O País – A verdade como notícia

Na sexta-feira, sábado e domingo, a Cidade de Maputo foi, uma vez mais, palco da 10ª edição do Festival AZGO. Alguns anos depois de o evento ter sido adiado, por razões sanitárias, o regresso materializou-se com um espectáculo de abertura, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano. No local, coube a Fayazer, artista da Ilha da Reunião, levar o público a descobrir sons tradicionais da sua cultura, misturados com a música moderna. Trata-se da junção de Maloya e rap/trap, que o artista designa de Malotrap.

Depois da actuação de Fayazer, no Jardim do Franco houve a apresentação dos The Hood Brodz, duo composto pelos irmãos Helio Beatz e Dj Granda Beatz. A este grupo moçambicano juntaram-se Thobile Makhoyane (Eswatini) e Dona Saquia (Moçambique), do Tufo da Mafalala.

Conforme lembra uma nota de imprensa sobre o AZGO, The Hood Brodz ofereceu todos os seus sets de Afro house music, misturando batidas pulsantes e ritmos contagiantes. Thobile Makhoyane, através do Makhoya e outros instrumentos musicais tradicionais, mostrou sua musicalidade e influências, contribuindo para uma fusão emocionante de estilos.

No final da noite, coube ao artista haitiano, radicado no Canadá, Vox Sambou, encerrar a abertura do festival. O artista e activista investiu na mistura de ritmos, entre os tradicionais haitianos com elementos contemporâneos do hip-hop e reggae.

A 10ª edição do AZGO prosseguiu no dia seguinte, sábado, sob o lema “Diversidade cultural e paz. “Foi sem dúvidas uma edição de exaltação da arte na verdadeira acepção da palavra, notório em todos os momentos da sua programação. A partir da concepção visual da 10ª Edição do AZGO, Hugo Mendes ou simplesmente Psiconautah, mostra a profundidade da arte a partir da tradição, identidade e modernidade”, lê-se igualmente na nota de imprensa sobre o festival: “A curadoria encontra no ‘Afrofuturismo’ uma outra forma de inovar e gerar interesse dos festivaleiros, que foram viver uma experiência marcante trajados de roupas do futuro. A audiência foi desafiada a imaginar a África e os africanos do futuro através da indumentária”.

O melhor traje afrofuturista premiado pela organização do festival, com um valor de cinquenta mil meticais, foi do estilista Valter Mudanisse. “Tentei imaginar a mim mesmo e os africanos de modo geral nos próximos 50/90 anos. Contudo, criei a partir da tradição e da riqueza cultural que nos caracterizam como povo”, disse o vencedor.

No Campus da UEM, foram montados três palcos, a saber, 16 Neto, Zena Bacar e Fany Mpfumo.

O 16 Neto apresentou um alinhamento alternativo com a energia e o talento dos artistas: Pizzaw/Pineapples, Ckarina Miller, DJ Dub Rui, DJ Bob, Karen Ponto e Denilson LA.  Esta foi a primeira vez que o AZGO apresentou este palco, concebido para artistas emergentes na área da música e artes cénicas. E nesta edição, foi possível assistir neste palco a apresentação de uma peça teatral.

Nos palcos Zena Bacar e Fany Mpfumo, os grandes actos foram protagonizados por estrelas nacionais e internacionais que ofereceram uma verdadeira festa ao público que aderiu em massa ao AZGO 2023.

Os mais novos Mark Exodus, Helio Beatz, Radjha Ally, Dehermes e Yaba Buluku Boys se estreiam no AZGO com apresentações ricas e cheias de emoção. “Acho que acabo de realizar um sonho”, disse Mark Exodus logo a sua saído do palco.

Stewart Sukuma e Banda Nkuvu cantaram Moçambique com toda energia já conhecida. “O AZGO é um projecto consistente e hoje provou mais uma vez a sua relevância”, disse o músico.

Elvira Viegas, rosto da 10ª Edição do Festival AZGO, ofereceu uma áurea de nostalgia e despertou lembranças de um passado, apresentando os seus sucessos de sempre “Grito de Criança”, “Lizeze”, “Xikala Vitu” ou “Tiva Taku”.

Eduardo Paim matou “Saudades” de Maputo, cantando “Rosa Baila” com um suporte de uma banda composta por instrumentistas moçambicanos. “Sinto-me amado e orgulhoso de todo percurso que trilhei. Há um calor especial e diferente dos moçambicanos. A esperança é voltar para muito mais, porque hoje essa semente foi lançada e ganhou uma nova vida”.

Os sul-africanos K.O, Sdala B & Paige apresentaram o house music, amapiano, rap/trap, entre outros géneros. O público cantou os sucessos de K.O, desde “SETE”, “Run Jozi” entre outros. Sdala B & Paige com “Khanyisa”, “Ghanama” e “Forever”.

