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O País – A verdade como notícia

O Centro Cultural Franco-Moçambicano, em parceira com o Alto-Comissariado do Canadá em Moçambique, apresentam a performance TheSheKings, de Thobile Makhoyane, nesta Sexta-feira, às 20h, na Sala Grande daquele centro cultural, em Maputo.

 

Segundo o Franco, TheSheKings é uma mostra de arte multidisciplinar apresentada através da música, dança, palavra falada, teatro e vídeo-arte, em comemoração às mulheres que trabalham nos sectores informais normalmente dominados por homens. Assim, em palco, Thobile far-se-á acompanhar por mulheres artistas de diferentes disciplinas, nomeadamente, Edna Jaime, Jazz P, Katarina Rombe, Lenna Bahule, Rita Couto e Tina Krüger.

A performance internacional apresenta uma oportunidade para fazer avançar o discurso sobre o importante papel que as mulheres desempenham no mercado informal, muitas vezes em papéis que não são remunerados ou são mal remunerados.

O evento que se insere no Mês da Mulher em Moçambique, uma iniciativa da Embaixada de França em Moçambique, o Governo de Moçambique e demais parceiros, como Alto Comissariado do Canadá, é caracterizada por uma diversidade de eventos culturais, desportivos e pedagógicos destinados a promover os direitos da Mulher visando promover a igualdade de género e uma sociedade mais justa.

Do reino de eSwatini, Thobile Makhoyane encontra suas influências de “hypno-rock”. Seus vocais imponentes flutuam sobre sons acústicos ao vivo, muitas vezes compostos por uma mistura de instrumentos tradicionais e ocidentais. Colaborou com vários artistas em diferentes disciplinas artísticas, incluindo teatro, vídeo-arte, instalação artística, dança contemporânea e poesia. Sempre teve paixão de trabalhar com mulheres nas artes, ela é co-fundadora da “Spirits Indigenous” e fez muitas outras colaborações com mulheres nas artes.

Edna Jaime é bailarina e coreógrafa moçambicana. Formou-se em dança tradicional e canto na Casa da Cultura de Maputo. Teve o seu primeiro contacto com a dança contemporânea em 2001, numa oficina dirigida pela coreógrafa Brasileira Lia Rodrigues, convidada pela CulturArte e, a partir daí, deu continuidade à sua formação num estágio de seis meses em Desenvolvimento Coreográfico. Criou a sua primeira obra “Niketche”, em 2005, um trio feminino apresentado na 6ª edição do Danse L’Afrique Danse. De entre várias participações dentro e fora do país, destaca o projecto de colaboração artística entre Moçambique, África do Sul e Madagáscar “Lady, Lady” juntamente com Désire Davids e Gaby Saranouffi. Com “O Bom Combate”, em 2016, venceu o 1º prémio do Concurso de Dança Contemporânea da Delegação da União Europeia em Moçambique.

Lenna Bahule é cantora, arte educadora e activista cultural, natural de Maputo. Está mergulhada em constante pesquisa e intercâmbio com as afro-culturas e movimentos sociais do seu país, do Brasil e de outras diásporas africanas. No Brasil, onde morou por sete anos, fundamentou sua pesquisa sobre a música vocal e diferentes caminhos para o uso da voz e do corpo como instrumento musical e de expressão artística. O histórico de sua carreira musical conta com encontros e colaborações locais de diferentes diásporas, como Cheny Wa Gune (MZ), Stewart Sukuma (MZ), Mário Laginha (PT), Mû Mbana (GNB), Manecas Costa (GNB), Paulo Flores (ANG), Virgínia Rodrigues (BR), Benjamim Taubkin (BR), Kastrup (BR), Mateus Aleluia (BR), Mia Couto, entre tantos outros.

Tina Krüger, de Katemin, Alemanha, é uma artista multidisciplinar, fotógrafa, documentarista e designer de comunicação com um mestrado em Antropologia Visual (Universidade de Leiden, Holanda). Desde 2008, vive e trabalha em Maputo, Moçambique. Expôs o seu trabalho em Moçambique e no estrangeiro, destacando-se a série de pintura “Corpos Incondicionados” na Feira de Arte Joburg 2020, e “Maternidade” uma exposição permanente de fotografia na Maternidade do Hospital Central de Maputo. Os seus filmes documentários e vídeo-arte ganharam vários prémios em festivais internacionais de cinema. Actualmente, o seu trabalho centra-se em questões do corpo, natureza, conhecimento incorporado, e auto-observação crítica social e auto-observação. Trabalha com fotografia, videoarte, poesia, pintura, e instalação, para além de experimentar sempre novas técnicas. É co-fundadora e directora criativa da Aguacheiro Design & Multimédia desde 2013.

Jazz P JAZZ P é uma letrista e vocalista nascida no reino de eSwatini. Está na indústria musical há quase 13 anos, e ainda em busca de uma carreira musical. Passou 10 anos da sua carreira no seu país de origem e os três restantes no seu actual país de residência – Moçambique. Jazz P toca Hip-Hop, soul com um jazz afro e blues, misturado com Ragga dub. Em eSwatini, é considerada a primeira dama do Hip-Hop.

Katarina Rombe nasceu a 24 de Outubro de 1984, na Cidade da Beira, e cresceu na Cidade de Maputo. É flautista, violinista e oceanógrafa de profissão, no Instituto Nacional do Mar e Fronteiras. Trabalhou como professora de Educação Musical na Escola Internacional Willow, de 2011 a 2012, na Matola. É membro fundador do grupo TP50. Participou em vários espectáculos de artistas nacionais e estrangeiros, tais como: Mingas, Carlos Gove, Livong, Maria João, Jaco Maria, Xixel Langa, entre outros. Actualmente, está a trabalhar no seu projecto FLAUTARINA.

