O País – A verdade como notícia

“Nunca realmente conhecemos alguém. E, muitas vezes, os nossos sentimentos nos cegam. E descobrimos que os que mais amamos são os que nos machucam. Mas a vida segue e sempre há espaço para recomeços, segundas chances. Não devemos parar de viver porque alguém nos magoou ou não soube valorizar-nos”. As palavras são de Lilly Maxwell e, de acordo com a escritora, reflectem exactamente a história do seu primeiro livro.

Intitulado Pedaços de um coração partido,
a narrativa escrita por Lilly Maxwell passa-se numa cidade fictícia e é uma história de amor  que envolve a personagem Mabel.  Tudo começa na transição da adolescência  para a juventude. A fase dos primeiros amores, sonhos e esperança de um “felizes para sempre”.
Na história, Mabel nutre uma paixão por um rapaz mais velho chamado Nelson. Por vários meses sonhou, suspirou e quando o destino fez com que finalmente seus olhares se cruzassem, ela teve certeza que havia encontrado seu príncipe encantado.
Mas Nelson não é quem aparenta ser. Por trás esconde um relacionamento com outra mulher.  E Mabel tem de descobrir da pior forma possível.

No romance, o trauma da descoberta faz com que Mabel se feche ao amor. Mas, quando menos se espera, o amor bate à porta. E Ivan surge para preencher o vazio deixado por Nelson, reacender sentimentos que há muito Mabel sequer imaginava.

O livro é constituído por 244 páginas e a autora espera que o leitor se identifique e envolva-se com a história. “Acima de tudo, quero que a história deixe uma marca em sua vida”.

O romance Pedaços de um coração partido será lançado numa sessão com presença do público, marcada para 18 horas desta sexta-feira, no espaço Flor de Café, na Cidade de Maputo.

Lilly Maxwell é pseudónimo de Sónia Mila da Glória Muianga. A escritora nasceu a 25 de Outubro de 1984 e é funcionária Bancária há mais de 12 anos. A sua paixão pela escrita começou com diários ainda na adolescência. Em 2019, começa a partilhar histórias em redes sociais. O seu romance Pedaços de um coração partido é editado pela portuguesa Chiadobooks. Sua maior inspiração é o amor e o seu sonho é publicar seus livros e tê-los espalhados pelo mundo.

 

Por: Nilton Arão

 

Como todas outras mães ricas, nasci a norte de um país mais a sul da África. Naturalmente linda, com missangas a cintura e pérolas do Índico sobre o meu pescoço. Vi muitos chegarem e muitos partirem.

Aos meus 46 anos, sou mãe de onze filho de um pai desconhecido, cujo o tempo e o passado o renegou ao esquecimento. Ao longo dos 29 anos, em paz, os meus filhos criei, com uma discussão aí, outra acolá, com suas crenças e diferenças, e sempre unidos.

Quis o destino que fôssemos viver ao cabo da esperança. Do cabo da esperança de um futuro risonho, o lugar transformou-se em cabo do medo e da incerteza.

Com o medo vieram as incertezas dos batimentos cardíacos que nos restavam. Não porque queríamos perpetuar a nossa estadia na terra, mas sim porque como toda mãe, os nossos filhos queríamos ver crescer. Crescer sem divisionismo, sem tribalismo, mas sim como um só corpo.

Hoje acordo. E se acordo, é com os olhos virados para a mata que vivo. Matas estas que um dia a lenha nos serviu, para aquecer o pouco que não tínhamos para com os filhos comer. Hoje delas nos servimos para dos mesmos filhos do desconhecido nos escondermos, esperando o sol derrotar a lua, para uma caminhada para o infinito percorrer.

Como mãe, hoje só peço a Deus que guie a mente e a alma dos meus filhos para um porto seguro, mesmo que de lá para a terra firme não partam, pois mais vale uma quase certeza de um dia ao destino chegar, que a incerteza de um futuro marcado por caminhadas mata a dentro sem do líquido vital deliciar.

Como mãe, não mais quero um cabo de esperança ou de riquezas, apenas quero sentar em paz, com a lenha, sem GÁS, para os meus filhos cozinhar.

Não mais quero nenhum cabo de esperança, ou sobre o meu quintal ver ferros a flutuar, apenas quero um Cabo de enxada para em paz a terra cultivar.

Que culpa tenho eu? Sempre com a lenha cozinhei, e sobre o GÁS nada sei.

 

 

A MultiChoice e a Incubadora de Talentos da MultiChoice (MTF) resolveram celebrar a paixão pelo cinema africano com o lançamento da série de filmes Colours of Africa.

Segundo uma nota de imprensa, a série contará com 16 filmes rodados e realizados pela Turma de 2020 da Academia da MTF, os quais são disponibilizados na Showmax neste Dia de África e no canal POP-UP AfroCinema da M-Net Movies até 30 deste mês. Os telespectadores poderão desfrutar da selecção de filmes de África Oriental, Ocidental e Austral, e acompnahar os resultados do talento aprimorado pelo currículo da Academia da MTF.A série de filmes Colours of Africa é uma das várias maneiras da MultiChoice celebrar o talento cinematográfico jovem de África. Orgulhamo-nos em honrar o Dia da África celebrando o trabalho da Turma de 2020 da Academia da MTF desta maneira. A série de filmes também mostra o compromisso da MultiChoice em desenvolver e nutrir a abundância de jovens talentos que representam o futuro da nossa indústria.”, disse Yolisa Phahle, CEO do Entretenimento Geral e Vídeo Conectado do Grupo MultiChoice, citada na nota de imprensa.

