Outubro de 2023, a empresa entregou às autoridades cinco quilómetros de estrada reabilitada e cinco pequenas pontes, num investimento de 18 milhões de meticais.

No distrito de Pebane, a TZM procedeu, em Abril de 2024, ao revestimento com terra vermelha de um troço de mais de dez quilómetros da antiga estrada arenosa entre Moebase e Cussiane. A intervenção visou apoiar as obras na área mineira e facilitar a circulação dos residentes das comunidades vizinhas.

Já a ponte sobre o rio Lúrio, construída com o apoio da DH Mining Development Company, estabelece a ligação entre o distrito de Nipepe, no Niassa, e o de Lalaua, em Nampula. Inaugurada a 18 de Setembro de 2024, a infra-estrutura criou novas condições para a circulação de pessoas e o transporte de mercadorias entre os dois distritos.

 

Em Moma, na província de Nampula, a comunidade de Coropa, na localidade de Mpago, passou a estar ligada à rede eléctrica nacional a 30 de Agosto de 2024. O projecto foi financiado pela Haiyu Mining, no âmbito do Plano de Responsabilidade Social 2022–2026.

 

O acesso à electricidade permitiu criar condições para o desenvolvimento de pequenos negócios, incluindo barbearias e estúdios de gravação de música, além de facilitar a actividade dos revendedores de peixe.

 

O acesso à água também integra as iniciativas desenvolvidas nas comunidades. Em Naburi, Mulela e noutras localidades, a TZM apoiou a construção de poços, aproximando as fontes de abastecimento dos residentes e reduzindo as distâncias percorridas diariamente para obter água.

 

## Saúde e saneamento entre as prioridades

 

O reforço dos serviços de saúde constitui outra vertente das acções de responsabilidade social. A 12 de Abril de 2023, a TZM Resources, a Africa Great Wall Mining Development e a Mozambique Heavysand lançaram, na Zambézia, o Plano de Responsabilidade Social 2023–2028.

Na ocasião, as empresas doaram três ambulâncias e três milhões de meticais aos distritos de Pebane, Inhassunge e Chinde, onde estão implantados os seus projectos.

Na província de Nampula, a Haiyu Mining participou na construção de infra-estruturas de saúde de proximidade, disponibilizando clínicas e ambulâncias às comunidades. A empresa apoiou igualmente a reabilitação e ampliação do Centro de Saúde de Sangage.

No domínio do saneamento, a Haiyu Mining apoia a construção de sanitários públicos no bairro de Inguri, no município de Angoche. O projecto prevê instalações em escolas, mercados, locais de culto e outros espaços comunitários.

A formação de profissionais de saúde também beneficiou do apoio da empresa. Quatro jovens mulheres das comunidades receberam bolsas de estudo para frequentar o curso de Enfermagem Geral no Instituto Politécnico da RDHC de Angoche, entre 2021 e 2023, tendo todas concluído a formação.

Bolsas de estudo e emprego para jovens moçambicanos

A formação de quadros nacionais integra igualmente as iniciativas de apoio ao desenvolvimento local. Em Agosto de 2015, a Africa Great Wall Mining financiou a formação de dez estudantes moçambicanos na Universidade de Geociências da China, em Pequim, através de um programa de bolsas de estudo.

Mais recentemente, a inauguração da fábrica de processamento de grafite de Nipepe, a 30 de Janeiro de 2026, marcou uma nova etapa na actividade industrial naquela região do Niassa. Na ocasião, o presidente do Grupo Jinan Yuxiao, Wu Tao, afirmou que o projecto já contava com mais de 800 trabalhadores locais.

A construção e o funcionamento da unidade criaram oportunidades de emprego para residentes, tanto no sector mineiro como no processamento de grafite.

Além da criação de postos de trabalho, a formação contínua é apontada como um dos elementos importantes para o desenvolvimento de competências técnicas. A actividade mineira exige conhecimentos sobre equipamentos, segurança, processos de produção e trabalho em equipa, áreas em que a aprendizagem no local de trabalho pode contribuir para a preparação dos trabalhadores.

Durante a inauguração da unidade de Nipepe, foram anunciadas medidas de formação adicional. Na Zambézia, os planos plurianuais de responsabilidade social incluem também bolsas universitárias e formação profissional para jovens.

As iniciativas abrangem, assim, diferentes etapas do percurso académico e profissional, desde o acesso ao ensino superior e à formação especializada até à integração no mercado de trabalho.

