FEMATRO mantém negociações com o Governo sobre o aumento dos preços, numa altura em que os transportadores estão divididos quanto à proposta de incremento de cinco meticais e à reivindicação de 20 meticais.
O preço dos transportes públicos poderá agravar-se a partir de 1 de Novembro, no contexto das negociações entre a Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO) e o Governo sobre as compensações aos operadores.
Apesar de ainda não haver uma data definida para o pagamento das compensações, os transportadores continuam divididos quanto à proposta de incremento de cinco meticais nas tarifas. Enquanto uma parte admite aceitar o valor, desde que se mantenha o subsídio atribuído pelo Governo, outros defendem a proposta submetida pela FEMATRO, que prevê um aumento de 20 meticais.
Perante a falta de consenso, a Federação anunciou que vai retomar as negociações com o Executivo, com vista à identificação de uma solução que responda às preocupações dos transportadores e dos passageiros.
A indefinição em torno das compensações e do reajustamento das tarifas surge numa altura em que havia uma tendência de paralisação dos transportes para segunda-feira, 12 de Outubro. Entretanto, a FEMATRO apelou aos operadores para não avançarem com a suspensão das actividades, defendendo a continuidade do diálogo com o Governo.
Segundo a Federação, os transportadores deram um voto de confiança à sua direcção para prosseguir com as negociações. O ponto de situação deverá ser apresentado numa nova reunião, marcada para 26 de Outubro.
A FEMATRO considera que o aumento das tarifas é necessário para garantir a rentabilidade da actividade e melhorar as condições de operação do transporte público no país. A Federação defende que os operadores precisam de receitas suficientes para continuar a prestar serviços e assegurar condições de trabalho adequadas.
Entretanto, o eventual agravamento dos preços poderá representar um encargo adicional para os passageiros, que aguardam por uma solução para o diferendo entre os transportadores e o Governo.
Pescadores de ostras em Inhambane enfrentam dificuldades para escoar a produção, numa altura em que a falta de mercado tem provocado perdas e reduzido o rendimento das famílias. Para inverter o cenário, surgem iniciativas que promovem feiras de ligação directa entre pescadores e compradores, numa tentativa de fortalecer a cadeia de valor e dar novo fôlego ao sector.
Pescadores de ostras na província de Inhambane estão a enfrentar dificuldades no escoamento da produção, devido à falta de mercado, situação que tem provocado perdas e redução dos rendimentos das famílias dependentes desta actividade.
As ostras, muito apreciadas na gastronomia moçambicana, representam uma importante fonte de rendimento para comunidades costeiras. No entanto, a pressão crescente sobre os recursos marinhos tem reduzido a sua abundância, afectando directamente a actividade pesqueira artesanal.
“Antigamente tirávamos mapalo… quando é pequeno nós fazemos veda, deixamos crescer e só depois fazemos a abertura quando já está grande”, explicou a pescadora Luísa Arone, destacando práticas locais de conservação.
Com a diminuição das capturas, os pescadores enfrentam também dificuldades na comercialização do produto. Muitos relatam longas deslocações em busca de compradores, sem sucesso garantido.
“Sofríamos com as nossas ostras… levávamos até Macunhe, Vilankulo e outros lugares, mas não conseguíamos ninguém para comprar”, afirmou o pescador Félix Manuel, acrescentando que a situação tem melhorado com novas oportunidades de venda directa.
Este fim-de-semana, foi realizada uma iniciativa que juntou pescadores, compradores e consumidores num único espaço, promovendo o contacto directo e a criação de novas oportunidades de negócio.
A acção enquadra-se num projecto da WWF Moçambique, que pretende dinamizar feiras regulares para fortalecer a cadeia de valor da ostra e reduzir perdas associadas à falta de mercado.
Segundo o representante da organização, Calisto Vilanculos, o objectivo é aproximar os diferentes intervenientes da cadeia produtiva e garantir melhores condições de comercialização.
