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O País – A verdade como notícia

Está interrompida, desde a meia-noite desta quinta-feira, a ligação rodoviária entre as províncias de Manica e Tete, através da Estrada Nacional número sete (EN7).

O facto deve-se ao desabamento da ponte sobre o rio Nhamuti, que liga os bairros 3 de Fevereiro e Sanhathunzi, na vila de Catandica, distrito de Báruè.

Uma fonte do governo distrital de Báruè referiu que as fortes chuvas que caem desde o princípio da noite desta quarta-feira naquele distrito originaram o desabamento daquela infra-estrutura.

“Neste momento está bloqueado o trânsito rodoviário. Os camiões e autocarros não estão a passar. Tentámos abrir uma via alternativa só para a passagem de viaturas ligeiras”, referiu a fonte.

Refira-se que a EN7 é uma importante via que faz a ligação entre Moçambique e países do interland, ou seja, aqueles que não tem ligação directa com o mar, nomeadamente Malawi, Zimbabwe e Zâmbia.

Quatro pessoas sofreram ferimentos, entre graves e ligeiros, resultado de um acidente de viação ocorrido na tarde de hoje, na cidade de Maputo. O sinistro foi provocado por um autocarro de transporte de trabalhadores do Ministério do Interior, que alegadamente perdeu freios e embateu noutras sete viaturas.

O sinistro ocorreu na tarde desta quarta-feira, na Avenida Karl Marx, em frente à clínica Cruz Azul, na cidade de Maputo.

O autocarro, que seguia à direcção da avenida 25 de Setembro, embateu em viaturas, entre ligeiras de particulares, uma do conselho Municipal de Maputo e um triciclo (txopela), de onde saíram duas vítimas graves.

As vítimas graves estavam no txopela e transportavam um fogão que acabava de ser adquirido. No sinistro, o eletrodoméstico ficou irreconhecível, igual ao txopela.

No local viam-se estilhaços de vidro pelo chão, destroços de viaturas, árvore tombada inclusive em uma viatura que se encontrava estacionada.

Um Jovem que trabalha nas redondezas do local do sinistro, lavando carros, conta que viu o autocarro descendo pela avenida, a alta velocidade, mas que de repente embateu-se em vários carros. O Jovem de Txopela tentou escapar, mas sem sucesso e foi atingido, de leve, na perna direita.

A polícia esteve no local, mas não prestou declarações à imprensa. As vítimas foram imediatamente evacuadas para o Hospital central de Maputo.

Já no banco de socorros do HCM, não houve declarações à imprensa, mas “O País” confirmou a entrada das quatro vítimas do sinistro naquela unidade hospitalar.

Uma média de 12 crianças oriundas de todo o país dão entrada no Hospital Central de Maputo vítimas do cancro pediátrico, todos os meses.

Os cancros do sangue, do sistema linfático, do olho, do rim e da pele são os que mais afectam as crianças, sendo que, segundo a primeira-dama, Isaura Nyusi, o cancro pediátrico representou em 2020 cerca de sete por cento do total de cancros no país.

“Descobrir que uma criança ou um adolescente tem cancro é uma situação extremamente difícil de se enfrentar e aceitar por parte da sociedade, famílias e principalmente pais. Por isso, somos chamados, mais uma vez, a unir-nos para minimizar os efeitos desta doença, e tal passa por identificar os sinais e sintomas de alerta nas nossas criancinhas”, disse a Primeira-Dama.

O alerta dos pais deve começar, conforme disse Isaura Nyusi, assim que se perceber que há perda de apetite, perda de peso, anemia, sangramento, inchaço no corpo e alteração na visão.

Segundo disse, quanto mais cedo for feito o diagnóstico mais efectivo e menos dispendioso é o tratamento. A nível mundial, são registados cerca de 200 mil novos casos de cancro por ano em crianças dos zero aos 14 anos de idade.

“A grande maioria destas crianças vive em países de baixa e média renda. Tal é o caso de Moçambique, onde o acesso aos cuidados e tratamento são limitados, resultando numa baixa percentagem de sobrevivência quando não diagnosticados precocemente”, frizou.

