O País – A verdade como notícia

Por: Leonel Matusse Jr.

 

A colectiva patente na Fundação Fernando Leite Couto junta obras de Rodrigo, Santos e Gonçalo Mabunda. A exposição será inaugurada às 18 horas e estará aberta ao público entre 2 e 30 deste mês.

 

Alguém terá dito que há exposições que valem tanto pelas perguntas que nos colocam como por aquilo que oferecem ao olhar. O PARADIGMA DA FORMA dos irmãos Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda quer ter as duas valências. A exposição será inaugurada no dia 02 de Junho, às 18.00 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.

A trabalharem em estruturas, técnicas distintas entre si, os artistas reflectem e questionam o status quo através das figuras e ícones que exploram. Nesta mostra encontramos a pintura de esferográfica sob cartão (Rodrigo), a mistura de colagem e desenho (Santos) e escultura (Gonçalo).

Rodrigo está a desenvolver uma técnica peculiar que na exposição Os Mabundas, no Camões em 2019, se aproximava dos azulejos portugueses. Sob o cartão, o artista distribui infinitos desenhos minúsculos, palavras, que vistos a lupa revelam o humor das circunstâncias de penúria que pesam nos ombros de uma sociedade que caminha na corda bamba a equilibrar a sua precariedade.

No novo rumo que Rodrigo traça neste O PARADIGMA DA FORMA, entre os milimétricos desenhos, surgem formas maiores que ganham o contorno de corpos, edifícios entre as margens dos pontos que o artista deixa em branco ou castanho, dependendo da cor do papelão/cartão no centro da composição.

A parte interior de Caixas de Red Label da John Walker (as telas de Rodrigo) dão espaço a reflexões, muitas vezes satíricas, sobre a realidade que nos rodeia e os seus dilemas.

Gonçalo Mabunda, por sua vez, reactualiza o significado das armas não com isso aniquilando os sentidos primeiros destas: a morte e o poder. Mas os rostos e corpos caricaturados, crivados de bala podem ser uma metáfora para a condição de precariedade, da vida por um fio.

Uma pergunta natural, ao olhar para as obras pode ocorrer: não são as dificuldades quotidianas – o chapa deficitário, o agente da polícia ou do hospital ou da conservatória ou das alfândegas, entre outros “ous” possíveis que materializam a corrupção – outras formas de nos colocar uma Kalashinikov AK-47 com o cano apontado ao nosso rosto?

A ser neste rumo, temos as obras de Gonçalo Mabunda ao serviço do questionamento da necropolítica (?) ao transformar as armas em poesia, em arte, disponível para o sensível (?).

Um dos marcos desta exposição é o uso escultural de capacetes militares crivados de balas a caricaturar rostos com a boca aberta, a zona do cérebro aberta ou então a fazer o estomago da escultura de um Cristo com laço vermelho no peito – a ironizar os pastores que actualmente proliferam na sociedade.

Outra novidade de O PARADIGMA DA FORMAestá no uso por Gonçalo Mabunda de materiais de pulverização contra a malária, desde as roupas, as botas, as viseiras e as mochilas bomba de pulverizador.

Esta colectiva conta ainda com Santos, que trabalha na mistura entre o desenho e colagem, numa conjugação de cores que para lá da estética busca a poética no quotidiano, a reflectir sobre a pandemia, sobre a vida nos bairros, os conteúdos noticiosos da televisão e outras questões que não se esgotam.

Com obras maiores que a exposição “OS Mabundas”, no Camões em 2019, Santos quer revelar os nossos pecados, as mazelas do sistema e certas incoerências numa catarse a volta desse nosso hábito de nos silenciarmos sobre os nossos sofrimentos.

No olhar do jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da exposição, as peças desta mostra resumem procedimentos diferentes, ora instigando a percepção do deus das pequenas coisas, como diria a escritora indiana Suzanna Arundhati Roy, ora preenchendo o campo visual de narrativas por contar.

O PARADIGMA DA FORMA, prossegue, é um conjunto de ferramentas diminutas, no entanto, a exaltarem-se à medida que linhas invisíveis se unem a favor da inteligibilidade inalienável. “Há nisso cruzamentos: estéticos, axiológicos e semiológicos, afinal a arte Mabunda atravessa fronteiras contemporâneas para construir a diversidade na singularidade”, lê-se.