Ainda de acordo com a mesma nota, o POP-UP AfroCinema da M-Net contará também com filmes da turma inaugural da Academia da MTF, bem como anúncios públicos filmados pela Turma de 2020 para a campanha #PrometoPausar das Nações Unidas como parte do curso académico. Entre os quais se destacam-se as contribuições dos estudantes MTF Moçambicanos, Savannah Skies (Ludmila Mero, Turma 2019), The Painting (Gerson Amaral, Turma 2019) e The Lobola (Maira Tauacale e Amarilis Gule, Turma 2020).

A pandemia da COVID-19 estabeleceu um precedente para a Turma de 2020. Embora o curso acadêmico dos alunos tenha sido estendido de 12 para 18 meses, o tempo adicional permitiu um curso online credenciado por meio de uma parceria com a New York Film Academy.O tema da colecção de filmes é “Conectar gerações através da narrativa” e o que é particularmente fascinante sobre a série é que os estudantes da MTF produziram as curta-metragens nos seus países de origem, adicionando o contexto, voz e visuais locais às suas expressões cinematográficas na série Colours of Africa. A série também ilustra o propósito da MTF de garantir que investimos na próxima geração de contadores de histórias com conhecimento compartilhado por profissionais qualificados da indústria.”, disse Cheryl Uys-Allie, Directora da iniciativa Incubadora de Talentos da MultiChoice.

Esta série de filmes também é compilada especialmente para aqueles que amam o cinema africano e está em linha com a missão do Grupo MultiChoice para a preservação e celebração da história, cultura e tradições africanas através do cinema e da TV. Além de estimular as indústrias criativas de África, o Grupo MultiChoice é igualmente motivado a celebrar as histórias de classe mundial criadas por africanos para os africanos e o mundo.

Por José Paulo Pinto Lobo

 

Vivemos num tempo de escravatura. Não concordam com a afirmação? Eu explico.

Defendo que vivemos num tempo dicotómico entre a escravatura do sucesso e a escravatura do emprego, cuja conjugação deriva quase irremediavelmente numa escravatura de sobrevivência.

Na Escravatura do Sucesso estamos agrilhoados ao êxito contínuo, ao pular de emprego para emprego, à progressão na carreira, ao carro topo de gama (ou ao four by four como se diz na minha terra), às viagens de férias para destinos paradisíacos, aos acessórios de luxo, às malas e carteiras, aos telemóveis de último modelo, aos relógios, às roupas de marca, às jóias, ao frequentar os espaços in, com gente bonita, seja lá o que isso for.

A pressão por nós sofrida faz com que haja um efeito dominó em relação aos nossos filhos, sobrinhos, netos. Queremos, mais, exigimos que eles sejam os melhores, na escola, nas actividades extra-escolares, em tudo, porque sendo os melhores terão mais hipóteses de vencer na vida. Tudo se resume então à competição com os outros por um lugar ao sol, de preferência numa cobertura ou num condomínio fechado.

Como objectivo talvez até não esteja errado, valorizando a responsabilidade, o esforço e a dedicação que se deve trazer para a aprendizagem e para o desempenho, de forma a se obter a correspondente recompensa, mas preocupamo-nos verdadeiramente com que os nossos descendentes sejam também melhores pessoas?

A pressão que exercemos, conjugada com a que a própria escola exerce é por vezes tal, que as crianças deixam de o ser para se tornarem em máquinas ou autómatos de trabalho, escravos também eles, desde cedo.

Isto quando as crianças têm a sorte de frequentar uma verdadeira escola e não terem aulas debaixo de um cajueiro ou em salas e instalações completamente degradadas e sem condições adequadas para a aprendizagem. Escola não é apenas salas de aula…

Que estratégias se utilizam para se trepar nesta voragem ascensional, para a maioria das pessoas pouco importa. Bem… tentamos transmitir alguns valores e princípios, mas esquecemo-nos muitas vezes que o verbo a conjugar não é TER mas sim SER.

Mas no mundo de hoje se tens, és, se não tens…

Na melhor das hipóteses, quedamo-nos como escravos do ser para ter, ainda assim escravos do sucesso, debatendo-nos pela sobrevivência no topo, numa luta contínua e desesperada para de ali não sair, para nos mantermos junto daqueles que consideramos ser os nossos pares.

Na base da pirâmide a escravatura é outra, mais angustiante.

Na Escravatura do Emprego vivemos em permanente desassossego, no pavor de sermos dispensáveis, de se ser excedentário, sujeitos à ditadura dos números, sejam eles dos lucros empresariais ou da falta deles, seja dos orçamentos nacionais exíguos (para alguns), mesmo que sejam resultado da incompetência de personagens do topo, num terror persistente de perdê-lo e, para quem tem mais de 40 ou 45 anos, passar a fazer parte do que eufemisticamente se designa de desemprego de longa duração.

Longa duração? Qual longa duração, na Europa melhor seria dizer desempregado definitivo!

É também fundamental manter os escravos do emprego sob coação constante, sob a ameaça do despedimento, para que aceitemos, sem estrebuchar muito, as reduções salariais, o aumento das horas de trabalho, as horas extra sem remuneração, agradecendo encarecidamente a quem nos proporciona, ainda, um posto de trabalho, que nos permita pagar as prestações da casa, do carro, do televisor.

Nos escravos do emprego, a pressão sobre as crianças é praticamente inexistente, quer pela falta de tempo das famílias, quer pela falta de recursos para pagar apoios escolares, explicações e outras actividades ocupacionais para as mesmas, garantindo assim uma adequada reprodução de novos escravos desta camada.

