O País – A verdade como notícia

Pescadores pedem revisão da veda de pesca em Inhambane

O mar continua a alimentar milhares de famílias em Inhambane, mas já não oferece a mesma abundância de outros tempos. Nas primeiras horas da manhã, centenas de embarcações artesanais deixam diariamente as praias da província na esperança de regressar com peixe suficiente para garantir o sustento das famílias. No entanto, o cenário encontrado no fim de cada jornada é cada vez mais preocupante. As capturas diminuíram, os custos da actividade aumentaram e a incerteza tornou-se parte da rotina de quem depende exclusivamente da pesca para sobreviver.

A redução do pescado começa a produzir efeitos que vão muito além das comunidades piscatórias. Num sector que emprega mais de 18 mil pescadores artesanais e produz, em média, 21 mil toneladas de pescado por ano, a diminuição das capturas representa menos rendimento para milhares de famílias, menor oferta de peixe nos mercados e novos desafios para uma actividade que continua a desempenhar um papel importante na economia costeira da província.

Nas praias de Inhambane, a preocupação é evidente. Depois de horas no mar, muitos pescadores regressam com embarcações praticamente vazias.

“O peixe está cada vez mais escasso. Hoje há muitos pescadores no mar e as mudanças climáticas também estão a afectar a actividade”, relata Raimundo Lurdes, pescador artesanal.

A percepção é partilhada por Momade Queha, que diz assistir a uma redução constante das capturas.

“Já não há peixe. Não conseguimos capturar praticamente nada. Hoje nem acredito que consiga vender mil meticais porque realmente não há peixe”, lamenta.

Para quem vive exclusivamente da pesca, a diminuição das capturas significa uma redução imediata do rendimento diário. Em muitas comunidades costeiras, a actividade constitui a principal fonte de receitas familiares e garante igualmente o abastecimento de pescado aos mercados locais.

Mas, para além das alterações climáticas e do aumento do número de pescadores, outro tema domina as conversas nas praias: o actual calendário da veda.

Os pescadores reconhecem que a interrupção temporária da pesca é fundamental para permitir a reprodução das espécies e garantir a sustentabilidade dos recursos marinhos. O problema, dizem, está no período escolhido para aplicar a medida.

Nelson Dzivane, que trabalha na pesca artesanal há mais de vinte anos, considera que o actual calendário não acompanha o comportamento natural das espécies existentes na costa de Inhambane.

Na sua perspectiva, o período de encerramento da actividade deveria coincidir com a época em que a reprodução dos peixes é mais intensa, permitindo uma recuperação mais efectiva dos recursos pesqueiros sem comprometer desnecessariamente o rendimento das comunidades.

“Durante o verão é quando devíamos trabalhar. É no inverno que as redes deviam ficar fechadas. A veda que está a ser aplicada actualmente não corresponde à realidade da nossa pesca”, defende.

As preocupações dos pescadores já chegaram às autoridades distritais.

Segundo Américo Adamugy, Administrador do distrito de Inhambane, está em curso um processo de harmonização dos períodos de veda entre os quatro distritos costeiros da província.

A proposta prevê que a pesca observe um período comum de defeso entre Janeiro e Abril, enquanto a captura do camarão continuará sujeita ao calendário específico definido pelas autoridades competentes.

Apesar disso, o governante esclarece que as alterações serão feitas dentro dos parâmetros estabelecidos a nível central, o que significa que não deverão existir mudanças profundas em relação ao modelo actualmente adoptado.

Para especialistas em conservação marinha, porém, a discussão não pode limitar-se apenas às datas da veda.

O ambientalista António Cabral considera que a redução das capturas observada nos últimos anos resulta de vários factores que actuam em simultâneo e que exigem respostas integradas.

Segundo explica, as organizações que monitorizam a pesca na Baía de Inhambane acompanham há cerca de oito anos a evolução das capturas em vários pontos de desembarque e os dados apontam para uma tendência gradual de redução de determinadas espécies.

Embora existam oscilações naturais ao longo dos anos, a tendência geral revela um declínio que começa a preocupar investigadores e gestores dos recursos marinhos.

Para António Cabral, insistir apenas na alteração do calendário da veda poderá produzir resultados limitados se não forem adoptadas outras medidas complementares.

Entre elas, destaca o reforço da fiscalização, a protecção dos ecossistemas costeiros, a melhoria da gestão dos recursos pesqueiros e, sobretudo, a criação de fontes alternativas de rendimento para as comunidades.

Segundo o especialista, durante os períodos de defeso, muitas famílias ficam praticamente sem qualquer actividade económica, tornando-se mais vulneráveis e aumentando a pressão para o incumprimento das restrições impostas.

A aposta em actividades agrícolas, aquacultura, pequenos negócios e outras iniciativas geradoras de rendimento poderá reduzir essa dependência exclusiva da pesca e contribuir para uma exploração mais sustentável dos recursos marinhos.

O debate surge numa altura em que Moçambique procura consolidar a chamada Economia Azul como um dos pilares do crescimento económico nacional.

Nesse contexto, garantir a sustentabilidade da pesca artesanal representa não apenas uma questão ambiental, mas também um desafio económico e social.

A redução contínua das capturas ameaça milhares de empregos directos e indirectos, afecta a segurança alimentar das comunidades costeiras e pode comprometer uma cadeia de valor que movimenta comerciantes, transportadores, processadores e mercados locais.

Enquanto decorrem as discussões sobre a revisão da veda, os pescadores continuam a fazer aquilo que aprenderam ao longo da vida: sair para o mar todos os dias, na esperança de que a próxima maré traga o peixe que hoje parece escapar cada vez mais das redes.

Partilhe

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos