O País – A verdade como notícia

A ensaísta e professora Fátima Mendonça defendeu, esta quarta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, que Moçambique enfrenta um momento muito fértil na produção literária. Entretanto, é fundamental que os diferentes intervenientes invistam na internacionalização das obras dos autores poetas e escritores moçambicanos.

 

Entre 1977 e 2004, Fátima Mendonça leccionou na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Durante 27 anos, deu aulas a uma geração de ensaístas, escritores ou professores que, actualmente, são referências em Moçambique e no estrangeiro. Por exemplo, Francisco Noa, Paulina Chiziane, Nataniel Ngomane, Aurélio Cuna, Sara Jona Laisse e Aissa Mithá Issak. Aliás, tem-se dito que Fátima Mendonça é a professora de todos, no que à literatura diz respeito, pois, logo a seguir a independência nacional, foi uma das principais estudiosas que se dedicou a analisar as obras dos escritores nacionais ou o movimento literário.

Actualmente, Fátima Mendonça vive em Portugal, mas, ainda assim, continua muito atenta ao que se tem produzido em Moçambique. Por isso mesmo, na segunda sessão do Mabulu – livros e histórias da minha vida, realizada esta quarta-feira, na Fundação Fernando leite Couto, em Maputo, a ensaísta e professora reformada pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM referiu-se abertamente às novas tendências literárias nacionais. Segundo disse Fátima Mendonça, o país enfrenta um momento muito fértil em termos de produção literária. Inclusive, com autores capazes de atrair interesses editoriais do estrangeiro, sobretudo do Brasil. “Eu não sou muito abundante em elogios, mas há, realmente, quer poetas, quer narradores, a surgirem agora, muito bons. Até me parece que são mais sensíveis em aperfeiçoar o que escrevem, em ser rigorosos e reescrever sem pressa de ter o texto pronto. Penso que daqui a uns 10 anos será possível ver o resultado deste movimento”.

No entendimento de Fátima Mendonça, o facto de haver movimentos dedicados à literatura em várias províncias do país favorece o surgimento de autores que se envolvem na dinamização da arte literária. No entanto, afirmou a ensaísta, apenas o momento fértil e a existência de bons movimentos não basta na colocação da literatura moçambicana num alto patamar. A acompanhar a qualidade literária, é indispensável a criação de revistas e páginas de jornais envolvidas na promoção e divulgação. Sem isso, há um vazio que fica. “Se ficamos só á espera das edições dos livros, fica um hiato entre o momento em que a pessoa começa a escrever e o momento em que realmente edita um livro. Esse hiato, quanto a mim, é preenchido pelas revistas. Os prémios também cumprem o seu papel, mas a divulgação tem de ser através da imprensa. E isso eu acho que falta, acho que falta espaço para divulgação”.

Além da divulgação interna, Fátima Mendonça referiu-se à importância da internacionalização das obras dos autores moçambicanos, o que depende da recepção, por exemplo, no país de chegada. “É preciso que aquilo que se exporta tenha uma boa recepção. Varia muito. Há países que gostam de um certo exotismo e um livro que tenha essas características é bem recebido”.

Ainda no campo da internacionalização literária, Fátima Mendonça destacou a importância das feiras do livro porque, além do intercâmbio artístico e cultural, é nelas que se conseguem contratos para edição e tradução.

Além de leccionar na UEM, Fátima Mendonça trabalhou em várias outras universidades. Por exemplo, no Zimbabwe, na África do Sul, na Rússia, em França, em Espanha, no Brasil e em Portugal. Como ensaísta, publicou Literatura moçambicana – as dobras da escrita (2012), Rui de Noronha: meus versos (2006), Antologia da nova poesia moçambicana (co-autoria, 1993), Literatura moçambicana – a história e as escritas (1989), co-organizou a edição da obra Sangue negro, de Noémia de Sousa, o livro póstumo Poemas eróticos, de José Craveirinha, e é co-autora de João Albasini e as luzes de Nwandzengele (2014). Em 2016, foi laureada com o Prémio de Literatura José Craveirinha, o mais importante do país.

 

Vários músicos presentes na cerimônia fúnebre do rapper moçambicano, Azagaia, falaram dos feitos marcantes do artista cujas composições impactaram  a sociedade.