A concluir, José dos Remédios observa que através deste O PARADIGMA DA FORMA, com efeito, os Mabunda vão buscar à precisão da técnica (desenho, pintura e escultura), a representação vivencial que, de outro modo, não faria sentido.

 

 

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Quem és tu?

Sobressaltei-me com a pergunta. Fez-me viajar no tempo aos bancos do Liceu e do malfadado (perdoem-me os professores de Português e os entusiastas de literatura) Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, que até aos dias de hoje continua a assombrar e a adormecer os alunos da Escola Portuguesa em Maputo e de todas as escolas portuguesas espalhadas pelo mundo afora.

Sinceramente apeteceu-me responder tal como o personagem do livro:

– Ninguém.

Mas, por uma questão de educação, dei uma resposta óbvia e sem um pingo de sarcasmo:

– Sou aquele a quem deram há 63 anos o nome de José Paulo e os apelidos dos seus progenitores, Ninette Ribeiro da Fonseca e Mário Pinto Lobo, neto de Braz Pinto Lobo e Ângela Ribeiro Ramos e que casou há 42 anos com Maria Fernanda Osório.

Também estive tentado em dar uma resposta mais elaborada:

– Sou o navegante das sombras das minhas memórias, relembranças e vivências moçambicanas e portuguesas, aquele que percorre narrativas do passado no ocaso do século XX e dealbar do século XXI, tentando encontrar ângulos e direcções para cartografar a vida. Aquele que não hesita em evocar os seus antepassados para re-encontrar os pontos cardeais familiares ou que enfrentando as vagas alterosas dos mares digitais noutro continente onde aportou, perscruta adamastores modernos, sem receio de naufragar nas tempestades por eles provocadas.

Para além do lirismo e óbvio pedantismo, arriscar-me-ia a que a reacção não fosse não poética…

– Não é isso! – clamaram exaltados os meus inquisidores – perguntamos se és de Esquerda, Direita ou Centro?

O teor da minha réplica poderia ter dado origem ao mesmo resultado do enredo de Frei Luís de Sousa, ou seja, descambado numa tragédia, para mim, pelo menos.

– Esqueceram-se de referir à frente e atrás e ainda, em cima e em baixo…mas sei lá! O meu sextante não calcula essas posições, os meus pontos cardeais são outros, são os que constam dos meus mapas familiares e conjugais.

– No meu epitáfio, gostaria que escrevessem apenas: foi um homem bom!

Que queriam que eu dissesse? Como tal classificação não está nas minhas prioridades, deixo aos outros, como árbitros ou juízes, optarem por aquela que julguem mais consentânea com a sua avaliação. No entanto, deverão tais avaliadores ter algum cuidado com as suas observações, de modo a que não sejam apressadas e cheguem a conclusões precipitadas ou disparatadas, como por exemplo na história seguinte.

Um amigo nosso, passageiro frequente de linhas aéreas europeias, viajou um dia para Portugal. Tendo comprado bilhete de avião numa das companhias de low-cost europeias, fez o seu check-in como habitualmente, entrou na aeronave e dirigiu-se ao seu lugar.

Vários passageiros que já se encontravam sentados na fila de trás, entreolharam-se e trocaram comentários em português:

– Epá! Tamos lixados! Este gajo com este aspecto ainda nos deita o avião abaixo ou tenta sequestrá-lo…

Até à decolagem continuaram com os dichotes e comentários menos agradáveis.

O nosso amigo é bem moreno, careca, com bigode e barba, pesa mais de 100 kg e vestia roupa branca, camisa larga sem gola, calças largas sem zipe e alpercatas.

A história terminou com o avião aterrando em Lisboa e o nosso amigo despedindo-se afavelmente dos passageiros da fila de trás:

– Então boas tardes, meus senhores! Espero que tenham tido boa viagem.

Reacção dos passageiros implicados:

– Porra que já arreamos bronca! O gajo é português e percebeu tudo!

Pois é, as aparências iludem!