Rita Couto é socióloga e também formada em Teatro pelo programa de intercâmbio da SP Escola de Teatro em São Paulo. A música e o teatro sempre foram paixões que a acompanham, sendo complementadas por formações em escolas de música, como a JB Jazz em Lisboa e companhias de teatro como o BANDO. Desenvolveu trabalhos e competências na área cultural e no domínio da produção e comunicação por via da arte em Moçambique, Portugal e Brasil. Essa experiência cobre desde o trabalho como socióloga em investigação e implementação de projectos de desenvolvimento comunitário até à dinamização de actividades teatrais, culturais e organização de eventos culturais na Fundação Fernando Leite Couto.

Por: Manuel Mutimucuio

 

A fogueira não era das melhores, mas numa noite de intenso calor pouco importava, não fosse a vontade de ver a água na panela, finalmente, ferver. Não que houvesse muito para confeccionar, pois, depois de duas semanas no mato, as provisões estavam por um fio.

Derek, de cócoras, soprou em vão para encorajar a lenha a produzir mais lume e menos fumo. Insistiu com ajuda da tampa da panela, mas, uma vez mais, viu os seus intentos gorados. Frustrado, bebeu de um só trago a cerveja que o acompanhava nesta odisseia e gesticulou a reclamar rendição.

“O que é que vos ensinam na escola nos dias de hoje?”. Petrus indagou irritado em direcção ao jovem estudante de ecologia que estava na RFB no quadro de um programa curricular.

“Não a fazer porras de fogo, podes crer”. Foi o que lhe apeteceu responder, mas não podia sequer se atrever. Derek já tinha convivido o suficiente com o velho Petrus para lhe reconhecer o temperamento de búfalo (com orgulho) ferido.

“Repete lá alto o que disseste?”. O velho comandou aos berros.

“O miúdo não disse nada. Podes organizar esta fogueira para comermos e repousarmos, se faz favor?”. Jaco, o mais sénior entre os expatriados, tentou desarmar a erupção, se bem que a ele também não passaram despercebidos os murmúrios do estagiário mandrião. Todavia, não só tinha a responsabilidade de evitar um ambiente de trabalho tóxico nas suas equipas como também devia proteger uma das joias da coroa. Não o Derek, um malcriado filho de papá rico, na opinião de quase todos que o deviam suportar na sua pequena aventura na selva, mas o que ele representava. Desde que foram interditos safaris de caça, a RFB dependia, em parte, das contribuições chorudas que investigadores reputados e outros de valência duvidosa doavam pelo privilégio de estudar um dos últimos redutos da dita natureza africana intacta.

“Será que a tua mãe sabe que bebes?”. Petrus não era de baixar a crista antes de ter a última palavra. Tinha o hábito de insinuar que estava demasiado velho para se importar, mas a realidade é que precisava do emprego tanto quanto do trabalho. Orgulhava-se de dizer que tinha vivido setenta anos bem vividos, incluindo alguns como recruta na tropa do Apartheid, tantos outros como soldado de fortuna em latitudes mais tropicais do continente, depois que os negros assumiram as rédeas da África do Sul e começaram a escangalhar o seu querido e temido exército. Muito recentemente, isto é, nos últimos vinte anos, Petrus tem servido como pau para toda a obra em reservas de caça, um espaço amplo que dá a impressão – real ou percebida – de que não houve descolonização. Estava, ainda assim, consciente de que um dos custos de uma vida passada à margem dos grilhões da nova ordem, era a falta de uma pensão para mitigar a dor da velhice. Tinha de trabalhar para continuar a desfrutar da terceira idade e da relativa liberdade da vida no mato.

Com as mãos, Petrus afastou a panela ainda quase morna e, com os pés, desfez a lareira. Metodicamente, mas rapidamente, o velho rearrumou os troncos, adicionou uns galhos e capim seco que encontrou ao lado e, dois por três, havia lume para cozer mais do que o modesto esparguete que estava disponível para o jantar.

O silêncio lúgubre que se instalou, dominou o resto da refeição e, sabe-se lá quantos mais pesados minutos. O coerente era cada um retirar-se para o desconforto da sua tenda, mas eram só vinte horas e com a bateria a minguar nos telemóveis à espera da energia de mais um dia de sol, as noites na escuridão do mato tinham a mania de durar muitos sonhos e pesadelos e mais algumas insónias de sobra. Ninguém se moveu e, uma vez mais, coube à Jaco a tarefa de quebrar o gelo e devolver algum ânimo à tropa. Jaco, na casa dos cinquenta, era também sul-africano, originário do KwaZulu-Natal, embora sempre somente destacasse o “Natal” ou, em contextos em que se sentisse forçado a ser politicamente correcto, fosse pela sigla “KZN”, como se as iniciais tivessem uma propriedade anti-séptica sobre o prefixo africano. Entretanto, era esse tacto de comunicação e de saber estar que o diferenciava do Petrus e de outros operários expatriados da mesma estirpe. Sem ser arrogante, era um indivíduo que comandava respeito e inspirava muita confiança.

“Quem é que não se curva perante esta sinfonia?” Jaco gesticulou como um maestro que deixa o público sorver a magia da orquestra que o acompanha. A pergunta era, claramente, retórica. Com aquele grupo estava a pregar para os convertidos, mas não se importava de ouvir pelo menos uma reacção de apoio, pois a intenção era quebrar o silêncio desencadeado pela disputa entre o velho e o rapaz que ameaçava arruinar a noite de toda a gente.

“Muitas pessoas que eu conheço dariam o braço pelo privilégio de todos os dias dormir ou acordar ao som de coaxos, zumbidos, cicios, chilreios, pios, chios, grasnos, guinchos, silvos, bramidos, mugidos, urros, grunhidos e rugidos, entrosados em intervalos milimetricamente espaçados pelos farfalhos da floresta de miombo.” Jaco enfatizou. A musicalidade que muitos puderam descortinar, porém, foi da beleza do seu verbo. Era inegável que tinha um jeito particular com as palavras e, talvez por isso mesmo, com as pessoas também. Entretanto, por mais esforço que a tropa fizesse para concordar com o bom do Jaco, aquela era uma noite vulgar. Sem luz, sem sons, a não ser que o chefe estivesse a romantizar o irritante ruído das cigarras.

