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O País – A verdade como notícia

Silke Guilamba estreou-se como actriz esta quarta-feira, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo. A artista contracenou com Mateus Nhamuche, na peça Molhar na chuva com os corvos. A produção da peça foi feita por António Sitoi e a música esteve na responsabilidade de Arsénio Gonçalo.

Até esta quarta-feira, Silke Guilamba era apenas uma talentosa cantora, autora dos discos Namasté e Eleven, assinados com o pseudónimo Tégui. No entanto, porque a música também prega algumas partidas aos seus executores, a cantora estreou-se como actriz através da peça teatral Molhar na chuva com os corvos. “Foi uma experiência muito enriquecedora e um desafio”.

Ao longo de mais ou menos 30 minutos, Silke Guilamba sentiu que conseguiu aprender alguma coisa que, eventualmente, irá usar no futuro. “A peça exigiu de mim muito exercício, muita entrega e também uma libertação. Deixe-me levar para poder interpretar a personagem”.

Na peça adaptada do texto do escritor Mélio Tinga, publicado na antologia Espíritos quânticos, organizado por Virgília Ferrão, Silke Guilamba interpretou o papel de Berta, filha de um antigo militar morto em combate. Trata-se de uma personagem fantástica, que, depois de ser morta, reaparece em sua casa para exigir um enterro digno. Apenas o irmão de Berta, Miguel (Mateus Nhamuche), consegue vê-lo, esmerando-se, por isso, em provar que o pai continua presente, apesar do que lhe aconteceu. “É uma peça profunda, que nos fala muito da perda e da morte que nos diz respeito a todos”.

Molhar na chuva com os corvos é uma peça que une representação, música e movimentos condizentes com a dança contemporânea. A ideia toda foi do encenador e actor Mateus Nhamuche. Para Silke Guilamba, essa mistura toda foi oportuna: “Veio a calhar porque estou numa fase da carreira que ando à procura de fazer coisas novas. Esta foi mais uma oportunidade de melhor explorar a arte e descobrir-me como artista”.

Não obstante ter sido exigente, Silke Guilamba confessa: “Apesar de ser a minha primeira actuação, como actriz, senti-me em casa e foi muito natural, para mim, fazer a peça”.

Há uns dois ou três anos, Mateus Nhamuche conheceu Silke Guilamba numa actuação musical que a cantora teve com Rita Couto, na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia (FEIMA), na Cidade de Maputo. “Eu ouvi-a cantar e mexeu comigo. Quando pedi ao Mélio Tinga para me propor um texto de palco, achei que a Silke seria a pessoa certa. No princípio, eu a convidei apenas para cantar”. Contudo, a música e/ou o teatro lá pregaram essa partida à cantora que, desde 17 de Agosto de 2022, integra o elenco dos novíssimos actores moçambicanos.

Às 18h10 desta quarta-feira, a Casa do Professor, na Cidade de Maputo, reuniu académicos e artistas para celebrarem o pensamento de um homem plural: Aquino de Bragança. Para a organização, essa foi uma forma encontrada para conhecer e dar a conhecer uma figura importante da História de Moçambique.

Com aproximadamente uma hora de duração, o documentário intitulado Enviado especial foi exibido na Casa do Professor a 17 de Agosto, ou seja, no dia em que a jornalista e académica sul-africana Ruth First, amiga e colega de trabalho de Aquino de Bragança no Centro dos Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, foi assassinada a bomba. Inclusive, segundo lembra o escritor Nelson Saúte, num artigo de opinião publicado esta quarta-feira neste jornal, Aquino de Bragança ficou ferido na sequência da explosão. “Penso que esta foi uma boa coincidência, porque, a partir de um filme sobre Aquino, também tivemos uma oportunidade de falar de Ruth First”, disse Aissa Mithá, da Casa do Professor.

Enviado especial estreou há quatro anos. Ainda assim, para Emídio Jozine, que participou na produção do filme, é sempre oportuno mostr­a-lo às pessoas porque, assim, se recupera o pensamento de um homem que se envolveu nas independências de vários povos africanos, além de Moçambique. Assim, acredita Jozine, pode-se buscar inspiração para a melhoria da situação social ao nível nacional.

Ao ser convidada a participar de um programa de celebração de Aquino Bragança, a realizadora do filme, que vive em Goa, ficou satisfeita. “Estou super contente porque, quatro anos depois de termos mostrado o filme aos antigos colegas dele, amigos, ex-alunos e ao público em geral, o filme volta a Moçambique, aqui a Casa do Professor”, disse Nalini Elvino de Sousa.

A ideia de Nalini Elvino de Sousa produzir um documentário sobre Aquino de Bragança surgiu em 2014. Nessa altura, a realizadora estava à procura de uma coisa que ligasse Goa a Moçambique. “E encontrei na internet esta personalidade fantástica que foi Aquino de Bragança”.

