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O País – A verdade como notícia

Por: Raquel Miambo
(Graduada em Literatura Moçambicana pela UEM)
O presente texto tem como objectivo reflectir e analisar as diferentes dimensões do campo ideológico que se constrói no romance Sina de Aruanda, da escritora Virgília Ferrão.
A compreensão do que seja o campo ideológico passa, necessariamente, da definição de ideologia. Segundo Eagleton (1997), podemos conceber a ideologia sob seis perspectivas, a saber: (1) processo material de produção de ideias, crenças e valores na vida social; (2) ideias e crenças que simbolizam as condições e experiência de vida de um grupo ou classe específica, socialmente significativo; (3) promoção e legitimação de interesse de grupos sociais opostos; (4) actividades de um poder social dominante; (5) ideias e crenças que ajudam na legitimação dos interesses de um grupo dominante; (6) crenças falsas ou ilusórias.
Adoptámos a primeira e a segunda definições que se referem à ideologia como um processo de produção material de ideias, bem como um conjunto de ideias e crenças de um grupo significativo. Ao que se depreende, essas definições aproximam a ideologia da ideia de construção de certa visão de mundo – vista por Japiassu & Marcondes (1996) como uma concepção global, de carácter intuitivo e pré-teórico, que um indivíduo ou uma comunidade formam de sua época, de seu mundo e vida em geral –, pois pretendemos identificar na obra eme estudo elementos que concorrem para a construção ideológica, com atenção ao discurso. Ora, como assegura Reis (1978:409), o código ideológico, em estudos literários, compreende o conjunto de ideias e valores, ligados a uma organização, e que tem, por fim, facultar as relações semânticas, integrando-se na dinâmica da comunicação literária.
Identificámos, na obra Sina de Aruanda, elementos narrativos que concorrem para a produção de ideias, crenças e valores (1) relativos ao ambientalismo através da representação da relação que o Homem estabelece com o meio ambiente; (2) relativos ao Espiritismo, quando evoca a evolução do espírito, através da reencarnação que é a transcendência do espírito para um outro tempo histórico e a relação entre espírito e matéria; (3) relativos ao saudosismo, ao recuperar um dado do passado da História de Moçambique e conferir um espaço privilegiado na produção literária.
(i) Ideologia Espírita: Kardec, citado por Carraca (2000:12), define espiritismo como estudo da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal. Neste contexto, designam-se espíritas os adeptos do Espiritismo, que conhecem os seus princípios ou dogmas.
Podemos identificar intenções ideológicas do Espiritismo a partir do monólogo de alguns narradores-personagens, tal o caso de D. Fernando Costa que pensa: “(…) Não consegui salvar o meu amigo e, portanto, esta é a única coisa que posso fazer para tranquilizar o seu espírito, perdido por estas terras (Ferrão, 2021: 32).
A crença na necessidade de se criarem condições para garantir a tranquilidade do espírito após a morte concorre para o que observamos como visão espírita. Há uma manifestação, não só de fé, mas também de busca pela prática de algumas acções compatíveis com essa crença.
Sou cristão, estou limitado por essa crença, mas juro que, às vezes, de noite, quando olho para as estrelas, tenho a impressão de ouvir vozes. Pode apenas ser mau tempo, o canto do vento, ou a minha imaginação, mas, ocasionalmente, penso que, sinceramente, são vozes dos espíritos desse povo cruzando os céus em busca de liberdade (Ferrão, 2021:93).
No monólogo deste narrador-personagem, D. Fernando Costa, nota-se um choque entre crenças, por um lado da doutrina cristã e, por outro, da tradição africana. Acreditar na existência de espíritos que vagueiam autónomos pelo espaço e que estes respeitam um processo ou ciclo a fim de encontrar a paz, vai ao encontro dos ideais espíritas. Esta passagem evoca a crença na existência de uma vida pós-morte, crença que atravessa diversos momentos da história.
Observámos vantagens em relação à personagem que serve de âncora e consciência dos demais, uma vez que é a ela que se confia a função de reconhecer a reencarnação: “˗ Coincidência o tanas! Não vês? É óbvio! Ela é reencarnação da dona do prazo! E queria tirar-me do jogo, impedir-me de chegar aqui” (Ferrão, 2021:178).
Angelina é uma personagem com características especiais, não só por ser reencarnação de um homem, mas porque possui dons de clarividência. É através dela que se revela a vida passada dos demais, por meios de visões, sinais e digressões orientadas por terapias:
Num minuto estava ali animada, a conversar com Daniel de Barros, e no minuto a seguir… Estava a vislumbrar, através de ampla janela, um luar prateado, uma noite perfeita e um vasto mar. Sentia que tinha a terra, o tempo e os sonhos a meu favor (Ferrão, 2021: 79). (destaque nosso)
Neste excerto, Angelina visualiza-se na vida passada numa espécie de alucinação. Diante de um evento do século XXI, ela revive lembranças da sua anterior encarnação. O espaço Aruanda é propício para a evolução do espírito, é onde os espíritos, após a morte do corpo, avançam para a prova de uma nova existência, uma vez não tendo alcançado a perfeição em vida. Pedro Lucas, à beira da morte, consegue visualizar a sua outra vida, que resultará da reencarnação:
Há um lampejo dentro de mim. É tão penetrante e intrusivo que a princípio não me permite enxergar. Mas depois compreendo. Não é a minha casa, não é Aruanda, não é coisa alguma nem pedaço de nada. É apenas o tempo suspenso, numa partícula de espaço para curar almas (Ferrão, 2021: 222).
A escassos minutos da morte, ele consegue visualizar-se num outro espaço onde se movimenta, mas também num outro espaço-corpo onde o espírito vai intelectualizar a matéria. É a partir de Aruanda que isso acontece, e não só em relação a Pedro Lucas que consegue visualizar-se séculos mais tarde no corpo de Daniel de Barros, como também às restantes personagens. Ora, através dessa prolepse, podemos observar o estado anterior do espírito comparado ao actual, numa espécie de memória do futuro: “Daqui a milhões de anos, quem sabe. Espero o dia em que a alma seja sábia o suficiente para não temer a solidão, nem os fracassos. Quando o mundo sentir mais sinais de liberdade e o ser humano compreender que nunca estará só” (Ferrão, 2021:222).
Num outro contexto discursivo, Daniel de Barros acrescenta: “(…) tenho estado vivo porque a minha alma apreendeu a ser sábia o suficiente para não temer a solidão, nem fracassos. Hoje sei que nunca estarei só” (Ferrão, 2021:239).
É através da anacronia que se explicita essa visão espírita, é onde verificamos o estado anterior do espírito comparado ao actual, e vice e versa. Mas também o relembrar o passado nos conduz à valorização do meio ambiente.