Com a criatividade a minguar, Jaco recorreu ao único assunto que dava garantia de sucesso. A saga do hipopótamo na Vila da Gorongosa tinha, ao longo do dia, produzido intensas gargalhadas mesmo depois de ter sido contada de todas as formas possíveis. Ora, a notícia de animais que atravessavam os limites da reserva – quer porque os corredores de fauna bravia não respeitavam fronteiras arbitrárias, quer porque buscavam pasto mais doce nas machambas dos aldeões – era fait divers, mas o risco de um ser autopsiado pelas autoridades policiais, aos olhos suspeitos dos conservacionistas, era digno de manchete de jornal.

“Os pobres locais farão de tudo para comerem o pobre animal”, comentou Derek.

“Como é seu direito”, retrucou Petrus.

Estupefacto com a observação do velho, Derek olhou para os olhos do resto da malta à procura de simpatia, todavia, sem sucesso. Incrédulo, abanou a cabeça sem perceber se a falta de apoio estava associada à mensagem ou ao mensageiro. Já sabia que o velho não ia com a sua cara, mas a reacção dos outros era inédita.

Enquanto a malta se perdia em gargalhadas sobre o hipopótamo, Petrus estava pensativo a cogitar como educar o estudante sobre os direitos das comunidades locais: “é a sua terra e sempre viveram dos produtos da floresta, incluindo, claro, a carne de caça. Estas campanhas progressistas de interdição de corte de árvores e proibição de abate de animais são um capricho de muzungos de longe que têm a sua mesa de madeira maciça repleta de manjares”. O velho deixou-se ouvir o próprio discurso na cabeça antes de abrir a boca e não gostou do reflexo. “Será que os de perto eram diferentes?”, indagou-se. “Nós também somos africanos e conhecemos a mata como ninguém”. Petrus absolveu-se, mas a seguir questionou-se se conheciam igualmente as gentes. A resposta já não era tão óbvia. Ele estava em Moçambique há sete anos, mas do país só conhecia os terminais dos aeroportos de onde fazia o transbordo até à Gorongosa, aonde também chegava de avioneta de serviço da RFB. Não falava a língua e, em abono da verdade, tal nunca limitou o seu trabalho. O peso da hipocrisia fê-lo calar, mas só por um instante. Havia outra linha de questionamento que, de certeza, o colocava em posição moral avantajada. Aproveitou-se do facto de que o entusiasmo sobre o assunto do hipopótamo já se dissipara e com a boca cheia de cerveja, voltou à carga.

“Qual é mesmo o teu projecto de investigação cá na reserva?”, dirigiu-se, jocosamente, ao estagiário.

“Quando vocês não me ocupam com tarefas banais, tenho estado a estudar o complexo mecanismo de ataque das formigas matabele. A Gorongosa é dos poucos ecossistemas…”. Derek parou abruptamente a sua eloquente resposta.

Falar de ciência tinha quase um efeito catártico. Cada palavra apaziguava a sua cólera e recordava-lhe que num outro mundo não muito distante era talvez mais erudito e útil do que a cambada de velhos que ali o faziam sentir-se pequeno. Interrompeu, entretanto, a fala sem terminar o raciocínio porque lhe ocorreu que a pergunta não era sincera e que se devia explicações, não era de certeza ao tosco do Petrus. Queria, mesmo, era afastar-se da asfixia da companhia de todos eles.

Totalmente isolado, o jovem estudante admitiu que já era tempo de recolher para os seus aposentos. Havia de matar mais alguns minutos estudando mapas da área onde trabalhariam no dia seguinte. O único problema, porém, faltava-lhe coragem para caminhar sozinho até ao acampamento. Em ocasiões anteriores nunca faltou companhia porque recolhiam todos em grupo ou quando os mais velhos bebessem até muito tarde, não se envergonhava de pedir que alguém o levasse até à sua tenda. Não naquela noite. Não lhes daria a mínima oportunidade de o humilhar mais do que já se sentia ultrajado.

“Boa noite. Amanhã começamos à mesma hora?”. Olhando para a única alma que julgava ainda merecedora do seu respeito, Derek perguntou já em pé e a caminhar lentamente.

“Bom descanso, rapaz”. Jaco, reciprocou em tom apaziguador.

“Alguém aí acompanhe o puto até à tenda dele”, ordenou sem especificar quem o faria, mas não deixou equívocos de que queria a tarefa cumprida.

“Sei o caminho”, Derek rechaçou liminarmente a oferta. Toda a gente mais velha tratava-o por puto e nunca tinha parado para pensar no significado ulterior da palavra, mas naquele momento soube diferente e parecia adicionar insulto à mágoa. Contra, provavelmente, o seu melhor interesse estava disposto a tentar a sua sorte com as ferras da selva a ter de dar o gosto àquela malta de o ensinar mais uma ou duas coisas sobre a vida no mato.

Ligou a lanterna que levava na cabeça e, para reforçar a visibilidade, accionou também uma lanterna de mão. Caminhou o suficiente para se afastar do grupo, mas não demasiado para perder o desvio que sabia estar muito próximo da cozinha improvisada. Precisava da pausa para, desprovido de qualquer emoção, testar a convicção da decisão que tomara. Apagou as duas lanternas para sorver o momento e pensar criticamente. O entusiasmo da liberdade recém-conquistada deu outro sentido à experiência. Os devaneios de Jaco já não pareciam uma mera quimera. Ele próprio via esplendor naquele escuro de azeviche e conforto quase erótico no zumbido das cigarras. Sentindo-se validado pela irrepreensível natureza na intenção de desafiar a mata a solo, retomou a marcha com o vigor de quem conhecia o endereço e, para o seu conforto, com o auxílio da luz poderosa das lanternas que empunhava, foi reconhecendo alguns marcos familiares no trilho.

