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O País – A verdade como notícia

74 pessoas na sala. Glória Hotel. Cidade de Maputo. Entre os convidados, 62 almas acompanham, sentadas, a cerimónia organizada pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) em parceria com a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). As outras 12 esmeram-se nas filmagens, a reposicionar os microfones ou a afinar o som, sempre em constantes movimentos à busca da perfeição.

Em algum lugar da sala, autores, editores e jornalistas sussurram palavras quase ininteligíveis: Quem será? Escutamos ao mesmo tempo que reparamos nos eventuais candidatos ao Prémio José Craveirinha. A resposta vem de um repórter que, depois de um raio x a cada autor presente, conclui que adivinhar não é assim tão difícil, quando a palavra mérito faz todo sentido…

Marcelo Panguana. Sentando mais ou menos na quinta fila, do lado esquerdo da sala, do lado esquerdo também tem a sua esposa Helena Cumbe.

Enquanto o evento acontece, com a competente mestre-de-cerimónia que é Julieta Mussanhane, os convidados vão-se cumprimentando como podem. Geralmente à distância, entre olhares e sorrisos. Detrás da sala, vimos tudo e ainda mergulhamos na expectativa das pessoas. De vez em quando, os celulares saem do bolso ou da bolsa para a carga ser avaliada, afinal, no derradeiro instante, ninguém quer ficar para trás.

Enquanto a cerimónia avança, com os habituais discursos protocolares, que, nesses casos, parecem truques para prolongar a ansiedade, de vez em quando as pessoas vão mudando de lugar como quem pretende o melhor ângulo para a fotografia. Claro, nas primeiras filas é que não há nada disso, pois a família Craveirinha (bem representada pelo filho do poeta), o representante da HCB e a presidente do júri cumprem o protocolo de estarem serenos e quietos.

Avaliamos então o suspeito da noite. No mesmo lugar, com a perna direita cruzada sobre a esquerda, está ali um maronga gingão fino, bem a lembrar-nos o Cabaço. Aparentemente, Marcelo fingi que não sabe o que vai acontecer dentro de instantes. Sereno e com ar de boa gente como marca, vai acompanhando a cerimónia feito um sujeito da reconciliação, conforme diria Castiano. Às vezes, apreciando a esposa num de gesto de amor manifesto em silêncio. Helena Cumbe não é ingénua. Aquela mulher, com quem se conversa facilmente, compreende o que o esposo pretende transmitir e ela retribui com a mesma intensidade no olhar. Até aí, entretanto, ambos evitam contactos físicos e, talvez, assim conseguem ficar invisíveis à maioria (mas não ao jornalista que escreve esta crónica).

Palavreados à parte. Perto das 18 horas deste 31 de Agosto, o dia em que a AEMO celebrou 41 anos de existência, finalmente, Julieta Mussanhane convida a presidente do júri do Prémio José Craveirinha para anunciar o autor laureado nesta edição. Os operadores de câmara precipitam-se a encontrar o melhor lugar para filmar e as conversas, de repetente, cessam em toda a sala. É obviamente o momento mais aguardado…

Sara Jona Laisse, uma 7 de Abril gira e que transborda elegância, levanta-se e dá uns 10 passos até ao pódio. No entanto, mal começa a falar, tem de esquecer a acta por alguns minutinhos, pois o Governo de Moçambique não quer perder o momento. A ensaísta anuncia a entrada de Sua Excelência Eldevina Materula, que, naquele passo acelerado típico dos governantes, entra pela sala sorridente e ainda pisca-nos um olho a cumprimentar com simpatia. – Remédios, como estás? Os ajudantes de campo não cedem muitos espaços e só conseguimos retribuir com o mesmo afecto estampado no rosto. – Estamos bem! Isso já não foi possível dizer.

A Ministra chega à zona nobre da sala, onde também se encontra o Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona. Senta-se e, com todo o protocolo observado, os convidados também imitam o gesto. Por isso, Sara Jona Laisse começa a ler a acta do júri, em alguns momentos, meio em jeito de defesa, quiçá porque a coisa dos prémios em Moçambique é complexa:

A atribuição de um prémio literário acarreta sempre um elevado grau de subjectividade e a esperança de recolha de unanimidade é uma utopia.

