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O País – A verdade como notícia

Zona do Impossível

Por: Aniceto Manhique, apresentador do livro em Óbidos, Portugal

 

Uma mina é uma ferida aberta na terra.

Por ela descem homens à procura de riqueza.

Levam consigo a força dos braços, a necessidade das famílias e a esperança de regressar.

Daniel David desceu por uma dessas feridas.

Levava pouco mais de vinte anos.

Levava saudades.

Levava uma vida inteira que ainda não sabia escrever.

E trazia no pulso uma inscrição:

BF 210196.

Gostaria que, por instantes, deixássemos este número pousado entre nós.

Aqui, nesta sala.

Nesta vila onde hoje nos reunimos para celebrar a palavra.

Gostaria que o olhássemos com a demora com que se olha uma fotografia antiga, procurando reconhecer o rosto que o tempo quase apagou.

BF 210196.

Era a identificação atribuída a um jovem moçambicano nas minas de ouro da África do Sul.

Se a terra desabasse, aquele número permitiria reconhecer o seu corpo.

O corpo tinha um nome.

Tinha memórias.

Tinha uma mãe cujo esforço lhe habitava a consciência.

Tinha uma mulher à sua espera, do outro lado da distância.

Tinha um mundo por acontecer.

É a esse homem, ainda envolto na poeira subterrânea do seu princípio, que este livro nos conduz.

Caros amigos,

Meu caro Daniel David,

Minhas senhoras e meus senhores,

Tenho a honra de apresentar Zona do Impossível, autobiografia de Daniel David, fundador e Presidente do Conselho de Administração do Grupo SOICO.

Publicada pela Buzz Editora, com prefácio de Flávio Augusto, a obra percorre, em dezassete capítulos, uma vida atravessada pelo trabalho, pela fé, pelo amor, pela inconformidade e pela construção de um lugar no mundo.

Conheço o autor há muitos anos.

Partilho com ele lugares de trabalho, conversas, inquietações e esse território da amizade onde a confiança permite pensar em voz alta.

Ainda assim, a leitura trouxe-me uma descoberta.

Há sempre uma parte da vida de alguém que a convivência quotidiana deixa em silêncio.

Vemos a pessoa chegar.

Ouvimos a sua decisão.

Conhecemos a intensidade com que defende uma ideia.

Mas raramente estamos diante do caminho inteiro que a trouxe até nós.

Este livro abre-nos essa passagem.

Permite que a presença de hoje converse com as ausências de ontem.

Que a palavra pública encontre o medo íntimo.

Que o homem conhecido nos apresente o jovem que, debaixo da terra, procurava compreender o seu destino.

Quando li o manuscrito, escrevi ao Daniel.

Pensei em começar por uma análise ordenada, capítulo a capítulo.

Mas havia sentimentos a pedir outra cadência.

Disse-lhe, então, que procuraria trazer uma mensagem com “ritmo e rítmica emergente do coração”.

Hoje, em Óbidos, volto a esse lugar.

O lugar de onde escrevo quando as palavras precisam de atravessar primeiro a vida.

O lugar das nossas gentes.

Da terra que nos sabe de cor.

Das vozes que continuam em nós, mesmo quando a distância lhes torna o rosto menos nítido.

É desse lugar que vos falo.

 

Há uma cena deste livro que gostaria de demorar.

O Daniel regressa das minas.

Traz os bens que conseguiu comprar com o dinheiro do seu trabalho.

Imagino o cuidado com que terá olhado para cada objecto.

Cada coisa adquirida guardava uma parcela do tempo que passara longe.

Uma madrugada.

Um dia de calor.

Uma saudade contida.

O regresso torna-se reencontro.

Os irmãos aproximam-se.

Há braços que o recebem.

Há a alegria desordenada das famílias quando alguém volta.

Nesse momento, o motorista parte com a carrinha e leva os bens.

Tudo desaparece.

Fica-lhe a roupa que trazia no corpo.

Mais tarde, Daniel conta à Hélia o que aconteceu.

Receava a incompreensão.

Receava que as mãos vazias trouxessem uma sombra sobre o futuro dos dois.

A Hélia escuta.

E diz:

“Não se perdeu nada. Se estás aqui, então não se perdeu nada.”

 

Há palavras que fazem o trabalho de uma casa.

Acolhem.

Resguardam.

Devolvem-nos a possibilidade de pousar o peso.

Aquela frase tem, para mim, essa consistência.

Nela, Hélia reconhece o homem que regressou.

Reconhece o que continuava vivo e capaz de criar.

Reconhece um futuro que a perda dos bens não tinha encerrado.

O amor, naquele instante, teve a lucidez de olhar para além do desastre.

E o Daniel recebeu desse olhar uma medida da sua própria riqueza.

Penso muitas vezes na delicadeza exigente de um gesto assim.

Ver alguém na sua inteireza, justamente quando essa pessoa se sente diminuída.

Dizer-lhe: continuas aqui.

Podemos continuar.

A Hélia tem esse lugar na obra.

Uma presença que sustenta.

Um amor que participa na arquitectura da vida.

O autor chama inconformidade à força que o impele.

Encontramo-la na infância, diante do trabalho dos pais e da escassez.

Encontramo-la no desejo de procurar outras possibilidades.

Encontramo-la quando regressa, recomeça e aceita trabalhar numa caixa de restaurante.

Depois, à porta da televisão.

Depois, já lá dentro, nas tarefas que assume, no que observa e no que aprende.

A narrativa deixa-nos acompanhar essa formação.

O conhecimento ganha espessura.

As relações ganham confiança.

As referências alargam-se.

