O País – A verdade como notícia

Por: Reinaldo Luís

 

 

Este mês, de maio, decidi lembrar Elsa Mangue. Não pela morte, e nem pela vida – pálida e cruel a que foi sujeita durante os seus 56 anos na terra. Faço-o porque, acredito, ser uma manifesta entrega à solidão. Relembro e tolero, aqui, a solidão, o ancorar da voz suave de uma menina de Zavala, filha de régulo, quejanda das agruras. E são, precisamente, sete anos que, entre os esplendores da luz perpétua, encontra o alento, o descanso merecido.

Não digo nenhuma novidade ao afirmar que Elsa Mangue merecia mais do que demos e que o Estado o devesse muito mais. Mas aí está: qualquer homenagem que se preste agora é fruto dessa solidão que nos acostumou e nos deixou. E o Estado, esse, qualquer tributo que possa prestar às grandes figuras artísticas da história deste país é/será sempre feito de ausências. É o que nos acostumam enquanto vivos e nos oferecem na morte, na dose máxima da indiferença.

Elsa Mangue, como outros bons artistas perecidos nesta pérola, viveram imerso no meio dessas antinomias, onde aproveitamentos e apontares do dedo do meio se misturam na algazarra de assobios e saudações com champanhes. A ideia da valorização, do cuidar, do proteger e do querer o bem convive com a exploração intensiva, quais lobos em peles de cordeiros. É o que temos. Aceitamos…e a roda da vida move-se.

E naquele setembro de 2014, quando deu o seu último suspiro, era o “azar” e a vida no extremo intersecto. Depois de 56 anos de lágrimas, vontades, pavores, renúncias e várias mortes da alma. Era o fim, colorido de esperança e carregado de ar novo para encher os pulmões atónicos. E a voz? Continuou acutilante, qual marca da sua vida, revivendo a solidão, a indiferença, a tristeza, a dor, a vida, a morte. E como sempre, foi do mesmo jeito: voltou à Zavala, sua terra natal, a bordo de uma carinha “my love”, entre a chaparia, um caixão e capulanas como cobertores, tal como veio à Maputo na ventosa quarta-feira do dia 18 de Agosto de 1974, aos 15 anos.

E foi assim: nasceu a 14 de setembro de 1958, em Inhambane, no distrito de Zavala. Foi baptizada Elisa Filipe Mudumane, filha de Filipe Mudumane Mangue, grande régulo, e de Doroteia Carlos Mutlombene, a 36.º esposa do regulado, com cerca de 162 irmãos. Sua mãe foi entregue ao Mudumane, como mulher, aos 12 anos de idade num tratado de cooperação. De imediato fez parte do regulado, onde teve Elsa, ainda no auge da adolescência.

Foi negado o direito à educação pela madrasta, Dona Marta, supostamente para não ser “puta”. Por isso, os seus dias no regulado, quando não estava a cuidar dos irmãos pequenos, eram feitos na machamba e no rio, das 5 horas da manhã às 16 horas. Tinha apenas sete anos.

Aos 15, Elsa foge da casa do pai, em Zavala, para Maputo. Era uma quarta-feira, à noite, quando todos estavam a dormir. Caminhou em direcção à Estrada Nacional Número 1, durante um dia e uma noite sem parar. É aqui, na capital do país, onde a narrativa da sua mísera condição humana retoma. Buscando memórias do abandono, na solidão, cantou “Lágrimas”. Aproveitada, por homens energúmenos, cantou “Fim de estrada” e “Kuni Kanganhissa”, a maldizer Joshua, seu eterno amor. Humilhada, cantou “Tindjombo”. E também quis largar tudo, voltar para sua casa, encontrar sua mãe. E fê-lo a partir das suas entranhas. Transitou a dor, o sofrimento, o passado, a vida de música em música até o último suspiro.

 

 

Por: Belchior Eduardo

 

– Quem achou o corpo? Perguntou o inspector logo que chegou ao local do crime.

Era um homem magro, de pele escura, altura baixa, daquelas que não fica bem em um homem, trajava casaco cinzento comprido, colocava seus óculos escuros, rosto assustador e convicto nos seus ideais.

– Onde está o empregado? Perguntei sorrateiramente.

Fez-se ouvir um silêncio total no meio das pessoas que ali estavam, confusas com o caso e amedrontadas pelo inspector.

– Não entenderam a pergunta? Questionou o assistente. Um jovem esperto, detalhista, de altura média, claro, com os seus cabedais nos pés, sempre asseado e meio desconfiante de tudo e todos.

– No meio de vocês encontra-se o assassino desta pobre senhora, e eu irei achar. Acreditem, apodrecerá para sempre naquelas celas imundas, com outros delinquentes. Disse o inspector.

Na multidão ouviam-se murmúrios de pessoas, umas olhando as outras, como se ali estivessem em suas cabeças as línguas de fogo de espírito santo da quaresma na igreja primitiva.

– Detenha seu filho, ache essas putas e esse tal de Jossias. Quero ver se terão coragem de mentir, olhando nos meus olhos. Ordenou o inspector ao seu assistente.

– Às ordens, chefe. Respondeu o assistente, acenando aos polícias que o acompanhavam.

O bairro todo ficou no total silêncio, um luto completo, por morte de quem respondia às necessidades daquela zona, a dona Índia, aquela senhora já na terceira idade, simpática e atenciosa a todos.

Já não havia outra conversa nas ruas, em aglomerados e outras zonas circunscritas.

– Está a insinuar que tenha eu assassinado a minha mãe? Minha própria mãe? É isso? Perguntou o Habib, bem nervoso.

– Pode ser também que tenhas praticado essa tamanha barbárie, sim. Afinal de contas, a mercearia ficou para ti. Disse o assistente do inspector interrogando o Habib no estúdio 66.

– O quê? Você está bom de cabeça mesmo!? Assistente de meia tigela. Retorquiu Habib.

– Vê como fala comigo, ohhh filhinho da mamãe. Aqui eu sou quem faço as perguntas, percebeu? Respondeu o assistente nervoso olhando directo nos olhos do Habib.

– E diga mais uma coisa…

Nesse momento foi interrompido por um agente que bateu a sua porta dizendo que estava a ser solicitado pelo inspector.

– Tens todas as peças contigo? Perguntou o inspector ao seu assistente.

– Sim, tenho. Respondeu o assistente.

– Achaste as duas putas fugitivas? Perguntou o inspector.

– Sim. Disseram que saíram cedo pois estavam em trabalho. Nenhuma prova lhes coloca em frente ao crime e, por isso, soltei-as. Respondeu o assistente.

– E esse bandido do Jossias? Perguntou o inspector.