MC K – Rapper: A minha reacção foi de choque porque Azagaia tinha que estar aqui em Angola neste  mês de Março e não foi possível. Nós tínhamos um conjunto de projecto em carteira para fazer numa trindade entre Mc K, Azagaia e Valete e infelizmente Azagaia foi-se sem possibilidade de dizer adeus, sem possibilidade de concluir aquilo que eram os nossos projectos, portanto é uma situação de choque, continuamos chocados. Desde já, estendo a minha solidariedade ao povo irmão de Moçambique,  é uma perda  generalizada, é uma perda de Angola, é uma perda do continente, é uma perda da língua portuguesa. Azagaia era um dos maiores representantes do português. Eu conheci Azagaia em 2007 num festival em que celebravamos a língua portuguesa na cidade de Porto, em Portugal. Na altura, estava com o álbum Babalaze e nós participámos no festival do Porto.

WAZIMBO – Músico: São lágrimas apenas, mas com esperança de continuar a luta de Azagaia; afinal de contas, foi a luta de todos nós, então, para nós que ficamos, o dever e a obrigação que temos é continuar esta luta.

KALIZA – Músico – Acredito que, como ele mesmo disse nas entrevistas, dava entender que era uma pessoa com consciência muito elevada, sabia que a morte era uma coisa que todos nós pudemos provar e, por isso, ele vivia intensamente e deixou ficar as suas obras.

DIKEY – Músico: Homens iguais a Azagaia, que fazem diferença, que nos impulsionam, que muitas vezes abrem as nossas mentes… são raros.

BEAT KEEPA – DJ: A mensagem está lá, registada; cabe a nós, jovens, pegar essas mensagens para unir o povo e encontrarmos consensos e, em função disso, lutarmos por um Moçambique melhor.

ELÍSIO DE SOUSA – Jurista: Moçambique perde uma figura que tinha um grande impacto social, uma figura que definia outra perspectiva da juventude, muito querido, corajoso, intelectualmente preparado.

 

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS – Académico: O povo não está no poder, nem em nenhuma parte, é aquilo que eu conheço, mas não devemos desistir dessa luta e essa luta é de sempre. É uma luta dos pobres oprimidos, dos pobres explorados em toda parte e ela deve ser continuada. E é um indicador realmente capaz de trazer toda essa mensagem de maneira dinamizada e que mostra hoje esse funeral de maneira que mobilizava. Sinto-me bastante feliz dentro desta mágoa, feliz de poder ver as imagens que mostram muito bem a gratidão dos jovens moçambicanos que foram tocados pela mensagem de Azagaia. Eu creio que os políticos devem olhar para isso, ver que está aqui também uma manifestação de protesto contra injustiças e problemas que não foram resolvidos

ALLAN – Rapper: É a última homenagem ao líder a nível de hip-hop moçambicano.

 

Quando a notícia sobre a morte de Azagaia começou a circular, no princípio da noite de 9 de Março, houve uma série de especulações sobre o que teria causado essa fatalidade. O rapper tinha apenas 38 anos de idade e, aparentemente, gozava de boa saúde. Entre as causas da morte, a mais repetida foi: “Azagaia caiu do tecto da sua casa enquanto se encontrava a fazer trabalhos domésticos”. Ainda assim, essa tese não foi de todo “convincente” porque, na cabeça de muitos, não fazia sentido que aquele homem com vigor tivesse como causa da morte um episódio tão banal. Mas não. O rapper não caiu de nenhum tecto de casa. No dia 9 de Março, Azagaia teve uma crise de epilepsia. No quarto, onde se encontrava sozinho, sem apoio atempado, o artista caiu e sucumbiu até ao fim e, quando lá foi encontrado, já era tarde demais.

Azagaia sofria de crises epilépticas há anos. E teve várias quedas. Por isso mesmo, o rapper decidiu fazer um exame e ficou a saber que sofria de um tumor no cérebro. O preço para a operação na Índia era alto ou, pelo menos, o rapper não tinha o dinheiro que se exigia. Preço alto é relativo. Logo, familiares, amigos e admiradores juntaram-se a uma campanha de angariação de fundos por Azagaia. Em pouco tempo, o rapper consegui o valor necessário e a cirurgia foi um sucesso. Ainda assim, e mesmo estando a cumprir com a medicação clínica prescrita, continuou a ter ataques epilépticos, já que a medicação não cura, mas pode ajudar a controlar a doença.

O representante da família Da Luz, Jorge Rungo, no velório, falou de tudo isso e ainda acrescentou que Azagaia continuou a cair em locais diversos, incluindo nos estúdios, a gravar. Então, quando a crise chegou, na passada quinta-feira, o corpo de Azagaia não resistiu e, sem sequer contemplar a sua esposa e as suas princesinhas pela última vez, partiu, deixando para trás uma sociedade em choque e admirada.