(ii) Ideologia pró-ambientalista: De acordo com Rocha (2001:08), ambientalismo é uma corrente de pensamentos e movimentos sociais em defesa do meio ambiente, que busca a implementação de medidas com foco na protecção ambiental, impondo mudanças no estilo de vida. A relação sociedade-natureza é complexa ao sermos ao mesmo tempo sua dependente e sua consumidora. Ainda assim, desde os finais do século XX até à actualidade, temos um crescente duelo de forças que nos obriga a posicionarmo-nos em relação à possibilidade de extinção das espécies sobre o planeta. É possível notar esta preocupação no romance: “˗ (…) Com os recursos a esgotarem-se na terra, há quem ande a vender parcelas de terreno, em Marte e em outros planetas por descobrir” (Ferrão, 2021: 39).
Um discurso de apelo que leva o interlocutor a tomar uma decisão em relação ao estado actual do nosso planeta. Neste contexto, Daniel de Barros leva-nos a pensar em acções que visam amenizar o impacto da acção humana sobre a Terra, ou seja, é um discurso atravessado pela causa ambiental:
“ – Portanto, ou cuidamos deste planeta, que é, por enquanto, a nossa única casa natal, ou começamos imediatamente a fazer uma grande poupança para poder arrendar espaço, em Marte e afins” (Ferrão, 2021: 39). (destaque nosso)
É um discurso retórico, usando estratégia antitética para convencer o auditório a aderir à sua posição ambientalista, pois, ou tomam conta do meio ambiente ou, caso contrário, será preciso ter condições de ir a Marte, o que seria dispendioso.
Diante de um discurso desta índole, reflectimos sobre o espaço “Terra” e tudo o que este pode significar enquanto espaço colectivo e também individual onde, dia após dia, cada um de nós se desenvolve e se transforma física e psicologicamente. Trata-se de consciencializar o ser humano sobre acções mais acertadas em relação ao planeta.
Uma outra referência que é aqui assinalada remetendo-nos a um discurso ambientalista dá-se nos seguintes termos: “- Não fica bem deitar lixo na praia… para além de estarmos a poluir, a degradar a costa, estamos a dar muito trabalho às pessoas que depois têm de limpar” (Ferrão, 2021: 85).
Espaços sociais como a praia merecem atenção de todos. Estamos diante de um discurso de censura de acções contra a degradação do meio ambiente e apela a práticas de sua conservação: “˗ É lixo que se deve enfiar na sacola, não a vergonha, senhores (…) não custa nada apanhar e deitar esse lixo num local mais apropriado. É um favor que fazem a vocês mesmos, e o planeta agradece” (Ferrão, 2021: 85).
Não só no que respeita à praia, mas também à ilha, que é um espaço importante na obra, se manifestam ideais ambientalistas: “- (…) Aquilo já está em ruínas, a missão foi esquecida e deixada em estado de degradação, mas há esperança de que venha a ser restaurada. Muito em breve!” (Ferrão, 2021:51).
A preocupação com este espaço remoto, a esperança na restauração da ilha, remete-nos à valorização do meio ambiente e à preocupação com a história dos seus habitantes.
(iii) Ideologia saudosista: Para Maria Rollo (2014:01), saudosismo consubstancia uma visão de mundo que tem por base a saudade, a valorização das experiências passadas, resultantes da falta ou ausência de algo, alguém ou momento, nalguns casos, com um efeito de nostalgia. No que se refere à valorização do passado e preservação da história, o Prazo de Aruanda, um espaço exclusivo de uma certa época histórica, é, na obra, localizado no século XIX: “Aruanda está muda. (…) O sossego estende-se até ao casarão dos senhores do Prazo, capitão-mor Bento Noronha e dona Luísa, sua esposa” (Ferrão, 2021: 19).
O Prazo de Aruanda remete-nos para a história de Moçambique, sobre os prazos do vale de Zambeze, que foi uma estratégia de colonização iniciada na segunda metade do século XVI. Assim, leva-nos a uma escrita que valoriza o passado, a uma expressão do saudosismo. Além disso, mais do que recuperar um fenómeno histórico, há uma tentativa de conservar as características empíricas desse fenómeno: “No nosso meio, dentro destas terras empenhadas, têm crescido chefias tradicionais mistas. Isto acontece, há quase três séculos, desde que as terras começaram a ser concedidas por El-Rei, andando sempre de filha em filha… (…)” (Ferrão, 2021: 45).
Como já nos tínhamos referido, o Prazo de Aruanda localiza-se no século XIX, e o narrador evoca o surgimento dos prazos do Vale do Zambeze, três séculos depois, mas também nos dá a conhecer uma das principais características que é a união entre os nativos das terras e os estrangeiros, portugueses e indianos. Veja-se a fala de um outro narrador-personagem, Daniel de Barros, já no século XXI: “˗ Aruanda tem uma carga histórica bela e única! Certamente vocês estudaram sobre os Prazos da Coroa, não estudaram?” (Ferrão, 2021: 51).
Esta fala convida-nos a um momento didáctico, que apela para memória histórica, complementado com o que foi proferido de seguida:
– Os prazos eram unidades políticas, terras conquistadas pela coroa portuguesa e que eram entregues, por um período de três anos a mercadores portugueses e indianos. A sucessão era feita por via feminina; ou seja, as proprietárias eram mulheres, as chamadas “donas”. Uma das últimas resistências majestáticas deu-se em Aruanda, na altura um prazo (Ferrão, 2021: 51).
Este excerto, intencionalmente didáctico, não só recupera um dado da história, como também explica o fenómeno dos Prazos, num diálogo com a história de Moçambique. O excerto também nos remete para as formas de tratamento próprias desta época histórica, que valorizam a organização política: termos como Donas, El-Rei, A-chicunda possuem um valor na hierarquia sociopolítica dos Prazos do Vale do Zambeze.
Considerações finais
O campo ideológico que é projectado no romance compreende o Espiritismo, o saudosismo e o ambientalismo. No que diz respeito à ideologia espírita identificámos, a partir do discurso dos narradores-personagens, expressão de crenças e ideias que nos remetem para a reencarnação e crença na evolução do espírito após a morte. No que toca à ideologia ambientalista, verificámos, no discurso dos narradores-personagens, manifestação de acções e movimentos que visam consciencializar o homem sobre a necessidade de prevenção do meio ambiente. Finalmente, para a expressão do saudosismo, recupera-se uma época da história de Moçambique, através do fenómeno dos Prazos do Vale de Zambeze e da valorização da memória histórica.
Referências Bibliográficas
CARRACA, Orson Peter. (2003). Das dificuldades do Espiritismo Prático: Reformador. São Paulo. Junho de 2003. Disponível em: https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/C_autores/CARRARA_Orson_tit_Das_dificuldades_do_Espiritismo_pratico.pdf. Acesso em 03.04.2023
EAGLETON, Terry. (1997). Ideologia: Uma Introdução. Tradução de Luís Carlos Vieira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista.
FERRÃO, Virgília. (2021). Sina de Aruanda. Maputo” Fundação Fernando Leite Couto.
JAPIASSU, Hilton & MARCONDES, Danilo. (1996). Dicionário Básico de Filosofia. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.
REIS, Carlos. (1978). Técnicas de Análise Textual. 2.ªed. Coimbra: Almedina.
ROCHA, Ernesto Diaz. (2001). Ambientalismo, Ecologia, Educação Ambiental e Universidade: O árduo mas possível caminho da institucionalização da interdisciplinaridade ambiental no Brasil. Rio de Janeiro: Universidade Federal Rural Rio de Janeiro (Tese de doutoramento).
 ROLLO, Maria Fernanda. (2014). Dicionário de história da I República e do Republicanismo. Lisboa: Assembleia da República-Divisão de Edições.

