O País – A verdade como notícia

O Ministério da Economia e Finanças diz que os dados inseridos na Tabela Salarial Única estão a ser auditados, com o objectivo de identificar anomalias e corrigi-las. De acordo com o inspector-geral do Ministério da Economia e Finanças, Emanuel Mabumo, até 10 de Junho do ano em curso, terão sido auditados 50 por cento.

Um dos problemas identificados tem a ver com o arredondamento do tempo dos funcionários na Função Pública. Dito de outra forma, alguns funcionários foram admitidos, por exemplo, em Novembro do ano passado e já no início deste ano, o sistema considerava que os mesmos tivessem dois anos de actividade.

Outro problema tem a ver com a divergência na aplicação de procedimentos no processo de contagem do tempo na carreira. “Para o funcionário que ficou dez anos como técnico superior N1 e passou para especialista há dois anos, o tempo na carreira são dois anos, mas o que está no sistema são 12…. A lei diz que são dois anos”, explicou Mabumo.

“Verificámos outras situações em que temos agentes contratados que depois passam para funcionários do Estado e que, na altura em que eram contratados, não fizeram os descontos necessários. Há aqui um pouco de divergência em termos de tratamento. Alguns gestores de recursos humanos consideraram, mas outros não. Essa é uma situação na qual temos que trabalhar com os gestores dos recursos humanos para corrigir.”

O economista Carlos Nuno Castel-Branco defende que uma estratégia bem definida de renegociação da dívida pública pode aliviar Moçambique da actual pressão da despesa pública. No seu entender, o país necessita de renegociar a dívida pública e de eliminar a dívida odiosa, geralmente chamada de dívidas ilícitas, bem como de eliminar os incentivos fiscais aos megaprojectos que têm lucros há anos no país, porque para si, esse é o grande causador da dívida insustentável. O economista falava no programa “O País Económico” da STV no âmbito dos 18 anos do jornal “O País”.

 

O rácio da dívida pública face ao Produto Interno Bruto (PIB) está acima de 100% desde 2016. Na sua visão, como é que o país pode tornar esta dívida pública sustentável e melhorar este rácio?