Nalini Elvino de Sousa é uma realizadora portuguesa. Mudou-se para Goa há duas décadas, onde já realizou mais de 100 documentários para a série Contacto Goa. A cineasta também produz curtas-metragens pela sua produtora Lotus Film & TV Production, a mesma do filme Enviado especial. Nasceu no dia 19 de Outubro de 1973. 13 anos depois, na mesma data em que nasceu, Aquino de Bragança morreria na sequência da queda do avião presidencial em Mbuzine, África do Sul, no qual, além de Samora Machel, seguiam tantas outras personalidades, como Gulamo Khan.

Aquino de Bragança foi um homem multifacetado: jornalista, diplomata, político, cientista social e Conselheiro de Estado, quando Samora Machel estava no poder. Um dos seus trabalhos de relevo foi a criação e afirmação da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em 1961, com os seus camaradas Marcelino dos Santos, Mário Pinto de Andrade e Amílcar Cabral. Estas individualidades convenceram o Rei Hassan II, de Marrocos, a apoiar a luta de libertação contra o colonialismo português.

 

 

 

 

 

 

O escritor e poeta Afonso Vaz Vassoa lança, às 17 horas desta quinta-feira, o livro de poemas Aromas e símbolos de sobrevivência. A obra literária será apresentada pelo Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, no Auditório do BCI, na Cidade de Maputo.

No prefácio de Aromas e símbolos de sobrevivência, Armando Artur considera que a nova proposta literária de Afonso Vaz Vassoa deve ser lida de forma livre e despreconceituosa, da mesma maneira como é apresentada pelo seu autor. Para Artur, os poemas ressoam no leitor como rumores antigos e recentes, aparentemente trazidos pelos ventos alísios, na ondulação temporal do território que Vassoa chama de ReMoça, ou seja, República de Moçambique.

A ser lançado esta quinta-feira, no Auditório do BCI, na Cidade de Maputo, os poemas de Aromas e símbolos de sobrevivência são, em geral, de índole social, o que, para o prefaciador, traduz a preocupação e o desassossego do autor ante a realidade moçambicana: “É uma poética que para além de interiorizar o sofrimento, as inquietudes, o medo, a dor, também vai à outra face da mesma moeda, ao encontro dos maravilhosos elementos que perfilham a geografia natural e humana que, indubitavelmente, constituem fonte de orgulho, de conforto e esperança dos homens e mulheres da ReMoça, do mesmo modo como nos sugerem os poemas do subtítulo ‘Vozes do fascínio’”, lê-se no prefácio assinado por Armando Artur.

Em Aromas e símbolos de so­brevivência encontram-se, segundo Afonso Vaz Vassoa, poemas aromáticos e não aromáticos, que podem ser captados por órgãos dos sentidos das entranhas, to­dos passíveis de serem simbolicamente representados em forma de sin­gelos versos. “É assim que nós, do nosso jeito, pintamos, aqui e agora, a presente composição presumivelmente poética, como o resultado de uma espécie de escape sócio-profissional necessário, embora imposto, natural ou arti­ficialmente, pelo recém-reactivado teletrabalho – cuja dinâmica nos obri­gou a duplicar o tempo e as energias, por razões alheias e não alheias às nossas competências de adaptabilidade, principalmente de ordem tecno­lógica, metodológica e sócio-cultural”, escreve Vassoa no posfácio por si assinado.

Ao longo do seu exercício de escrita, Afonso Vaz Vassoa lembrou-se, em especial, das vítimas das guerras, das mudanças climáticas e de tantas outras ca­lamidades naturais que afectam Moçambique.

Na cerimónia de lançamento, o livro chancelado pela Imprensa Universitária será apresentado pelo Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão.

Por Valério Maúnde

É segunda-feira num país sem nome nem coordenadas geográficas. Sabe-se apenas que existe. Na Escola Secundária Futuro da Nação, o clima é de apreensão por parte dos alunos, que se preparam para prestar provas trimestrais. Na sala 22, está a turma B da 9a classe, perante o enunciado da prova de Português. Nos rostos dos alunos, semblantes variados, uns de indiferença, outros de dúvida e até de espanto, para não dizer assombro, como é o caso da Neima, rapariga de 15 anos de idade, que se vê incapaz de avançar com qualquer resposta após a escrita do seu nome, número e turma na folha de respostas.

Neima lê o enunciado, faz pausa, sacode a cabeça e torna a ler. O efeito é igual: confusão. A estudante olha primeiro ao seu redor e nota que os seus colegas vão preenchendo a folha de respostas e aflige-se, por, aparentemente, ser a única em completo estado de inércia. Neima lança então um olhar de socorro para a secretária do professor, na esperança de que um provável contacto visual revele a sua aflição e faça o professor aproximar-se, para averiguar a razão da inquietação. Infelizmente, os olhos da aluna tombam como cajus maduros sobre a terra, ou, se preferirem, não logram cruzar-se com os do professor Januário, que vigia a prova de corpo presente, mas de alma, espírito e atenção totalmente ausentes, arrebatados que foram pelo fascínio das redes sociais.

Desamparada, Neima recolhe os negros olhos marejados e, pela enésima vez, torna a lançá-los sobre o enunciado, esforçando-se em decifrar o paradoxo diante de si, e, não conseguindo solucioná-lo, culpa-se por ser incapaz de compreender o que está estampado na sua folha de perguntas.

