O País – A verdade como notícia

Distribuidoras de gás de cozinha dizem estar satisfeitas com o investimento que será feito pela petroquímica sul-africana Sasol que vai permitir a produção de 30 mil toneladas por ano em Inhambane, segundo o anúncio feito pela empresa e o Governo moçambicano há uma semana.

De acordo com o presidente da Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas (AMEPETROL), Michel Ussene, a refinaria da Sasol irá cortar os custos das empresas distribuidoras, poupar divisas ao país e reduzir o preço praticado ao consumidor final.

A reacção das empresas distribuidoras do gás de cozinha surge poucos dias após a Sasol ter anunciado que vai investir 760 milhões de dólares em novos reservatórios na província de Inhambane que vão permitir a instalação da primeira fábrica de gás de cozinha no país.

“Esta é uma grandiosa notícia porque Moçambique vai deixar de exportar divisas. Nós comprávamos GPL (gás de cozinha) fora, então devíamos pagar. Agora vamos consumir nosso GPL e os dólares que nós pagávamos vão ficar no território nacional”, disse Michel.

O empreendimento a se instalado vai também gerar tecnologia no país e vai permitir a ampliação da produção de gás. “Então, estamos muito satisfeitos com esse anúncio feito”, disse o presidente da Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas (AMEPETROL), Michel Ussene.

Ussene acredita ainda que o investimento da Sasol vai ter impacto no preço final ao consumidor.

“Embora a produção seja feita na província de Inhambane, logisticamente ela está próxima às províncias do centro, de Manica, de Sofala e Tete, e isso vai fazer com que o gás chegue a um preço mais acessível”, assegurou o presidente da AMEPETROL.

O presidente da Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas convidou as empresas de metalomecânica a olharem para o investimento como uma oportunidade que lhes permite produzir a nível local e vender botijas, atendendo que até aqui, as usadas são importadas.

Por sua vez, o CEO da Galp, Paulo Varela, uma empresa de capitais portugueses que importadora e distribuidora do gás de cozinha em Moçambique há décadas diz que a nova fábrica da Sasol a ser instalada em Inhambane poderá permitir abastecer o gás ao mercado sem muitas restrições.

“A vantagem do GPL ser produzido aqui em Moçambique, por um lado, desde logo, permite uma maior fluidez no fornecimento. Uma das dificuldades que existem tem a ver com alguma intermitência, uma dificuldade em garantir o abastecimento regular e dentro do prazo definido. Por vezes, existe alguma escassez do produto no mercado. É difícil conciliar a disponibilidade dos navios. As próprias condições climatéricas levam a que haja alguma imprevisibilidade nas datas do fornecimento e por vezes pode causar problemas no abastecimento. O facto de o produto ser produzido em Moçambique vai permitir um abastecimento mais regular e vai retirar da cadeia de abastecimento essa imprevisibilidade”, disse o CEO da Galp, Paulo Varela.

A construção da fábrica da Sasol poderá arrancar em Junho próximo, segundo anunciou a empresa sul-africana na sexta-feira passada. Com o investimento, a petroquímica sul-africana espera produzir em termos globais 23 milhões de giga joule de gás natural por ano.
Pretende-se com o investimento desenvolver reservatórios adicionais de gás natural ao redor dos campos de Inhassoro e Temane, em Inhambane, no âmbito do Contrato de Partilha de Petróleo que teve o Plano de Desenvolvimento revisto pelo Governo em Setembro de 2020.

Está previsto ainda no projecto gerar 450 megawatts (MW) de electricidade na Central Térmica de Ciclo Combinado de Temane, a ser distribuída pela rede nacional para a electrificação do país.

“O restante do gás produzido será exportado para a África do Sul para sustentar nossas operações”, faz saber a companhia de petróleo sul-africana em um comunicado emitido na última sexta-feira.

Com a produção das 30 mil toneladas por ano de gás de cozinha (GPL), Moçambique deixa de importar cerca de 75% do produto, assegura o Ministério dos Recursos Minerais e Energia. O projecto contempla ainda a produção de 4 mil barris de petróleo leve por dia para exportação.

Segundo a Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas, actualmente, apenas 3% da população moçambicana tem acesso às energias domésticas limpas para cozinhar, enquanto na África Austral 17% da população tem acesso e no continente africano, 29% dos habitantes.

Importa lembrar ainda que a produção de gás em Temane iniciou em 2004, com uma capacidade contratual de 120 milhões de giga joule/ano e um investimento inicial de 1.2 biliões de dólares. Em 2009, aumentou-se a capacidade de produção de 120 para 183 milhões de giga joule/ano.

Segundo o Instituto Nacional de Petróleo (INP), regulado do sector dos hidrocarbonetos no país, em 2015 expandiu-se novamente a capacidade de produção de 183 para 197 milhões de giga joule por não. Essa é a produção actual, incluindo o gás queimado e o gás usado em operações.

Parte do gás natural produzido pela Sasol é comercializado no mercado sul-africano e outra parte é disponibilizada ao mercado moçambicano para a geração de energia eléctrica, transporte em veículos e como combustível utilizado em diferentes indústrias.

De Londres, o economista moçambicano Carlos Nuno Castel-Branco defendeu a necessidade de o país eliminar os incentivos fiscais que dá aos megaprojectos para ter condições de responder situações de grande choque como a pandemia da COVID-19. Diz ainda, em entrevista ao canal televisivo STV, que é preciso haver clareza sobre os ganhos do fundo soberano que o país pretende criar para não haver ilusões.

O ano 2020 foi um ano atípico para várias economias mundiais, no geral, e para Moçambique em particular, isto devido à pandemia da COVID-19 conjugada com outros factores internos como calamidades naturais e a instabilidade político-militar que vem assolando o país há cerca de três anos. O ano 2021 não começou diferente, embora houvesse expectativa de retoma, mas estamos a viver uma nova vaga da pandemia da COVID-19, continuamos a ser fustigado por ciclones e a instabilidade político-militar ainda é uma realidade, com o terrorismo em Cabo Delgado. Como é que perspectiva o desempenho económico para este ano?