Azagaia, em diferentes ocasiões, referiu-se à morte nas suas composições ou em entrevistas. Aos próximos e admiradores, inclusive, disse que, quando morresse, independentemente da causa, que os seus não chorassem, que fossem fortes e continuassem com a luta… Houve, de facto, essa tentativa de conter a dor e a angústia. Quando a urna saiu da morgue do Hospital Central de Maputo, a transmissão televisiva não conseguiu vislumbrar nenhum rosto definitivamente consternado. O cenário mudou logo à chega da viatura da agência funerária à Praça da Independência, espaço que condiz tanto com a luta do rapper pela liberdade. Ali, onde há 36 anos foi velado um dos seus ícones preferidos, Samora Machel, sim, as lágrimas mostraram aos homens e mulheres quem manda sempre que a dor chega.

A urna chegou à Praça da Independência por volta das 7 horas. Bastaram alguns passos até a urna ser colocada no lugar destinado ao velório. De forma ordeira, os cidadãos anónimos e figuras conhecidas foram, numa enorme fila, ao Paços do Município de Maputo. Ali viram um dos “reis” do Hip-Hop, que viveu na vertical, na horizontal.

A igreja também lá esteve. Dom Dinis Sengulane orientou a missa do corpo presente. E não foi por acaso, afinal, o Bispo Emérito da Diocese dos Libombos foi quem baptizou o menino Edson, que, esta terça-feira, não viu a luz do dia. Apagou-se uma luz na família Da Luz. Rigorosamente, o membro da família que, nos encontros familiares, sempre gostou de declamar ou de falar aquilo que os seus irmãos até tinha receio de dizer. Sempre foi corajoso, sempre venceu o medo, a vergonha. Foi assim em casa, foi assim na rua, foi assim na sala de aulas, foi assim nas entrevistas, foi assim a compor e a cantar, sobretudo a compor e cantar. Também por isso, enquanto decorria a missa do corpo presente, as multidões continuaram a chegar à Praça da Independência. O facto de a cerimónia estar a decorrer num meio de semana não atrapalhou em nada. Milhares de pessoas estiveram naquela praça a acompanhar a sessão fúnebre em telas gigantes. Inclusive, quando alguma intervenção no Paços do Município de Maputo assim o justificasse, lá reagiam com estrondo. Foi arrepiante! Pelo menos, durante o velório, o povo lá presente esteve no poder, desconstruindo aquela velha frase de John Lé Carré, em O fiel jardineiro: “Esta é uma terra de subentendidos. Falar claramente é uma coisa de pecadores”.

O povo não esteve nada subentendido. Claramente e incondicionalmente, cantou “Povo no poder” com os punhos no ar e não pecou. Quase ensurdecedor. Por isso, várias vezes, Hélder Leonel, o mestre-de-cerimónias que também se confunde com o Hip-Hop moçambicano, teve de pedir para as pessoas estarem mais quietas. Obedeceram, quando puderam, mas sempre se manifestaram num ambiente que, na verdade, ajudou a colorir a sessão. Aquilo pareceu mais um comício à moda antiga do que um velório: Full de gente, full de emoções, full de sentimentos e solidariedade. Com uma diferença: os viva, viva, foram substituídos por “Povo no poder”.

No exterior e no interior do Paços do Município de Maputo, Azagaia foi também recordado como um “homem bomba”, pelo amigo Nandele, em referência a um título da música do rapper; foi recordado como a voz dos oprimidos, pelos amigos Izlo H e Iveth; foi recordado como um artista que soube fiscalizar os políticos, por Adriano Nuvunga, representante da Sociedade Civil; foi recordado como um homem que contribuiu imenso pelas artes e cultura moçambicanas, pela Ministra da Cultura e Turismo. Foi mais ou menos a essa altura que entre o público ouviu-se algumas pessoas a perguntarem umas as outras se o Presidente iria ao Paços para intervir ou não. Interveio a Ministra em nome do Governo.

No velório, os pais de Azagaia não falaram. Os irmãos, Fernanda, Hélder e Jéssica, sim, falaram numa só voz, ora enaltecendo a coragem do rapper, ora expressando o amor incondicional por ele.  Mas um dos momentos mais emocionantes do velório do rapper foi quando as duas filhas leram a mensagem fúnebre. Muthema e Winile referiram-se ao pai como um acto de fé. Agradeceram os ensinamentos, a atenção e a educação como filhas disciplinadas e tementes a Deus.

Entre o amor confesso a Azagaia e as lágrimas de saudade, Rodhália Silvestre, que recentemente teve Azagaia como convidado a um concerto no Franco-Moçambicano, interpretou um número em homenagem ao rapper. A cantora disse, a certa altura, Hifambile ndota, do ronga, o varão foi-se embora.