Para a maioria das crianças moçambicanas a pressão poderá ser de outro tipo. Desde a obrigatoriedade de cuidar dos irmãos mais novos, passando pela ajuda no sustento da família, até ao flagelo dos casamentos prematuros.

Muitos tentamos sobreviver com dignidade, como disse há tempos o meu amigo Manoel Carlos, não numa tentativa de sobrevivência num determinado estrato social alto mas sim no afã de garantir a nossa própria existência como gente, como ser humano.

Nem sequer me refiro a muitos dos meus compatriotas que lutam apenas por comer uma vez por dia!

O Poder, no topo da pirâmide, utiliza os mesmos métodos dos antigos romanos, ou seja panem et circenses com exactamente o mesmo objectivo, o de distrair os escravos da base da sua situação confrangedora e, em situações de crise, na falta do pão, “toma lá mais circo”.

Exemplos abundam, desde o omnipresente futebol, em Portugal muitas vezes notícia de abertura nos telejornais, à antevisão e debates dos jogos em todos os canais, passando pelos debates políticos e tempos de antena dos comentadores da actualidade, às festas luxuosas das redes de televisão, onde os papalvos se babam na fronteira das passadeiras vermelhas, até aos concursos de fama instantânea, tipo pudim-flan, alguns de gosto mais duvidoso que outros, mas que dão a ilusão da possibilidade de ascensão meteórica ao topo da pirâmide.

Se isso não chegar, tomem lá com as revistas de bisbilhotice e fofoca, com os jornais desportivos (por sinal os jornais com mais vendas em Portugal) e com os programas com artistas de música, antigamente denominada de pimba e agora de popular, onde também alguém pode ganhar alguns milhares de euros, pagos por quem ligar para determinados números telefónicos. Não, não me enganei, não é a quem ligar, mas sim por quem!

Alguns amigos me contestam e me dizem que o mundo é assim e sempre será, porque se baseia nas melhores características da espécie humana, isto é, na inveja, na mesquinhez, na intriga e na maledicência. Podem chamar-me de ingénuo, idealista, sonhador, mas ainda me revejo nos versos de António Gedeão do poema “Pedra Filosofal”:

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

 

Num contexto caracterizado por muitas restrições, o Grupo Teatral Haya-Haya está a investir em alternativa ao teatro tradicional, feito em espaços específicos. O grande desafio dos actores é levar os espectáculos às pessoas, via online, de modo que não se fique refém dos cine-teatros.

 

O Grupo Teatral Haya-Haya recusa-se a render-se às limitações impostas pela COVID-19. A arte da representação pode e deve vencer as intempéries. Por isso mesmo, Calene, Lúcio Chiteve e Cátia lançaram-se ao desafio de interpretarem uma história hilariante, sobre uma família e todos aqueles que enfrentam determinadas dificuldades ligadas ao custo de vida no confinamento.

A nova proposta teatral do Haya-Haya tem 90 minutos de duração e pretende ser um pretexto de alguma resistência. Se antes da COVID-19 as apresentações teatrais do grupo eram feitas nos cine-teatros, agora, os espectáculos estarão cada vez mais disponíveis nas plataformas online. Com isso, explicou Lúcio Chiteve, Director Artístico do Grupo Teatral Haya-Haya, a ideia é manter um projecto de animação cultural que possa entreter, educar, estimular e impactar a vida das pessoas. No entanto, os espectáculos teatrais continuarão a ser apresentados no palco, enquanto for possível, e, simultaneamente, poderão ser visualizados através dos telemóveis ou dos computadores. É simples. Os interessados só têm que aceder a um link e pagar pela peça que irão ver. “Acreditamos que este projecto vai poder crescer e as pessoas vão aprender a ter de ver peças teatrais a partir de casa, porque nas salas de teatro há limite de público. É possível fazermos arte no palco e termos uma maior abrangência”, explicou o Director Artístico do Grupo Teatral Haya-Haya.

Escrito por Lúcio Chiteve e Calene, o espectáculo teatral Haya-Haya Show é um exercício humorístico do qual surgem histórias sobre relacionamentos, lealdade e excessos. A pretensão dos actores é levar mensagens positivas à sociedade através da arte e numa perspectiva descontraída.

Haya-Haya Show é um espectáculo produzido por Brand Guru e Haya-Haya. Estando disponível online, pode ser visto numa apresentação presencial no próximo dia 30, 17h, na Casa do Artista da Cidade da Beira. “Será um show animado porque estamos a trazer acontecimentos do dia-a-dia”.

 

Por: Francisco Raposo

 

O dia acabava de se revelar. E os sonhos estavam ainda frescos, depois de uma longa noite de confeição. Maigod acordou, rebolou em sua cama de ferro com molas tortas perfurantes, que lhe arranhavam a coluna durante o ronco. Espreguiçou-se e apalpou a esposa a procura das mamas. Ela estava ausente. Os deveres de mulher ultrapassam os limites da cama de solteiro menor que compartilhavam, em nome do amor no bairro da Munhava-central.

Ao sair da cama, Maigod fica triste, a realidade da casa não condiz com o sonho moçambicano que teve durante a noite, talvez os espinhos abocanharam tudo, antes dele acordar. Chama pela mulher e ela responde do lado de fora do edifício de pau-a-pique de dois (in)cómodos. –Espera pai de Bebito, estou a vir, vou levar capulanas do partido que estão a distribuir em casa de só secretário. Ele não aguardou, e foi diretamente à casa de banho de caniço, encontrou água no balde de lata e um lago de peixes vivos em redor do calcanhar porque o vizinho edificou a casa sobre a vala que drenava sua miséria. Maigod não tem como reclamar, tem medo de ser cobrado a dívida de cinquenta meticais porque o gato dele comeu dois carapaus alheios.