Os factores estruturais que afectaram a economia no ano passado não mudaram substancialmente no que diz respeito à economia de Moçambique, nem no que diz respeito à economia global. Portanto, a expectativa, tanto para Moçambique como as expectativas que estão a ser discutidas no resto do mundo não são animadoras para 2021. Claro que há uma série de questões a colocar que são de natureza estrutural das economias, das sociedades e dos sistemas políticos. Quando digo política, inclui os governos e os Estados, mas inclui todo o sistema de governação, de participação social, etc, nas sociedades. Por exemplo, a pandemia da COVID-19 coloca desafios fundamentais àquilo que são as ortodoxias económicas que têm sido seguidas nas últimas três ou quatro décadas e que têm sido muito dedicadas, nomeadamente, a sistemática prática de austeridade social e austeridade monetária e fiscal para sustentar o enviesamento da economia e da política à favor de grandes projectos, muitas vezes, não produtivos, frequentemente especulativos, de natureza imobiliária e de natureza financeira e que criam bolhas especulativas na economia e geram muitos lucros para os accionistas, mas que não solidificam as condições de vida, emprego, de trabalho e de sustentação das pessoas. Isso leva a situações, como por exemplo, de deterioração dos serviços públicos, dos serviços de saúde, dos serviços de educação, dos serviços dos transportes, da habitação, do saneamento, etc. Todas estas questões agravam-se com os efeitos da pandemia. Por exemplo, olhando para as discussões em países como Portugal, Inglaterra e os outros, a análise dos dados mostra com evidência clara o grande efeito da sobrelotação dos transportes públicos, da sobrelotação das habitações, das deficientes condições de saneamento e isolamento, das condições deficientes de trabalho, das dificuldades de serem garantidas as condições mais adequadas para os trabalhadores nas empresas e isso leva ao aumento das contaminações. Portanto, as pessoas podem ficar confinadas em casa, mas não podem ficar lá eternamente. Quando as coisas abrem, quando as coisas começam a funcionar, as pessoas quando começam a ter que ir para o serviço, etc, as contaminações começam a voltar. Um outro exemplo é que há uma parte substancial das sociedades que faz actividades que são úteis, mas que não são formais, não são necessariamente pagas, mas são fundamentais para a reprodução da sociedade. Ora, essas pessoas se ficarem impossibilitadas de fazer essas actividades, tem de ter fontes de rendimento que substituam e para isso é preciso de coisas como o rendimento universal básico, sistemas de segurança social, etc, que foram muito destruídos pelos modelos não liberais de desenvolvimento económico. Então, tomar medidas apenas ao nível de confinamento, etc, que é para travar a contaminação não altera as condições estruturais da economia e da sociedade. Quando a sociedade tem que abrir, tem de começar a funcionar, os problemas começam a voltar e daí, a segunda vaga, a terceira vaga, etc. Há uma parte que é importante pensar, que é, em termos de políticas, em termos de ideologias, a pandemia, de facto, representa um grande desafio para a maneira como a sociedade humana, como a economia funcionam e a maneira como nós valorizamos as coisas. Isto reflecte-se por exemplo nas vacinas. Nós estamos à espera que as vacinas sejam a solução dos problemas e que com a vacinação vamos conseguir reduzir substancialmente, etc, e já há alguma evidências de que isso pode ser verdade, mas qual é a capacidade de ter acesso a essas vacinas. Mesmo na Europa que tem muito mais recursos, muito mais poder do que o continente africano, há dificuldade de acesso porque as vacinas foram desenvolvidas com recursos públicos, depois foram dados direitos às empresas que fizeram o desenvolvimento tecnológico das vacinas, direitos de propriedade que impedem a produção massiva dessas vacinas e a distribuição gratuita das vacinas para todo o mundo rapidamente. Então, esse é um processo de “financeirização” do sistema, em que o lucro é mais importante do que o valor do uso das vacinas. Estas coisas estão a ser desafiadas pela pandemia. Será que nós vamos ser capazes de olhar tipicamente e dizer bom, temos grandes desafios de sobrevivência, grandes desafios de reprodução social e somos capazes de mudar a economia, somos capazes de mudar a sociedade, somos capazes de mudar os valores, coisas com mais equidade, mais igualdade, mais importância dada ao valor do uso, mais importância dada para a qualidade de vida das pessoas do que ao lucro. Somos capazes de fazer isso?

Como é que acha que essa mudança deveria se efectivar? Como é que acha que nós deveríamos nos adaptar, a economia devia se adaptar, para melhor lidar com os novos desafios da COVID-19?

Muitas coisas que é preciso mudar para o caso de Moçambique estamos a discutir há 15 ou 15 anos. Há pouca coisa que foi feita para mudar alguns dos problemas, em parte, porque há coisas que são estruturais e são difíceis de mudar e não mudam só porque alguém tem uma opinião, mas são assuntos antigos. Por exemplo: se nós olharmos para o caso de Moçambique, a política pública, sobretudo, a política económica dos últimos 30 anos tem estado focada em dois factores, um deles é criar uma burguesia nacional capitalista, isto não é um problema de juízo de valor, não estou a fazer juízo de valor sobre isso, estou a fazer uma observação, uma constatação. Em relação a isso, há um esforço de atracção de capital estrangeiro de grande escala e da realização da ligação entre esse capital estrangeiro e a burguesia nacional capitalista em emergência e isso está a ser feito ao longo desse período todo, com grandes níveis de expropriação do Estado, tanto da propriedade, como do poder político, no que diz respeito à política económica, como de rendas, recitas, etc. Essas coisas vão afectar a maneira como as sociedades funcionam. Um dos problemas com a COVID-19 neste momento é que a capacidade do sistema de saúde acabou, está exausta, então, os caos críticos vão tender a ficar muito críticos, mas isso representa anos de limitado investimento na saúde, sobretudo na saúde pública. Houve um avanço em saúde privada em alguns centros urbanos do país, mas as condições desse sistema não melhoraram substancialmente. A rede expandiu, mas os medicamentos faltam, o pessoal de saúde falta, as condições de trabalho são más, e isso não pode fazer face a situações de grande choque. Mesma coisa no sistema de educação, o país fez o encerramento das escolas para evitar as contaminações, e está a tentar promover o ensino à distância. Quem tem acesso a essas condições? Quais são as condições da rede de Internet e de comunicação? Quem tem computadores, onde é que eles estão? Quais são as entidades capazes de tirar proveito disso e conseguir funcionar dentro desse sistema? Há uma parte muito considerável da população moçambicana que precisa estar a trabalhar, mas não tem fontes de emprego, não tem emprego formal, se ficar em casa não tem salário. Eu, por exemplo, sou professor universitário, eu dou as minhas aulas Online. Eu posso não sair de casa durante seis meses a fazer meu trabalho Online, eu vou poder ter salário e fazer a minha vida, mas a maioria das pessoas não tem essas condições, sobretudo em Moçambique. Essas coisas só podem ser resolvidas se o foco do Estado for o desenvolvimento da base social, dos serviços de segurança social, do rendimento universal básico, da saúde, da educação e da base de diversificação da produção, etc. Se o foco continuar a ser, tentar fazer os grandes projectos de minerais e energéticos para atrair o grande capital, para formar grandes oligarquias nacionais, o que vai continuar a acontecer é essa enorme vulnerabilidade, essa enorme fragilidade da sociedade que vai continuar a reproduzir-se. E estas coisas, as pandemias, as guerras, etc, não só vão acontecer em parte por causa disso, mas também vão ter muito mais impactos em parte por causa disso.

Olhando para aquelas que poderiam ser as respostas dadas, no ano passado, o Governo aprovou medidas de incentivos para aliviar o sufoco das empresas, mas que revelaram ser pouco para as necessidades reais. O banco central até chegou a injectar cerca de 500 milhões de dólares, um valor que não esteve acessível para os bancos e consequentemente não esteve acessível para os empresários. Estamos a falar de um cenário onde 40 mil postos de trabalho foram postos em causa e houve também perdas de receitas estimadas em 1,1 mil milhão de dólares. Olhando para este contexto, que medidas é que deviam ter sido mais apropriadas para evitar esse impacto negativo?

Há duas partes na sua pergunta. Uma coisa são as coisas imediatas, outra coisa são as coisas estruturais. A questão que coloca relativa ao apoio às pequenas e médias empresas, às unidades mais afectadas pela pandemia é antiga. Se bem podemos lembrar, nos últimos cinco anos do presidente Armando Guebuza, no último mandato da governação dele, o Governo aprovou uma série de pacotes a pequenas e médias empresas de cinco milhões de dólares para as pequenas e médias empresas para os cinco anos de governação. Esses cinco milhões de dólares acabaram sendo destinados sobretudo a coisas que são de natureza processual, burocrática, etc., porque cinco milhões de dólares não vão ajudar as empresas a desenvolver. Existia o programa que ainda é conhecido popularmente pelos sete milhões para os distritos do país, mas que são valores muito pequenos para as ambições que esses programas têm. Em contra partida, os grandes projectos recebem em incentivos fiscais cerca de 600 ou 700 milhões de dólares por ano. Portanto, o que recebem em incentivos fiscais supera muito largamente tudo que o Governo está a tentar disponibilizar para o apoio às pequenas e médias empresas. Em contrapartida, o Estado endividou-se para garantir dívida privada nos grandes projectos, para fazer parcerias público-privadas com os grandes projectos minerais e energéticos e para financiar dívidas ilícitas como as que nós conhecemos. Esse endividamento público impede a mobilização de recursos não só do Estado, mas do sector financeiro para a pequena e média empresa, os títulos da dívida pública são vendidos nos mercados de capital, domésticos e internacionais e constitui hoje em dia uma parte significativa do negócio do Estado, absorve uma parte fundamental do que existe no sistema financeiro doméstico. Ora, isso tira recursos da economia de uma maneira que não ajuda à economia, porque se a dívida pública estivesse a ajudar a economia, isso seria uma coisa, mas não está. Está a ajudar enclaves económicos que nem se quer estão a produzir e são capazes de começar a produzir daqui a vários anos e ajudar com receitas daqui a vários anos, entretanto, como é que a economia se aguenta? Há um ponto estrutural aí. Nós não podemos olhar para o problema da pandemia e dizer isto aconteceu em 2020, agora, como é que agente pode resolver, esses problemas grandes são de longo prazo, não podemos mexer com eles. Se nós não mexermos com esses problemas grandes não criamos um espaço para resolvermos os problemas urgentes. Não é possível, nas condições da economia de Moçambique, superar os problemas urgentes sem olhar a estes problemas estruturais. No que diz respeito à urgência é um bocado difícil dizer quanto mais é que o Governo deveria estar a apoiar porque para isso é preciso ter todos os dados do Orçamento do Estado, todos os dados das empresas e eu não tenho acesso a isso.