– Interroguei-o. Disse que ficou todo tempo a dormir e só apercebeu-se do sucedido horas mais tarde, e testemunhas testificam a sua declaração. Respondeu o assistente.

– Por onde anda o marido da finada? Perguntou o inspector.

– Faleceu por causas naturais no ano passado e foi cremado no Cemitério Britânico. Respondeu o assistente.

O esposo da dona Índia era um bom homem, nato comerciante, distribuía alimentos por toda localidade. Não há quem não o conhecia, ambos, faziam uma boa dupla, seu filho Habib, ainda novo, abafaram minha tentativa de criação de meu negócio, ahhhh, também nunca fui bom naquilo.

– Habib, estás livre. Disse o inspector.

– Finalmente alguém sensata nesta imundice. Disse Habib.

– Vê como falas comigo, ohhhhh rapaz, tenho poderes de te manter por aqui mais sete meses do que já ficaste, para te tornares mais bem-educado, está bem? Disse o inspector.

Habib foi solto com a tonalidade de sua pele agora fraca, cabelo grande e desorganizado. Hiiiiiii até dava pena. Também, sete meses sem nenhum avanço, essa polícia não tem meios modernizados para investigar um caso macabro daqueles.

– Interrogaste a pessoa que encontrou o corpo? Perguntou o inspector ao seu assistente.

– Não.

– Localize o empregado imediatamente e me traga cá. Vou interroga-lo pessoalmente.

Foram à procura do mesmo, falaram com Habib e explicou onde ele mora e seguiram em diante.

– Entra. Disse o inspector a quem batera a porta do seu gabinete.

– Permissão, meu inspector. Pediu o assistente.

– Entra. Localizaste o empregado? Questionou o inspector.

– Sim. Localizei-o mas já estava melhor.

– Seja claro.

– Localizei-o, porém morto, estrangulado o pescoço tal como a finada da dona Índia.

– Meu assistente! Disse o inspector com uma cara de satisfação e um sorriso maroto no rosto.

– Sim, chefe. Respondeu o assistente

– Sete meses depois, estando a nossa esquadra em frente deste caso, finalmente achamos quem molestou aquela pobre senhora e o seu empregado. Como o mundo é pequeno. Vamos a casa do Habib…

 

Continua

O poeta Armando Artur foi laureado com o Prémio Literário José Craveirinha de Literatura 2020. A cerimónia da consagração realizou-se esta quarta-feira, na Cidade de Maputo.

 

Do poeta as palavras quase fugiram. Depois de receber o cheque gigante na ordem de 25 mil dólares (mais ou menos um milhão e quatrocentos mil meticais) e algumas lembranças, Armando Artur foi convidado a dizer algumas palavras no pódio. Primeiro, o poeta cumpriu o protocolo. Cumprimentou os convidados acomodados na primeira fila e os confrades em geral. A seguir, falando pausadamente, como se escrevesse um poema, confessou estar, naturalmente, muito feliz por receber o Prémio Literário José Craveirinha 2020. “Tenho cá comigo que os prémios vêm, de certo modo, marcar a trajectória ou a obra de um escritor, mas também julgo que nenhum prémio faz um grande ou pequeno escritor. Ou se é ou não se é”.

Ainda no pódio, falando ao auditório que soube cumprir as regras de distanciamento enquanto a cerimónia decorria, o poeta lembrou que pelo mundo fora há grandes escritores que nunca ganharam sequer um único prémio, mas não deixam de marcar a sua presença na história literária da humanidade. “É verdade também que nunca é demais um prémio literário. Quanto mais não seja para responsabilizar o autor que sou. Realmente, é uma grande responsabilidade. Isto impele-me a continuar a trabalhar para a literatura, para as artes e para a cultura moçambicanas. Por isso mesmo, sinto um grande peso sobre mim, nesta vertente de continuar a trabalhar”, até porque, realçou o poeta: “o meu compromisso é para com a literatura moçambicana. O meu compromisso sagrado foi sempre para com a literatura moçambicana”.

No Hotel Glória, Cidade de Maputo, o anúncio do autor laureado foi feito pela professora universitária Teresa Manjate, na qualidade de presidente do júri. A académica leu a acta que reflecte os encontros e a decisão unânime de todos os membros do júri, nomeadamente, Adelino Timóteo, Ungulani Ba Khosa, José Castiano e Manuel Tomé (em representação da HCB). Assim, no segundo e último encontro, o júri deliberou consagrar Armando Artur com o Prémio Literário José Craveirinha 2020. Na fundamentação, o júri destacou os 10 livros de Armando Artur publicados entre 1986 e 2019 e o facto de possuir obra traduzida para línguas como inglês, francês, sueco e árabe. Por fim, na acta o júri afirma ainda que Armando Artur propõe-se, do ponto de vista estético, a reinventar o ser por via da linguagem e instaura uma forma própria de escrever poesia.

Na cerimónia da consagração de Armando Artur esteve a Ministra da Cultura e Turismo. Eldevina Materula elogiou os esforços da Hidroeléctrica de Cahora Bassa em manter o prémio e felicitou o laureado. “Gostaria de endereçar as minhas felicitações e encorajar a prosseguir com abnegação no processo de promoção do património literário. Agora tem responsabilidades acrescidas. Passa a ser uma pessoa que deve inspirar os mais novos. Por isso, muitos parabéns, felicidades e votos de continuação desta excelente carreira que muito orgulha o povo e o Governo moçambicano”. Afirmação mesmo a condizer com as palavras do Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Carlos Paradona, que, minutos antes, disse que o Prémio Literário José Craveirinha representa o orgulho dos moçambicanos por ser o maior galardão do país que distingue o conjunto da obra dos criadores literários.

 

 

 

 

 

 

O Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP), em parceria com o Banco de Moçambique (BM), está a apetrechar bibliotecas de instituições públicas do país, no âmbito do Memorando de Entendimento entre as duas instituições. Trata-se de uma oferta de 15.261 livros de diversas áreas de estudo, desde Matemática, Economia e Negócios, Ciências Sociais e Humanas, Ciências de Computação, Literatura, Arte, entre outras, que irão apetrechar a Biblioteca Nacional e outras espalhadas pelo país, a saber: bibliotecas províncias (10), distritais (35) e municipais (5); universidades e escolas superiores (14); e escolas secundárias (5).

De acordo com uma nota de imprensa do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, os livros são fruto de uma doação feita ao Governo moçambicano, através do BM, pela Books for Africa, uma organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos da América, que se dedica à colecta, classificação, envio e distribuição de livros para crianças e adultos, no continente africano.

O apetrechamento dessas bibliotecas insere-se no quadro das atribuições primárias do Fundo Bibliográfico, de garantir a disponibilidade do livro, incentivar e promover o gosto pela leitura em Moçambique, e nas acções de responsabilidade social do BM de apoiar as bibliotecas, através de doações de livros, bem assim de incentivar a produção literária com a promoção de concursos literários.

 

por: Celso Muianga

 

Camarada São José ainda bem que nestes tempos pandémicos e incertos a HCB não apanhou Covid. E é já amanhã que será anunciado o maior prémio da nossa República das Letras, que é Prémio José Craveirinha, com o alto patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Um prémio que anda agora na grande avenida da consagração à vida literária e à obra dos melhores filhos de Moçambique.

Olhando para o histórico das últimas edições deste galhardão vejo que, por exemplo, Luís Bernardo Honwana, com  NÓS MATÁMOS O CÃO TINHOSO, Lília Momplé, Calane da Silva, a eterna luz, e Fátima Mendonça, os madodas das nossas letras já levaram para casa os justos 25 mil dólares, pelo seu visível e reconhecido emprenho nas diversas frentes literárias, o que é de todo inquestionável.

Para o ano 2021, tendo em conta o mérito e engajamento literário vejo Luís Carlos Patraquim, POR CIMA DE TODA A FOLHA, a liderar a minha casa de apostas. E ao lado de Patraquim coloco Mia Couto e Francisco Noa.

MONÇÃO, a obra inaugural de Patraquim que o académico Nataniel Ngomane farta-se de classificar como um marco, um livro divisor de águas do nosso território literário, no sentido em que constitue um sinal de evidente de mudança do paradigma literário. Esta obra conta já 41 anos de estrada. MONÇÃO é o segundo livro chancelado pelo INLD, a seguir a CELA 1 de José Craveirinha, o patrono deste prémio.

Tendo em perspectiva e olhando para a carreira de Patraquim vejo-o a liderar a GAZETA DE ARTES E LETRAS que serviu de plataforma de lançamento de novas vozes da literatura moçambicana, incluído a célebre geração CHARRUA. E o mesmo Luís Carlos Patraquim, verdade seja dita, esteve envolvido nas propostas de publicação de autores moçambicanos em Portugal, sobretudo na Editorial CAMINHO, onde começou a internacionalização dos nossos autores, no sentido em que atingiram outros público e o tão ambicionado mercado das traduções. Ainda vale a pena olhar e ver o número de vezes em que Luís Carlos Patraquim participou no apoio às edições de obras dos novos e jovens autores moçambicanos nos últimos 20 anos, quer tutorando, prefaciando e apresentando novas publicações. Um empenho visível que ultrapassa o simbolismo dos números.

A fechar este libreto sobre Patraquim, nestes seus 44 anos de produção literária vale a pena visitar dois notáveis estudiosos:

«Luís Carlos Patraquim é hoje o mais importante poeta africano de língua portuguesa, juntamente com o angolano Ruy Duarte de Carvalho» palavras de Pedro Mexia, poeta e crítico português.

O brasileiro Mário Luchesi afirmou «Luís Carlos Patraquim vive no delta da língua portuguesa. Entre Pasárgada e Inhambane. Como um dos seus poetas mais completos e mais inspirados».

A obra de Luís Carlos Patraquim consta na enciclopédia Britânica, no capítulo sobre o legado das literaturas africanas, com  uma referência à MONÇÃO  e a outros livros de autores moçambicanos e dos países de língua portuguesa. Para lá da poesia Patraquim tem cultivado a prosa, através da crónica e da novela, obras já publicadas em Moçambique e em Portugal e no Brasil.

São José,

A minha outra aposta para a edição 2021 recai sobre o escritor Mia Couto, outro divisor de águas, segundo Ngomane, com a publicação de RAIZ DE ORVALHO, há 38 anos. Couto é de longe, o mais regular, o mais traduzido e com maior número de reedições fora de portas, onde as tiragens gravitam acima de milhares de cópias por título. Num extenso universo de prémios e distinções recordo que recentemente venceu o prémio Jan Michalski, sendo o primeiro autor africano a vencê-lo, para além de ter sido finalista do Mann Booker Price e ter vencido o Neustadt. A distinção recente veio na esteira da publicação francesa da trilogia AS AREIAS DO IMPERADOR.  Mia Couto, um autor com notável polivalência nos diversos géneros literários, desde a poesia, à crónica, ao conto, ao texto dramático, infanto-juvenil, novela, romance, ensaio, e na composição de canções nos mais diversos momentos vivivos no país, como as cheias, ciclones, e aquando das primeiras eleições multipartidárias, em colaboração com os Ghorowane, no álbum NÃO É PRECISO EMPURRAR.

Tendo em conta que o prémio carreira também já distinguíu académicos, no caso, Fátima Mendonça, vejo na obra de Francisco Noa um manancial carregado de mérito e inegável reconhecimento. Por isso mesmo, em 2014, com o livro PERTO DO FRAGMENTO, A TOTALIDADE  ele venceu o prémio BCI de literatura, o que só abona a favor deste ensaísta, de uma produção regular e que nos conduz, com as suas reflexões sobre o fénomeno literário, ao debate e às mais diversas facetas da vida literária moçambicana.

São José,

Gostaria de apostar em mais autores e acho que me permites apenas dizer alguns nomes notáveis, pelo seu talento, empenho e impacto literário, são os casos de Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho, Suleiman Cassamo, Nelson Saúte e Fernando Manuel.

Vou ficar-me por aqui nos meus palpites, camarada, em expectativa crescente para saber a decisão do júri. Até já!

Abraço índico e repetido,

Celso Muianga

 

 

 

Por: Eunice Moreira

 

Ao lado da mulher dos meus sonhos, passei vários momentos que compõem a minha vida. Sim, a mulher dos meus sonhos, a que foi de muitos, antes de ser só minha. O mundo a dei e melhores impressões nela criei. Pretendia roubar a lua só para lhe dar, mulher virtuosa merecedora de todo o ar. Mas, como ao mundo chegamos sem avisar, o mundo a tirou de mim num piscar de olhao.

Sou um velho vivido, cheio de vazios, mas me reconstruindo. Hoje, vivo de casinhos (como os mais novos dizem), um namoro aqui, outro ali, só para descontrair.

Nunca fui pai, mas vivo me relacionando intimamente com as minhas filhas. Não são propriamente minhas filhas, mas meninas que poderiam ser. Da primeira à segunda idade passei. Sou um velho que com a idade foram as palavras certas e carinhosas para as usar. Assim, para as ter, pago bem. Talvez seja por isso que elas vêm se entregar como se não fossem de ninguém. Isso não é de bem!