Engole saliva. Molha seu corpo, mas não vê sabão. Lembra que tem muitas dívidas conhecidas e outras ocultas na banca do vizinho, que com certeza, não lhe faria novamente o favor de empréstimo. Pai de Bebito tem fama de mau pagador.

Na república da sua casa, o povo (seus filhos) choram de fome e muitas vezes colam nas casas dos amiguinhos, como se estivessem a brincar, e ficam até a hora de refeição. Nunca tiveram proibição de “não comer em casa de dono”.

Perde forças e esfrega o corpo com a pedra para pé. Faz com suavidade para dar a ilusão de estar a amolecer sujidade. Termina o processo, volta a pisar a água da extinta vala. – Ainda bem que restei um pouco para molhar os pés na porta. Entra e veste uma camisa que no passado foi branca, fazia parte da lista do lobolo da sua irmã mais nova. Que acabou morrendo atropelada salvando o filho de um acidente numa tarde de sexta-feira quando ela vendia peixe frito na berma da estrada e o filho vinha com um garrafão de petróleo da bomba das Palmeiras. Conquistara alguns clientes fixos por causa da sua honestidade, mesmo sendo um miúdo da Munhava não acrescentava água no seu produto. Muito honesto!

Ela viu o carro com governo descontrolado, em direção ao precipício, viu o filho medindo petróleo e o cliente dele contando o troco. Levantou-se bruscamente, sem apertar a capulana, em direcção ao filho. O rapaz na maior inocência procurava atingir a graduação para ser mais justo nos direitos humanos do consumidor, mais uma gota e já está. De repente ela empurra os dois. O petróleo e o troco se espalham pela estrada.  O carro travou no corpo dela. Ela não sangrou e nem teve nenhum arranhão. A população aproximou-se e começou apanhar as moedas espalhadas. Alguns já estavam a vandalizar a viatura. Ninguém reparou na vítima, excepto o motorista que pagou muitos refrescos para passar na escola de condução. Este sem querer perder muito tempo, ofereceu dois mil meticais pelos transtornos e se foi.

Dias se passaram e as dores da mulher não melhoravam. Ela foi ao hospital. O aparelho de raio X não tinha filmes para fotografar os ossos. Os médicos, naquele momento, deitavam atenção para televisão. Em destaque: O presidente da república voltou da França e negou promulgar a proposta de lei de regalias e subsídios de sono aos membros da assembleia da república. A equipe médica ficou feliz e esperançosa pois, isto significava mais fundos para os hospitais, escolas ou agricultura.  Quando o último dente de felicidade foi fechado, assim também foi o livro da vida da paciente, por excesso de sangue dentro do corpo.

Maigod, sente o cheiro da irmã na mudança da cor da camisa. Sempre leva ao alfaiate para emendar os laços de sentimento com o além, criando o seu sobrinho como próprio filho. E com este pensamento sai de casa sem satisfazer as lombrigas. Deixa tudo que tem para os petizes (comida da noite anterior).

A rua lhe guarda muitos biscatos, mas ele não sabe por onde começar a procurar. Vai para casa da mãe de mãe, para pedir água gelada e lhe oferecem também Coca-Cola. Ela conta que Txibeg, o rebenta cocos, fugiu da cadeia e vai se vingar de quem lhe queixou. Maigod engole saliva, ele sabe o que fez. Conta de seguida que todos devem ficar em casa porque existe uma nova doença que mata quando respirar sem máscara. Maigod se ri, mas aceita receber máscara de pano que lhe aparenta ser sutiã de uma mama só e se vai.

No caminho, não existe o aqui e nem o longe. Existe fome e objetivos. Existe desigualdade. Existe miséria. Maigod só lamenta da desistência à escola por ter engravidado a esposa ainda muito jovem. Tentou o curso de morcegos mas não deu certo. Muitas saias eram subidas no (in)cumprimento da aprendizagem e passadas à pente magro de cor cinzento.

Para no mercado. Consegue um biscato descarregando um camião de feijão manteiga que acabava de chegar de Tete. No final de quatro horas, pagam quinhentos meticais.  Ele tira uma nota de cem põe no bolso esquerdo e o restante no bolso direito. Limpa o suor e usa de volta a camisa de lobolo. Caminha pra casa. Pela estrada, há poucas pessoas circulando, as mamanas e os ambulantes desaparecem como ladrões.

Chega às esquinas do bairro, paga bebida de tampa vermelha, engole fundo e faz cara feia. O sobrinho aproxima e pede um doce. Maigod tira cinco meticais e oferece, entrega também os quatrocentos meticais doutro bolso para o orçamento da casa. E o menino vai correndo pensando em regressar para jogar bola.

Maigod senta no campo assistindo ao jogo das crianças. Com inveja da infância que cedeu à guerra civil como membro da tropa. Ele fugiu da morte no meio do combate na Gorongosa. Seu lema foi: -viver ou ser democrático, prefiro viver. E agora actualizou: entre ficar em casa ou morrer de fome, prefiro morrer de fome. Porque em casa vou morrer de desgosto.