Disse Sara Jona Laisse, acrescentando que, entretanto, o júri teve o privilégio de sair do primeiro encontro de trabalho com uma espécie de consenso em relação ao autor a ser laureado. Assim, no dia 24 de Agosto, o júri decidiu atribuir, por unanimidade, o Prémio Carreira José Craveirinha de Literatura a… (Sara Jona Laisse ainda provoca uma pausa de suspense): Marcelo Panguana.

Aí os celulares saem da cartola. Num gesto de mágica, poetas, escritores, editores, leitores, incluindo os velhotes que até antes de ontem não sabiam atender uma chamada num smartphone, poem-se a filmar, atrapalhados porque também batem palmas. Portanto, as filmagens e as fotografias não devem ter sido grande coisa. Claro, Sara Jona Laisse interrompe a leitura da acta por uns três minutos. A sala está muito alegre. O júri tinha feito justamente o que os presentes, aparentemente, queriam.

Calor humano. Marcelo Panguana imita o gesto e também bate palmas com algum fervor. Sentado. Com a perna cruzada de um maronga gingão. Depois, a cereja em cima do bolo. Vira-se para a esposa e beija-a várias vezes. Contagiante. Só falta kulungwanas, mas os escritores parece que são péssimos quanto aos exercícios com a língua. Tudo resume-se às mãos. Então aumenta a intensidade das palmas, deixando Marcelo Panguana constrangido. Tenta disfarçar, todavia não consegue. A presidente do júri, com efeito, salva o autor de Como um louco ao fim da tarde porque volta a ler a acta, apontando para os argumentos da escolha:

– Na escolha do júri e, para além dos critérios regulamentados, indicadores como humanismo, activismo e associativismo, produção jornalística e editorial, apadrinhamento de escritores, participação em causas e projectos sociais e respeito pelo ser humano, foram tidos em conta e com igual peso dos critérios do regulamento.

E o júri (Sara Jona Laisse, Jorge Ferrão, Manuel Tomé, Aíssa Mithá e Frederico Jamisse) ainda acrescenta:

– Marcelo Panguana constitui, para o júri do Prémio Carreira José Craveirinha, edição 2023, um dos maiores e completos e complexos expoentes da literatura moçambicana tendo já publicado nos géneros e formas como poesia, conto, crónica, romance, literatura infantil, entrevista e ensaio.

Dito isso, Marcelo Panguana é chamado ao palco. Levanta-se. Beija novamente a esposa. Caminha vagarosamente. Passa por vários amigos que filmam… Entre eles, Juvenal Bucuane e Ídasse. Chega ao pódio atrapalhado. Já está diante do microfone, mas não sabe o que dizer. Atrapalha-se ainda mais. Agora está a transpirar. Pensa tirar o casaco preto, mas lembra-se que ali se encontra a Ministra da Cultura e Turismo. Então o jornalista é o único que sabe dessa precaução.

Fala. Não diz nada de concreto. Mas a voz é boa de se ouvir. Mesmo quando não diz nada de grandioso, Marcelo é um homem fino, fácil de amar e respeitar. Algumas jovens bonitas apreciam o escritor com um olhar feroz! Se não for pela elegância e inteligência que transparece, o que não fazem 25 mil dólares, minhas senhoras e meus senhores?

Marcelo, entretanto, não pensa no dinheiro. Agradece a Deus pelo dom da vida e pelas bênçãos; agradece à AEMO e à HCB; agradece aos seus confrades e, sobretudo, à sua esposa, “a mais bela entre todas as coisas!”. Ela não é distraída. Marca presença na sala, agora, levantando a mão direita, como quem diz: Se ainda não perceberam, sou eu a esposa dele.

Palmas. Fotos. Filmagens. Neste instante, Marcelo Panguana deve estar a ouvir Stairway to heaven, dos Led Zeppelin. O Olimpo é seu. Improvisa e acerta. Depois, tenta ir sentar-se. Qual sentar qual quê… Os amigos e confrades de sempre abraçam o homem com entusiamos e etc. De ciúmes não estamos a tratar. Poderiam ter dito.