“O agrupamento Yaba Buluku Boys presenteou a audiência com uma das maiores apresentações da 10ª Edição do AZGO. O grupo com projecção internacional apresentou os seus hinos “Yaba Buluku”, “Madam De Madam”, entre outros êxitos”, lê-se na nota de imprensa, na qual se acrescenta: “Pela primeira vez em Moçambique, um evento de artes criou uma zona específica para pessoas com deficiência. Trata-se de uma área que ofereceu ao público uma visualização do palco principal do Festival de forma privilegiada e confortável, com presença de uma equipe de voluntários preparados para ajudar com questões de logística como comprar bebidas, comidas, acesso a sanitários, entre outras necessidades pontuais”.

Além de lazer, o AZGO reafirmou o seu compromisso com temas importantes da vida do país. O recinto do evento serviu de espaço para a passagem de mensagens sobre preservação do meio ambiente e importância do recenseamento eleitoral.

Integrado no programa de responsabilidade social, o Azgo Mafalala voltou ao campinho da Mafalala.  Fruto de uma parceria entre a Khuzula, a Associação IVERCA e Lithos Stage Sound and Design, a festa do campinho iniciou ao som da percussão e da coreografia de mulheres pintadas de mussiro. O Tufo da Mafalala esteve em palco, a fazer as honras da casa. Logo de Helio Beatz canta e encanta com o Pandza do futuro; Stewart Sukuma brindou o público com um acústico dos seus maiores sucessos; Júnior Boca com o seu reggae levou a energia do Brasil e de outros quadrantes do mundo ao AZGO Mafalala.

Assim foi a 10ª edição do Festival AZGO!

 

O Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP) e o Banco de Moçambique (BM) entregaram, na primeira quinzena deste mês, 1770 livros de temática diversa a 30 escolas primárias localizadas nos distritos de Marrupa, na província de Niassa (região Norte), Inhassunge, na província da Zambézia (região Centro) e Matutuine, na província de Maputo (região Sul do país).

A oferta, composta por obras de literatura moçambicana e infanto-juvenis diversos, dicionários, prontuários e gramáticas, é parte do projecto “Bibliotecas-Caixa”, concebido pelo FBLP e financiado pelo BM, tendo em vista apoiar escolas primárias sem bibliotecas, em materiais bibliográficos extra-curriculares, para incentivar o gosto pelo livro e pela leitura, assim melhorando as competências de leitura e escrita nos alunos abrangidos.

O projecto consiste na alocação de caixas contendo livros, numa rede de 10 escolas primárias de um distrito ou localidade, obedecendo, as referidas caixas, a uma rotatividade mensal dentro da rede de escolas. A entrega dos materiais é sempre acompanhada pela realização de um seminário de capacitação dos directores das escolas beneficiárias, para a implementação plena do projecto.

Nesse âmbito, foram contempladas as seguintes escolas: Distrito de Marrupa – EPC de Chumula, EP1 Massaca, EPC Marrupa-sede, EPC 04 de Outubro, EPC de Mepelia, EPC de Manlia, EPC de Namuera, EPC de Namarrupi, EPC de Mirorane e EPC de Macuvango; Distrito de Matutuine – EPC Bela Vista, EPC Missão Roque, EPC Madjuva, EPC Massindla, EPC Mudada, EPC Mudissa, EPC Pedreira, EPC Salamanga, EPC Mondoene, e EPC Manchafane; Distrito de Inhassunge – EPC Gonhane, EPC Eduardo Mondlane, EPC de Mucupia, EP1 de Linda, EPC1 de Matilde, EPC de M’bereme, EPC Mussama, EPC de Masabado, EPC de Muailado e EPC de Boane.

O projecto já beneficiou redes de escolas nos distritos de Namuno, em Cabo Delgado, Angónia, em Tete, e Chongoene, em Gaza. Ainda este ano, irá contemplar redes de escolas nos distritos de Angoche, em Nampula, Vanduzi, em Manica, e Funhalouro, na província de Inhambane.

O ensaísta e professor universitário Martins JC Mapera é o grande convidado para a sessão de conversa designada “Os meus livros de cabeceira”, organizada pela Associação Kulemba. Marcada para esta terça-feira, a iniciativa com leitores, autores e entusiastas de literatura vai iniciar às 18 horas, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, devendo prolongar-se até perto das 19 horas.

Numa sessão descontraída, durante uma hora, Martins JC Mapera vai debruçar-se sobre os livros que, ao longo dos anos, contribuíram para que se tornasse um leitor e a autor consequente. De igual modo, a partir da sua experiência literária, o ensaísta vai referir-se à importância das obras literárias no seu processo de formação intelectual, ora chamando atenção para o poder da literatura na reconstrução da vida social, ora enaltecendo a função da leitura na consciencialização dos cidadãos.

A sessão com Martins JC Mapera desta terça-feira será a segunda da rubrica “Os meus livros de cabeceira”, depois de, no passado mês de Abril, a docente universitária Carla Karagianis ter inaugurado o encontro com autores e leitores na Livraria Fundza.

