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O País – A verdade como notícia

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, inaugurou, na noite de hoje, o Centro Cultural Moçambique-China, o segundo maior de África com 20 mil metros quadrados, três salas para teatro, espectáculos musicais e eventos corporativos, com uma capacidade para 500 pessoas, outras para 412, destacando-se a maior para 1500 pessoas.

O edifício, localizado junto ao campus principal da Universidade Eduardo Mondlane, é fruto da cooperação bilateral entre Moçambique e China, onde os dois países assinaram, em 2015, um acordo de financiamento, para a construção, de 50 milhões de dólares, provenientes da China.

Numa sala cheia, composta por membros do Governo, académicos e artistas, Filipe Nyusi disse, na ocasião, que o edifício cuja primeira pedra foi lançada em 2018 é de todos e, por isso, deve ser bem conservado.

“A equipa que vai trabalhar neste centro deve-se capacitar para que tenha uma percepção mais completa sobre a infra-estrutura, com olhos postos no desenvolvimento institucional”, recomendou Nyusi, para depois acrescentar “aos artistas, exige-se de vós o sentido de pertença, capitalizando e explorando todas as capacidades deste centro, assim contribuindo, não apenas para a sua manutenção, como também de maneira previsível para a renda das vossas famílias e geração atrás de geração”.

Já o embaixador da China em Moçambique, Wang Hejun, afirmou que este investimento não começou “hoje”, uma vez que a relação cultural entre Moçambique e China vem muito antes da independência de Moçambique.

O centro não só vai servir para enriquecer a vida cultural do povo moçambicano, como também vai fornecer uma nova plataforma para China e Moçambique fortalecerem os intercâmbios culturais.

“Este espaço servirá também para os dois povos partilharem novas ideias e novos conceitos e melhorarem juntos através da comunicação, compreensão, respeito e apreciação mútuos, construindo, assim, uma estrada de intercâmbio civilizacional entre a China e Moçambique”, disse Hejum.

Em representação da classe artística, o músico Moreira Chonguiça referiu que o centro é algo há muito esperado, pois fazia falta aos artistas. Chonguiça disse que, com a inauguração, estão criadas as condições para os artistas fazerem a exposição da sua criatividade.

“Este evento é um marco na história da indústria cultural e criativa em Moçambique, um sector em franco desenvolvimento e que está associado ao empreendedorismo que, de forma activa, protege e preserva a cultura moçambicana”, enalteceu Chonguica.

NYUSI HOMENAGEIA E RECONHECE FEITOS DE SAMORA MACHEL NA CULTURA

Se estivesse vivo, Samora Machel, o primeiro Presidente de Moçambique, completaria hoje, 29 de Setembro, 90 anos. A inauguração do Centro Cultural Moçambique-China foi feita, ontem, propositadamente em homenagem a Samora Machel, como forma de reconhecer os seus feitos pela valorização da cultura.

Na ocasião, o Presidente da República falou da vida e obra de Samora Machel, destacando que a sua trajetória foi cheia de desafios e missões, que soube sempre ultrapassar.

Nyusi disse que Machel, mais do que proclamar a independência do país, lutou para recuperar, desenvolver e dignificar a vivência, as tradições e os comportamentos, bem como lutou para a valorização das línguas nacionais.

“Para Samora, era inconcebível que um moçambicano digno de nome, sem conhecer, praticar e ter orgulho da sua cultura”, disse Nyusi e prosseguiu “Machel lutou pela valorização das nossas músicas, dança; valorizava a indumentária, as artes, entre outras manifestações culturais do povo moçambicano”.

O Chefe de Estado disse ainda que o primeiro Presidente de Moçambique entendeu que a cultura é a maneira de ser e estar e relacionar-se desde o nascimento até à morte dos indivíduos.

A homenagem de Nyusi prosseguiu e Graça Machel, viúva de Samora Machel, reconheceu os feitos do seu esposo na cultura, ainda em vida.

Graça Machel disse que o papel de Machel e também da Frelimo na cultura começou antes da independência, ainda na luta de libertação nacional.

“A Frelimo, na altura, decidiu claramente que a luta de libertação nacional não era apenas uma luta militar; era também uma luta para aprendermos a produzir, para aprendermos a valorizar a educação, mas, sobretudo, fazer da cultura um elemento de ligação entre todos os moçambicanos que vinham de todas as províncias moçambicanas, mas que não falavam a mesma língua. A primeira forma de união foram as manifestações culturais”, recordou Graça Machel.