 

A Trinta Zero Nove foi distinguida, esta terça-feira, com o Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária, da Feira do Livro de Londres. Na final deste ano, a editora concorreu ao prémio com três iniciativas dos seguintes países: Bulgária, Alemanha e Singapura.

Um ano depois de ter sido menção honrosa na Feira do Livro de Londres, na mesma categoria que concorreu, a Trinta Zero Nove foi distinguida com o Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária, da Feira do Livro de Londres. O anúncio foi feito na manhã desta terça-feira. No entanto, até à tarde, ainda faltavam palavras à editora Sandra Tamele, afinal a sua micro-editora é tão nova e, em dois anos, já atingiu patamares muito altos. “Sinceramente, eu ainda não caibo em mim de tão feliz que estou. Este não é um prémio só meu. Existe um conjunto de pessoas que tem contribuído. É uma realização muito grande.

Na edição deste ano, a Trinta Zero Nove esteve a concorrer com iniciativas de três países, designadamente, Elizabeth KostovaFoundation (Bulgária), Tender Leaves Translation (Singapura) e Uebersetzen (Alemanha). A editora moçambicana venceu porque, segundo o júri, é inovadora, especialmente inspiradora, com um programa de actividade imaginativo, dinâmico e visionário. Não podíamos estar mais entusiasmados em tê-lacomo a nossa vencedora de 2021”, lê-se na acta.

Doravante, para Trinta Zero Nove o céu é o limite. “Se em pouco tempo conseguimos tanto, sentimo-nos motivados a dar o passo seguinte”. Em parte, o passo seguinte consiste em ter um espaço em que o leitor pode ir comprar livros à editora, e, se nãopuder, ir ler os livros com a editora. Além disso, a Trinta Zero Nove pretende editar e traduzir mais obras para os mais novos, até porque, actualmente, tem um foco um pouco diferente. Apostamos, agora, no público infantil. Estamos a ter dificuldades em atrair o público entre adolescentes e adultos. Pensamos em criar e traduzir conteúdos para meninas e meninos com 3 anos de idade . Inclusive, vamos lançar uma colecção de livros para esse público, que estarão disponíveis em português, macua, cena e changana.

Neste momento, um dos impactos positivos da conquista do Prémio Excelência em Iniciativa de Tradução Literária é a seguinte: a Trinta Zero Nove passa a ter acesso aos direitos de tradução dosescritores que do outro modo seria impossível traduzir para as línguas moçambicanas.

Além de tradução literária, as iniciativas vencedoras desta edição dos prémios excelência serão celebradas na Feira do Livro de Londres numa versão online, no dia 29 deste mês. No evento, Editores, tradutores e autores conversarão sobre asquestões prementes atinentes à sua área de actuação. Estas sessões aparecerão juntamente com palestras de autores, painéis editoriais e seminários.

A propósito das iniciativas distinguidas na presente edição da Feira do Livro de Londres, o Director, Andy Ventris, afirmou que “todos os vencedores dos Prémios Internacionais de Excelência deste ano demonstram o engenho e o talento que se encontram hoje na indústria, e estamos encantados por reconhecer o seu trabalho trazendo livros aos leitores de todo o mundo”.

A Trinta Zero Nove é a primeira editora dos PALOP a participar e a ser finalista (ano passado) no evento britânico ao longo dos 50 anos da Feira do Livro de Londres e ao longo de sete edições dos prémios para excelência internacional.

 

A Casa do Professor é uma instituição cultural que será inaugurada às 15 horas desta terça-feira, no Bairro Francisco Manyanga, na Cidade de Tete. A instituição é aberta para promover actividades ligadas à leitura e às artes em geral.

Ano passado, Moçambique perdeu um casal de professores universitários num intervalo de seis meses: Juliano Bastos e Stela Duarte. Enquanto puderam, os dois professores da Universidade Pedagógica ensinaram sempre e não se limitaram à sala de aula. Pelo contrário, também recebiam os seus estudantes em cassa, dando-lhes a possibilidade de consultar livros, usar computadores e discutir conhecimento. A casa deles sempre foi a extensão da sala de aulas. Assim, já que não deixaram filhos, como forma de manter a continuidade do funcionamento da casa deles, familiares e amigos do casal Juliano Bastos e Stela Duarte decidiram criar a Casa do Professor, uma instituição cultural onde os alunos (primários e secundários) e os estudantes universitários poderão ter acesso ao livro e à informação, inclusive com formações de curta duração.