“A pretensão é fazer a ligação, para que os comerciantes, neste caso, possam ter a oportunidade de interagir também com diversos intervenientes que podem ter interesse na ostra, não só. Sabemos que as comunidades enfrentam algumas dificuldades, por causa das acessibilidades locais onde estão estes recursos, e muitas das vezes elas não conseguem colocar os seus produtos em pontos estratégicos, por causa dessas limitações, dessas áreas. Então, tendo estes produtos numa única área e também tendo vários comerciantes e vários produtores, neste caso, vários comerciantes e vários compradores, é possível ter maior competitividade do processo e vendermos o produto a melhor preço e as comunidades saírem a ganhar e, consequentemente, a resolver os problemas básicos que elas enfrentam dentro das suas famílias”, explicou.
Para além da componente comercial, as comunidades piscatórias estão também a receber formação em técnicas de pesca sustentável e em actividades alternativas de geração de rendimento, com o objectivo de reduzir a pressão sobre os recursos marinhos e garantir a sustentabilidade do sector.
Grupos de defesa do clima alertam que o adiamento do encerramento de usinas termelétricas a carvão na África do Sul pode levar à morte de até 32 mil pessoas entre 2026 e 2050. A zona industrial mais poluente do país dista a 300 quilómetros de Maputo.
Cerca de 80% da energia da África do Sul é fornecida pelas usinas termelétricas a carvão, uma das fontes energéticas que mais poluem o ambiente. Devido a esta e outras situações, a África do Sul ocupa a 11ª posição em emissões de gases de efeito estufa no mundo.
Embora o país esteja no caminho do cumprimento do Acordo de Paris, para limitar o aquecimento global, no ano passado o governo aprovou a prorrogação do prazo de operação de 14 usinas termelétricas a carvão, duas delas até 2050, contra o prazo inicial de 2030.
Entretanto, um relatório de organizações ambientais baseadas na terra do Rand, aponta que o atraso no encerramento das usinas, baseadas em Mpumalanga província fronteiriça com Moçambique, poderá levar a milhares de mortes e provocar 41 mil partos prematuros.
Boa parte das usinas de carvão estão no Mpumalanga, incluindo 12 centrais de energia eléctrica a carvão da estatal Eskom. A província que até 2024 concentrava cerca de 800.000 moçambicanos, tem um dos ares mais poluídos pela concentração de dióxido de nitrogénio.
A presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, prometeu uma reforma constitucional em resposta à violência pós-eleitoral do ano passado, que deixou centenas de mortos.
A promessa da presidente da Tanzânia surgiu após o anúncio das conclusões, nesta quinta-feira, da comissão governamental criada para investigar o derramamento de sangue naquele país da África Oriental depois da violência pós-eleitoral.
Segundo as conclusões, 518 pessoas foram mortas e pelo menos 2 mil ficaram feridas, dados que, para Hassan, vão orientar emendas constitucionais, incluindo a criação de uma comissão de reconciliação.
Além disso, a presidente também anunciou a criação de um órgão de investigação criminal para revisar a agitação pós-eleitoral.
O presidente também anunciou a formação de um órgão de investigação criminal para analisar os distúrbios ocorridos após as eleições.
“O que aconteceu em Outubro de 2025 não interrompeu nem diminuiu os problemas que enfrentamos como país. O caos se instaurou, mas o caos e a violência não resolveram nossos problemas. Pelo contrário, agravaram-nos”, disse Hassan, citada por African News.
Ela afirmou que o órgão irá identificar aqueles que planejaram, financiaram e estiveram envolvidos em actos criminosos como saques e danos à infra-estrutura.
Hassan afirmou que a investigação também abrangerá casos de corpos desaparecidos e alegações de sequestros.
Refira-se a Tanzânia foi palco de violência pós-eleitoral em 29 de Outubro, após jovens saírem às ruas acusando o Governo de silenciar a oposição, enquanto o líder do principal partido de oposição permanecia preso por traição e o candidato presidencial do segundo maior partido de oposição estava impedido de concorrer.
O Parlamento aprovou hoje, por consenso, duas propostas de lei que regulam a governação descentralizada provincial. Trata-se de uma revisão que vai permitir ao Estado poupar mais de 1,2 mil milhões de meticais por ano, e que, entre outros, extingue o Conselho dos Serviços de Representação do Estado.
A revisão das leis que regulam a governação descentralizada no país já era bastante esperada, depois de serem notadas inconsistências, disfunções e redundâncias institucionais que fragilizam a eficiência do Estado.