Em termos estruturais considera que o Governo deveria olhar primeiro para a questão da dívida pública que tem crescido exponencialmente e olhar para os incentivos que vai atribuindo para os grandes projectos. Do ponto de vista estrutural, estes dois elementos poderiam conseguir trazer melhores respostas mais adiante…

Exactamente. Essa é a questão estrutural no que diz respeito à dívida pública, é o ponto que eu estava a colocar. A dívida pública tem esses dois lados, a receita e a despesa. Do lado da receita, nós estamos a perder 600 milhões de dólares anuais pelo menos só com incentivos fiscais para grandes projectos que não estão a reproduzir-se e não estão a gerar os recursos que o Estado está a disponibilizar através dos incentivos fiscais. Incentivos fiscais são uma forma de disponibilização de recursos. Estou a falar de perdas apenas nos projectos que são lucrativos. Nos projectos que não são lucrativos, ainda estão no início, ainda estão a fazer os primeiros investimentos, esses não iriam pagar impostos de toda a maneira, porque não estão a ter massa tributável, mas poderiam pagar impostos sobre a terra, impostos sobre esse tipo de factores que recebem, mas não sob sua actividade porque não gerou ainda massa tributável. Mas só falando dos grandes projectos que já são lucrativos, com esses incentivos fiscais que são redundantes, não são necessários, o Estado estaria a receber mais 600 milhões de dólares por ano, ou qualquer coisa do género. Seiscentos milhões de dólares é muito, mais é pouco. É muito mais do que aquilo que agente recebe, mas é pouco para as necessidades. Por outro lado, há uma grande parte da despesa pública que é resultante da aliança entre o Estado e o grande capital. Os dados da dívida pública publicados, oficialmente, indicam que mais ou menos um terço da despesa ligada com a dívida comercial de Moçambique está associada a garantias de dívidas privadas. Mais ou menos um terço está associado a investimentos em infra-estruturas para esses grandes projectos e mais ou menos um terço está ligado ao pagamento de dívida do passado, portanto, estamos a pedir emprestado dinheiro para pagar dívidas. Só o facto de nós estarmos a pedir emprestado, isso em si, já faz crescer a dívida, mesmo que agente não peça mais emprestado.

 

Estamos nesta bolha. Por onde começar para quebra o ciclo e encontrar respostas que possam satisfazer a economia no imediato?

Os pontos que já foram discutidos nos últimos 10 anos, 15 anos ou mais estão publicados e são discutidos em todo lado. Estamos sempre a voltar a eles: primeiro, eliminar os incentivos fiscais redundantes; segundo, reorientar a despesa pública para prioridades que têm mais impacto social e tem mais ligações sociais; terceiro diversificar a base produtiva através da reorientação da despesa pública e reorientação da dívida pública. Uma dívida pública que diversifica a base produtiva e que faz a economia reproduzir rapidamente é muito mais útil para a economia e tem muito menos peso negativo na economia a longo prazo do que a dívida que nós estamos a assumir dos grandes projectos minerais e energéticos que vão ter impacto talvez daqui a muitos anos e têm impacto muito limitado na economia. Esses são os três grandes pontos que já foram discutidos muitas vezes. Há um quarto ponto que é a renegociação ou reestruturação da dívida que tem duas implicações: uma implicação é o cancelamento da dívida ilícita que são 2,2 ou 2,3 mil milhões de dólares e para isso ser feito há processos político importantes a seguir, eu não sei se o país está em condições política para fazer e há um outro elemento que é a reestruturação da restante dívida. A reestruturação da restante dívida tem uma implicação que é, essa reestruturação tem de ser negociada com uma perspectiva de desenvolvimento da economia e não ser simplesmente uma reestruturação de cancelamento da dívida para criar espaço fiscal para fazer mais dívida. Isso quer dizer o quê? Por um lado reduzir o peso da dívida na economia, pagando a dívida em prazos mais longos com juros mais baixos, mas por outro lado, fazer essa negociação tendo em conta a ideia de um projecto de investimento que permite desenvolver uma base alargada de produção que vai gerar mais emprego, mais salário, mais procura doméstica para o desenvolvimento da economia nacional para que possa desenvolver a qualidade de vida das pessoas, mais receitas fiscais, etc.

O Banco de Moçambique sempre referiu-se sobre a necessidade de reformas estruturais na economia para aliviar a pressão no lado da despesa. Quando aponta estes caminhos para dar mais folga ao Governo para o apoio à economia, está em linha com este pensamento?

Acho que não. A abordagem do Banco de Moçambique é monetarista e o seu ponto de partida é como afectar a procura agregada, como controlar a procura, como equilibrar a economia. O objectivo do Banco de Moçambique é o controlo da inflação, do défice fiscal. Em uma economia em crise tão profunda como a de Moçambique, não faz nenhum sentido estar a fazer isso. A resposta economicamente mais razoável é tentar agir contra ciclicamente, quer dizer, contra o ciclo da economia e isso significa promover o investimento, a procura, ao em vez de contrair. Evidentemente, isso tem de ser feito com a capacidade que há. O país não tem todas as capacidades, tem de buscar capacidade fora também, mas tem capacidade dentro que não está a usar. Por exemplo, os incentivos fiscais criam capacidade fiscal ociosa que pode ser mobilizada para este projecto de transformação, de desenvolvimento, etc. A resposta do Banco de Moçambique, para mim, é uma que não vai ajudar a lidar com a situação da economia. O Banco de Moçambique pode daqui a seis meses dizer que “conseguimos controlar a inflação; conseguimos controlar o défice comercial um bocado; conseguimos controlar o défice fiscal”, portanto, conseguiram controlar alguns défices, mas à custa de quem? Se são controlados à custa da paralisação da economia; se são controlados à custa da destruição da base da pequena e média empresa na economia, o que estão a fazer é que a curto prazo estão a tratar de alguns défices e a médio e longo prazo impedir que a economia de poder passar para outros níveis ou para outros estágios de actividade, etc. É um bocado como dizer, eu controlei a febre do doente porque meti o doente dentro de um frigorífico. Agora, o doente depois chegou e morreu, pronto, “mas controlei a febre dele”. Isso não é maneira de resolver o problema.

Está a olhar para aquilo que são as acções ou as medidas que o banco central tem tomado para conter a inflação e lidar com estes factores todos inerentes à desvalorização do metical e aos efeitos da COVID-19 e das calamidades naturais, mas a questão que lhe colocava tem que ver com a resposta ou a acção que o Banco de Moçambique pretende que venha também por parte do Governo para que conciliado tenha um efeito melhor. Quando diz que há necessidade de reformas estruturais na economia, como uma acção externa ao próprio banco, quais seriam essas acções que, efectivamente, poderiam complementar e trazer melhores resultados?