A maior parte das obras da Casa do Professor (ficção, poesia, livros científicos, de Moçambique e do estrangeiro) foram retiradas da biblioteca do casal. Da residência deles foram obtidos, sobretudo, livros e discos repetidos. Já os outros livros foram fornecidos por familiares, amigos e livreiros.

Neste 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, a Casa do Professor vai abrir, logo às 14 horas, com oficina de pintura para os mais novos, residentes no Orfanato Vovó Teresa, em Tete. Depois, seguirá um acto mais solene, para permitir que as pessoas conheçam a residência transformada em casa-biblioteca, com colecção de livros de várias áreas do conhecimento.

O objectivo dos fundadores da Casa do Professor, segundo explicou a coordenadora Aíssa Mithá Issak, esta segunda-feira, a partir da Cidade de Tete, é replicar  a ideia em todo o país. Começaram por Tete porque Juliano Bastos e Stela Duarte, que assim serão eternizados, eram daquela província.

Portanto, a Casa do Professor é um espaço de acesso à informação e à formação para todas as idades, onde irão decorrer actividades como consulta, venda e apresentação de livros, debates e palestras.

 

Durante uma semana, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, trabalhouna capital espanhola, Madrid, onde estabeleceu conversações e intercâmbio na área da cultura e do turismo.

De acordo com uma nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, a governante manteve encontro com o Secretário-Geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), Zurab Pololikashvili, numa altura em que Moçambique submeteu a sua candidatura ao Conselho Executivo da organização. O encontro também tinha como objectivo estreitar e reactivar as relações multilaterais entre as partes.
A Ministra refere: “Moçambique submeteu a candidatura para ser parte das soluções de uma forma holística para África, com o objectivo de ver nosso potencial turístico africano com capacidade de atrair investimento e turistas nacionais e internacionais. Esta candidatura a membro do Conselho Executivo não é um mero exercício institucional, é uma acção colectiva para que o nosso continente se torne apetecível, através da conjugação de esforços, entre o Governo e o sector privado”, lê-se no comunicado.

A Ministra da Cultura e Turismo também visitou a Feira Internacional do Turismo (FITUR 2021), que decorreu de 19 a 23 de Maio, e interagiu com vários expositores.
A FITUR deste ano contou com 350 expositores e um total de total 5000 empresas participantes.
Nesta edição, a feira apostou na digitalização e, como complemento à realização do evento presencial, apresentou FITUR LIVEConnect, uma plataforma online dirigida a toda comunidade profissional do turismo, que ofereceu aos interessados a oportunidade de se conectarem.

Eldevina Materula também se reuniu com o Secretário de Estado do Turismo de Espanha, Fernando Valdés Verelst, e com o Ministro da Cultura e Desporto, José Rodríguez Uribes. Dentre vários propósitos, os encontros tiveram como objectivo fortalecer a cooperação bilateral entre as partes na área do turismo, com ênfase para capacitação institucional, apoio técnico e captação de investimentos.

Igualmente em Madrid, Eldevina Materula manteve um encontro com fazedores das artes e da cultura baseados em Espanha. Com eles discutiu sobre os desafios que a classe encara naquele país e falou dos instrumentos de legislação do ministério e do Governo e das acções que decorrem actualmente a favor do artista. No encontro debateu-se a Lei dos Direitos do Autor e Direitos Conexos, a Inscrição dos Artistas no INSS, a dinamização das indústrias culturais e criativas e internacionalização das artes e cultura, tendo os artistas moçambicanos no estrangeiro  como principais actores.

Segundo a mesma nota de imprensa, a Ministra também fez alguns esclarecimentos sobre a situação sócio-económica do país com enfoque a Cabo Delgado, após constatar alguma desinformação inerente a este assunto. Esse foi um momento para confortar os artistas moçambicanos e relançar a imagem positiva sobre o país. Por sua vez, os fazedores das artes e cultura vincaram a necessidade de se reforçar acções tendentes a vender a riqueza da diversidade cultural moçambicana em Espanha, para que seja mais consumida.
A ministra reconheceu o papel dos artistas radicados em Espanha na divulgação da cultura nacional.