Por Deusa d’Africa

Edita-se “O Caçador de Pássaros” de João Baptista pela Editorial Fundza em 2022; o autor é poeta e escritor moçambicano nascido em Malawi e residente em Manica. Publicou o livro de poesia, Águas cristalinas em 2022. Venceu o concurso de conto infantil “Nó da gaveta´com o livro “As aventuras de Manuelito”.

De acordo com a Ananaz (2018), a literatura infantil dedica-se especialmente às crianças, jovens e adolescentes. Fazendo parte desta literatura as histórias fictícias infantis e juvenis, biografias, novelas, poemas, obras folclórias e culturais.

Ruz (2011) citado por Ananaz (2018), diz que os livros infantis são compostos por ilustração e texto, embora o formato varie. Sendo importantes elementos como a forma, a cor, textura e dimensão do texto. Vemos isto no livro ‘’O Caçador de Pássaros’’.

Por que um livro infantil? Porque a infância é um lugar que representa o primeiro estágio do desenvolvimento da criança. É um jardim que se guarda adentro de um homem. É o reino dos sonhos de cada humano, onde a água, a luz, o pão com queijo, ovo e leite são alimentos gratuítos e o mundo é perfeito porque o mal é apenas um personagem de classe baixa, na maioria dos casos tem sido um personagem negro, tal como retrata a Disney e algumas telenovelas, um personagem que chora quando vare o quintal da casa e quando lava a louça nas manhãs ou porque não se pode juntar à roda com outras crianças porque o vestido está roto ou porque é larápio e etc. Guardar a infância como um lugar sagrado é transformar um canhão numa causa, numa sociedade em que o som do canhão se ouve a detonar em todas as famílias e avenidas, onde homens e mulheres dedicam-se a trocar os sonhos por baldes de violência de diversificadas formas, desde a verbal à física. O desrespeito pelas leis e pelos símbolos nacionais. A cobrança ao outro do que nós próprios nunca o fizemos. Amotinamos dessa forma os canhões nas igrejas que discute-se o poder enquanto Deus é colocado em canhões. Nas instituições públicas e privadas onde os canhões detonam os sonhos de quem tem uma causa pela qual vive.

Logo a prior o autor começa de forma sábia oferecendo doses de coragem a cada leitor que é medicado por estas palavras terapéuticas na tentativa de silenciar os canhões, dizendo: “Nao se envergonhe dos seus medos, pássaros medrosos também voam. Na natureza.”

Para Nietzshe (1973; pág.54), erro de causas imaginárias – tomando como ponto de partida o sonho: a uma sensação determinada, por exemplo, à sensação produzida pela detonação de um canhão, soando ao longe, é substituída depois por uma causa. Imagino o processo criativo deste livro tendo começado pela causa imaginária em que o sonho tenha sido o ponto aludido por Nietzshe. Oates (2008), descreve Faulkner que na composição do seu romance “o som e a fúria” começou por uma inexplicável imagem através duma janela, a visão de uma rapariga dessconhecida com roupa coberta de lama a trepar uma árvore…ou Hemingway escrevendo em todas manhãs num café de Paris para mais tarde se tornar o seu primeiro romance. Nesta senda, vejo o autor imaginando que as pessoas pudessem voar, e porque o voo é a sublimação de nobreza, só as aves dispõem desse privilégio, embora os homens o façam por dentro dos seus sonhos, vejo o autor sonhando com as asas de quem vem suportando quem não as tem e um menino que ama as aves sendo arrastado pelo bico dos pássaros que usam das suas asas para fazer dele um ser voador. Começa assim a escrita deste livro que imagino ter sido do voo para a iniciação de um menino que dorme e se esquece do mundo e da escola para viver um sonho de caçar pássaros, não para aprisioná-los, mas sim para se tornar um deles e voar tal como eles o fazem. E assim o sonho torna-se uma causa.

Vejamos 4 áreas de estudo do livro:
Estudo do espaço;
Estudo de tempo;
Estudo da acção.
Exercícios de análise gramatical e estética.

Estudo do espaço:

De acordo com Ananaz (2018), existem espaços físicos, sociais, psicológicos e culturais. Espaços físicos, indicam o lugar onde acção se realiza; espaços sociais, o meio social onde os personagens se movimentam; espaços psicológicos, vivenciados pelos personagens de acordo com o seu estado do espírito; espaços culturais, referências culturais no texto.

João Baptsita Caetano Gomes, apresenta os seus personagens inseridos numa casa que representa a família, um menino sonhador que vai à escola onde sonha com pássaros. Vide o excerto da pág. 11: ‘’Voam pelas ruas da cidade. Casa na rua.”