Ligando isso que eu estava a dizer, o banco tem que dizer o que quer dizer reforma estruturante. Quer dizer os programas do Banco Mundial, os Programas do FMI, de que o Banco de Moçambique é um fiel seguidor? Em geral, falam de reformas estruturais, o que é que significam em geral? É cortar o défice fiscal, controlar a inflação. Portanto, não são reformas estruturais no sentido de fazer desenvolver a economia. São reformas estruturais no sentido de restabelecer o equilíbrio de curto prazo, mesmo que isso ponha em causa o progresso da economia a médio e longo prazo. Isso é modelo do FMI, modelo do Banco Mundial e é modelo monetarista que o Banco de Moçambique normalmente segue. Então, se o Banco de Moçambique quer falar de reformas, quer falar de mudanças, não pode falar de mudanças estruturais e reformas estruturais vagamente, tem que falar de facto o que está a tentar fazer. Esta tentar o quê? Está a tentar liberalizar mais o mercado de trabalho? Se vai tentar liberalizar mais o mercado de trabalho para fazer cai os salários, aí está a prejudicar a qualidade de vida das pessoas, está a fomentar uma economia miserávelista, etc. Está a tentar fazer o quê? Está tentar controlar o défice fiscal, de um modo geral, portanto, conter a despesa fiscal de um modo geral? Se está a fazer isso, não está a tomar em conta a natureza do problema com a despesa fiscal, pois, o grande problema de Moçambique não e a despesa que tem. O grande problema de Moçambique é a natureza desta despesa, em que é que esta despesa é feita, de que já falamos a pouco nesta entrevista. Além disso, não é só o problema de despesa, também é um problema de receita, o que é que vamos fazer, vamos aumentar impostos? Ou vamos começar por, antes de aumentar impostos, antes de olhar para este tipo de questão, acabar com os incentivos fiscais para o grande capital. Portanto, estas são questões que é preciso discutir em concreto. Não podem ser discutidas num pacote que se chama reformas estruturais. Então, os quatro pontos que eu considero que são fundamentais são: eliminar os incentivos fiscais; reorientar a despesa pública; diversificar a produção; reestruturação da dívida.

Voltando para a questão anterior, quando dizia que as medidas que o Banco de Moçambique vem tomando podem ser uma cura negativa, no sentido de que a economia pode morrer da cura e olhando para aquilo que são os argumentos do Banco de Moçambique que é de controlar a inflação, quais são os riscos de convivermos com uma inflação alta neste contexto?

O problema não é a inflação alta. O problema é o que é que está a causar isso e de que maneira isso afecta a sociedade. Se a inflação subir por causa da COVID-19, porque não chegaram os barcos de arroz, e portanto, os preços de arroz subiram, porque nós não produzimos arroz em Moçambique, produzimos alumínio, carvão, mas não arroz. Se a inflação subir por causa disso, e nós dissermos vamos aumentar as taxas de juro para conter a inflação, porque a economia está a crescer, a economia não está a crescer nada, o investimento é muito pequeno, há muito desemprego, etc. A economia não esta crescer. O problema é que a economia não está a produzir e isso, faz os preços crescerem; a economia não está conseguir fazer o comércio necessário e isso faz os preços crescerem. Então, a solução não é dizer vamos aumentar as taxas de juros para conter a inflação, vamos liberalizar os mercados de trabalho, para reduzir o salário, vamos conter o défice fiscal, para reduzir a despesa pública ou o investimento, etc, porque estas coisas vão matar o doente. A questão fundamental é se o problema é de produção que pode ser resolvido. Como é que vamos resolver o problema de produção que pode ser resolvido, se o problema é de comércio, é um problema de produtividade, como é que podemos resolver esse problema, não é como é que podemos equilibrar a economia com a doença lá dentro. Portanto, para mim, o problema grave não é que a inflação é alta. Para mim, o problema greve é que se nós atacarmos a inflação, apenas nesta perspectiva de que a inflação é alta. Nós podemos, no processo de fazer isso, destruir qualquer capacidade que a economia possa ter de poder recuperar, de poder expandir, de poder diversificar, etc., porque toda a sua capacidade produtiva depende de importações, uma parte substancial do seu consumo básico depende de importações, etc. Isso aliás, vai provocar um outro problema para o próprio Banco de Moçambique, que é, se a moeda desvaloriza numa economia que é muito dependente de importações para bens de produção, para bens de investimento, equipamentos, peças, combustíveis, matérias-primas e para o consumo básico, com alimentos, se a taxa de câmbio desvaloriza, vai haver inflação, e esta inflação vai prejudicar a base produtiva e vai afectar a qualidade de vida, sobretudo, das pessoas que gastam maior parte do seu orçamento nos bens básicos do consumo que nós estamos a importar e isso vai provocar problemas dentro da economia, vai provocar problemas sociais, etc. A tentativa que nós vamos ter, e isso, nós vemos agora no debate que existe com a desvalorização do metical e toda a gente está a falar de quais são as medidas que nós podemos adoptar para impedir a desvalorização, quais são as medidas administrativas que nós podemos usar para fazer isso, e o Banco de Moçambique no passado, o que é que fez? – Financiou o valor da moeda nacional, mas para fazer isso, tem que usar as reservas externas e para poder fazer isso continuamente numa economia que tem um grande défice comercial, tem que pedir dinheiro.

 

E haveria um contexto para o Banco de Moçambique optar por esse caminho?

Qual caminho? Qual caminho que está a mencionar, de controlo da desvalorização? Quer dizer, tudo vai depender de quais são as escolhas que nós estamos a fazer sobre a economia. O que eu quero fazer sobre a economia? Eu quero conseguir conter os preços dos bens básicos e conseguir incentivar a produção doméstica, então eu tenho que construir a política monetária, fiscal para isso. Parcialmente, podem ser usadas as medidas de controlo da desvalorização, financiando a curto prazo, a moeda nacional, sustentando a moeda nacional a curto prazo, mas atenção, que isso não prejudique o desenvolvimento da capacidade produtiva nacional. Portanto, estas medidas não podem ser simplesmente medidas do Banco de Moçambique. O Banco de Moçambique diz vamos fazer isso, e a inflação importada vai cair, a tensão social vai desaparecer, etc.. Aquilo que nós chamamos de uma política cambial, anti-motim. O banco não pode fazer isso sozinho.

Por falar em não prejudicar a capacidade produtiva nacional… Olhando para aquilo que seriam as respostas que o Governo poderia desenhar de estímulo à economia e olhando para aquilo que é o pacote da dívida pública nacional, concretamente, a dívida interna, esta que é muito pressionada pela necessidade de emissão de obrigações de tesouro. Acha que este é o caminho de recorrer sempre a obrigações de tesouro para se financiar?