Há duas semanas, o Presidente da República, Daniel Chapo, solicitou à Assembleia da República a apreciação, com carácter de urgência, das propostas de lei de revisão dos instrumentos.
A extinção do Conselho de Serviços de Representação de Estado, uma estrutura colegial que inclui vários serviços, é uma das medidas resultantes da adopção dos instrumentos, segundo explicou o ministro da Administração Estatal e Função Pública.
Falando aos deputados, durante a apreciação dos instrumentos, Impissa explicou que a revisão da lei 4/2019 ajusta as funções do governador da província.
Depois da apreciação, as duas propostas de lei foram aprovadas por consenso.
Para os deputados, a revisão vai trazer ganhos ao Estado.
Mesmo a favor, o Podemos e o MDM dizem que a expectativa era de que fosse eliminada a figura do secretário de Estado, cuja existência é determinada pela Constituição da República.
A revisão das propostas de lei vai também permitir poupar recursos do Estado, na ordem de 1,2 mil milhões de meticais por ano.
A Presidente da Assembleia da República, Margarida Adamugi Talapa, recebe na próxima Segunda-feira, na sede do Parlamento moçambicano, em Maputo, o Presidente da Assembleia Nacional de Angola, Adão Francisco Correia de Almeida, no âmbito da visita oficial, que efetuará a Moçambique.
A visita insere-se no quadro do reforço das relações de amizade, solidariedade e cooperação entre os Parlamentos e os povos dos dois países.
A chegada do Presidente da Assembleia Nacional de Angola está prevista para o dia 26 de Abril, ao Aeroporto Internacional de Maputo, onde será recebido pelo Primeiro Vice-Presidente da Assembleia da República, Hélder Ernesto Injojo.
O programa da visita inclui, ainda, um encontro e conversações oficiais entre os Presidentes dos dois Parlamentos; a assinatura de um Programa de Cooperação entre os dois Parlamentos; declarações conjuntas à imprensa; e o discurso do Presidente da Assembleia Nacional de Angola no Plenário da Assembleia da República.
A Comissão Europeia promete agir em caso de agressão a um Estado-membro, afirmou esta sexta-feira o Presidente de Chipre aos jornalistas. A medida foi tomada durante a cimeira informal de chefes de Estado e de Governo que decorre em Nicósia, Capital do Chipre.
Em declarações esta sexta-feira aos jornalistas à chegada no segundo dia da cimeira informal de chefes de Estado e de Governo da União Europeia, em Nicósia, o presidente do Chipre foi questionado sobre o que é que os líderes acordaram quanto ao artigo 42.7 dos tratados, que consagra o princípio de defesa mútua em caso de agressão a um Estado-membro, e que discutiram esta quinta-feira à noite.
“O que concordamos ontem à noite é que a Comissão vai preparar um plano sobre como responderemos caso um Estado-membro ative o artigo 42.7. Há várias questões para as quais precisamos de ter uma resposta”, afirmou.
O presidente de Chipre disse ainda que, por exemplo, se França decidir activar o artigo 42.7, é preciso perceber qual é que vai ser o primeiro Estado-membro a responder e que meios é que poderão ser mobilizados.
O artigo 42.7, que consagra o princípio de defesa coletiva em caso de agressão a um Estado-membro, só foi ativado uma vez na história da Uniao Europeia: pela França, em 2016, após os atentados terroristas em Paris.
O Governo da Alemanha anunciou, recentemente, a disponibilização de mais de três mil milhões de meticais para o desenvolvimento do agro-negócio em Moçambique, numa iniciativa que reforça o papel do financiamento externo na dinamização de sectores produtivos considerados estratégicos para a economia nacional.
O apoio será canalizado através do programa “Fundo Inovativo para Agro-Negócios”, um mecanismo financeiro que, segundo informação oficial, será operacionalizado pela Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze em coordenação com o Banco de Moçambique. O modelo adoptado assenta na concessão de crédito com juros bonificados, uma solução concebida para reduzir o custo do financiamento e ampliar o acesso ao capital por parte de produtores e empresas agrícolas.
A criação desta linha de crédito surge num contexto em que o acesso ao financiamento continua a ser um dos principais entraves ao crescimento do sector agrícola. A limitação de capital tem condicionado a expansão da produção, a modernização tecnológica e o desenvolvimento de cadeias de valor, particularmente entre pequenos e médios produtores, que enfrentam maiores dificuldades de inserção no sistema financeiro formal.