Martins JC Mapera é Professor Associado da Universidade Licungo, Doutor em Hermenêuticas Culturais pela Universidade de Aveiro em consórcio com a Universidade do Minho e antigo Director da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Zambeze. Actualmente, Investigador é do CECS — Universidade do Minho — Projecto Memórias, culturas e identidades: o passado e o presente das relações interculturais em Moçambique e Portugal. Tem publicado, no âmbito da Crítica literária, estudos culturais, Sociologia da cultura, Sociologia da Comunicação, Comunicação Intercultural e Filosofia da Linguagem. É autor de Cinzas de cão: ensaios críticos de literatura (2018).

A 10ª edição do Festival AZGO arrancou ontem à noite, no Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Na Sala Grande daquele centro cultural, apresentaram-se os músicos do Haiti, Vox Sambou, e da Ilha Reunião, Fayazer

Comecemos pelo fim. Vox Sambou apresentou-se na Sala Grande do Franco-Moçambicano aproximadamente às 22 horas desta sexta-feira. Logo à entrada, revelou-se, com a sua banda, um artista que investe, aparentemente, em sonoridades de origem africana. Por exemplo, sonoridades próximas à quizomba, para os mais novos, ou à passada, para os mais antigos.

Com muita alegria no semblante e nos movimentos, o artista haitiano radicado no Canadá, no dia de abertura do AZGO, fez da sua apresentação um momento de festa, ora celebrando os 10 anos de um festival que já é tradição em Moçambique, ora enaltecendo os laços de amizade entre os povos e o intercâmbio artístico-cultural.

Sempre com Haiti no coração, Vox Sambou fez de um espectáculo musical um momento fácil, cheio de emoção, de luz e muita vibração. Por isso mesmo, a maioria do público que até nem conhecia as suas composições reagiu com alguma assertividade sempre que o vocalista os convidou a decorar ou a cantar os coros das músicas. Foi uma actuação exemplar, de um intérprete que se preocupa em pensar o mundo à sua volta e que se informou sobre Moçambique antes de se apresentar na Sala Grande do Franco. Há-de ser por isso que, a certa altura, convidou os maputenses e cidadãos de outras origens a cantarem pela paz e pela fraternidade. Nessa tentativa de sincronização entre os seus temas e a realidade local, que afinal é universal, Vox Sambou amou tanto a música como as pessoas, dando-as a sua simplicidade, o seu carinho e o respeito de um espectáculo bem preparado.

Ao interpretar, sobretudo, ritmos do Norte do Haiti e afro-latinos, Vox Sambou também expressou-se como um artista com certas influências do Hip-Hop. A sua base musical assenta na diversidade e nessa sugerida subtil intervenção social.

Assumidamente um artista do amor, Vox Sambou interpretou um tema composto a pensar na sua própria mãe e, no Franco, encontrou um pretexto para dedicar a sua música a todas mulheres incríveis, de Moçambique e do continente inteiro. Também cantou por todos aqueles encarregados de educação que cuidam bem dos seus filhos, tendo como referência os pais que o permitiram crescer o suficiente para poder apresentar-se na Cidade de Maputo.

Com a vinda de Vox Sambou a Maputo, o Alto Comissariado do Canadá em Moçambique juntou-se às celebrações do 10º aniversário do Festival AZGO, tendo como motivação a extensão e o aprofundamento dos laços culturais.

A actuação do artista haitiano residente no Canadá teve aproximadamente uma hora de duração. No palco não brilhou sozinho, mas cada membro da banda, desde o guitarrista ao baterista ou do percussionista à cativante corista. Enfim, nesta participação no AZGO, Vox Sambou recebeu de volta tudo o que se propôs a proporcionar ao público.

Não obstante, o primeiro artista a apresentar-se na abertura da 10ª edição do Festival AZGO, no Franco-Moçambicano, foi o músico da Ilha Reunião, Fayazer. O seu espectáculo começou às 19h55, acompanhado por um baterista e um guitarrista.

Numa base reggae, Fayazer apresentou, ao longo de uma hora, uma combinação de ritmos tradicionais da Ilha Reunião: maloya em harmonia com o hip-hop também.

Hoje, o Festival AZGO continua no Campus da Universidade Eduardo Mondlane e, amanhã, termina com um concerto gratuito no Bairro Mafalala, sempre na Cidade de Maputo.

 

 

Eunice Moreira

 

Vi-o pela primeira vez na minha casa, sentou-se sobre a cadeira que ficava no meu quarto, não falou nada, não se mexia; estava ali apenas sentado a observar-me. Fiquei assustada, não sabia o que ele fazia ali sentado.

Eu tinha apenas oito anos, vivia com a minha mãe e os meus dois irmãos numa aldeia bem distante, onde para ir a cidade eram dias de viagens.

Um dia desses, ele apareceu no meu quarto de madrugada, sentou-se e sorriu, um sorriso destinado a mim. Desde então, passou a aparecer todos os dias na madrugada, vinha e continuava ali sentado no mesmo lugar, sem nada a dizer, apenas a observar-me. Eu perguntava-me se estava sonhado e ele permanecia ali sentado.

