O País – A verdade como notícia


ÚLTIMAS

Destaques

NOTÍCIAS

Grande parte das habitações erguidas nas zonas periféricas da cidade é construída com blocos de adobe e coberta de capim, tornando-se altamente vulnerável durante a época chuvosa. Especialistas defendem a disseminação de técnicas que permitam reforçar a resistência dos materiais de construção locais.

Na zona de expansão do bairro de Namicopo, na periferia da cidade de Nampula, centenas de famílias vivem em habitações construídas com blocos de adobe de fraca consistência e cobertas de capim, uma realidade que evidencia a precariedade habitacional e a vulnerabilidade da população perante as intempéries.

As casas são erguidas sobre fundações frágeis e as paredes levantadas sem observância dos requisitos técnicos mínimos da construção civil, facto que faz com que muitas não resistam às chuvas intensas e aos ventos fortes que se fazem sentir durante a época chuvosa. Para os moradores, o risco de desabamento faz parte do quotidiano.

Os residentes reconhecem que a queima dos blocos de adobe aumentaria a sua resistência, mas admitem que esta prática raramente é adoptada, sobretudo por falta de recursos financeiros e de conhecimentos técnicos.

As dificuldades económicas impedem igualmente muitas famílias de construir habitações em alvenaria ou de utilizar chapas metálicas na cobertura. Como alternativa, recorrem ao capim, recolhido nas zonas de mato, numa actividade desempenhada maioritariamente por mulheres, que percorrem longas distâncias transportando à cabeça pesados molhos daquele material.

Cada molho de capim é vendido por cerca de 150 meticais, constituindo uma solução mais acessível para quem não dispõe de meios para adquirir materiais convencionais de construção.

Perante esta realidade, especialistas defendem a valorização dos recursos locais através da introdução de técnicas simples que permitam melhorar a qualidade e a resistência das habitações.

O engenheiro civil e empreiteiro Jorge Maculuve considera que as comunidades devem receber formação sobre métodos de produção de blocos mais resistentes, recorrendo a materiais disponíveis localmente.

Entretanto, a Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Lúrio desenvolveu e testou uma solução baseada na incorporação de produtos encontrados localmente na composição do adobe, permitindo aumentar significativamente a resistência dos blocos sem necessidade de os submeter ao processo de queima.

Segundo o arquitecto e planeador físico Elso Amone, os ensaios laboratoriais confirmaram a eficácia da tecnologia. O principal desafio consiste, agora, na transferência deste conhecimento para as comunidades, permitindo a construção de habitações mais seguras, resistentes e adaptadas às condições locais.

Vídeos

NOTÍCIAS

Um total de nove escolas entre primárias e secundárias foram vandalizadas por alunos em Nampula. O director provincial da Educação naquela província classificou a situação de preocupante e diz que os prejuízos são enormes.

Desde Junho a esta parte nove escolas da província de Nampula foram vandalizadas por um grupo de alunos que vêm semeando terror em vários estabelecimentos de ensino. O director provincial de educação em Nampula referiu que por conta disso  nove alunos foram penalizados e os prejuízos decorrentes desta situação são enormes.

A Escola  Secundária de Cossore, localizada no bairro de Muatala, na cidade de Nampula, faz parte da estatística das escolas vandalizadas. Aqui os alunos destruíram carteiras, quadros e portas.

Entretanto, o problema continua a ganhar  proporções alarmantes na Escola Secundária de Muapara também localizada na cidade de Nampula, onde alunos e guardas dizem estar  a passar momentos difíceis devido à presença constante de um grupo de estudantes que agridem seus colegas e vandalizam salas de aulas.

O especialista para  área de Educação, Adelino Assane, entende que a destruição de infra-estruturas escolares por alunos  na Província de Nampula demonstra que as comunidades já não veem a importância da educação formal.

Esta sexta-feira o director provincial de Educação reuniu-se com todos directores das escolas da cidade de Nampula para discutir os problemas ligados à educação.

A Black Bulls e o Ferroviário de Maputo têm a oportunidade de se redimirem dos empates alcançados na primeira mão dos respectivos jogos referentes à primeira eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões e da Taça CAF, respectivamente. Os dois representantes moçambicanos jogam hoje e amanhã na Matola, para a segunda mão.

Dois jogos, sendo um hoje (sexta-feira) e outro amanhã (sábado), marcam o futuro das equipas moçambicanas nas competições africanas de clubes, no que diz respeito aos objectivos de marcarem presença na fase de grupos da Liga dos Campeões e Taça CAF.