Depois da euforia de recém-chegado, esta era a primeira vez em exactamente quarenta e oito dias que se sentia animado. Passara a contabilizar religiosamente o tempo logo a partir da segunda semana de estágio quando lhe foi solicitado que suspendesse temporariamente a sua pesquisa para ajudar a limpar aceiros à volta da reserva. Àquele trabalho, sucederam-se tanto outros que de si só exigiam braços e obediência. Navegar sozinho o mato, à noite, servindo-se somente da sua cabeça e estar a sair-se bem, dava a sensação de liberdade e controlo.

Não tardou que Derek começasse a duvidar das suas certezas. O tempo percorrido não tinha qualquer paralelo com as vezes que fizera o percurso na companhia dos outros e contra todas as suas expectativas o caminho do desvio teimava em não aparecer. Tentou convencer-se que não se passava de uma pequena alucinação e perseverou no carreiro até que a paisagem se apresentou totalmente estranha. Interrompeu a marcha e murmurou algumas palavras de encorajamento para que não se deixasse apossar pelo pânico. Antes que cometesse mais asneiras, aceitou a derrota e decidiu seguir o mesmo caminho de volta para junto dos colegas e pedir auxílio.

Começou a caminhar no que lhe pareceu ser o sentido inverso sem, no entanto, encontrar quaisquer vestígios da sua marcha anterior. Naquele momento de incerteza, esfumou-se por completo a noção romântica da floresta como sinónimo do belo e do bem-estar. Aflito, não se reconhecia como ecólogo em formação. Trocaria num piscar de olhos a picada por uma estrada pavimentada com iluminação e endereços. O capim e as árvores não lhe tinham muita utilidade para além de esconderem perigo. Limparia tudo e com eles os sons sinistros da mata. Ainda assim, de tudo quanto imaginava poder mudar, nada tinha mais urgência e relevância que a companhia de outros seres humanos. Receberia de braços abertos mil Petrus, com os seus filhos, noras e netos.

“O mundo é mesmo injusto”, continuou o seu solilóquio introspectivo. Naquele grupo de muzungos, ele tinha a certeza de ser o único indivíduo que tinha a vida inteira pela frente ou, como o pai gostava de dizer, era um cheque pré-datado. Petrus devia ter duzentos anos com a data de validade há muito vencida. Jaco, feito em sábio, se valesse a metade do que ele julgava ser, de certeza que estaria nos Okavangos, Serengetis ou Amboselis deste mundo. Ele era somente um zarolho em terra de cegos. Em relação aos outros, nem havia de gastar os seus neurónios. Eram simplesmente lixo branco que ganhava alguma utilidade entre mabecos e macacos. Porquê, então, tinha o destino reservado a si esta prova de vida? Não tinha lógica nenhuma.

Envergonhado por ter pensamentos tão perversos, Derek rezou o que ainda se recordava das lições de catequese. Jurou que não era má pessoa, mas não estava disposto a terminar nos intestinos de uma ferra sem dar luta. Levaria consigo para o inferno tudo e todos que a sua ira e desespero permitissem. Tirou do bolso a caixinha de fósforos que ficara consigo quando tentava cozinhar para aquela cambada de mal-agradecidos. Raspou o primeiro palito, mas o vento apagou a fagulha no mesmo instante. Repetiu o acto até que, sem se dar conta, a chama já lavrava o primeiro metro quadrado de mata com promessa de muito mais.

 

18 de Mar. de 23

 

O escritor Valério Maunde vai lançar, esta quinta-feira, a partir das 17h30, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, o livro “Ausência, intermitências e outras incompletudes”, que narra a história de amor de Daniel e Vanessa.

A história inicia de forma inesperada. “Esta narrativa nos traz o amor como pano de fundo, a traição, a amizade, o desgosto e as incertezas próprias da vida, deixando como reflexão que na vida nada é garantido, tudo pode mudar a qualquer momento, sem ou com a nossa participação. Porque afinal o amor está onde menos se espera e este é como uma planta, é preciso que se alimente diariamente”, lê-se na nota de imprensa.

Na história, Daniel (jornalista) e Vanessa (estudante de arquitetura) conhecem-se de forma inesperada, através do Facebook, numa dessas noites em que o Daniel não tinha muito que fazer. Contra todas as expectativas, a amizade evoluiu para algo mais pintado e dali para namoro. Facto que foi posto à prova, num contexto em que o mundo é abalado pela COVID-19 e em paralelo o terrorismo em Cabo Delgado, põe também o país à prova e mexe com o tecido social.

“Ausência, intermitências e outras incompletudes” (romance), é a segunda obra do escritor e professor Valério Maunde, depois de ter publicado “O Mar & Amar”, em 2020. “É um romance que nos leva a conhecer os lugares apaixonantes da cidade de Maputo, lugares icônicos como o Jardim dos Professores, o Jardim dos Namorados e o belíssimo e invejável Miradouro e nos coloca na posição de apreciadores das belezas desta metrópole. Pela mão do autor, descobrimos as formas mais belas de cortejar, à maneira clássica de amar, escrevendo cartas, bilhetes, recitando poemas e trocando livros. Daniel, jornalista, poeta, escritor e consumidor voraz de livros, que personagem principal do livro, é um alter ego de Valério Maunde, que também é um voraz consumidor de livros e também se diz poeta”, lê-se na nota de imprensa.

O livro “Ausência, intermitências e outras incompletudes” será apresentado por Virgília Ferrão, escritora e activista literária.