O sobrinho do Maigod era o guarda redes da equipe. A bola de preservativos e sacos plásticos, coberto de panos e linhas, fazia mais golos que a selecção nacional das minhocas. E os resultados satisfaziam a todos, ou pelo menos aos sessenta por cento que aprovavam automaticamente para preencher os relatórios para o inglês (o Maigod) ver. Porque esse gostava de assistir o derby e no final premiar com vinte meticais a equipa vencedora.

Um dos jogadores, recebe o poder que todos lutam para ter em seus pés. Finta um, finta outro. O jogo está bom. E organiza as pernas para chutar contra a baliza. A tensão aumenta com barulho da plateia. É agora, é agora. E uma viatura Mahindra apareceu de repente. Oito agentes da polícia fortemente armados desceram e começaram a massacrar as crianças, chambocos e pontapés, organizam a arma e ameaçam tiros contra os petizes como no filme de Rambo. Maigod não aguenta ver o sobrinho a sangrar e aproxima. – chefe, chefe…! antes de dizer o que queria se viu no chão comendo capim, pisaram nele, chutaram. – covid, nunca ouviu falar de covid? Fizeram um círculo sem distanciamento social. Pisaram nele e trituraram até aos sonhos de amanhã, e o poder de continuar a lutar pela sobrevivência. – covid! Não sabe que já temos um caso positivo em Moçambique? Estavam a falar para eles mesmos. Maigod estava, na dor, se despedindo do coração da mulher, dos filhos, e da pobreza. Morreu assim, a primeira vítima da covid-19 em Moçambique. Pena que não entrou na estatística.

 

Email: favoritocp@gmail.com

Por: Nito Ivo

 

Revestido de um sorriso mordaz, o Tembissa vezes sem conta fazia-se ao elevador entre pessoas mais velhas tão-somente para libertar gases intestinais horrivelmente nauseabundos criando um insuportável mal-estar nos outros e gargalhadas sardónicas nele próprio. Era um fedor tão terrivelmente mau que até mesmo os mosquitos resistentes a insecticidas caiam instantaneamente mortos pela maldita fumigação intestinal e as moscas mais nojentas debandavam-se do elevador logo que as portas se abriam. O Tembissa carregava o desprestígio de expelir os gases mais nauseabundos alguma vez sentido. Um experiente médico legista morador daquele prédio chegou inclusivamente a afirmar, numa reunião extraordinária do condomínio convocada para tratar exclusivamente daqueles gases fétidos, que nem o mau cheiro de mil cadáveres putrefactos exumados de uma vala comum aproximam-se daquela nojenta proeza. O bufo do miserável durava cerca de doze segundos a jorrar-lhe pelo ânus, silencioso porém com vigor medonho de uma panela de pressão, e nos primeiros segundos, a olho nu, era possível ver a cor alaranjada do maldito gás nojento a escapar-se das vestes dele alastrando-se em todas as direcções como gás mostarda, dezoito segundos depois as paredes do elevador começavam a transpirar e trinta segundo depois a porcaria gasosa embaciava totalmente o espelho do elevador fazendo perder completamente a sua capacidade reflexiva.

Alguns moradores daquele infortunado prédio de dez andares que tinham o hábito de almoçar nas suas casas a hora do intervalo de trabalho passaram a preterir daquela regalia, temerosos de enfrentarem os gases agoniantes do Tembissa, e retornavam a altas horas da noite famintos e quando o sono não mais os permitisse manterem-se na rua. Era comum os moradores chegarem ao prédio mas permanecerem durante horas nas suas viaturas enquanto enchiam-se de coragem para subirem às suas próprias casas.