Celebração total.

A Ministra da Cultura e Turismo começa a intervir. Percebe que tem de esperar. É atenta. Um político aparvalhado continuaria a falar ou a ler mesmo sem condições para isso. Eldevina Materula, habituada ao meio artístico, ajuda a colorir a festa mantendo os holofotes em Marcelo Panguana.

Ao fim de uns quatro minutos depois de abandonar o pódio, o escritor abraça com paixão a esposa. A Ministra logo remata: Fotógrafos, não percam esse momento. Não perdem. Registam o abraço até que o laureado volta a sentar-se. É então que a Ministra defende a necessidade de se celebrar Marcelo Panguana. Os convidados concordam. Tanto que, no final da cerimónia, já em voz audível, repetem: Fez-se justiça! Parece que as coisas estão a mudar!

 

O poeta Elísio Miambo lança, esta quinta-feira, 17 horas, no Instituto Guimarães Rosa, na Cidade de Maputo, o livro Brumas desfeitas, clausuras desnudadas, de Elísio Miambo.

Segundo se observa no prefácio, no seu novo livro, Elísio Miambo apresenta-se como um alquimista das letras e arrisca-se livremente em versos densos e profundos. De acordo com o prefaciador, Sílvio Ruiz Paradiso, no livro do poeta capta-se um eu-lírico habitado por muitos, cujo criador se divide em dois: um moderno e um clássico. O produto final é um texto que estranhamente desliga o leitor do mundo visível, o que conduz a um mundo de imagens criadas pelo lirismo reflexivo, em que desfia temas subjectivos, ontológicos e introspectivos.

No Instituto Guimarães Rosa, Brumas desfeitas, clausuras desnudadas será apresentado por Aurélio Ginja.

O livro de Elísio Miambo foi seleccionado na segunda chamada literária da Editorial Fundza 2022/23. É um livro sobre a carga emocional, pois o eu-lírico, tal qual o herói trágico, passa de felicidades e infelicidades ao longo dos poemas. Consequentemente, os textos permitem a quem lê viver um conjunto de experiências que se mesclam no tamanho do verso.

Elísio Miambo é escritor, ensaísta e docente inserido na Associação Cultural Xitende, um movimento cultural que dinamiza a literatura na Cidade de Xai-Xai. Tem textos publicados nos jornais O País e Notícias, no blog RectasLetras (no qual cria e administra conteúdos), Revista Mapas do Confinamento e em diversas antologias. Co-organizou duas Antologias poéticas: Vozes do Hinterland (2014) & No cais do amor (2022). Em 2020, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado Retroalimentações do Ego.

O livro de Miambo foi seleccionado na segunda chamada literária da Editorial Fundza.

Um ensaio sobre “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas”, de Elísio Miambo”
Por Deusa d’Africa

 

Elísio Miambo oferece-nos “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” em poesia, pela Editorial Fundza, um livro que divide-se em três partes: primeiro acto designado catarse, e Segundo acto desigado kiini e por fim, epístolas. O poeta apresenta este drama poético que purifica-nos a cada cena que o autor representa a cada um de nós nesta poesia.

Na escrita de Elísio Miambo, vê-se o escritor e o movimento dos objectos por via do uso das imagens que movem os sentimentos e os objectos. Vide o excerto da página 16, “sento-me rente à escrivaninha”. Assim começa o movimento do poeta diante do objecto que se move por via das palavras, move o escritor e o que lê.