A esposa do Presidente da República disse que entre os esforços para minimizar o sofrimento das crianças vítimas do cancro existe uma iniciativa global contra o cancro infantil, cujo objectivo é garantir a sobrevivência de pelo menos 60% das crianças diagnosticadas com cancro até 2030.

Nos últimos anos, o país, com ajuda de parceiros tem registado avanços na luta contra o cancro pediátrico, conforme disse a esposa do Presidente da República.

 

CANCRO ENTRE AS DOENÇAS QUE FAZ MAIS VÍTIMAS MORTAIS NO PAÍS

O maior desafio para o país ainda é o diagnóstico precoce da doença, pois quando os pacientes chegam tardiamente às unidades sanitárias, poucas são as probabilidades de sobrevivência, como disse Cesaltina Lorenzoni, directora nacional de Controlo do Cancro.

Em média, 17 mil pessoas morrem por ano no país devido à doença. O cancro do colo do útero, por exemplo, é o que mais mata, tirando a vida de cerca de 4 mil pessoas anualmente.

Para evitar que mais pessoas percam a possibilidade de ser salvas, foi lançado, esta quarta-feira, o Teste HPV-DNA, para rastreio do cancro do colo do útero.

“Este é o teste que é recomendado como padrão pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é mais sensível que o exame papa Nicolau ou, pela visualização por ácido acético, é mais objectivo e não subjectivo, tem um alto valor predictivo negativo, isto é, se o teste HPV (Vírus Papiloma Humano) for negativo, as chances de desenvolver lesões de alto grau em cinco anos é muito baixo”, descreveu Lorenzoni.

Nos primeiros testes pilotos, foram realizadas várias pesquisas, em que foram rastreadas 900 pacientes entre 30 e 49 anos de idade. Os resultados indicaram, segundo a médica, que 24% das mulheres eram HPV positivas, e dessas 40% têm vírus do HIV/SIDA.

“Concluímos que, em Moçambique, 20% das mulheres que são HIV negativas serão HPV positivas e aproximadamente 40% de mulheres HIV positivas serão HPV positivas”.

Segundo o embaixador dos Estados Unidos em Moçambique, Peter Vrooman, a implementação do teste para o rastreio do cancro do colo do útero é um dos grandes avanços que Moçambique tem registado.

Nos últimos dois anos, o país norte-americano apoiou no rastreio de mais de 300 mil mulheres e no tratamento de mais de 15 mil mulheres com cancro do colo do útero.

“Entre os 50 países apoiados pelo PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para Alívio da SIDA), Moçambique foi o único que excedeu os seus objectivos anuais de rastreio do cancro do colo do útero”, congratulou o diplomata Vrooman.

No entanto, a Organização Mundial da Saúde reconhece que os desafios ainda são inúmeros. Segundo Severin Xylander, entre os desafios estão a baixa disponibilidade dos registos oncológicos baseados na população, a limitada promoção da saúde, o acesso inadequado aos serviços de prevenção primária e a escassez de unidades de diagnóstico e disponibilidade de unidades de radioterapia e quimioterapia.

Operadores moçambicanos de transporte de passageiros bloquearam, esta terça-feira, a entrada e saída de viaturas na fronteira da Ponta do Ouro para impedir a entrada de transportadores da África do Sul, em protesto contra a vandalização de carros e bens de cidadãos moçambicanos naquele país.

Dezenas de operadores de transporte de passageiros para a África do Sul amotinaram-se, na manhã desta terça-feira, junto à fronteira da Ponta de Ouro, na província de Maputo, e impediram a saída e entrada de viaturas com matrícula sul-africana em Moçambique.

A situação apanhou várias pessoas de surpresa e alguns transportadores nacionais de passageiros exigiam uma explicação clara do que leva os alegados sul-africanos a incendiarem viaturas com matrícula moçambicana naquele país.