A questão da dívida de Moçambique já foi discutida muitas vezes e está a ser discutida há muito tempo e há algumas questões que são as coisas mais importantes para mencionar agora. A primeira coisa é que Moçambique não tem condições de pagar a dívida, por duas razões: uma porque a dívida é bastante grande relativamente ao PIB; e os juros da dívida e o serviço da dívida são bastante elevados, dadas as condições em que essa dívida foi contraída e, portanto, os custos que a dívida tem no Orçamento do Estado são bastante elevados. Não é só o stock da dívida sobre o PIB que importa, o que importa é quanto é que o Estado tem que desembolsar, anualmente, para pagar o serviço da dívida. Isso é determinado não só pelo stock e pelas condições de maturação da dívida, mas é também, sobretudo, determinado pelos juros da dívida. E isto significa que Moçambique está a gastar uma quantidade enorme dos seus recursos para pagar esta dívida. E Moçambique não tem condições de pagar nas condições actuais, porque vai estar sempre a colocar uma pressão enorme sobre a economia e sobre as condições sociais de vida; vai estar sempre a obrigar a novas medidas de austeridade e essas medidas de austeridade, como as medidas macroeconómicas, as medidas de controlo monetário, os cortes na despesa pública, etc., essas medidas vão ter implicações na economia que são negativas; vão atrasar o crescimento e o desenvolvimento da economia e, sobretudo, vão piorar as condições de vida dos grupos sociais menos abastados e menos favorecidos. Portanto, não é possível continuar nestas circunstâncias durante muito mais tempo. Então, há coisas de que nós já falámos muitas vezes e às vezes é um bocado saturante falar das mesmas coisas. É preciso renegociar a dívida; é preciso eliminar a dívida odiosa, aquilo que, em Moçambique, geralmente se chamam as dívidas ilícitas. É preciso eliminar isso. São dívidas odiosas, quer dizer que foram contraídas à margem da lei e sem nenhum benefício para o país. Portanto, é essa definição legal e internacional da dívida odiosa, que é contraída por transacções ilícitas feitas por ou em nome de ou pelo Governo, por agentes desse Governo naquela época. É preciso renegociar a dívida em condições que permitam ter uma estratégia de desenvolvimento que use recursos para o desenvolvimento em vez de estar a usar cada vez mais recursos para pagar dívida. E usar recursos para o desenvolvimento significa o quê? Significa melhorar as condições de vida das pessoas, melhorar o desempenho da economia nacional de modo geral, isso vai resultar em mais riqueza, mais receitas para o Estado e mais riqueza para a sociedade, se essa riqueza for melhor distribuída do que está a ser neste momento, se a sua distribuição não for tão desigual e for significativamente menos desigual; e se o Estado cobrar os impostos, sobretudo, nas grandes empresas, nos grandes projectos que têm incentivos fiscais redundantes há muito tempo; e o Estado for cobrar os impostos aí. Se a política pública favorecer uma distribuição mais igualitária do rendimento, vai haver mais capacidade de a economia poder pagar os seus compromissos domésticos e internacionais em termos de dívida, dívida soberana, etc., do que tem neste momento. Poderá fazê-lo sem prejudicar o desenvolvimento. Portanto, a questão central mesmo, na minha opinião, é renegociar a dívida, limpar a dívida odiosa, portanto, tirar a dívida odiosa do nosso stock. Isso vai reduzir significativamente a dívida comercial e vai facilitar a renegociação da dívida e depois ligar o processo de renegociação a uma estratégia de desenvolvimento alargada, diversificada, etc.. Há duas coisas que gostaria de mencionar sobre a dívida: uma coisa é que, muitas vezes, quando estamos a falar da dívida pública, as pessoas confundem isso com despesa e não são só as pessoas na rua, os próprios doadores confundem a discussão da dívida com a das despesa. O próprio Estado confunde a discussão da dívida com discussão sobre a despesa. A dívida não é só despesa. A dívida, em primeiro lugar, é uma relação entre receita e despesa e essa relação é dinâmica e reflecte estruturas económicas e produtivas do país. Portanto, quando estamos a falar da dívida, não estamos a falar de cortar a despesa apenas ou de ter muita despesa. Os doadores, as organizações internacionais, o Governo e as pessoas na rua pensam dessa maneira, que a dívida é porque estamos a consumir demais. Não estamos nada. Nós não temos muita despesa na saúde, temos muito pouco investimento na saúde, temos muito pouca despesa corrente na saúde, na educação, etc., nas estradas, nos transportes públicos, no saneamento, na habitação, na segurança social, no financiamento ao desenvolvimento da pequena e média empresa, nos subsídios para o desenvolvimento agroindustrial; nós não temos despesa grande aí, pelo contrário, temos muito pouco, temos muita falta da despesa. Onde nós temos grandes problemas e grandes despesas é nas garantias à dívida do grande capital, nos incentivos fiscais ao grande capital, no cometimento do Estado, no compromisso do Estado com as parcerias público-privadas para o grande capital mineiro, onde o problema da dívida é mais grave é nesta relação, neste compromisso político do Estado com o grande capital do complexo mineral e energético que não contribui significativamente para o desenvolvimento económico e social do país, contribui para o enriquecimento das multinacionais e das oligarquias nacionais ligadas às multinacionais. O problema da dívida não é o de cortar a despesa, é um problema da dívida, por um lado porque temos o problema de insustentabilidade, é renegociar, mas, por outro, é mudar a estratégia de desenvolvimento, mudar a política pública. Para isso, é preciso espaço e esse espaço requer renegociação da dívida; e a eliminação desta estratégia de incentivos fiscais e compromissos políticos com o grande capital internacional e é isso que é o grande causador das dinâmicas de endividamento do país com grandes implicações no resto.

 

Pensa que, neste momento, há condições para a renegociação da dívida?