A adolescente passa da culpa para a dúvida. Começa por duvidar da sanidade da sua vista, esfrega os olhos, depois duvida dos seus conhecimentos, tem comichão na cabeça, por fim, enche-se de uma tímida coragem e ousa duvidar de que o enunciado da sua prova queira dizer o que diz.

Por cima do quadro negro, os ponteiros do relógio seguem em ininterrupta marcha. Farta de pensar e sentir sem dizer, vendo o tempo correr, levanta o braço, pedindo a atenção do professor. Contrariado, este pousa o celular na secretária e responde monossilabicamente, como quem poupa energia para mais importantes e gratificantes ofícios.
– Sim!

Receosamente, Neima expõe a sua inquietação:
– Professor, aqui na prova está escrito assim: “O texto da sua prova apresenta-se em estrofes e versos e obedece…”
O professor interrompe-a impacientemente:
– E depois?
Gaguejando, a rapariga esclarece:
– É que, para mim, este texto não tem estrofes e versos.

Mais uma vez a aluna é interrompida pelo professor, que toma a imaculada atitude com afronta.
– Menina, estás a dizer que o enunciado está errado? – E, dirigindo-se agora à turma inteira, proclama, em tom áspero e zombeteiro – Ouviram, meninos? A vossa colega acha sabe mais do que as pessoas que fizeram a prova.

A turma inteira desata em gargalhadas e vaias. Envergonhada, a pobre aluna tapa o rosto com as duas mãos, apoiado os cotovelos sobre a carteira. Gotas salgadas vão humedecendo as folhas de papel, escorrendo sobre as linhas brancas sedentas de respostas.

Januário levanta-se de rompante da secretária, ou se quiserem, do trono das incontestáveis verdades e, pela primeira vez desde que a prova se iniciou há quase meia hora, lê finalmente o enunciado, com o dedo indicador direito dando cadência à leitura.

– “O texto da sua prova apresenta-se em estrofes e versos…”
Januário interrompe de súbito a leitura, como se uma trave lhe tivesse atravessado abruptamente a garganta, e, ao contemplar a mancha gráfica do texto, estremece, sua frio, baixa o dedo de autoridade e esconde o rosto por trás da folha, dando-se conta de que o texto que não se dignara ler antes de distribuir pelos alunos é, afinal, uma prosa, nem de longe poética.

O concurso de fotografia lançado pela Marimba é destinado a jovens de até aos 30 anos, de nacionalidade e residência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste, países parceiros do projecto.

De acordo com uma nota de imprensa, serão seleccionados quatro candidatos, sendo um por cada país de intervenção, cujo objectivo final é a participação numa exposição colectiva, com trabalhos previamente seleccionados e que terá lugar em Maputo, no culminar do projecto, em 2024.

As candidaturas decorrem até 8 de Setembro de 2022, sendo que o regulamento de participação encontra-se disponível na internet.

Em geral, Marimba tem como objectivo valorizar a produção musical, através da sua pesquisa, digitalização, promoção e distribuição internacional.
Paulo Flores, Nástio Mosquito (angolanos), Manecas Costa (guineense), Stewart Sukuma (moçambicano) e Etson Caminha (timorense) são os embaixadores do projecto.

A peça Entre corpo e alma será apresentada às 19 horas desta quarta-feira, no 16Neto, na Cidade de Maputo. A performance conta com Nélia Gilberto, Paulo Jamine (actores), Beauty Sitoe (música) e Lucrécia Paco (leitura).

 

Ao longo de 30 minutos, a encenação Entre corpo e alma, de Ramadane Matusse, estará no palco do espaço 16Neto, na Cidade de Maputo. Em geral, trata-se de uma peça multidisciplinar, que surgiu como resultado de uma pesquisa feita pelo encenador na disciplina de Expressões Artísticas, em 2017, no Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

Originalmente, a pesquisa consistiu em explorar o significado do corpo para diferentes religiões e etnias. Depois disso, Ramadane Matusse conversou com Joana Chivale, de Inhambane, que lhe apresentou algumas comparações inspiradores sobre o corpo. De seguida, Matusse leu um artigo da autoria do professor de teatro e actor Dadivo José, sobre corpo e movimento nos rituais nacionais. A experiência de leitura foi tão gratificante que o encenador decidiu unir o útil ao agradável: refelectir sobre o corpo enquanto recurso sociocultural e artístico. “Espero que o público aceite este desafio fora dos cânones habituais. Aqui temos uma peca de teatro, mas não se trata de um teatro falado. Exploramos movimentos, um casamento com a música e um texto lido”.

O texto referido por Ramadane Matusse será interpretado por Lucrécia Paco, num espectáculo que estará carregado de imensas questões existências do Homem. Já a performance em si, irá, sobretudo, explorar a significação do corpo feminino, segundo a sua pesquisa, tido como mais frágil relativamente a do homem.