À saída da urna do Paços do Município de Maputo, as pessoas continuavam a chegar à Praça da Independência. Todos quiseram despedir-se, e, permanentemente, o cortejo fúnebre teve de percorrer as avenidas rumo ao Cemitério de Michafutene vagarosamente. Pelo percurso, tal como no início do velório, as pessoas cantaram “Povo no poder”. Os que não puderam cantar por se encontrarem no trabalho, espreitaram pelas janelas dos prédios ou de onde foi possível.

O trânsito esteve inoperante. E as coisas complicaram-se ainda quando, nas proximidades do Ministério da Defesa e da Ponta Vermelha, a polícia apareceu com armas em punho a proibir a passagem do cortejo fúnebre. A viúva de Azagaia, Rosa, não se conteve. Saiu da viatura em que seguia e perguntou à polícia: “Que mal vos fiz, que mal voz fiz? Deixe-nos passar”. E viatura funerária passou. O povo, que deixara de estar no poder com a pressão do gás lacrimogéneo, teve de escolher outro caminho para chegar ao Cemitério de Michafutene, na Província de Maputo. Atrasados. Pelas enchentes nas ruas, a urna apenas chegou uma hora depois do previsto. O corpo de Azagaia foi sepultado por volta das 15 horas. Assim, desde 14 de Março de 2023, no Michafutene, descansa “o eterno vencedor das causas perdidas”.

A Polícia impediu a passagem do cortejo fúnebre de Azagaia pela rua Engenheiro Alcântara Santos, que passa pelo Ministério da Defesa e dá acesso à avenida Julius Nyerere, nas proximidades da Ponta Vermelha. Para dispersar as pessoas, usou gás lacrimogénio.

O cortejo fúnebre de Azagaia seguiu sem sobressaltos desde o Paços do Conselho Municipal de Maputo até à Praça Robert Mugabe. Chegados a este local, uma iniciou uma confusão…

É que as Forças de Defesa e Segurança posicionaram-se no princípio da Rua Engenheiro Alcântara Santos para impedir a continuidade do cortejo. Trata-se de uma via que dá acesso à Avenida Julius Nyerere.

Homens com armas em punho e carros blindados pararam em frente à viatura transportando a urna, impedindo assim a passagem da multidão.

Como quem diz que está em paz, as pessoas que acompanhavam a urna colocaram as mãos no ar, mas ainda assim a Polícia não quis ceder.

Momentos depois, os ânimos da população exaltaram-se e a Polícia usou gás lacrimogênio para dispersar as pessoas.

Ninguém sabia o motivo da proibição da passagem do cortejo fúnebre por aquela via. “Nós só queríamos passar. A estrada é do povo. Não percebo porquê somos impedidos”, protestou um dos fãs que acompanhava o cortejo.

E a população foi, mesmo, impedida de passar.

De acordo com o Comando-geral da PRM, o objectivo da presença policial não era proibir a continuidade do cortejo fúnebre, mas garantir que decorreu sem sobressaltos.

Minutos depois, só o carro contendo a urna de Azagaia é que seguiu a marcha. Para tal, a viúva teve que suplicar. “O que eu vos fiz? Que mal vos fiz? Eu só quero enterrar o meu marido, por favor. Controlem a população, mas deixem-nos passar. Porquê não podemos passar? Deixem-me enterrar o meu marido com dignidade”, suplicou Rosa da Luz, viúva da Azagaia.

“O País” soube que a organização do cortejo fúnebre não solicitou escolta policial na expectativa de que seria uma cerimónia normal.

Diante da interdição, a população foi obrigada a voltar e a seguir outro trajecto, e interpelou a urna mais afrente e o cortejo fúnebre seguiu.

Já iniciou o velório público do músico Edson da Luz ou simplesmente Azagaia, no Paços do Município de Maputo.

Familiares, amigos, admiradores e curiosos velam o corpo do artista que se encontra em câmara ardente.

A urna contendo os restos mortais do rapper deixou a morgue do Hospital Central de Maputo em direcção ao Paços do Município de Maputo às 6 horas e 35 minutos.

A cerimónia religiosa está prevista para arrancar às 8 horas.

Além da liturgia, a cerimónia vai ser marcada por leitura de mensagens de condolências.

A cerimónia religiosa arrancou às 8h37 e foi orientada por Dom Dinis Sengulane, que revelou que foi quem baptizou Edson da Luz.

Nas mensagens, Azagaia foi lembrado como uma lenda, por isso mesmo nunca morrerá. Pelos colegas de trabalho, foi descrito como alguém que teve um grande papel nas suas vidas.

Para o Governo, representado pela ministra da Cultura e Turismo, Azagaia deu um grande contributo pelas artes e cultura nacionais.