Dez anos depois, fiz 18 anos, comemorei bastante, afinal a tão almejada juventude já estava confirmada.

Naquela noite, ele veio, e pela primeira vez, eu ouvi a sua voz – parecia desproporcional ao seu corpo. Disse no meu ouvido: – finalmente tenho-te como minha. “Minha?” exclamei… sem resposta, foi-me acariciando, beijando-me aos poucos. Eu ia perguntando-me quem era aquele fulano. Deitou-se comigo, fez-me mulher pela primeira vez, não vou esconder, estava louca de prazer por dentro. Uma única vontade ecoava na minha mente: “possua-me, possua-me”…

Aquele cenário ia-se repetindo, foram 12 anos a deitar-me com ele todas as malditas madrugadas. Eu achava algo normal, ele dizia que tinha de o ser. Eu, inocente, nem me apercebia do mal que ele cometia.

No dia seguinte, tudo fazia-se de novo, sentia-me nova, recém-nascida. Afinal, como era esquecida uma noite tão vivida? Eu não percebia! Tudo parecia magia. Não me lembrava do rosto, não me lembrava do que tinha acontecido exactamente, mas sabia que aquilo acontecia, sentia aquela adrenalina no corpo e ficava arrepiada. Os lençóis sempre molhados, as pessoas até se perguntavam por que razão em todas as manhãs eu os lavava.

Passei a ficar ansiosa à espera da noite chegar, aquele momento era mágico demais. Quando a noite chegou, fui deitar-me, ele veio, deitou-se comigo e, de repente, ouvi passos vindo ao meu quarto – era a minha mãe acordada pelos gemidos tão altos que ouvia. Chegando ao quarto, entrou sem bater à porta, senti muita vergonha, estava despida. Ela perguntou o que estava a acontecer e eu disse que estava a ser possuída.

– Possuída pelo espírito mau? Perguntou ela.

– Possuída de prazer, respondi.

Ela foi-se embora com a convicção de que eu estava maluca.

Na manhã seguinte, foi diferente, acordei cansada, sem vontade de fazer nada, saí para brincar com as minhas amigas, a fim de lhes contar o que acontecia comigo; contei-lhes e puseram-se a rir, ninguém acreditou no que eu dissera, na verdade nem eu consegui explicar o que era.

De noite, decidi ficar acordada para ver se eu me aperceberia de como ele entra e sai do meu quarto sem que ninguém o veja. Sentei-me, esperei, esperei olhando as horas, o tempo ia passando e ele não vinha. Ah, pela primeira vez atrasou-se, fiquei ali esperando até que adormeci. Um tempo depois, vejo-o a chegar, irritado. Perguntei o que se passa e ele respondeu:

– Por tua culpa, hoje eu não viria.

Não falou mais nada, fez o que tinha que fazer e foi-se embora.

Inconformada com aquela situação, fui ter com a minha mãe, contei-lhe o que acontecia, ela fingiu que não sabia. Então, decidi ir ter com a curandeira da zona. Esperei aquele dia passar e saí de madrugada para que ninguém me visse, caminhei cerca de 2 km da minha casa. Chegado lá, bati à porta “toc, toc”…

– Entra, Joaninha, eu esperava por ti.

Entrei, descalcei os meus chinelos à porta, como a tradição manda; olhei para a curandeira com medo, era a minha primeira vez num lugar igual àquele. Sem que pronunciasse alguma palavra, ela disse-me:

– Eu sei o que te traz aqui, és casada com o Nakhuru (espírito da noite, comummente chamado “marido da noite”). Foste prometida ainda bebé pela sua avó materna. Por isso, todas as noites, ele vem e deita-se contigo.

Arrepiou-me todo o corpo, afinal o maldito Nakhuro vem-me usando todo esse tempo.

– O que devo fazer para me livrar desse maldito?

– Prepara uma garrafa vazia, uma peça de roupa da sua avó, duas galinhas e cinco litros de vinho. Mas, atenção, não contes a ninguém até que aconteça o tratamento. Quando saíres da minha casa, não olhes para trás.

Cheguei à casa e fiquei acordada, preferi não dormir para que ele não aparecesse. Na manhã seguinte, fui atrás de tudo o que a curandeira me pedira. Fiquei ali esperando que a noite chegasse para ir fazer o tratamento. Quando eram aproximadamente 18h, fui pegando sono, quase eu adormecia ali e não iria ter com a curandeira, mas o desejo de ser liberta falou mais alto. Saí do quarto e fui ficar na varanda à espera.

Enquanto eu esperava ali sentada, ouvia uma voz desconhecida a chamar-me, fiquei com medo, as pernas tremiam, o coração batia acelerado… a voz aproximava-se. Quando olho para trás, era apenas o meu cunhado. Suspirei de alívio, pensei que era ele vindo atrás de mim.