Entre corpo e alma estreou ano passado, durante a segunda edição do Festival Gala Gala, na Cidade de Maputo. Porque a peça não teve grande repercussão, já que apenas foi apresentada virtualmente, Ramadane Matusse decidiu voltar a levar ao palco, agora com presença do público, uma performance relevante, pela temática e pela actualidade.

Quanto à apresentação feita ano passado no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, a peça tem apenas uma mudança, concernente à música. Ou seja, já que a cantora Lenna Bahule encontra-se fora do país, a parte cantada da peça estará na responsabilidade de Beauty Sitoe.

A dramaturgia de Entre corpo e alma foi feita por Mulandi Mazoio e na interpretação estão os actores Nélia Gilberto e Paulo Jamine.

O fundador do Grémio Africano de Lourenço Marques, e dos jornais O Africano e O Brado Africano, João Albasini, também conhecido pelo seu nome rhonga Nwandzengele, morreu a precisamente 100 anos, isto é, a 15 de Agosto de 1922. Neste artigo, na verdade, apenas lembramos essa enorme referência intelectual e da imprensa moçambicana. Pelo menos…

 

João Albasini sorri, quando Hans lhe conta que na noite anterior quase se perdeu num mato que existe perto do hotel.

‘Mato?’.

Trata-se antes de um jardim. Ou melhor, de um projecto de jardim, uma vez que, como sempre, as hesitações ou mesmo o desvio de verbas erodem ideias e planos que acabam por dar em não mais que grotescos esboços, coisa nenhuma. João Albasini é assim, tem a curiosa propensão de conduzir todos os diálogos numa mesma direcção, de assestar sobre a municipalidade e os seus jogos todas as baterias que tem. É tinta que lhe corre nas veias, não sangue. Alguma coisa muito séria lhe hão-de ter feito para que veja o mundo sempre assim.

‘Mato?’.

Albasini ri com gosto.

Esta é uma das imensas passagens do romance O olho de Hertzog, de João Paulo Borges Coelho, no qual João Albasini aparece ficcionado como personagem. Mas também lê-se a seguinte:

João Albasini desta vez não sorri. Está muito sério. E conta. Conhece-o desde há alguns anos, ele próprio ainda proprietário e editor d’O Africano, um jornal de muito sucesso que há uns meses atrás foi obrigado a vender. Grande parte desse sucesso devia-se à popularidade entre os moçambicanos que trabalhavam nas minas de Joanesburgo, onde circulava às centenas de exemplares.

No livro com o qual João Paulo Borges Coelho venceu o Prémio LeYa 2009, João Albasini não só é uma figura interessantíssima como mantém um ar muito educado e esclarecido. De certo modo, apesar de ser ficção, O olho de Hertzog permite criar-se uma certa imagem, verosímil ou apenas fictícia, de quem pode ter sido João dos Santos Albasini, filho do negociante Francisco João Albasini e de Facaxanam, baptizada Joaquina Correia de Oliveira.

Conforme os dados bibliográficos compilados por António Sopa, na revista Tempo de 25 de Agosto de 1985, Albasini aprendeu as primeiras letras na escola paroquial da capital moçambicana, onde, bem mais tarde, tornou-se um dos fundadores do Grémio Africano de Lourenço Marques (1908), dos jornais O Africano (1908) e O Brado Africano (1918). Já em 1919, acrescenta Sopa, Albasini viajou a Portugal, onde manteve contacto com a Liga Africana e onde apresentou ao governo português revindicações como fim do trabalho forçado, da discriminação racial, do imposto de palhota, da expropriação de terras e mostrou-se a favor de mais educação.

João Albasini foi mais do que um célebre jornalista de O Africano ou de O Brado Africano. Mais do que isso, fez-se referência intelectual muito além do seu tempo. Por isso, interveio em prol da sociedade moçambicana do séc. XX como um fenómeno de difícil repetição, ora metendo-se em questões socioculturais, ora em questões de ordem política e económica.

Num artigo intitulado “José Francisco Albasini e a saúde do corpus moçambicano”, publicado no livro Encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macedo (Marimbique, 2012), César Braga-Pinto descreve da seguinte maneira os dois jornais que se confundem com João Albasini:

Escritos em português e ronga, e em alguns momentos até em inglês e zulu, os jornais O Africano (1908 – 1918) e O Brado Africano (1918 – 1974) alcançaram um público leitor bastante significativo, chegando a reivindicar para si o lugar de jornal mais vendido de Moçambique.

A referência ao excerto acima está descrito em jeito de ficção no romance O olho de Hertzog, no qual, igualmente, João Albasini é um eixo favorável para se pensar o presente através do que o passado legou. A propósito de legado, Albasini é autor de O livro da dor, publicado a título póstumo em 1925, para alguns estudiosos, um dos grandes marcos na periodização da literatura moçambicana.

Menos concentrado no homem, mais na obra, em Além do túnel (2020), Francisco Noa refere o seguinte sobre O livro da dor: “um livro sobre o próprio processo de escrita, enquanto criação, ou recriação. Essa dimensão autorreflexiva reconhece-se nos vários intertextos, implícitos e explícitos, que atravessam a obra e que resultam do facto de este autor/narrador revelar-se um leitor consumado e insaciável”.