 

O escritor Álvaro Carmo Vaz lança, às 17 horas desta quinta-feira, na Biblioteca Central da Universidade Pedagógica de Maputo, o livro Os lobos: uma família goesa.

Em geral, o livro traz Caetano Lobo, um jovem goês que emigra para Moçambique, nos anos 40 do século XX, com a ambição de fazer fortuna. Depois, de trabalhar para uma companhia agrária da Zambézia, estabelece-se por conta própria em Quelimane, com a ajuda da mulher e do dote que esta lhe traz.

Na sequência, Caetano Lobo prospera, faz filhos e adora a mais nova, chamada Aurora. Algum tempo depois, a família muda-se para Lourenço Marques e continua a enriquecer. Caetano Lobo, brâmane, mantém o preconceito trazido de Goa, contra pessoas de castas consideradas inferirores, particularmente os sudras, o que o leva a rejeitar o convívio com uma família goesa, os Xavier.
Quando a Aurora e o jovem Bruno Xavier se apaixonam, ocorre a tragédia que marca as duas famílias.

Conforme se pode ler na contracapa do romance, Os lobos: uma família goesa, de Álvaro Carmo Vaz, é uma saga familiar, que percorre quatro décadas da vida em Moçambique, período pontuado por importantes acontecimentos externos e internos, como a segunda guerra mundial, as independências dos países africanos, a tomada de Goa pela Índia, as lutas de libertação pelas colónias portuguesas, o 25 de Abril, a independência de Moçambique e os primeiros anos que se lhe seguiram, que foram determinantes para as vidas e opções dos protagonistas.

A nova proposta literária de Álvaro Carmo Vaz será apresentada por Rui Fernandes, sob a chancela da Alcance Editores.
Álvaro Carmo Vaz também é autor de Um rapaz tranquilo e Aqui há ópera?

Elcides Carlos é daqueles músicos cujo tempo deu-lhe o bónus da criatividade e maturidade, é daqueles músicos, que desde cedo já conhecia o caminho a trilhar, ainda em tenra idade, convivia e ouvia grandes vozes e exímios instrumentistas de várias latitudes musicais: James Brown, Martinho da Vila, Manu Dibango, Steve Kekana, Fany Mpfumo, entre outros.

 

Elcides Carlos cujo percurso todos somos testemunhas, além das suas qualificações especificas, o impar dedilhar, a voz que nos surpreende no tema Mhango, a contar com a bela participação do timbileiro Cheny Wa Gune, uma perfeita ligação ao universo tradicional e ao teatro, cujas falas tem o actor Horácio Guiamba como edificador de outras margens, merece também menção o tema Ni Wa Makhombo. original de Fany Mpfumo, com uma soberba revisitação na guitarra pelo líder Elcides Carlos e o saxofone de Drew Zaremba.

Aliás, todo disco é um pacto poético-musical, sempre perto das grandes linhas melódicas, onde cada música procura a beleza da sua estrela clarividente. Elcides debuta um desconhecido letrista de inúmeras referencias e matrizes universais, como Djavan, Caetano Veloso e o poeta de Celso C. Cossa, só para citar alguns. Ao convocar o tema Sedução, nas fantásticas vozes de André Sansi e Sheila Malijane e Dietas da moda, na vertiginosa e intensa presença de Bhaka Yafole, ilustramos também a outra face de Elcides Carlos, sempre apagada pelo guitarrista. Todo este rosto, diria mascarado, uma outra e nova paisagem, deixando per si, uma espécie de “revanche” com os seus contemporâneos, tornando-se no mais plural, identitário, nacional e universal álbum dos últimos anos lançado após o confinamento em Moçambique.

A qualidade do álbum corresponde também aos 18 anos de aprendizado e a consequente afirmação no cenário musical nacional e internacional, devolvendo-lhe o seu lugar predilecto no mundo do jazz. SENSE OF PRESENCE é feito de uma genialidade que gera consensos e algumas paixões inesperadas, a pluralidade do seu valor simbólico e a visibilidade dos trilhos do seu eterno mestre e professor João Cabral, o percursor do seu trajecto musical, tendo a guitarra como o seu porto seguro e o jazz como seu horizonte.