Não. Isso é um argumento que nós já fazemos a algum tempo que o Estado tem que começar a aliviar rapidamente a pressão que está a pôr no mercado de capitais doméstico e mesmo internacional. Mas, falando no mercado de capitais doméstico, neste momento, não sei exactamente agora qual é a estatística, mas há um ano, dois anos, quase 30 por cento daquilo que era actividade dos bancos era em títulos de dívida pública e isso, obviamente, não é sustentável. Afecta o sistema financeiro, torna o sistema financeiro muito especulativo e completamente desinteressado e incapaz de lidar com o desenvolvimento da base produtiva da pequena e média empresa. Portanto, não pode ser este caminho, não pode ser. Aí voltamos aos pontos que já falamos antes, como é que isso pode ser aliviado, como é que isto pode ser impedido. Lá está, vamos falar de novo da mobilização da capacidade fiscal ociosa, da mudança da estratégia do investimento público, para onde é que o investimento público deve ir prioritariamente que vai gerar, mais ligações e mais capacidades a curto e médio prazo na economia para se poder reproduzir e funcionar. Agora, tomar medidas isoladamente, por exemplo se o Banco de Moçambique dizer, “vamos controlar a taxa de câmbio para não continuar a desvalorizar e os preços não continuarem a subir”, mas se isso não fizer parte de uma estratégia de apoio e suporte ao desenvolvimento da base produtiva, isso não funciona, não é sustentável por um lado, e por outro lado, a única coisa que estamos a fazer a curto prazo é evitar a tensão social, mas eventualmente, a economia vai deixar de ser capaz de sustentar isso e quando deixar de ser capaz de sustentar isso, a tensão social vai voltar, os problemas sociais vão se multiplicar, etc.. Portanto, a questão fundamental é que estas políticas, a política cambial, a política monetária, etc, têm que ser parte estratégica do desenvolvimento da base produtiva, comercial do país, e esta não pode ser apenas focada em produtos primários, tem que começar a diversificar, substituir importações, desenvolver uma base industrial agrícola mais ampla, tem que começar a desenvolver sectores da economia que diversificam a maneira da economia funcionar, as fontes de rendimento da economia, as fontes de emprego e articulam as coisas melhor, para a economia ficar menos dependente das importações. Não é apenas o problema do Governo estar a escrever estratégias nacionais, o Governo de Moçambique já escreveu muitas estratégias nacionais, de tudo e mais alguma coisa, não é só esse ponto. É o ponto de, de facto, identificar coisas que podem, a curto e médio prazo, funcionar. Só para dar exemplo do que estou a tentar dizer: nós temos a fundição de alumínio, indústria açucareira, megaprojecto de carvão. Portanto, temos algumas áreas de grandes projectos que em alguns aspectos específicos formam uma procura bastante grande que pode servir de base para fazer uma política industrial. O Governo tem os detalhes sobre estes projectos e deve saber o que é necessário. E deve saber isso, porque o Governo aprovou estes projectos, são grandes projectos, algo que até beneficiam de recursos de Estado na forma de incentivos fiscais, na forma de garantia da dívida privada, etc. Portanto, deve haver uma troca: se o Estado apoia, eles têm que dar informação, com base nesta informação é possível identificar política industrial, é possível identificar áreas dentro da economia de Moçambique, empresas, industrias que sejam capazes de explorar esta massa crítica. Então, o que vão fazer, vão produzir rolamentos, não só para Mozal, para Vale, vão produzir cabos eléctricos, porque isto está identificado como possibilidades, como havendo uma massa crítica possível. Isto é uma maneira de usando informação disponível poder fazer algum tipo de política industrial coordenada que resulta em novas empresas, em expansão da capacidade produtiva, mais emprego, etc. Isto não é, se quer, muito estratégico, estou a falar de uma coisa que é completamente táctica, que é fazer coisas concretas. O mais estratégico é como lidar, por exemplo, com a agricultura e indústria, em que áreas é para fazer o quê? É para exportar, ou é, sobretudo, para desenvolver o mercado doméstico, para desenvolver capacidades nacionais, para alimentar o país a baixo custo, etc. O que estamos a tentar fazer com isto, vamos exportar o quê, vamos produzir o quê, para o mercado doméstico para garantir que as pessoas no país têm comida e outros produtos agrícolas a baixo custo e portanto, o seu custo de vida baixa, o seu nível de vida sobe e a qualidade de vida sobe. Então, estas são coisas, umas estratégicas, outras tácticas que podem ser exploradas dentro da política económica do país, uma política económica negociada com sindicatos, negociada com empresas, investidores, Estado, comunidades locais, governos locais, à volta de coisas concretas para fazer e a política monetária fiscal pode ser reorientada, pode ser articulada à volta destas coisas.

No princípio desta entrevista, insistiu na questão de resolver o problema de perda de receitas nos grandes projectos, mas também quando falamos dos grandes projectos, há a possibilidade de melhor optimizar os ganhos das mais-valias decorrentes das receitas da exploração dos recursos naturais. Olhando para esta componente há consenso na criação do fundo soberano e o Banco de Moçambique avançou com a proposta de criação do fundo soberano, com o objectivo de garantir a acumulação da poupança, estabilização fiscal e protecção do apoio ao orçamento. Qual é o seu entendimento? Estes objectivos vão satisfazer aquilo que são as necessidades do desenvolvimento do nosso país?

O fundo soberano é uma coisa que é um bocado moda e há muitos países que fizeram com sucesso. Há países que construíram essas reservas. De facto, o fundo soberano é um nome pomposo para uma coisa que são reservas, em alguns casos são reservas para um futuro, quando já não existem os recursos naturais, porque estamos a falar de recursos não renováveis. Então, há países que utilizam o chamado fundo soberano, simplesmente, para acumular reservas que permitem investir no futuro na economia do país, para quando o petróleo, o gás, o carvão acabarem, o país não sentir a sua falta, porque tem a capacidade para fazer investimento para mudar a sua base energética, sua base tecnológica, etc. Os fundos soberanos são usados para uma diversidade de coisas, não é um grande assunto em si, a discussão da ideia do fundo soberano. No caso de Moçambique, logo no início quando define os objectivos do fundo, o segundo objectivo do fundo é a estabilização fiscal, e a ideia da estabilização fiscal é muito simples, portanto, o país, no período do boom dos preços das matérias-primas acumula a receita fiscal, tributa as receitas das empresas que nesta altura vão ter lucros altos, também tem receitas fiscais altas, tributa isso, guarda e quando os preços caem, usa uma parte dos recursos do fundo para estabilizar a receita fiscal. Portanto, para impedir que o país tenha um alto nível de vulnerabilidade, as flutuações dos preços e, portanto, tenha uma receita fiscal que é tão vulnerável quanto à flutuação dos preços. É uma almofada de protecção.

Olhando para aquilo que é a proposta do Banco de Moçambique em termos de regras de saída e entrada de recursos, a proposta a ponta para os primeiros 20 anos, 50 por cento para Orçamento de Estado, 50 por cento para o fundo soberano, e nos anos subsequentes, 80 por cento para o fundo soberano e 20 por cento para o Orçamento do Estado. Parece-lhe bem que seja desta forma?

Eu queria acabar o meu raciocínio primeiro. O ponto que eu estava a querer colocar era o seguinte: a medida de estabilização fiscal mais eficaz não é o Fundo Soberano, a medida de estabilização fiscal é a diversificação da base produtiva, se o país tem uma base produtiva diversificada, os choques dos mercados internacionais, a volatilidade dos mercados internacionais não vai ser sentida da mesma maneira, se o país tem uma base produtiva afunilada concentrada a volta de produtos primários, os choques vão ser muito grandes. Como a volatilidade dos mercados internacionais é muito intensa e muito frequente, portanto, as quedas são muito grandes, a volatilidade é muito grande, uma das coisas que acontece com as economias africanas e outras economias dependentes das exportações de produtos primários, é que nunca chegam a acumular reservas suficientes para poderem acumular e poderem se estabilizar, porque estão sempre a perder. Então, o ponto aqui é que, em vez de pensar que vamos ter um instrumento que vai estabilizar as receitas fiscais, vamos pensar que a estabilização das receitas fiscais depende da diversificação da base produtiva, e portanto, a aposta deve ser em fazer isso, mais do que estar a criar uma reserva dentro do fundo que pode nunca ser criada se houver uma grande volatilidade nos mercados internacionais e Moçambique não controla isso e a evidência é que esta volatilidade é bastante grande.

Colocava-lhe a questão das regras de entrada e saída de capital, porque mesmo para financiar uma diversificação da base produtiva, o Orçamento de Estado precisa estar com recursos suficientes para tomar este tipo de decisões, daí que lhe remetia à análise daquilo que é a proposta do fundo soberano?

O ponto que eu queria falar a seguir era este das divisões. O que é que estamos a dividir? Estamos a dividir zero, estamos a dividir um., estamos a dividir dois, estamos a dividir o quê, exactamente? Quando agente diz 50 por cento para o Orçamento, 50 por cento para o fundo é 50 por cento de zero, de um bilião, porque até agora estes recursos produziram muito pouco em termos líquidos positivos e com os atrasos nos projectos de gás, com os abandonos no carvão e no gás, com o encerramento gradual das janelas da economia mundial a cerca dos combustíveis fosseis, as nossas janelas de oportunidades e as nossa capacidade real de mobilizar recursos destes projectos para fazer um fundo soberano não está nada garantido, então é difícil estar a fazer uma discussão, dizer que nos primeiro 20 anos vamos ter 50 por cento disto e 50 por cento daquilo, porque nós não sabemos qual é o bolo que esta a ser dividido, não sabemos se vai haver bolo sequer.

Há uma perspectiva de arrecadação de 90 biliões de dólares durante o período de vida útil da exploração destes recursos.