O poeta fala a língua da fé, cita Saramago para iluminar as palavras de largos horizontes neste engenho que é a arte de escrever em que o autor é resiliente no ofício que outros desfloram. O Poeta começa o seu exercício de escrita cantando e dedicando aos seus irmãos de Xitende, vê-se a prior pela dedicatória feita: “aos meus, do Xitende”; pela menção feita ao belísimo poema de Andes Chivangue “Alma Trancada Entre os Dentes”, pelo romance sagaz de Dom Midó das Dores “A Biblia dos pretos”, pela “Equidade no Reino Celestial” de Deusa d’Africa, pelas “ilusões” (romance intitulado Ilusão à Primeira Vista) de Almeida Cumbane e pela “A ilha dos mulatos” de Sérgio Raimundo. Faz alusão ao escritor Milan Kundera “a insustentável leveza do ser”, cujas técnicas se reverberam em múltiplos sentimentos adiante apresentados. Cita o Fernando Pessoa no seu poema “Fingidor”, autor considerado como uma tradição que se segue na Xitende e as dúbias de Anterro de Quental. Nota-se neste primeiro poema um panegírico em que são cantados os seus irmãos e mestres. Ele mostra que não é só, na solidão de sua alma que devaneia em noites na escrivaninha, o poeta é um conjunto de seus. Vide o excerto da pág 17, “ler é deitar-se de costas numa caixa de espelhos..(…)…Ressonância de expurgação de brumas e escancaro clausuras”.

Com esta poesia o autor nos empresta as chaves para escancarar as clausuras e expurgar as brumas, afinal, que se desfaçam todas as brumas tecidas para que a paz floresça nas famílias de todas as nações. Revisto-me de curandeira que lê a sorte lançada pelo poeta, nesta escrita onde um sonho revestido de metáforas e metalinguagens se oculta, mas porque ninguém se oculta dos ósculos e de sua crença revelo: o poeta sonha com a paz para todos, Homens mais humanos e um mundo aberto para todos.

No poema vácuos da página 19, o autor descreve uma rua migrante que tem por dentro, leva-nos às memórias de Noémia de Sousa, a força de sua escrita que fê-la exilar-se em Paris por opor-se ao sistema político que vigorava. Vide o excerto “Fizera Vera Micaia travestir o poema….(…)… o poema traveste o poeta em mim”. Vemos o poeta travestido em vários outros seres e com vários rostos e géneros, o que faz-nos compreender o poder conferido pela poesia ao qual o poeta não se faz de rogado e governa o seu território com afoiteza.

Elisio Miambo, traz-nos o atleta queniano Abel Mutai, que se equivocara confundido a linha de chegada com alguns sinais próximos e que fora salvo pela bondade do espanhol que gritou e levou o Mutai à vitória nos jogos olimpicos de Londres em 2012. A medida que a poesia aqui se tece, o título do livro, ganha mais significação de ser, vide o excerto “nesses rifles por desarmar” ou mesmo brumas por desfazer’’.

No poema “Tratado” da página 20, denota-se como um mero plano pode conduzir uma sociedade ao cume de inverdades na sublimação de um criador sem criatura alguma. Vide, “neste tempo em que a memória infinda a coincidência. Propõe a referência. Ou o intertexto.”

O poeta faz alusão ao marxismo no poema “revelação” da página 21, onde descreve o povo que se reveste nele próprio, colocado sempre em posição dominada diante de um omnipotente que representa o dominador.
De acordo com Paz (2009), o poeta é linguagem em tensão, denota-se este conceito nas imagens deste texto da página 21, “Com Cachimbo em chamas. Um olhar taciturno. Calçoes de Ganga. Rotos. E uma túnica castanha. De linho. Cobrindo o tronco nu. As sandálias com três tiras de couro preto. A barba desfeita e grisalha. Como o pouco cabelo que lhe sobra. Um aroma de incenso à mistura…”

O poema “muedas” da página 22, é um grito de socorro em que o poeta que se vê massacrado na manifestação contra a dominação colonial desta pátria ocorrida em 1960, o massacre de Mueda, um ano que é também de África. Entrelaça a palavra no solo de Mueda, berço da moçambicanidade e também palco actual de incessantes massacres terroristas e não encontra as promessas feitas, o fruto do amor plantado, nele vê-se uma alma rota de um homem que não mais encontra os retalhos com que cobriu uma pátria. Enfurece-se e em prantos exorcisa a terra que quiçá o mundo por ela não se componha. Vide o excerto, “Goteja em mim, quando eu, aos prantos, vou exorcismando o Mueda em que me deixaste. Como se de outros Muedas o mundo não se compusesse.”