A continuidade dos investimentos em infra-estruturas e serviços básicos, a par da formação de jovens e da criação de oportunidades de emprego, constitui uma das dimensões da cooperação entre as empresas e as comunidades onde desenvolvem os seus projectos.

A manutenção das estradas, dos poços e das unidades de saúde, bem como a continuidade das oportunidades de aprendizagem, são aspectos importantes para assegurar que os benefícios destas iniciativas se prolonguem para além da conclusão das obras e contribuam para o desenvolvimento das comunidades.

A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay tem um longo percurso na defesa dos direitos humanos, da justiça internacional e da dignidade humana, marcado pela luta contra o apartheid e pelo exercício de funções de destaque em instituições judiciais internacionais.

Nascida em Durban, Pillay tornou-se, em 1967, a primeira mulher a abrir um escritório de advocacia na então província sul-africana de Natal. Durante o apartheid, actuou como advogada de defesa de activistas contra o regime, denunciando práticas de tortura e contribuindo para a defesa dos direitos fundamentais dos reclusos na Ilha Robben.

Com o fim do apartheid, em 1995, foi nomeada juíza interina do Tribunal Superior da África do Sul e integrou o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda, onde exerceu funções durante oito anos, incluindo quatro como presidente.

Entre 2008 e 2012, Pillay ocupou o cargo de Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, consolidando o seu papel na promoção da justiça e na protecção das liberdades fundamentais à escala internacional.

Mais recentemente, presidiu à Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado.

O seu percurso profissional é marcado pelo compromisso com a responsabilização por violações dos direitos humanos e pelo reforço do direito internacional.

A União Africana lançou, nas Maurícias, a primeira agência continental de classificação de risco de crédito, numa iniciativa destinada a diversificar as avaliações sobre as economias africanas e melhorar o acesso dos países e empresas do continente ao financiamento.

África passa a ter uma instituição própria para avaliar a capacidade dos seus países, instituições financeiras e empresas de honrarem as suas obrigações financeiras. A África Credit Rating Agency (AfCRA) foi oficialmente lançada esta semana em Port Louis, nas Maurícias, numa iniciativa apoiada pela União Africana e desenvolvida ao longo de vários anos.

A nova agência surge num mercado dominado pelas três grandes empresas internacionais de classificação de risco, S&P Global Ratings, Moody’s e Fitch Ratings. A União Africana e outros actores africanos têm defendido que as avaliações produzidas por estas instituições nem sempre incorporam adequadamente as especificidades das economias africanas, podendo contribuir para custos de financiamento mais elevados.

A AfCRA pretende oferecer uma avaliação complementar, baseada em dados, conhecimento e especialistas africanos. A instituição deverá analisar não apenas governos, mas também entidades subnacionais, instituições financeiras e empresas privadas.

Para os promotores da iniciativa, a classificação de risco tem consequências directas sobre o acesso ao financiamento. Quanto maior for o risco atribuído a um país, maior tende a ser o prémio exigido pelos investidores para comprar a sua dívida. Isso significa que uma alteração na percepção de risco pode influenciar directamente os juros pagos por governos africanos para financiar défices, infra-estruturas e outros investimentos.

A nova agência nasce num momento em que muitos países africanos enfrentam elevados níveis de endividamento e custos crescentes do serviço da dívida. Segundo dados citados pela Reuters, o serviço da dívida externa dos países africanos atingiu cerca de 163 mil milhões de dólares em 2024. Ao mesmo tempo, 23 economias africanas não possuem actualmente uma classificação atribuída por nenhuma das principais agências internacionais, deixando uma parte do continente com cobertura limitada nos mercados de capitais.

A entidade não pretende substituir as agências internacionais. A proposta é criar uma fonte adicional de avaliação, com uma perspectiva centrada nas condições económicas africanas. A União Africana considera que uma maior disponibilidade de informação poderá ajudar investidores a compreender melhor os riscos e oportunidades existentes no continente.

Mas o principal desafio será conquistar credibilidade junto dos mercados internacionais. Para que uma classificação africana tenha impacto sobre os custos de financiamento, investidores e instituições financeiras terão de confiar na sua independência, metodologia e capacidade técnica.

A própria União Africana reconhece que a independência será fundamental para o sucesso da instituição. A agência deverá funcionar como uma entidade independente, financiada pelo capital dos seus accionistas e pelas receitas das suas operações.