Estamos certos, que o facto de contar com grandes participações nacionais e internacionais, dá uma fusão única de sonoridades diferentes, um prodigioso fenómeno uníssono, multiplicando-se mutuamente nas 12 faixas que compõem o álbum. Há um reencontro interminável, uma interessante encruzilhada de culturas e harmonias: entre o jazz, o afro, a rumba, bossa nova, timbila e marrabenta.

Por outro lado, o contraponto poético e o pensamento holístico, equilibram as 12 faixas, com os dedos e a voz assentes na constelação tradicional, unanimemente consideradas matérias nucleares de todas as composições. São também uma presença segura, os habituais companheiros musicais, outros desconhecidos do publico moçambicano e outros conhecidos:
Realdo Salato (baixo e arranjos), Tony Paco (bateria e percussão), Stélio Zoe (bateria), Nelson Manjate (percussão), Deodato Siquir (bateria, percussão e voz), Pappy Miranda (teclados), Nicoulau Cauaneque (teclados), Sheila Malijane (voz), Pauleta Muholove (voz), Cheny Wa Gune (timbila), Bhaka Yafole (voz), Radjha Ali (voz), e Edmundo Matsielane (voz).
A nível internacional, o álbum contou com Drew Zaremba (sopros, hammond organ, USA), Etienne Stadwjik (EUA), André Sansi (Brasi), Riquinho Fidelis (percussão, Brasil), Eloi Brito (bandolim, Brasil), Rosário Giuliane (alto sax, Itália), Valentina Bartoli (hamond organ, Itália), Mario Avesani (sopros, Itália), Valery Stepanov (teclados, Russia), Dylan Roman (teclados, RSA), Ernie Smith ( guitarra e voz, RSA), Madova Mbemba (voz, Congo) e Ekaterine James (violino, Cuba).

 