Azagaia sobreviveu a uma das suas grandes batalhas, a cirurgia a um tumor, na Índia. Mas, no passado dia 9 de Março, não resistiu a um ataque de epilepsia, em sua casa, segundo explicou o seu tio.

Um dos momentos mais emocionantes do velório do rapper foi quando as duas filhas leram a mensagem fúnebre. Muthema e Winnie lembraram o pai como acto de fé.

Entre lágrimas e saudade, Rodhália Silvestre interpretou um número em homenagem ao rapper. E o resto foi a emoção que cada um expressou ou conteve.

Na parte exterior do Paços, foram montadas telas gigantes para que quem se aproximasse à Praça da Independência pudesse acompanhar a cerimónia que decorria no salão nobre do Município de Maputo.

Enquanto decorria a cerimónia, do lado de fora, ouviam-se músicas de Azagaia cantadas por amigos, fãs, seguidores e curiosos.

Finda a missa a urna contendo os restos mortais de Azagaia segue para o cemitério de Michafutene. O cortejo fúnebre vai passar pela Estrada Nacional Número 1.

Os restos mortais do músico vão hoje  a enterrar no cemitério de Michafutene.

O académico Filimone Meigos defende a necessidade de estudar o conteúdo das músicas do rapper Azagaia, a olhar para a capacidade do músico de abordar assuntos de cidadania, governação e neocolonialismo. As letras do rapper levam a uma reflexão crítica sobre a realidade sociopolítica e económica do país. 

Ainda em vida, a crítica social em Azagaia, já despertava apetite da academia, no país e na diáspora. Com a sua morte, ganha ênfase a ideia de estudar as obras do renomado rapper moçambicano.

O académico Filimone Meigos é dos defensores da necessidade de estudar o conteúdo das músicas de Azagaia, a olhar para a capacidade do músico de abordar assuntos de cidadania, governação e neocolonialismo com recursos a figura mítica, de Samora Machel, para uma reflexão crítica sobre a realidade sociopolítica e económica do país.

Meigos explica que “Azagaia nasceu dois anos antes de Samora Machel falecer, e ele vai pegar nessa figura mítica para falar da precariedade e da incapacidade de gerir toda essa condição colonial que de alguma maneira perpassa os tempos e hoje convivemos com ela”.

Meigos encontra, nos títulos dos álbuns Cubaliwa, As mentiras da verdade e Babalaze, um chamamento para estudar, em conteúdo e forma, as obras. “Se compararmos com outras formas de música, mais de diálogo, mais polifónico e com diferentes instrumentos, podemos dizer que Azagaia tem, na música, dois tempos, dois acordes, cujo conteúdo supera essa pobreza de polirritmia, mas, de certa maneira, ele conseguiu ser contundente e apelar à cidadania.”

O rapper perdeu a vida aos 38 anos de idade, o que para muitos é entendido como morte precoce e, o académico vai ao encontro desse pensamento para argumentar que o artista conseguiu ser atrevido e corajoso para a idade que tinha, ao pegar “toda a problemática e criticar um certo modelo socioeconómico e político vigente que ele aflora e muito bem. Quando ele pega esse discurso que a gente da faixa dele e gente até da minha faixa que vivenciou o tempo de Samora Machel vai entender isso como o repescar de uma realidade que combate à corrupção, à precariedade e que apela para a solidariedade social e para a cidadania, no sentido de agir para melhorar a pátria.”

Aliás, o académico, que falava no programa Noite Informativa, da Stv, considera que o rapper não é o único que merece ser estudado pela academia, entretanto reconhece haver um motivo adicional para a força de Azagaia, em alusão à narrativa sobre as coisas do dia-a-dia que apoquentam os moçambicanos.

É necessário “contextualizar o rapper Azagaia e compreendê-lo no contexto em que ele está inserido. A mim como interessado nas sociologias da arte, interessar-me-ia olhar para o discurso de Azagaia e criar índices, de áreas como economia e política. E isto pode fazer-se com vários artistas, a diferença de Azagaia é que ele foi assertivo ao buscar uma sombra, que é Samora Machel.

 

SEGUIDORES E ACTIVISTAS ANGOLANOS HOMENAGEIAM AZAGAIA

Seguidores e activistas sociais angolanos juntaram-se, na noite de sábado, para uma vigília em homenagem a Azagaia. Os actores consideram o rapper moçambicano uma figura que transcende as fronteiras moçambicanas e prometem continuar com a sua luta.

Calou-se a voz, mas a luta pelos direitos humanos que caracteriza Azagaia continua a ser replicada pela legião de fãs, em Moçambique e em vários pontos onde a sua mensagem encontrou terreno fértil para soar. Em Angola, Azagaia é lembrado e cantado.