Em “O Caçador de Pássaros’’, encontra-se a presença do ritmo temporal na isocronia estabelecida entre o Benjamim, personagem principal do conto e pinguim e os demais pássaros que estabelecem um diálogo num espaço físico onde narram as aventuras de Benjamim.

O sonho movido por um mundo inclusivo, justo e de igualdades revela-se na escrita do autor, tal como se pode ver no excerto da pág 10: ”Surgem pássaros de todas as cores. Pássaros de todas as idades.’’

Estudo do tempo

Há descrições cronológicas que ocorrem no texto, o autor se dedica a associar as acções à determinadas marcas de passagem de tempo. Vejamos na pág. 9: “o dia já amanheceu’’ e na pág 11: “orvalho da manhã, ou no sol da tarde”

Estudo da acção

A narrativa apresenta uma acção aberta em que a imaginação se tece ao longo da descrição do conto. A imaginação move os personagens e o leitor que se põe a reflectir na acção psicológica do personagem convista a antecipar os factos.

Benjamim, o menino descrito no conto de João Baptista, tem um sonho. Para viver o seu sonho abandona a sua família para viver na rua com os pássaros.

Exercícios de análise gramatical e estética:

A categoria gramatical da palavra presente no texto mostra a enumeração de substantivos, o uso de texto corrido para maior interactividade das crianças e o uso de figuras de sintaxe e de pensamento fazem do texto aqui apresentado num contributo de relevo para a nossa literatura infantil. Vide o excerto da pág 9: “nas árvores verdejantes. Nas acácias, nas mangueiras, nas laranjeiras.’’

João Baptista é um poeta que se auto-denuncia ainda que num infanto-juvenil, pelo uso de figuras de pensamento e de sintaxe:

Vide os excertos da pág. 9: “vê-se a aurora do sol. O girassol….vai à escola com sua sacola de sonhos.”

O autor apresenta as asas como realização de um sonho no conto, sustentando a ideia que a sociedade tem, quer seja na religião cristã, onde as asas simbolizam pureza e santidade. Por isso, o símbolo do espírito santo, a pomba, tem asas. Quer seja para os gregos, as asas representavam ser mensageiro de divindades ou ser divindade. Para os xamanistas as asas representam o voo da alma e para taoistas o poder de voar significa alcançar a imortalidade. É assim que se nos oferece, o sonho em o “Caçador de Pássaros”. Onde o autor busca a significação das asas representadas em pássaros sonhados por Benjamim, para mostrar-nos que o céu é todos nós e com asas ou sem asas se pode partilhar a liberdade uns com os outros como um bem comum e que deve beneficiar a todos de forma inclusiva.

É caso para dizer que mais do que viver com as riquezas do mundo há que se libertar a alma de cada canhão e viver uma causa que move-nos à luz e ao encontro de nós próprios. Um dever que é também uma necessidade individual. E por esta via o autor convida-nos a sorvermos a liberdade.

Referências Bibliográficas:

ANANAZ, Kanguimbu. “A Literatuta Infantil Angolana no Período Pós-Independência: Estudo sobre a Escritora Cremilda de Lima”. Editora das Letras. Angola. 2018, Pág 23-27.

NIETZSHE, Frederico. “O Crepúsculo dos Ídolos”. Editorial presença. Portugal. 1973. Pág. 54.

OATES, Joyce Carol. “A Fé de um Escritor. Vida, Técnica, Arte”. Casa das Letras. Portugal. 2008. Pág. 96-98 .

O Aeródromo e o Porto de Mocímboa da Praia, na província de Cabo Delgado, foram oficialmente reabertos esta segunda-feira, depois de obras de reabilitação e ampliação das infra-estruturas que estavam parcialmente destruídas devido aos ataques terroristas. Durante a inauguração, o Presidente da República, Filipe Nyusi, mostrou-se preocupado com a situação de insegurança em Mocímboa da Praia.

As obras de reabilitação do Aeródromo de Mocímboa da Praia, uma das maiores infra-estruturas destruídas durante os ataques terroristas, custaram cerca de 15 milhões de Meticais e foram realizadas por agentes Serviços Cívicos de Moçambique, que, em dois meses, conseguiram apagar as marcas deixadas pelo conflito armado.

Depois da inauguração, Nyusi reuniu-se com a população e explicou a importância do Aeródromo para o desenvolvimento de Mocímboa da Praia e da província de Cabo Delgado.

“Todos os aviões que quiserem vir para aqui poderão chegar.  Vocês sabem. Antes, aqui se faziam voos comerciais. Vinham voos de Maputo e, sobretudo, voos regionais, quando se quisesse viajar para as ilhas”, disse o Presidente da República.
Depois do aeródromo, o Presidente da República inaugurou o Porto de Mocímboa da Praia, outra infra-estrutura que ficou durante muito tempo fora do serviço devido aos ataques terroristas.

“A reabertura das operações deste porto decorre dos investimentos de emergência realizados no total de cerca de quatro milhões de dólares americanos, libertados pelo operador portuário, e consistiu na reabilitação da rampa principal e na construção de uma nova rampa para atracação de navios.”

O Porto e o Aeródromo de Mocímboa da Praia ficaram fora do serviço em 2020, quando os supostos terroristas ocuparam a vila, por quase um ano, e desde a reposição da segurança, as duas infra-estruturas estavam a funcionar de forma improvisada.

O Presidente da Republica mostrou-se satisfeito com a reconstrução de Cabo Delgado, mas continua preocupado com a situação de insegurança em Mocímboa da Praia.

“Nós não queremos que se criem bases aqui para dar argumentos para o terrorista invadir novamente. A recuperação custou sangue de pessoas. Os jovens resistiram muito tempo, até quando houve escassez de munições. Então, nós não queremos viver de incertezas aqui.”

Ainda em Mocímboa da Praia, o Chefe de Estado alertou sobre a presença de colaboradores dos terroristas na vila.
Uma parte da população de Mocímboa da Praia continua a colaborar com os supostos terroristas, passando informações e prestando ajuda com alimentos e outros bens.

O alerta foi lançado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, durante um comício realizado na vila-sede do distrito, onde pediu reforço de segurança.