Mas a partir de quando? E desse quanto já esta comprometido com dívida, deste quanto já está comprometido com o investimento, etc. Portanto, esta análise é mais importante, a análise do contributo líquido destes projectos é mais importante do que estar a falar da divisão 50/50, porque o ponto é: qual é o bolo que agente tem? Se eu tiver 90 biliões de dólares na vida útil dos projecto e estes projectos tiverem uma vida útil de 100 anos, eu vou ter 900 milhões de dólares por ano; se tiver vida útil de 10 anos, vou ter 9 biliões, etc, e uma parte disso vai ter que pagar infra-estruturas, quanto é que fica, de facto, de bolo? Fica alguma coisa de bolo para ser dividido? Este é um ponto que é preciso ser discutido e analisado, então, eu posso dizer que concordo que numa fase inicial haja menos no fundo soberano e mais no Orçamento de estado para dar espaço ao estado para poder fazer investimento público fundamental, mas esse é um acordo de princípio, como ideia ok, mas qual é o bolo? Se o bolo for muito pequeno, a pressão para ir todo ao Orçamento de estado vai ser muito grande, e a de haver uma revisão do fundo, etc. Se o bolo for muito grande, existe a possibilidade de haver mais poupança no fundo soberano, então este é um ponto que acho que a gente tem que tratar. Nós estamos a olhar a muito tempo para estes projectos de gás e carvão, etc, com base em hipóteses sobre o futuro. Devemos lembra-nos que uma boa parte dos cálculos que estão a ser utilizados, previam que estes projectos iam estar a render em pleno a partir de 2022. Nós estamos em 2021 e nem sequer estão em condições de começar a funcionar, portanto, a medida que se afastam do tempo os custos vão aumentando, os rendimentos vão ficando mais distantes e vão sendo descontados com valores mais altos. Então, para mim, o ponto não é se 50 por cento é bom ou mau, para mim o ponto é qual é o bolo? E isso significa pensar seriamente, no que é que estes projectos representam, o que é que, de facto, vão produzir, quando é que vão produzir. Pensar seriamente, não é com especulação. É pensar nas estratégias. E aqui, eu queria entrar num ponto sobre estratégias, que é uma coisa que está escrita no fundo soberano, que diz que os fundos quando forem utilizados para estabilização fiscal devem ser usados fundamentalmente para quatro sectores, saúde, educação, agricultura e segurança social, ora, o fundo está a falar em perspectiva de mais de 20 anos, se nós estamos a definir isso como as prioridades para o longo prazo, estamos a dizer que a nossa economia e a nossa sociedade daqui a 20 anos vão ser iguais a aquilo que são hoje, ora, isso não é coisa que agente deve estar a pensar. Agente deve estar a tentar transformar a economia, a tentar industrializa-la de alguma maneira, etc. Então, talvez esse elemento de prioridades deva sair do regulamento do fundo para o longo prazo e ser discutido em termos estratégicos, económicos acordados no país para responder as necessidades estratégicas do desenvolvimento do país em cada uma das suas fases, então se nós estivermos a industrializar vai chegar uma altura em que as prioridades vão mudar, as estruturas da economia vão mudar. Em princípio parece lógico que numa fase inicial haja menos recursos a serem concentrados no fundo e mais a serem disponibilizados no estado, isto no entanto não significa nada se nós não soubermos qual é o bolo e também significa pouco se não tivermos uma estratégia de desenvolvimento e transformação da economia, aí vamos voltar ao ponto, transformar a economia para a economia ser capaz de se estabilizar por si, pela sua estrutura produtiva e não apenas por medidas de austeridade.

O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) vai desembolsar 3,7 milhões de dólares adicionais para ajudar Moçambique a garantir a compra de vacinas de acordo com os requisitos da COVAX.

O montante faz parte de um financiamento de quatro mil milhões de dólares anunciado pelo Presidente norte-americano, Joe Biden, “para o Acesso Global às Vacinas COVID-19 (COVAX), que apoia o acesso a vacinas seguras e eficazes para 92 países de baixa e média renda”.

“Esta contribuição irá apoiar na compra e entrega de vacinas COVID-19 seguras e eficazes para as populações mais vulneráveis do mundo e em risco, incluindo profissionais de saúde da linha da frente. Este investimento é fundamental para controlar a pandemia e desacelerar o surgimento de novas variantes, além de ajudar a reiniciar a economia global”, diz um comunicado enviado ao “O País”.

Dois mil milhões de dólares em financiamento inicial estarão disponíveis imediatamente e serão disponibilizados mais dois mil milhões à medida que outros doadores contribuam com um aumento dos compromissos financeiros para este importante esforço, esclarece a nota.

Em relação aos “3,7 milhões de dólares adicionais” para Moçambique, os mesmos incluem o “planeamento da entrega e distribuição das vacinas em todo o país e assistência técnica no fornecimento de tratamento médico abrangente para pacientes com COVID-19”.

Ademais, inclui-se a aplicação segura e eficaz do oxigénio. “Identificado pelo Ministério da Saúde como uma prioridade crítica, o oxigénio é a chave para o tratamento de pacientes” com Coronavírus com “sintomas avançados ou graves”.

Os EUA doaram 50 ventiladores ao Ministério da Saúde e investiu mais de 20,4 milhões de dólares em treinamento, suprimentos e equipamentos, para apoiar a resposta à COVID-19 em Moçambique.

Segundo a administradora do Banco de Moçambique, Silvina de Abreu, o World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um crescimento da economia mundial na ordem de 5,6% em 2021 e 4,2% em 2022. Contudo, devido à incerteza, a forma como cada país vai recuperar da crise da pandemia da COVID-19 não será uniforme, isto é, há países como os Estados Unidos e a China, que vão registar um crescimento rápido em relação aos outros.

Silvina de Abreu refere que as soluções para ultrapassar a crise sanitária dependem de quatro factores, nomeadamente, a preparação dos países em termos de condições para lidar com a pandemia; a política fiscal voltada para o apoio aos sectores privado e familiar; a capacidade de digitalização; o trabalho remoto e a flexibilidade de fazer negócios, isto é, o doing business.

Com os requisitos satisfeitas, Silvina de Abreu entende que estarão criadas as condições para alavancar a economia nacional, na qual apenas o sector da agricultura é que demonstrou resiliência em 2020, ao registar um crescimento de cerca de 22% do Produto Interno Bruto (PIB).

O Banco de Moçambique aumentou em Janeiro último a taxa MIMO, usada como referência para o mercado financeiro interbancário que, apesar de ter criado desconforto ao sector privado caracterizado pela deterioração do índice de robustez empresarial, bem como pela depreciação cambial, Silvina de Abreu disse que a decisão tem por objectivo evitar a alta de preços no mercado, proteger as camadas mais desfavorecidas e preservar a moeda nacional.

E nesta luta pela preservação do metical, o sector privado é chamado a intervir com acções mais concretas, sendo uma delas, o aumento da qualidade em termos de prestação de bens e serviços, que permitem uma concorrência dentro e fora do país. E é neste contexto que, por exemplo, o director comercial da Total, Arnaldo Nhavoto, avançou que as empresas devem estar capacitadas para responder aos requisitos de qualidade exigidos pela multinacional, para que possam ser integradas na cadeia de valor de produção do gás, cuja exportação está prevista para 2024.

E no âmbito do conteúdo local, a Total prevê despender cerca de 2,5 biliões de dólares, dos quais mais de 1 bilião de dólares já foram gastos com empresas registadas em Moçambique, e 250 milhões com empresas detidas maioritariamente por moçambicanos, sendo que os restantes com empresas registadas no país, mas com capitais estrangeiros.

Para Moçambique, a directora de estudos e mercados do BCI, Faharana Razak, aponta para alguns condicionalismos do desempenho da economia nacional, nomeadamente, a incerteza sobre o crescimento global, o aumento da pressão sobre a despesa pública devido à COVID-19, a instabilidade política, as calamidades naturais e o aumento de preços de mercadorias.

Em relação à possibilidade de passar os USD 500 milhões, de uma linha de financiamento para uma venda directa de capital aos bancos comerciais, de modo a aumentar o crédito para o sector privado, o Banco de Moçambique defende que em 2020, em termos líquidos, a banca comprou mais dos agentes económicos do que vendeu, o que prova que é possível ter-se a economia a funcionar com as exportações a financiarem as importações.

De Abreu explica que os USD 500 milhões não constituem a primeira linha de actuação, mas sim o último recurso para o qual os bancos comerciais podem recorrer em caso de necessidade. Diz ainda que a primeira linha de actuação é a assegurar que os bancos se mantenham no mercado para comprar divisas dos exportadores e depois vendê-las para os importadores.