Critica as vozes que sopram como os ventos de Agosto em campanhas eleitorais em que se anunciam os planos quinquenais como um tiro dado no escuro mesmo na incerteza. Aqui o poeta revestido de cidadão apela a uma política racional e em conformidade com as necessidades da colectividade que acima de tudo que seja exequível para que esses ventos de Agosto tenham no seu resquício alguns frutos comestíveis. Vejamos na página 23, “como poeira de Agosto. Revigoram-se as vozes (distintas no timbre e siameses na ausência de escala) no íntimo das gotículas da saliva. …votem, votem, votem…dizem. Porque mesmo no escuro. É preciso dar um tiro certeiro….”

O poeta é comprometido com o seu povo, os clichés ofertados em discursatas que não enchem a barriga do povo, desassossegam o autor, que em seu vaticínio anuncia um futuro em que o povo tenha água e luz, para viver condignamente. Neste texto reencontro-me com Oates (2008), que diz que a escrita é a tentativa de captar a voz humana e o poeta Elísio diz que sonhar é voar, encontramos aqui, uma imagem de captura da voz com todos os incensos que perfumam o hálito humano: se grotesco ou nauseabundo como a fome ou mesmo adorável como os manjares da música jazz que enleva a alma, vide a página 25, o poema “pouso” que diz: “como se sonhar não fosse a experiência do voo. Para quem não tem asas. Fiz, pela janela, preces de água, pão e luz. Ao raio de uma estrela cadente…. É preciso ser muito poeta para vaticinar (ao povo) o que não cabe na bolsa de valores”
No poema Sillicon Valley da página 28, abalroamo-nos com uma sociedade feita por oligarquias em que enquanto uns sonham, outros abrem a porta dos sonhos, entram e neles moram, um ready made em que a miséria é uma obra de arte seja em estado de sítio ou lockdown. Vide o excerto, ‘‘edificava-se plurais. Com o ranger de uma porta. Que se abria para o horizonte…”
O poeta, mostra-se preocupado pelo facto de abandonarmos ritmos tradicionais como o “pandza” que alegra e contangia para aceitarmos de tudo e sobretudo aquilo que não é nosso. Homenageia Jimy Dludlu e Elsa Mangue como músicos conducentes à tradição cultural, porque ’’o regresso às raízes se faz peremptório. Sempre que a leveza consciente da maturidade, pesa mais que o peso inconciente da infância’’ página 31.

No poema das páginas 42-43, “além da carne” descreve o que à outrora fora belo como um pensamento-imagem vácuo, sem adornos e questiona a justiça feita diante das desigualdades sociais, questiona a força com que à outrora se fez a busca da liberdade, a mesma força que hoje sucumbe no soalho, porque somos todos mortais, ele cita a sapiência como além do tempo e da carne, mesmo que seja para ser aplicada num ambiente em que o poder oprime ao conhecimento e aplaude a quem se prostra e mendiga a quem expulsa de seu reino ou território. Vide o excerto “resguardo-me neste pensamento-imagem de ti: sem peito, sem quadril, sem bunda….com os teus prantos mortos…libertadora e caçadora de equidades. Arrasas-te ante o brio da carne. Que agora se deita no soalho. Sobrando-te só o intelecto que soçobra sem boia que lhe sustente. Ei-la, portanto, a bruma que te enclausura no pranto das equidades… com que tecidos se tece o baile da equidade, que vive na pedincha por aplausos do opressor”.

Neste poema encontramos nesta poesia que a auto-intitula em fala híbrida ou prosódico, este jogo estético de ser um e tanto outros sem se importar com a forma. Encontramos commumente o povo, numa intensa busca pela equidade nas lutas travadas. Pode se notar que esta poesia é o arquétipo de uma arte interventora, em que o uso da lingua e da metalinguam para a definição dos objectos, o gusto pela música jazz ou blues, pandza ou marrabenta e a força da escrita, faz com que tudo viva para além da matéria que sobrevive para além do tempo quando a força de querer transpõe as barreiras do tempo.