As condições podem ser criadas. É muito mais difícil fazer isto agora do que era em 2006, em que houve a última significativa redução da dívida pública de Moçambique e o processo negocial que começou no último Governo do Presidente Joaquim Chissano, que decorreu entre 2005 e 2006, e foi concretizada a redução significativa do stock da dívida. E depois, esse buraco, esse espaço da dívida que foi criado, foi aproveitado pelas oligarquias nacionais durante o período de governação do Presidente Guebuza para o seu enriquecimento através da ligação com o grande capital multinacional, aí isso deu lugar a vários problemas, entre os quais, as chamadas dívidas odiosas, que em Moçambique tem o nome incorrecto de dívidas ilícitas. Ilícitas são as transacções que deram lugar a essas dívidas. Agora, hoje as condições políticas são diferentes e hoje as instituições financeiras internacionais e os doadores usam os problemas criados na governação do Presidente Guebuza, nomeadamente, as dívidas odiosas e outros, como arma contra o Governo de Moçambique e contra Moçambique, no que diz respeito às possibilidades de renegociar. Mas as condições podem ser criadas. Já foram criadas no passado e podem ser criadas de novo. Para isso, é preciso haver honestidade e transparência nas coisas. A primeira coisa que era importante fazer era Moçambique comprometer-se com a eliminação da dívida odiosa. Para isso, Moçambique tem que esclarecer quais são as condições em que essa dívida foi contraída, quem contraiu, etc.. Tem que haver responsabilização. Aquele julgamento mediático da B.O. não foi nenhuma forma de responsabilização sobre as dívidas ilícitas. Aquilo foi punição dos “tipos” que se envolveram nas comissões da dívida, que apanharam as migalhas da mesa; os que andaram a apanhar 30 milhões, 20 milhões, etc., por serviços mal prestados ao Estado e por actividades ilícitas contra o próprio Estado. Mas a dívida não são esses 30 milhões, esses 20 milhões, a dívida é muito mais do que isso. Aquela dívida total não são aqueles 50 milhões das comissões pagas àqueles indivíduos que foram julgados. A dívida total é de 2,5 biliões, 2,5 mil milhões, portanto, é 50 vezes aquilo que foi julgado na B.O. Por que isso está a ser protegido? Por que, politicamente, o Governo moçambicano adoptou uma posição de proteger isso? Isso é parte do que está a estragar ainda mais as condições de vida e as condições económicas do país. A dívida pública de Moçambique, que é depois renegociada no sistema financeiro doméstico, através da venda de títulos de dívida, etc., está a tornar o sector financeiro doméstico cada vez mais especulativo. Este sector já é especulativo por natureza, já tem esta tendência especulativa e fica muito mais ainda porque, no seu negócio principal, ficam títulos de dívida. Uma parte significativa da dívida soberana do Estado é dívida do capital privado, porque o Estado assumiu para proteger esse capital privado, para viabilizar esse capital privado de grande escala. Eu nunca vi o Estado moçambicano proteger o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, proteger o desenvolvimento da agroindústria de pequena e média escala, proteger o desenvolvimento alargado da produção. Quando se fala disso, a resposta do Estado é que vivemos numa economia de mercado, mas, quando se fala do grande complexo mineral energético e das oligarquias nacionais a eles associados, o Governo nem sequer vai ao Parlamento discutir esse assunto. Trata desse assunto ilicitamente. Então, nós temos que tornar isso claro, temos que esclarecer esse assunto. Temos que ter uma estratégia clara de renegociação da dívida. Ninguém vai renegociar a dívida connosco se nós não tivermos uma estratégia clara de renegociação, que implica a transferência de recursos da dívida para o desenvolvimento nacional, mas isso tem que estar bem claro, bem definido, para poder entrar neste processo. Tem que ter mecanismos claros de gestão transparente que não permitam mais as dívidas odiosas emergirem em Moçambique ou pelo menos minimizem muito significativamente a possibilidade de isso voltar acontecer. Tem que haver mecanismos instalados e a funcionar, que transformem as finanças públicas em algo transparente para o povo, para o povo poder participar na discussão da política pública. Não é só transparência entre o Governo e os doadores. Se a política é pública, quer dizer, então, que é do povo. Não pode ser apenas que a dívida seja do povo. Mas se nós continuarmos a esconder as coisas, continuarmos no secretismo, continuarmos a ignorar a população, continuarmos a tratar a população como um bando de votantes, que de cinco em cinco anos mantém o mesmo partido no poder, não vai haver condições políticas que Moçambique possa usar para contrabalançar as pressões que as instituições financeiras internacionais, no seu interesse, no interesse do capital financeiro internacional, impõem sobre nós. Neste momento, o único instrumento que está disponível em Moçambique é o gás. Moçambique está a usar o gás como política externa, como instrumento de política externa e para negociar. Mas isso não permite negociar melhores condições para o país, permite negociar um certo fechar de olhos à realidade nacional por parte dos financiadores, mas não melhora as condições do país. Para nós, os moçambicanos, o que é que os doadores pensam de nós ou deixam de pensar é problema deles. Para nós, o problema central é como é que nós tratamos da nossa vida, como é que nós organizamos a nossa vida, para vivermos melhor como resultado do nosso trabalho. Há um relatório do Banco Mundial que mostra que Moçambique, em 2050, vai entrar no grupo dos países de rendimento médio por causa do gás com 35% de pobreza. É por causa do gás, não é por causa do desenvolvimento do país. Que tipo de coisa é esta?