No encontro estiveram fazedores de música, artes plásticas, dança e cosméticos.
Importa referenciar que em Espanha existem 269 artistas moçambicanos registados.

 

A Fundação Fernando Leite Couto homenageou o poeta da Mafalala numa sessão presencial, sexta-feira à noite, na Cidade de Maputo. A sessão contou com performances dos irmãos Willy e Aníbal, de Helena Rosa e Cândida Mata.

 

Se estivesse vivo, José Craveirinha teria completado 99 anos de idade, esta sexta-feira. Porque apenas partiu o homem e não a obra, que perdura, a Fundação Fernando Leite Couto abriu as suas portas para receber leitores, declamadores, músicos e tantas outras pessoas que convieram com o poeta maior da literatura moçambicana.

O evento durou aproximadamente uma hora. No palco montado, declamou-se e cantou –se a poesia do primeiro africano a conquistar o Prémio Camões, já em 1991. Entre os textos declamados por Helena Rosa e Cândida Mata, ouviu-se “Karingana ua karingana” e, porque já é inverno e pelo país abundam citrinos, “As saborosas tanjarinas de Inhambane”, um poema sarcástico, crítico e muito actual. O público percebeu a actualidade do poema hilariante e reagiu sempre à medida que os versos carregados pelas vozes das duas declamadoras.

E porque no dia 28 de Maio nasceram os irmãos gémeos Willy e Aníbal, músicos com 46 anos de percurso musical, a Fundação Fernando Leite Couto convidou-os para participarem no evento. Assim, não só houve poesia de José Craveirinha. Igualmente, ecoou pelo átrio da Fundação uma espécie de regresso ao tempo, materializado nos acordes das guitarras dos dois manos com 70 anos de idade fresquinhos. Tudo ponderado. A organização do sarau quis homenagear Craveirinha e cantar os parabéns a Willy e Aníbal, que ficaram contentes por isso: “Estamos muito felizes por contribuir para esta homenagem a José Craveirinha, depois dele partir. Temos uma gratidão por este embondeiro das lestras moçambicanas. E, sendo este o dia do nosso aniversário, unimos o útil ao agradável”.

Os irmãos Willy e Aníbal estiveram em todos momentos da cerimónia, ora tocando e cantando, ora fazendo som ambiente para as declamadoras que também se entusiasmaram ao receberem a proposta de celebrar Craveirinha: “Para mim”, explicou Helena Rosa, “foi uma experiência incrível poder declamar José Craveirinha neste evento. Penso nele como um poeta que nos traz poesia de reflexão e de combate. Isso, nesta altura que estamos a atravessar a pandemia, é importante”. E para Cândida Mata: “Para mim, não havia melhor prenda do que esta, em que nós cantamos Craveirinha, o que nos encanta e a nossa moçambicanidade”.

O sarau José Craveirinha inseriu-se numa série de eventos que a Fundação Fernando Leite Couto tem realizado este ano, em homenagem a grandes nomes da literatura moçambicana. Além do poeta maior, nas edições anteriores, também foram relembrados autores como Albino Magaia, Aníbal Aleluia e Fernando Leite Couto.

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. e a Fundação Calouste Gulbenkian vão apoiar o desenvolvimento de quatro polos de criação artística contemporânea nas áreas das artes cénicas e/ou música, nos PALOP e Timor-Leste, com o objectivo de promover a qualificação de recursos humanos e de instituições da sociedade civil ligadas às artes.

Segundo escreve o Camões, as candidaturas decorrem entre 26 de Maio e 7 de Julho e destinam-se a instituições/entidades com sede e actuação nos PALOP (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe) e Timor-Leste, que deverão cumprir o requisito de ser legalmente constituídas como pessoas colectivas de natureza privada, sem finalidade lucrativa e ter trabalho comprovado no âmbito das artes cénicas e/ou música.

