Cerca de 1,3 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas zonas de origem em Moçambique desde 2017, devido à violência armada no norte do país. Deste total, 661.532 continuam deslocadas internamente, enquanto 721.691 regressaram aos seus distritos de origem, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
No relatório operacional referente ao primeiro semestre de 2026, a agência indica que os ataques de grupos armados provocaram 26.184 novos deslocados entre Janeiro e Junho, em vários distritos da província de Cabo Delgado. Muitos dos afectados foram obrigados a deslocar-se mais de uma vez.
O ACNUR considera que a situação humanitária continua complexa, devido à persistência da violência em distritos como Ancuabe, Chiúre, Macomia, Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga, Muidumbe e Nangade.
Para além dos ataques contra civis e infra-estruturas, a agência assinala que os grupos armados têm visado cada vez mais os meios de subsistência das populações, incluindo campos agrícolas, actividades pesqueiras e locais de exploração mineira, agravando a vulnerabilidade das comunidades.
O relatório indica ainda que Moçambique acolhe 24.217 refugiados e requerentes de asilo, provenientes sobretudo de países da África Central e Oriental.
Entre Janeiro e Junho deste ano, o ACNUR prestou assistência directa a 39.699 pessoas, incluindo deslocados internos, refugiados e famílias vulneráveis, através da distribuição de bens essenciais e apoio monetário. A agência apoiou igualmente 15.804 pessoas com assistência jurídica e 8.637 na obtenção de documentos de identificação.
No âmbito do reforço dos serviços de protecção, está em curso um projecto de 34 meses, lançado em Março, em parceria com os Governos de Moçambique e do Japão. A iniciativa prevê a construção ou reabilitação de 27 postos de atendimento em Cabo Delgado, com o objectivo de facilitar o acesso à documentação civil de mais de 100 mil pessoas e prestar assistência jurídica a outras 45 mil.
Para 2026, o ACNUR solicitou 61,3 milhões de dólares para financiar as suas operações em Moçambique e Angola. Contudo, até Junho, apenas 38% do montante tinha sido disponibilizado, deixando um défice de financiamento de 38,2 milhões de dólares.
Uma motorista de transporte por aplicativo, residente em Boquisso, na cidade de Maputo, recebeu um txopela elétrico para reforçar a sua atividade económica e aumentar o rendimento do agregado familiar.
Trata-se de Dércia Geraldo Wandar, esposa e mãe de cinco filhos, que exerce a atividade de motorista a tempo inteiro. Segundo explicou, o novo meio de transporte permitirá diversificar as suas fontes de rendimento e dar continuidade aos planos de expansão do seu pequeno negócio.
O apoio foi concedido no âmbito do programa Driver’s Dreams, uma iniciativa da plataforma de mobilidade Yango Ride destinada a incentivar e apoiar motoristas parceiros na concretização de objetivos pessoais e profissionais.
Além da entrega do txopela, a iniciativa proporcionou uma visita à residência da beneficiária, durante a qual os seus filhos receberam presentes simbólicos.
Na ocasião, o Country Manager da Yango Moçambique, Mahomed Zameer Adam, afirmou que o programa pretende reconhecer o contributo dos motoristas parceiros e criar oportunidades que promovam o empreendedorismo e a inclusão económica.
Por sua vez, Dércia Geraldo Wandar disse que o apoio representa um passo importante para garantir maior estabilidade financeira à família, acrescentando que o novo veículo permitirá gerar rendimento adicional.
O programa Driver’s Dreams foi recentemente lançado em Moçambique e procura aproximar passageiros e motoristas, permitindo que os utilizadores da aplicação conheçam as histórias dos parceiros de condução e contribuam para a concretização das suas aspirações através de gorjetas.
Moçambique garante estar preparado para responder a um eventual surto de ébola e assegura capacidade para processar até 300 testes por dia, em situações de emergência. A garantia foi avançada esta sexta-feira, pelo Ministro da Saúde, Ussene Isse, durante uma visita ao Instituto Nacional de Saúde, em Maputo.