Aliás, a cidade de Luanda foi palco da manifestação de uma dor ainda fresca do desaparecimento físico do ícone moçambicano, cuja trajectória artística é por muitos entendida como de coragem e defesa dos interesses do povo.

Em várias províncias, admiradores e activistas também se juntaram, na noite de sábado, para homenagear Edson da Luz.

Azagaia cantou sobre democracia, liberdades e conquistou admiração de vários povos falantes da língua portuguesa, e não só, daí que o descrevem como artista de várias nacionalidades.

O músico perdeu a vida na última quinta-feira, na sua residência, Província de Maputo.

As reacções sobre a morte de Azagaia continuam a vir de vários sectores sociais. Este sábado, o Presidente do MDM, Lutero Simango, disse que Azagaia despertou os moçambicanos para se comprometerem com o desenvolvimento do país. Já para o Secretário da UNITA, na capital angolana Luanda, a morte do rapper representa um retrocesso para as lutas de emancipação da consciência da juventude africana.

Lutero Simango começou por transmitir à família de Azagaia as sentidas condolências, reconhecendo em Azagaia as suas qualidades criativas na mobilização da consciência de todos, em particular da juventude, para que cada um tenha responsabilidades no desenvolvimento do país. “Azagaia, através das suas músicas, não só nos mobilizava, também nos libertava as almas e obrigava-nos várias vezes a repensar nas nossas responsabilidades, com o único objectivo de garantir o bem-estar do nosso povo”.

Assim sendo, para Lutero Simango, a perda de Azagaia não foi apenas para a sua família, foi para todos. “Em particular, para o nosso partido, MDM. Com ele, fizemos a campanha do ano 2009, na Província de Maputo. E também foi com Azagaia que conquistamos juntos a Cidade da Beira, através da sua cancão e do seu apelo ao voto ao saudoso presidente e, depois, ao Movimento Democrático de Moçambique”.

Para Simango, Azagaia é inspiração na mobilização do povo moçambicano para tomarem o poder.

Por sua vez, o Secretário da UNITA em Luanda, Nelito Ekuikui, primeiro, entende que Azagaia é um dos melhores da CPLP. Segundo, avança que o rapper “Representa um retrocesso para a emancipação da consciência da juventude africana. Azagaia foi o maior expoente da libertação da consciência dos povos oprimidos. Tal como ele sempre disse: povo no poder! Povo no poder significa ter um governo que olha para o povo e serve os interesses do povo. Com Azagaia, morre um bocado de nós, como africanos, e um bocado da nossa esperança. Mas, ao mesmo tempo, a sua morte responsabiliza-nos enquanto jovens da lusofonia e africanos para continuarmos com a luta”.

 

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos entende que Azagaia foi um sociólogo que soube interpretar ansiedades do povo moçambicano de forma crítica. Para o intelectual português e para o académico moçambicano Eduardo Lichuche, estudar as letras de Azagaia é fundamental porque permite compreender as angústias dos jovens.

 

O programa Noite Informativa da Stv Notícias desta sexta-feira debateu sobre o legado de Azagaia. A partir de Portugal, o sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, defendeu que Azagaia soube ser um pedagogo interventivo com a sua arte, tendo-se esmerado em mostrar que a sociedade moçambicana podia ser melhor, que os políticos podiam ser mais honestos e a sociedade mais equitativa e justa. “É isso que sempre admirei nele, soube ser um sociólogo do chão, digamos assim, sem desprimor para os sociólogos de Moçambique com os quais tenho trabalhado e que tenho grande admiração. Foi um homem que soube interpretar as ansiedades e um grande sociólogo crítico, o que traduziu em arte”.

Boaventura de Sousa Santos já se tinha referido à qualidade lírica e crítica das letras de Azagaia num vídeo que, recentemente, circulou bastante nas redes sociais. Também devido ao vídeo, quando o rapper moçambicano morreu, o sociólogo português recebeu condolências de pessoas de vários países. “Por causa desse vídeo, eu tenho recebido condolências de vários países porque sabiam a minha admiração por Azagaia. Grandes rappers do Brasil, nomeadamente, Emicida, Gog, que são grandes amigos meus, todos eles choraram a morte do Azagaia”.

Na percepção do sociólogo, o autor de Babalaze e Cubaliwa foi capaz de incentivar a sociedade civil moçambicana de modo a não aceitar imposições externas. Por exemplo, de instituições da Bretton Woods. “Ele era um educador. Eu penso que o que ele fez foi lutar para que a sociedade civil e os cidadãos não aceitassem uma série de imposições de instituições internacionais, o Banco Mundial e o FMI, porque fazem uma série de imposições que os governos aceitam facilmente. Isso cria uma grande revolta. E essa revolta está expressa nas letras maravilhosas do Azagaia”.