De acordo com a nota do Camões, as actividades apoiadas podem incluir: a investigação artística; a criação de novas produções/obras artísticas, nomeadamente em regime de residências; a programação de produções/obras preexistentes; iniciativas de carácter formativo e de capacitação; acções específicas de envolvimento e desenvolvimento de públicos, habilitando comunidades locais diversas a participarem activamente na criação e fruição artística. Estas actividades poderão ainda ser realizadas em cooperação com outras entidades a nível local, nacional e internacional, muito especialmente no âmbito dos PALOP-TL. O concurso decorre em duas fases. No final serão apoiados quatro polos, cujo programa de atividades deve ter a duração de 30 meses.

O projecto PROCULTURA PALOP-TL é uma acção do Programa Indicativo Multianual PALOP – Timor-Leste e União Europeia, financiada pela União Europeia, cofinanciada e gerida pelo Camões, I.P. e cofinanciada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Tem como objectivo contribuir para a criação de emprego em actividades geradoras de rendimento na economia cultural e criativa nos PALOP e em Timor-Leste.

Por: Ricardo Mutita

 

Já soava pelos ares da cidade, entre os ambulantes de gema:

– Estas boladas que por aqui se fazem, um dia, vão nos cair mal.

De um lado, circulam os vamos comer aonde?, que, a todo custo, têm de voltar para casa com um pedaço de pão, revendendo produtos que se abstêm de responder pelo tipo ou nível de qualidade. Do outro, os maimai?, ou, se preferirmos nos gabar de bosses ou marrões, “qual é o último preço disto?”. Os vamos comer aonde?, que, para além de businessman, são preciologistas, ou seja, aqueles que conseguem estipular preço a um determinado produto, prevendo os maimais, aliás, possíveis descontos até ao último, sem entrar em prejuízo.

E mesmo com toda esta bagagem de consciência sobre as boladas de cá, já naquelas modernas balalaicas de capulana costuradas pelo mais puto alfaiate da pequenina zona de Muchinha, que se gaba de estilista e influenciador digital, pôs-se, Djampirito, à rua, à procura de um bom smartphone:

– Acho que com estes oito paus consigo um bom Iphone 6s Plus com leitor multimédia, 128 GB e bateria 100%. Ah… vou! Assegurava-se a si mesmo o jovem das águas de Mutomote.

Depois de ter marchado uns cinquenta passos, Djampirito abraçou a Estrada Nacional n° 1, bem ali naquela bússola que deixa a qualquer um meio confuso em decidir para onde ir, entre o Aeroporto e CFM, Memória e Namicopo. Mas como já vinha programado e decidido a usar uma máquina de último grito, cansado de esperar por um transporte com lugar vazio para se sentar, pendurou-se na porta de um “chapa 100” que recolhia ao Resta. Afinal, o centro de boladas, em Nampula, é mesmo ali no círculo –  Museu, Prédio Fabião até ao Hotel Girassol e Shoprite, Mercado dos Bombeiros até ao Instituto Industrial e Comercial de Nampula.

Enquanto o motorista se concentrava em proteger vidas dos buracos assaltantes e de outros gafanhotos voadores pela estrada do sacrifício, o cobrador com uma força de atleta e voz de solista, gritava bofeteando a velha chapa:

– Waresta… Waresta… Waresta… Carreeega… Oholó mista…

Chegado a CFM, outra bofetada mais:

– PHÁÁÁ…         

Tão forte fora a bofetada que até os passageiros assustaram-se e, por uns segundos, viram-se no norte de Cabo Delgado, sem moedas nem palmas. Afinal, era saída para Djampirito, em frente ao Clube Ferroviário de Nampula. Preferiu começar dali, descendo para aquelas lojas do Mercado Novo a sondar pelas máquinas. Logo de primeira, foi recebido por um grupo de profissionais de marketing e publicidade sem formação, mas que actuam na área com muito mais dedicação em relação aos com diplomas universitários:

– Txeca lá máquinas, boss. Pouca mola só.  Apreciar não se paga nada.

– O que tens aí? Eu quero Iphone, bro. Respondeu, Djampirito, abanando os pés e a cabeça, como quem entendesse melhor desse tipo de boladas.

– Qual Iphone, patrão?

– 6s Plus com pelo menos 64 GB, bateria 100% … Não precisou de terminar com a descrição:

– Ah… tenho! Posso ir buscar com um sócio aí. Weita-me lá uns cinco minutos, aqui mesmo.