As declarações foram feitas após o Ministro da saúde percorrer e monitorar laboratórios de biologia molecular, microbiologia, sorologia, parasitologia, isolamento viral e vigilância epidemiológica no Instituto Nacional de Saúde, áreas estratégicas para a detecção precoce e resposta rápida a surtos no país.
Na ocasião, Ussene Isse afirmou que o surto de cólera está controlado e que o actual aumento de casos gripais não se trata de COVID-19.
Isse apelou a internacionalização da instituição e anunciou que será lançada a primeira Escola de Saúde Pública do país.
O Ministro da saúde inspecionou as obras do futuro Centro de Bioinformática que vai servir para fortalecer a investigação científica, a vigilância epidemiológica e a capacidade nacional de resposta a emergências sanitárias.
O Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, anuncia a conclusão das obras de reabilitação da estrada Quelimane–Namacurra, com cerca de 70 quilómetros de extensão. Segundo o governante, faltam apenas neste momento observar um troço de 4,6 quilómetros na entrada da cidade de Quelimane.
As obras arrancaram no segundo semestre de 2020 e tinham conclusão prevista para 2023. No entanto, diversos constrangimentos, sobretudo fenómenos climáticos extremos, condicionaram o cumprimento dos prazos inicialmente estabelecidos.
O ministro dos transportes e logística, João Matlombe, deslocou-se ao local para avaliar o andamento dos trabalhos e anúncio a conclusão dos trabalhos.
No âmbito do programa Mais Estradas, o ministro visitou igualmente o troço Malei–Maganja da Costa, com o objetivo de aferir o nível de preparação da província para o arranque das obras. O projeto encontra-se atualmente na fase de concurso público.
Ainda em Quelimane, Matlombe visitou a área destinada à implantação de um terminal de combustíveis, uma infraestrutura prevista no âmbito do projeto de concessão do Porto de Quelimane, recentemente aprovado pelo Conselho de Ministros.
De acordo com o ministro, o terminal será estratégico para reforçar a capacidade logística da região e responder à procura crescente de combustíveis, incluindo para o mercado do Malawi.
A banca volta a manter inalterado o custo de referência do dinheiro. A Prime Rate do Sistema Financeiro Moçambicano permanece fixada em 15,50% durante o mês de Julho, prolongando um cenário de financiamento apertado para famílias e empresas numa altura em que o acesso ao crédito continua a ser um dos principais desafios para a economia.
Como o habitual, a taxa de juro foi anunciada a 30 de Junho, pela Associação Moçambicana de Bancos (AMB), através de um comunicado. O documento mostra que a Prime Rate, que resulta da soma de um Indexante Único de 9,30%, calculado pelo Banco de Moçambique, e de um Prémio de Custo de 6,20%, definido pela própria associação, não se altera.
A manutenção da taxa significa que não houve qualquer alívio no custo do dinheiro para quem pretende recorrer ao crédito bancário. Pelo contrário, as condições de financiamento continuam apertadas, tanto para as famílias que procuram crédito à habitação ou ao consumo, como para as empresas que dependem dos bancos para financiar investimentos ou reforçar a tesouraria.
Embora a Prime Rate seja de 15,50%, esta não corresponde à taxa final cobrada aos clientes. Sobre essa percentagem, cada banco aplica um spread, definido de acordo com o risco da operação, o histórico do cliente e o tipo de financiamento solicitado. Na prática, é essa margem que faz variar o custo efectivo do crédito entre as diferentes instituições financeiras.
Os números divulgados pela AMB mostram diferenças assinaláveis entre os bancos. No crédito à habitação, por exemplo, o spread varia entre 1%, praticado pelo Standard Bank, e 6%, aplicado pelo Vista Bank e pelo First Capital Bank. Isto significa que, dependendo da instituição, o custo de crédito para a compra de casa pode ultrapassar facilmente os 20%.
As diferenças repetem-se no crédito ao consumo e no financiamento às empresas. Há bancos que aplicam spreads relativamente reduzidos, enquanto outros apresentam margens bastante superiores, tornando o custo do crédito significativamente mais elevado. Esta realidade reforça a importância de comparar as condições oferecidas pelas diferentes instituições antes de contratar um financiamento.