Sem gravar entrevista, o comandante distrital da Polícia da República de Moçambique em Matutuine, Helton Fumo, disse que decorrem negociações com os transportadores para abandonarem o local.

O protesto acontece dois dias depois da queima de mais um transporte de passageiros com matrícula moçambicana na África do Sul.

Recentemente, os ministros do Interior de Moçambique e da África do Sul reuniram-se para discutir o assunto, mas nenhuma medida foi anunciada.

Antes de falar à Nação, Filipe Nyusi sobrevoou os distritos afectados pelas cheias no Grande Maputo para ver o drama que as populações estão viver em consequência das chuvas intensas que caíram na região. À noite, tal como previsto, o Presidente da República falou dos desafios para lidar com as mudanças climáticas no país e as decisões tomadas para mitigar, de imediato, os impactos do que se vive, neste momento, na Cidade e Província de Maputo.

Quase uma semana depois das cheias no Grande Maputo, o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou a disponibilização de 260 milhões de Meticais para mitigar os efeitos das cheias na Cidade e Província de Maputo, como resultado das chuvas que têm provocado morte de pessoas e causado danos materiais avultados em infra-estruturas públicas e privadas. O valor anunciado pelo Chefe de Estado corresponde a 80% da verba que consta do Plano Económico e Social e Orçamento de Estado (PESOE) de 2023 para as necessidades imediatas de reconstrução após a emergência.

A este valor (260 milhões de Meticais) acresce-se uma verba de 10 milhões de dólares que o Executivo pretende alocar para responder aos efeitos das calamidades naturais. 

Entre as medidas anunciadas pelo Chefe de Estado, está a criação de uma equipa técnica ao nível do Governo central, para reportar o problema no terreno e reportar as situações periodicamente ao Conselho de Ministros.

O Governo decidiu, também, que vai orientar, esta quarta-feira, o Conselho Coordenador de Gestão de Risco de Desastres para proceder à avaliação da situação de emergência e recomendar sobre as decisões a tomar para atender ao impacto da situação de emergência.

O Presidente da República revelou que o Executivo decidiu posicionar as brigadas técnicas da Administração Nacional de Estradas (ANE) e empreiteiros pré-mobilizados no terreno para garantir as condições mínimas de transitabilidade nas vias.

Há também equipas que estarão no terreno a fazer o levantamento dos danos para posteriormente reportar e indicar as medidas de recuperação das infra-estruturas públicas e privadas, ao mesmo tempo que se criam condições para a normalização do abastecimento de água no Grande Maputo, que vive, actualmente, uma grave crise.

 

ESCOLAS DEVEM ENCONTRAR FORMAS DE RECUPERAR TEMPO PERDIDO

As estruturas locais da Cidade de Província de Maputo devem decidir sobre a necessidade de suspensão das aulas presenciais, por um período de sete dias, nas escolas públicas e privadas afectadas pelas cheias. O Presidente da República deixou claro que não são todas as escolas que estão em zonas afectadas que devem suspender as aulas presenciais, na medida em que apresentam condições para receber estudantes.

 

POPULAÇÃO DO GRANDE MAPUTO COM FACILIDADES PARA RECUPERAR DOCUMENTOS E COM TRANSPORTE REDUZIDO 

As pessoas afectadas vão beneficiar-se de emissão gratuita de documentos perdidos com as cheias nas repartições públicas, particularmente a carta de condução e o Bilhete de Identidade. O Governo decidiu ainda que os passageiros que vivem no Município de Boane vão pagar apenas 50% da tarifa de transporte na rota Cidade Maputo–Boane, num período de três meses.

Para as famílias que perderam as suas machambas, o Chefe de Estado pretende providenciar sementes de hortícolas e coordenar o acesso ao crédito para os agricultores comerciais.

 

“NÃO PODEMOS REASSENTAR SEMPRE AS MESMAS PESSOAS”

Filipe Nyusi falou ainda dos desafios para lidar com as mudanças climáticas e apontou a necessidade de transferir, de forma definitiva, as populações que vivem nas zonas de risco ou zonas propensas às cheias para que se evite reassentar sempre as mesmas pessoas.