Assaz agastados com a sua deplorável situação, encobertos pela alegação de eminente perda de vidas humanas por intoxicação por gases intestinais horrivelmente nauseabundos, a comissão de moradores intentou uma acção judicial solicitando que atempadamente o excelentíssimo juiz da causa acolhesse favoravelmente à sua petição de vedar o acesso do Tembissa ao prédio, autor das nojentas fumigações. Com efeito, como nenhum outro nos anais da justiça moçambicana, o processo foi assaz célere, e o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani numa exaustiva e didáctica sentença de seiscentas e sessenta e seis páginas fez ruir todas as queixas dos moradores contra o Tembissa, ponto a ponto, e com argumentos devidamente fundamentados elucidou que no ordenamento jurídico moçambicano a libertação de gases intestinais não configurava qualquer tipo de infracção legal. No seu acórdão o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani desqualificou a pretensão dos moradores de enquadrar os gases intestinais do Tembissa, por mais nojentos que fossem, na categoria de gases tóxicos, não um gás intestinal normal como nos demais seres humanos porque, aduziu o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani, “nenhuma medição de fedor comprovadamente válida fora apresentada em sede de tribunal”. Ainda segundo a sentença, mesmo que os queixosos tivessem-se servido de um peidómetro devidamente certificado por normas internacionais e apropriadamente calibrado pelo INNOQ não se poderia forçar único morador, naquele caso o Tembissa, dentre tantos vizinhos seus, a submeter os seus gases intestinais ao aludido teste, pois tal configuraria flagrante discriminação, uma clara violação ao princípio de igualdade de direitos preconizados pela Constituição da República de Moçambique, a não ser que todos os moradores daquele prédio de dez andares igualmente submetessem os seus gases intestinais à mesma pertinente análise. Seguiu o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani dizendo que “portanto libertar gases intestinais é um direito natural que assiste o réu fazê-lo conforme demanda do seu organismo, sendo que qualquer esmero tendente a privá-lo daquela liberdade afrontaria de forma grosseira a Constituição da República e o espírito da Declaração Universal dos Direitos Humanos da qual Moçambique é signatária. E mesmo que configura-se uma flagrante infracção haveria a pertinência de se identificar o móbil dos gases intestinais, ou seja, os alimentos de cuja digestão teria originado gases tão fedorentos, ou intoxicantes conforme descrito pelos moradores, forçando este tribunal a intimar ao banco dos réus os produtores, vendedores e distribuidores dos supostos alimentos, na qualidade de cúmplices dos gases intestinais, ou ainda, se por ventura a causa dos gases intestinais estivesse relacionada ao inadequado funcionamento dos intestinos do Tembissa considerar-se-ia problema de saúde de cuja responsabilidade de o tratar recai ao estado, fazendo então do Estado Moçambicano cúmplice do sofrimento dos moradores do prédio dos queixosos, sendo que em face desta derradeira hipótese este tribunal seria incompetente para dirimir litígios que envolvam o estado. Neste sentido, portanto, os queixosos fracassaram redondamente em identificar a causa primária dos gases intestinais do acusado na medida em que poderia o Tembissa ser uma vítima velada, a maior de todas, porque era obrigado a sentir o fedor do seu próprio gás intestinal a cada vez que o libertava.”. Continuou o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani dizendo que “na eventualidade de um provimento à petição dos queixosos, o réu obrigatoriamente deveria buscar outro local para morar, e nessa possibilidade, seja onde for que o acolham pessoas haverá, e tais novos vizinhos se com os juízos dos queixosos procedessem intentariam idêntico processo ao presente do qual resultaria uma sentença alicerçada pela jurisprudência desta, criando dessa forma um desumano ciclo viciosos de expulsar o Tembissa de diferentes residências pelo mesmo fundamento” e questionou o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani o porquê dos moradores daquele prédio se julgarem mais importantes do que àqueles para onde desejariam mandar o Tembissa se a casa da mãe, a quem a lei a obrigava a acolher o Tembissa, localizava-se naquele prédio? “E se fosse o réu condenado, — prosseguiu o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani nas hipóteses depois de um gole de água —, sendo expulso do prédio, conforme solicitado pelos queixosos, este tribunal não estaria a fazê-lo pelos gases intestinais já soltos e misturados à atmosfera mas por aqueles que ainda não foram peidados, pois se por eventualidade o réu parasse de expelir os gases que norteiam a reivindicação certamente que as desavenças também descontinuariam, significando portanto que condenar-se-ia o réu por um crime que ainda não cometeu, abrindo desde modo um terrível precedente à justiça moçambicana e um flagrante atentando contra estado de direito. Ademais, pesa a desfavor dos queixosos o facto de o réu ser menor de idade, logo protegido pelos direitos da criança, e que por isso dos queixosos não poderia esperar nada mais além de carinho e protecção, portanto — rematou a sua sentença o excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani com uma frase popular —, vizinho não se escolhe. Cumpra-se!” Bateu o martelo, e assim foi mandado o Tembissa em liberdade e os queixosos sujeitos a pagar as custas judiciais.

No dia da leitura da sentença, logo que chegou ao infame prédio, movido pela vingança e agora acobertado pela lei, o Tembissa infestou de bazófios os andares dos quatro responsáveis da comissão de moradores de forma tão violentamente fedorenta como jamais o fizera antes. A cada três horas os seus corredores eram horrivelmente bombardeados por gases intestinais altamente nauseabundos. Pressionados pelos seus próprios familiares, dois deles pediram demissão com efeito retroactivo, portanto sujeitos a restituir os benefícios do cargo usufruídos antes do início do processo judicial, e pela sombra enviaram emissários para entregar ao Tembissa a sua rendição incondicional e fervoroso apelo ao cessar-fogo imediato. O presidente de comissão de moradores, entretanto, guiado por inabaláveis princípios de dignidade, compromisso e heroicidade, todo fulo repetia constantemente uma frase popular “antes morrer em pé do que viver rastejando”, menos ainda aos pés de um marginal, e determinado a não se entregar conformado à rendição na luta contra os gases fétidos do Tembissa, em breve subiu ao Tribunal Supremo o competente recurso, desta feita os moradores solicitavam uma diligência, que incompreensivelmente deixara de ser favoravelmente acolhida pelo excelentíssimo juiz Dimiaz Marroani, então rogaram os moradores na petição que os venerandos juízes conselheiros do Tribunal Supremo pessoalmente se dignassem a comparecer ao prédio em causa a fim de sentirem por eles mesmos o fedor a que se referiam, porquanto era mais fácil ajuizar havendo sentido os gases intestinais horrivelmente nauseabundos expelidos pelo Tembissa do que baseado numa descrição em palavras do mais habilidoso dos escribas. Contudo, o processo encontrou numa das sepulcrais prateleiras do Tribunal Supremo a sua paz fúnebre e na companhia de outros tantos jazeu no aguardo do apocalíptico dia do juízo final, mas antes disso, por si o problema haveria de se resolver poucos anos depois.

 

 

Por: Francisco Raposo

 

O dia acabava de se revelar. E os sonhos estavam ainda frescos, depois de uma longa noite de confeição. Maigod acordou, rebolou em sua cama de ferro com molas tortas perfurantes, que lhe arranhavam a coluna durante o ronco. Espreguiçou-se e apalpou a esposa a procura das mamas. Ela estava ausente. Os deveres de mulher ultrapassam os limites da cama de solteiro menor que compartilhavam, em nome do amor no bairro da Munhava-central.