Eu até me julgo, mas que culpa tenho se a minha insatisfação cresce na mesma proporção que a vontade delas de aparentar e ter mais e mais? Que culpa eu tenho se ao meu lado desejam estar e pelas notas se deitar?  Sou um velho a caminho dos 50, mas pareço um catorzinho, e não é pelo meu corpo que digo isso, mas pela falta de juízo.

Eu nem as conquisto, elas vêm até mim e não resisto. Passam por mim com ar de quem está nem aí, mas basta eu chamar que viram sem hesitar. Vêm com aquele olhar de quem não quer nada, olham para mim com uma cara inocente, enquanto gritam por dentro “que sorte!”. Por experiência, eu já conheço as malandras, assanhadas, sinal de que na infância não levaram bem porrada.

Eu, olhando para elas num tom despido de segundas intenções , pergunto o que vão beber? Elas se olham em código e demoram a responder. Como se não fossem experientes, pensam e dizem: pode ser “Amburque e breezer de muranco”.

Eu continuo tranquilo fumando meu cigarrinho e bebendo um cafezinho. Fiquem à vontade, como se estivessem com um jovem (risos). É o que as digo para as descontrair enquanto vou acendendo a brasa para derreter esse gelinho.

Essas flores que já murcharam, assanhadas, matam-me. Entregam-se como se o corpo deixasse de ser uma casa da alma. As mais velhas julgam-se inteligentes. Curtem comigo, depois vazam, mas deixam um recado: “sei onde voltar a lhe encontrar”.

Conseguindo o que quero, dinheiro não dou, mas proporciono tudo de bom. Comigo é assim: ou aceita ou vai viver sem mim. Algumas são atrapalhadas: pedem tudo, mas, no final, não fazem nada. Outras são mais estudadas: garantem o rancho, as mobílias, o dinheiro para fazer negócios da China. E ainda outras, num tom mais consciente e de organizada, pedem um espaço na zona em expansão.

Às vezes, sou romântico, compro flores e digo que a amo, mas nem todas são merecidas e é por isso que tenho as minhas preferidas. Aquela magrela descontraída que tudo fala ou a baixinha tímida que nada diz…

E dia pós dia, sigo sendo o Kota (A)ntónio (T)omás (M)arcos delas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por: Tony Amurane

 

A aurora ainda nem estava pronta para a sua majestosa aparição, prometendo um novo dia cheio de realizações e brilho infindo. Os galos aqueciam seus papos para despertar os madrugadores daquela atmosfera invernal. As árvores sentiam o frio naquelas bandas densamente povoadas da cidade, onde os arquitectos e urbanistas se esqueceram de passar para a desenhar e, as pessoas com seus instintos foram desenhando seus albergues sem padrão nenhum. À noite, a missão de todos é vigiar sua conquista do dia. Movimentos estranhos são sempre audíveis nas longas noites de vigia dos moradores de Namutequeliua. De dia, as histórias das noites podem compor um best-seller.

Naquele momento, Andarusse já estava com a mota do seu patrão para mais muitas gincanas pelas artérias da cidade de Nampula, seu local de trabalho de taxista. Depois de verificar, pela terceira vez, o cómodo que estava a arrendar naquela casa, de alvenaria de bloco de cimento e areia, não rebocada, deu graças a Deus por não ter sido visitado pelos amigos do alheio. Empurrou o veículo para fora da edificação. Saiu pela porta velha quase em pedaços do quintal do complexo e accionou a manivela da mota. Quase em simultâneo ao som do motor, ouvia-se o chamamento para a reza matinal nas diversas mesquitas que existiam pela unidade comunal Amílcar Cabral. A luz da motorizada era fraca, mas a sua perícia e conhecimento daqueles labirintos sem fim do bairro, o fizeram chegar sem problemas de maior ao local sagrado. Pelas voltas que dava ao longo das ruas da cidade, conhecia seus (des)encantos como o leão domina seu território. Deixou o veículo no sítio reservado para tal. Depois de um banho frio em casa, as abluções foram como o derreter da manteiga no maior sol do Verão de Tete. Deixou suas sapatilhas na entrada e dirigiu-se ao salão de orações. A mesquita estava com poucos crentes. A madrugada, de cerca de 13 graus Celsius, não convidava muitos para o culto.

–  Assalama Aleikum – cumprimentavam-se uns aos outros

Os Aleikum salams de resposta ecoavam pelo salão como anjos cantando.

De saída da casa sagrada, olhou para o amontoado de calçados à porta. Ficou estupefacto quando não encontrou os seus. Revirou os calçados na companhia de outros crentes, não tendo encontrado os seus. O pânico dele ia subindo de escala que ultrapassou a altura baixa do seu corpo franzino. Finalmente rendeu-se aos factos: alguém furtara suas maravilhosas nikes da calamidade acabadas de comprar no mercado da descida, no bairro de Carrupeia. Caminhou velozmente para a mota e a meio do caminho teve uma paragem repentina.

– Aiiiiiiiiiiiii – gritou olhando para os céus, como que perguntando por que razão era aquela penitência naquele período. Acabava de pisar uma pedra pontiaguda que estava perdida por ali.

Furioso, ligou o veículo e foi a casa para ver se encontrava umas pantufas para a jornada daquele dia.

Os primeiros raios solares já começavam a dar o ar da sua graça. Os becos já tinham algumas pessoas com afazeres mais cedos. As lâmpadas exteriores das casas iam-se apagando, anunciando o despertar dos moradores.

Andarusse chegou aos seus aposentos com cara de poucos amigos. Suas feições estavam visíveis. No dia anterior, antes de ir à casa fez a barba, deixando somente a parte inferior, para não fugir muito ao recomendado aos praticantes da religião muçulmana. Estacionou a mota fora do quintal, entrou para o recinto e viu que a maior parte dos outros inquilinos ainda estavam a dormir. O frio convidava para mais um tempinho na cama.

– Allah ajuda quem cedo madruga – disse para si mesmo em voz quase muda, lembrando uma novela brasileira que anteriormente assistia na casa do vizinho antes de se mudar para ali.

Foi ao seu cómodo, escolheu umas sandálias e saiu às pressas. Já havia algum movimento nas estradas daquela cidade rodeada de montanhas. Estava atrasado para as boladas na via. Saiu às pressas para não perder nem mais uma.

– Como vai, Anda? – perguntou seu vizinho Artur que gostava muito de correr nas manhãs ao longo da avenida Eduardo Mondlane – Peço boleia para a via.

– Na poa, mano – Seu sotaque era marcadamente macua – para quê brecisas te poleia, se vais tchimar?