No próximo dia 1 de Dezembro, no Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo, pelas 19 horas, o Standard Bank vai realizar a quinta edição do Festival Standard Bank Acácia Jazz, que terá como figura de cartaz o pianista, compositor e produtor musical norte-americano Bob James. Trata-se do co-fundador da banda de jazz fusion Fourplay, composta pelos instrumentistas Nathan East (baixista), Larry Carlton (guitarrista) e Harvey Mason (baterista), que já actuou no Jardim Municipal da Cidade da Matola, em Maputo.

Considerado um dos artistas mais influentes do Jazz, já dividiu o palco com uma série de artistas ao longo da sua carreira, como George Benson, Eric Clapton e David Sanborn.

A carreira de Bob James estende-se por mais de cinco décadas, marcada no início pela memorável actuação no Festival de Jazz de Notre Dame, em 1962. Trata-se de um músico de estúdio por excelência bastante requisitado por tantos outros músicos.
Em homenagem à capital moçambicana, compôs a música intitulada “Maputo”, que é até hoje um sucesso internacional, interpretada por vários artistas de renome.

Lançado em 2017, como uma forma de homenagear a capital do país, também conhecida como a “Cidade das Acácias”, o festival contará com a participação do conceituado músico moçambicano Jimmy Dludlu e da cantora, compositora e arranjista Onésia Muholove, que faz parte da nova escola do jazz moçambicano. “Com este naipe de artistas, estão criadas as condições para, à semelhança das anteriores edições, brindar os citadinos de Maputo e os amantes do jazz de todo o país com um espectáculo memorável”, lê-se na nota de imprensa.

O Standard Bank pretende, com esta iniciativa, valorizar a cultura nacional e promover a cidade de Maputo, a sua beleza e tudo que tem para oferecer, bem como impulsionar o turismo.

Constituem ainda objectivos do festival, contribuir para a internacionalização da música moçambicana e promover a nova geração de artistas que têm vindo a despontar no País.

O escritor Manuel Mutimucuio irá participar, entre 22 e 26 de Novembro, em Paraty, Rio de Janeiro, no Brasil, na edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty.

Durante a sessão literária, Manuel Mutimucuio espera divulgar a edição brasileira do romance Moçambique com Z de Zarolho, que, no país, foi editado pela Editorial Fundza.

Conforme o escritor explicou, aceitou o convite de participar na Festa Literária Internacional de Paraty porque a iniciativa constitui uma plataforma internacional de enorme prestígio, mas também porque permite dialogar com o público brasileiro, que é a maior audiência na literatura em língua portuguesa.

Há alguns anos, Manuel Mutimucuio participou no Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, igualmente no Brasil. Também por isso, o escritor espera continuar a consolidar a sua presença no mercado literário brasileiro, através de feiras internacionais que são poderosas plataformas de intercâmbio.

Na Festa Literária Internacional de Paraty, Manuel Mutimucuio irá interagir com autores de diferentes proveniências Entre os autores confirmados, constam Augusto de Campos, Itamar Vieira Jr., Flora Süssekind, Luiza Romão, Joice Berth, Angélica Freitas (Brasil), Kwaeke Emezi (Nigéria, EUA), Alana Portero (Espanha), Christina Sharpe (EUA), David Jackson (EUA), Dionne Brand (Trinidad e Tobago, Canadá), Ilya Kaminsky (Ucrânia, EUA), Kelefa Sanneh (Inglaterra, EUA), Laura Wittner (Argentina), Marion Aubert (França), Mónica Ojeda (Equador), Nora Krug (Alemanha) e Sinéad Gleeson (Irlanda).

Moçambique com Z de zarolho retrata um cenário capitalista global, que “obriga” o governo moçambicano a adoptar uma medida extrema e nada consensual: instituir o inglês como idioma oficial e deixar para trás tanto as línguas bantu locais quanto a língua portuguesa. No entanto, essa mudança abrupta tem impactos na vida das personagens.

Na última sexta-feira, na Universidade Pedagógica de Maputo, Marcelo Panguana lançou o seu mais recente romance. Intitulado A hora maconde, o livro foi apresentado por Nelson Saúte.

Para o escritor e editor Nelson Saúte, pela primeira vez, um escritor preto escreve um romance de fôlego, narrando a história, do lado do exército colonial português em Moçambique, que também teve soldados pretos. Logo, A hora maconde, de Marcelo Panguana, “É, por conseguinte, a história da guerra colonial em oposição à luta de libertação nacional”.

De acordo com Nelson Saúte, a história retratada em A hora maconde, por um escritor negro, é algo inédito em Moçambique. No entanto, além disso, a solidão, a loucura e a morte são o esteio literário de A hora maconde, que consagra os anti-heróis de um tempo e de uma memória.

Referindo-se ao seu novo romance, o escritor recentemente laureado com o Prémio de Literatura José Craveirinha confirmou que se trata de um exercício de memória em relação aos contecimentos que foi protagonista durante a guerra de libertação nacional. Estando do lado do exército colonial português, Marcelo Panguana disse que teve a possibilidade de observar imensos fenómenos, que muitas vezes escapam aos moçambicanos, quando se fala da luta armada de libertação nacional.

Recuando meio século, Marcelo Panguana, portanto, recupera episódios que considera importantes para a actualidade e para a compreensão da História de Moçambique, fazendo da ficção narrativa uma possibilidade de dar sentido à realidade.

Na cerimónia de lançamento do livro A hora maconde, na Universidade Pedagógica de Maputo, houve espaço para as actuações musicais de Stewart Sukuma e de Mingas.

O romance A hora maconde, de Marcelo Panguana, foi editado pela Alcance Editores.

Por: Pedro Manuel Napido

A obra Poemas à sombra da infância, de Nick do Rosário e ilustração de Fiel dos Santos, reúne os requisitos exigidos para este tipo de género literário porque preside o jogo do fazer poético, com uma dimensão lúdica, sensorial e rítmicas (visual, sonoro e estrutural) percebidos nas camadas sensíveis da linguagem. Os poemas aqui contidos, podem ser escutados, vistos, cantados, tocados e sentidos profundamente pela totalidade do corpo e alma. Os mesmos são abertos, o que quer dizer que o leitor produz o sentido que a sua história de vida, suas emoções, lhe ajudem a construir.