Chegada à hora, saí de casa sem que ninguém me visse, fui caminhando lentamente como me tivera dito a curandeira, tudo estava escuro, ninguém se fazia à estrada naquela hora. Os mochos faziam barulho nas árvores e eu ali andando sem olhar para trás. Cheguei à casa da curandeira. Entrei e sentei-me rapidamente e começámos com o tratamento. De repente, ele aparece e grita:

– Tu és minha, nada que possam fazer vai tirar-me de ti. A tua avó deu-me a ti.

E foi-se embora.

Continuamos com o tratamento e, no final, a curandeira abriu uma garrafa. Conseguiu colocá-lo lá e fomos enterrar a garrafa nas bermas de um rio. Dali, uma sensação de liberdade ocorreu-me.

Fui a correr para casa, já estava claro, o galo já tinha cantado, escondi o meu rosto para que não me reconhecessem. Cheguei à casa e encontrei a minha mãe a varrer o pátio. Perguntou de onde eu vinha àquela hora e com cheiro estanho. Respondi, alegre:

– Eu matei-o! Matei-o e matá-lo-ia de novo!

 

 

Por: Paulina Chiziane

 

Vim de lugar nenhum. Aprendi a escrever na areia do chão. Calcei os primeiros sapatos aos 10 anos de idade. Sou a primeira africana, negra, bantu, a receber tão alto prémio. Aqui estou! Eu sou! Caminhei sem saber para onde ia mas cheguei a algum lugar, que lugar é o Prémio Camões, que recebo hoje, 5 de Maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa. Para quem veio do chão, estar diante dos Governos Português e Brasileiro, do Corpo Diplomático e personalidades tão distintas, é algo que me comove profundamente e a todos endereço os meus profundos agradecimentos.

Agradeço aos meus editores, tradutores, livreiros. Agradeço ao júri que me escolheu para merecer este prémio. A minha gratidão maior vai para os meus leitores, em Moçambique e no mundo.

Sou da tradição oral. Os contos à volta da fogueira foram a minha primeira escola de arte. Gosto muito de contar histórias. Trago nas veias o sangue da cultura bantu e europeia, cuja transfusão recebi nas escolas do mundo e, por isso, a língua portuguesa que eu escrevo tem as marcas das minhas origens. Nesta ocasião tão especial, gostaria de partilhar algumas lições aprendidas na estrada da vida.

1 – Originalidade – Seja original em todos os teus actos. Saiba que a dignidade de um povo é feita pela sua originalidade. Se não és original, alguém irá apropriar-se do teu ser. Não tenha medo nem vergonha das tuas origens. Eu sou originária de África, sim, sou negra e tenho a minha cultura, porque renegá-la?

2 – Auto-afirmação – Afirma-te, se queres ser alguém na vida. Afirma os teus passos, deixa as marcas do teu pé gravadas de forma indelével pelos caminhos, para que todos digam: por aqui passou alguém. É preciso afirmar, com toda a pujança: eu sou, eu tenho! Jamais deixarei de ser quem sou. Ninguém irá usurpar o que é meu! Se isso não acontecer, serás apenas mais um, uma nulidade ou simples estatística.

3 – Auto-conhecimento – Conhece-te. Usa uma língua seja ela qual for, e serás original e único. É preciso resgatar os rastos da nossa história, que foram omitidos ao longo dos tempos. Não podemos andar à deriva. Quem não se conhece, é facilmente manipulado pelo mundo.

4 – Poder interior – Desperta o poder interior que Deus te deu. Se não o fazes, serás sempre secundário, subalterno, eterna imitação do outro. No acto da escrita, imprimo na língua portuguesa o poder da minha alma. Os sonhos de liberdade do meu povo. Negoceio a minha identidade e dignidade, como mulher e negra. Escrevo a língua como a sinto, porque não devem existir donos da língua.

Estas quatro etapas alcançam-se com dois verbos fundamentais: o ser e o ter. Comecemos por conjugar o verbo ser.

Eu sou, tu és, nós somos. Esta conjugação remete-nos ao UBUNTU, nossa filosofia: sou porque tu existes. Leva-nos aos caminhos da complementaridade, harmonia, fraternidade. Eu sou negra e tu és branco. Somos diferentes, mas podemos ser amigos. Sou humana, feita à imagem e semelhança de Deus. Sou africana, mulher e negra e, por isso mesmo, afirmo que Deus é mulher e é negra. Eu sou!

Na noite colonial, havia uma certa dificuldade na conjugação deste verbo. No presente do indicativo, colocava-se a afirmativa e a negativa à mistura. Eu sou e tu não és. Nós somos… o que é que somos? Inimigos? As guerras travadas ao longo dos séculos provaram a necessidade de uma conjugação perfeita. Quando me diziam tu não és, eu questionava: não sou porquê? Não sou a imagem de Deus? Será que Deus se enganou ao criar a mim, mulher, negra, e o continente africano? Diziam que me vinham civilizar, usurpando todo o meu ter e o meu ser, para transformar-me numa outra pessoa? Queriam eles substituir Deus na criação do mundo?

Olhemos agora para o verbo ter.

Eu tenho, tu tens, nós temos. O que tenho eu, filha de África? Tenho uma terra.

