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O País – A verdade como notícia

O sector privado quer ser envolvido no Plano Nacional de Vacinação, através de importação de vacinas e distribuição não gratuita pelas clínicas privadas. Já a Associação de Comércio, Indústria e Serviços diz que as novas medidas anunciadas pelo Presidente da República são nocivas à actividade económica.

Na última quinta-feira, o Presidente da República, Filipe Nyusi, falou à Nação e anunciou uma série de medidas, que, em geral, trazem mais aperto para o funcionamento de estabelecimentos comerciais – encerrou escolas em alguns pontos e limita um pouco mais a circulação das pessoas nas cidades e vilas do país inteiro.

O Director-executivo da Associação de Comércio, Indústria e Serviços, Edson Chichongue, mostrou-se insatisfeito com estas medidas, explicando que, na verdade, se trata de mais sufoco para o empresariado moçambicano.

Chichongue começa por falar mesmo da redução dos horários de funcionamento dos estabelecimentos comercias, defendendo que, primeiro, isso fará com que as pessoas visitem os locais ao mesmo tempo e, por isso, criar-se-ão aglomerados nesses locais, daí que são medidas que “só concorrem para que tenhamos mais casos da COVID-19” no país. Isto é por um lado.

Mas, por outro lado, a redução dos horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais “significa reduzir a capacidade de produção das próprias empresas” e, havendo essa diminuição, reduzem, também, os rendimentos, o que não facilita a manutenção dos postos de trabalho, daí que a ACIS questiona: “como é que vamos assegurar o pagamento de salários desses trabalhadores?”

Enquanto isso, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique entende que as novas medidas estão à altura de conter a propagação do vírus e que, por isso, se justifica, até porque “antes das medidas de prevenção, as empresas estão a ser afectadas pelo próprio vírus”, tal como explicou Evaristo Madime, vice-presidente da Comissão do Sector Privado para Resposta à COVID-19.

Todavia, Madime defende que, mais do que se apertarem as medidas de prevenção, no sentido tradicional, é preciso que se acelere o processo de vacinação dos moçambicanos para que, mais rapidamente, o país possa voltar à normalidade.

Para isso, o sector está disponível para participar de forma activa no processo. E essa participação seria feita através de venda de vacinas por via das clínicas privadas. Sendo privado, a distribuição destas vacinas não teria como ser de forma gratuita.

Porém, Madime diz que os preços praticados não teriam em conta a necessidade de se obterem lucros. O facto é que “as empresas adquiriram as vacinas e tiveram custos” e a perspectiva seria justamente de “suportar o custo da aquisição da vacina e nunca seria numa perspectiva de negócio”.

Aliás, o sector privado já começou a interagir com o Governo para que o projecto de vacinação, com participação do sector privado, seja aprovado e sejam importadas mais doses, de modo a completar-se a meta de 17 milhões de moçambicanos.

 

Em um encontro virtual, organizado pelo Banco Mundial, através da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), e pela República da Costa do Marfim, o Presidente da República, Filipe Nyusi, destacou a necessidade de se prover mais ajuda internacional aos países africanos que se encontram em dificuldades.

Falando durante a Reunião Virtual Sobre Mecanismos de Financiamento das Economias Africanas, que teve lugar esta quinta-feira, Nyusi reconheceu a importância do apoio do Banco Mundial, um dos parceiros multilaterais de Moçambique e de outras economias africanas, pelo notável apoio aquando da eclosão da pandemia da COVID-19.

“Aproveito a ocasião para agradecer o apoio que o Banco Mundial deu ao meu país, no âmbito da COVID-19 e isso permitiu que a economia do país não colapsasse”, referiu.

Nyusi reconheceu, ainda, o papel da IDA na recuperação das economias africanas, através de financiamentos nas áreas humana, tecnológica e agrícola.

“A Declaração de Paris aponta, de forma clara, para a reconstituição do fundo IDA – 20, para reforçar os orçamentos dos países beneficiários, no financiamento de infra-estruturas económicas e sociais, fundamentais para o crescimento das respectivas economias, centradas no homem, com intervenção na saúde, num ambiente de paz e com capacidade de reinvenção e resiliência às mudanças climáticas”, declarou o Presidente de Moçambique.

O Chefe de Estado disse que, com o financiamento, Moçambique estava num bom caminho rumo à recuperação da sua economia, entretanto foi travado por eventos sequenciados, como os ciclones Idai e Keneth, os eventos bárbaros de terrorismo em Cabo Delgado e a desestabilização no centro do país.

“Antes da eclosão da economia, implementámos um programa de consolidação orçamental bem-sucedido, que nos permitiu colocar a dívida pública numa posição decrescente, entretanto a crise que vivemos causou uma contração da economia que provocou perdas em volumes de negócios em 90 por cento das nossas empresas, em 2020”, disse.

Apesar dos dados negativos, o Chefe do Estado referiu que “a nossa expectativa é de recuperar gradualmente a economia do país, neste ano 2021. Estamos a implementar programas como o Sustenta, no âmbito da agricultura, Iluminar Moçambique, para provisão de energia, Água Para Vida, e muitos outros projectos”.

