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O País – A verdade como notícia

Por: Belchior Eduardo

 

Não encontro uma forma adequada de começar a contar o que aconteceu naquelas ruas. Foi tudo estranho, uma ocorrência que jaz além da compreensão de todos moradores do bairro, até do secretário e chefe do quarteirão. De longe, é muitíssimo estranho.

A minha participação começou quando recebi o telefonema de um número desconhecido:

– Alô, quem fala por favor?

– Sou eu…

– Eu quem!?

– Não estás a reconhecer? Estas maluco, né?

Era Lina minha esposa, é uma pessoa comportada, conservadora, convicta nas suas ideias, religiosa, acredita sobejamente em espíritos e práticas da primeira religião de África, diz que tem tido sonhos com cobras, dentro de casa, porém nas informações que tive nas minhas andanças, dizem que os sonhos são reversos, se sonhas com cobra possivelmente não estará lá, mas, ela acredita e diz que sou menos medroso. De altura baixa e pele escura, é mesmo uma mulher africana daquelas.

– Desculpa, amor, havia muito barulho aqui, que se passa? Porque ligar com um número desconhecido?

– Estou sem carga, mas isso não interessa agora, aqui tem cobras, três cobras.

A temperatura é instável no bairro D, as vezes frigida no início e final do dia, ou quente no início, é mesmo incompreensível. As pessoas que nela habitam, são simpáticas, porém na sua maior parte por idosos e os da segunda idade quase que todos são solteiros, religiosos típicos, professando a maior religião do mundo, uma miscelânea ali de idades e culturas diversas.

– Mas, como assim? Porque não matam? Estão assistir apenas?

– Eram três, duas já mataram e outra entrou dentro de casa?

– Como assim? Está bem, vou já aí.

Ali tudo começou, o bairro D é uma circunscrição com ruas divididas por quem é de direito. Pouco movimentado, mas com pequenas aglomerações de adolescentes e crianças vendo o seu tempo passar, vedações típicas de quem é precaucioso, porém sem condições para a construção de um muro apreciável, espinhosas como vedação, lixeiras, casas na sua maior parte não rebocadas, outras abandonadas, zona que partilha a mesma localidade com a maior fábrica de cerveja nacional, terras aráveis e muito férteis para plantio de hortaliças, aqui, não esta péssimo nem mau, mas dá para morar e ver sua idade passar, com poucos ou quase inexistentes malfeitores, ruas cheia de rochas sedimentares aquelas do fanerozóico.

– Onde está a cobra, acharam-na? Perguntei logo que cheguei.

– Não. Está algures lá dentro. Estás diferente, o que se passa?

Eu, de altura alta, corpo forte, escuro, míope, com umas sapatilhas brancas e pretas nas solas, calças de jeans, camisa branca ajustada, acredito que o destino do Homem é traçado pelo próprio Homem, basta que tenha propósito de vida conseguirá coisas grandiosas, acredito sempre na positividade.

– Iremos acha-la, ainda hoje.

– Mas como achar, se a escuridão começa a chegar?

– Não te preocupes, faremos isso.

Colocamo-nos a revirar a casa. Primeiro focalizamo-nos no ponto essencial: o quarto, longos minutos à procura e eis que nos apareceu a ideia de levantar a base da cama e para o nosso espanto:

– Achei a cobra, achei a cobra.

– Onde está?

– Em baixo da base.

Naquele momento, chegou o meu compadre, que sugeriu que levantássemos novamente a cama. Para o nosso espanto, a cobra não estava lá.

– Mas como? Eu vi, tenho a certeza que vi a cobra enrolada, ela é meio verde com pintinhas pretas.

– Sim, é a mesma, é a mesma que vimos desaparecer cá fora, enquanto as outras pegamos e queimamo-las com pneu e petróleo.

Novamente, levantamos a base de cama e colocamos na posição vertical e, logo a seguir, começamos a procurar.

– Não é possível que ela tenha desaparecido assim misteriosamente. Não pode ser, tenho a certeza que vi, e vi mesmo.

– Tens a certeza mesmo?