Valério Maunde é natural de Maputo. É professor de Língua Portuguesa, revisor linguístico-literário, guionista, investigador linguístico-literário e escritor. A sua bibliografia inclui narrativas de ficção, poesia, guiões de radionovelas, crónicas, publicadas regularmente no Jornal O País, e trabalhos académicos de investigação linguística e didática. A sua obra de estreia é uma colectânea de poemas intitulada ‘O Mar & Amar’ (2020). A nível nacional destaca-se a sua participação na antologia “No Cais do Amor” (Editora Kulera, 2022), e na obra de investigação científica “Português Moçambicano” (Alcance Editores, 2022). A nível internacional, tem textos dispersos em periódicos e revistas literárias digitais. Além da escrita, actua no activismo literário, sendo membro fundador e perpétuo do Círculo Acadêmico de Letras e Artes de Moçambique, membro correspondente da IdeiArte Cultura / África e Brasil, e membro correspondente do Movimento Literário Mapas do Confinamento, que reúne autores de várias nacionalidades. Em 2022, criou o canal Cais das Letras no YouTube, um espaço virtual de lançamento, encontro e convivência de escritores e poetas.

A Associação Kulemba realiza, às 18 horas desta quinta-feira, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, uma sessão de conversa subordinada ao tema “A arte de escrever e a função do texto”. A iniciativa, que se insere no mês da mulher, vai juntar no mesmo painel a escritora Argentina Banze e a jornalista Benícia Faiane.

Segundo a nota de imprensa da Kulemba, ao longo de aproximadamente 90 minutos, as duas oradoras vão partilhar as suas experiências e percepções sobre como concebem e projectam a escrita enquanto recurso importante no diálogo com o leitor.

Em primeiro lugar, na sua intervenção, Argentina Banze vai, essencialmente, basear-se na actividade de escrita criativa sem ignorar as lições de Direito, sua área de formação.

Argentina Banze é autora de Insiste em ignorar-me, livro lançado ano passado pela Editorial Fundza. Segundo afirma, “Sempre viu a escrita como uma forma de terapia: a poderosa forma de curar e solucionar problemas através das palavras”. O seu gosto pela escrita é representado pelo texto de Fernando Pessoa, que diz: Se escrevo o que sinto, é porque assim diminuo a febre de sentir. Portanto, partindo do que a escrita significa para si, a autora irá revelar o que, na sua percepção, constitui a “função do texto”.

Em segundo lugar, Benícia Faiane fará do texto jornalístico o ponto de partida da sua intervenção, ora partilhando experiências inerentes à produção de matérias televisivas, ora referindo-se à arte de escrever textos radiofónicos. De igual modo, porque a repórter tem contacto com os livros desde pequena, inspirada pela sua mãe, professora de profissão, a intervenção de Benícia Faiane também irá consistir numa reflexão sobre o texto literário, até porque a jornalista tem textos inéditos (prosa e poesia) e a literatura está presente no seu quotidiano.

A sessão de conversa sobre “A arte de escrever e a função do texto” será moderada pelo docente universitário Dércio Chiemo.

Argentina Alfredo Banze nasceu na Província de Inhambane. É formada em Direito pela Universidade Zambeze. É advogada estagiária, voluntária no TEDx Beira. Exerceu docência universitária no curso de Direito e estreou-se em livro com Insiste em ignorar-me (Fundza, 2022).

Benícia Télisma Gomes Faiane nasceu na Província de Inhambane. É licenciada em Ciências da Comunicação, pela Universidade Zambeze. Também tem uma licenciatura em Ciências Políticas e Relações Internacionais. É jornalista da Rádio Moçambique.

 

 

O professor universitário e ensaísta, Francisco Noa, foi eleito, este mês, como sócio correspondente estrangeiro da Academia das Ciências de Lisboa. A eleição foi confirmada pelo presidente da instituição, José Luís Cardoso.

 

O plenário de sócios efectivos da Academia das Ciências de Lisboa, realizado no passado dia 7 deste mês, aprovou a eleição de Francisco Noa como sócio correspondente estrangeiro daquela instituição. Desse modo, segundo José Luís Cardoso, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, reconheceu-se a qualidade dos serviços académicos que o intelectual moçambicano tem prestado e pode vir a prestar em benefício do desenvolvimento cultural e científico, quer em Portugal, quer noutros cantos do mundo.

Enquanto para a Academia das Ciências de Lisboa será com grato prazer que irá acolher a presença e participação de Francisco Noa nas sessões públicas que promove, o académico entende a eleição como um reconhecimento pelo trabalho que tem desenvolvido, ao longo de todos estes anos, como ensaísta, pesquisador e professor de literatura.

Além da eleição ser algo que prestigiante, considerando a reputação da Academia das Ciências de Lisboa, na percepção do autor de Além do túnel – ensaios e travessias, trata-se de uma forte motivação para continuar a fazer o seu trabalho com a responsabilidade, rigor e entusiasmo de sempre.

A Academia das Ciências de Lisboa é uma das mais antigas instituições científicas de existência contínua em Portugal. Foi fundada a 24 de Dezembro de 1779, portanto, há 244 anos. Nos termos estatutários, entre várias actividades, compete à Academia das Ciências de Lisboa promover e incentivar a investigação científica, sempre que possível e necessário de forma interdisciplinar, e tornar públicos os resultados dessa investigação; estimular o enriquecimento e o estudo do pensamento, da literatura, da língua e demais formas de cultura nacional; colaborar em actividades de educação e ensino e fomentar a sua difusão e aperfeiçoamento; ou elaborar os pareceres que o Governo português e outros serviços solicitarem.

A Academia das Ciências de Lisboa é o órgão consultivo do Estado Português em matéria linguística, podendo ainda ser consultada em outras áreas científicas. Entre os membros da instituição, constam, na secção de Literatura e Estudos Literários, personalidades como Eugénio Lisboa, Manuel Alegre, Helder Macedo, Carlos Reis e António Lobo Antunes.