Tenho uma língua materna, minha herança divina. Tenho a língua portuguesa, minha herança humana trazida pelas circunstâncias da história. Eu tenho. Este verbo era também conjugado na afirmativa e negativa: eu tenho, mas tu não tens. Não é justo.

Nas lutas pela liberdade, os africanos conjugaram este verbo com mestria: eu sou, eu tenho, vou lutar pelo meu ser e meu ter.

Uma visita rápida aos dicionários mostra-nos como os africanos são retratados nos seus livros sagrados da língua ao longo dos tempos. Há palavras que nos repelem, excluem e, por vezes, assustam. Dou alguns exemplos:

Catinga – cheiro nauseabundo característico dos negros. Espero que tenha sido retirada. Se ainda permanece, gostaria que solicitar a sua eliminação imediata.

Matriarcado – costume tribal africano.

Patriarcado – tradição heróica dos patriarcas.

Palhota – habitação rústica dos negros. Hoje a palhota é reconhecida como uma habitação ecológica.

A língua portuguesa, para ser definitivamente nossa, precisa de um tratamento, limpeza e descolonização. É preciso conjugar os verbos ser e ter de acordo com as boas regras gramaticais.

Premiar uma negra bantu com uma distinção tão alta abre uma nova era na nossa história. Nós, os africanos, aprendemos a língua portuguesa, mas eles não apreenderam as nossas. Aproveito esta magna ocasião para convidar a todos a conhecer a beleza das nossas línguas. Termino afirmando com toda a convicção: eu africana, eu sou, eu tenho!

Muito Obrigado.

Lisboa, 5 de Maio 2023

 

*Discurso de Paulina Chiziane na recepção do Prémio Camões 2021, no dia 5 de Maio de 2023.

A actriz e gestora cultural Maria Pinto de Sá é a próxima convidada da Associação Kulemba para conversar sobre “Tradição e modernidade na arte moçambicana: um diálogo possível?”. A sessão com a artista vai realizar-se na Livraria Fundza, Cidade da Beira, às 18 horas desta quinta-feira.

Segundo avança a Associação Kulemba, numa nota de imprensa, durante a conversa, a artista moçambicana vai debruçar-se sobre a possibilidade ou não da existência de um diálogo entre a tradição e a modernidade nas artes nacionais, baseando-se, para o efeito, na sua longa experiência de vida e na cultura.

A conversa com Maria Pinto de Sá insere-se nas celebrações do mês em que se comemora o Dia de África, 25 de Maio, e será moderada pelo académico Fernando Chicumule.

Maria Pinto de Sá nasceu em Maputo, a 11 de Fevereiro de 1952. É membro da Comissão de Honra da Fundação Fernando Leite Couto, Membro do “Conselho Universitário da Universidade Licungo e Presidente da Associação Cultural “Casa do Artista”, na Beira, onde também foi coordenadora de Arte do projecto de construção do Parque Urbano do Chiveve. Entre tantas outras actividades por si desempenhadas, foi responsável da Biblioteca da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, sócia fundadora, actriz e encenadora de Teatro da Associação Cultural “Tchova Xita Duma”, em Maputo, Repórter da célebre Revista Tempo. Em 2021, a actriz foi outorgada Medalha de Mérito de Artes e Letras, pelo Presidente da República de Moçambique.

Duas horas antes do seu concerto iniciar, Selma Uamusse confessou estar nervosa. Habituada a pisar grandes palcos e de vários cantos do mundo, em casa parece que as coisas ganham outro sentido, outra dimensão. Ainda assim, na celebração do Dia da Europa, iniciativa da União Europeia e do Franco-Moçambicano, a natural não tremeu. Paciente e natural, a cantora  apresentou ao público maputense as músicas do seu segundo álbum, Liwoningo, afinal nome da filha do seu velho amigo: Cheny Wa Gune. Com o timbileiro, Selma partilhou o palco em alguns temas, mas a crónica não deve começar por aqui…

Quando o som dos instrumentos começou a soar por cada milímetro da Sala Grande do Franco, este sábado, Selma Uamuse apresentou-se em palco dançando o tema “Mamã”, composição de Deltino Guerreiro por si interpretada. Nesse instante, a artista parecia uma “ilustre desconhecida”, pois, ao contrário do que poderia acontecer, quase ninguém a acompanhou no canto ou com vigorosos aplausos. Entre sussurros, os espectadores perguntavam uns aos outros: E agora, o que vem aí? Bem, Selma Uamusse não ouviu essa pergunta. Talvez, por isso, apenas dedicou-se a fazer o que para a artista parece fácil: conquistar a atenção e o respeito dos que, mesmo sem entender as letras das composições, gradualmente, entregaram-se a uma vibe absolutamente convincente.