No que se refere ao investimento dos recursos provenientes das receitas de gás através do Fundo Soberano, o Banco de Moçambique diz estarem em curso o estudo de alguns cenários. Por enquanto, o projecto do Fundo Soberano está a ser analisado do ponto de vista de um fundo de estabilização e de poupança e que a componente de investimento caberá ao Governo fazer a devida gestão. Entretanto, o banco central acredita que o sector da agricultura, que já provou vai ser um dos que poderá beneficiar de investimento através do Fundo Soberano.

A banca comercial reafirma o compromisso no cumprimento das moratórias impostas pelo Banco de Moçambique, às taxas de juro até Junho de 2021, bem como algumas linhas de financiamento ao sector privado, tendo em vista o surgimento de novos micro-negócios que podem dinamizar a economia, tal com refere Faharana Razak.

Em relação ao impacto dos eventos climáticos extremos e pandemia da COVID-19, Razak disse que a banca está aberta à negociação dos contratos de crédito com o sector privado, para evitar que alguns agentes não migrem para o sector informal, tal como já foram constatados alguns casos, ainda que tal actuação de algumas PME não tenha sido ainda confirmada pela CTA.

O sector privado, através do presidente do conselho directivo da CTA, Agostinho Vuma, recomenda as multinacionais, como por exemplo a TOTAL, a combinarem a qualidade, formação e preparação das empresas nacionais através de um treinamento antecipado e não a posterior. “Moçambique tem que sonhar e sermos nós a implementar os sonhos”, concluiu Vuma.

O sector privado prevê que o ambiente macroeconómico continue a deteriorar-se neste primeiro trimestre do ano. Contudo, o presidente da Confederação das Associações Económicas (CTA), Agostinho Vuma, sugere a criação de normas para melhorar o ambiente de negócios no país.

Agostinho Vuma partilhou a informação hoje no Economic Briefing, evento organizado pela CTA, que debateu o desempenho empresarial de 2020 e as perspectivas para 2021, anos fortemente marcados pela COVID-19, sendo o sector empresarial uma das principais faces da crise.

Embora os dados partilhados pela CTA indiquem que o índice de robustez empresarial tenha subido ligeiramente, de 39 para 40%, no IV trimestre de 2020, com o alívio das medidas restritivas referentes à COVID-19, os patrões revelam que, no geral, o ano passado foi marcado por perdas.

“O exercício de monitoria constante dos impactos da COVID-19 sobre o sector empresarial nacional nos permite aferir que, de forma geral, em todo o ano de 2020, o sector empresarial registou perda de receitas estimadas em 1.1 mil milhão de dólares norte-americanos, dos quais, cerca de 38,3% deveram-se à redução do tempo de funcionamento das nossas empresas”, fez saber o presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique.

O chefe da principal agremiação patronal do país referiu ainda que as empresas perderam cerca de 885 horas de funcionamento efectivo durante o período de restrições devido à COVID-19, caracterizadas pelas limitações do tempo de funcionamento das empresas, a rotatividade dos trabalhadores e a quarentena para os trabalhadores infectados pela doença, facto que resultou na perda de 422 milhões de dólares norte-americanos em termos de facturação.

“Os outros 61,7% do volume de perdas de receitas deveram-se a perda significativa da procura agregada, a queda do nível geral de preços, entre outros factores. Adicionalmente, importa destacar que devido à pandemia da COVID-19, foram perdidos cerca de 40 mil postos de trabalho e cerca de 1075 empresas encerraram as suas actividades”, revelou Agostinho Vuma.

Face ao cenário de perdas e tendo em conta as novas restrições em curso, para os primeiros três meses de 2021, o sector privado nacional representado pela Confederação das Associações Económica anunciou a revisão em baixas das perspectivas de desempenho empresarial nacional.

“O ano 2021 inicia com o surgimento de uma nova vaga de propagação da pandemia da COVID-19 que levou o Governo a decretar novas medidas restritivas. Estas medidas aliadas à contínua depreciação cambial, aumento das taxas de juro, o efeito das calamidades naturais e à insegurança em algumas partes do país, fazem com que as perspectivas de evolução do desempenho empresarial no I trimestre de 2021 sejam revistas em baixa”, disse Agostinho Vuma.

O presidente da CTA diz ainda que os empresários que operam em Moçambique esperam por um aumento do custo do capital no primeiro trimestre do ano 2021, como efeito da subida da taxa de juro de política monetária (MIMO) em 300 pontos base em Janeiro de 2021, definida e anunciada pelo Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique, o banco central.

“Diante do cenário que assistimos no IV trimestre de 2020, conjugado com as primeiras impressões que colhemos no início de 2021, perspectivamos que o ambiente macroeconómico continue a deteriorar-se neste primeiro trimestre. No que diz respeito ao ambiente de negócios, esperamos que sejam introduzidos alguns instrumentos normativos relevantes para o sector empresarial, como a lei de minas, regulamento para provedores e utilizadores de internet, leis cambial e do Sistema de administração financeira do Estado”, prevê Vuma.

Na ocasião, o director executivo da Confederação das Associações Económicas, Eduardo Sengo, explicou que por causa das restrições, as empresas estiveram paralisadas cerca de 37 dias. Por isso, Sengo diz ser necessário reforçar as medidas de mitigação os impactos da COVID-19.

“É preciso repensar no pacote das medidas que já tinham sido discutidas em 2020. Os pagamentos especiais por conta do IRPC é comumente defendida pelo sector privado. Em todo lado onde fomos e em todos os inquéritos que recebemos, não houve uma empresa que não manifestasse preocupação ou propusesse que isso acontecesse e com uma alteração daquilo que foi feito no ano passado. No ano passado, a proposta foi de que devia-se abranger empresas com uma facturação ou uma receita anual de 2,5 milhões e a proposta é que para que haja maior abrangência, alinhado com aquilo que são as PME em Moçambique, então, que este volume fosse retificado para 70 milhões de meticais”, disse o director executivo da CTA.

Eduardo Sengo referiu ainda que o pagamento efectivo das dívidas do Estado às empresas é necessário porque seria uma injecção directa de capital para as pequenas e medias empresas, em jeito de contratação de serviços que as empresas poderiam ter, exemplificou.

“Outro aspecto importante que devemos destacar é a questão da linha de financiamento em moeda estrangeira que precisa de ser reestruturada sob o ponto de vista do seu custo e, em particular, o seu modelo. Nossa opinião é que essa linha fosse através do mercado cambial interbancário e não o mercado monetário interbancário”, sugeriu o director executivo da CTA.

Outra preocupação do sector privado é o endividamento do Estado na economia nacional que subiu bastante desde Junho de 2020, facto que reduz a possibilidade de as empresas se financiarem. Sengo fala ainda da necessidade de ampliar os fundos de apoio às empresas.

“Criação de um fundo de apoio empresarial… A estimativa que fizemos em 2020, no estudo lançado pela CTA, é que a necessidade das empresas estavam estimadas em 31 mil milhões de meticais para se fazer face aos efeitos da COVID-19 e, a linha que foi criada pelo BNI é de 1,6 mil milhão de meticais. O somatório dos pedidos, em um mês, atingiu 11 ou 12 mil milhões de meticais e o BNI interrompeu a recepção dos pedidos, ou seja, facilmente iria se chegar a esse número de 31 mil milhões de pedidos das empresas”, afiançou Eduardo Sengo.

O novo investimento no negócio de gás natural foi anunciado esta segunda-feira pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia, em representação do Governo e pela petrolífera sul-africana Sasol.

Com o valor, pretende-se desenvolver reservatórios adicionais de gás natural que se encontram ao redor dos campos de Inhassoro e Temane, no distrito de Inhassoro, província de Inhambane, no âmbito do Contrato de Partilha de Petróleo que teve o Plano de Desenvolvimento revisto pelo Governo em Setembro de 2020.

A Decisão Final de Investimento foi tomada na última sexta-feira, refere uma nota de imprensa enviada ao “O País” pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia.