Além de Francisco Noa, entre cidadãos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), fazem parte da Academia das Ciências de Lisboa Graça Machel, Mia Couto, Jorge Ferrão, Teresa Maria Cruz e Silva, Lourenço do Rosário (Moçambique), Pepetela (Angola), Germano de Almeida (Cabo Verde), Inocência Mata (São Tomé e Príncipe) e Carlos Lopes (Guiné-Bissau).

 

A ensaísta e professora Fátima Mendonça defendeu, esta quarta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, que Moçambique enfrenta um momento muito fértil na produção literária. Entretanto, é fundamental que os diferentes intervenientes invistam na internacionalização das obras dos autores poetas e escritores moçambicanos.

 

Entre 1977 e 2004, Fátima Mendonça leccionou na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Durante 27 anos, deu aulas a uma geração de ensaístas, escritores ou professores que, actualmente, são referências em Moçambique e no estrangeiro. Por exemplo, Francisco Noa, Paulina Chiziane, Nataniel Ngomane, Aurélio Cuna, Sara Jona Laisse e Aissa Mithá Issak. Aliás, tem-se dito que Fátima Mendonça é a professora de todos, no que à literatura diz respeito, pois, logo a seguir a independência nacional, foi uma das principais estudiosas que se dedicou a analisar as obras dos escritores nacionais ou o movimento literário.

Actualmente, Fátima Mendonça vive em Portugal, mas, ainda assim, continua muito atenta ao que se tem produzido em Moçambique. Por isso mesmo, na segunda sessão do Mabulu – livros e histórias da minha vida, realizada esta quarta-feira, na Fundação Fernando leite Couto, em Maputo, a ensaísta e professora reformada pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM referiu-se abertamente às novas tendências literárias nacionais. Segundo disse Fátima Mendonça, o país enfrenta um momento muito fértil em termos de produção literária. Inclusive, com autores capazes de atrair interesses editoriais do estrangeiro, sobretudo do Brasil. “Eu não sou muito abundante em elogios, mas há, realmente, quer poetas, quer narradores, a surgirem agora, muito bons. Até me parece que são mais sensíveis em aperfeiçoar o que escrevem, em ser rigorosos e reescrever sem pressa de ter o texto pronto. Penso que daqui a uns 10 anos será possível ver o resultado deste movimento”.

No entendimento de Fátima Mendonça, o facto de haver movimentos dedicados à literatura em várias províncias do país favorece o surgimento de autores que se envolvem na dinamização da arte literária. No entanto, afirmou a ensaísta, apenas o momento fértil e a existência de bons movimentos não basta na colocação da literatura moçambicana num alto patamar. A acompanhar a qualidade literária, é indispensável a criação de revistas e páginas de jornais envolvidas na promoção e divulgação. Sem isso, há um vazio que fica. “Se ficamos só á espera das edições dos livros, fica um hiato entre o momento em que a pessoa começa a escrever e o momento em que realmente edita um livro. Esse hiato, quanto a mim, é preenchido pelas revistas. Os prémios também cumprem o seu papel, mas a divulgação tem de ser através da imprensa. E isso eu acho que falta, acho que falta espaço para divulgação”.

Além da divulgação interna, Fátima Mendonça referiu-se à importância da internacionalização das obras dos autores moçambicanos, o que depende da recepção, por exemplo, no país de chegada. “É preciso que aquilo que se exporta tenha uma boa recepção. Varia muito. Há países que gostam de um certo exotismo e um livro que tenha essas características é bem recebido”.

Ainda no campo da internacionalização literária, Fátima Mendonça destacou a importância das feiras do livro porque, além do intercâmbio artístico e cultural, é nelas que se conseguem contratos para edição e tradução.

Além de leccionar na UEM, Fátima Mendonça trabalhou em várias outras universidades. Por exemplo, no Zimbabwe, na África do Sul, na Rússia, em França, em Espanha, no Brasil e em Portugal. Como ensaísta, publicou Literatura moçambicana – as dobras da escrita (2012), Rui de Noronha: meus versos (2006), Antologia da nova poesia moçambicana (co-autoria, 1993), Literatura moçambicana – a história e as escritas (1989), co-organizou a edição da obra Sangue negro, de Noémia de Sousa, o livro póstumo Poemas eróticos, de José Craveirinha, e é co-autora de João Albasini e as luzes de Nwandzengele (2014). Em 2016, foi laureada com o Prémio de Literatura José Craveirinha, o mais importante do país.

 

Vários músicos presentes na cerimônia fúnebre do rapper moçambicano, Azagaia, falaram dos feitos marcantes do artista cujas composições impactaram  a sociedade.

MC K – Rapper: A minha reacção foi de choque porque Azagaia tinha que estar aqui em Angola neste  mês de Março e não foi possível. Nós tínhamos um conjunto de projecto em carteira para fazer numa trindade entre Mc K, Azagaia e Valete e infelizmente Azagaia foi-se sem possibilidade de dizer adeus, sem possibilidade de concluir aquilo que eram os nossos projectos, portanto é uma situação de choque, continuamos chocados. Desde já, estendo a minha solidariedade ao povo irmão de Moçambique,  é uma perda  generalizada, é uma perda de Angola, é uma perda do continente, é uma perda da língua portuguesa. Azagaia era um dos maiores representantes do português. Eu conheci Azagaia em 2007 num festival em que celebravamos a língua portuguesa na cidade de Porto, em Portugal. Na altura, estava com o álbum Babalaze e nós participámos no festival do Porto.

WAZIMBO – Músico: São lágrimas apenas, mas com esperança de continuar a luta de Azagaia; afinal de contas, foi a luta de todos nós, então, para nós que ficamos, o dever e a obrigação que temos é continuar esta luta.

KALIZA – Músico – Acredito que, como ele mesmo disse nas entrevistas, dava entender que era uma pessoa com consciência muito elevada, sabia que a morte era uma coisa que todos nós pudemos provar e, por isso, ele vivia intensamente e deixou ficar as suas obras.