E o futuro, que antes mal cabia no horizonte, começa a adquirir contornos.

Há uma passagem profundamente humana nesse processo.

A pessoa aprende algo.

Esse conhecimento permite-lhe ver uma possibilidade.

A possibilidade exige coragem.

A coragem põe-na diante de uma tarefa para a qual terá de aprender mais.

Assim se faz parte desta caminhada.

Com a incompletude de quem avança.

Com a disciplina de quem procura estar à altura do passo seguinte.

Quando nasce a intenção de criar uma televisão, o sonho já transportava experiência.

Mas precisava de chão.

Precisava de licença, equipamentos, financiamento e conteúdos.

Precisava de chegar às casas.

De conquistar a atenção de famílias que tinham os seus hábitos e as suas escolhas.

O livro mostra-nos essa construção por dentro.

As portas a que o Daniel bate.

As soluções que procura.

A confiança que recebe.

A necessidade de adaptar o caminho à realidade.

A STV, a rádio SFM e o jornal O País passam, entretanto, a fazer parte da vida de muitas pessoas.

A história individual abre-se à história colectiva.

O bairro chega ao ecrã.

A estrada interrompida ganha imagem.

A falta de água encontra uma voz.

Uma inquietação até então circunscrita à conversa entre vizinhos passa a ocupar espaço público.

É aqui que o número do início volta a interpelar-me.

O jovem que conheceu a violência de ser tratado como uma unidade de trabalho ajuda a construir meios onde outras vidas podem ganhar rosto e expressão.

“Onde a gente se vê.”

Há uma promessa humana nessa frase.

A promessa do reconhecimento e do valor.

O sentimento de que o nosso lugar, por pequeno que pareça na geografia do mundo, merece ser visto.

 

Da comunicação ao debate de ideias com o MOZEFO, da inovação do MOZTECH ao regresso ao solo com o MOZGROW e, hoje, ao ecossistema Makagui, a inquietação do Daniel continuou a procurar espaço.

E a terra regressa aqui com uma ressonância particular.

A terra do sustento.

Das mãos que plantam.

Da espera pelas chuvas.

Das famílias que reconhecem no amadurecimento de um fruto o resultado de uma estação inteira de cuidado.

Nos meus escritos, regresso muitas vezes à terra.

À Manhiça.

Às mangueiras.

Às gentes cuja presença nos antecede e continua a alimentar aquilo que somos.

Por isso, leio com especial atenção esta passagem entre a origem e a possibilidade de futuro.

O desenvolvimento ganha sentido quando encontra a vida concreta das pessoas.

Quando a oportunidade chega a quem pode transformá-la em trabalho, rendimento e dignidade.

A palavra Ubuntu ajuda-nos a compreender esta dimensão da obra.

Há vidas dentro da nossa vida.

Há pessoas em cada coisa que conseguimos construir.

Há quem nos ensine.

Há quem nos ofereça uma oportunidade.

Há quem nos contrarie com uma honestidade de que precisávamos.

Há quem permaneça.

O Daniel fala dessas relações e da responsabilidade de as cultivar.

E, ao lê-lo, penso naquilo que a minha própria escrita procura tantas vezes alcançar: o encontro.

O encontro que a distância adia.

O encontro que uma palavra restitui.

O encontro onde reconhecemos que uma parte de nós se fez com os outros.

Para compreender esta obra, precisamos ainda de nos aproximar da fé e da vulnerabilidade do autor.

Deus tem uma presença profunda na maneira como o Daniel interpreta a sua caminhada.

É nessa relação que encontra amparo para atravessar o que desconhece.

Mas o Daniel conta também que chorou.

Reconhece medo.

Fala de perdas, de projectos que falharam e de decisões cujas consequências teve de enfrentar.

Essas páginas dão à narrativa uma humanidade que a aproxima da nossa.

Meu caro Daniel,

Escrevi-te um dia sobre a amizade.

Sobre os amigos que nos compõem.

Os que nos completam.

Os que divergem.

Os que discordam.

Os que equilibram.

É com essa amizade que hoje te apresento.

Uma amizade com memória.

Com lugares.

Com conversas que o tempo foi sedimentando.

E com liberdade para continuar a pensar contigo.

Ao ler o teu livro, encontrei uma vida em movimento.

Encontrei a intensidade que reconheço.

Encontrei também o jovem que precisava de regressar a casa e o homem que aprendeu, com uma frase da Hélia, que trazia consigo o essencial para recomeçar.

É esse encontro que hoje partilho com esta sala.

Minhas senhoras e meus senhores,

Trouxemos a Óbidos uma história de Moçambique.

Uma história que atravessa fronteiras, desce ao subterrâneo, regressa à família e se alarga à vida pública de um país.

Cada leitor levará consigo uma parte diferente desta travessia.

 

No início, pedi-vos que deixássemos um número pousado entre nós.

BF 210196.

Podemos agora regressar a ele.

A pulseira identificava um corpo que descia à mina.

Este livro permite-nos conhecer a vida que aquele corpo transportava.

As pessoas que amava.

O que temia.

O que aprendeu.

O que procurou construir.

E as perguntas que continua a fazer.

Meu caro Daniel,

Entre aquele subterrâneo e esta sala, há uma longa viagem.

Há estações de dor.

Há encontros que se fizeram abrigo.

Há trabalho que ganhou forma.

Há uma história que hoje nos confias.

Recebe o abraço das nossas gentes.

Um abraço com a força dos nossos lugares.

Com a memória da terra.

Com a profundidade da amizade que continua.

E recebe esta palavra, que agora te devolvo:

Daniel.

O teu nome.

A tua presença.

A vida que vieste partilhar connosco

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