Após a sua estreia em “retrolimentações do ego” em 2020, Elísio Miambo, regressa trazendo um abraço ou aperto de mão como acerto de contas, pois aquiesce-nos pagar as dívidas ocultas desocultando-as ao expurgar as brumas e escancarar as clausuras. Aqui desfazemos as brumas e enclausurmarmo-nos desnudados de todo o poder para que na terra onde encontramos o nosso umbigo, a nossa mãe, vivamos sem nos preocuparmos em lutar pelas facilidades que nos abrem as portas de outros horizontes, apenas sejamos nós mesmos, mais humanos, mais independentes e vivamos a nossa solicitude e uma paz duradoira.

Referências Bibliográficas:
OATES, Joyce Carol. ‘‘A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte’’. Lisboa: Casa das Letras, 2008.
PAZ, Octavio. “Signos em Rotação”. São Paulo: Perspectiva, 2009.

Às 15 horas desta quinta-feira, na Faculdade de Engenharia da Universidade Católica de Chimoio, serão lançadas as obras literárias Estórias trazidas pela ventania (contos), de Adelino Albano Luís, e Deixa-me escrever-te (poesia), de Timóteo Papel.

Segundo uma nota da Editorial Fundza, Estórias trazidas pela ventania é um livro de 25 contos, que, usando uma linguagem simples e coloquial, retrata diversos acontecimentos de fórum social e privado. Por isso mesmo, enquanto lê, o leitor depara-se, não raras vezes, com situações facilmente denotáveis com a realidade de Moçambique.

Ao longo dos enredos dos contos, casas se movem por si mesmas; um natal é comemorado na lixeira; há um sequestro sem um sequestrado; uma psicóloga que precisa ser consolada pela paciente ou um Eusébio que não quer saber de futebol. A proposta literária de Adelino Albano Luís será apresentada por Inocêncio Albino.

Quanto a Deixa-me escrever-te, avança a mesma nota da Editorial Fundza, é uma obra poética rítmica e cantada. O ritmo, que é a característica intrínseca e peculiar da poesia oral africana, evidencia-se nos poemas com maior propriedade. Isto é, o poeta diz a arte em versos e comunga a sacralidade do amor em um recorte lúdico e potente, no universo de uma realidade que, por vezes, é tão árida, tão inóspita, fazendo ressurgir, até mesmo aos olhos mais cépticos, a existência de afectos que soariam inatingíveis em determinadas circunstâncias.

Deixa-me escrever-te conduz o leitor, portanto, aos detalhes despercebidos do cotidiano, com os momentos e delicadezas que não se revelam aos olhos enevoados de rotina. A proposta literária de Timóteo Papel será apresentada por Francisco Massambo
Adelino Albano Luís nasceu em 1998, na Cidade de Chimoio. Licenciado em Filosofia pela UEM, é professor e o conto é seu género literário de eleição. Estreou-se com obra ″Cronicontos da Cabeça do Velho″ (2022), prémio literário Calane da Silva ⁄ Alcance Editores (4ª edição – 2021). Conquistou o primeiro lugar do Concurso de Crónicas da 1ª edição da Feira do Livro da Beira (2021); Conquistou o primeiro lugar do concurso literário Dia Mundial da Língua Portuguesa: estórias pandémicas, e foi finalista do prémio Fundação Fernando Leite Couto (2022), com a obra Estórias trazidas pela Ventania. Participou em várias antologias, dentre as quais o volume I de Espíritos Quânticos – Diário de uma Quawwi.

Timóteo Gentil Papel nasceu em 1990, na Zambézia. É docente, pesquisador, poeta e escritor, licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ensino de História, pela Universidade Pedagógica de Maputo. É Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, pela Universidade de Santiago – Cabo Verde. É autor da obra Não sei ser triste (2021). Participou nas antologias Literatura e cultura em tempos de pandemia (2021); As Áfricas dentro de mim (2021); Encontro de gerações (2022); e Antologia Luís Vaz de Camões e convidados (2022).
Os dois livros foram seleccionados na segunda chamada literária da Editorial Fundza.