Para o sector empresarial, a permanência da Prime Rate nos actuais níveis continua a representar um entrave ao investimento. Num contexto em que muitas empresas procuram expandir a produção, adquirir equipamentos ou aumentar o capital de exploração, o elevado custo do crédito acaba por reduzir a capacidade de investir e aumentar os encargos financeiros.
As famílias também continuam a sentir os efeitos. Quem pretende comprar uma casa, adquirir uma viatura ou financiar despesas pessoais continuará a enfrentar prestações elevadas, situação que limita a capacidade de consumo e condiciona o orçamento familiar.
No comunicado, a Associação Moçambicana de Bancos recorda que a Prime Rate é “a taxa única de referência para as operações de crédito de taxa de juro variável”, esclarecendo que a taxa aplicada ao cliente resulta da soma da Prime Rate com um spread definido “mediante a análise de risco de cada categoria de crédito ou operação em concreto”.
A associação explica igualmente que o Indexante Único é calculado mensalmente pelo Banco de Moçambique com base nas operações realizadas no mercado monetário interbancário, enquanto o Prémio de Custo é actualizado trimestralmente e reflecte factores como o risco soberano de Moçambique, o rácio de crédito em incumprimento, o crédito saneado e as reservas obrigatórias exigidas aos bancos.
Outro aspecto que sobressai do comunicado é que, apesar de a taxa de política monetária (MIMO) estar fixada em 9,25%, a taxa de referência usada pelos bancos permanece bastante acima desse nível devido ao peso do Prémio de Custo, indicador que incorpora os riscos associados à actividade bancária e ao ambiente económico do país.
A AMB sublinha ainda que o Acordo sobre o Indexante Único do Sistema Bancário Moçambicano tem como objectivo tornar mais transparente a formação das taxas de juro e melhorar a transmissão da política monetária. Contudo, para os clientes, o efeito imediato continua a ser a manutenção de um crédito caro, numa altura em que empresas e famílias esperam por condições de financiamento mais favoráveis.
Enquanto os indicadores que determinam a taxa de referência não mostrarem uma evolução favorável, o financiamento bancário deverá continuar a representar um encargo significativo para quem pretende investir, expandir um negócio ou realizar projectos pessoais.
Moçambique procura reforçar a sua presença económica na Tanzânia, através da participação na 50.ª edição da Feira Internacional de Dar es Salaam (Saba Saba), que decorre entre os dias 3 e 4 de Julho. O evento será presidido pelos Chefes de Estado da Tanzânia e de Moçambique, sendo que o Presidente da República, Daniel Chapo, participa na qualidade de convidado de honra e irá proferir o discurso oficial de abertura.
Daniel Chapo já se encontra em Dar es Salaam, capital económica da Tanzânia, onde se faz acompanhar pelo secretário de Estado do Comércio, António Grispos, pelo secretário de Estado do Tesouro, além de quadros da Presidência da República. À chegada, o Chefe de Estado reuniu-se, à porta fechada, com a delegação moçambicana e membros da comunidade moçambicana residente naquele país.
“Estamos aqui para acompanhar o Presidente da República nesta missão, que não representa apenas um acto político, mas também reflecte as excelentes relações que Moçambique mantém com a Tanzânia, nos domínios político, económico e social”, afirmou António Grispos, secretário de Estado do Comércio, no fim do encontro, sublinhando que a presença moçambicana na Tanzânia vai muito além da componente política.
O governante recordou que a escolha de Moçambique para convidado de honra da feira resulta da histórica relação entre os dois países.
“Não é por acaso que o Presidente da República foi convidado para inaugurar esta feira. Este convite é resultado da forte relação histórica, política, económica e social que une os dois países e os seus povos, bem como da estreita cooperação entre os respectivos governos. Moçambique tem participado de forma estratégica em feiras internacionais consideradas prioritárias, por serem importantes para consolidar ou expandir relações económicas e comerciais. Há cerca de duas semanas, por exemplo, o país participou na Feira Internacional da Argélia, com uma representação de alto nível”, afirmou.