DIKEY – Músico: Homens iguais a Azagaia, que fazem diferença, que nos impulsionam, que muitas vezes abrem as nossas mentes… são raros.

BEAT KEEPA – DJ: A mensagem está lá, registada; cabe a nós, jovens, pegar essas mensagens para unir o povo e encontrarmos consensos e, em função disso, lutarmos por um Moçambique melhor.

ELÍSIO DE SOUSA – Jurista: Moçambique perde uma figura que tinha um grande impacto social, uma figura que definia outra perspectiva da juventude, muito querido, corajoso, intelectualmente preparado.

 

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS – Académico: O povo não está no poder, nem em nenhuma parte, é aquilo que eu conheço, mas não devemos desistir dessa luta e essa luta é de sempre. É uma luta dos pobres oprimidos, dos pobres explorados em toda parte e ela deve ser continuada. E é um indicador realmente capaz de trazer toda essa mensagem de maneira dinamizada e que mostra hoje esse funeral de maneira que mobilizava. Sinto-me bastante feliz dentro desta mágoa, feliz de poder ver as imagens que mostram muito bem a gratidão dos jovens moçambicanos que foram tocados pela mensagem de Azagaia. Eu creio que os políticos devem olhar para isso, ver que está aqui também uma manifestação de protesto contra injustiças e problemas que não foram resolvidos

ALLAN – Rapper: É a última homenagem ao líder a nível de hip-hop moçambicano.

 

Quando a notícia sobre a morte de Azagaia começou a circular, no princípio da noite de 9 de Março, houve uma série de especulações sobre o que teria causado essa fatalidade. O rapper tinha apenas 38 anos de idade e, aparentemente, gozava de boa saúde. Entre as causas da morte, a mais repetida foi: “Azagaia caiu do tecto da sua casa enquanto se encontrava a fazer trabalhos domésticos”. Ainda assim, essa tese não foi de todo “convincente” porque, na cabeça de muitos, não fazia sentido que aquele homem com vigor tivesse como causa da morte um episódio tão banal. Mas não. O rapper não caiu de nenhum tecto de casa. No dia 9 de Março, Azagaia teve uma crise de epilepsia. No quarto, onde se encontrava sozinho, sem apoio atempado, o artista caiu e sucumbiu até ao fim e, quando lá foi encontrado, já era tarde demais.

Azagaia sofria de crises epilépticas há anos. E teve várias quedas. Por isso mesmo, o rapper decidiu fazer um exame e ficou a saber que sofria de um tumor no cérebro. O preço para a operação na Índia era alto ou, pelo menos, o rapper não tinha o dinheiro que se exigia. Preço alto é relativo. Logo, familiares, amigos e admiradores juntaram-se a uma campanha de angariação de fundos por Azagaia. Em pouco tempo, o rapper consegui o valor necessário e a cirurgia foi um sucesso. Ainda assim, e mesmo estando a cumprir com a medicação clínica prescrita, continuou a ter ataques epilépticos, já que a medicação não cura, mas pode ajudar a controlar a doença.

O representante da família Da Luz, Jorge Rungo, no velório, falou de tudo isso e ainda acrescentou que Azagaia continuou a cair em locais diversos, incluindo nos estúdios, a gravar. Então, quando a crise chegou, na passada quinta-feira, o corpo de Azagaia não resistiu e, sem sequer contemplar a sua esposa e as suas princesinhas pela última vez, partiu, deixando para trás uma sociedade em choque e admirada.

Azagaia, em diferentes ocasiões, referiu-se à morte nas suas composições ou em entrevistas. Aos próximos e admiradores, inclusive, disse que, quando morresse, independentemente da causa, que os seus não chorassem, que fossem fortes e continuassem com a luta… Houve, de facto, essa tentativa de conter a dor e a angústia. Quando a urna saiu da morgue do Hospital Central de Maputo, a transmissão televisiva não conseguiu vislumbrar nenhum rosto definitivamente consternado. O cenário mudou logo à chega da viatura da agência funerária à Praça da Independência, espaço que condiz tanto com a luta do rapper pela liberdade. Ali, onde há 36 anos foi velado um dos seus ícones preferidos, Samora Machel, sim, as lágrimas mostraram aos homens e mulheres quem manda sempre que a dor chega.

A urna chegou à Praça da Independência por volta das 7 horas. Bastaram alguns passos até a urna ser colocada no lugar destinado ao velório. De forma ordeira, os cidadãos anónimos e figuras conhecidas foram, numa enorme fila, ao Paços do Município de Maputo. Ali viram um dos “reis” do Hip-Hop, que viveu na vertical, na horizontal.

A igreja também lá esteve. Dom Dinis Sengulane orientou a missa do corpo presente. E não foi por acaso, afinal, o Bispo Emérito da Diocese dos Libombos foi quem baptizou o menino Edson, que, esta terça-feira, não viu a luz do dia. Apagou-se uma luz na família Da Luz. Rigorosamente, o membro da família que, nos encontros familiares, sempre gostou de declamar ou de falar aquilo que os seus irmãos até tinha receio de dizer. Sempre foi corajoso, sempre venceu o medo, a vergonha. Foi assim em casa, foi assim na rua, foi assim na sala de aulas, foi assim nas entrevistas, foi assim a compor e a cantar, sobretudo a compor e cantar. Também por isso, enquanto decorria a missa do corpo presente, as multidões continuaram a chegar à Praça da Independência. O facto de a cerimónia estar a decorrer num meio de semana não atrapalhou em nada. Milhares de pessoas estiveram naquela praça a acompanhar a sessão fúnebre em telas gigantes. Inclusive, quando alguma intervenção no Paços do Município de Maputo assim o justificasse, lá reagiam com estrondo. Foi arrepiante! Pelo menos, durante o velório, o povo lá presente esteve no poder, desconstruindo aquela velha frase de John Lé Carré, em O fiel jardineiro: “Esta é uma terra de subentendidos. Falar claramente é uma coisa de pecadores”.