Esta quinta-feira, às 18 horas, o programa Cine das quintas, vai exibir o filme Tragédia da vingança, de Malegino Benzane. Esta será primeira exibição do filme, aberta ao público, após o seu lançamento e estreia em 2017. A sessão será seguida de uma conversa com o realizador moçambicano.
Tragédia da vingança trás à ribalta a problemática dos direitos da criança, trabalho infantil, criminalidade e o papel das igrejas na sociedade.
A longa-metragem retrata a história de Ndjombo, um adolescente de pai desconhecido, que perdera a mãe no dia do parto e, por conseguinte, criado pela tia. Com 12 anos de idade, perde a tia e decide sair de Chókwè para Maputo, com o objectivo de procurar pelo pai. Ndjombo envolve-se no mundo do crime e lidera uma quadrilha, patrocinada por um comandante da Polícia apelidado por Chefe Dinheiro.
Apesar de se ter envolvido no mundo do crime, Ndjombo continua com o desejo de encontrar o seu pai e terá que enfrentar adversidades ao descobrir que o seu pai está mais perto do que ele imaginava.
O projecto Cine das quintas leva o cinema moçambicano aos amantes da sétima arte, todas as quintas-feiras, no Cine-Teatro Scala. O objectivo é promover e dinamizar a oferta de programação cinematográfica nacional no país.

De 11 a 17 de Setembro, vários centros culturais da Cidade de Maputo vão acolher a quarta edição do Festival Gala Gala, um programa anual realizado pelo colectivo dos centros culturais da capital do país com o apoio especial da União Europeia.

Segundo a organização, a presente edição do festival mantém a matriz de um evento itinerante e abarca propostas artísticas que partem desde a música, dança, teatro, literatura, multimídia e actividades para as crianças.

Assim, os 18 eventos agendados para a quarta edição do festival contarão com cerca de 200 artistas e agentes culturais. Os organizadores dos eventos do Festival Gala Gala são a Fundação Fernando Leite Couto, o Museu Mafalala, o Centro Cultural Franco-Moçambicano, 16 Neto, o Centro Cultural Moçambicano-Alemão, a Associação Cultural Kulungwana, o Camões – Centro Cultural Português, a Embaixada da Espanha e o Instituto Guimarães Rosa, nova designação do Centro Cultural Brasil-Moçambique.

A curadoria da programação do festival, avança a nota de imprensa, é fundamentada na promoção do trabalho dos artistas e apresentação de novos produtos culturais, resultado de residências artísticas realizadas ao longo do ano com o apoio do próprio festival.

A quarta edição do Festival Gala Gala comporta um conjunto de espectáculos, exposições, filmes, literatura e actividades para a infância em diversos espaços da cidade de Maputo, e pretende celebrar a multiculturalidade .

Por: Huwana Rubi

 

Luís Cezerilo é uma individualidade que dispensa qualquer tipo de apresentação no universo sócio-cultural, académico e político em Moçambique.
No seu mais recente livro, “Mar, espelho líquido do infinito”, a ser lançado no dia 28 de Agosto do ano em curso, transborda o eflúvio natural do amor enquanto um mar infinito, um elemento da vida como uma fagulha, numa essência superior do ser. Neste livro, o amor e o mar formam a alga que nos inunda. Ele, o poeta, “rasga” de forma minuciosa, delicada e reverberante, o que lhe vai na alma, no seu mais íntimo e translúcido âmago. Este breve texto, através do qual busco tecer algumas humildes linhas, é uma pequena amostra deste mar líquido do escritor.
Cezerilo está além do tempo, por isso chama todos para o entendimento de que o “amor é algo genuíno” e todo o ser deve gozá-lo, independentemente do percurso de cada um, do seu extracto social, porque o amor é a esperança, alegria, o prazer das sereias denominadas nhamussoros no Sul do país, esse amor que consegue mesclar-se na brisa dos verdadeiramente constituídos.
Nas lentes do autor, nestas dezenas de poemas muito bem seleccionados, somos remetidos sobretudo ao amor, à beleza do mar, à nossa história, à contemporaneidade, aos descasos, ao misticismo da magia, da ternura e do encanto do povo.
O mar é infinito.
O mar é pleno, esbelto, tem as suas tonalidades e os seus percursos e, neste livro, o poeta Cezerilo soube pincelá-las tão perfeitamente, começando com a primeira estrofe do primeiro poema, que nos suscita a imersão dos segredos que o mar transmite na sua vastidão, a solitude, que depois desagua com o quinto poema que nos trás a sensação do poderio e da extravagância do amor, dos seus relevos ludibriantes, da vastidão e dos devaneios que nos pode transmitir.
Cezerilo traduz nas suas metáforas tudo o que o universo propõe sobre o encanto da beleza e do som das sereias, denominados no sul do país, de nhamussoros, que conseguem se mesclar na brisa dos ventos que o Índico traduz de forma poética. O livro o mar, espelho líquido do infinito, é sem dúvidas uma concha em forma de livro, que promete suscitar a todos “os sentidos mais humanos que possam existir”.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, apelou para que as eleições autárquicas sejam mais uma oportunidade para a exaltação da cultura e que os jovens envolvidos na XI edição do Festival Nacional da Cultura sejam o exemplo de como se convive com a diferença. Nyusi falava na abertura do evento, na Província de Maputo.