Por: Amosse Mucavele

Por: Cremildo Bahule
Para ver e ouvir Jazz na cidade de Maputo já não precisamos entrar em bisbilhotices. Todos os fins-de-semana, ou sensivelmente todos, temos um local onde podemos tresvariar com um músico de Jazz, um guitarrista de Jazz, um baixista de Jazz, um pianista de Jazz, um intérprete ou uma banda de Jazz. Uff: é muito Jazz. A correnteza do Jazz capturou os bairros, os bares e as noites de Maputo e Matola. (Falo do meu habitat, pois não tenho o pulsar das outras cidades do país). Queiramos ou não, o circuito do Jazz vai se consolidando na província de Maputo. Um dos exemplos de consubstanciação deste género musical é o retorno, depois de quase uma década de interrupção, do Matola Jazz Festival que ocorreu no pretérito fim-de-semana, 16 de Setembro de 2023. (O munícipe não deve viver, apenas, do my-love e da taxa-de-lixo).
Ao abonarmos que a fiada do Jazz moçambicano está cada vez mais robusto estamos a assumir, naturalmente, que os seus principais actores – músicos e protagonistas do Jazz, no geral – estão pujantes em partilhar as suas obras. Tal vigorosidade artística, vemos em forma de produtos discográficos e, sobretudo, em palco. É no fragmento da apresentação em palco e no espectáculo que sigo, peculiarmente, a palmilha do músico Elcides Carlos. Assim faço por três razões. Primeira razão e óbvia: estou magnetizado pelo seu disco de estreia «Sense of Presence» (2022); com este disco vi-o em concerto, primeira vez, no dia 30 de Abril de 2022, na IV Edição do Jazz no Franco. Segunda causa: perseverança em composições de Jazz que justapõem-se com componentes da música popular moçambicana, urbana ou folclórica. Se, verdadeiramente, queremos definir e qualificar todas os marcos idiomáticos do Jazz «que se quer moçambicano», devemos ter em conta esses detalhes – e.g., «Mhango» (no disco tem a participação de Cheny Wagune). Terceira e último móbil: para Elcides Carlos a construção rítmica é tão importante quanto a construção harmónica; por isso, ele traçou um mapa harmónico, tendo em conta o número de mudanças de acordes por compasso, que lhe permite desenvolver uma improvisação ao longo de uma ou mais voltas na estrutura das suas composições – e.g., «O Que Seria» (no disco tem a participação de Rosário Giuliani) e «Ha Fana» (no disco tem a participação de Radjha Ali & Drew Zaremba). Estou ciente que este raciocínio, de um professor da 4.ª Classe, poderá ser divergente de um professor de música ou de um crítico acérrimo de Jazz. Porém, em alguma realidade iremos concordar: a música de Elcides Carlos responde aos procedimentos harmónicos dos seus contemporâneos e alicerça, substancialmente, a corrente do Jazz que oferece vida à cidade de Maputo.
Esta poesia incómoda é um presságio, positivista, e um convite para o próximo espectáculo de divulgação do disco «Sense of Presence». Depois do «In a Soulfoul & Vibrant Afro Jazz Night», realizado no dia 30 de Junho de 2023, na Galeria do Porto de Maputo, o músico quer oferecer-nos «Jazz Aboard», no dia 29 de Setembro de 2023, no Centro Cultural Franco-Moçambicano. O «Jazz Aboard» tem um único propósito: partilhar e certificar o trajecto vivificante do Jazz de Elcides Carlos. Para mim, será o fecho da trilogia que começou na IV Edição do Jazz no Franco, 2022. Por isso, não sei se existem prognósticos no Jazz, gostava de sentir e contemplar um concerto articulado, enérgico, agradável e, sobretudo, majestoso. As minhas suposições poderão ser certeiras pois no «Jazz Aboard» teremos três convidados: o guitarrista João Cabral (que editou o seu segundo disco, «Walks Life» (2023), depois de «River of Dreams» (2007) – irei camuflar a parte da irmandade entre Elcides Carlos e João Cabral –, a cantora Lalah Mahigo (que já tem um disco de estreia, «Kutikuma» (2022) e o compositor e intérprete Bhaka Yafole (dono de um solfejo fantástico). Para marear o «Jazz Aboard», Elcides Carlos trauteará com Tony Paco (bateria), Lelas Mavie (baixo), Nicolau Cauneque (teclados), Sarmento de Cristo (saxofones), Fernando Morte (percussão), Sheila Malijane e Gilson Marqueza (coros & vozes).
Quero cessar este palavreado mordido reafirmando o convite para juntos comprovarmos a ascensão de «Sense of Presence». A fiada do nosso Jazz é feito de iniciativas como «Jazz Aboard» que ajudam-nos a alicerçar o quão importante são os moldes vitais do Jazz moçambicano. Está consumado o convite para assimilarmos, por meio do «Jazz Aboard» (ramificação do «Sense of Presence»), o idioma musical de Elcides Carlos. Se não obtermos nenhuma compreensão, visto que o Jazz é de difícil percepção, usufruiremos, ao menos, a sensação de estar a abordo por meio do Jazz e do «Sense of Presence»!
P.S.: subscrevam-se ao canal do Elcides Carlos no YouTube e acompanhem a série: «Talking Jazz». É uma lauda que fala das bases e essência do Jazz, como aprender a improvisar, os melhores solos de Jazz & Cia. Abre espaço para perguntas, partilha de material didáctico e recomendações variadas sobre o Jazz nacional e internacional. [www.elcidescarlos.com].

O Ministro dos Transportes e Comunicações reagiu, hoje, às denúncias sobre alegada má gestão na LAM pela antiga administração da empresa. Na ocasião, Mateus Magala disse confiar nos gestores da companhia aérea. Os antigos gestores da firma são indiciados de praticar actos de corrupção.

Cinco meses depois de a empresa sul-africana, Fly Modern Ark, ter sido confiada à gestão da empresa Linhas Aéreas de Moçambique, o director-executivo da firma denunciou casos de corrupção e de má gestão por parte dos anteriores administradores.

Nesta sexta-feira, o jornal O País confrontou o ministro dos Transportes e Comunicações com as alegações. Na ocasião, Mateus Magala disse confiar nos referidos gestores.

Entre outras situações reveladas pelo director-executivo da Fly Modern Ark, está um alegado aumento do salário mensal dos administradores no valor de 100 mil Meticais, uma decisão tomada pela antiga administração em Janeiro último.

No verso da cicatriz, de Bento Baloi, e Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, são os livros laureados na primeira edição do Prémio Literário Mia Couto. O primeiro livro distingiu-se no género romance e o segundo no género poesia. O anúncio foi feito esta quinta-feira à noite, na Cidade da Beira.