Moçambique e a Tanzânia mantêm uma parceria económica estratégica, sustentada pela proximidade geográfica, pela integração regional no âmbito da SADC e por uma extensa fronteira comum, que facilita o comércio transfronteiriço. Em 2023, o comércio bilateral atingiu cerca de 57,8 milhões de dólares, embora os dois governos reconheçam que este valor permanece muito abaixo do potencial existente. Agricultura, energia, transportes, pescas, turismo e comércio de bens e serviços figuram entre os principais sectores de cooperação.
Nos últimos anos, os dois países intensificaram os esforços para dinamizar o investimento e aumentar as trocas comerciais. Em Maio de 2025, acordaram criar uma Comissão Económica Conjunta para eliminar barreiras ao comércio, facilitar a circulação de pequenas e médias empresas através de regimes simplificados de comércio fronteiriço e reforçar a cooperação em áreas como infra-estruturas, petróleo e gás, economia azul e desenvolvimento agrícola. A iniciativa pretende transformar a histórica relação política entre os dois Estados numa parceria económica mais sólida e mutuamente vantajosa.
Segundo António Grispos, a feira constitui uma plataforma para ampliar a presença das empresas moçambicanas no mercado tanzaniano.
“A Tanzânia é um parceiro estratégico de Moçambique. Para além da proximidade geográfica, existem empresas tanzanianas a operar em Moçambique, em sectores como a logística e os combustíveis. Ao mesmo tempo, esta feira representa uma oportunidade para as empresas moçambicanas explorarem novos mercados, diversificarem os seus negócios e estabelecerem novas parcerias.”
O secretário de Estado do Comércio acrescentou que a crescente interacção entre os sectores privados dos dois países reforça as perspectivas de cooperação económica.
“É esse o propósito da nossa participação: fortalecer as relações económicas entre os dois países, abrir novas oportunidades de negócio e contribuir para a estratégia do Governo de promoção da independência económica, através da diplomacia económica e do reforço da cooperação regional”, concluiu.
A visita oficial de Daniel Chapo termina com uma deslocação às obras da futura Chancelaria do Alto-Comissariado de Moçambique em Dar es Salaam. Da agenda consta ainda uma visita à viúva do primeiro Presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, antes da reunião de balanço da missão com a delegação moçambicana.
A intensificação dos ataques contra imigrantes na África do Sul começa a produzir efeitos que ultrapassam a esfera social e política, alimentando preocupações quanto ao impacto sobre o ambiente de negócios, a confiança dos investidores e a capacidade da maior economia africana de atrair capital estrangeiro.
Numa conjuntura marcada por crescimento económico moderado, elevado desemprego, limitações fiscais e necessidade de maior investimento privado, analistas alertam que a deterioração do ambiente de segurança pode agravar a percepção de risco do mercado sul-africano.
Segundo a agência Reuters, economistas e analistas de mercado defendem que a sucessão de manifestações e episódios de violência contra cidadãos estrangeiros poderá reduzir o apetite dos investidores internacionais, sobretudo daqueles que avaliam novos projectos de investimento directo estrangeiro no país.
A consultora sul-africana ETM Analytics advertiu, citada pela Reuters, que os protestos contra imigrantes representam “o principal risco de curto prazo” para os mercados financeiros do país. A instituição considera que a evolução da crise poderá influenciar o comportamento do rand, aumentar a volatilidade dos activos financeiros e afectar as expectativas dos agentes económicos.
O receio surge numa altura em que a África do Sul procura recuperar o dinamismo económico. O país continua a enfrentar uma das mais elevadas taxas de desemprego do mundo, crescimento económico inferior ao potencial e uma necessidade crescente de mobilizar investimento privado para expandir a capacidade produtiva, modernizar infra-estruturas e estimular a criação de emprego.
O investimento directo estrangeiro desempenha um papel estratégico neste processo. Além da entrada de capitais, contribui para a transferência de tecnologia, desenvolvimento de competências, aumento da produtividade e integração das empresas sul-africanas nas cadeias globais de valor.
Entretanto, os sucessivos episódios de violência contra comerciantes e trabalhadores estrangeiros podem afectar um dos factores mais valorizados pelos investidores: a previsibilidade do ambiente de negócios.