A Black Bulls, que joga no sábado diante do AC Leopards da República Democrática do Congo, tem no seu público o cavalo de batalha para derrotar um adversário que se mostrou acessível no jogo da primeira mão, em Brazzaville, onde empatou sem abertura de contagem.

Nesse desafio, os “touros” jogaram com menos uma unidade após expulsão de Nené, no início da segunda parte, após travar o último homem da equipa adversária que seguia isolado para a baliza de Ernan.

Será, do resto, uma grande baixa para a campeã moçambicana, que quer aproveitar o factor casa para se redimir e procurar chegar na segunda eliminatória da prova.

A Black Bulls tem estado a oscilar nos seus resultados em provas internas, nomeadamente no Moçambola, onde em 13 jogos venceu sete, empatou três e perdeu outros três jogos, não vencendo os seus últimos dois jogos, com empates sem abertura de contagem.

Por seu turno, o Ferroviário de Maputo não foi além de um empate a uma bola na recepção ao AS Fanamalanga do Madagascar, na primeira mão da Taça Nélson Mandela, realizado no sábado no Estádio Nacional do Zimpeto.

Foi um jogo em que os “locomotivas” tiveram de correr atrás do prejuízo, uma vez que a equipa visitante foi a primeira a inaugurar o activo à passagem do minuto 65, com o empate a chegar aos 82 minutos por intermédio de Telinho.

Na segunda mão, marcada para esta sexta-feira, 26 de Setembro, o vencedor da Taça de Moçambique vai continuar a jogar “em casa”, uma vez que o jogo terá lugar na Arena Lalgy, em Tchumene, em virtude dos malgaxes não terem estádio aprovado pela CAF para acolher jogos internacionais. 

É, pois, uma oportunidade para o Ferroviário de Maputo limpar a má imagem deixada na primeira mão e procurar sair com a vitória que garanta a passagem à segunda eliminatória da competição.

Custódio Gune antevê muitas dificuldades no jogo diante do AC Léopards, amanhã, pontuável para a segunda mão da pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos. Ainda assim, o treinador-adjunto da Black Bulls garante que a equipa fará de tudo para passar a eliminatória.

É o jogo que vai definir a equipa que passa para a segunda fase da Liga dos Campeões Africanos. A Black Bulls está ciente disso, por isso só pensa apenas em um resultado. 

Para tal, o representante moçambicano já tem a estratégia definida para ultrapassar a turma congolesa. 

O jogo entre as duas formações será disputado, este sábado, no Complexo Desportivo de Tchumene.

Os governos da República Democrática do Congo e Ruanda concordaram, ontem, em iniciar a implementação de medidas de segurança conjuntas para dar um passo crucial rumo à estabilidade regional, com apoio dos Estados Unidos da América.  

Na sequência de uma reunião em Washington, mediada pelos Estados Unidos, com apoio de Qatar, Togo e União Africana, espera-se que o acordo oficial entre a República Democrática do Congo e Ruanda seja assinado e entre em vigor em Outubro próximo.

A decisão é considerada estratégica para destravar o processo de paz, que ainda enfrenta desconfianças e impasses, sobretudo quanto à presença do grupo armado M23 no Congo, supostamente apoiado por Ruanda. 

A reunião em Washington foi marcada por divergências entre os governos sobre o M23, mas estes ponderam desmantelar o grupo rebelde e suspender as acções de Ruanda no território congolês.

O Mecanismo Conjunto de Coordenação de Segurança iniciou a troca de informações e planeamento de acções coordenadas em solo, com base em inteligência compartilhada para reduzir tensões e evitar confrontos directos, além de oferecer uma estrutura de monitoramento que possa garantir a execução do pacto.

A segunda edição do fórum Unstoppable Africa 2025, em Nova York, recentemente, destacou a transformação digital e a inovação financeira como motores do crescimento africano. O evento, realizado à margem da Assembleia Geral da ONU, reuniu líderes políticos e empresariais que reforçaram o compromisso com soluções endógenas e sustentáveis para o desenvolvimento do continente.

Entre os anúncios de maior relevo está a criação da primeira rede africana de fábricas de inteligência artificial, projectada por Strive Masiyiwa e equipada com tecnologia de ponta da NVIDIA, com conclusão prevista para 2026. A Meta também reafirmou o seu interesse no ecossistema digital africano, com novos investimentos orientados para a expansão da conectividade e da IA.