O povo não esteve nada subentendido. Claramente e incondicionalmente, cantou “Povo no poder” com os punhos no ar e não pecou. Quase ensurdecedor. Por isso, várias vezes, Hélder Leonel, o mestre-de-cerimónias que também se confunde com o Hip-Hop moçambicano, teve de pedir para as pessoas estarem mais quietas. Obedeceram, quando puderam, mas sempre se manifestaram num ambiente que, na verdade, ajudou a colorir a sessão. Aquilo pareceu mais um comício à moda antiga do que um velório: Full de gente, full de emoções, full de sentimentos e solidariedade. Com uma diferença: os viva, viva, foram substituídos por “Povo no poder”.

No exterior e no interior do Paços do Município de Maputo, Azagaia foi também recordado como um “homem bomba”, pelo amigo Nandele, em referência a um título da música do rapper; foi recordado como a voz dos oprimidos, pelos amigos Izlo H e Iveth; foi recordado como um artista que soube fiscalizar os políticos, por Adriano Nuvunga, representante da Sociedade Civil; foi recordado como um homem que contribuiu imenso pelas artes e cultura moçambicanas, pela Ministra da Cultura e Turismo. Foi mais ou menos a essa altura que entre o público ouviu-se algumas pessoas a perguntarem umas as outras se o Presidente iria ao Paços para intervir ou não. Interveio a Ministra em nome do Governo.

No velório, os pais de Azagaia não falaram. Os irmãos, Fernanda, Hélder e Jéssica, sim, falaram numa só voz, ora enaltecendo a coragem do rapper, ora expressando o amor incondicional por ele.  Mas um dos momentos mais emocionantes do velório do rapper foi quando as duas filhas leram a mensagem fúnebre. Muthema e Winile referiram-se ao pai como um acto de fé. Agradeceram os ensinamentos, a atenção e a educação como filhas disciplinadas e tementes a Deus.

Entre o amor confesso a Azagaia e as lágrimas de saudade, Rodhália Silvestre, que recentemente teve Azagaia como convidado a um concerto no Franco-Moçambicano, interpretou um número em homenagem ao rapper. A cantora disse, a certa altura, Hifambile ndota, do ronga, o varão foi-se embora.

À saída da urna do Paços do Município de Maputo, as pessoas continuavam a chegar à Praça da Independência. Todos quiseram despedir-se, e, permanentemente, o cortejo fúnebre teve de percorrer as avenidas rumo ao Cemitério de Michafutene vagarosamente. Pelo percurso, tal como no início do velório, as pessoas cantaram “Povo no poder”. Os que não puderam cantar por se encontrarem no trabalho, espreitaram pelas janelas dos prédios ou de onde foi possível.

O trânsito esteve inoperante. E as coisas complicaram-se ainda quando, nas proximidades do Ministério da Defesa e da Ponta Vermelha, a polícia apareceu com armas em punho a proibir a passagem do cortejo fúnebre. A viúva de Azagaia, Rosa, não se conteve. Saiu da viatura em que seguia e perguntou à polícia: “Que mal vos fiz, que mal voz fiz? Deixe-nos passar”. E viatura funerária passou. O povo, que deixara de estar no poder com a pressão do gás lacrimogéneo, teve de escolher outro caminho para chegar ao Cemitério de Michafutene, na Província de Maputo. Atrasados. Pelas enchentes nas ruas, a urna apenas chegou uma hora depois do previsto. O corpo de Azagaia foi sepultado por volta das 15 horas. Assim, desde 14 de Março de 2023, no Michafutene, descansa “o eterno vencedor das causas perdidas”.

A Polícia impediu a passagem do cortejo fúnebre de Azagaia pela rua Engenheiro Alcântara Santos, que passa pelo Ministério da Defesa e dá acesso à avenida Julius Nyerere, nas proximidades da Ponta Vermelha. Para dispersar as pessoas, usou gás lacrimogénio.

O cortejo fúnebre de Azagaia seguiu sem sobressaltos desde o Paços do Conselho Municipal de Maputo até à Praça Robert Mugabe. Chegados a este local, uma iniciou uma confusão…

É que as Forças de Defesa e Segurança posicionaram-se no princípio da Rua Engenheiro Alcântara Santos para impedir a continuidade do cortejo. Trata-se de uma via que dá acesso à Avenida Julius Nyerere.

Homens com armas em punho e carros blindados pararam em frente à viatura transportando a urna, impedindo assim a passagem da multidão.

Como quem diz que está em paz, as pessoas que acompanhavam a urna colocaram as mãos no ar, mas ainda assim a Polícia não quis ceder.

Momentos depois, os ânimos da população exaltaram-se e a Polícia usou gás lacrimogênio para dispersar as pessoas.

Ninguém sabia o motivo da proibição da passagem do cortejo fúnebre por aquela via. “Nós só queríamos passar. A estrada é do povo. Não percebo porquê somos impedidos”, protestou um dos fãs que acompanhava o cortejo.

E a população foi, mesmo, impedida de passar.

De acordo com o Comando-geral da PRM, o objectivo da presença policial não era proibir a continuidade do cortejo fúnebre, mas garantir que decorreu sem sobressaltos.

Minutos depois, só o carro contendo a urna de Azagaia é que seguiu a marcha. Para tal, a viúva teve que suplicar. “O que eu vos fiz? Que mal vos fiz? Eu só quero enterrar o meu marido, por favor. Controlem a população, mas deixem-nos passar. Porquê não podemos passar? Deixem-me enterrar o meu marido com dignidade”, suplicou Rosa da Luz, viúva da Azagaia.

“O País” soube que a organização do cortejo fúnebre não solicitou escolta policial na expectativa de que seria uma cerimónia normal.

Diante da interdição, a população foi obrigada a voltar e a seguir outro trajecto, e interpelou a urna mais afrente e o cortejo fúnebre seguiu.

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