Por: Sérgio Raimundo, Escritor
Estava ali sentado, o senhor Daniel David, para falar do seu livro. Minto: ao seu lado, com uma calva bem brilhante, estava um outro senhor que falou do livro “Zona do Impossível”. Daniel David, de perna cruzada, com grossas lentes que filtravam o seu olhar tão cheio de sossego e histórias, ouvia tudo o que se dizia sobre o seu filho: afinal, um homem só fica grávido uma vez na vida: quando lança um livro.
Mas o livro é algo que se compra, que se estende nas prateleiras cheias de poeira e coleiras de preços nas livrarias; algo que se lê, que se guarda, onde se marca a página onde se está a mergulhar com as barbatanas dos olhos. Por isso, qualquer um podia, a qualquer momento, entrar naquela sala, comprar o livro e evaporar-se pela chaminé das escadas da Óbidos House Chocolate.

No entanto, fora do livro, havia um outro livro naquela tarde! Havia uma espécie de extensão da obra que se apresentava: a vida de Daniel David contada na primeira pessoa, numa voz serena que dinamitava de emoção toda a chusma de rostos que estavam a ouvir.
Se calhar foi uma pequena vingança! Se calhar, DD queria que sentíssemos na pele tudo o que ele sentiu durante doze meses no subsolo da África do Sul. Não nos preparou, não nos deu o equipamento de protecção nem as lanternas: apenas nos puxou pela corda da sua voz e meteu-nos nessas minas longínquas de Buffelsfontein.
Ouvir Daniel David a descer às minas da memória, o lado escuro dessas minas, e ele ali, bem sereno, a iluminar tudo, foi belíssimo demais. Creio que foi a primeira vez que uma multidão de gente, fora da África do Sul, desceu às minas, bem tarde, eram 17h, sem esperar pelo patrão branco! E acho que nos portamos bem, apesar da poeira da emoção que quase nos fazia explodir as minas de lágrimas! O patrão branco não estava ali!

Ler, naquela tarde, excertos do livro “Zona do Impossível” foi como tocar os instrumentos de uma banda; e a voz de Daniel David, ao falar da sua Matola, das suas cartas de amor com tatuagens de Roberto Carlos, era ouvir o vocalista no meio daquilo tudo.
Estaria a ser parvo se me não recordasse de uma senhora de Quelimane que estava ao meu lado, metida numa enorme engenharia de usar as pálpebras como pequenas gruas para depositar as lágrimas que não queria tirar. A senhora ao meu lado, de guedelha, tinha duas gotas enormes no lugar dos olhos. E havia um senhor, bem nas primeiras cadeiras, que vi depois do evento com a camisa sem mangas: todas elas tinham sido usadas para estancar o choro de admiração.
Apresentou-se um livro, mas depois disso houve uma outra coisa: um tal de Daniel David que invadiu as páginas do nosso silêncio para escrever um outro livro em nós: o livro da superação, da coragem elegante em todos os momentos e de saber fazer sempre o melhor em todos os piores momentos.

Era o dia de Moçambique no Fólio, mas, naquela tarde, parece que Moçambique se levantou, arrumou as suas trouxas, saiu da sala e deixou o dia inteiro para Daniel David. Se calhar, Moçambique escondeu-se numa zona impossível para não se comover, nem dobrar a coluna diante do passado e entrar nas minas da África do Sul.
Quando tudo terminou, houve uma chuva de palmas, mas, no fundo, era um jorro colectivo que dizia: “queremos mais, mais e mais”. Foi prazeroso demais ouvir aquele homem que tantas vezes passou por mim na redacção da Soico: sempre apressado, sempre ao telemóvel, mas nunca sem o “bom dia” e a pergunta de sempre, que tirava de uma zona impossível da sua ocupação, mesmo com o ar esbaforido de tarefas: “está tudo a correr bem?”.