“Não podemos estar constantemente a reassentar as mesmas pessoas e permitir que construam nas zonas de risco. Aqui, vamos precisar da ajuda das lideranças locais para ultrapassar esta situação”, disse o Presidente da República.

Nyusi falou, ainda, da necessidade de desactivar paulatinamente os centros de acomodação, como forma de evitar que a população seja afectada nesses locais por doenças de origem hídrica, dada a sua vulnerabilidade face à fácil propagação em caso de eclosão de uma doença.

Falando dos estragos em vários sectores económicos e sociais no Grande Maputo, o Chefe de Estado avançou a necessidade de mobilizar os parceiros de cooperação para apoiarem no processo de reconstrução das infra-estruturas afectadas pelas cheias. Nestes termos, agradeceu o apoio prestado por várias pessoas da sociedade civil que participaram no processo de resgate de famílias e na disponibilização de alimentos e acomodação para as vítimas.  

 

As águas que inundaram várias regiões de Maputo estão a baixar, mas as autoridades dizem que é preciso manter a prudência, porque os próximos dias serão de chuva moderada no Sul e no Centro do país, bem como nos países vizinhos, como África do Sul, Zimbabwe e eSwatini, que vão registar chuvas acima de 200 milímetros.

Quase uma semana depois do início das fortes chuvas que abalaram a cidade e Província de Maputo, a situação começa a melhorar, dado que a precipitação parou e o sol ajuda a secar as regiões inundadas.

No posto administrativo de 3 de Fevereiro, na Manhiça, por exemplo, a água do rio Incomáti, que galgou a Estrada Nacional Número 1 e fez soar o alarme de intransitabilidade ou cortes de estrada, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres dá garantias de normalização da situação.

“Ontem (terça-feira), a água galgou uma parte da EN1, mas sem grande alvoroço, porque as viaturas ainda conseguiam passar. Esta manhã, como aliás fomos informados, a situação mudou, mudou para positivo, mas os trabalhos continuam, as populações estão a retirar-se das zonas de inundação para os locais que as autoridades definiram”, disse.

Questionado sobre se as mortes e os danos não eram evitáveis, o vice-presidente do INGD, Gabriel Belém Monteiro, justificou que a intensidade da chuva surpreendeu a todos, pois atingiu uma magnitude que há pelo menos duas décadas não era vista.

“Nós temos estado, desde que analisamos a época chuvosa, a emitir informação através de diferentes vias, quer pelo INAM, quer pela hidrologia. Portanto, não faltou informação, o que pode ter acontecido é que o nível e a gravidade do problema podem ter apanhado algumas pessoas de surpresa, tal como aconteceu quando tivemos o ciclone Idai”, argumentou Gabriel Belém Monteiro.

Sobre a situação meteorológica, o INAM prevê que, além da ocorrência de chuvas moderadas, localmente fortes, nos próximos dias, um sistema que se formou na Austrália venha a atingir a costa de Madagáscar, no dia 19 do mês em curso.

“Continuamos a prever a ocorrência de chuvas moderadas, principalmente nas províncias de Maputo, Inhambane, Sofala, Manica e Zambézia, onde prevemos precipitação de 50 milímetros, em 24 horas. E a montante, esperam-se chuvas significativas na África do Sul, Zimbabwe e eSwatini. Neste momento, é prematuro dizer se este sistema vai atingir o Canal de Moçambique ou atingir o nosso país, mas o que indicam as projecções é que ele vai atingir a costa de Madagáscar”, informou o meteorologista.

Com o registo de chuvas e escoamento das águas provenientes dos países a montante, como África do Sul, Zimbabwe e eSwatini, a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos poderá manter ou aumentar os níveis de descargas de água na Barragem dos Pequenos Libombos, o que deverá continuar a afectar com cheias as populações do distrito de Boane, na província de Maputo.