O livro da dor é uma colecção de cartas da autoria de João Albasini, recolhidas e editadas por Marciano Nicanor da Sylva, quem assina o prólogo do livro. Partindo de um plano real, em que o autor exprime as suas amarguras, sempre num tom melancólico, a confundir-se com tédio, frustração, apresenta elementos textuais construtores do que Roman Jakobson considera literariedade, isto é, o que faz de um texto uma obra literária. Sem a informação prévia de que o livro reúne um conjunto de cartas, muito provavelmente seria classificado à luz dos preceitos poéticos, narrativos ou mesmo dramatúrgicos. Afinal, o que o livro possui de potencialidade lírica, igualmente, esbanja em recursos indispensáveis à narração e aos monólogos. No livro reconhece-se um sujeito amuado, num diálogo solitário, todavia à espera de ser correspondido pela sua amada, quem, tivesse dado ouvidos às loas do autor, teria impedido a materialização de um exercício que fica para história da literatura moçambicana. Assim começa O livro da dor:

Tenho de mim para mim, muito no íntimo do meu peito, que te perdi para sempre, que nunca mais me farás a esmola de me olhar e muito menos a caridade de me ouvir a defesa; mas também creio, piamente, como Cristão, como também lial e sincero que sempre fui, que um dia farás justiça a êste desgraçado que, perante a calúnia, a intriga, o Destino inclemente se confessa vencido e te pede perdão sem ter de quê. O Destino das criaturas! Moralmente morri. Mataste-me (p.17).

À imagem do excerto acima, é o eu de quem sente a dor de um amor falhado que predomina nesta obra secular de Albasini. No texto, de forma aturada, o sujeito de enunciação confessa os danos causados pela atitude da sua amada:

Que me não amas – acredito – mas não é também razão para me teres ódio, para me não falares. Era o bastante dizeres: «Mwambongolo, gosto de brincar contigo mas não quero casar contigo». E eu sofreria no meu amor próprio e por ver desfeito o meu sonho, mas não atingiria estes paroxismos de agonia que proveem do teu ódio, do propósito firme de me não falar, não me dizes o mal que te fiz (p. 34 – 35).

João dos Santos Albasini, Nwandzengele, nasceu a 2 de Novembro de 1876 e morreu a 15 de Agosto de 1922, tendo sido sepultado no cemitério público de Lourenço Marques, hoje Maputo. Como muitos membros da sua família, incluindo o filho Carlos e o irmão José, morreu vítima de tuberculose, a três meses de completar 46 anos de idade.

 

*Parte deste artigo foi extraído de um outro, em construção.

Frank Paco começou a tocar bateria aos 11 anos de idade. De lá a esta parte, o músico estudou, aprendeu, viajou e colaborou com grandes bandas e artistas. Não consegue dizer quem terá sido mais especial, pois de todos sempre aprende. Um dos grandes concertos do seu percurso artístico é 46664 Mandela AIDS, partilhando o palco com a banda Queen, Bono, Jimmy Cliff, Angélique Kidjo, Johnny Clegg e Peter Gabriel. A arte, na verdade, é de família. Tem vários irmãos artistas e, nesta entrevista de percurso, também se refere a isso. Autor dos álbuns Buyanini e New Horizons, Frank Paco encontra-se a trabalhar em novos projectos, sempre (re)imaginando à sua moçambicanidade. É um cidãdao do mundo. Depois de Moçambique, África do Sul ou Namíbia, agora, está radicado na Ilha Reunião, no Oceano Índico.

 

Frank, escolheu fazer da bateria um veículo que o permite ser um cidadão do mundo ou isso foi acontecendo sem que se apercebesse?

Posso dizer que, quando nós temos um sonho e cremos nesse sonho, acontece. Isso começou na minha infância, sempre que me encontrava diante de um mapa do mundo, a imaginar visitar vários países. Felizmente, deu certo e, um dia, vi-me apenas na Suécia, Suíça ou Inglaterra. É a partir dos sonhos que temos que podemos realizar as coisas e ser o que pretendemos.

 

Foi daqueles meninos que decidiu fazer da música uma forma de existência. Inclusive, perseguiu esse sonho que acaba de referir. Que acontecimento foi determinante para, já aos 16 anos, decidir que a música seria o seu futuro fora do país?

A música escolheu-me a mim, pelas influências que nós tivemos a partir de casa. Falo de mim e dos meus irmãos. É algo de família. Lembro-me que, quando éramos novos, um nosso tio, Alexandre, convidava-nos a ajudar-lhe a esticar câmaras de ar para pneus de carro de modo a fazer batuques com latas. Então a nossa batucada começou aí. Mas também tivemos uma grande sorte, porque os nossos pais, em casa, sempre ouviram boa música. Desde o rock ao pop, incluindo música africana. Havia de tudo na nossa casa, no Bairro de Mavalane/Aeroporto, onde nascemos, porque os nossos pais eram grandes coleccionadores de música. Recordo-me que, depois da independência, houve uma grande explosão da cultura moçambicana, porque começamos a aprender o que é nosso. Além disso, tivemos a sorte de viver perto de um vizinho músico, Salimo Muhamed. Foi ele que nos convidava para ir ver sessões de música no Bairro da Coop. E, para mim, sempre foi a bateria…

Porquê?