Na mesma edição do programa Noite Informativa, o Director da Escola de Comunicação e Artes (ECA – UEM), Eduardo Lichuche, disse que Azagaia foi uma figura plural, tendo sido um etnomusicólogo, um poeta, um sociólogo e até político, por aquilo que expressa nas suas mensagens e na forma como analisa a realidade social. Portanto, Eduardo Lichuche recomenda o estudo da obra do rapper. “A importância de pessoas como Azagaia é precisamente essa, fortalecer o nosso conhecimento sobre aquilo que acontece na nossa sociedade”.

Azagaia morreu quinta-feira, 9 de Março, e as cerimónias fúnebres, segundo fontes próximas à família, poderão acontecer terça-feira.

Uma das últimas pessoas que falou com Azagaia, quinta-feira, 9 de Março, foi Gina Pepa. Eram amigos desde os anos 90, eram amigos desde os tempos em que Dinastia Bantu e Rappers Unit faziam, de facto, parte do vocabulário da comunidade Hip-Hop em Moçambique.

A rapper encontra-se a finalizar o seu álbum de estreia, que terá como título Missão cumprida, mesmo a condizer com o percurso artístico do amigo. Para o álbum, Azagaia concedeu uma participação na música “Ironias da vida”. Gravada e acabada, a faixa musical deveria ter um vídeo-clip. Por isso mesmo, na quinta-feira, os dois amigos puseram-se a conversar sobre os pormenores necessários para as filmagens.

Como é habitual, no meio da conversa, Azagaia pôs-se a rir agradado em falar com a amiga para quem telefonou. Aliás, Gina Pepa pensa em Azagaia como um homem sorridente, divertido, de uma alegria contagiante. Portanto, quando falaram pela manhã de quinta-feira, interromperam a ligação porque cada um tinha de tocar o dia para frente.

Ainda assim, o rapper prometeu ligar novamente. O dia parecia longo. As horas passaram e Gina Pepa, ocupada com outros afazeres, só se lembrou de que Azagaia prometera ligar por volta das 19 horas, quando um certo jornalista a contacta a querer confirmar o que as redes sociais já tinham começado a divulgar. Aí, sim, Gina Pepa pressentiu que o seu amigo nunca mais voltaria a ligar. Então, tomou a iniciativa. Ligou ao celular que, do outro lado de Maputo, na Matola, chamou, mas ninguém atendeu. Ligou à esposa. Nada. A partir desse instante, as lágrimas da artista começaram a jorrar no seu rosto tão cheio de Hip-Hop. Mas ela precisava de uma confirmação. Percebendo, mas sem acreditar nas evidências, marcou no celular o número da irmã de Azagaia. Com ela finalmente conseguiu falar. A sentença final estava dada: Azagaia já não estava entre nós, afinal a sua missão na terra já estava cumprida. Quase como o álbum de Gina Pepa.

Inconformada com a morte do autor de Babalaze (2007), Cubaliwa (2013) e Só dever (2019), tanto quanto os seus admiradores, Gina Pepa pôs-se a pensar na amizade com o rapper de forma atabalhoada. A artista lembrou-se daquela voz vibrante, que cantou como ninguém; lembrou-se da sua frontalidade, sinceridade, inteligência e lealdade aos valores que defendia.

De nascimento Edson da Luz, 6 de Maio de 1984, Azagaia iluminou o raciocínio de muitos, intervindo, denunciando e criticando. Entre a música pimba, de fama fácil, Azagaia escolheu o mais difícil: estar do lado dos mais fracos, posicionando-se contra os políticos e os que têm força. Desse ponto de vista, Azagaia contrariou aquela ideia de um certo autor: “Beija a mão que não podes morder”. Azagaia mordeu essas mãos cheias de sangue e desordem. Picou e não soprou. De forma frontal, com recurso a uma composição contundente.

Desde os seus 20 anos de idade, Azagaia fez do RAP um fenómeno além da música. E essa vocação começou como que ocasionalmente. O rapper lança “As mentiras da verdade” e o tema logo se torna um hit. Na música, o artista convoca os moçambicanos a uma reflexão sobre a realidade social e política do país. Mexeu em temas considerados tabus e problematizou questões tornadas impronunciáveis, como o provável fim do primeiro Presidente da República, Samora Machel.