Por causa da chuva a montante nos países vizinhos como a África do Sul e o Zimbabwe, a bacia hidrográfica do Limpopo poderá registar aumento do caudal e provocar inundações em alguns distritos da província de Gaza, acautela o INGD.

O número de mortes causadas pelas cheias que atingiram a região de Maputo se mantém sete e o de pessoas afectadas ultrapassa os 37 mil, de acordo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres.

Há vítimas das cheias que dormem no chão, nas carteiras e outras sentadas em alguns centros de acomodação que estão na vila de Boane, Província de Maputo, porque não receberam colchões nem cobertores. “O País” fez uma ronda por esses locais e traz relatos de noites mal passadas.

Estivemos nos centros de acomodação que estão na vila de Boane, Província de Maputo. Eram por volta das 20 horas quando chegámos ao primeiro centro, que se localiza na Escola Secundária Joaquim Chissano e com cerca de 1800 vítimas das cheias.

Fomos com um único objectivo: ver como é que as noites são passadas. De história para história, fomo-nos surpreendendo com o que cada um ia contando em relação às noites mal passadas e não só.

“Isso não é vida. Não posso dizer que estamos bem assim. Não é fácil. Estamos numa situação complicada. A nossa alimentação é difícil e pior para as crianças. É muito difícil ter comida. Fazemos filas para termos comida, mas nem sempre é possível. E simplesmente ficamos sentados. Não temos nada”, este é o relato de uma das vítimas que resume o drama que os deslocados vivem, mas vamos ao detalhe da história.

Deixaram tudo para trás, salvaram suas vidas que, nos centros de acomodação, lhes são pesadas. “Toda a nossa comida e todos os bens foram arrastados pelas águas. Estamos a viver sem nada que seja nosso. A vida é muito pesada”, contou Florência Mário, uma das vítimas das cheias, com um tom de revolta.

Os dias nos centros de acomodação são difíceis e quando o sol se põe, as famílias preparam-se para viver um pesadelo que dura a noite inteira. As vítimas das cheias que estão no centro de acomodação da Escola Secundária Joaquim Chissano dormem nas carteiras e até em locais improváveis, debaixo delas.

“Eu sequer consigo virar. Se me canso, nesta posição em que estou, acordo e fico sentado porque isto me incomoda, de verdade. Isto é uma madeira. Não me mexo. Estou na cadeia e assim fico até amanhecer. Durante o dia, peço emprestado esteira aos irmãos que têm”, revelou Agostinho Abdurremane, vítima de cheias.

Além de não terem colchões ou esteiras para dormir, os deslocados das cheias sequer têm cobertores que cubra o rosto e, ainda que seja por uma noite, esquecerem-se da dura realidade do presente.

“Ajeitei uma manta. Fiz uma divisão. Uma parte é esteira e a outra uso como cobertor. Não temos onde reclamar. Não há como. A vida é assim”, disse Atanásio Feliciano, num tom resignado.

Aos reassentados vivem na incerteza ou mesmo na dúvida se, algum dia, poderão ter colchões ou cobertores. “Eu estou aqui há muito tempo e nunca ouvi alguém falar de esteiras. Estamos a dormir na esteira, da maneira como está a ver-nos”, afirmou Fernando Alberto.

Diferentemente dos homens, as mulheres conseguiram levar consigo capulanas, mantas e esteiras que improvisaram para poder dormir com os seus filhos. Numa sala dormem, em média, 50 pessoas.

“As noites não têm como ser fáceis porque dormimos no cimento. A capulana que tenho é pequena para mim e os meus netos”, reclamou Maria Nhaca, que está como deslocada das cheias no centro de acomodação da Escola Secundária Joaquim Chissano.

Pensavam que, resgatadas das cheias, teriam condições melhores nos centros de acomodação. Uma expectativa frustrada.

“Achávamos que chegados aqui, teríamos onde dormir e o que cobrir. Mas já há três dias que não fomos dados nada. Ainda não disseram nada até hoje. Não sabemos se dão cobertores ou algo que possamos estender para dormir, nem sobre quando é que nos vão liberar para voltarmos às nossas casas, porque dizem que ainda estão submersas”, expôs Carmelinda Manhiça, vítima de cheias.