– Chuva de ontem deixou todos caminhos com água, mano. Ajuda-la um gajo. As sapas já estão encharcadas.

Sapes que xtou a facer daxi, paca-la alcum alco aí.

– Depois, sem stress. Também teu patrão não vai saber, se eu não pagar.

Sopi-la. Chá estás a me atrassar.

Num salto atlético, Artur subiu no veículo e foram pelos becos conversando sobre diferentes assuntos. Chegaram a avenida Eduardo Mondlane, próximo do anterior estádio 25 de Setembro, Artur desceu.

– Hoje está muito pouca gente a correr.

– Estão a namorar. Não é você que nem conseque aquela muthiana.

– Muaija ainda vai ser minha.

Chá me fisseste perter muito dempo. Adé mais loco.

Andarusse saiu calmante daquele local, tentando não perder de vista possíveis passageiros.

– Táxi, táxi – falava sempre que avistava uma pessoa caminhando pela estrada.

Uma senhora com trouxas de hortícolas o chamou e pediu para a deixar no mercado dos Belenenses, bairro de Muhala. Foi ter com ela com velocidade de antílopes. Entre o prédio Lopes e a biblioteca Marcelino dos Santos, adentrou no bairro de Muhala com destino ao local de venda. Aquela viagem foi rápida e ganhou os seus primeiros meticais do dia. Foi abastecer logo a sua moto, pois já estava com muito pouco combustível. A receita e o dinheiro de combustível tinha deixado em casa do seu patrão. Por falta de bombas de abastecimento por perto teve de o fazer nos revendedores informais que existem um pouco pelas ruas da cidade. Daí foi à sua praça, Escola Secundária de Nampula.

Andarusse estacionou a motorizada e começou a reflectir. Mil e um pensamentos passavam pela sua cabeça. Tirou o gorro verde da cabeça e colocou no bolso da camisola que trazia consigo. Parecia que queria a brisa matinal suavizando aquele turbilhão de ideias. Divagava sobre os acontecimentos daquela manhã ainda muito tenra; sobre a passagem da mota à sua pertença depois da jornada laboral do dia, porque assim ditava o contrato verbal com o seu patrão; O que faria com o veículo: alugava ou arranjava alguém para fazer táxi para si; como estaria sua amada naquela manhã. Um sorriso leve começou a desenhar-se nos seus beiços. De repente, seu telefone celular tocou.

– Alô – pom tia.

– Bom dia. Tudo bem? Olha, podes vir levar-me aqui no campo do Sporting? Quero chegar ao Hospital Central.

Tuto pem. Posso sim, poiss.

– Quanto será?

– São 150 paus, patrão.

– Logo de manhã já queres me matar? Baixa isso, jovem.

– Ok. Como você és meu pois, paca-lá 130.

– Já estou pronto. Conheces minha casa.

– Estou a vir. Se Poiss me tissesse falado onde esse momento já estaria aí.

– Até já. Não acabe meu crédito, senão pago 100 samoras.

Andarusse colocou-se pelas ruelas adentro do seu bairro, disputando espaços com peões, sempre tentando não levantar as águas ali estagnadas em milhares de poças.

***

O dia ia calmo. Os raios solares tímidos mostravam algum ar da sua graça. As pessoas caminhavam frenéticas pelas ruas em busca da concretização dos seus objectivos. Sempre que Andarusse cruzava seu olhar com um potencial cliente, fazia um gesto com seu dedo indicador, dando a entender que perguntava se precisava dos seus serviços.

– Táxi? – perguntou um peão.

– Sim, poiss. Para onde vamos?

– Chegamos à Faina. Estou com urgência. Quero levar umas peças.

Sobe, patrão. – Seu coração batia acelerado. Cada cliente representava mais receita para o dia

O taxista colocou as duas rodas do seu veículo sobre o asfalto em direcção à Avenida do Trabalho.

– Como tem sido a vossa actividade de táxi?

Acora já não vai muito pem.

– Como assim?! Mas por quê?

– Já dem muitos jovens a fazer dáximota.

– Pois. Parece que todos os dias tem mais motas nas estradas.

– Sim. E mesmo quem não é daxista, quando alguém percunta se está a fazer dáxi, vai tizer que está. E as praças estão a aumentar dotos os tias.

– Mas, vocês não têm uma organização, uma associação para controlar isso? O município não faz nada a respeito?

– Existe uma associação, mas ainda não se faz sentir muito.

A conversa terminara por causa da necessidade de concentração que precisava para manter o foco na estrada. O movimento na Avenida do Trabalho era intenso. Carros, motas, pessoas, bicicletas cruzando e disputando espaços. Chapas de muitas rotas se cruzavam, se ultrapassavam em busca de mais passageiros. Era um caos. Serpenteando as viaturas, Andarusse ia ao seu destino.

Depois de levar as peças na loja, seu passageiro regressou à motorizada e começaram a voltar para o centro da cidade, enfrentando mais uma vez aquela confusão.

O cliente indicou para irem em direcção à padaria Nampula. Na zona do gato preto, pediu para entrarem no bairro de Namutequeliua para irem à oficina deixar os componentes automóveis. Sinalizando a mudança de sentido de marcha, Andarusse ficou a aguardar a passagem de um camião. De repente, um carro que estava a ser perseguido pela polícia tenta contornar a motorizada, acabando por bater nela violentamente. Os dois passageiros foram projectados para o asfalto e a mota para debaixo do camião. Houve uma enchente repentina de pessoas, perguntou ao seu passageiro se estava bem, tendo respondido que sim. Sem ferimentos graves, olhava dorido e cabisbaixo para os pedaços da sua futura mota.

 

 

O encenador e actor Venâncio Calisto mudou-se de Portugal para França. No país de Simone de Beauvoir ou de Jean-Paul Sartre, o artista moçambicano encontra-se a estagiar como assistente de encenação no Odéon Thèatre d’lEurope, no âmbito da criação do espectáculo La Cerisaie de Anton Tchékhov, que integra a programação principal da 75ª edição do festival de Avignon, a realizar-se entre 05 e 25 de Julho.

Assim, ao longo de dois meses e meio, o actor, encenador e dramaturgo irá acompanhar o processo de criação do espectáculo co-produzido pelo Thèatre de l’Odéon e pelo Festival de Avignon, que conta com a encenação de Tiago Rodrigues, Director do Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, e com um elenco em que se destaca a participação da actriz Isabelle Huppert, uma das mais célebres actrizes do cinema francês e mundial.