No sector financeiro, a Africa Finance Corporation, em colaboração com fundos de pensões africanos, lançou a iniciativa “Africa Savings for Growth”, que pretende mobilizar mais de mil milhões de dólares para projectos de crescimento inclusivo e infra-estruturas críticas. Este movimento visa reduzir a dependência de financiamento externo e estimular o investimento local.

A GABI apresentou ainda dois percursos estratégicos focados na transformação digital e nos cuidados de saúde, com objectivos que incluem a modernização dos serviços públicos, a formação tecnológica e o reforço das cadeias logísticas no sector médico. África, ao apostar nos seus próprios recursos e talentos, dá sinais claros de querer ocupar um lugar central na economia global do futuro.

Segundo dados divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), são mais de 3600 pessoas que fugiram, em quatro dias, de dois distritos de Cabo Delgado, devido ao recrudescimento dos ataques terroristas naquela província do Norte do país.

De acordo com um relatório do terreno daquela agência das Nações Unidas, “entre 19 e 22 de Setembro de 2025, a escalada de ataques e a insegurança provocada por grupos armados” em Cabo Delgado “desencadearam novos deslocamentos nos distritos de Balama e Mocímboa da Praia”.

Acrescenta que um ataque na aldeia de Monapo, posto de Mavala, distrito de Balama, em 19 de Setembro, “forçou 2121 pessoas a fugirem para a localidade de Ntete”, no mesmo distrito.

Ainda neste período, novos incidentes em Mocímboa da Praia, particularmente nos bairros 30 de Junho e Filipe Nyusi, deslocaram 1185 pessoas, “com a maioria a procurar segurança no distrito de Mueda”.

“Alimentos, abrigo e serviços de protecção foram relatadas como as necessidades mais urgentes”, lê-se no relatório, que totaliza nestes quatro dias 3607 deslocados, equivalente a 831 famílias, incluindo 44 grávidas e 71 idosos.

Populações de Intutupue, Ancuabe e Impiri, Metuge, em Cabo Delgado, relataram momentos de pânico com a passagem por aquelas comunidades de grupos armados de supostos terroristas.

Segundo fontes locais, o movimento começou cerca das 07h00 de quarta-feira, quando um grupo de homens, empunhando catanas e outras armas, atravessou a Estrada Nacional Número 1 (EN1), no limite entre Intutupue, Ancuabe e Impiri, Metuge, para o distrito de Chiúre, criando desespero entre os moradores, que abandonaram as residências receando estes grupos que atuam em Cabo Delgado, província rica em gás, desde 2017.

A província de Cabo Delgado regista um recrudescimento de ataques de grupos rebeldes desde julho, tendo sido alvos os distritos de Chiúre, Muidumbe, Quissanga, Ancuabe, Meluco e mais recentemente Mocímboa da Praia, com registo de vários mortos.

A  falta de limpeza de valas de drenagem e a não remoção de lixo nos bairros periféricos da cidade de Nampula é um problema muito antigo. Os munícipes dizem estar agastados com a situação e exigem soluções urgentes por parte da edilidade local.

“As pessoas deitam lixo aqui a confiar na época chuvosa, muitas vezes. Nós, que vivemos perto daqui, sofremos. Nos tempos chuvosos, todo esse lixo, em vez de passar aqui dentro da vala, sai daqui e entra nos nossos quintais, entra nas nossas casas e nós acabamos por passar mal com o assunto dos mosquitos. Isso pode vir a provocar doenças como malária e cólera”, reclama um dos munícipes.

Como resposta, o presidente do Conselho Municipal de Nampula, Luís Giquira, disse que vai iniciar, neste sábado, uma campanha massiva para a remoção de resíduos sólidos e limpeza das valas de drenagem.

“Essa limpeza e saneamento vai servir exactamente para a retirada de todo o lixo que tenha obstruído a circulação da água uma vez que ao chegar a época chuvosa poderemos ter melhor circulação da água dentro da nossa urbe. Vamos, também, com esta campanha, fazer uma prevenção, sensibilização a todos os munícipes para ver se conseguimos evitar a cólera na nossa cidade”, disse Luís Giquira.

O edil realçou ainda que faltam dois meses para começar a época chuvosa, por isso “nós estamos, a partir de já, a nos preparar para ver se conseguimos minimizar os danos que podem vir das chuvas deste ano”.

A iniciativa, denominada Orera Wamphula, conta com o reforço de meios circulantes que custaram cerca de dez milhões de meticais aos cofres da edilidade.