Aquela acção toda e o baterista que víamos na altura era muito vivo.

Houve receio de que a música podia não dar certo?

Como disse, a música escolhe-me a mim. Então, nunca houve receio de minha parte. E tive a sorte de os meus pais apoiarem-me. Recordo que, quando eu tinha 14 anos, fui tocar no Bairro T3, na Matola, onde vivia uma tia minha. Ela esteve na audiência, a ver-me tocar. Mas eu não tinha dito aos meus pais que iria tocar. Disse-lhes que ia a uma festa. Mas, como a minha tia lá esteve a ver-me, os meus pais ficaram a saber. O meu pai chamo-me e disse-me para seguir o meu coração, mas os estudos deviam estar em primeiro lugar. Estamos nos finais dos anos 70.

Penso que a carreira de Frank Paco consolida-se, sobretudo, fora de Moçambique. Como descreve essa experiência?

Nós temos, em Moçambique, uma diversidade de ritmos que nos enriquece. Quando estamos a fazer música fora do país, as pessoas logo percebem que não se trata de um músico local. Daí fica fácil enquadrarmo-nos.

A musicalidade dos instrumentistas moçambicanos confere-lhes a capacidade de poderem imporem-se noutros países da região…

E no mundo. Está aí o meu irmão Celso [Paco] na Suécia. Ele é uma riqueza lá.

Tem a experiência de conhecer esses mercados musicais da região. Inclusive, no passado, criou uma banda com Jimmy Dludlu e John Assan, Loading Zone, na África do Sul. Nessa altura, tiveram a oportunidade de acompanhar grandes nomes da música africana. Como foi para vocês se projectarem para os grandes palcos do mundo dessa forma?

Foi um período muito interessante para nós, porque foi lá que descobrimos que temos uma coisa diferente. Quando cheguei a África do Sul, toquei com vários artistas, consagrados: Brenda Fassie, Yvonne Chacka Chaka ou Hugh Masekela. No entanto, houve necessidade de formarmos essa banda porque os artistas lá estavam a falar dos artistas moçambicanos que tinham uma coisa diferente para oferecer. Nós, cheios de energia, estávamos esfomeados em tocar. Então formamos essa banda para acompanhar esses vários músicos. Houve uma altura em que éramos convidados a tocar em quatro festivais num só dia, em cidades e províncias diferentes. Por isso tínhamos uma avioneta que nos levava a esses lugares todos. Mas, depois, começou uma onda de violência com a pressão para se libertar Nelson Mandela da prisão. Aí tivemos de mudar porque já não era fácil criar festivais, devido à turbulência nos subúrbios. Como podíamos continuar? Começamos a fazer fusão de música, para o clube do jazz.

O que mais vos permitiu a banda Loading Zone?

Adicionou muito o nosso desenvolvimento artístico, individualmente e em termos de grupo. Antes, eu tive a oportunidade de colaborar para uma outra banda, com a qual viajei para Suécia e Itália. Então, com os Loading Zone, ficou ainda mais fácil enquadrar-me como baterista em termos de jazz.

Ter conseguido impor-se na África do Sul permitiu-lhe facilmente ser referência em Moçambique do que se tivesse sido o inverso?

Boa pergunta! Para poder chegar a África do Sul, primeiro, tive de sonhar em tocar com certos músicos. Sempre que o meu pai tocava música em casa, eu pegava no vinil e punha-me a imaginar a tocar com esses artistas. Era imperativo que eu fosse para África do Sul porque é lá que o meu coração estava. Eu já parto para África do Sul com esse propósito. Por isso falo da possibilidade de os sonhos se tornarem realidade.

Qual foi a sensação de tocar e/ou partilhar o palco com esses artistas que o inspiravam ainda criança (Jimmy Cliff, Angélique Kidjo, Johnny Clegg e Peter Gabriel)?

Perguntei-me se não estava a sonhar.

E pensou que naquele momento também era um monstro?

Onde temos ido, as pessoas elogiam-nos, mas a jornada não termina aí. Ainda tenho muito a aprender. Eu nunca me sinto no topo, a vida é sempre uma aprendizagem e isso contribui para que eu possa ensinar aos outros. Há sempre uma coisa a aprender e a ensinar aos outros.

Quando termina os Loading Zone, quais passaram a ser os seus objectivos?