 

As Organizações Sem Fins Lucrativos negam que estejam envolvidas em crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Por isso, exigem um tratamento diferenciado diante dos bancos comerciais e das autoridades públicas ligadas à matéria.

Por constarem da lista dos suspeitos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo há cerca de dois anos, nesta quinta-feira decidiram sentar-se à mesma mesa com o Governo e os bancos comerciais para limpar o seu nome e exigir também um tratamento menos asfixiante.

Num evento que contou com a participação da secretária permanente do Ministério das Finanças, as organizações queixaram-se de estar a enfrentar problemas sérios para abrir contas bancárias e para receber dinheiro de doadores externos para os seus projectos.

“O doador manda o recurso e o banco informa, às vezes depois de duas a três semanas, que recebeu uma transferência e começa a pedir uma série de documentos. Muitas vezes, esses documentos já foram entregues, às vezes não é um contrato novo. É uma transferência para implementar imediatamente. O tempo demora tanto, às vezes dois a três meses. Em alguns casos, há organizações que reportaram que não conseguem receber esse dinheiro e acabam perdendo o recurso. Por exemplo, se é uma resposta a uma emergência, como cheias ou outra coisa, depois de três a quatro meses torna-se irrelevante”, defende a activista social Paula Monjane, representante do Movimento para a Liberdade de Associação.

Diante das constatações, as organizações consideram inaceitável que cumpram os requisitos exigidos pelos bancos para gerir uma conta bancária e que, mesmo assim, os seus processos não corram. Acusam os bancos de ignorar as recomendações das autoridades oficiais.

“As nossas recomendações são: primeiro, que a avaliação sectorial de risco seja uma ferramenta de uso dos bancos e do sistema financeiro para definir as medidas proporcionais. Segundo, que as boas práticas do GAFI também sejam consideradas no processo de definição de medidas baseadas no risco. Terceiro, que haja um diálogo permanente entre o Governo, o sector financeiro e a sociedade civil. Quarto, que as medidas sejam proporcionais, de tal forma que não levem as organizações a abandonar o sistema financeiro formal para começarem a usar um sistema informal, no qual não vai ser possível encontrar e controlar operações suspeitas”, detalha a activista social Quitéria Guirengane.

Contudo, as organizações sem fins lucrativos exigem um tratamento tendo em conta o risco de cada uma delas. “O que nós exigimos como sociedade civil, sobretudo como CESC, é que essa lista das organizações que supostamente foram detectadas na avaliação fosse entregue aos bancos, no sentido de que, na altura das transacções financeiras, fosse a esse tipo de organizações que se devia demandar mais documentação. Não faz sentido, por exemplo, uma organização pequena, ao nível de Cabo Delgado, que precisa de receber fundos para poder implementar os seus pequenos projectos de desenvolvimento para alavancar o desenvolvimento local, não ter acesso a fundos porque, supostamente, as organizações da sociedade civil são susceptíveis de abuso, mesmo que não haja evidências sobre isso”, considera Domingos do Rosário, gestor do CESC, uma organização da sociedade civil.

Por sua vez, os bancos comerciais dizem estar a trabalhar com listas oficiais de suspeitos e com base na legislação, motivo pelo qual exigem melhor organização aos queixosos.

“Temos um sistema de identificação de entidades nacionais relacionadas com o financiamento do terrorismo, e isso consta de umas listas que são publicadas também ao nível nacional e enviadas aos bancos para que adoptem medidas proporcionais ou medidas de mitigação relativamente a essas entidades. Agora, identificar casos em concreto não seria o momento para trazer aqui. O que se pretende mesmo é que as instituições estejam preparadas para evitar que estes riscos de facto se concretizem e que haja de facto este uso do sector para o financiamento do terrorismo”, explicou aos jornalistas Edgar Fortes, da área de anti-branqueamento de capitais do Banco de Moçambique.

Por seu turno, Samir Zacarias, representante da Associação Moçambicana de Bancos (AMB), explica que os bancos têm métricas específicas para medir os riscos das organizações. “Tendo em conta o resultado, a documentação que é solicitada pode divergir em alguns pontos. Quando nós calculamos o nível de risco de uma associação, há associações que operam em áreas de alto risco. Vou dar um exemplo de Cabo Delgado, que é uma área assolada pelo terrorismo. Há outras que não operam numa área de alto risco. Evidentemente, o resultado do nível de risco dessas duas associações pode ser diferente”, explicou.