– Não gosto disso, posso ser míope, mas não sou cego.

De repente, algo brilhante, escondida, era mesmo a cobra, bem enrolada em um buraquinho.

– Compadre, ali está a cobra, ali está, vamos matá-la.

Matamos a cobra e colocamo-la numa fornalha com pneu e petróleo. E, volvidos 15 minutos, é que, de repente, nos admiramos:

– O que é isso, na verdade? Nunca vi um fenómeno assim, o que é isso? Não é normal, só pode ser feitiçaria. Não pode ser. Disse espantada Lina.

Eu, distraído, fiquei trémulo, arrepiado e sem nada puder fazer peso embora não ter visto o que realmente sucedia.

– O que se passa? O que está a acontecer?

– Veja isso, pessoalmente.

– O quê, o que está acontecer aqui? Não pode ser possível?

Todos ficaram espantados pelo sucedido, sem saber o que estava acontecer naquele momento.

A cobra transformou-se numa borracha, intacta e sem ser consumida pelas chamas que a cobriam.

– Alguém, chama o secretário para ver isso, por favor.

 

Ao longo de duas semanas, a MultiChoice Moçambique capacitou 20 jovens nacionais em matérias de escrita de guiões para cinema. A formação em causa aconteceu no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, na Cidade de Maputo, e foi orientada pelo cineasta Licínio Azevedo.

De acordo com a organização, a iniciativa pretende munir os jovens com interesse em matérias de escrita de guiões ou em produção cinematográfica de conteúdos que possam ajudar no seu desenvolvimento individual, de modo que, brevemente, possam criar projectos ou iniciativas que ajudem o cinema nacional a evoluir até alcançar o nível de uma indústria que compete com qualidade.

A ideia da MultiChoice Moçambique é formar jovens que possam contribuir na criação e produção de conteúdos televisivos, de modo que os meios de comunicação possam ser cada vez mais atractivos, alcançando mais público consumidor, na luta pela promoção e divulgação da cultura moçambicana.

Nas sessões, participaram jovens provfenientes de diversos campos de saber, com destaque para actores, escritores e cineastas. Além do certificado de participação, os recém-formados tiveram a oportunidade de debater com Licínio Azevedo, que foi uma peça essencial na melhoria das histórias que os 20 jovens pretendem contar nos seus filmes do futuro. Para o cineasta, foi um bom trabalho que fizemos, alguns desenvolveram guiões bem detalhados que chegaram a 50 páginas, já com todas as cenas. Senti uma evolução muito grande dos participantes e do seu interesse nesta matéria. Há pessoas que se conheceram aqui e já estão a trabalhar juntas nos seus projectos. O que deve ficar é que guião é um trabalho colectivo, principalmente numa longa-metragem”.

Por: Leonel Matusse Jr.

 

A colectiva patente na Fundação Fernando Leite Couto junta obras de Rodrigo, Santos e Gonçalo Mabunda. A exposição será inaugurada às 18 horas e estará aberta ao público entre 2 e 30 deste mês.

 

Alguém terá dito que há exposições que valem tanto pelas perguntas que nos colocam como por aquilo que oferecem ao olhar. O PARADIGMA DA FORMA dos irmãos Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda quer ter as duas valências. A exposição será inaugurada no dia 02 de Junho, às 18.00 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.

A trabalharem em estruturas, técnicas distintas entre si, os artistas reflectem e questionam o status quo através das figuras e ícones que exploram. Nesta mostra encontramos a pintura de esferográfica sob cartão (Rodrigo), a mistura de colagem e desenho (Santos) e escultura (Gonçalo).

Rodrigo está a desenvolver uma técnica peculiar que na exposição Os Mabundas, no Camões em 2019, se aproximava dos azulejos portugueses. Sob o cartão, o artista distribui infinitos desenhos minúsculos, palavras, que vistos a lupa revelam o humor das circunstâncias de penúria que pesam nos ombros de uma sociedade que caminha na corda bamba a equilibrar a sua precariedade.