A própria reputação internacional da África do Sul começa a sofrer desgaste. De acordo com a Reuters, membros do Governo sul-africano reconhecem que os ataques xenófobos podem comprometer a imagem do país, afectar empresas nacionais que operam noutros mercados africanos e reduzir o seu poder de influência económica no continente.
O Presidente Cyril Ramaphosa condenou os actos de violência e afirmou que “não permitiremos que grupos utilizem as legítimas preocupações da população para promover a violência e a ilegalidade”, reiterando que a aplicação das leis migratórias compete exclusivamente às instituições do Estado.
Embora os mercados financeiros ainda não tenham registado uma reacção expressiva, economistas consideram que a persistência da violência poderá reflectir-se no custo do financiamento, no comportamento da moeda sul-africana e nas decisões de investimento de empresas multinacionais.
A preocupação estende-se igualmente ao comércio regional. A África do Sul é o maior parceiro económico de vários países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), incluindo Moçambique. Qualquer deterioração do seu ambiente económico pode repercutir-se sobre o comércio transfronteiriço, os fluxos de investimento, as remessas dos trabalhadores migrantes e a integração económica regional.
O mar continua a alimentar milhares de famílias em Inhambane, mas já não oferece a mesma abundância de outros tempos. Nas primeiras horas da manhã, centenas de embarcações artesanais deixam diariamente as praias da província na esperança de regressar com peixe suficiente para garantir o sustento das famílias. No entanto, o cenário encontrado no fim de cada jornada é cada vez mais preocupante. As capturas diminuíram, os custos da actividade aumentaram e a incerteza tornou-se parte da rotina de quem depende exclusivamente da pesca para sobreviver.
A redução do pescado começa a produzir efeitos que vão muito além das comunidades piscatórias. Num sector que emprega mais de 18 mil pescadores artesanais e produz, em média, 21 mil toneladas de pescado por ano, a diminuição das capturas representa menos rendimento para milhares de famílias, menor oferta de peixe nos mercados e novos desafios para uma actividade que continua a desempenhar um papel importante na economia costeira da província.
Nas praias de Inhambane, a preocupação é evidente. Depois de horas no mar, muitos pescadores regressam com embarcações praticamente vazias.
“O peixe está cada vez mais escasso. Hoje há muitos pescadores no mar e as mudanças climáticas também estão a afectar a actividade”, relata Raimundo Lurdes, pescador artesanal.
A percepção é partilhada por Momade Queha, que diz assistir a uma redução constante das capturas.
“Já não há peixe. Não conseguimos capturar praticamente nada. Hoje nem acredito que consiga vender mil meticais porque realmente não há peixe”, lamenta.
Para quem vive exclusivamente da pesca, a diminuição das capturas significa uma redução imediata do rendimento diário. Em muitas comunidades costeiras, a actividade constitui a principal fonte de receitas familiares e garante igualmente o abastecimento de pescado aos mercados locais.
Mas, para além das alterações climáticas e do aumento do número de pescadores, outro tema domina as conversas nas praias: o actual calendário da veda.
Os pescadores reconhecem que a interrupção temporária da pesca é fundamental para permitir a reprodução das espécies e garantir a sustentabilidade dos recursos marinhos. O problema, dizem, está no período escolhido para aplicar a medida.
Nelson Dzivane, que trabalha na pesca artesanal há mais de vinte anos, considera que o actual calendário não acompanha o comportamento natural das espécies existentes na costa de Inhambane.
Na sua perspectiva, o período de encerramento da actividade deveria coincidir com a época em que a reprodução dos peixes é mais intensa, permitindo uma recuperação mais efectiva dos recursos pesqueiros sem comprometer desnecessariamente o rendimento das comunidades.
“Durante o verão é quando devíamos trabalhar. É no inverno que as redes deviam ficar fechadas. A veda que está a ser aplicada actualmente não corresponde à realidade da nossa pesca”, defende.
As preocupações dos pescadores já chegaram às autoridades distritais.
Segundo Américo Adamugy, Administrador do distrito de Inhambane, está em curso um processo de harmonização dos períodos de veda entre os quatro distritos costeiros da província.
A proposta prevê que a pesca observe um período comum de defeso entre Janeiro e Abril, enquanto a captura do camarão continuará sujeita ao calendário específico definido pelas autoridades competentes.
Apesar disso, o governante esclarece que as alterações serão feitas dentro dos parâmetros estabelecidos a nível central, o que significa que não deverão existir mudanças profundas em relação ao modelo actualmente adoptado.
Para especialistas em conservação marinha, porém, a discussão não pode limitar-se apenas às datas da veda.
O ambientalista António Cabral considera que a redução das capturas observada nos últimos anos resulta de vários factores que actuam em simultâneo e que exigem respostas integradas.
Segundo explica, as organizações que monitorizam a pesca na Baía de Inhambane acompanham há cerca de oito anos a evolução das capturas em vários pontos de desembarque e os dados apontam para uma tendência gradual de redução de determinadas espécies.
Embora existam oscilações naturais ao longo dos anos, a tendência geral revela um declínio que começa a preocupar investigadores e gestores dos recursos marinhos.
Para António Cabral, insistir apenas na alteração do calendário da veda poderá produzir resultados limitados se não forem adoptadas outras medidas complementares.
Entre elas, destaca o reforço da fiscalização, a protecção dos ecossistemas costeiros, a melhoria da gestão dos recursos pesqueiros e, sobretudo, a criação de fontes alternativas de rendimento para as comunidades.
Segundo o especialista, durante os períodos de defeso, muitas famílias ficam praticamente sem qualquer actividade económica, tornando-se mais vulneráveis e aumentando a pressão para o incumprimento das restrições impostas.
A aposta em actividades agrícolas, aquacultura, pequenos negócios e outras iniciativas geradoras de rendimento poderá reduzir essa dependência exclusiva da pesca e contribuir para uma exploração mais sustentável dos recursos marinhos.
O debate surge numa altura em que Moçambique procura consolidar a chamada Economia Azul como um dos pilares do crescimento económico nacional.
Nesse contexto, garantir a sustentabilidade da pesca artesanal representa não apenas uma questão ambiental, mas também um desafio económico e social.
A redução contínua das capturas ameaça milhares de empregos directos e indirectos, afecta a segurança alimentar das comunidades costeiras e pode comprometer uma cadeia de valor que movimenta comerciantes, transportadores, processadores e mercados locais.
Enquanto decorrem as discussões sobre a revisão da veda, os pescadores continuam a fazer aquilo que aprenderam ao longo da vida: sair para o mar todos os dias, na esperança de que a próxima maré traga o peixe que hoje parece escapar cada vez mais das redes.
O Presidente da República e Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança (FDS), Daniel Chapo, efectuou, esta quinta-feira, uma visita de trabalho ao Teatro Operacional Norte (TON), nos distritos de Mueda e Mocímboa da Praia, para avaliar a evolução da situação de segurança, fortalecer a coordenação das operações militares e transmitir novas orientações às FDS no âmbito do combate ao terrorismo.
A jornada iniciou no distrito de Mueda, onde o Chefe do Estado manteve um encontro de trabalho com o Comando da Força Local. Na ocasião, inteirou-se da situação operacional, informou-se dos progressos que estão a ser registados, ouviu as principais preocupações e desafios enfrentados no terreno e encorajou os combatentes a prosseguirem a sua missão com determinação, disciplina e patriotismo, destacando o papel decisivo da Força Local na protecção das populações e na defesa da soberania nacional.
De Mueda, o Presidente da República seguiu para o distrito de Mocímboa da Praia, onde reuniu com o Comando do TON, tendo recebido uma actualização sobre a evolução das operações militares e definido novas directrizes para o reforço da ofensiva contra os grupos terroristas. Na sequência, Daniel Francisco Chapo anunciou a transferência do Comando do TON de Pemba para Mocímboa da Praia, uma decisão estratégica destinada a aproximar o centro de comando das principais zonas de operações.
“Tomámos a decisão de transferir o Comando do Teatro Operacional Norte de Pemba para aqui em Mocímboa da Praia para estarmos mais próximos do centro das operações e do núcleo do combate aos terroristas. A partir daqui estamos mais próximos de Palma, Macomia, Quissanga e dos restantes distritos da zona norte”, sublinhou o Presidente da República.