Tendo tocado nos clubes, ao nível nacional da África do Sul, inclusive, tivemos a oportunidade de ir a Namíbia, para os primeiros três meses… Foi lá que fomos contactados para tocar com Papa Wemba. No nosso regresso a África do Sul, tivemos uma residência em Cape Town. Lá estando por longo tempo, houve essa oportunidade de podermos estudar, na fase de transição do Apartheid. A universidade ficou aberta para a nossa raça e um amigo que me pediu para lhe ajudar com alguns ritmos, ficou espantado quando soube que eu sabia ler pauta musical. Tive grandes homens que me iniciaram na bateria e uma dessas pessoas é o grande Mundinho. Pronto. Estando na universidade, ele disse-me que tinha oportunidade para me inscrever. Ele foi falar com o director. Fiz a minha audição. A seguir, logo meteram-me no big band, a maior banda da universidade.

Como é que os seus pais reagiram à sua consagração musical?

Infelizmente, o meu pai não viveu tanto tempo para poder ver tudo isso. Mas a minha mãe acompanhou a nossa progressão com muito orgulho. Não só a progressão dos meninos, mas da nossa irmã Lucrécia Paco também, que é um orgulho para o país e que faz coisas extraordinárias para o teatro.

Quando se fala do seu percurso, também é impossível não nos referimos ao projecto Tucan Tucan. Como é que se concretiza?

É uma longa história, mas vou tentar resumir. Quando estava na universidade, houve um conjunto de artistas jovens que eu descobri que podiam fazer parte do grupo, incluindo as nossas raízes, jazz e musicalidade latina. Lá senti a necessidade de envolver artistas moçambicanos, para garantir a nossa musicalidade. Pedi aos meus camaradas Ivan Mazuze, Hélder Gonzaga, Texito e Xixel Langa. A banda teve muito sucesso em Cape Town. Depois do lançamento do disco, fomos bem acolhidos em Joanesburgo e foi uma grande surpresa saber que a banda também foi muito bem recebida em Moçambique.

Quando está a compor sofre esta pressão de imprimir nas suas músicas a sonoridade que permite colocar Moçambique nos ouvidos do mundo?

É como se diz, se tentamos imitar sempre, ficamos uma imitação. Temos de tentar assumir o que somos porque aí alguém vai poder escutar o que temos a oferecer. Por isso levo as minhas origens aonde vou.

Como se explica esse exercício de tornar a música universal, de tal modo que, quando a escutamos, esquecemos as diferenças que nos poderiam afastar?

A música é uma língua universal e atravessa todos os obstáculos. Eu sinto-me abençoado por poder criar música que pode tocar coração de muita gente e unir as pessoas.

Tem a sorte de poder trabalhar com os seus irmãos. Um deles é Toni Paco…

O Toni é um grande percussionista e tem estado a tocar com grandes músicos a nível mundial. Nós estivemos juntos quando fizemos o grande concerto Nelson Mandela, a acompanhar grandes artistas, como Bono, dos U2, Angélike Kidjo, Youssou N’Dour e vários artistas do mundo, em 2003. Ele ainda ficou no palco a acompanhar mais artistas, pois algumas bandas levaram consigo bateristas.

Há um músico, um grupo ou um projecto com o qual tenha sido particularmente especial tocar?

Essa pergunta é difícil de responder.

É uma armadilha.

Uma boa armadilha! No mundo da música, todo o artista sempre tem algo a oferecer. Sempre que vou ao palco para acompanhar alguém, dou de mim 100%.

E o que significa para si a possibilidade de tocar com um novo projecto?

Aprendizagem e descoberta. Eu estou sempre disposto a essas experiências.

Sei que vêm aí novos projectos musicais. O que será?

Será um projecto paralelo ao que estou a fazer, com elementos de jazz. Mas o novo projecto será mais lusófono e estarei a cantar. Inclusive estou a trabalhar com Filipe Mondlane, grande engenheiro de som. O projecto será lançado em Moçambique. É em português e com algumas marrabentadas.

O que a música continua a significar para si?

Para mim, continua a ser esse veículo… Sabe, com a música, posso derrubar uma ditadura. A música pode influenciar as massas para perceberem a verdade. Os músicos são embaixadores.

Embaixadores da boa vontade e dos sentimentos.

Excatamente.

Recentemente, teve a possibilidade de tocar com os seus irmãos. É algo que vai continuar?

Até aqui, calhou que todos estávamos todos em Maputo e queríamos honrar a nossa mãe, que partiu. Se houver mais oportunidades, por que não?

O que lhe falta tocar e com quem falta tocar?

Gostaria de tocar timbila e mbira. Como estou na Ilha Reunião, gostaria de misturar esses novos elementos com um batuque da ilha, usado para o estilo maloya. Gostaria de tocar melhor maloya, criar um projecto à volta disso. Quanto à segunda parte da pergunta, a mim falta tocar com todos os músicos com quem cresci e descobrimos essa arte. Por exemplo, Stewart e Childo Tomás.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro O 7º juramento, de Paulina Chiziane; e a música de Kapa Dech;

O espectáculo Outra babalaza das hienas será apresentado terça-feira, às 18 horas, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

 

Tsemba Cavele é uma menina de 7 anos de idade. Na peça Outra babalaza das hienas, é a actriz mais nova. Fascinou-se pela arte da representação com menos de 5 anos de idade, em casa, vendo a mãe a ensaiar. A menina interessou-se e tão logo começou a seguir-lhe os passos.