No novo rumo que Rodrigo traça neste O PARADIGMA DA FORMA, entre os milimétricos desenhos, surgem formas maiores que ganham o contorno de corpos, edifícios entre as margens dos pontos que o artista deixa em branco ou castanho, dependendo da cor do papelão/cartão no centro da composição.

A parte interior de Caixas de Red Label da John Walker (as telas de Rodrigo) dão espaço a reflexões, muitas vezes satíricas, sobre a realidade que nos rodeia e os seus dilemas.

Gonçalo Mabunda, por sua vez, reactualiza o significado das armas não com isso aniquilando os sentidos primeiros destas: a morte e o poder. Mas os rostos e corpos caricaturados, crivados de bala podem ser uma metáfora para a condição de precariedade, da vida por um fio.

Uma pergunta natural, ao olhar para as obras pode ocorrer: não são as dificuldades quotidianas – o chapa deficitário, o agente da polícia ou do hospital ou da conservatória ou das alfândegas, entre outros “ous” possíveis que materializam a corrupção – outras formas de nos colocar uma Kalashinikov AK-47 com o cano apontado ao nosso rosto?

A ser neste rumo, temos as obras de Gonçalo Mabunda ao serviço do questionamento da necropolítica (?) ao transformar as armas em poesia, em arte, disponível para o sensível (?).

Um dos marcos desta exposição é o uso escultural de capacetes militares crivados de balas a caricaturar rostos com a boca aberta, a zona do cérebro aberta ou então a fazer o estomago da escultura de um Cristo com laço vermelho no peito – a ironizar os pastores que actualmente proliferam na sociedade.

Outra novidade de O PARADIGMA DA FORMAestá no uso por Gonçalo Mabunda de materiais de pulverização contra a malária, desde as roupas, as botas, as viseiras e as mochilas bomba de pulverizador.

Esta colectiva conta ainda com Santos, que trabalha na mistura entre o desenho e colagem, numa conjugação de cores que para lá da estética busca a poética no quotidiano, a reflectir sobre a pandemia, sobre a vida nos bairros, os conteúdos noticiosos da televisão e outras questões que não se esgotam.

Com obras maiores que a exposição “OS Mabundas”, no Camões em 2019, Santos quer revelar os nossos pecados, as mazelas do sistema e certas incoerências numa catarse a volta desse nosso hábito de nos silenciarmos sobre os nossos sofrimentos.

No olhar do jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da exposição, as peças desta mostra resumem procedimentos diferentes, ora instigando a percepção do deus das pequenas coisas, como diria a escritora indiana Suzanna Arundhati Roy, ora preenchendo o campo visual de narrativas por contar.

O PARADIGMA DA FORMA, prossegue, é um conjunto de ferramentas diminutas, no entanto, a exaltarem-se à medida que linhas invisíveis se unem a favor da inteligibilidade inalienável. “Há nisso cruzamentos: estéticos, axiológicos e semiológicos, afinal a arte Mabunda atravessa fronteiras contemporâneas para construir a diversidade na singularidade”, lê-se.

A concluir, José dos Remédios observa que através deste O PARADIGMA DA FORMA, com efeito, os Mabunda vão buscar à precisão da técnica (desenho, pintura e escultura), a representação vivencial que, de outro modo, não faria sentido.

 

 

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Quem és tu?

Sobressaltei-me com a pergunta. Fez-me viajar no tempo aos bancos do Liceu e do malfadado (perdoem-me os professores de Português e os entusiastas de literatura) Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, que até aos dias de hoje continua a assombrar e a adormecer os alunos da Escola Portuguesa em Maputo e de todas as escolas portuguesas espalhadas pelo mundo afora.

Sinceramente apeteceu-me responder tal como o personagem do livro:

– Ninguém.

Mas, por uma questão de educação, dei uma resposta óbvia e sem um pingo de sarcasmo:

– Sou aquele a quem deram há 63 anos o nome de José Paulo e os apelidos dos seus progenitores, Ninette Ribeiro da Fonseca e Mário Pinto Lobo, neto de Braz Pinto Lobo e Ângela Ribeiro Ramos e que casou há 42 anos com Maria Fernanda Osório.