– Tá certo. Vou circulando por aqui a apreciar outras coisas. Encontramo-nos naquele take away, ali, para bolarmos melhor.

– Ok, mas não é para comprares com outra pessoa, aqui. Eu não vou demorar. Confia lá – já tens o cell. 

E com um assobio relampejado anunciou o “três: largar” para uns moto-taxistas que se encontravam, desde as quatro horas da madrugada, na posição “dois: preparado”, ali em frente ao Foto Mário. Tendo, então, Djampirito tomado a liberdade e prosseguido com a sua ronda pela cidade. Foi descendo… contornando o murro da Rádio Encontro, os seus olhos e bolsos vibravam em sintonia com o Banco de Moçambique e, consigo mesmo, ia debatendo as contas:

– Ah… com estes oito paus, posso, sim, ter um iphone. Estes gajos não sabem que, também sou de boladas.

Naquele mesmo instante, como se a lei da atracção se estivesse a materializar, aproximou-se dele um jovem forte, de baixa estatura e pele clara, com um smartphone igualzinho ao que descrevera ao primeiro businessman:

–  É só apreciar, boss: Iphone 6s Plus, 128 GB, bateria 100% …

– Quantos paus? Já com o produto e os olhos nas mãos como quem diz – “sim senhora, é, exactamente, isto que estou à procura.”

– Quanto tens, boss? Fique à vontade!

– Ah… como assim, pah!? Afinal quem é que está a vender, aqui?

– Tá nice! Como é você, né: dá-me lá 19.850 (dezanove mil e oitocentos e cinquenta). Só e só!

Heee… essa mola eu nunca vi. Podes bazar com o teu cell.

– Ok! Vamos lá falar como homens: tens quanto?

– Falando mesmo como homem, aqui onde estou, tenho seis paus.

– Seis mil meticais? É isso? (Risos) você só deve estar de brincadeira!

Já desanimado, saiu a caminhar a passos de um camaleão malareado. Nem mais um, depois dos dois passos, o businessman:

– Ouve lá, sócio, nós somos homens: aumenta lá só mais uns quatro paus para dez mil, e eu te ofereço esta granda máquina.        

– Ok! Maimai?

– Nove mil e quinhentos. E não se discute mais. Se não queres podes bazar. Isto não é android, pah.

– Oito paus na unha. Fechamos a bolada. Se não quiseres, também podes bazar.

– Tá nice! Passa-me lá essa mola, e ninguém conhece ninguém.                   

E dali, saiu o grande Djampirito com a máquina dos sonhos, altamente operacional. Sempre com ela abraçada entre os dedos da mão de maior segurança, e o lado do sabor da maçã sempre pronta para saciar a fome de quem se atrevesse passar. Dispensou o “chapa 100” para andar a pé, optando pelo corta-mato até sobressair à Padaria Nampula. Mais do que qualquer outro bem que tivesse, sentia apenas a elegância do seu nené que não suportava a tamanhã alergia do tecido da fralda dos seus bolsos, confortando-se apenas à vista dos binóculos do povo.

Foram-se meses, momentos de muita graça que seduz, cativa e deslumbra, momentos regados de amizades e, também rivalidades devido ao seu charme especial, até que um dia, a coisa ficou mesmo preta para o grande homem das boladas que já se encontrava em Cabo Delgado a trabalhar na Função Pública:

– Aló, bom dia! É o senhor Djampirito Sufo Muriparipa?

– Sim, sim. Muito bom dia! E com quem tenho o prazer de falar?

– Olha, sei que pode achar que é mais um desses truques que andam por aí, mas eu asseguro-lhe que não é nada disso. Este é um assunto sério e que pode prejudicar a sua vida. Então, é melhor o senhor colaborar para que eu possa lhe ajudar. Está a falar com o agente Birihate do SERVINCER (Serviço de Investigação de Celulares Roubados), em Nampula. O senhor comprou um Iphone 6s Plus black com 128 GB, roubado, entre a EDM e o Mercado Novo, em Nampula, certo?