A isto, junta-se a velha reclamação sobre a alimentação. “Quando chega a hora de nos dar a alimentação, não o fazem. Depois de ter comida às 10 horas de ontem (falando de segunda-feira) às 22 horas e só consegui xima sem caril. Assim, estou a passar mal de dores de estômago”, queixou-se Esmeralda Mussa, vítima de cheias.

Continuamos a nossa ronda pelos centros de acomodação. Chegámos à Escola Primária Boane-Sede, onde há cerca de 800 vítimas de cheias e as reclamações são de sempre. “Nesta escola, temos falta de água para tomar banho, as nossas casas de banho não estão em condições e há dias que demoramos jantar porque falta lenha para podermos cozinhar”, denunciou Laura Jacinto, deslocada de cheias.

E o que também falta a estas famílias deslocadas são redes mosquiteiras para a prevenção da malária. Aliás, há um paliativo: “Recebemos dragão com o pessoal da Cruz Vermelha para podermos acender e passarmos a noite minimamente protegidos”.

Há quartos que sequer têm iluminação.

“Lá de onde nos tiraram, havia mata-mosquito e velas para iluminação. Aqui onde estamos sequer há energia. Ainda nem nos disseram nada”, respondeu Pérola Lumbela, deslocada de cheias, com um tom de hesitação.

Uma situação revoltante. “Nós somos tratados como se fôssemos pessoas que estão a pedir esmola. Nós não quisemos que aquilo acontecesse connosco”, lamentou.

O juiz Efigénio Baptista diz que há descompasso entre o Direito e a sociedade. O magistrado, que sentenciou o processo das dívidas ocultas, questiona as penas determinadas por lei para o crime de corrupção. 

Efigénio Baptista, juiz de Direito que julgou o processo relacionado às dívidas ocultas, ainda com recursos a decorrerem, esteve a dar uma aula aberta, ontem, na Universidade Técnica de Moçambique.

O magistrado apontou limitações colocadas pela lei sobre a justiça que se espera dos tribunais, fazendo comparação entre as penas definidas e os crimes, com destaque para a corrupção, crime que ele próprio sentenciou no processo 18/2019-C.

“Só por colocar armadilhas num parque, a pena é de 12 a 16 anos. Mas, então, qual é a pena para a corrupção? É muito inferior a essa”, diz o juiz, lembrando que os tribunais têm a limitação de não produzirem leis, cabendo esta tarefa ao poder legislativo.

Falando sobre o Direito como meio de pacificação social, Baptista apontou lacunas, que no seu entender, determinam que o direito não cumpra o seu papel.

Um dos exemplos por si dado é o facto de, até 2019, a Lei de Família determinava que as pessoas podiam se casar no mínimo com 16 anos de idade, havendo razões que justifiquem. Mas, na mesma altura, com a mesma idade não se podia ter conta bancária sem autorização de pais ou responsáveis.

“Daí, a questão que se coloca é se é permitido fazer sexo, mas não é permitido abrir conta? O que se verifica é um descompasso entre o Direito e a realidade social. E, se há esse descompasso, o Direito não vai cumprir aquela que é a sua função, que é garantir a paz, a harmonia e o equilíbrio entre os actores sociais”.

Sobre a independência da justiça, o magistrado não quis comentar em relação ao sector, mas falou de si, reafirmando que age livremente.

Nas suas considerações, o reitor da UDM, Severino Ngoenha, defendeu leis pensadas com base no contexto do país.

“O Direito tem que ser repensado não a partir de Código Germano, Latino ou Romano, mas a partir da nossa configuração social”, afirma o filósofo.

As aulas abertas em 2023, na UDM, decorrem desde segunda-feira e terminam na sexta-feira da próxima semana.