Na última avaliação, as confissões religiosas apareciam com maior risco. Mas há trabalhos em curso para melhorar a situação e, em breve, haverá uma nova avaliação.

“68% das confissões religiosas foram apontadas com algum nível de risco. Elas estão identificadas na avaliação nacional de risco. Nós temos dados que apontam para as confissões religiosas, é preciso que se retenha o que se está a dizer. E quais são esses riscos? Não há contas bancárias, (…) há uma série de elementos que contrariam a Lei 14 do Branqueamento de Capitais”, destaca Luís Cezerilo, coordenador nacional de políticas de prevenção ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e proliferação de armas.

Espera-se que a reunião que teve lugar ontem em Maputo produza consensos entre os bancos, as organizações sem fins lucrativos e as autoridades do Governo, sem prejuízo das partes.

O país começa a transformar o seu património florestal numa fonte de financiamento climático. O país já arrecadou mais de seis milhões de dólares através do mercado de carbono, mas especialistas alertam que o potencial deste mecanismo continua condicionado pelo desmatamento, fiscalização deficiente e falta de investimentos de longo prazo.

O tema dominou o segundo e último dia do Fórum de Financiamento Climático, que decorreu em Maputo, onde foram igualmente discutidos mecanismos de finanças verdes e gestão sustentável das florestas.

Para os especialistas, um dos principais desafios está na necessidade de integrar os investimentos na agricultura e no sector florestal, de modo a reduzir a pressão sobre os recursos naturais.

“Há uma forte pressão sobre a exploração ilegal dos recursos naturais que existem. É preciso fazer um investimento mais sério, mas este investimento não é só em fiscalização. Tem que haver um processo. Temos que usar a abordagem que, no início dos anos 2000, se falava, fiscalização participativa e integrada com o maneio comunitário dos recursos naturais”, explicou Aristides Muhate, engenheiro florestal.

O especialista defende ainda que os investimentos devem ser contínuos e abranger também as comunidades que dependem directamente dos recursos naturais.
“O financiamento não pode ser aquele financiamento de entrar, entregar dinheiro e a pessoa foi. Tem que ser um financiamento em que financiamos actividades, tanto no sector da agricultura como no sector das florestas. Para o sector das florestas crescer, a agricultura tem que estar bem estruturada”, acrescentou.
Outro desafio apontado está relacionado com as práticas agrícolas, que contribuem para a pressão sobre as florestas. Muhate considera que a baixa utilização de tecnologias e a limitada assistência aos produtores dificultam a redução do desmatamento.

“A agricultura usa métodos não avançados. Usamos instrumentos simples, não investimos em adubar o terreno, não temos serviços de extensão que cubram todos os agricultores, não temos assistência técnica em sementes melhoradas e não temos tecnologia”, explicou.

O país enfrenta ainda o desafio de garantir que os projectos de carbono cumpram padrões internacionais de certificação. Para os especialistas, qualquer falha no processo pode comprometer a credibilidade dos créditos gerados.

“Cada falha nesse ciclo praticamente compromete todo o processo. Daí que é preciso estar totalmente alinhado com os procedimentos internacionalmente válidos e com os padrões que cumprem com esse processo de certificação”, alertou Luís Nhamuchua, especialista em mercado de carbono.
Nhamuchua defende, por isso, maior capacitação dos intervenientes nacionais para melhorar o domínio dos mecanismos internacionais e permitir a adaptação desses processos à realidade moçambicana.

Apesar dos desafios, o mercado de carbono já começa a gerar resultados financeiros para o país. Moçambique arrecadou mais de seis milhões de dólares numa operação de comercialização de créditos de carbono, experiência que, segundo o Governo, trouxe importantes lições para o desenvolvimento do sector.
“O país já teve um pagamento de seis milhões de dólares por essa operação. Foi um exercício desafiante e deixou-nos algumas lições. Nós não podemos, por um lado, transaccionar créditos de carbono porque conservamos a natureza e, do outro lado, estarmos a criar desmatamento”, explicou Albano Manjate, Director Nacional do Financiamento Climático.

Para o responsável, a preservação das florestas é essencial para garantir a credibilidade dos créditos de carbono e evitar que a degradação ambiental comprometa o valor económico deste mercado.