A cerimónia do anúncio dos vencedores da primeira edição do Prémio Literário Mia Couto foi marcada para 17 horas desta quinta-feira, na Casa do Artista, na Cidade da Beira. Por motivos profissionais, Bento Baloi não pôde viajar de Tete, onde vive e trabalha, para Beira, local onde a Associação Kulemaba e a Cornelder de Moçambique organizaram a iniciativa que pretende estimular a produção literária.

Assim, para não pensar na cerimónia ou algo assim, o escritor foi jogar voleibol com amigos, na Escola Secundária de Tete. Depois de umas horas de entrega ao desporto, sim, chegou a casa, pegou no telemóvel e reparou que tinha perdido muitas chamadas. Também reparou que tinha muitas mensagens por ler. Abriu a primeira e ficou a saber que era o grande vencedor do género romance, na primeira edição do Prémio Literário Mia Couto.

Entre o momento que leu a mensagem e a expectativa entre o que se iria seguir, Bento Baloi pensou em todos aqueles que, com edição, conversas, conselhos e ideias, contribuiram para que o seu No verso da cicatriz se tornasse uma boa ficção. “A todos os que contribuiram para que o livro fosse possível, eu agradeço com muito apreço”.

Segundo confessou Bento Baloi, sente-se muito satisfeito por ter conquistado um prémio prestigiante. “Este é o meu terceiro livro e, pela primeira vez, ganho um prémio literário. Nós, como autores, nunca pensamos nos prémios, mas, claramente, este reconhecimento nos dá força para continuarmos a trabalhar mais”.

Dito isso, Bento Baloi acrescentou que, com a distinção, espera que o seu terceiro livro (segundo romance) possa atrair o interesse de mais leitores.

“No verso da cicatriz, de Bento Baloi, é um romance que desafia não só as crenças e o horizonte de expectativas do leitor, mas a sua sensibilidade e a sua estabilidade emocional. O efeito catártico da narração se impõe de forma inapelável, convocando a dor, o sofrimento, o drama humano, a desilusão e a degeneração dos valores sociais”, refere uma nota de imprensa do Prémio Literário Mia Couto.

Ao contrário de Bento Baloi, Belmiro Mouzinho conseguiu viajar de Nacala, onde vive, até à Cidade da Beira. Chegou na manhã desta quinta-feira e participou na cerimónia do anúncio dos vencedores da primeira edição do Prémio Literário Mia Couto.

Pétalas negras ou a sombra do inanimado é o seu primeiro livro. Escreveu em 2021, em menos de 12 meses. Também por isso, Belmiro Mouzinho sente-se privilegiado por conquistar um prémio na sua estreia em livro. “Claro que isto traz uma grande motivação, já que comecei a escrever há muito tempo. Sinto-me feliz por ter sido abençoado por esta oportunidade”.

Com o prémio, “A expectativa está alta e sinto que tenho de trabalhar muito mais. Mas hoje recebi um conselho sábio, sobre trabalhar sem pressa. Tenho muitos trabalhos, mas não vou publicar tão já. Vou aprimorar para que sejam ainda melhores do que este que foi premiado”.
“Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, é um livro de poesia que reflecte o encanto que a arte do verso exerce na vida do poeta, pois, para si, tudo o que as pessoas vêem e tocam, tem poesia. Nesta sua estreia em livro, Belmiro Mouzinho assume-se como um poeta rebelde e inconformado. Em parte, isso corresponde à sua maneira de ver as coisas à sua volta”, avança uma nota de imprensa sobre o prémio.

Com a distinção, Bento Baloi e Belmiro Mouzinho recebem, cada 400 mil meticais.

A DECISÃO DO JÚRI

A primeira edição do Prémio Literário Mia Couto teve como membros do júri Francisco Noa (Presidente), Fátima Mendonça, Teresa Manjate, Tânia Macedo e Daniel da Costa, que, para a avaliação das obras concorrentes, estabeleceram os seguintes critérios: Criatividade, Domínio técnico, Correcção linguística e Densidade.