Este é o maior projecto teatral em que Venâncio Calisto trabalha. Já agora, La Cerisaie ou O Ginjal, em português, é uma das mais importantes peças de Anton Tchekhov, mestre do drama moderno, apresentada pela primeira vez a 17 de Janeiro de 1904. A actualidade de La Cerisaie, mais de século depois, representa a genialidade do dramaturgo russo, um dos primeiros da sua época a quebrar com as convecções da dramaturgia clássica e a fazer do palco teatral um lugar para repensar o quotidiano e dar voz às pessoas simples e explorar a poeticidade da linguagem de todos os dias.

Por: David Abílio

Vejo os sons teleguiando o delírio das bailarinas, dos bailarinos. Da magia dos sons ondulando no tecido dos ritmos contagiantes desta terra, os corpos não resistem à tentação.

Eis que vejo a “molesa” a apatia se desfazendo perante o impetuoso dos ritmos: São os corpos se exprimindo, gesticulando movimentos cúmplices, como se enfeitiçados pela delícia dos sons, como que excitados pela sedução dos ritmos.

Eis que vejo os ritmos desta terra se revibrando na gente da terra.

– Vejo DANÇA esta arte viva!
É DANÇA! Esta, a arte de expressão número um em África. Só em Moçambique, cerca de 250 danças diferentes foram recenseadas em 1978, mas nada se tem dito deste manancial artístico.

Hoje a propósito das comemorações do Dia Mundial da Dança, venho expor não apenas o meu jeito pessoal de ver a dança como sobre tudo uma breve análise do desenvolvimento deste género artístico no nosso País.
Entendo esta exposição como uma celebração da integridade da nossa cultura, uma homenagem a sua criatividade e um apelo a preservação do que verdadeiramente nos identifica. Farei a exposição em três momentos que corresponde ao nosso devir histórico. Primeiro vou falar da função social no contexto pré-colonial; em seguida debruçar- me- ei sobre a “folclorizaçao” da dança no contexto colonial, no terceiro momento dissertarei sobre a tentativa de recuperação da dança com a conquista da independência e terminarei a minha exposição com um olhar critico sobre a modernização da dança, com particular destaque para os esforços de domesticação de técnicas académicas e modernas na dança de raiz.

A DANÇA NA SOCIEDADE TRADICIONAL

A necessidade que o homem teve para explicar os fenómenos da natureza e convertê-los em seu benefício, obrigou-o a criar rituais que representavam o bem e o mal. Esses rituais reproduziam, portanto, esta luta em que os bons espíritos repeliam os maus espíritos. A dança era parte integrante desses rituais e foi um importante meio de comunicação com os poderes ocultos da natureza. E por isso que encontramos nas danças a evocação ou dedicação a chuvas, à caça, à morte, o nascimento, à guerra, etc, etc…

Os movimentos de dança tinham um significado preciso, através dos quais o homem aspirava dominar a natureza de acordo com as suas necessidades vitais. Recordo aqui, sem querer entrar em muito detalhe sobre o assunto ,a ideia transmitida por Placide Tempels, um missionário belga no Congo dos anos quarenta, autor da obra “A filosifia Bantu”, de que o essencial desta filosofia residia justamente na manipulação da força vital. Aqueles movimentos, por vezes, rudes, agressivos ou brutais e ameaçadores em algumas ocasiões, e noutros casos, cheios de erotismo e graciosidade ou ainda cheios de unção religiosa, eram de um vocabulário muito limitado, na sua maioria repetitivo, não existindo nessa altura prática ou gosto de dança pela dança, mas sim dançar como forma de cumprir uma finalidade mágica e precisa.

Provavelmente este não e o lugar para abordar algumas controvérsias antropológicos sobre a relação entre os africanos e a arte. De qualquer maneira gostaria de recordar que já houve vários estudiosos que defenderam a ideia de que em Africa existe estética, mas não há arte. Como e evidente, não concordo com esta ideia. Não e possível estética sem arte. O argumento pretende, naturalmente, retirar aos africanos a capacidade de produzirem eles próprios os critérios de apreciação do que e belo e sublime. A dança nas suas varias manifestações revela, contudo, que isto não pode ser verdade. Mesmo quando ela e embuida de uma função social, a dança e arte e estética, ao mesmo tempo que festeja a criatividade africana.

Dada a sua importância social, a dança era praticada colectivamente por toda a comunidade, e pode-se mesmo dizer que a sua prática era imprescindível por homens, mulheres, jovens, crianças e velhos. De facto, a dança era tão importante como as leis da comunidade, a organização do trabalho bem como outras normas regentes da sociedade tradicional. No entanto, a sua execução era simples e básica, mas profunda e vital ao mesmo tempo. A dançapodia ser vista de varias maneiras e dependendo do contexto era perfeitamente possível que se não procurasse nela o prazer estético. Em certos contextos a dança não era um exercício recreativo e não tinha também implicações decorativas.

A EVOLUÇÃO DE DANÇA EM MOÇAMBIQUE

Com o advento do colonialismo e a introdução da religião cristã e a subsequente instalação da Igreja Católica como religião oficial, passa a ser cultivada uma filosofia de “desprezo” pelos bens terrenos, pelas culturas indígenas.

A prática de tal desprezo chegava mesmo a assumir formas de repressão forte quando a coacção psicológica se mostrava insuficiente, tendo feito desaparecer, aos poucos, o estilo de vida e de organização das sociedades tradicionais e, consequentemente, várias das suas manifestações artísticas e culturais.

Nesta etapa, danças de caracter magico-religioso como o Nhau e danças guerreiras e espectaculares como o Muthine, foram severamente restringidas.

Deste modo, começa a surgir aquilo a que podemos considerar de dança folclórica. Entende-se por dança folclórica. Este processo foi muito bem elucidado pelos historiadores ingleses Terence Ranger e Eric Hobsbawn na sua obra “The Ivention of Tradition”. Na verdade, a ideia de “invenção da Tradiçao” referia se a transformação de manifestações culturais profundamente enraizadas no imaginário de um Povo em artefactos da vontade colonial de tornar a cultura africana “exótica”. Entende-se por dança folclorica aquela que o povo dança e se transmite de geração em geração e pode ter um caracter religioso ou social. Estas danças aprendem-se por imitação, sem técnica, nem escola, de expressão espontânea e evolução constante.

Foi assim que foram surgindo grupos relativamente autónomos e de certo modo com algum carácter recreativo, chegando inclusive a competirem entre eles. Pois a dança nesses momentos, apesar de continuar ligada ao funcionalismo religioso, começa a autonomizar-se e constituir-se numa expressão vital em si, independentemente das necessidades religiosas. Exemplo: dançar para alegrar turistas ou para satisfazer autoridades coloniais. Esta prática de dançar só por dançar, apesar de tudo, provocou uma certa viragem cultural. E importante não assumir uma atitude demasiado essencialista da cultura. Com efeito, a cultura marca passo com a Historia, molda-se e transforma-se nela.