 

Outro aspecto é que a dívida pública interna tem disparado muito nos últimos tempos. Os dados oficiais do ano passado mostram que houve um agravamento de 24%. O serviço da dívida também se agravou em 2022. Fundamentalmente, o Estado está pressionado, não tem dinheiro para gerir as despesas de funcionamento e recorre à banca interna para financiar as suas operações. Como é que este Estado cuja economia é pouco produtiva pode reverter essa tendência de agravamento?

A dívida pública interna também é agravada pelo facto de que o Estado vende a sua dívida pública no país e, portanto, fica com dívida perante quem compra os títulos da dívida. Além de outras despesas que são feitas, de bens e serviços, que são feitas dentro do país. Agora, se a Mozal pagasse impostos normais, não impostos especiais, estaria a pagar entre 130 e 160 milhões de dólares por ano em impostos.

Se a Sasol pagasse impostos, estaria a pagar um montante não tão grande como a Mozal, não está no mesmo nível de lucros, mas aproximado. Se a Kenmare pagasse impostos, a mesma coisa. Se todos os grandes projectos que já geram lucros há bastante tempo pagassem impostos, Moçambique estaria a angariar, em receitas fiscais de impostos directos de rendimentos do capital, 600 milhões de dólares adicionais todos os anos. Quanto é que o Estado está a vender em títulos de dívidas na economia doméstica? Está a vender menos do que 600 milhões de dólares por ano. Ora, isso quer dizer que, se o Estado cobrasse os impostos do capital, não são apenas os impostos sobre o rendimento do trabalho, mas os impostos sobre o rendimento de capitais, que seriam devidos se não houvesse a política de incentivos redundantes que o Estado aplica, no actual nível de despesa, nós não teríamos necessidade de estar a recorrer ao endividamento desta forma.

O problema está ligado com a política pública, com a política fiscal, com a redistribuição dos rendimentos. Se nós formos a ver, os impostos que saem da Mozal, da Kenmare, da Sasol, são do rendimento dos trabalhadores, são impostos de rendimentos de capital. Numa economia com os níveis de investimento que a de Moçambique teve, com as taxas de crescimento que a de Moçambique teve, como é que se justifica não haver receitas fiscais para pagar o desempenho corrente do Estado? Justifica-se por causa da enorme desigualdade na redistribuição do rendimento e por causa de uma política fiscal que é altamente reaccionária, é altamente contra qualquer forma justa de distribuição do rendimento.

É verdade que o Governo e o Presidente Nyusi estão sempre a dizer que nós consumimos mais do que produzimos, que nós temos que produzir mais, etc., mas quem é que consome mais do que se produz? A maioria da população de Moçambique vive abaixo da linha da pobreza. Quem é que pode ter coragem de ter tão pouco escrúpulo, que é capaz de dizer que o povo consome mais do que aquilo que produz? A outra coisa é como é que nós podemos justificar os problemas com baixa produção quando, durante mais de uma década, tivemos taxas de crescimento da economia de 7%, taxas de crescimento do PIB per capita de 5,5%? Mesmo no período de recessão de Moçambique, nestes últimos anos, as taxas de crescimento têm sido positivas. São muito baixas, mas são positivas.

O problema é a nossa estrutura económica; é o problema de quais são os incentivos à operação na economia; o problema de política pública e de distribuição de rendimento. São estas questões que nós temos que tratar para podermos lidar com questões desta natureza. Se nós formos a ver a outra componente, o portefólio do sistema bancário comercial em Moçambique, aproximadamente 55% e 60% de toda a actividade bancária, os investimentos, os créditos, o financiamento, o crédito, as aplicações financeiras dos bancos são para duas áreas improdutivas; uma são os títulos da dívida pública e a outra é o consumo de bens de luxo, naturalmente por parte dos investidores, dos capitalistas nacionais e internacionais que existem em Moçambique, do grupo dos novos-ricos com poder de compra, que estão a fazer casas de luxo, comprar carros de luxo, etc., esta é uma parte significativa da despesa dos bancos, para o financiamento deste consumo e os financiamentos dos títulos da dívida. A parte da despesa bancária que vai para a produção e para o comércio está a diminuir significativamente com percentagem da despesa total, da actividade total do sector bancário. E a parte que vai para a produção, apesar de estar a diminuir como percentagem, vai para os megaprojectos porque é nesses onde a rentabilidade está garantida; são esses que podem pagar os juros.

Com taxas de referência bancária de 17%, com juros reais de 8 a 10%, com taxas de reservas obrigatórias de quase 40%, o que é que vamos fazer com o sistema bancário nacional? Vamos transformá-lo num sistema que é completamente especulativo e completamente inútil para a promoção da produção.