Também estive tentado em dar uma resposta mais elaborada:

– Sou o navegante das sombras das minhas memórias, relembranças e vivências moçambicanas e portuguesas, aquele que percorre narrativas do passado no ocaso do século XX e dealbar do século XXI, tentando encontrar ângulos e direcções para cartografar a vida. Aquele que não hesita em evocar os seus antepassados para re-encontrar os pontos cardeais familiares ou que enfrentando as vagas alterosas dos mares digitais noutro continente onde aportou, perscruta adamastores modernos, sem receio de naufragar nas tempestades por eles provocadas.

Para além do lirismo e óbvio pedantismo, arriscar-me-ia a que a reacção não fosse não poética…

– Não é isso! – clamaram exaltados os meus inquisidores – perguntamos se és de Esquerda, Direita ou Centro?

O teor da minha réplica poderia ter dado origem ao mesmo resultado do enredo de Frei Luís de Sousa, ou seja, descambado numa tragédia, para mim, pelo menos.

– Esqueceram-se de referir à frente e atrás e ainda, em cima e em baixo…mas sei lá! O meu sextante não calcula essas posições, os meus pontos cardeais são outros, são os que constam dos meus mapas familiares e conjugais.

– No meu epitáfio, gostaria que escrevessem apenas: foi um homem bom!

Que queriam que eu dissesse? Como tal classificação não está nas minhas prioridades, deixo aos outros, como árbitros ou juízes, optarem por aquela que julguem mais consentânea com a sua avaliação. No entanto, deverão tais avaliadores ter algum cuidado com as suas observações, de modo a que não sejam apressadas e cheguem a conclusões precipitadas ou disparatadas, como por exemplo na história seguinte.

Um amigo nosso, passageiro frequente de linhas aéreas europeias, viajou um dia para Portugal. Tendo comprado bilhete de avião numa das companhias de low-cost europeias, fez o seu check-in como habitualmente, entrou na aeronave e dirigiu-se ao seu lugar.

Vários passageiros que já se encontravam sentados na fila de trás, entreolharam-se e trocaram comentários em português:

– Epá! Tamos lixados! Este gajo com este aspecto ainda nos deita o avião abaixo ou tenta sequestrá-lo…

Até à decolagem continuaram com os dichotes e comentários menos agradáveis.

O nosso amigo é bem moreno, careca, com bigode e barba, pesa mais de 100 kg e vestia roupa branca, camisa larga sem gola, calças largas sem zipe e alpercatas.

A história terminou com o avião aterrando em Lisboa e o nosso amigo despedindo-se afavelmente dos passageiros da fila de trás:

– Então boas tardes, meus senhores! Espero que tenham tido boa viagem.

Reacção dos passageiros implicados:

– Porra que já arreamos bronca! O gajo é português e percebeu tudo!

Pois é, as aparências iludem!

 

A Trinta Zero Nove foi distinguida, esta terça-feira, com o Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária, da Feira do Livro de Londres. Na final deste ano, a editora concorreu ao prémio com três iniciativas dos seguintes países: Bulgária, Alemanha e Singapura.

Um ano depois de ter sido menção honrosa na Feira do Livro de Londres, na mesma categoria que concorreu, a Trinta Zero Nove foi distinguida com o Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária, da Feira do Livro de Londres. O anúncio foi feito na manhã desta terça-feira. No entanto, até à tarde, ainda faltavam palavras à editora Sandra Tamele, afinal a sua micro-editora é tão nova e, em dois anos, já atingiu patamares muito altos. “Sinceramente, eu ainda não caibo em mim de tão feliz que estou. Este não é um prémio só meu. Existe um conjunto de pessoas que tem contribuído. É uma realização muito grande.

Na edição deste ano, a Trinta Zero Nove esteve a concorrer com iniciativas de três países, designadamente, Elizabeth KostovaFoundation (Bulgária), Tender Leaves Translation (Singapura) e Uebersetzen (Alemanha). A editora moçambicana venceu porque, segundo o júri, é inovadora, especialmente inspiradora, com um programa de actividade imaginativo, dinâmico e visionário. Não podíamos estar mais entusiasmados em tê-lacomo a nossa vencedora de 2021”, lê-se na acta.