A cultura foi exaltada ao mais alto nível no Festival Nacional da Cultura, que, desta vez, tem, na Província de Maputo, o seu palco de actuação.

Canto, dança, poesia, gastronomia, artesanato, artes plásticas e outras modalidades fizeram soar alto a diversidade cultural, afinal todas províncias do país se reencontram depois da interrupção causada pela pandemia da COVID-19.

Uma vez que o intercâmbio cultural acontece num ano eleitoral, o Presidente da República, Filipe Nyusi, apelou para que as eleições autárquicas sejam mais uma oportunidade para exaltação da cultura e que os jovens envolvidos sejam o exemplo de como se convive com a diferença.

“A cultura de paz, de reconciliação e de tolerância. Em suma, a celebração da democracia, e da convivência sã entre os munícipes sem vestir cores partidárias. Vocês bem viram aqui, não sabemos de que partido são os jovens que vimos dançar aqui, ou sua ideologia política, nunca ouvi dizer, por exemplo, que Marrambenta pertence a algum partido político.”

O XI festival é, segundo o Presidente da República, mais uma oportunidade de reafirmação da unidade nacional.

“Quem tem vergonha para com a sua cultura não tem personalidade. Isso nos orgulha a nós, jovens, dançar aquilo que nos pertence. Aliás, a história do nosso passado recente é testemunho de que, respeitando a diversidade, é possível unificar um país, torná-lo desenvolvido.”

Na abertura do Festival Nacional da Cultura, o Presidente da República esteve acompanhado pelo seu homólogo da Indonésia, Joko Widodo, que está de visita ao país.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, dirige hoje, no campo da Associação Black Bulls, em Tchumene, Município da Matola, província de Maputo, a cerimónia inaugural da XI edição do Festival Nacional da Cultura.

O evento, que decorre sob o lema “Cultura, a Força que une a Nação Rumo ao Desenvolvimento”, contará também com a participação do Presidente da República da Indonésia, Joko Widodo, como convidado de honra do Chefe do Estado moçambicano, no âmbito da visita de trabalho de dois dias que efectua ao país.

Mais de 1000 artistas de todo país, vão exibir várias expressões artísticas, designadamente: artes plásticas, artesanato, música, cinema, dança, gastronomia, fotografia, moda, literatura, teatro e outras manifestações imbuídas de um inestimável valor simbólico e, impregnadas de conhecimentos seculares que, mais do que proporcionar diversão e lazer, participam do processo de socialização.

A XI edição do Festival Nacional da Cultura que decorre de 23 a 27 de Agosto é realizado pelo Governo de Moçambique e está sob responsabilidade do Ministério da Cultura e Turismo. Dentre vários, o maior objectivo do festival é preservar, desenvolver as artes, a cultura, as tradições das diferentes comunidades moçambicanas, criar uma plataforma de interacção e intercâmbio e de divulgação do rico e diversificado património cultural do país, colocando-o ao serviço da sociedade e do progresso.

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