Ao sair da cama, Maigod fica triste, a realidade da casa não condiz com o sonho moçambicano que teve durante a noite, talvez os espinhos abocanharam tudo, antes dele acordar. Chama pela mulher e ela responde do lado de fora do edifício de pau-a-pique de dois (in)cómodos. –Espera pai de Bebito, estou a vir, vou levar capulanas do partido que estão a distribuir em casa de só secretário. Ele não aguardou, e foi diretamente à casa de banho de caniço, encontrou água no balde de lata e um lago de peixes vivos em redor do calcanhar porque o vizinho edificou a casa sobre a vala que drenava sua miséria. Maigod não tem como reclamar, tem medo de ser cobrado a dívida de cinquenta meticais porque o gato dele comeu dois carapaus alheios.

Engole saliva. Molha seu corpo, mas não vê sabão. Lembra que tem muitas dívidas conhecidas e outras ocultas na banca do vizinho, que com certeza, não lhe faria novamente o favor de empréstimo. Pai de Bebito tem fama de mau pagador.

Na república da sua casa, o povo (seus filhos) choram de fome e muitas vezes colam nas casas dos amiguinhos, como se estivessem a brincar, e ficam até a hora de refeição. Nunca tiveram proibição de “não comer em casa de dono”.

Perde forças e esfrega o corpo com a pedra para pé. Faz com suavidade para dar a ilusão de estar a amolecer sujidade. Termina o processo, volta a pisar a água da extinta vala. – Ainda bem que restei um pouco para molhar os pés na porta. Entra e veste uma camisa que no passado foi branca, fazia parte da lista do lobolo da sua irmã mais nova. Que acabou morrendo atropelada salvando o filho de um acidente numa tarde de sexta-feira quando ela vendia peixe frito na berma da estrada e o filho vinha com um garrafão de petróleo da bomba das Palmeiras. Conquistara alguns clientes fixos por causa da sua honestidade, mesmo sendo um miúdo da Munhava não acrescentava água no seu produto. Muito honesto!

Ela viu o carro com governo descontrolado, em direção ao precipício, viu o filho medindo petróleo e o cliente dele contando o troco. Levantou-se bruscamente, sem apertar a capulana, em direcção ao filho. O rapaz na maior inocência procurava atingir a graduação para ser mais justo nos direitos humanos do consumidor, mais uma gota e já está. De repente ela empurra os dois. O petróleo e o troco se espalham pela estrada.  O carro travou no corpo dela. Ela não sangrou e nem teve nenhum arranhão. A população aproximou-se e começou apanhar as moedas espalhadas. Alguns já estavam a vandalizar a viatura. Ninguém reparou na vítima, excepto o motorista que pagou muitos refrescos para passar na escola de condução. Este sem querer perder muito tempo, ofereceu dois mil meticais pelos transtornos e se foi.

Dias se passaram e as dores da mulher não melhoravam. Ela foi ao hospital. O aparelho de raio X não tinha filmes para fotografar os ossos. Os médicos, naquele momento, deitavam atenção para televisão. Em destaque: O presidente da república voltou da França e negou promulgar a proposta de lei de regalias e subsídios de sono aos membros da assembleia da república. A equipe médica ficou feliz e esperançosa pois, isto significava mais fundos para os hospitais, escolas ou agricultura.  Quando o último dente de felicidade foi fechado, assim também foi o livro da vida da paciente, por excesso de sangue dentro do corpo.

Maigod, sente o cheiro da irmã na mudança da cor da camisa. Sempre leva ao alfaiate para emendar os laços de sentimento com o além, criando o seu sobrinho como próprio filho. E com este pensamento sai de casa sem satisfazer as lombrigas. Deixa tudo que tem para os petizes (comida da noite anterior).

A rua lhe guarda muitos biscatos, mas ele não sabe por onde começar a procurar. Vai para casa da mãe de mãe, para pedir água gelada e lhe oferecem também Coca-Cola. Ela conta que Txibeg, o rebenta cocos, fugiu da cadeia e vai se vingar de quem lhe queixou. Maigod engole saliva, ele sabe o que fez. Conta de seguida que todos devem ficar em casa porque existe uma nova doença que mata quando respirar sem máscara. Maigod se ri, mas aceita receber máscara de pano que lhe aparenta ser sutiã de uma mama só e se vai.

No caminho, não existe o aqui e nem o longe. Existe fome e objetivos. Existe desigualdade. Existe miséria. Maigod só lamenta da desistência à escola por ter engravidado a esposa ainda muito jovem. Tentou o curso de morcegos mas não deu certo. Muitas saias eram subidas no (in)cumprimento da aprendizagem e passadas à pente magro de cor cinzento.

Para no mercado. Consegue um biscato descarregando um camião de feijão manteiga que acabava de chegar de Tete. No final de quatro horas, pagam quinhentos meticais.  Ele tira uma nota de cem põe no bolso esquerdo e o restante no bolso direito. Limpa o suor e usa de volta a camisa de lobolo. Caminha pra casa. Pela estrada, há poucas pessoas circulando, as mamanas e os ambulantes desaparecem como ladrões.

Chega às esquinas do bairro, paga bebida de tampa vermelha, engole fundo e faz cara feia. O sobrinho aproxima e pede um doce. Maigod tira cinco meticais e oferece, entrega também os quatrocentos meticais doutro bolso para o orçamento da casa. E o menino vai correndo pensando em regressar para jogar bola.

Maigod senta no campo assistindo ao jogo das crianças. Com inveja da infância que cedeu à guerra civil como membro da tropa. Ele fugiu da morte no meio do combate na Gorongosa. Seu lema foi: -viver ou ser democrático, prefiro viver. E agora actualizou: entre ficar em casa ou morrer de fome, prefiro morrer de fome. Porque em casa vou morrer de desgosto.