“Isso coloca em risco a própria credibilidade desses créditos de carbono e acaba por minar também o próprio preço”, acrescentou.
Além da comercialização de créditos de carbono, o Governo está a estudar outros mecanismos de financiamento, incluindo formas de conversão da dívida que possam contribuir para a conservação dos recursos naturais sem estimular o desmatamento.

Os debates terminaram com a criação de uma carteira nacional de projectos para a mobilização de financiamento climático. A iniciativa deverá servir de base para orientar a estratégia nacional de angariação de recursos e facilitar o acesso a financiamento para projectos ligados ao clima, às florestas e ao desenvolvimento sustentável.

O edil de Chibuto, Henriques Machava, anuncia novas intervenções para conter a erosão, que afecta seriamente 15 dos 22 bairros da cidade, e reafirma tolerância zero à corrupção, com quatro funcionários a responderem a processos disciplinares por alegados desvios, extorsão e cobranças ilícitas. As medidas surgem no contexto dos 55 anos de Chibuto, assinalados com a inauguração de infra-estruturas avaliadas em cerca de 27 milhões de meticais.

O combate à erosão e à corrupção está entre os principais desafios assumidos pelo Município de Chibuto, que assinala, esta quinta-feira, 55 anos de elevação à categoria de cidade. O edil Henriques Machava revela que quatro funcionários da autarquia respondem a processos disciplinares por alegadas práticas ilícitas.

Segundo Machava, os processos estão relacionados com alegados desvios, extorsão de cidadãos e cobranças ilícitas. O edil diz que a autarquia mantém uma política de tolerância zero à corrupção, embora não tenha revelado os sectores em que os funcionários trabalham nem avançado detalhes sobre os processos.

“Quatro colegas corruptos estão em processos porque não queremos isso.”

A erosão constitui outro dos principais problemas da cidade. Dos 22 bairros de Chibuto, 15 estão seriamente afectados pelo fenómeno, de acordo com o presidente do município.

“Dos 22 bairros da nossa cidade, diríamos que cerca de 15 são aqueles que são seriamente afectados pela erosão.”

Para enfrentar o problema, a edilidade prepara a construção de uma estrada resiliente de três quilómetros e a conclusão de 1,5 quilómetro da estrada Bobo Lelo–Samora Machel. Está igualmente assegurado o financiamento para um estudo internacional que deverá servir de base ao plano director de combate à erosão.

Machava explica que as intervenções exigem soluções técnicas adequadas às características das zonas afectadas, defendendo que o combate à erosão não se resume à abertura de valas ou à pavimentação convencional.

“Quando são obras de resiliência, por ser um local com uma característica específica de ocorrência grave de erosão, tem especificidades técnicas que precisam ser aprimoradas pelo estudo.”

No sector de abastecimento de água, o município está a executar 15 quilómetros de rede de distribuição, além de intervenções na captação, filtração e cloração, com o objectivo de melhorar a qualidade e ampliar o acesso ao recurso.

Actualmente, a cobertura de água potável em Chibuto é de 58%. Com as obras, a edilidade prevê elevar o nível de cobertura para entre 62% e 65%, estando a conclusão dos trabalhos prevista para Dezembro.

As celebrações dos 55 anos são igualmente marcadas pela inauguração de três infra-estruturas, avaliadas globalmente em cerca de 27 milhões de meticais.

Machava afirma que o município continua a intervir na melhoria das vias de acesso, limpeza e arborização da cidade, numa altura em que Chibuto procura recuperar dos efeitos das manifestações e das cheias registadas no início do ano.

“Chibuto é resiliente, precisa se reerguer, não pode estar a chorar toda hora.”

O edil considera positivo o ritmo de execução das promessas eleitorais e diz que o retorno dos munícipes tem sido favorável.

Quase quatro anos depois da demolição do edifício da Escola Primária e Completa Unidade 24, no bairro Maxaquene “A”, na cidade de Maputo, o local está abandonado, continua a albergar malfeitores e a acumular lixo. Os moradores do bairro ameaçam tomar o lugar para prática comercial.

Em Março de 2023 o Município de Maputo, em coordenação com a Direcção de Educação da Cidade, mandou demolir o edifício já degradado, onde funcionava a Escola Primária e Completa Unidade 24, no bairro Maxaquene “A”. A infra-estrutura servia de abrigo para marginais, que perpetravam assaltos na zona.