Os poemas tematizam as varias “infâncias” na sociedade moçambicana, tentando mostrar como essa arte pode proporcionar reflexões e meios para que as crianças compreendam e, ao mesmo tempo, questionem e problematizem o mundo em que vivem, principalmente envolvendo as questões de pobreza e desigualdade infantil. Além disso, constatamos que ainda é pequeno o número tanto de obras poemáticas de qualidade quanto de docentes que desenvolvam um trabalho que envolva em primeiro lugar o prazer da leitura, muito devido à falta de formação na mediação de leitura literária.
Zappone (2005) ressalta que “aspectos como o vocabulário e as construções sintáticas devem estar em consonância com o público a que se destinam”. No caso desta obra, evitam-se determinados infantilismos porque o autor não duvida a inteligência e as capacidades do público leitor; não se usam diminutivos, construções sintáticas repetitivas, nem figuras de linguagem complexa.

Por seu turno, Gonçalves (S/d) afirma: “a poesia tem uma importante função no desenvolvimento da personalidade infantil, uma vez que ela permite a comunicação da criança com a realidade, possibilitando a investigação do real, ampliando o entendimento e a experiência de mundo através da palavra”. É claro que a criança é exigente e sabe identificar o que tem valor. Assim, ao selecionar a poesia, é necessário verificar aquela que saiba valorizar a linguagem, em que a relação entre as palavras, a sonoridade, as imagens, o humor, a forma dos versos sejam organizados de modo especial.
Muitos professores, embora alguns conscientes do valor da leitura, continuam rejeitando a poesia na sala de aula, sob a alegação de que as crianças não gostam desse género literário. Pode ser que os mesmos professores tenham dificuldades de mediação desse tipo de texto e sua especificidade: o seu carácter sonoro, polissémico e lúdico pois o mundo infantil, tal como o mundo poético, é permeado de imagens, fantasia e sensibilidade que contribuem para o seu crescimento. Para (BORDINI, 1989. p. 63) “[…] na poesia, o aprendizado possível se produz pela própria estrutura do poema, que seduz e estimula o leitor fisicamente pelos ritmos e efeitos acústicos e intelectual e afetivamente pelas representações ou vivências que suscita”.
Apesar do avanço da tecnologia e na forma de acesso à cultura através da televisão, da internet ou do universo virtual, a ligação da criança com a poesia ainda continua forte. Por vezes, a própria escola promove o distanciamento entre a criança/poesia o estudo, a leitura e a prática de trabalho com o texto poético. O professor precisa conhecer a produção actual e as especificidades desses textos para este público, acreditando no poder transformador da literatura, em geral e sensibilizador da poesia, em particular.

A leitura desta obra Poemas à sombra da infância proporciona uma abertura para o mundo. O mergulho em cada poema emergem-se camadas simbólicas que visualizem o universo interior e exterior com mais claridade. Entra-se no território da palavra com tudo o que se leu até então e a volta se faz com novas dimensões o que leva a re-inaugurar o que se sabia antes.

Isto se justifica porque leitura literária relaciona-se à necessidades humanas porém, não menos importantes que as demais. Muitas coisas que não gostamos realizamos por necessidade, por exemplo: acordar muito cedo, tomar banho, comer, trabalhar um determinado número de horas para garantirmos o pão de cada dia nas nossas famílias, pagar imposto, pagar portagem, dormir, estudar, praticar actividade física, etc. Por isso, quando não dominamos os segredos da leitura literária, uma parte da nossa formação espiritual, humana e cultural fica interditada ou seja, algo nos faz falta e não descobrimos os bastidores do mundo e da vida.

Tomemos o primeiro poema: “Lixo luxo” na pg. 9, como exemplo:
Lixo luxo
Lixo
luxo
o luxo floresce no lixo

Lixo no chão
não
lixo luxo
na sépia mão
do bruxo

O poema ultrapassa a superficialidade e a ordem habitual do lixo (resíduos sólidos) para conhecer as coisas, a beleza e a profundidade que residem não só nas ideias mas sobretudo na linguagem, que o modo novo de perceber e dizer o mundo e o contexto urbano em Moçambique. Se aproxima a trava-lingua, de origem tipicamente popular, essa brincadeira, divertida e poética que desafia as habilidades psicomotoras e psicolinguísticas, induzindo a um mergulho na tradição popular e atiça a inteligência, a ludicidade, a graça e gostoso riso ao público leitor.

O mesmo poema apresenta uma similaridade entre os sentidos e a sua forma de expressão tornando palpável através do jogo silábico, aliterações, assonâncias e solicita a sintonização auditiva. A leitura em voz alta pode envolver o leitor numa dimensão ampla do corpo e do interior de modo que o adulto, enquanto produtor do lixo urbano, escute e reflicta sobre ele.

Mais ainda, o poema “Lixo Luxo” para que tenha maior efeito artístico, exige interação e participação aprimorando a percepção humana nas suas relações com o mundo, busque sintonizar-se de forma harmónica e equilibrada com muitas crianças que se sujeitam ao lixo produzido na cidade e depositado na zona periférica. Isto parece demonstrar que o espaço urbano se transformou em lugar de castigo para algumas crianças que, em consequência, perturba o seu cotidiano e que enfrentam duras provações na vida escolar.

Na nossa sociedade, em geral e na cidade de Quelimane, em particular vivemos em tempos difíceis que tanta coisa joga contra nós: a globalização nos impõe provocações que não deixaremos sem resposta. Esta obra convoca o adulto a se solidarizar com o mundo infantil e não apenas se deliciar com seu sofrimento ancorado na lixeira em busca de sobrevivência. Outro exemplo, é sobre o poema “Cacimba dourada”, na página 10.

Cacimba dourada

No verão,
tarda o sol
a partir,

e, chegada a noite,
a lua cheia
reluz em toda a aldeia.

Vem atrás a madrugada,
largando no seu rasto
cristais de cacimba dourada.

Neste campo poemático, o autor apresenta uma serie de elementos da natureza: o verão, o sol, a noite, a lua cheia, a madrugada e a cacimba. O público leitor deve saber que o verão é geralmente incorporado na literatura para simbolizar alegria, aventura, plenitude, auto-aceitação e a busca do amor. Neste poema, o verão, representa a celebração da beleza, do calor e do crescimento que vem com a estação. Por seu turno, o sol é o símbolo da consciência dispersa que irá reconstituir a sua homogeneidade no seio da obscuridade interna. Renascer como sol da manhã significa, na linguagem dos mistérios, renascer de si próprio.