O sobrinho do Maigod era o guarda redes da equipe. A bola de preservativos e sacos plásticos, coberto de panos e linhas, fazia mais golos que a selecção nacional das minhocas. E os resultados satisfaziam a todos, ou pelo menos aos sessenta por cento que aprovavam automaticamente para preencher os relatórios para o inglês (o Maigod) ver. Porque esse gostava de assistir o derby e no final premiar com vinte meticais a equipa vencedora.

Um dos jogadores, recebe o poder que todos lutam para ter em seus pés. Finta um, finta outro. O jogo está bom. E organiza as pernas para chutar contra a baliza. A tensão aumenta com barulho da plateia. É agora, é agora. E uma viatura Mahindra apareceu de repente. Oito agentes da polícia fortemente armados desceram e começaram a massacrar as crianças, chambocos e pontapés, organizam a arma e ameaçam tiros contra os petizes como no filme de Rambo. Maigod não aguenta ver o sobrinho a sangrar e aproxima. – chefe, chefe…! antes de dizer o que queria se viu no chão comendo capim, pisaram nele, chutaram. – covid, nunca ouviu falar de covid? Fizeram um círculo sem distanciamento social. Pisaram nele e trituraram até aos sonhos de amanhã, e o poder de continuar a lutar pela sobrevivência. – covid! Não sabe que já temos um caso positivo em Moçambique? Estavam a falar para eles mesmos. Maigod estava, na dor, se despedindo do coração da mulher, dos filhos, e da pobreza. Morreu assim, a primeira vítima da covid-19 em Moçambique. Pena que não entrou na estatística.

 

Email: favoritocp@gmail.com

Maria Atália e Sabina Tembe estreiam, às 18h30 desta quinta-feira, o monólogo Pois é, vizinha, na Fundação Fernando Couto (FFLC), Cidade de Maputo. As entradas são gratuitas, desde que os interessados passem às10h da FFLC para levantar os ingressos restritos a 40 lugares.

 

Uma peça que custou sangue, suor e lágrimas. Para actriz Sabina Tembe e para a encenadora Maria Atália, Pois é, vizinha, é produto de tudo isso: sangue, suor e lágrimas. Mas valeu apena, dizem as artistas, afinal conseguiram alcançar um nível de qualidade e profundidade de abordagem que as satisfaz. Por isso mesmo, o monólogo para maiores de 18 anos será estreado na Fundação Fernando Leite Couto.

Mas porquê a peça custou sangue, suor e lágrimas? Primeiro, explicou Maria Atália, porque nem tudo correu como foi planificado. Sabina Tembe é casada, é mãe e trabalha. Então, foi difícil conciliar os ensaios com as tantas responsabilidades da actriz. Segundo, a história retratada na peça mexeu e mexe muito com a actriz: “Foi um enorme desafio para mim, porque há muito tempo estava parada. Voltar ao palco com um monólogo e com uma personagem que nos desperta tantas coisas, foi árduo e bom, pois ela faz-me uma terapia em mim, como mulher e mãe”.

E o desafio não foi apenas para Sabina Tembe. Maria Atália partilhou, durante o ensaio geral, na véspera da estreia, que o monólogo e trabalho com a amiga de infância trouxe muitas mudanças positivas. Por exemplo? “Eu sempre trabalhei com pessoas mais novas, que, se faltassem a um ensaio ou que não honrassem as suas responsabilidades, podia substitui-las por outras. Agora foi diferente. Além do meu irmão [Dadivo José], a Sabina Tembe é única pessoa mais velha do que eu com quem trabalhei. Com ela descobri que tenho tolerância, porque não tolerava atrasos, ausências e coisas do género. Aqui passei a perceber mais do que exigir. Saí a ganhar e espero continuar a trabalhar assim”.

Quanto à história com 50 minutos de duração, ficou pronta em 20 dias. Os que esta quinta-feira forem à Fundação Fernando Leite Couto, em parte, irão ver um monólogo sobre a personagem Maria, confinada no seu lar, trancada pelo marido que não a deixa sair de casa. Ela sofre antes de encontrar o homem que a proporciona tudo. Ou quase… Depois, descobre que a felicidade se encontra em pequenas coisas. Tenta liberta-se e afinal há um rapaz em jogo. Ela quer ser feliz, mas ao mesmo tempo quer uma vida confortável proporcionada pelo marido. “Portanto, temos aqui uma história de amor, com algum toque entre o cómico e uma provável tragédia”, afirmou Sabina Tembe.

Ora, a personagem do monólogo sobrevive quando descobre uma vizinha com quem passa a desabafar. Nada furtuito. A ideia de Maria Atália foi explorar a necessidade que o ser humano tem de se relacionar. “Ao invés de se relacionar com os seus, a protagonista está confinada, como nós e o mundo inteiro”. Em parte, está aqui um exercício que pretende ser uma espécie de um alerta: “Ainda que tenhamos tecnologia, as conversas são necessárias e indispensáveis. Mais do que nunca, temos necessidade de ter alguém que nos ouve. Há aqui uma questão terapêutica”.

Pois é, vizinha é uma peça adaptada do texto original “Una donna sola”, de Dário Fo e France Rame. A música está na responsabilidade de Edmundo Matsiyelana, e monólogo interessou Sabina Tembe, sobretudo, por despertar nos seres humanos a liberdade. “Nós podemos ser o que somos, mas precisamos de ter liberdade, e não nos fecharmos num mundo quadrado”.

 

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