Doravante, para Trinta Zero Nove o céu é o limite. “Se em pouco tempo conseguimos tanto, sentimo-nos motivados a dar o passo seguinte”. Em parte, o passo seguinte consiste em ter um espaço em que o leitor pode ir comprar livros à editora, e, se nãopuder, ir ler os livros com a editora. Além disso, a Trinta Zero Nove pretende editar e traduzir mais obras para os mais novos, até porque, actualmente, tem um foco um pouco diferente. Apostamos, agora, no público infantil. Estamos a ter dificuldades em atrair o público entre adolescentes e adultos. Pensamos em criar e traduzir conteúdos para meninas e meninos com 3 anos de idade . Inclusive, vamos lançar uma colecção de livros para esse público, que estarão disponíveis em português, macua, cena e changana.

Neste momento, um dos impactos positivos da conquista do Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária é a seguinte: a Trinta Zero Nove passa a ter acesso aos direitos de tradução dosescritores que do outro modo seria impossível traduzir para as línguas moçambicanas.

Além de tradução literária, as iniciativas vencedoras desta edição dos prémios excelência serão celebradas na Feira do Livro de Londres numa versão online, no dia 29 deste mês. No evento, Editores, tradutores e autores conversarão sobre asquestões prementes atinentes à sua área de actuação. Estas sessões aparecerão juntamente com palestras de autores, painéis editoriais e seminários.

A propósito das iniciativas distinguidas na presente edição da Feira do Livro de Londres, o Director, Andy Ventris, afirmou que “todos os vencedores dos Prémios Internacionais de Excelência deste ano demonstram o engenho e o talento que se encontram hoje na indústria, e estamos encantados por reconhecer o seu trabalho trazendo livros aos leitores de todo o mundo”.

A Trinta Zero Nove é a primeira editora dos PALOP a participar e a ser finalista (ano passado) no evento britânico ao longo dos 50 anos da Feira do Livro de Londres e ao longo de sete edições dos prémios para excelência internacional.

 

A Casa do Professor é uma instituição cultural que será inaugurada às 15 horas desta terça-feira, no Bairro Francisco Manyanga, na Cidade de Tete. A instituição é aberta para promover actividades ligadas à leitura e às artes em geral.

Ano passado, Moçambique perdeu um casal de professores universitários num intervalo de seis meses: Juliano Bastos e Stela Duarte. Enquanto puderam, os dois professores da Universidade Pedagógica ensinaram sempre e não se limitaram à sala de aula. Pelo contrário, também recebiam os seus estudantes em cassa, dando-lhes a possibilidade de consultar livros, usar computadores e discutir conhecimento. A casa deles sempre foi a extensão da sala de aulas. Assim, já que não deixaram filhos, como forma de manter a continuidade do funcionamento da casa deles, familiares e amigos do casal Juliano Bastos e Stela Duarte decidiram criar a Casa do Professor, uma instituição cultural onde os alunos (primários e secundários) e os estudantes universitários poderão ter acesso ao livro e à informação, inclusive com formações de curta duração.

A maior parte das obras da Casa do Professor (ficção, poesia, livros científicos, de Moçambique e do estrangeiro) foram retiradas da biblioteca do casal. Da residência deles foram obtidos, sobretudo, livros e discos repetidos. Já os outros livros foram fornecidos por familiares, amigos e livreiros.

Neste 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, a Casa do Professor vai abrir, logo às 14 horas, com oficina de pintura para os mais novos, residentes no Orfanato Vovó Teresa, em Tete. Depois, seguirá um acto mais solene, para permitir que as pessoas conheçam a residência transformada em casa-biblioteca, com colecção de livros de várias áreas do conhecimento.

O objectivo dos fundadores da Casa do Professor, segundo explicou a coordenadora Aíssa Mithá Issak, esta segunda-feira, a partir da Cidade de Tete, é replicar  a ideia em todo o país. Começaram por Tete porque Juliano Bastos e Stela Duarte, que assim serão eternizados, eram daquela província.

Portanto, a Casa do Professor é um espaço de acesso à informação e à formação para todas as idades, onde irão decorrer actividades como consulta, venda e apresentação de livros, debates e palestras.

 

Durante uma semana, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, trabalhouna capital espanhola, Madrid, onde estabeleceu conversações e intercâmbio na área da cultura e do turismo.

De acordo com uma nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, a governante manteve encontro com o Secretário-Geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), Zurab Pololikashvili, numa altura em que Moçambique submeteu a sua candidatura ao Conselho Executivo da organização. O encontro também tinha como objectivo estreitar e reactivar as relações multilaterais entre as partes.
A Ministra refere: “Moçambique submeteu a candidatura para ser parte das soluções de uma forma holística para África, com o objectivo de ver nosso potencial turístico africano com capacidade de atrair investimento e turistas nacionais e internacionais. Esta candidatura a membro do Conselho Executivo não é um mero exercício institucional, é uma acção colectiva para que o nosso continente se torne apetecível, através da conjugação de esforços, entre o Governo e o sector privado”, lê-se no comunicado.

A Ministra da Cultura e Turismo também visitou a Feira Internacional do Turismo (FITUR 2021), que decorreu de 19 a 23 de Maio, e interagiu com vários expositores.
A FITUR deste ano contou com 350 expositores e um total de total 5000 empresas participantes.
Nesta edição, a feira apostou na digitalização e, como complemento à realização do evento presencial, apresentou FITUR LIVEConnect, uma plataforma online dirigida a toda comunidade profissional do turismo, que ofereceu aos interessados a oportunidade de se conectarem.

Eldevina Materula também se reuniu com o Secretário de Estado do Turismo de Espanha, Fernando Valdés Verelst, e com o Ministro da Cultura e Desporto, José Rodríguez Uribes. Dentre vários propósitos, os encontros tiveram como objectivo fortalecer a cooperação bilateral entre as partes na área do turismo, com ênfase para capacitação institucional, apoio técnico e captação de investimentos.

Igualmente em Madrid, Eldevina Materula manteve um encontro com fazedores das artes e da cultura baseados em Espanha. Com eles discutiu sobre os desafios que a classe encara naquele país e falou dos instrumentos de legislação do ministério e do Governo e das acções que decorrem actualmente a favor do artista. No encontro debateu-se a Lei dos Direitos do Autor e Direitos Conexos, a Inscrição dos Artistas no INSS, a dinamização das indústrias culturais e criativas e internacionalização das artes e cultura, tendo os artistas moçambicanos no estrangeiro  como principais actores.

Segundo a mesma nota de imprensa, a Ministra também fez alguns esclarecimentos sobre a situação sócio-económica do país com enfoque a Cabo Delgado, após constatar alguma desinformação inerente a este assunto. Esse foi um momento para confortar os artistas moçambicanos e relançar a imagem positiva sobre o país. Por sua vez, os fazedores das artes e cultura vincaram a necessidade de se reforçar acções tendentes a vender a riqueza da diversidade cultural moçambicana em Espanha, para que seja mais consumida.
A ministra reconheceu o papel dos artistas radicados em Espanha na divulgação da cultura nacional.

No encontro estiveram fazedores de música, artes plásticas, dança e cosméticos.
Importa referenciar que em Espanha existem 269 artistas moçambicanos registados.

 

A Fundação Fernando Leite Couto homenageou o poeta da Mafalala numa sessão presencial, sexta-feira à noite, na Cidade de Maputo. A sessão contou com performances dos irmãos Willy e Aníbal, de Helena Rosa e Cândida Mata.

 

Se estivesse vivo, José Craveirinha teria completado 99 anos de idade, esta sexta-feira. Porque apenas partiu o homem e não a obra, que perdura, a Fundação Fernando Leite Couto abriu as suas portas para receber leitores, declamadores, músicos e tantas outras pessoas que convieram com o poeta maior da literatura moçambicana.