O edil de Nampula reconhece por outro lado que continua um grande desafio fazer a gestão do lixo nos mercados, sobretudo, no mercado grossista Waresta, o maior da Zona Norte do país.

“Nós estamos a apoiar no investimento, mais ou menos, na ordem de 10 milhões de meticais, para que sejam destes meios que hoje estamos aqui a fazer presentes aos munícipes para podermos iniciar a nossa campanha. Em princípio, até Março do próximo ano vamos estar no terreno, em todos os Postos Administrativos e vamos fazer a nossa campanha de saneamento. Eu quero dizer ainda que estamos a receber mais meios, e estamos à procura de fundos para adquirir mais três caminhões de recolha do lixo”, frisou.

As autoridades municipais reconhecem ainda que a exiguidade de fundos está por trás da deficiente recolha e tratamento de resíduos sólidos.

 

A ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, admite a possibilidade de ajustar o calendário escolar como forma de mitigar os impactos da época chuvosa. A governante garante ainda a distribuição antecipada do livro escolar em todo o país.

A época chuvosa 2025–2026 pode chegar mais cedo, e, com ela, as cheias. O alerta é da Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos, que prevê chuvas acima do normal já a partir de Outubro, com risco de inundações em várias províncias. 

A situação está a preocupar o sector da Educação, que já admite ajustar o calendário escolar, especialmente durante o período de exames. “Nós todos sabemos que na época dos exames nos deparamos com a questão das chuvas. Então, nós esperamos que, finais de Outubro, Novembro, possamos ter uma época um bocadinho mais calma, que é para os nossos meninos poderem realizar os exames em paz e com maior segurança, mas, em todo o caso, nós vamos consultar, portanto, o serviço meteorológico”, começou por dizer.

Ademais, de acordo com Samaria Tovela, o controlo da época chuvosa é o mais importante para o seu ministério. “E vermos como é que estará a situação, principalmente na altura dos exames, que é para melhor nos organizarmos. Melhor nos organizarmos significa termos alternativas e vermos como nós organizamos alunos efectivamente para fazer o exame num sítio mais seguro, realçando que o mais importante é reorganizar o calendário lectivo.

Uma das soluções apontadas pela ministra da Educação é a necessidade de articulação com o Instituto Nacional de Meteorologia. Por isso, “nós temos de trabalhar com o serviço meteorológico, para vermos exactamente quais são as épocas mais críticas, que é para nós daí podermos planificar. Esse é que será o nosso exercício, para não sermos apanhados em contrapé, ou seja, que estejamos preparados. É basicamente isso. Temos que nos preparar”, salientou.

Sobre a distribuição do livro escolar, a ministra da Educação diz que o sector está a identificar armazéns distritais do Estado, para guardar os manuais mais próximos das escolas.

“Nós já estamos a receber os livros. O que estamos a fazer, agora, é identificar os locais, a nível dos distritos, todos os armazéns, que sejam do Estado, que sejam propriedade do Estado, para podermos ir colocando os livros lá, com a maior segurança, para estarem perto da escola”, disse.

Samaria Tovela sublinhou ainda a importância de garantir acesso à água potável nas escolas.

 

Dois agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM), em Inhambane, foram condenados a penas que chegam aos oito anos de prisão maior, acusados de liderar um esquema de venda de vagas para ingresso na Escola Prática de Matalana. O julgamento, seguido de perto pela opinião pública, expôs um dos mais graves escândalos de corrupção dentro das fileiras da polícia nos últimos anos e terminou com uma sentença exemplar, lida pelo juiz David Foloco, da segunda secção do Tribunal Judicial da Província de Inhambane.

Segundo a acusação do Ministério Público, os agentes, identificados como Mário Eduardo António e Euclídio Nogueira, usaram as suas posições para organizar e liderar um esquema ilegal entre 2021 e 2022, durante os processos de admissão aos cursos 41 e 42 da Escola Prática de Matalana. Para garantir entrada aos candidatos, exigiam pagamentos que variavam entre 50 mil e 120 mil meticais, valores exorbitantes para jovens que aspiravam fazer parte da polícia. No total, o grupo arrecadou mais de 800 mil meticais, dinheiro que circulava em contas móveis e bancárias dos próprios agentes.