O Comandante-Chefe explicou que a instalação do Centro de Operações em Mocímboa da Praia permitirá uma resposta mais célere e eficaz às ameaças terroristas, reforçando a coordenação das operações militares. Por conta disso, esclareceu que “Mocímboa da Praia já se transformou no centro de operações do Teatro Operacional Norte. Queremos continuar a desferir golpes cada vez mais fortes contra os terroristas até colocarmos definitivamente fim ao terrorismo.”
O Presidente da República reafirmou igualmente o compromisso do Governo de continuar a investir no fortalecimento das capacidades das FDS, através da construção de infra-estruturas, do reforço da logística, da modernização dos equipamentos e da intensificação da formação e do treino. “Vamos investir na construção das nossas infra-estruturas, no Centro de Operações em Mocímboa da Praia, no equipamento, na logística, na formação e em tudo o que for necessário para termos Forças de Defesa e Segurança cada vez mais fortes”, asseverou.
Daniel Francisco Chapo sublinhou que o reforço da segurança em Cabo Delgado já está a produzir resultados concretos, reflectidos na retoma dos grandes investimentos económicos na província. “O projecto da Total foi retomado, assinámos a decisão final de investimento (FID, na sigla em inglês) do Coral Norte e esperamos assinar ainda este ano a FID do projecto da ExxonMobil. Estes avanços demonstram que a situação de segurança melhorou”, frisou o Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança.
O Chefe do Estado enfatizou que o fortalecimento das Forças de Defesa e Segurança representa um compromisso permanente do Estado moçambicano com a defesa da independência, da soberania e da integridade territorial. “A nossa independência custou muito sangue. Temos de continuar a defender a nossa soberania, a nossa integridade territorial e a paz, para garantirmos o desenvolvimento do nosso País”.
Dirigindo-se aos efectivos destacados no TON, o Comandante-Chefe transmitiu uma mensagem de reconhecimento pelo empenho e coragem demonstrados no cumprimento da missão. “Em nome do povo moçambicano, queremos dizer-vos que estamos juntos. De segunda a segunda-feira, vinte e quatro horas por dia, acompanhamos as operações e continuaremos a criar melhores condições para que possam cumprir a vossa missão.”
A visita do Presidente da República ao Teatro Operacional Norte reafirma o compromisso do Governo com a consolidação da paz, a derrota definitiva do terrorismo e a criação de condições de segurança que permitam acelerar a recuperação económica, o regresso definitivo das populações às suas zonas de origem e o desenvolvimento sustentável da província de Cabo.
O Presidente da Repúblida, Daniel Chapo, anunciou que a União Europeia vai comparticipar no financiamento da missão do Ruanda no combate ao terrorismo em Cabo Delgado.
O Chefe do Estado explicou que “as operações das forças ruandesas serão custeadas pelos fundos públicos e provenientes da própria União Europeia, como tem sempre sido feito, tanto para o Ruanda como para as nossas próprias Forças de Segurança, através do treinamento”, explica Daniel Chapo.
O Chefe do Estado recordou que a União Europeia não dá apoio em material bélico e garantiu que, neste momento, estão em curso negociações para a continuidade dos acordos.
Além busca de soluções do terrorismo por via armada, Daniel Chapo comprometeu-se, igualmente, a mobilizar fundos para a reconstrução de Cabo Delgado, uma província com várias infra-eatruturas destruídas.
Na conferência de imprensa, o Presidente da República voltou a prometer usar todos os meios ao seu alcance para evitar que a guerra comprometa os planos de desenvolvimento do País.
“O Governo mantém todas as vias abertas para alcançar a estabilidade, incluindo a possibilidade de conversações”, garantiu o Chefe do Estado.
“E muito difícil prever quando é que o terrorismo vai terminar. Por isso é que nós dissemos que estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance, incluindo a possibilidade do diálogo para terminar com o terrorismo. O que nós gostaríamos era que terminasse, e o término, portanto, vai-nos permitir estar em paz, e a paz é a condição fundamental para o desenvolvimento”, enfatizou o Chefe de Estado.