Quase quatro anos depois, o capim alto, montes de lixo e cheiro nauseabundo tornou-se a principal característica do local. Júlio Tsovo, morador do bairro é vizinho da antiga escola, queixa-se de sofrer directamente as consequências do abandono do espaço pelas autoridades.

“Não resolveu nada, passou a ser lixeira aqui. Por algum tempo tivemos uma empresa que recolhia o lixo, mas as pessoas já não têm dinheiro para pagar pelo serviço, por isso estamos assim. E como você vê, temos aqui esses bares, que no final das actividades jogam garrafas aqui. Qualquer bicho que morre, lançam aqui. Estamos a pedir socorro”.

Segundo os munícipes, o que parecia uma solução contra o crime, transformou-se numa incubadora de doenças.
“Estamos fartos de imundície. Para quem vive nos arredores deste local, sofre constantemente com moscas, sobretudo durante as refeições. Qualquer um que quiser despeja lixo aqui. Quando chove, a água transborda. Nós até não queríamos que a Unidade 24 morresse. Porque as escolas Unidade 10 e 25 estão operacionais, só a Unidade 24 é que está podre. Nós estudamos aqui. Então, nós gostaríamos de pedir a quem de direito para nos ajudar com essa situação”, desabafou Virginia José, que tem uma banca de venda de hortícolas, bem ao lado do espaço baldio.

Em 2024, a Direcção de Educação da Cidade garantiu já ter disponível, proveniente do Banco Mundial, mais de 160 milhões de Meticais para erguer uma nova infra-estrutura, neste espaço, com três pisos e 20 salas de aulas. No terreno não há indício de obras.
A comunidade sugere soluções próprias, para aproveitar o espaço.

“Nós vamos nos instalar aqui. Cada uma vai cortar o seu espaço para colocar sua banca, para evitar essas coisas de andar a encher de lixo. Vamos colocar nossas bancas, já que nós não temos mercado. Ou que construam a escola”, disse Anastância Macamo.
Próximo do local, há residências, lojas e barracas e bancas que comercializam todo o tipo de produtos, expostos às moscas e outros perigos.
A Direcção dos Serviço de Assuntos Sociais da Cidade de Maputo, responsável pela infra-estrutura prometeu dar detalhes sobre o projecto de construção da nova escola, nesta sexta-feira.

O Tribunal Judicial de Kamavota, na Cidade de Maputo, deu provimento a uma providência cautelar interposta por Helder Mendonça, membro co-fundador do PODEMOS, e determinou que os órgãos centrais do partido se abstenham de praticar actos relacionados com a gestão da organização, até à realização de eleições.

Mendonça recorreu ao tribunal para pedir a suspensão da direcção do PODEMOS, alegando que os órgãos do partido se encontram fora do período de mandato há cerca de dois anos.

De acordo com o despacho do Tribunal Judicial de Kamavota, datado de 29 de Setembro, o PODEMOS contestou o pedido, reconhecendo que os mandatos dos seus órgãos estão vencidos desde 2024. O partido argumentou, contudo, que essa situação não causa prejuízo ao Estado nem viola qualquer direito do membro queixoso.

Na sua contestação, o PODEMOS sustentou ainda que não existe um direito directamente ameaçado na esfera de Helder Mendonça que justifique a tutela judicial requerida.

Os argumentos não foram acolhidos pelo tribunal, que enumerou 14 elementos considerados na decisão. Entre eles, o despacho refere alegados problemas de gestão financeira, dificuldades de diálogo entre membros e a direcção do partido e queixas apresentadas por vários membros, incluindo processos judiciais.

O tribunal menciona ainda um processo cuja decisão, segundo o despacho, culminou no bloqueio de contas bancárias do PODEMOS, na sequência de alegada desobediência a uma decisão judicial.

Perante estes elementos, o Tribunal Judicial de Kamavota decidiu conceder provimento à providência cautelar e intimou o PODEMOS a abster-se de praticar actos relacionados com o partido, considerando que os seus órgãos centrais se encontram “manifestamente fora do mandato”.

Contactado pelo nosso jornal, o porta-voz do PODEMOS disse que a direcção do partido ainda avaliava a decisão e que aguardava autorização para prestar declarações à imprensa. O partido pondera recorrer da decisão.

Helder Mendonça, por sua vez, informou que se pronunciará oportunamente.

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