Partindo de Portugal, onde vive desde 1988, Selma Uamusse aterrou em Maputo para mostrar a sua conexão com a Pérola do Índico, com as tradições, com o quotidiano, com a sua gente e com os artistas que vivem cá e lá fora. Também por isso, logo no início da apresentação do seu repertório, cantou “No guns” com o já apresentado Cheny Wa Gune, um tema para pensar a paz, a harmonia social e a tão difundida unidade nacional. Aí a Sala Grande começou a aquecer. A cantora ia na sua segunda música e os assentos já incomodavam. Como era possível alguém estar sentado com uma 7 de Abril ali a cantar e a dançar rigorosamente bem, calçando um salto alto com tantos quilómetros percorridos? Não, não era possível e a artista não permitiu.

Firme no seu registo performativo desconcertante, Selma Uamusse foi subindo de intensidade na actuação… A uma velocidade de cruzeiro. Aos passageiros, só lhes restava desapertar os cintos de segurança, levantar e fingirem, com movimentos, que um dia souberam dançar. Do palco, a autora dos álbuns Mati e Liwoningo não deve ter reparado nos vários “paus de vassoura” que a tentavam imitar ou corresponder às suas provocações… Crianças, jovens, mulheres, homens, pretos, brancos, moçambicanos, suecos, portugueses, franceses e etc., de repente, viram-se envolvidos numas coreografias originais, mas que hoje seriam incapazes de repetir, não fossem os movimentos confusos e improvisados.

Neste regresso a Moçambique, Selma Uamusse quis cantar para e com toda a gente. Deve ser por essa razão que, não podendo estar com uma das filhas no palco, primeiro, chamou a Liwoningo para a acompanhar no tema “Hoyo-Hoyo”. A menina que não parece ser bailarina ficou ali meio contida no palco, entre sorrisos, abraços e a emoção de dançar ao som da timbila do pai. A essa altura, os dois corredores de acesso da Sala Grande já não se viam. Todos em todo o lado. Como que hipnotizados, o público percebeu as particularidades que tornam a música universal e a arte performativa, às vezes, inefável. Foi um misto de emoções e sentimentos ver uma irmã e uma filha de regresso a casa, explorando ritmos tradicionais e imaginários locais. De Portugal, Selma Uamusse tem o sotaque e tantas outras coisas, mas, quando o assunto é música, os seus processos criativos assentam em matrizes culturais moçambicanas, do Norte ao Sul, do Sul ao Norte. Há um Moçambique efervescente e subtil em Selma Uamusse, um Moçambique plural com a capacidade de se afirmar artisticamente no estrangeiro, um Moçambique envolvente, comovente e dinâmico.

Ao interpretar “Ngono utana”, aquilo já não era saltar. Às alturas, a cantora lá ia buscar uma energia inigualável. Selma Uamusse parece ter o dobro dos pulmões de um ser humano. Talvez, depois de Azagaia, é a artista moçambicana que melhor testa a resistência do palco no qual actua. Viu-se isso no Franco, uma cantora incapaz de estar quieta, mas, simultaneamente, boa na serenidade. Por exemplo, com “Mati” a coisa foi mais pausada. Esse tema que há alguns anos mereceu uma versão com Sara Tavares, desta vez, teve outra versão com Milton Gulli, esse monstro da música que também voltou a casa na celebração do Dia da Europa.

Com “Mati”, Selma faz as pessoas pensar nas coisas essenciais da vida muitas vezes ignoradas, nas coisas e nas pessoas que nos alimentam a existência. Logo, em jeito de agradecimento a uma certa pessoa, a cantora com o “coração que tem o suficiente para abraçar o mundo inteiro”, conforme disse, desceu do palco cantando, passou entre os espectadores, tocou-os, deixou-se fotografar e, de assento em assento, foi procurar a mãe até encontra-la lá no meio de tanta gente. Julieta Massimbe levantou-se orgulhosa. Não precisou dizer É minha filha! Selma Uamusse tratou de a apresentar para quem não sabia e aí alguns telemóveis atrasaram-se a registar o momento do abraço. Os mais atentos, sim, captaram essa celebração do amor às mães.

Numa noite a passar célere, Selma Uamusse convidou Stewart Sukuma para juntos interpretarem um tema. Foi um cruzamento de gerações, entre a exaltação do afecto e da saudade. Uma vez mais, Stewart, esse menino de apenas 60 anos de idade, deixou ficar a impressão de que os anos, para si, não mudam nada em termos físicos. Depois, chegou a vez de Lenna Bahule também fazer um duo com Selma. Isso não levaria muito tempo. O concerto inebriante já estava a terminar. Selma Uamusse agradeceu pelo calor, pelos kulunguwanas e, com o coração cheio de liwoningo, recolheu ao backstage, deixando, para mim, a crónica de uma noite bem anunciada.