Com aquele tom robusto com que se fazia correr as palavras, ramificadamente, bem regadas, a terra, o céu e o mundo pareciam estar a tombar para o chão, levando pelas costas Djampirito. Sentia-se hospede em seu próprio corpo e só passou a sentir-se com vida depois de uma insistência do ilustríssimo agente naquela voz de general:

– O senhor entendeu o que eu disse ou vai precisar de um outro tipo de explicação?   

– Não precisa! Fechou os olhos e respirou fundo para ver se recuperava um pouco de força: – Olha, eu comprei, sim, um celular com essas descrições e nesse mesmo local. Agora se é ou não roubado, eu não sei.

– Ok! O senhor tem o prazo de até amanhã para devolver o celular ao SERVINCER, caso não queira se envolver em problemas.

Mas, assim, encontro-me a residir em Cabo Delgado. Trabalho aqui. Como é que me deslocarei a Nampula assim do nada e, o pior, nestas condições em que as nossas estradas viraram lâminas fulminadoras de vidas? Poderíamos encontrar uma outra saída?

– Bom, o senhor é que sabe! Como eu disse, quero lhe ajudar para não agravar a sua situação. Faça de tudo para me mandar o produto até amanhã.            

A terra, o céu e o mundo do pobre jovem, para além de estarem a tombar, escureciam. Djampirito sentia-se estranho em um corpo que não se lembra por quem foi emprestado, e só passou a sentir-se com vida depois de uma audiência com o procurador do distrito:

– Sim, em que lhe posso servir?

– Excelência, há mais de três semanas que venho sendo pressionado por um suposto gestor do SERVINCER, alegadamente por ter comprado, hááá… se a memória não trai, quatro meses, um celular roubado, em Nampula. Na ligação, o gestor insiste para que me desloque a Nampula para tratar do assunto ou, se não quiser me envolver em problemas, envie o produto. Eu trabalho e moro cá mesmo. Como sabe, pela situação que se vive em Cabo Delgado, é muito perigoso fazer viagens.

– Quando e qual foi a última conversa que tiveram?

– Lembro-me mais da penúltima: há uma semana. Por estranhar a maneira como se estava a conduzir o caso pelo suposto agente, fui consultando a alguns amigos e conhecidos e aconselharam-me a pedir transferência do caso para cá onde me encontro fixado e com responsabilidades profissionais.

– E ele?

– Ele insistiu, mas, depois de um tempinho, veio a assegurar-me que a transferência já estava em processo e, dentro de três dias, eu iria, por bem ou por mal, esclarecer o assunto.  

– Então, continuemos à espera da tal transferência.

E até ontem, meses e mais meses… nem telefonema nem mensagem, apenas uma espera desesperada no ventre de um desejo invocado no fim de cada terço pelo momento difícil e duvidoso em quem buscar e confiar nestas boladas de cá.

 

Um coração de gozo – poemas eróticos, de Virgílio de Lemos, e Por eu amar-te tanto – poemas para os apaixonados, de Rui de Noronha, são os títulos de duas antologias que a editora Gala-Gala lança, este mês. As obras literárias integram a série “Poesia de bolso”, uma iniciativa que pretende trazer boa poesia a preços módicos, e serão distribuídas exclusivamente pela livraria Ethale.

Os dois livros, com efeito, chegarão aos leitores em formato hardycopy e e-book. Segundo o esclarecimento da editora Gala-Gala, sem a realização de evento público de lançamento. “Resolvemos começar com estes dois autores, cânones e marcos da poesia moçambicana moderna. O nosso intuito era, com estes dois autores, oferecer as diversas formas que eles pensaram o amor”, avançou a Gala-Gala.

De acordo com António Cabrita, citado na nota da editora Gala-Gala, Um coração de gozo é um poema que é “um dos raros exemplos de erotismo na poesia em língua portuguesa daquele tempo” e deste tempo.

Quanto ao livro do precursor da poesia moçambicana, a Gala-Gala afirma: “Esta publicação, que acontece 77 anos depois da morte de Noronha, é uma tentativa, que se espera não ser vã, de reviver alguns dos seus versos mais marcantes e levar aos mais jovens e aos eternos apaixonados o que acreditamos ser o melhor da poesia de amor de Moçambique”.

+ LIDAS

Siga nos