Por seu turno, a noite está repleta de temática nocturna: a insónia, o sono, o sonho, a escuridão, o sombrio, sugestão da morte estimulada pelos ares nocturnos, a sepultura, a feitiçaria e o túmulo. Neste poema, a convocação do ambiente nocturo (a lua cheia, a madrugada, a cacimba) pode ter sido intencional mediante a imaginação concreta que alia a sensibilidade à mundividência infantil o que faz da noite tenha um leque de possibilidades psíquicas para a sua maturidade. Como afirma Simiscuka (2007, p. 53) “[…] Devido ao facto de a noite surpreender, de certo modo, a dramaticidade, proporcionando um afastamento do individuo em relação ao sofrimento, à dor da existência, ela pode simbolizar, também, a purificação do pensamento, das ideias, da memoria; a suavização dos anseios mais elevados, dos desejos e afectos sensíveis […] ”, tal como se apresenta nos versos: “e/ chegada a noite/ a lua cheia reluz em toda a aldeia/”.

Olhemos para o poema, “O Jogo”, página 14, a seguir:

O Jogo
Um, dois, três
levamos uns pastéis

Quatro, cinco, seis
à casa da dona Inês

Sete, oito, nove
se alguém provar, que aprove

Dez, onze, doze
Os gulosos pastéis de nozes

Treze, catorze, quinze
talvez a mamã autorize

Dezasseis, dezassete, dezoito
a comê-los em vez de biscoitos

Dezanove e por fim vinte
o pessoal esganado
come, come, sem requinte

Este poema faz lembrar temas de fome e desejo de comer ou metamorfoses através da boca em alguns contos clássicos destinados ao público infantil: “O pequeno polegar”; “João e Maria”; “O gato das botas”. Na literatura, o alimento é entendido como tendo um cunho cultural, sendo este poema organizado como um cardápio através do qual é oferecido um pequeno almoço completo ao leitor o que permite reflectir sobre a poesia como alimento, em que medida este mesmo alimento desempenha um papel significativo no imaginário infantil e, inversamente, tanta criançada ainda passando à fome.

Navas (2017, p. 5) afirma: “Considerando que o gosto alimentar é cultural, e, portanto, pode e deve ser constantemente melhorado, cabendo ao professor ajudar o aluno a saborear, auxiliando-o, por meio de uma reeducação alimentar, descobrindo os mais intensos sabores dos textos literários”.
A citação mostra que este poema pode contribuir para o trabalho com a literatura infantil em sala de aula porque a obra propõe de atrativo e de nutritivo que pode ser servido aos pequenos leitores reconhecendo que a comida e a leitura são actividades análogas.

Mais ainda, este pode ser percebido através do olhar porque a disposição gráfico-visual tem importância fundamental, pondo a mensagem na sua configuração concreta. O mesmo como tantos outros se autoconstrui à medida que se alarga, cresce. O primeiro verso inicia por um, dois e três e o último atinge o número vinte. Mostra, plasticamente, o dinamismo e a elasticidade da forma de construção. Pode ser lido através de vozes, umas saindo de dentro das outras: um grupo conta e outro responde. A leitura fará mudanças da forma em processo de transformação na medida que se amplia.

As ilustração na obra tem um papel fundamental, podendo facilitar às crianças o seu contato com o livro. Mais ainda, o tipo de letra, o papel, o projeto gráfico, o formato concorrem para a atribuição de sentido ao texto.

Nesta obra, o texto imagético se compadece com o verbal. As cores amarela, castanha, azul, principalmente, são do gosto do público leitor por serem vivas. A representação da arquitetura africana (pg. 23) subverte os castelos representados pela literatura infantil clássica. A personagem criança está patente tanto no texto verbal como imagético.

Temos a ilustração arquitetura tradicional do estilo moçambicano, sustentável de baixo custo que proporciona à população uma habitação confortável e adaptada ao seu modo de vida, tanto a nível social, como económico, construída sem nenhuma licença nem intervenção ordenadora das autoridades competentes. “Os materiais utilizados na construção destas habitações são na maioria os tradicionais, nomeadamente os tijolos maciços de areia ou argila, fabricados no local e secos ao sol ou cozidos, estacas de madeira, argila, bambu, cordas feitas com fibras naturais, capim nas coberturas e, em alguns casos, tintas feitas a partir de materiais naturais” (RIBEIRO, 2015, p. 58).

A arquitetura africana foi influenciada pela cultura islâmica, devido ao estabelecimento dos mercados árabes em África e a cultura swahili foi a que mais se difundiu. Nos assentamentos swahili as casas pertencentes aos habitantes mais ricos, normalmente mercadores, eram retangulares, feitas de pedra, com cobertura plana, parecidas com as casas da Arábia meridional (Ribeiro (2015, p. 49) Apud Garlake, 2002 pp. 167-187).
Contrariamente à realidade capitalista, o quintal ou pátio, sem vedação para o isolamento social é normalmente o espaço fundamental da casa. É nele que se concentra a vida quotidiana da família, onde se realizam todas as tarefas domésticas, e é, em simultâneo, a sala de estar, o espaço de convívio da família, a cozinha, o local de trabalho, dos jogos e das brincadeiras infantis.

Fig.1
O jogo (salto de corda) e a brincadeira na pg.24 amplia a ludicidade e herança da cultura moçambicana. A simbologia mais conhecida da árvore é de símbolo da vida, representando a perpétua evolução, sempre em ascensão vertical, subindo em direção ao céu. Na cultura moçambicana para além do valor medicinal, algumas árvores simbolizam o sagrado e nelas se instalam os santuários. A conexão das raízes com os demais elementos das árvores se parece muito com a relação entre mães e filhos. Os leitores devem crescer sabendo que tal como as árvores, somos feitos de ciclos de vida-morte-vida que se repetem infinitamente. Uma árvore não fica florida e cheia de frutos durante o ano todo. Ela também passa por períodos de recolhimento, em que as folhas secam e caem, mas sempre volta a se reerguer. Os leitores devem aprender a olhar para a vida da mesma forma, a respeitar e acolher os desafios que encontramos pelo caminho. Afinal de contas, a vida sempre encontra uma forma de renascer.