Assim, segundo o júri, o romance No verso da cicatriz destaca-se por ser um livro corajoso e muito bem escrito, apresentando a estruturação do enredo premissas bem delineadas, conflitos definidos de maneira que a História e as estórias se entrelaçam perfeitamente. Destaca-se o facto de esta corajosa narrativa se inspirar em sombrios acontecimentos ocorridos em Moçambique, logo após a Independência (encarceramento das Testemunhas de Jeová, Operação Produção e Guerra dos 16 anos), alguns dos quais remetidos ao esquecimento ou rasurados. Ao fazê-lo, acrescenta o júri, o autor, através de procedimentos narrativos bem conseguidos, transformou essa realidade empírica numa odisseia densa e dramática, de poderoso efeito catártico.

Quanto a Pétalas negras ou a sombra do inanimado, seguno a acta do júri, destaca-se por apresentar-se em termos de singularidade criativa, herdeiro da modernidade literária, com versos longos a desenharem um mundo muitas vezes desencantado, onde a concretização do desejo nem sempre é sinónimo de encontros. Trata-se de uma poesia com uma marcada profundidade temática bem como a nível da construção poética, em que se reconhece uma escrita cuidada, densidade interpelativa, dados os questionamentos existenciais aliados a uma crítica sociopolítica e dos costumes muito subtil, mas corrosiva, maturidade na articulação entre palavra e pensamento e um investimento estético assinalável traduzido em imagens de belo efeito.

SOBRE OS AUTORES

Bento Baloi nasceu em 1968 no Vieira, bairro de Maxaquene, cidade de Maputo. Fez iniciação literária escrevendo contos e poemas publicados em páginas de especialidade de revistas e jornais moçambicanos. Dedicou parte significativa da sua carreira ao teatro escrevendo, dirigindo e interpretando papéis em peças, tanto de palco como de rádio. São da sua autoria as peças de teatro «Lágrimas»; «Grito Humano»; «Adão e Eva, Ámen»; «Alarme»; «Katina P, o Flagelo». Escreveu os bailados «O Filho do Povo» e «Raízes e Percursos», encenados por Pérola Jaime. Recados da Alma é o seu romance de estreia e foi publicado em 2016. Publicou pela Índico Editores em 2021, o livro de crónicas Arca de Não É, com relatos do drama vivido a quando do ciclone Idai, na cidade da Beira.
Belmiro Mouzinho nasceu a 07 de Maio de 1994, na Cidade de Quelimane, Província da Zambézia. É um dos membros fundadores do Círculo Académico de Letras e Arte de Moçambique. É estudante de Engenharia Eléctrica no Instituto Superior Politécnico e Universitário de Nacala. Tem participação em diversas antologias internacionais publicadas no Brasil. Inspira-se na poesia de Florbela Espanca.

Na quarta-feira da próxima semana, às 18 horas, no Átrio dos Paços do Município de Maputo, a Cavalo do Mar Edições vai realizar uma sessão de apresentação pública do livro A minha história, um livro autobiográfico da autoria de Virgínia Tembe.

A minha história será apresentado pelo escritor e professor universitário Lucílio Manjate, numa sessão que vai contar com leituras na voz da actriz Joana Mbalango e com proposta musical da cantora Mingas.

Para além de narrar o percurso pessoal da autora como nacionalista e o seu engajamento em diferentes etapas da luta clandestina, no Sul de Moçambique, A minha história é um olhar sobre diversos eventos críticos da história contemporânea do país.

Conforme sugere o poeta Mbate Pedro, autor do prefácio, o livro A minha história é importante porque ajuda a perceber o papel da mulher moçambicana na luta clandestina contra a opressão colonial portuguesa. Avança o poeta e editor: “A autora deste livro, minha mãe, tal como outras mulheres suas contemporâneas, teve um papel activo no duplo anseio da independência e emancipação, travando essas duas batalhas em paralelo. Poucos livros publicados até agora fazem uma clara menção ao importante papel da mulher na frente clandestina no Sul do nosso país, não obstante a mulher ter vivido intensamente os vários momentos da confrontação anticolonial”.

Além de Virgínia Tembe descrever a sua trajectória de vida e o seu papel na luta de libertação nacional, no seu livro vem demonstrar que a participação da mulher na rede clandestina no Sul de Moçambique vai para além de um papel inferior, circunscrito ao espaço doméstico. Ela, a mulher, tal como o seu companheiro, o homem, foi protagonista da proeza nacionalista e operou nos grandes palcos da luta pela independência nacional.