Pensamento foi defendido por estudiosos e fazedores na economia, numa reflexão feita hoje sobre caminhos para a sustentabilidade da dívida pública, enquadrada nas celebrações dos 18 anos do jornal O País.

A dívida pública moçambicana continua insustentável, apesar da redução de 109% para 82% do Produto Interno Bruto (PIB), registada entre 2021 e 2022, de acordo com o mais recente Relatório da Dívida Pública, publicado pelo Governo, através do Ministério da Economia e Finanças.

E o cenário de insustentabilidade tem sido característico dos últimos anos, devido ao crescimento exponencial desde 2006, altura em que o rácio correspondia a 49% do PIB, em resultado de iniciativas de perdão da dívida, que o país conseguiu depois de negociações com os então principais credores.

Para que a dívida seja considerada sustentável, deve corresponder a 30% do PIB, de acordo com os indicadores do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas o nosso endividamento público variou de 73% do PIB em 2015 a 109% do PIB em 2021.

No que diz respeito à sua composição, a dívida externa cresceu em cerca de 71%, de 2014 a 2021, influenciada por empréstimos do Banco Mundial, FMI, Fundo para o Desenvolvimento de África, a dívida com a China e a dívida da EMATUM, tornada soberana.

Já a dívida pública interna disparou cerca de 220%. Entre as causas do crescimento da dívida interna estão factores como a necessidade de financiar o défice de tesouraria para as despesas correntes, a redução das receitas fiscais, a pressão resultante do aumento do número e intensidade das calamidades naturais, o impacto económico da pandemia da COVID-19, as operações de combate ao terrorismo e as restrições no acesso a recursos externos.

 

PRECISAMOS DE IMPULSIONAR O CRESCIMENTO

Perante o quadro não favorável à sustentabilidade, o economista Mukthar Abdul Carimo sugere que Moçambique tome medidas urgentes para impulsionar a economia a ser mais produtiva. O economista justifica que, neste momento, cerca de 95% do que o Estado capta em receitas fiscais serve para pagar salários e remunerações e fazer face ao serviço da dívida.

“Impulsionar a economia pode ser feito imediatamente e isso não depende apenas do Governo. Tornar a economia mais produtiva passa por criar condições para a reanimação da actividade económica do sector privado e, para isso, vai ser necessário baixar a taxa de juro”, afirma.

O docente universitário da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Sibia, é um pouco mais optimista referindo que, pelos dados que apontam para uma redução do rácio da dívida pública de 109% para 82% do PIB entre 2021 e 2022, ainda há muito que deve ser feito. Entende que era possível fazer mais através de uma renegociação dos títulos da dívida pública, contudo lembra que o país não vive os melhores momentos em termos de credibilidade para com os parceiros internacionais.

“Isso não ajuda muito a termos margem de renegociação da dívida pública. Se tivéssemos essa margem, de certeza, teríamos capacidade de reduzir o serviço da dívida e permitir que existam mais recursos para investir no crescimento da economia”, afirmou o professor universitário, que também aponta a melhoria do ambiente de negócios como outro caminho que pode levar o país à sustentabilidade.

 

TEMOS QUE REDUZIR A DESPESA DE FUNCIONAMENTO

A necessidade de redução da despesa pública de funcionamento, maioritariamente dominado por salários e remunerações, também marcou a reflexão sobre a sustentabilidade da dívida pública. Economista e assessor da Câmara de Comércio de Moçambique, Hipólito Hamela, defendeu que há uma relação intrínseca entre a dívida pública e a elevada despesa do Estado.

“Este país está com um problema gravíssimo. A despesa pública está direccionada ao consumo, não está direccionada ao investimento. Todo o dinheiro que é arrecadado dos bolsos dos empresários e todos os impostos que os empresários pagam são destinados ao consumo”, vincou o economista, alertando para a necessidade de mudança desse cenário.

Mas Hipólito Hamela tem pouca fé de que grandes mudanças possam acontecer a curto prazo, considerando que tal oportunidade pode ser encontrada na transição de ciclo governativo. “As grandes mudanças são tomadas no início dos mandatos. Então, eu acredito que, no próximo mandato, o novo líder possa fazer mudanças profundas.”

Por seu turno, o economista António Souto defende que, mais do que reduzir a despesa, é preciso alterar a estrutura da despesa pública. E a despesa deve estar maioritariamente virada para investimento na melhoria das condições de vida da população e em projectos que possam gerar retorno, através da criação de capacidade de pagamento dos financiamentos.