Mas, mesmo assim, a dança nunca pôs completamente de lado a sua função educativa. Por exemplo a dança xigubo: servia para treinar técnica e militarmente os jovens guerreiros. Algumas danças continuam ligadas às cerimónias de ritos de iniciação consideradas verdadeiras escolas tradicionais informais sob ponto de vista das autoridades oficiais. Até aos dias de hoje, e em todas as culturas do mundo, DANÇAR ainda pode significar RECONCILIAR: RECONCILIAR O CORPO COM ESPÍRITO, TERRA COM CÉU, A PESSOA COM O VIZINHO. Também significa CONFIAR. DANÇANDO, O BAILARINO CONFIA NAS SUAS CAPACIDADES FÍSICAS E ESPIRITUAIS. O aspecto da AUTO-CONFIANÇA, BEM NO BAILARINO AO LADO, NO RITMO DA MÚSICA E NO DIÁLOGO ENTRE TODOS OS PARCEIROS- NO SENTIDO DE ESTABELECER CONFIANÇA MUTUA.

É, talvez, por causa destas qualidades e outras, que tornam a dança em África a expressão artística número um, quer também pela quantidade dos praticantes, que se pode afirmar sem nenhum exagero, que cerca de metade da população da África negra pratica a dança ou como ritual, ou como arte, ou simplesmente como diversão. Também a dança em África constitui o maior e o mais rico espólio cultural que o povo possui, cuja diversidade ultrapassa de longe a própria diversidade étnica.

A incrementação da política colonial, sobretudo nos domínios económicos, e culturais a imposição de certos valores nos “ “assimilados” e a tolerância a prática de algumas manifestações culturais fizeram surgir alguma prática de dança de salão moçambicana protagonizada pelos grupos como KWENGUELEKEZE, JOÃO DOMINGOS DILON Ndjindji, FRANCISCO MAHECUANE, LISBOA MATAVELE, DJAMBO e outros, muito antes do Raul Baza Baza apresentar o seu xigubo e marrabenta em palcos lisboetas para uma audiência sedenta de ver o “exotismo” e “erotismo” das danças africanas assim classificadas por uma certa crítica racista e ignorante dos significados e do simbolismo da dança africana. Assim, alguns artistas, por necessidade de ganhar dinheiro, e/ou por necessidade de preservar a cultura num ambiente hostil, procederam a adaptações notáveis e estilização das danças como XIPARATUANE, MFENA, XIGUBO e outras com destaque para a MARRABENTA, uma dança popular e de salão mais conhecida dentro e fora do país, que surgiu da evolução de uma outra dança conhecida como MAJICA, e passou a ser uma referência nos palcos do então SHOW BIZZ Lourenço Marquino.

Desde esse período para cá é notório o desenvolvimento da dança popular, a dança que o povo converte ou convenciona como sua durante um período de tempo que pode ser curto ou infinito, às vezes, é de criação anónima, como é o caso da Marrabenta ou “Djiva mafuruta” ou pode ser criado por um coreógrafo como o caso TXUKETA ou XITXUKETI, criado pelo popular Raul Baza, ou ainda a mais recente PANDZA que alguns atribuem a sua autoria ao ZIQO.

Este tipo de dança pode-se comparar com o mambo ou o chachachá na América Latina, samba no Brasil, kwassa-kwassa na R.D.C. Ela aparece em períodos curtos ou longos de acordo com a aceitação do povo.

DANÇA PÓS INDEPENDÊNCIA

A verdadeira modernização da sociedade em Moçambique ocorre em pleno com a libertação do Homem Moçambicano, o que propiciou a libertação de todo o seu potencial criativo.

Um dos grandes feitos pós-independencia na área da dança se relaciona com a realização do 1ºFestival Nacional de Dança Popular em 1978, que quase movimentou todo o povo desde “círculo à nação” expressão usada nessa altura para significar que o festival decorreu desde o bairro da localidade até à capital do país, tendo sido na altura inventariadas mais de 250 danças diferentes.

Na sequência do êxito deste festival, foi criado em Maputo, em 1979, o GRUPO NACIONAL DE CANTO E DANÇA , que integrava jovens vindos de diferentes sectores da vida económica e social do país nascidos em diferentes regiões constituindo um mosaico cultural representativo de todo o povo.

No seu repertório, figuravam ,para além de canções, poemas e danças representativas de todo o país, e no seu programa de apresentação se afirmava que esses números eram “o testemunho das alegrias e conquistas do povo moçambicano na criação da nova vida, das novas relações entre os homens”.

A dança ao longo de todos os tempos, constituiu-se num veículo transmissor de educação e cultura de geração em geração. A dança foi ( e será) sempre um meio através do qual o homem expressou seus diferentes estados de ânimo ,as suas ideias e preocupações, alegrias e tristezas, usando desde as formas mais simples, como as que vemos num grupo da população, até as mais complexas, as que a CNCD, por exemplo, desenvolve. Mas todas elas, encerram em si um conteúdo artístico profundo e são adaptadas pelo homem às suas condições de vida.

Observando a minha experiência por exemplo sempre usei a dança como instrumento para elevar os conhecimentos culturais e artísticos da população contribuindo na formação de hábitos de disciplina individual e colectiva desenvolvendo o sentido de trabalho em grupo, criando hábitos de boa conduta e ralações apropriadas de companheirismo.

É sempre bom recordar que alguém ao praticar a dança, também desenvolve a sua personalidade a sua capacidade de observação e a sua criatividade, facilitando deste modo a coordenação de movimentos rítmicos e harmónicos com que assegura a expressão artística.

A prática da dança, não só favorece ao homem fisicamente, como também contribui para o seu crescimento intelectual. Isto fundamenta-se no facto de a dança ser uma integração viva de outras formas de arte como a música, a poesia e as artes plásticas, permitindo assim o desfruto de outras expressões artísticas que se encerram na sua performance.

A criação da Escola Nacional de Dança em 1982 vem provar este empenho dos moçambicanos na valorização da dança ,confirmando a sua grande importância.

A Escola de Dança surge como a maturação de um curso de formação de instrutores de dança ministrado no Centro de Estudos Culturais em Maputo.

Aliás é neste Centro onde se formaram as famosas bailarinas Joaquina Siquice, Maria José Sacur, Perola Jaime, Rosa Vasco , Maria josé Gonçalves, Noé Manjate, Augusto Cuvilas e Maria Helena Pinto, muitos deles ainda no activo da Companhia Nacional de Canto e Dança, como professores e coreógrafos.