Ora, no espectáculo encenado por Lucrécia Paco e com dramaturgia de Aurélio Furdela, Tsemba é essencialmente um menino que perde a mãe num contexto de terrorismo em Cabo Delgado. Desamparado, o menino é ajudado por uma mulher chamada Maimuna (Angelina Chavango) e casada com Carimo (Mateus Nhamuche). É com eles que a personagem interpretada por Tsemba Cavele ganha um lar e uma família num contexto de cólera.

Tsemba Cavele encontra-se no elenco de actores porque o espectáculo precisou de um menino que representasse tantos outros garotos moçambicanos que em Cabo Delgado perdem até o chão que pisam. Outra babalaza das hienas marca o princípio da pequena actriz na arte teatral, o que, inclusive, a permite contracenar com a própria mãe.

A certa altura, o menino perdido (Tsemba Cavele) passa a chamar-se Carimo e o nome é dado pelo seu “novo pai” (afectivo). De algum modo, o menino “substitui” Kilonko, filho biológico de Maimuna e Carimo, pois, sentindo-se jovem, vai à guerra para ajudar a eliminar a instabilidade gerada pelo terror.

Quer isto dizer que Outra babalaza das hienas recupera o drama social das personagens a vários níveis. Pensa nas crianças vítimas do terrorismo como também retrata a tragédia vivida pelos pais dessas mesmas crianças. Por isso mesmo, os actores resolveram apresentar o espectáculo na Fundação Fernando Leite Couto, depois de ter sido levado ao Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), numa sessão realizada no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), e ao Conselho Municipal de Maputo, onde foi apresentada na cerimónia em que se anunciou o vencedor do Prémio de Literatura José Craveirinha: Mia Couto. Rigorosamente, foi no Município de Maputo que Tsemba Cavele estreou-se e, na Fundação Fernando Leite Couto, terá mais uma oportunidade de fazer o que realmente gosta.

Referindo-se à terceira apresentação de Outra babalaza das hienas, Mateus Nhamuche explicou que o conceito do espectáculo é o mesmo. No entanto, alertou: “O espaço transforma o espectáculo. Continuamos a trazer as personagens e a pensar a sobrevivência em Cabo Delgado. A dramaturgia é a mesma, mas com novas perspectivas de alguns elementos de cena”.

Para Nhamuche, está a ser interessante voltar a preparar o espectáculo de 30 minutos. E sobre o papel que interpreta, Carimo: “É uma personagem muito protectora. Tem 54 anos de idade. Numa primeira fase, foi-me complicado construir o papel porque tive de fazer uma pesquisa a fim de perceber a psicologia das pessoas que passam por situações de guerra. As histórias que fui ouvindo sobre o tema também ajudaram-me muito”.

Do ponto de vista social, os actores esperam que a nova apresentação do espectáculo sirva para que o público de Maputo compreenda que a situação das vítimas do terrorismo é caótica e que a arte tem o poder muito forte de levar a realidade ao palco. “Ao verem o espectáculo, terão uma outra forma de pensar”.

Concordando com Mateus Nhamuche, Angelina Chavango reforçou que o espectáculo tem o propósito de provocar e de fazer com que as pessoas em zonas aparentemente protegidas não fiquem indiferentes ao drama de Cabo Delgagdo. “Nós, em Maputo, ouvimos falar, mas, às vezes, parece que se trata de um assunto que não nos diz respeito. As pessoas têm de perceber que o terrorismo não é um conto, é real”.

No espectáculo, a personagem de Angelina Chavango, Maimuna, representa o povo makonde. “É uma mulher que sonha essa mãe do Kilonko (Paulo Jamine)”.

A fim de manterem o espectáculo verosímil, os actores trabalharam sotaques makondes. Nisso, esclareceu Angelina Chavango, não existem quaisquer elementos de troça. Pelo contrário, “Pretendemos dizer que entendemos a vossa linguagem e o vosso sofrimento. Aliás, ninguém vê a peça e sai a sorrir. Depois de verem o espectáculo, as pessoas saem mais consciencializadas”, garantiu, afinal, a mãe da menina Tsemba Cavele.

 

Sinopse e ficha técnica

Outra babalaza das hienas é uma narrativa aberta com cenas de amor e de esperança, simbolizados pelas personagens Malidza, Kilonku e suas famílias, numa época de terrorismo, de medo e de luta pela sobrevivência na Província de Cabo Delgado. A dramaturgia propõe também uma reflexão sobre os direitos humanos, a paz e a preservação da cultura.

Outra babalaza das hienas foi concebida através de uma miscelânea entre poemas de José Craveirinha, prosa de Augusto Tembe e excerto de Carneiro Gonçalves. Todavia, a linguagem teatral conta com salpicos de crítica, romance, invocação e humor.

Quanto à ficha técnica: Lucrécia Paco (encenação), Aurélio Furdela (dramaturgia) e os actores Angelina Chavango, Eunice Mandlate, Joana Mbalango, Mateus Nhamuche, Nélia Gilberto, Paulo Jamine e, claro, Tsemba Cavele.

 

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