De resto, os diversos participantes na reflexão sobre a sustentabilidade da dívida advogaram que é preciso “limpar” das contas públicas as chamadas dívidas ocultas que aumentaram o stock da dívida pública e levaram o nome do país ao descrédito perante os seus parceiros de cooperação.

Das mais de 300 apreensões de bebidas alcoólicas registadas pela Autoridade Tributária de Moçambique, por diversas irregularidades, no mês passado, mais de 50, o equivalente a 11 mil caixas de cervejas e bebidas alcoólicas prontas para o consumo, não tinham selo.

“A bebida foi apreendida no mercado nacional, neste caso, em estabelecimentos comerciais, nos mercados informais, e outra foi apreendida ao nível das fronteiras”, disse Fernando Tinga, porta-voz da Autoridade Tributária de Moçambique, explicado que a referida mercadoria que circulava sem selo lesaria o Estado em cerca de 10 milhões de Meticais se não tivesse sido apreendida.

“O primeiro impacto directo tem a ver com a fuga ao pagamento de impostos, mas também pode ter impactos à saúde pela forma como a mercadoria é transportada até chegar ao mercado.”

A interdição de venda e circulação de bebidas alcoólicas sem selo entrou em curso a 2 de Maio na sua terceira fase. As Alfândegas falam de desafios.

“Não é possível parar toda a mercadoria para fazer todo o tipo de averiguações, há sempre uma margem que escapa o controlo. A nossa esperança é que possamos ter maior capacidade para fazer o controlo, daí que pretendemos fazer um trabalho que inclua aumento do número de funcionários para fazer a cobertura”, explicou o porta-voz da Autoridade Tributária.

Além de bebidas alcoólicas, a Autoridade Tributária registou outras 500 apreensões de mercadorias por diversas irregularidades.

O investimento público reduziu em cerca de 28% nos primeiros três meses deste ano se comparado ao mesmo período do ano passado. Em contrapartida, os salários fizeram a despesa pública total disparar no período em análise.

Os dados do Ministério da Economia e Finanças do primeiro trimestre confirmam a pressão que os salários, no âmbito da Tabela Salarial Única (TSU), estão a fazer nas despesas do Estado.

Com a implementação da TSU, a despesa pública, nos primeiros três meses deste ano, saltou de 86,6 mil milhões de Meticais para 105,8 mil milhões de Meticais, comparativamente ao mesmo período do ano 2022, um aumento na ordem dos 22,2%.

“Até ao fecho do ano, prevê-se que a pressão sobre a despesa corrente se mantenha elevada, devido às necessidades acrescidas relacionadas aos impactos dos choques climáticos e aos processos eleitorais”, aponta o Banco de Moçambique no seu último relatório.

Segundo o relatório da Conjuntura Económica do Banco de Moçambique, o crítico é que a despesa pública total está a subir bastante num contexto em que o investimento público em diversas áreas caiu em 28% de Janeiro a Março.

De forma mais específica, o Governo fez um investimento de pouco mais de 6,9 mil milhões de Meticais no primeiro trimestre do ano passado, valor que caiu para cerca de 5,0 mil milhões de Meticais de Janeiro a Março deste ano.

Com a pressão na despesa pública, o défice orçamental, excluindo donativos, aumentou em cerca de 53%, ao sair de 26,7 mil milhões de Meticais para 40,7 mil milhões de Meticais, mostra no seu relatório o Banco de Moçambique.

Para cobrir uma parte do défice, o Estado aumentou a sua dívida no sistema financeiro nacional, durante o primeiro trimestre deste ano, em 63%, face ao mesmo período de 2022, isto é, a dívida interna subiu de 21,2 mil milhões de Meticais para 34,7 mil milhões de Meticais.

O excesso de dinheiro no sistema bancário nacional constitui um risco para o agravamento do custo de vida no país, considera o Banco de Moçambique. Por isso, no seu Comité de Política Monetária (CPMO), o banco aumentou, hoje, os coeficientes de Reservas Obrigatórias, ou seja, aumentou a taxa de depósitos que as instituições financeiras devem fazer por obrigação no Banco de Moçambique em jeito de reservas.

“O CPMO decidiu aumentar os coeficientes de Reservas Obrigatórias para os passivos em moeda nacional de 28,0% para 39,0%, e em moeda estrangeira de 28,5% para 39,5%, visando absorver a liquidez excessiva no sistema bancário, com potencial de gerar uma pressão inflacionária”, disse Rogério Zandamela.

Entretanto, para os próximos anos prevê uma inflação inferior a 10%, referiu o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela.