O evento durou aproximadamente uma hora. No palco montado, declamou-se e cantou –se a poesia do primeiro africano a conquistar o Prémio Camões, já em 1991. Entre os textos declamados por Helena Rosa e Cândida Mata, ouviu-se “Karingana ua karingana” e, porque já é inverno e pelo país abundam citrinos, “As saborosas tanjarinas de Inhambane”, um poema sarcástico, crítico e muito actual. O público percebeu a actualidade do poema hilariante e reagiu sempre à medida que os versos carregados pelas vozes das duas declamadoras.

E porque no dia 28 de Maio nasceram os irmãos gémeos Willy e Aníbal, músicos com 46 anos de percurso musical, a Fundação Fernando Leite Couto convidou-os para participarem no evento. Assim, não só houve poesia de José Craveirinha. Igualmente, ecoou pelo átrio da Fundação uma espécie de regresso ao tempo, materializado nos acordes das guitarras dos dois manos com 70 anos de idade fresquinhos. Tudo ponderado. A organização do sarau quis homenagear Craveirinha e cantar os parabéns a Willy e Aníbal, que ficaram contentes por isso: “Estamos muito felizes por contribuir para esta homenagem a José Craveirinha, depois dele partir. Temos uma gratidão por este embondeiro das lestras moçambicanas. E, sendo este o dia do nosso aniversário, unimos o útil ao agradável”.

Os irmãos Willy e Aníbal estiveram em todos momentos da cerimónia, ora tocando e cantando, ora fazendo som ambiente para as declamadoras que também se entusiasmaram ao receberem a proposta de celebrar Craveirinha: “Para mim”, explicou Helena Rosa, “foi uma experiência incrível poder declamar José Craveirinha neste evento. Penso nele como um poeta que nos traz poesia de reflexão e de combate. Isso, nesta altura que estamos a atravessar a pandemia, é importante”. E para Cândida Mata: “Para mim, não havia melhor prenda do que esta, em que nós cantamos Craveirinha, o que nos encanta e a nossa moçambicanidade”.

O sarau José Craveirinha inseriu-se numa série de eventos que a Fundação Fernando Leite Couto tem realizado este ano, em homenagem a grandes nomes da literatura moçambicana. Além do poeta maior, nas edições anteriores, também foram relembrados autores como Albino Magaia, Aníbal Aleluia e Fernando Leite Couto.

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. e a Fundação Calouste Gulbenkian vão apoiar o desenvolvimento de quatro polos de criação artística contemporânea nas áreas das artes cénicas e/ou música, nos PALOP e Timor-Leste, com o objectivo de promover a qualificação de recursos humanos e de instituições da sociedade civil ligadas às artes.

Segundo escreve o Camões, as candidaturas decorrem entre 26 de Maio e 7 de Julho e destinam-se a instituições/entidades com sede e actuação nos PALOP (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe) e Timor-Leste, que deverão cumprir o requisito de ser legalmente constituídas como pessoas colectivas de natureza privada, sem finalidade lucrativa e ter trabalho comprovado no âmbito das artes cénicas e/ou música.

De acordo com a nota do Camões, as actividades apoiadas podem incluir: a investigação artística; a criação de novas produções/obras artísticas, nomeadamente em regime de residências; a programação de produções/obras preexistentes; iniciativas de carácter formativo e de capacitação; acções específicas de envolvimento e desenvolvimento de públicos, habilitando comunidades locais diversas a participarem activamente na criação e fruição artística. Estas actividades poderão ainda ser realizadas em cooperação com outras entidades a nível local, nacional e internacional, muito especialmente no âmbito dos PALOP-TL. O concurso decorre em duas fases. No final serão apoiados quatro polos, cujo programa de atividades deve ter a duração de 30 meses.

O projecto PROCULTURA PALOP-TL é uma acção do Programa Indicativo Multianual PALOP – Timor-Leste e União Europeia, financiada pela União Europeia, cofinanciada e gerida pelo Camões, I.P. e cofinanciada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Tem como objectivo contribuir para a criação de emprego em actividades geradoras de rendimento na economia cultural e criativa nos PALOP e em Timor-Leste.

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