A leitura da sentença foi marcada por rigor e firmeza. “Considerando a acusação procedente e provável, com base nos factos acima indicados, decido em nome do povo moçambicano e condeno o arguido Mário Eduardo António pelos crimes de abuso de cargo ou função, na pena de um ano de prisão e dez meses de multa, com taxa diária de dois cêntimos de meticais sobre o salário mínimo da função pública. Pelo crime de simulação de competência, aplico a pena de quatro anos de prisão e 18 meses de multa, e pelo crime de associação criminosa, três anos de prisão. Em cúmulo jurídico, o arguido é condenado a pena única de oito anos de prisão e 28 meses de multa, além da taxa diária já indicada”, declarou o juiz David Foloco perante o tribunal.

No caso de Euclídio Nogueira, o tribunal entendeu haver provas inequívocas do seu envolvimento no esquema e determinou uma condenação de sete anos de prisão maior, pelo crime de associação criminosa. “Da perda clássica, prevista nos termos do artigo 137 do Código Penal, o valor apreendido nas contas bancárias e móveis tituladas pelos arguidos é declarado perdido a favor do Estado moçambicano, para o qual deve ser depositado”, prosseguiu o magistrado.

A sentença não se limitou às penas de prisão. O tribunal foi além e aplicou medidas de perda alargada, previstas na legislação sobre recuperação de activos. Todos os bens e património incongruente dos arguidos foram declarados perdidos a favor do Estado, incluindo imóveis e automóveis registados em seu nome. “Ao abrigo do regime jurídico especial da perda alargada de bens e recuperação de activos, declara-se perdido o património incongruente dos arguidos, devendo ser registado a favor do Estado na Conservatória do Registo Predial e Automóvel”, destacou Foloco.

No capítulo das penas acessórias, o juiz determinou ainda que os réus ficam proibidos de exercer qualquer função pública durante um período de três anos, por terem “perdido a confiança com o Estado moçambicano”. Foi igualmente fixada a obrigação de indemnizar as vítimas em sede de execução de sentença, consoante os prejuízos sofridos por cada uma. Para além disso, cada um dos condenados terá de pagar 800 meticais de imposto de justiça.

O tribunal sublinhou a gravidade do esquema, lembrando que este tipo de prática não só mina a confiança dos cidadãos nas instituições policiais, como também abre portas para que indivíduos não qualificados ingressem nas fileiras da PRM, colocando em causa a segurança pública. Para muitos candidatos e famílias que recorreram a este expediente, o sonho de servir o país transformou-se em frustração e perda financeira.

A decisão, considerada exemplar, envia um recado claro: a justiça moçambicana está disposta a endurecer a mão contra esquemas de corrupção que corroem a função pública. “Trata-se de um crime que fere a confiança depositada pelo povo moçambicano na Polícia da República de Moçambique e que não pode ficar impune”, frisou o magistrado, acrescentando que a corrupção tem de ser combatida com firmeza para salvaguardar a integridade do Estado.

Em Inhambane, a condenação foi recebida como um marco na luta contra a corrupção. Para alguns analistas, o caso mostra que a impunidade dentro da corporação já não é tolerada e que o sistema judicial começa a dar sinais mais fortes de combate a este tipo de crimes. Contudo, a questão que se levanta é se este julgamento terá um efeito dissuasor suficiente para travar práticas semelhantes noutras províncias do país.

A Escola Prática de Matalana é a principal porta de entrada para jovens que desejam ingressar na PRM. O processo de admissão é altamente concorrido, envolvendo milhares de candidatos por cada curso. A revelação de que vagas eram vendidas clandestinamente, a preços que variavam entre 50 mil e 120 mil meticais, levantou sérias dúvidas sobre a transparência da instituição e gerou forte indignação na sociedade.

Para as famílias que perderam poupanças, muitas vezes resultantes de empréstimos e sacrifícios, a decisão judicial traz algum alento, ainda que não apague os danos sofridos. O tribunal determinou que os réus devem ressarcir os valores cobrados, embora esse processo dependa agora da fase de execução da sentença.

O caso dos agentes condenados em Inhambane pode vir a servir de precedente importante para outros processos semelhantes, reforçando a necessidade de maior vigilância e mecanismos de controlo interno na PRM. A questão que se coloca é: como garantir que esquemas deste tipo não voltem a acontecer e que a integridade da polícia não seja novamente manchada por práticas de corrupção?

Para já, o tribunal deixou claro que, em nome do povo moçambicano, este tipo de crimes não pode passar impune. A condenação de Mário Eduardo António e Euclídio Nogueira não é apenas uma vitória da justiça, mas também um aviso: a função pública não pode ser usada para enriquecer à custa da esperança e da confiança dos cidadãos.

+ LIDAS

Siga nos

Galeria