O Banco de Moçambique lembra ainda ao Governo que a despesa pública está muito alta, comparativamente às receitas arrecadadas pelo Estado, o que também constitui um elevado risco para a economia nacional.

“A nível interno, destaca-se a manutenção da pressão sobre a despesa pública, num contexto de fraca arrecadação de receitas, e as incertezas quanto à evolução do preço de bens administrados, sobretudo dos combustíveis líquidos. Na envolvente externa, realçam-se as incertezas quanto aos efeitos do prolongamento do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, sobre a dinâmica dos preços das mercadorias, bem assim a volatilidade dos mercados financeiros”, disse Zandamela.

O Banco de Moçambique lembra ainda ao Governo que a despesa pública está muito alta, o que também constitui um elevado risco para a economia nacional.

“O endividamento público interno, excluindo os contratos de mútuo e de locação e as responsabilidades em mora, situa-se em 302,8 mil milhões de Meticais, o que representa um aumento de 27,7 mil milhões em relação a Dezembro de 2022”, refere o Banco de Moçambique em comunicado.

Em relação à actividade económica, o banco central refere que, no primeiro trimestre deste ano, a economia nacional cresceu em 4,2%, principalmente devido ao bom desempenho da indústria extractiva. E para este e o próximo ano, sem contar com os projectos de gás natural, o banco central antevê um crescimento económico moderado.

Os empresários de Cabo Delgado devem tirar o maior proveito possível com a exploração dos recursos naturais que a província possui. O apelo foi lançado na cidade de Pemba, durante a abertura da Cimeira de Energia e Indústria.

Na Primeira Cimeira Anual de Energia e Indústria de Cabo Delgado, o Primeiro-Ministro manifestou a vontade de ver os empresários da província fazerem negócios com as multinacionais que exploram os recursos naturais, especialmente no megaprojecto de gás natural na Bacia do Rovuma.

O apelo do Primeiro-Ministro, Adriano Maleiane, voltou a ser lançado durante a abertura da Cimeira de Energia e Indústria de Cabo Delgado.

A Cimeira de Energia e Indústria de Cabo Delgado tem a duração de dois dias e foi organizada pela Associação de Conteúdo Local de Moçambique, com o objectivo de encontrar soluções para os empresários da província que se sentem excluídos das oportunidades de negócios nos projectos de exploração de gás na Bacia do Rovuma e de outros recursos naturais.

Percentagem ainda não especificada do Imposto sobre Consumo Específico que incide sobre tabaco, bebidas alcoólicas e não alcoólicas será alocada à saúde e ao desporto. Pretende-se, com a decisão do Governo, reduzir défices orçamentais enfrentadas pelos referidos sectores.

Trata-se de uma excepção à regra orçamental de não alocação de receitas específicas a uma determinada despesa. Com o novo decreto, o Governo pretende reverter a favor da saúde e do desporto parte do Imposto sobre o Consumo Específico do tabaco, das bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

“Pensamos que isso é uma grande inovação e que poderá, digamos, ser uma alavanca para catapultar estes sectores para outros níveis de qualidade, naquilo que são as actividades ou na prestação de serviços no caso da saúde. Penso que estamos todos conscientes, no caso do desporto, das limitações que nós temos tido, tanto para casos de participação das nossas selecções em eventos desportivos internacionais, como a questão de funcionamento das nossas selecções nacionais. Portanto, pensamos que, se isto vier a concretizar-se, como é expectativa do Governo, podemos ter mudanças clarividentes nos próximos tempos”, explicou o porta-voz do Conselho de Ministros, Filimão Suazi.

Segundo o porta-voz do Conselho de Ministros, as percentagens do imposto a serem alocadas aos dois sectores ainda não foram determinadas. No entanto, o que já se sabe e está aprovado é o decreto que define a parcela das receitas da indústria extractiva que vão ficar com as comunidades.

“O regulamento define os critérios para a alocação e gestão de 10 por cento sobre o Imposto sobre a Produção Mineira e do Imposto sobre a Produção do Petróleo, destinado ao desenvolvimento das províncias, distritos e comunidades locais, onde se implementam os respectivos empreendimentos. O regulamento estabelece, igualmente, a consignação de 7,25 por cento para o desenvolvimento das províncias e dos distritos onde se implementa a exploração mineira e petrolífera e 2,75 por cento ao desenvolvimento das comunidades, onde ocorre a exploração mineira ou petrolífera”, disse Suazi.

Na habitual reunião das terças-feiras, o Governo apreciou ainda informações sobre a remoção de Moçambique da lista cinzenta do GAFI, entidade internacional que fiscaliza os países em matérias de lavagem de dinheiro, branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo.