De acordo com o documento que sustenta a iniciativa, a bonificação das taxas de juro representa um incentivo directo à participação de operadores de diferentes dimensões, criando condições para maior inclusão financeira no sector. A expectativa é que a redução do custo do crédito estimule investimentos em mecanização, aumento da produtividade e transformação agro-industrial, contribuindo para uma agricultura mais competitiva.
O anúncio do financiamento ocorre num momento particularmente sensível para o sector agrícola moçambicano, que continua exposto a vulnerabilidades estruturais agravadas por choques climáticos. Segundo o mesmo documento, as cheias registadas na época chuvosa 2025–2026 provocaram perdas significativas de áreas cultivadas e afectaram milhares de produtores, pressionando a segurança alimentar e reduzindo os rendimentos das famílias rurais.
Neste cenário, o reforço do financiamento assume, também, uma dimensão social, ao apoiar a recuperação da capacidade produtiva e promover maior resiliência nas comunidades afectadas. A intervenção insere-se numa estratégia mais ampla de adaptação às mudanças climáticas, com enfoque na sustentabilidade e na estabilidade dos sistemas agrícolas.
O novo pacote financeiro enquadra-se numa trajectória crescente de cooperação económica entre Moçambique e a Alemanha, particularmente no domínio do agro-negócio. Em 2025, os dois países já haviam anunciado um financiamento conjunto avaliado em cerca de 45,5 milhões de euros, igualmente direccionado para o apoio a empresas agrícolas e cadeias de valor no Vale do Zambeze.
Este padrão de intervenção revela uma aposta estratégica no desenvolvimento rural, com foco na inclusão económica, aumento da produtividade e integração de pequenos produtores nos mercados. O agro-negócio surge, neste contexto, como um dos principais vectores de diversificação económica, numa altura em que o País procura reduzir a dependência dos grandes projectos extractivos.
A expansão da produção agrícola, associada ao fortalecimento das cadeias de valor e à criação de emprego nas zonas rurais, é vista como essencial para promover um crescimento mais inclusivo e equilibrado. Paralelamente, o financiamento internacional tem vindo a privilegiar sectores resilientes ao clima, com destaque para a agricultura sustentável.
O documento sublinha que “a eficácia do financiamento estará directamente ligada à capacidade do País em garantir que os recursos sejam canalizados de forma eficiente e convertidos em ganhos produtivos sustentáveis”, colocando o foco na execução como elemento determinante para o sucesso da iniciativa.
Paralelamente ao reforço do financiamento, Moçambique e a Alemanha continuam a aprofundar a cooperação empresarial. O Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME) assinou, recentemente, uma carta de intenções com a Associação Alemã de Pequenas e Médias Empresas, com o objectivo de fomentar parcerias comerciais e reforçar a capacidade empresarial das PME nacionais.
Segundo comunicado oficial, “o acordo visa igualmente promover a inovação, digitalização, internacionalização, promoção de missões empresariais e a integração de Pequenas e Médias Empresas em cadeias de valor internacionais”, apontando para uma abordagem mais ampla de desenvolvimento económico.
A assinatura teve lugar em Berlim, durante a Conferência de Investimentos realizada a 14 e 15 de Abril, que contou com a participação do ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael. Na ocasião, o governante destacou a visão estratégica do País em relação ao investimento externo: “Moçambique não busca capital passageiro, mas de parceiros estratégicos”, acrescentando que o País pretende investimentos orientados para “a economia real, criação de empregos, transferência de tecnologia e cooperação orientada para resultados concretos”.
Rafael apontou oportunidades em sectores como infra-estruturas, energia, agro-indústria, logística, água, saneamento e digitalização, sublinhando o potencial do País como destino de investimento. O governante referiu ainda que a participação no encontro serviu para “apresentar oportunidades de investimento, fortalecer contactos com parceiros institucionais e empresariais e consolidar entendimentos com potencial de cooperação”.
Em Outubro passado, os dois países assinalaram 40 anos de cooperação formal, período durante o qual foram implementados projectos avaliados em cerca de 1,8 mil milhões de euros.
As relações entre Moçambique e a Alemanha têm-se intensificado nos últimos anos, abrangendo áreas como boa governação, educação, energias renováveis e formação profissional.
O governador de Inhambane lançou um dos discursos mais directos e politicamente sensíveis dos últimos tempos sobre o futuro do turismo na província. Francisco Pagula criticou abertamente a prática de operadores turísticos que recebem pagamentos em contas no exterior, defendendo que as receitas geradas pelo sector devem permanecer no País para impulsionar a economia local. Ao mesmo tempo, colocou sobre a mesa um outro debate de fundo, cada vez mais incontornável: como compatibilizar a expansão do turismo com a eventual exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos ao longo da costa de Inhambane, sem comprometer o estatuto turístico da província nem sacrificar a sustentabilidade ambiental?
A intervenção foi feita durante a aula inaugural da Escola Superior de Hotelaria e Turismo da Universidade Eduardo Mondlane, num encontro que juntou actores políticos, académicos, operadores turísticos e estudantes, e que acabou por se transformar num espaço de cobrança, visão estratégica e reposicionamento político sobre o rumo que Inhambane quer seguir. O tom do discurso foi claro desde o início. Pagula não quis fazer uma intervenção protocolar nem repetir generalidades sobre o potencial turístico da província. Preferiu tocar em pontos concretos, alguns desconfortáveis, para sustentar a tese de que o título de capital e pólo de desenvolvimento turístico de Moçambique só fará sentido se produzir efeitos reais na vida das comunidades e na economia nacional.
Ao recordar que, durante o encerramento da primeira Conferência Internacional de Turismo de Inhambane, o Presidente da República declarou a província capital e pólo de desenvolvimento turístico do País, Pagula sublinhou que esse reconhecimento não pode ser tratado como uma simples frase de ocasião. Para o governador, a decisão assenta em dados concretos e impõe uma responsabilidade histórica. Inhambane possui cerca de 700 quilómetros de costa, o equivalente a mais de 25 por cento da linha costeira de Moçambique, além de uma combinação singular de praias, biodiversidade, cultura e hospitalidade que faz da província um dos destinos mais completos do País.
Na visão do governante, o turismo não pode continuar a ser visto apenas como um sector de hospedagem e lazer. Deve ser tratado como um sistema económico integrado, com capacidade para dinamizar o comércio, a agricultura, os transportes, a educação, a saúde e as telecomunicações. Cada turista que chega, insistiu, não consome apenas uma cama ou uma refeição. Activa uma cadeia de valor que envolve produtores locais, operadores de transporte, unidades de restauração, guias, comerciantes e pequenos empreendedores. É precisamente por isso que Pagula considera urgente retirar o turismo do discurso decorativo e colocá-lo no centro de uma estratégia séria de desenvolvimento.
Mas se há um ponto em que o discurso ganhou especial contundência foi quando abordou a retenção de receitas no território nacional. Para Francisco Pagula, é inaceitável que alguns operadores turísticos continuem a usar terminais, contas e plataformas de pagamento sediadas fora do País, permitindo que uma parte significativa do dinheiro gerado pelo turismo escape à economia moçambicana. Segundo o governador, esta prática levanta questões sérias sobre transparência fiscal, disponibilidade de divisas e contributo real do sector para o desenvolvimento do país.
Na leitura do chefe do Executivo provincial, Moçambique não pode continuar a acolher hóspedes, suportar os custos territoriais, ambientais e infra-estruturais do turismo, e ainda assim ver os ganhos financeiros escaparem para fora das suas fronteiras. Não se trata, disse em substância, de hostilizar o investimento privado ou de dificultar a competitividade do destino, mas de garantir que o turismo produza valor interno e gere benefícios tangíveis para a economia local e nacional. Defendeu, por isso, uma reflexão séria e a adopção de mecanismos que promovam uma maior internalização dos fluxos financeiros do sector.
O posicionamento tem peso político e económico porque toca numa das zonas cinzentas mais antigas do turismo moçambicano. Durante anos, parte considerável da actividade foi crescendo com forte dependência de circuitos financeiros externos, sobretudo em empreendimentos que comercializam pacotes e reservas fora do País. O resultado é conhecido no terreno: o turista chega, consome e parte, mas a economia local nem sempre capta, na proporção esperada, o valor da actividade que sustenta. Ao transformar esse tema num ponto central da sua intervenção, Pagula procurou, não apenas pressionar os operadores, mas também introduzir um debate que tende a crescer à medida que Inhambane reforça a sua posição como destino estratégico.
O governador não ficou por aí. Numa outra frente, voltou a defender a criação de uma taxa turística a ser aplicada aos hóspedes de hotéis, pousadas e apartamentos turísticos, com o objectivo de gerar receitas adicionais destinadas a investimentos em infra-estruturas sociais de base, como escolas, unidades sanitárias, sistemas de abastecimento de água e vias de acesso. Para ele, esta é uma medida de justiça territorial e de racionalidade económica. Se o turismo gera riqueza, então parte dessa riqueza deve reverter de forma visível para as comunidades que acolhem e suportam a actividade. Pagula entende que só quando uma comunidade puder olhar para uma escola, uma unidade sanitária ou um sistema de água e perceber que aquela obra foi financiada com receitas do turismo, é que o sector passará a ser visto como verdadeiro motor de desenvolvimento partilhado.
Ao longo do discurso, a província foi apresentada como um território de potencial incomum, mas também de desafios estruturais persistentes. Pagula reconheceu que Inhambane ainda enfrenta limitações sérias ao nível da conectividade aérea, da qualidade das infra-estruturas rodoviárias, da oferta de serviços básicos de suporte e da qualificação profissional. Para ele, não basta ter praias de excelência e uma paisagem privilegiada. É preciso que o turista encontre em Inhambane o mesmo padrão de qualidade, atendimento, conforto e eficiência que encontra em destinos internacionais consolidados. O turismo de excelência, na sua formulação, não se improvisa com beleza natural. Exige organização, investimento, formação e visão.
Daí a centralidade que o governador atribui à Academia. Francisco Pagula entende que a Universidade Eduardo Mondlane, através da sua Escola Superior de Hotelaria e Turismo, deve assumir uma postura mais activa, prática e interventiva. Não basta formar quadros em abstrato. É preciso produzir conhecimento útil, responder a problemas concretos, investigar soluções aplicáveis e contribuir para elevar a qualidade dos serviços prestados. No seu entendimento, sem conhecimento não há turismo sustentável, muito menos inclusivo.
Foi precisamente nesse quadro que o governante introduziu outro dos pontos mais sensíveis da sua aula inaugural: a relação entre o turismo e a exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos. Num momento em que a costa de Inhambane volta a ser associada à possibilidade de prospecção, pesquisa e futura exploração de recursos energéticos, Pagula reconheceu que a questão não pode ser tratada com simplismos. De um lado, há a vocação turística da província, que vive da paisagem, da biodiversidade, dos ecossistemas marinhos, da imagem de destino de natureza e da promessa de um futuro assente na sustentabilidade. Do outro, há recursos minerais e energéticos cuja exploração pode gerar emprego, receitas e impacto económico.
Em vez de optar por uma posição puramente negativa ou por um apoio acrítico à exploração, o governador deslocou a responsabilidade para a Academia, desafiando-a a encontrar o ponto de equilíbrio entre essas duas dimensões. Na sua visão, cabe aos académicos produzir evidência, cenários e soluções que permitam compatibilizar o desenvolvimento da mineração e dos hidrocarbonetos com a preservação e expansão do turismo nas zonas costeiras. A formulação não é inocente. Ela reconhece o conflito, mas recusa a ideia de que o debate deva ser resolvido apenas por instinto político ou pressão económica. Pagula quer que o tema seja tratado com base em conhecimento, ordenamento territorial rigoroso, cumprimento de normas ambientais e modelos de exploração responsáveis.
Essa interpelação à Academia surge num momento particularmente delicado para Inhambane. A província tem vindo a afirmar-se, dentro e fora do País, como um destino de referência, não apenas pelo turismo de sol e praia, mas também pelas suas possibilidades em ecoturismo, turismo comunitário, turismo científico, cultural e religioso. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para alargar o aproveitamento económico dos seus recursos naturais. O desafio lançado por Pagula, portanto, não é apenas académico. É político, económico e territorial.
No meio deste debate, o governador fez ainda uma aposta simbólica de grande alcance ao revelar que o Executivo provincial tem em marcha um projecto estratégico para elevar a cidade de Inhambane à categoria de Património Mundial. A ideia assenta na recuperação e valorização de um conjunto vasto de edifícios, vestígios históricos e referências culturais que, no seu entender, conferem à cidade fundamentos sólidos para aspirar a esse reconhecimento. Pagula apresentou a urbe como uma cidade de memória, de cruzamento de influências africanas, árabes e europeias, com arquitectura colonial, património religioso, relíquias materiais e marcas históricas que a colocam numa posição singular no contexto moçambicano. Ao inscrever essa ambição no discurso sobre o turismo, o governador procurou mostrar que o futuro de Inhambane não está apenas na sua costa, mas também na densidade histórica e cultural do seu território.
No plano estratégico, a sua visão foi estruturada em cinco pilares. A sustentabilidade como base, a inclusão e o desenvolvimento local, a qualidade e competitividade, a diversificação da oferta e a integração com a economia azul e digital. Na prática, Pagula quer uma província capaz de proteger os seus ecossistemas, incluir as comunidades, melhorar os seus padrões de serviço, diversificar os seus produtos turísticos e modernizar a gestão do destino. Quer, em suma, um turismo menos dependente da beleza natural e mais ancorado em inteligência económica, valor agregado e planeamento.
A parte mais exigente do discurso, contudo, foi talvez a que dirigiu à Universidade. O governador espera da Academia não apenas pesquisa e formação, mas o surgimento de quadros comprometidos com a realidade local, profissionais que compreendam as transformações do turismo no mundo pós-Covid, as exigências da digitalização, a necessidade de segurança sanitária, a urgência da sustentabilidade e a valorização dos recursos do território. Quer uma universidade que desça ao terreno, que trabalhe com as comunidades, que valorize os seus saberes e que faça da extensão universitária uma ponte efectiva entre o conhecimento científico e a vida real.
No fim, a aula inaugural acabou por funcionar como muito mais do que uma reflexão académica sobre turismo. Foi um posicionamento político forte sobre o tipo de economia que Inhambane quer construir, sobre a relação entre exploração de recursos e preservação ambiental, sobre a responsabilidade do sector turístico na retenção de receitas e sobre o papel que a ciência deve desempenhar numa província que tenta transformar potencial em poder económico real.
Ao criticar os pagamentos feitos no exterior e ao chamar a Academia para o centro do debate sobre turismo e hidrocarbonetos, Francisco Pagula não apenas tocou em temas sensíveis. Colocou-os no centro da agenda. E fê-lo num momento em que a província de Inhambane, mais do que nunca, está a ser chamada a decidir que tipo de capital do turismo quer ser: uma vitrina bela, mas dependente, ou um destino que converte a sua riqueza natural e histórica em desenvolvimento concreto, sustentável e partilhado.
Cabo Verde vai ser a Capital Africana da Cultura em 2028, no âmbito de um projecto com o mesmo nome promovido por uma associação que junta 44 entidades do continente, anunciou o Governo cabo-verdiano.
“Cabo Verde será o País anfitrião da Capital Africana da Cultura em 2028”, anunciou o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, na Internet, referindo que o protocolo foi assinado na quarta-feira, em Marrocos, e que o País “será palco de um amplo programa de iniciativas”.
O cartaz, a divulgar, pretende promover “o intercâmbio artístico, valorizar o património e impulsionar o desenvolvimento urbano sustentável, consolidando a cultura como motor de crescimento e afirmação global”, acrescentou.
De acordo com a informação institucional da organização promotora, o programa “Capitais Africanas da Cultura”, dinamizado pela organização Cidades e Governos Locais Unidos de África (UCLG Africa), foi criado em 2018.
A iniciativa nasceu durante a cimeira Africities, em Marraquexe, Marrocos, com o objectivo de afirmar a cultura como “o quarto pilar do desenvolvimento sustentável, a par das dimensões económica, social e ambiental”.
A cidade ou país designado como Capital Africana da Cultura acolhe, durante dois anos consecutivos, “celebrações da excelência artística, cultural e criativa do continente, funcionando igualmente como espaço de reflexão sobre políticas públicas para a cultura, artes e indústrias criativas”.