Mais de 42 mil alunos estão sem aulas desde a semana passada, no distrito de Boane, Província de Maputo, devido às cheias. Para recuperar o tempo perdido, a Direcção Distrital de Educação diz que haverá aulas de reforço.

Visitámos um dos centros de acolhimento, no bairro Mabanja, distrito de Boane, que acolhe mais de 500 pessoas, das quais 300 são crianças em idade escolar.

As crianças agitadas, brincando de todas as formas, umas conscientes e outras pouco esclarecidas, buscavam esquecer o drama vivido na madrugada do dia 10 de Fevereiro.

A chuva, aliada à pressão das águas vindas da África do Sul e de eSwatini, provocou inundações em escolas e residências, no distrito de Boane; empurraram as crianças e os seus pais para longe dos seus lares e interromperam as aulas.

Edite da Cruz, uma das 1800 vítimas das enxurradas, disse que “perdemos tudo, uniforme das crianças, cadernos, livros, até documentação. Tenho três crianças, uma que frequentava a 8ª, outra 6ª e a mais nova 4ª classe, mas não sei se voltam à escola este ano”.

As famílias perderam tudo, mas as crianças não perderam os seus sonhos, tal camo Carlos Mulimo, aluno da quarta-feira classe que diz que o seu material escolar foi destruído, porém o sonho de ser bombeiro não se vai apagar.

No distrito de Boane, as autoridades apontam que mais de 40 mil crianças estão fora da escola por tempo indeterminado.

“Temos 39 escolas primárias completas e sete escolas secundárias paralisadas, devido a enxurradas, perfazendo um universo de 42 mil alunos afectados, a nível do distrito Boane”, explicou Armando Matsinhe, chefe do Departamento do Ensino Geral, na Direcção Distrital de Educação.

Segundo Matsinhe, há algumas escolas ainda inundadas e outras parcialmente destruídas, outras ainda transformadas em centros de acomodação.

A fonte disse ainda que a situação vai comprometer o cumprimento do calendário escolar, mas serão tomadas medidas.

“Assim que retomarmos as aulas, vamos criar condições para que os alunos tenham acesso a conteúdos que não era possível serem leccionados neste momento, a partir da adopção de um conjunto de medidas, desde a atribuição de tarefas escolares para os alunos executarem nas casas, para resolver com o apoio dos pais e dos professores, até à produção de fichas de exercícios, que vão ser usados nas escolas, assim como textos de apoio, apara os alunos usarem como forma de suprir este défice de cumprimento do calendário e dos nossos planos analíticos”.

Enquanto a situação não melhora, as crianças vão passando o tempo a brincar.

 

CHUVA ENCERRA ESCOLA EM MAVALANE

Na Cidade de Maputo, há escolas que encerraram salas devido a inundações. Outras ainda possuem águas que ameaçam a saúde dos alunos e o Ministério da Educação diz estar a mapear os estragos causados pela chuva.

A Escola Primária Completa de Mavalane “A” esteve completamente inundada com a chuva dos últimos dias e forcou o encerramento da escola.

As salas estão lamacentas e o pátio preserva as imagens de inundações e com lama em todo lado.

Fulgêncio Tivane, Director-Adjunto do estabelecimento de ensino, disse que a situação obrigou a interrupção de aulas. “A água inundou-nos toda a escola, por isso tivemos que parar de leccionar sob recomendação do Distrito e alocamos os alunos a três escolas que estão na nossa zona de influência pedagógica. Portanto, os 1015 alunos continuam a ter aulas. As nossas 17 salas estão neste momento a beneficiar-se de limpezas”.

Enquanto isso, os alunos da Escola Primária de Chiango continuam lá a enfrentar a água que inundou o pátio que neste momento representam o perigo à saúde dos alunos e não só. “A agua está aqui já há muito tempo. Já começa a cheirar mal e, nesta altura da cólera, há, de facto, um receio de doenças aqui na escola”, disse Yolando Bila, responsável da escola.

O Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano está a fazer mapeamento dos estragos causados pela chuva em diferentes pontos do país e vai em breve partilhar a informação.

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