Antes da aprovação dos cortes, um deputado chegava a receber acima de 250 mil Meticais em salários e subsídios. Além do vencimento mensal, um deputado é pago a cada vez que se faz presente numa sessão plenária da Assembleia da República, com valores que variam de mil a nove mil Meticais por dia.

Quanto recebiam os deputados em salários, subsídios e regalias? De acordo com a tabela salarial em vigor aprovada em Janeiro deste ano, alterada com a revisão feita ontem pelo Parlamento, o salário-base de um deputado era de 75% do ordenado do Presidente da República. Se tivermos em conta que, com base na Tabela Salarial Única, que a fórmula de cálculo do salário do Presidente é de 21A+100% de 21A, de 263 516 Meticais, um deputado aufere, agora, 197 637 mil Meticais, mais um subsídio de representação de 30% do seu salário, o que equivale a 59,291 Meticais. Tudo isto totaliza 256 928 Meticais e é o mesmo que ganha, actualmente, um ministro, como salário-base.

Mas há outros elementos que compõem a folha salarial dos parlamentares: os subsídios e as regalias. O jornal O País teve acesso à Deliberação sobre Normas Internas de Execução do Orçamento da Assembleia da República para 2023, que contém os dados que abaixo descrevemos, com as respectivas simulações.

Um deputado, sem nenhum cargo ou função, além do salário a que já referimos, tem direito a um subsídio de renda de casa de 24 545 Meticais e este subsídio aumenta em função do cargo ou função. Se este deputado chegar a Presidente de uma comissão, o subsídio de renda sobe para 42 843 Meticais e, se for vice-presidente do Parlamento, atinge 53 416 Meticais, o nível mais alto. Há, no total, 12 níveis em que os valores sobem de forma progressiva.

Um presidente de uma comissão tem também direito a um abono de membro de comissão: são 14 774 Meticais. O relator e os membros das comissões também têm direito a valores de 12 e 10 mil Meticais, respectivamente.

Quer dizer que um presidente de uma comissão de trabalho pode receber, por mês, cerca de 314 mil, correspondentes ao salário-base, subsídio de representação, renda de casa e abono pela sua função.

Quando o Parlamento está reunido em sessão plenária, todos os 250 deputados têm direito a serem pagos pela sua presença: chama-se a isto senha de presença. São mil (1000) Meticais por dia nas sessões ordinárias. Imaginemos que, na sessão ordinária em curso que arrancou no dia 22 de Fevereiro e termina amanhã, a 31 de Maio, o Parlamento se tenha reunido na sala magna por 20 dias. Então, o deputado que participou em todos esses dias vai receber 20 mil Meticais de senha de presença. No pagamento da senha de presença, são acrescidos 10 mil Meticais, correspondentes a 10 dias, isto é, sete dias antes do início da sessão e três dias depois, para efeito de viagem. O valor é o mesmo para o deputado que participa de uma sessão virtual. Ou seja, só de participar das sessões, um deputado tem mais 30 mil Meticais.

Nas sessões extraordinárias, o valor da senha de presença é de nove mil Meticais, o que significa que, se durante uma sessão extraordinária, os deputados se reunirem por cinco dias em plenária, cada deputado vai receber 45 mil Meticais pela sua presença.

Adicionando ao salário, subsídio de representação e renda de casa, nesse mês, um presidente de uma comissão receberia cerca de 365 mil Meticais.

Os deputados também trabalham fora do Parlamento. Fazem viagens nacionais e internacionais. Nessas missões parlamentares, se a viagem for de avião, o deputado tem direito a 2400 Meticais para ida ou regresso do aeroporto. Ele viaja na classe executiva, e isso só não acontece quando não existe, devendo viajar na classe que a companhia aérea oferecer. Se a viagem for de carro, barco ou comboio, o deputado deve viajar nas condições mais condignas possíveis e, não havendo essas condições, deve receber 1900 Meticais por cada 100 km da viagem.

A título de exemplo, se um deputado viaja sem condições condignas de Maputo para Beira, recebia 20 900 Meticais e, de Maputo a Pemba, auferia 45 600 Meticais.

Nas viagens de trabalho nacionais, o deputado recebe nove mil Meticais, por dia, de ajuda de custo para alojamento e alimentação. Nas viagens internacionais, recebe o dobro da tabela definida na Função Pública, de acordo com o destino. Os valores diários variam de 200 a 800 dólares, equivalentes a 12 e 54 mil Meticais, ao câmbio do dia.

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