Mais ainda, o jogo e a brincadeira do salto à corda trata-se de uma catividade com características cerimoniais diferenciadas, conjugando-se a música, a dança e o salto à corda. De acordo com Prista et all. (1992, p. 56) as participantes costumam vestir-se especialmente para o efeito e os homens participam apenas como instrumentistas. As participantes formam em fila e inicia-se o canto andando à volta do terreno, em passo rítmico. A partir dai uma a uma vão saltando à corda: em pé, sentada, deitada, de joelhos, etc. O nzope é no entanto, particular pela sua especularidade e pelo facto de ser praticado regularmente por mulheres adultas. É deste modo que o público leitor irá herdar a cultura moçambicana, passando de geração para geração.

Fig. 2
A ilustração a seguir, na página 27, visualiza-se alegria, descontração, amizade, acção intensa, perceção fantástica do mundo de modo que o leitor entenda o que é viver num lugar humanizado e que o sério e o engraçado caminham juntos.

Fig. 3
Dando especial atenção na relação entre texto verbal e não-verbal percebemos que, nesta obra, as ilustrações vêm a complementar as mensagens que são produzidas por intermédio dos textos, dando ênfase ao conteúdo do texto escrito, explicando detalhes de cada cena, preenchendo lacunas, acrescentando novas idéias e apresentando outras características e especificidades das personagens e do contexto dos poemas. Percebemos a predominância das imagens no plano geral mas outras técnicas também são utilizadas: o plano médio e close. As mesmas estão inseridas no nível de formação da imagem compreendida pelo ‘imaginário’, que se apresentam como substituição a um real ausente. Essas imagens são representadas no campo da denúncia ou rejeição assim como jogo de possibilidades, permitindo a entrada no campo simbólico.

A maneira como os poemas são desenvolvidos e a relação dialógica entre texto verbal e texto não-verbal permitem a reflexão de que têm a intenção de formar no leitor um certo modo de pensar o mundo em relação às “infâncias” na nossa sociedade e, ao mesmo tempo, sugerindo como deveria ser, por exemplo com relação às crianças que sobrevivem do lixo, da fome, da exclusão, da pobreza, sem abrigo, da violência, sem direito à educação e à ludicidade, entre outras privações.

Referências

BORDINI, M. da G. Poesia e consciência lingüística na infância. In: SMOLKA, A. L. B. et all. Leitura e desenvolvimento da linguagem. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1989, pgs. 53-68.

GONÇALVES, M. de L. B. (S/d). Poesia infantil: uma linguagem lúdica. file:///D:/DISC%20C/Desktop/LIJ/POESIA_INFANTIL_OK.pdf.

NAVAS, D. Resenha do livro “O alimento na literatura: uma questão cultural”. Revista Linhas. Florianópolis, v. 18, n. 37, p. 308-312, maio/ago. 2017.
PRISTA, A.; TEMBE, M. e EDMUNDO, H. (1992). Jogos de Moçambique. Maputo, Instituto Nacional de Educação Física.

RIBEIRO, M. C. (2015). O Contributo da Arquitetura Tradicional para uma Habitação “Informal” Sustentável em Moçambique. Lisboa, Instituto Universitário de Lisboa, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

SIMISCUKA, M. I. O símbolo da noite em o “Cancioneiro” de Fernando Pessoa. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. 127 ps. Disponível em: file:///D:/DISC%20C/Desktop/LIJ/Simbologia%20da%20noite.pdf. 11 set. 2023.

ZAPPONE, M. H. Y. A leitura de poesia na escola. In: MENEGASSI, Renilson José (Org.). Leitura e ensino. Maringá: EDUEM, 2005.

 

O advogado Sarmento denuncia negligência do judiciário no tratamento de casos que envolvam jornalistas fora da Cidade de Maputo. A denúncia consta da primeira obra do recém-doutorado e criminalista, intitulada “O Judiciário e a Imprensa em Moçambique”, lançada hoje em Maputo.

A obra de Sarmento Bacelar é parte da sua tese de doutoramento, recentemente defendida na Universidade Técnica de Moçambique. Do estudo que fez, notou que é mais arriscado ser jornalista fora de Maputo.

De acordo com a conclusão do autor, “em Maputo, é difícil julgar e condenar um jornalista, mas nas províncias é fácil. Na obra, dou exemplo de que, dos casos submetidos, 95% dos casos submetidos aos tribunais das províncias, os jornalistas ou editores foram condenados, mas, na Cidade de Maputo, encontramos processos em que os jornalistas ou editores foram absolvidos ou nem houve uma acusação com provimento”, explica Bacelar.

E há exemplos. Na obra, fala-se de províncias como Manica, Nampula e Cabo Delgado. “Nem todos os casos reportados nessas províncias deveriam ter ido até ao tribunal e julgamento, mas, por conta da negligência, os processos acabam por seguir só para agradar um e outro”.

O prefácio e a apresentação do livro foram feitos pelo pesquisador e professor universitário Luca Bussoti, que ficou impressionado com o facto de o autor ter transformado uma escrita de tese para um livro.

“O Doutor Bacelar conseguiu trazer o essencial. A tese era mais volumosa”, disse Bussoti.
O lançamento contou com a presença de vários advogados, incluindo o Bastonário da Ordem, juízes e diversas personalidades interessadas no direito.

O artista multifacetado, Leco Nkhululeco, vai apresentar, sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a multidisciplinar “Mhamba – o céu também se alimenta de estrelas”.

De acordo com o Franco, a performance une poesia, música, teatro e dança, desafiando o status quo (normas culturais ou sociais pre-existentes), lançando luz sobre a importância vital de preservar e celebrar tradições culturais em meio a um mundo em constante mudança.
“Mhamba – o céu também se alimenta de estrelas” é uma jornada poética, uma expressão artística que conecta com o passado e presente, inspirando a reflectir sobre antepassados e a essência da existência.

“Tinguluve”, marca relevante do ritual, traduz-se como uma chamada para honrar antepassados, o lugar onde eles encontram significado em sua existência contínua. Cada família guarda memórias dos que já se foram, e é por eles e para eles que a grande cerimónia da Mhamba se realiza.

“Nkhululeco explora a riqueza da cultura moçambicana, resgatando-a do esquecimento imposto pelo ‘imperialismo clerical’. Ele reinterpreta a tradição da Mhamba dando voz à ancestralidade colectiva que foi outrora subjugada. O espectáculo incita à reflexão sobre a ontologia africana (compreensão da natureza da existência, da realidade e da essência da vida a partir de uma perspectiva africana), revelando a mecânica intrínseca por trás dos rituais de sacrifícios, oferendas e evocações aos deuses como forma de retribuição ou agradecimento”, lê-se na nota de imprensa.

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