Em A minha história, livro de memórias, a autora narra o seu percurso pessoal como nacionalista e o seu engajamento em diferentes etapas da luta clandestina, incluindo a sua participação em várias discussões políticas, lado a lado com outros militantes homens. Portanto, trata-se de um livro que recupera parte importante do passado de Moçambique, mergulhado na longa noite colonial, numa viagem anacrónica que incide em vivência de um tempo difícil, mas que não se deve esquecer.

Virgínia Tembe foi militante na clandestinidade contra o regime colonial português, antiga presa política, enfermeira e humanista. Nasceu em 1938, na localidade de Denguene, na Província de Gaza. Foi refugiada política na Suazilândia e, integrada no chamado “Grupo dos 75”, foi raptada e detida na África do Sul, a caminho do Tanganyika, pela BOSS, polícia secreta sul-africana. Entregue à PIDE, permaneceu em reclusão cerca de quatro anos, primeiro no Campo de Concentração de Mabalane e, mais tarde, na Cadeia da Sommerschield, em Lourenço Marques.
Após a independência de Moçambique, retirou-se da vida política activa. Na qualidade de profissional de saúde, trabalhou em vários hospitais e serviços de saúde dispersos pelo país, oferecendo os seus cuidados de enfermagem aos mais vulneráveis, com destaque para mulheres grávidas e crianças.

A Cornelder de Moçambique e a Associação Kulemba anunciam, esta quinta-feira, na Cidade da Beira, os grandes vencedores da primeira edição do Prémio Literário Mia Couto. A iniciativa pretende estimular a produção literária de qualidade em Moçambique, distinguindo as melhores obras publicadas anualmente.

Eduardo Quive, Belmiro Mouzinho, Amosse Mucavele, Deusa de África, Sónia Sultuane e Bento Baloi são alguns dos escritores que concorrerem nesta primeira edição do Prémio Literário Mia Couto, refere uma nota de imprensa enviada ao “O País”.

O anúncio das obras vencedoras será feito durante a Feira do Livro da Beira (FLIB 2023), que decorre entre 20 e 23 deste mês de Setembro. Cada vencedor do Prémio Literário Mia Couto vai receber 400.000 MZN (quatrocentos mil meticais).

Nesta edição inaugural, o Prémio Literário Mia Couto tem como membros de júri Francisco Noa, Fátima Mendonça, Teresa Manjate, Tânia Macedo e Daniel da Costa.

José Jalane, Osvaldo Passirivo e Dinis Quilavei são os três bailarinos moçambicanos que, entre 5 e 8  Outubro, no Teatro Nacional São João, em Portugal, vão actuar na estreia do espectáculo “Bantu”, que assinala  os 20 anos de criação artística de Victor Hugo Pontes. “‘Bantu’ rasura a distância entre dois continentes e entre linguagens distintas, arriscando a invenção de um lugar partilhado e de uma língua celebratória comum”, lê-se na nota de imprensa.

Bantu designa uma família de línguas faladas na África Subsariana, o que significa que representa muito mais do que uma ocorrência linguística. Pode ser também uma linguagem própria que sobreviveu às línguas europeias impostas; um mecanismo identitário; um signo vedado ao colonizador; uma forma de comunicação, com códigos culturais, históricos, religiosos e políticos próprios; e, sobretudo, a materialização efémera de um longo encontro.

“Bantu, o título, acolhe tudo o que queremos ou imaginamos que Bantu, o espectáculo, seja. Se da língua que falamos vemos o mundo que nos cabe, das diferentes geografias que ocupamos – num país ou num palco –, temos diferentes perspectivas do mesmo mundo – assim, nunca poderemos falar a mesma língua, ver as mesmas coisas, ou chegar aos mesmos lugares. Em Bantu, Victor Hugo Pontes percorre o caminho oposto e vai ao encontro de uma língua despida de palavras, mas universal”, lê-se na nota de imprensa sobre o espectáculo.

Bantu é um caminho por traçar, e o percurso será feito entre Moçambique e Portugal, dois países com afinidades complexas e memórias profundas um do outro.

Bantu teve origem num convite endereçado a Victor Hugo Pontes pela OPART / Estúdios Victor Córdon e pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo, para o desenvolvimento de uma nova criação de dança contemporânea com intérpretes moçambicanos e portugueses. Os EVC e o Camões – Maputo são parceiros numa programação que visa criar pontes entre Portugal e Moçambique.

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