Depois de “As mentiras da verdade”, a forma de pensar a música mudou em Azagaia. No artista, fortaleceu-se um sentido de causa, de luta, de ideal e de compromisso com o seu povo. Talvez, por isso, o rapper se fez conhecido entre os moçambicanos, tornando-se, com cerca de 23 anos de idade, uma das figuras mais interventivas do país.

Azagaia ganhou respeito fazendo um ritmo que, para muitos, era de marginais. Fez-se ouvir e as pessoas passaram a prestar atenção nele, nas suas músicas, nas suas ideias e, consequentemente, no fenómeno Hip-Hop. Lírico e consciente. Com o microfone na mão, fez com que pessoas muito velhas do que ele passassem a apreciar o ritmo em poesia. Naturalmente, a sua música levou-o ao patamar dos “eternos”, dos que, com a música, encontram uma morada além da existência. Em Moçambique, na região, nos PALOP e na CPLP.

A importância de Azagaia consolidou-se com o lançamento do álbum Babalaze, em 2007, é certo. Nessa altura, granjeou tantas simpatias quanto inimizades. Com temas como “A marcha” e “Alternativos”, o álbum foi verdadeiramente bem recebido no país e Azagaia quase tornou-se uma legião. A certa altura da sua carreira musical, passou a fazer concertos trajado de roupas aparentemente militares. Eufórico, com um fôlego único, o rapper fazia vibrar o palco e mexia com as pessoas nos seus concertos.

Azagaia foi amado, cantado, apoiado, mas nem tudo foi um mar cor-de-rosa nos seus 38 anos de vida intensa. Atento às vicissitudes sociais como sempre foi, em 2008, lançou uma das suas músicas mais populares: “Povo no poder”. Foi um estrondo! A música incomodou muitos políticos. Na sequência desse tema inspirado na reacção popular a seguir à subida do preço do transporte, naquele ano, em pouco tempo, foi chamado à Procuradoria da República por suspeita de “atentar contra a segurança do Estado”. De lá saiu mais esclarecido e “Povo no poder” continuou a ser uma das principais composições musicais do país.  “Cão de raça”, “Maçonaria”, “Calaste” e “A minha geração” (Cubaliwa) não ficaram muito atrás.

Com as suas músicas, Azagaia honrava o pseudónimo que tinha. Sem dever nada a ninguém. Mas Só dever é esse último EP que lançou ainda vivo.

Azagaia sempre soube que era incómodo. Talvez, por isso, a morte foi abordada nas suas músicas. Sem medo. Azagaia viveu combatendo pela verdade e contra o medo. Numa das suas composições, “Filhos da”, com N. Star, o rapper diz o seguinte, a certa altura, “Medrosos, quando morrem, não servem nem para estrume”.

Azagaia viveu de pé. Quando se apercebeu de que poderia participar ainda mais na mudança, alinhou na lista do MDM para deputado na Assembleia da República. Mas essa eleição não aconteceu. Continuou a fazer música. Nem o tumor cerebral diagnosticado em 2014 o fez confusão. Pelo contrário, Azagaia continuou lúcido e a fazer os seus concertos. O último (ou dos últimos) aconteceu há poucos dias, na Beira, essa cidade que lhe permitiu ter o título para o seu segundo álbum, Cubaliwa.

Não morreu a tiro, como muitos temiam, não morreu na Índia, quando lá foi fazer cirurgia. Morreu em casa, num bairro humilde da Matola. As reacções à sua morte vieram de toda parte. O rapper Allan considerou, tal como Gina Pepa, que o país perdeu um herói e líder de uma geração de artistas. Simba Sitoi disse que a qualidade das suas líricas fará sempre falta.“Questionamo-nos agora sobre quem mais poderá ter o nível da sua qualidade poética”, disse Simba Sitoi.

Já Kloro defendeu a necessidade de se resgatar Azagaia que cada um tem dentro de si e continuar com a luta em prol da sociedade moçambicana e pela humanidade.

Em Portugal, Jimmy P., com quem gravou pelo menos uma música, deseja-lhe um eterno descanso. Valete destacou que “Morreu um dos maiores rappers da Língua Portuguesa. Um dos seres humanos que mais admirei em toda a minha vida. Um verdadeiro patriota. Amou África e Moçambique como poucos. O irmão que nunca tive”.

No Brasil, Gabriel, o Pensador, escreveu na sua rede social que “Nosso irmão Azagaia, ícone do rap lusófono, nos deixou hoje muito cedo, aos 38 anos, em sua casa em Moçambique. Grande perda para nossa música e cultura hip hop. Seu legado é eterno, mano, descanse em paz”.

Azagaia, homem temente a Deus e que rezava antes dos concertos, partiu. Coerente, deixando para trás uma mulher e duas princesinhas.

 

 

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