Segundo o documento, o investimento vai permitir, por um lado, a produção de 23 milhões de giga joules de gás natural por ano, que serão usados para a produção de 30 mil toneladas de gás de cozinha por ano, naquela que será a primeira unidade do género no país. Por outro lado, irá permitir a geração de 450 megawatts (MW) de electricidade na Central Térmica de Ciclo Combinado de Temane, que serão injectados na rede nacional para a eletrificação do país.

Com a produção das 30 mil toneladas por ano de gás de cozinha (GPL), Moçambique deixa de importar cerca de 75% do produto, assegura o Ministério dos Recursos Minerais e Energia.

“O projecto contempla ainda a produção de 4 mil barris de petróleo leve por dia para exportação”, revela a nota de imprensa.

O processo de construção das infra-estruturas de produção de gás natural deverá iniciar em Julho do presente ano e vai empregar directamente mais de 3 mil moçambicanos e gerar outros milhares de empregos indirectos nos próximos três anos, indica o comunicado de imprensa.

Com o investimento, Moçambique dá um passo importante para a transformação interna do gás natural e na industrialização.

Informação partilhada recentemente pela Associação Moçambicana de Empresas Petrolíferas refere que, actualmente, apenas 3% da população moçambicana tem acesso a energias domésticas limpas para cozinhar, enquanto na África Austral 17% da população tem acesso e no continente africano como um todo, 29% da população tem acesso a essas energias limpas para confeccionar os alimentos.

Parceiros de cooperação desembolsaram ao Governo cerca de 661,5 milhões de dólares até o dia 31 de Dezembro de 2020 para responder as necessidades impostas pela pandemia da COVID-19. Do valor, cerca de 622 milhões de dólares foram em dinheiro e pouco mais de 39,5 milhões em produtos.

Quando eclodiu a pandemia da COVID-19, no ano passado, o Governo solicitou aos seus parceiros de cooperação um apoio de 700 milhões de dólares norte-americanos. Do valor solicitado, foi desembolsado o equivalente a quase 95 por cento.

Dessa quantia desbloqueada até Dezembro de 2020, segundo um relatório do Executivo publicado hoje, já foram canalisados ao Ministério da Saúde 111,4 milhões de dólares para a prevenção e tratamento da COVID-19, sendo que, 71,9 milhões em dinheiro e 39,5 milhões em produtos diversos.

“Dos USD 71.926.933,63 disponibilizados em numerário, USD 28.976.964,63 foram canalizados para contas do Ministério da Saúde (MISAU) e o remanescente, USD 42.950.000 (59,7%), ficou sob gestão dos parceiros para pagamentos directos de acordo com a lista de necessidades apresentada pelo MISAU”, indica o relatório sobre os compromissos assumidos pelo Governo diante dos parceiros relativos à COVID-19.

Outra parte desembolsada pelos parceiros é para cobrir o défice causado pela perda de receita resultante da queda do Produto Interno Bruto (PIB). O valor alocado é de aproximadamente 511 milhões de dólares norte-americanos e já foram utilizados cerca de 300 milhões, distribuídos da seguinte forma:

Perca de receitas absorveu cerca de 183 milhões de dólares; infra-estruturas escolares gastaram cerca de 47 milhões e abastecimento de água necessitou de pouco mais de 4 milhões de dólares; para apoiar as empresas afectadas pela pandemia da COVID-19, o Banco Nacional de Investimentos (BNI) recebeu cerca de 15 milhões de dólares.

Por sua vez, o sector da Saúde recebeu por via do Orçamento cerca de 12,7 milhões de dólares; a Acção Social – 8,3 milhões; o Fundo de Energia ficou com 15 milhões e o sector da Agricultura recebeu 10 milhões de dólares norte-americanos, refere o relatório publicado hoje.

Para transferir às famílias, os parceiros de cooperação disponibilizaram cerca de 39 milhões de dólares norte-americanos, valor usado tanto para pagar os beneficiários dos programas de protecção social antigos, como para o iniciar o pagamento dos novos beneficiários identificados no âmbito da pandemia da COVID-19.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos países da OCDE caiu 4,9% em 2020, o maior declínio desde o início das séries estatísticas em 1962, informou ontem a organização com base em estimativas provisórias. Esta contracção contrasta com o aumento de 1,6% registado nas economias destes países em 2019, escreve O Jornal Económico.

Entre as sete principais economias da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), que tem 37 países membros, os Estados Unidos perderam 3,5% do PIB em 2020, o Reino Unido, 9,9%, Itália, 8,9%, e França, 8,2%. Nos países da UE, a redução do PIB em 2020 foi de 6,3%.

As contracções da actividade económica surgiram num ano em que os países impuseram restrições severas ao comércio e à mobilidade para combater a pandemia da COVID-19.

No quarto trimestre de 2020, quando o vírus se começou a propagar mais fortemente, a economia da OCDE abrandou, registando um ligeiro aumento de 0,7% em relação ao trimestre anterior.

No terceiro trimestre de 2020, as economias tinham alcançado um crescimento elevado devido à flexibilização das restrições na luta contra a covid-19, escreve O Jornal Económico.

A OCDE constatou que os países europeus foram os mais duramente atingidos no último trimestre de 2020, com declínios da actividade económica.

Na UE, o PIB caiu 0,4% no quarto trimestre, depois de um aumento de 11,5% no trimestre anterior, quando as medidas restritivas tinham sido flexibilizadas na luta contra a pandemia.

O PIB da Alemanha cresceu 0,1%, enquanto o da França e Itália diminuíram 1,3% e 2%, respectivamente, no último trimestre de 2020. Estas são as únicas três economias europeias às quais o relatório da OCDE faz uma menção especial, segundo escreve O Jornal Económico.

No entanto, outras zonas tiveram um melhor desempenho económico: o Japão cresceu 3% no último trimestre de 2020, o Canadá, 1,9%, e os Estados Unidos e o Reino Unido, 1%, em ambos os casos.

 

Os órgãos de administração da justiça na província de Inhambane, nomeadamente, a Procuradoria da República e o Tribunal Judicial Provincial garantem que irão incrementar as suas acções, no quadro das actividades previstas para o presente ano, visando ajudar o Instituto Nacional da Segurança Social (INSS) na recuperação do dinheiro resultante dos descontos salariais dos trabalhadores para o seu futuro social e que não é canalizado para o sistema, por parte de alguns empregadores.

O compromisso foi feito esta semana, em encontros separados, mantidos entre a delegada provincial do INSS, Rabia Abacar, o procurador-chefe provincial e o juiz-presidente do Tribunal Judicial provincial de Inhambane, Nazimo Mussa e João Malauene, respectivamente, que serviu para avaliar a articulação existente entre o INSS e os órgãos da administração da justiça, no concernente ao cumprimento da legislação sobre a segurança social naquela região do sul do país.

“Na ocasião, aqueles gestores da administração da justiça reconheceram a preocupação apresentada pela delegada provincial do INSS de Inhambane, que no entanto enalteceu a colaboração que tem recebido das instituições da justiça ao nível da província, face à morosidade e a longa espera pelo desfecho de casos submetidos à Procuradoria, para posterior julgamento no Tribunal, envolvendo contribuintes que não honram com o seu compromisso, nos termos estabelecidos pela lei, em matéria de segurança social”, indica uma nota de imprensa do INSS.

Rabia Abacar disse que a morosidade na acusação e julgamento tem prejudicado os trabalhadores e os seus dependentes, por não poderem aceder aos direitos que lhes são concedidos pela Lei da Protecção Social, bem como pelo Regulamento de Segurança Social Obrigatória.

Por sua vez, o procurador-chefe provincial garantiu que no cumprimento de uma das atribuições da PGR, que é o de controlo da legalidade, solidariza-se com a preocupação apresentada e esforços serão envidados com vista a inverter o cenário. O Procurador-chefe apelou, na ocasião, às entidades públicas e privadas no sentido de se conformarem com a lei, sendo que a Procuradoria não hesitará em restituir a autoridade do estado perante situações de violação dos instrumentos normativos vigentes no país.

Já João Malauene, juiz-Presidente do Tribunal Judicial Provincial, que igualmente reconheceu a morosidade no julgamento, disse que tal facto deriva dos processos a que estão sujeitos os actos, mas garantiu que há espaço para a redução no tempo entre o agendamento e o julgamento dos casos.

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