Quantas vezes um homem do bairro de Mavalane ou das províncias de Gaza e Inhambane precisa de ouvir “muka kaya kwako” (volta para a tua casa) antes de perceber que, em certos lugares de África, ser africano é crime suficiente para morrer?
Assa Matusse nasceu a 12 de Junho de 1994, numa família de cinco irmãos, no bairro de Mavalane, na cidade de Maputo. Cresceu entre os acordes da guitarra do pai, que a inspiraram a compor a música Txintxile. Ainda criança, participou nos concursos da STV; em 2013 conquistou o prémio Revelação Feminina do Ngoma Moçambique; posteriormente seguiu para a Noruega para prosseguir os seus estudos e venceu concursos internacionais, entre os quais o The Voice of Pangea, em Madrid, competindo com artistas locais. Cantou na UNESCO, em Paris, e na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Actualmente reside em França.
O mundo recebeu Assa Matusse de braços abertos. Mas foi em xi-Changana, uma das línguas faladas em Mavalane, a língua que o mundo pouco conhece, que ela encontrou as palavras certas para dizer aquilo que lhe aconteceu. E o que lhe aconteceu tem nome: “vanibzela xisiwana” (chamaram-me pobre), “vaninyika banana” (deram-me banana), “vaku muka kaya kwaku” (disseram-me: volta para a tua casa).
Txintxile é uma música sobre a humilhação que precede a transformação. Para a compreender verdadeiramente, é preciso resistir à tentação de a ler apenas como uma narrativa de superação pessoal, porque a humilhação que Assa descreve não é abstracta. Tem endereço. Tem autores. Tem um padrão que se repete há décadas. A experiência de Assa não é um episódio individual; é colectiva, secular e actual, como se pode constatar em diversos relatórios e reportagens.
“Bantu vaka Zulo vaniphata kahle” — os bantus zulus desprezaram-me profundamente.
Não se trata de uma metáfora. É uma denúncia etnicamente localizada. Assa não diz “os sul-africanos”; diz “os zulus”. E essa precisão constitui um acto de coragem crítica. Porque nomear é o primeiro passo para impedir o esquecimento. Importa ressalvar que esta crítica não é generalizável a todos os zulus, mas sim aos indivíduos que adoptam comportamentos xenófobos, aqui descritos.
O que os bantus zulus fizeram à personagem da música corresponde precisamente ao que a xenofobia sul-africana tem feito sistematicamente aos moçambicanos: humilhando-os, oferecendo-lhes migalhas, bananas, pipocas ou pão, como quem alimenta um animal, para depois lhes dizer: “muka kaya kwako”. A sequência é quase sempre a mesma. Primeiro desumanizam. Depois expulsam. E, quando querem, matam.
“Vatlhela vanikwapa ningagwenti nchumu” — e bateram-me até eu não aguentar mais.
Este verso é talvez o momento mais honesto da música. Não representa fraqueza; representa verdade. Porque antes da transformação existe sempre um instante em que o corpo cede. Um instante em que já não se suporta mais. Em que se está, como Assa canta, “nidjawile” — frita, vencida, entregue, acabada. E, por vezes, morta.
Segundo a DW África (9 de Junho de 2026), uma vaga de violência xenófoba em Mossel Bay, na província do Cabo Ocidental, resultou na morte de nove cidadãos moçambicanos. Esta escalada afectou mais de 800 imigrantes e levou à deportação de cerca de 700 moçambicanos pelas autoridades sul-africanas.
Estes homens partiram para a África do Sul pelo mesmo motivo que levou Assa à Noruega: a procura de uma vida melhor. A procura do Txintxile, da transformação, da mudança, da vitória sobre a pobreza. Foram para o país vizinho, o país irmão, o país que Moçambique ajudou a libertar do apartheid com sangue e sacrifício. Mas foram recebidos com bananas, pancadas e o inevitável “muka kaya kwako”.
E há aqui uma geografia da dignidade. Assa saiu de Mavalane para a Europa e recebeu um “sim” de Madrid, Paris, Lisboa e de muitos outros lugares. Uma moçambicana que canta em xi-Changana foi acolhida nas maiores salas de espectáculos europeias com aplausos.
Já muitos moçambicanos atravessaram a fronteira para o país vizinho e foram recebidos com violência e morte. A violência xenófoba na África do Sul apresenta um padrão racial e geográfico muito específico: a esmagadora maioria das vítimas pertence às comunidades africanas negras oriundas da SADC. Moçambicanos, zimbabueanos, malawianos, etíopes, somalis, congoleses e nigerianos figuram recorrentemente entre os principais alvos de ataques, pilhagens e assassinatos. O fenómeno pode ser interpretado mais como uma forma de afrofobia socialmente racializada do que como uma xenofobia universal.
É exactamente isso que torna Txintxile uma música política, de uma profundidade que talvez a própria Assa não tenha calculado quando a escreveu. Porque ela não canta sobre europeus que a humilharam. Canta sobre os “Bantu Vaka Zulu”, irmãos de sangue bantu e de história partilhada que a trataram como lixo.
A questão que esta música coloca — e que os corpos de Mossel Bay tornam urgente — é esta: se nem dentro de África um africano está seguro, onde é que a dignidade negra encontra morada?
“Mina ke se Txintxile” — eu já mudei. Eu venci. Eu transformei-me.
Este refrão, repetido oito vezes no final da música, constitui uma afirmação obstinada de liberdade e humanidade num mundo que frequentemente as nega. Cada repetição é uma resposta a cada humilhação da primeira parte. Chamaram-te pobre? Txintxile. Disseram-te para voltares para casa? Txintxile.
A música não oferece respostas, e talvez nem precise de o fazer. O seu mérito está noutro lugar: transforma a violência em memória, mas deixa ao ouvinte a tarefa mais difícil de todas — imaginar o que fazer depois dela. A música oferece consciência. E a consciência, quando é honesta, é sempre o início de uma grande mudança. Txintxile. Mesmo quando esse começo dói.
E quando nenhuma outra palavra foi suficiente para descrever a dor por que passou, o corpo continuou a cantar: “sabubeu stiripe, se Txintxile djambeeee”. Assa recorreu a palavras sem significado específico, como se, depois de tudo o que foi dito, o único acto de dignidade que restasse fosse este: cantar sem pedir autorização a ninguém para ser compreendida.
Mas os mortos de Mossel Bay não chegaram ao refrão. Foram interrompidos antes do Txintxile. Não mudaram as suas vidas. Não tiveram tempo de regressar a casa. Não tiveram dignidade. Não tiveram Ubuntu.
DW África. (2026, junho 9). Governo tenta trasladar corpos de cidadãos moçambicanos. https://www.dw.com/pt-002/governo-tenta-trasladar-corpos-de-cidad%C3%A3os-mo%C3%A7ambicanos/a-77468665
Landau, L. B. (2026, junho 5). South Africa’s worsening xenophobia exposes a broken economic promise. African Centre for Migration & Society. https://migration.org.za/south-africas-worsening-xenophobia-exposes-a-broken-economic-promise/
O País. (2026, junho 2). Xenofobia na África do Sul volta a criar pânico aos moçambicanos. O País. https://opais.co.mz/xenofobia-na-africa-do-sul-volta-a-criar-panico-aos-mocambicanos/