A 13 de Maio de 1960, nasceu um bebé chamado Jaquelina Novela. Nessa data, a recém-nascida nem poderia imaginar que, precisamente 63 anos depois, isto é, no dia 13 de Maio de 2023, pela primeira vez, estaria num concerto da sua querida filha: Assa Matusse. Quis o destino que fosse na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo. Ali, Jaquelina Novela viu a sua “pequena” conquistar a cidade, desinibida como quando, há alguns anos, ainda mamava ansiosa no seu colo. Durante a presença na Sala Grande, Jaquelina Novela poderia ter pensado nesse passado ainda presente na sua memória, poderia ter-se perguntado quando a sua “criancinha” deixou para trás os becos de Mavalane para se tornar numa cidadã do mundo, tendo Paris, agora, como o centro do seu universo. Mas não, não houve naquela sala lotada muito tempo para inventar pensamentos que se poderia transformar em lágrimas no rosto. À semelhança de toda a gente, sem sequer poder se anunciar, Jaquelina Novela ficou ali quieta, e, num lugar discreto, viu a dona daquela voz vibrante apresentar-se ao palco entre gritos e aplausos do público.

Ao som do xigubo, mesmo a condizer com o título do seu segundo álbum, Mutchangana, Assa Matusse interpretou o tema homónimo. Os ponteiros do relógio, a essa altura, registavam 18 horas. No entanto, como se o horário não valesse para nada, Assa Matusse levou os bons apreciadores da música a uma intensa viagem pela magia da sua sonoridade, ora promovendo as composições do seu mais recente disco, ora recuperando os já conhecidos temas do álbum +Eu.

Antes do concerto começar, confessara estar ansiosa em apresentar o trabalho discográfico lançado recentemente na capital francesa. No palco, essa ansiedade não teve razão de ser percebida. Pelo contrário, actuou como se cantasse a vida inteira, como se tivesse nascido apenas para alimentar essa cumplicidade com o microfone. Numa noite muito bem celebrada, Assa Matusse revelou-se uma artista madura, treinada e consistente na forma como se apresenta e controla cada momento do seu concerto. Nada a escapou e ainda respeitou quem foi ao Franco para ouvir boa música com banda.

Um pouco mais elegante do que a sua última aparição naquela mesma Sala Grande, há algum tempo, a Menina do Bairro mostrou o que tem estado a fazer lá fora do país: cantar com dedicação como quem valoriza o legado do pai que, bem antes de partir para eterna viagem, seguiu a carreira de músico. O velho Matusse não chegou tão longe quanto podia na música. Cedo, as armadilhas do percurso traíram o seu entusiamo. Por isso mesmo, no princípio, não era nada de música o que queria para a filha. Não queria que a sua menina corresse o risco, que se frustrasse ou que se perdesse na música. Ainda assim, contra todos os argumentos, Assa assumiu as ferramentas do pai e continuou a caminhada sempre pensado em homenageá-lo. Assim foi no álbum +Eu. A cantora retrabalhou o tema Txintxile, original do pai. Ficou legal, como diriam os brasileiros! Neste Mutchangana, o tema “Aprendeste aonde”, por exemplo, diz o seguinte: “Gostaria de dizer o meu pai que sinto amor”. Aliás, o Mutchangana a que Assa se refere é o pai. Quer isto dizer que ao tentar desconstruir tabus inerentes à educação das raparigas em Moçambique, ao pensar na condição das mulheres em temas como “Xo teka mintxumu sva ku”, Assa coloca a figura do pai para incitar uma certa aproximação entre pais e filhos.

Bem dito, no Franco-Moçambicano, com efeito, Assa Matusse revelou que o seu segundo álbum é um pretexto para reflectir à volta dos dramas da mulher de origem pobre. Partindo do seu bairro, Mavalane, inclusive, assume como suas as dores daquelas mulheres que, neste mundo banal e machista, são violentadas, humilhadas e mortas por terem escolhido amar. Há-de ser por tudo isso que a música “A que preço?”, a última de Mutcangana, coloca perguntas graves e expressa sentimentos muito além de serem apenas da cantora.

Claro está, passa-se muita coisa na cabeça de Assa Matusse, e não é só a cabeleira farta. Na cabeça de Assa passam-se também os jogos dos equilíbrios, a capacidade de conduzir o concerto e as pessoas para onde ela quer. Assa explorou tanto a vibração do público quanto soube criar pequenos intervalos para descansar as cordas vocais que um dia poderia ter perdido; soube gerir os timings, tomar sei lá o quê numa pequena chávena bem a lembrar-nos o que era comum nos concertos do eterno Queen, Freddie Mercury.

Na Sala Grande, foi mesmo isso tudo e mais alguma coisa o que aconteceu neste sábado. Quando quis ver o público cantar, bater palmas, sorrir, brincar ou dançar, Assa conseguiu. Foi um concerto interactivo, com respostas recíprocas e, como diriam os docentes primários, muita elaboração conjunta. Assa ofereceu-se às pessoas, amou-as e fez valer os 600 meticais que custou a entrada. Mais, como nunca tinha feito antes, a artista ainda teve a sagacidade de felicitar a mamã pelos seus 63 anos de idade. Quem não conhecia a senhora Jaquelina Novela, ali pôde ver o berço da Menina do Bairro, que, afinal, conquistou a(s) cidade(s).

+ LIDAS

Siga nos