A nossa Escola de Dança hoje dirigida pela Maria Luisa Mugalela, antiga bailarina da CNCD trabalha seriamente com as jovens gerações na formação de uma cultura de dança para que sejam capazes de apreciar os grandes valores estéticos e ao mesmo tempo valorizar a nossa cultura e a de outros povos.

E é por isso que se introduziu no nosso país o ensino da técnica académica ou ballet, um género de dança espectacular nascido no século XVI na corte de Catalina de Médicis na Europa, com a apresentação do chamado “O BALLET CÓMICO DA RAINHA”. Este género já sofreu muitos enriquecimentos desde o seu nascimento, sendo que a técnica de dançar em pontas se mantém até hoje, e possui um vocabulário técnico de origem francesa.

Mas esta não é a única técnica que se ensina no nosso país. Também já esta introduzida a dança moderna, um género que nasceu nos princípios do século passado, criado pela senhora ISADORA DUCAN, que consiste em romper com todos os esquemas da conhecida dança clássica e propõe que a dança seja uma emanação da alma e que a mesma devia exprimir nos seus temas a vida do homem actual. A sua técnica desenvolveu-se e enriqueceu-se através de diferentes figuras: MARTHA GRAHAM, DORRIS HUMPHREY e CHARLS WEIDMAN, e outras figuras mais recentes de diferentes nacionalidades, o que faz com que não seja possível definir uma técnica única para este género de dança, que por sua vez gerou o movimento que assistimos especialmente na Europa, designada de “dança contemporânea”. Este mesmo género, já tem muitos adeptos no nosso continente, e foi estimulado pelos franceses através dos seus programas “África em Criação”. O Augusto Cuvilas, Maria Helena Pinto; Panaibra Gabriel, Edna Jaime são os ponta de lança deste género no nosso Pais.

Os problemas que os bailarinos africanos encontraram para desenvolver uma técnica específica baseada em passos de dança e movimentos tipicamente africanos, fizeram com que em 1977 MAURICE BÉJART e o antigo presidente e intelectual Senegalês LEOPOLD SENGHOR criassem uma escola Pan-Africana chamada MUDRA AFRIQUE, e reinventassem os passos de danças africanas , absorvendo os valores de outras formas de dança, de modo a permitir a criação de um género de dança negro-africana, capaz de ser entendida a apreciada pelos povos de todas as culturas. Esta técnica tem em GERMAINE ACOGNY a sua expoente máxima.

Nestas pesquisas e buscas no sentido de encontrar soluções técnicas para a dança africana, Moçambique não ficou atrás.

Em 1987, tomei iniciativa e encorajei um grupo de jovens entre os quais os irmãos Nhussi, para desenvolvermos um trabalho idêntico ao da Escola Mudra Afrique, cujos resultados já são visíveis em obras como a “NOIVA DE NHA-KEBERA” da minha autoria, “ NZUZE O DEUS DO MAR” do Augusto Cuvilas” “AMATODOS”, da Perola Jaime e “ODE À PAZ” do Casimiro Nhussi, para citar alguns.

Com relação à experiência moçambicana, nunca é demais recordar aquilo que escrevi em 1992, quando me referia à concepção coreografica de ODE A PAZ, dizendo que o Sr. Casimiro Nhussi detinha uma autoridade na dança moçambicana, que o permitia “brincar” com ela no bom sentido, ao trazer para o contexto universal uma experiência inédita com rótulo “de Made in Mozambique”. No nosso Pais decorre neste momento uma campanha de promoção e valorização dos produtos nacionais. A nossa obra foi um importante precursor cultural desta campanha.

Escrevia eu então que…” o inédito está na fusão do moderno com o folclore, numa perspectiva diferente das experiências já conhecidas, sobretudo nos Estados Unidos da América, Cuba e Brasil, naquilo que é chamado de “AFRO MODERNO” ou simplesmente “AFRO DANCE”. No lugar de integrar os elementos indígenas na técnica moderna, nos optamos pelo inverso. São os elementos do “moderno” que são integrados na dança tradicional moçambicana. Nesta perspectiva, os elementos da técnica moderna não subordinam o movimento da dança moçambicana, pelo contrário, eles estão a obedecer a esta. A simbiose não resulta da modernização da dança tradicional em obediência aos padrões do moderno convencional, mas sim do afogamento do moderno no passo+movimento+gesto caracteristicamente africanos ficando apenas legíveis alguns elementos, mas já sem a força própria para continuar a merecer o seu reconhecimento original de “moderno”.

As coreografias “PERSPECTIVA”. “KHAPULA MULHER”, “EROS EM XIPADJA”todas da Pérola Jaime, sao um exemplo acabado de como alguns artistas apropriam-se das técnicas ocidentais, e as “nacionalizam” criando verdadeiras obras espectaculares, com marcas genuinamente nossas.

As experiências aqui relatadas, permitem efectivamente criar coreografias ou dança teatral que incorporam temas actuais, como foi o caso de ODE Á PAZ, que para além da mensagem de reconciliação nacional era uma aula sobre a Democracia e os Processos Eleitorais.

O espectáculo ao ser visto por mais de dois milhões de espectadores, o que corresponde a 10 por cento de toda a população de Moçambique, contribuiu para o êxito do processo eleitoral de 1994 que registou uma grande afluência popular para a votação, cerca de 90%, desafiando previsões iniciais de apatia generalizada e ignorando inclusive o boicote do primeiro dia de votação imposto pelo principal candidato da oposição. Ao se registarem grandes enchentes em todos os comícios de campanhas eleitorais, o espectáculo da CNCD provou a sua efectividade e o valor inquestionável da dança, como sendo ainda um dos meios de comunicação e de educação de massas mais importantes nas sociedades africanas, caracterizadas pela diversidade linguistica, carência de meios de comunicação modernos , ect.

Sobre o valor e o papel da dança na sociedade africana e no mundo em geral exercidos ao longo da história, coloca-se esta expressão artística acima das demais e por isso torna-se urgente que, os organismos governamentais e não governamentais, os agentes económicos, a sociedade em geral virem as suas atenções para a preservação, criação e desenvolvimento da dança, injectando meios e recursos às poucas instituições existentes que demonstram o seu empenho no impulsionar desta arte milenar, cujos resultados acabam beneficiando todo o conjunto da sociedade, conforme se demonstrou nas experiências aqui relatadas, e em tantas outras que se seguiram, tais como “ARVORE SAGRADA” um bailado ambientalista , “AMATODOS” um bailado escola de educação cívica sobre a problemática do do HIV/SIDA e muito recentemente “SONHADORES” um bailado sobre os “Objectivos do Desenvolvimento do Milénio.

 

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