O encontro serviu, também, como uma oportunidade para os países discutirem sobre a cooperação económica, bem como a necessidade de um desenvolvimento baseado na sustentabilidade financeira dos países em desenvolvimento.

Para além do Chefe do Estado moçambicano, participaram neste encontro os Presidentes da Costa do Marfim, Gana, Quénia, Ruanda, Togo, Benin, Madagáscar, Senegal, entre outros Chefes de Estado e de Governo.

Falando à margem do workshop sobre a despesa pública, com enfoque na previsão e programação dos principais indicadores de despesa, que teve lugar esta quinta-feira, em Maputo, o secretário Permanente do Ministério de Economia e Finanças, Domingos Lambo, afirmou que a realidade das nossas instituições públicas é de escassez.

“Não é novidade para ninguém que estamos a atravessar momentos de escassez de recursos. Entretanto, neste momento o importante é que elas não parem de funcionar. Devem operar com o pouco que existe. Todavia, as instituições estão a funcionar”, assumiu.

Questionado sobre os principais desafios do sector, Domingos Lambo apontou a pandemia da COVID-19 como o principal travão.

“Neste momento, o principal desafio são os impactos da COVID-19. Isto está a afectar os tecidos produtivos e, por isso, as instituições estão a trabalhar a meio a gás, o que directamente afecta a parte que alimenta o orçamento do Estado”, referiu Domingos Lambo.

A Directora de Gestão de Riscos do Ministério da Economia e Finanças (MEF), Nazira Faquir, afirma que o evento é uma oportunidade para capacitar 40 técnicos do MEF, Banco de Moçambique, Instituto Nacional de Estatísticas, Empesa Nacional de Hidrocarbonetos e outras instituições com relevância na dinâmica macroeconómica do país.

“O Ministério da Economia e Finanças há muito que precisava de uma actualização na perspectiva metodológica, para minimizar os riscos fiscais e aprimorar as metodologias para a elaboração das projeções macroeconómicas e fiscais”, explicou Nazira Faquir.

Na ocasião, foi apresentada a nova versão do Manual de Projecções Macroeconómicas e Fiscais, em substituição do anterior, com mais de 10 anos, já considerado ultrapassado.

No workshop, foram discutidos os temas como regras fiscais, classificação da despesa pública, projecções macroeconómicas, entre outros.

Representado pelo Primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário, Moçambique vai participar da XIII conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Angola, onde serão discutidos, dentre vários temas, a mobilidade entre os países da região, bem como o robustecimento da economia dos países da CPLP.

A conferência em alusão estará subordinada ao lema “Fortalecer e Promover a Cooperação Económica e Empresarial em Tempos de Pandemia, em prol do Desenvolvimento Sustentável dos Países da CPLP”.

Segundo um comunicado recebido pelo “O País”, para além do debate sobre a mobilidade nos países da CPLP e eleição de embaixadores de boa vontade, com destaque para o moçambicano Leonardo Santos Simão, faz parte da agenda do encontro a eleição do secretário executivo da CPLP para o biénio 2021-2023 e a aprovação da concessão da categoria de observador da associação.

Na sua deslocação à Angola, o Primeiro-ministro será acompanhado pelo ministro do Interior, Amade Miquidade, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Manuel Gonçalves, embaixadores de Moçambique em Angola e Portugal e quadros do seu gabinete.

O Professor Doutorado em Economia de Desenvolvimento, Ibraimo Hassane Mussagy, lançou, esta quinta-feira, na cidade de Maputo, a sua recente pesquisa económica. Intitulado Economia de Moçambique e os desafios da nova crise, o livro é uma reflexão sobre os impactos da COVID-19 na economia moçambicana.

O livro de Ibraimo Hassane Mussagy tem mais de uma centena de páginas. À Universidade Católica de Moçambique, Delegação de Maputo, o Doutorado em Economia de Desenvolvimento levou ao público o título Economia de Moçambique e os desafios da nova crise, livro que mergulha nas consequências da pandemia.

De acordo com o autor, Economia de Moçambique e os desafios da nova crise é um livro essencialmente motivado pelos impactos da COVID-19. “Tento mostrar como a pandemia afecta a economia nacional nas pequenas e médias empresas. Há problemas que vão existir relacionadas à liquidez das PME e eu avanço aqui algumas propostas sobre como podem enfrentar a situação”.

Igualmente, a reflexão de Ibraimo Hassane Mussagy inclui uma análise a orçamentos familiares, explicando por que o número de pessoas que vai entrar em situação de pobreza vai aumentar e o que isso irá significar para a economia moçambicana. Neste contexto, Mussagy lembrou que Moçambique é um país essencialmente importador, sendo exportador de matéria-prima. Por isso, sofre com os impactos da conjuntura internacional, consequência dos efeitos da pandemia.

Além disso, Economia de Moçambique e os desafios da nova crise, na percepção de Ibraimo Hassane Mussagy, é um contributo para o debate sobre a constituição do fundo soberano. “É preciso que essa discussão comece para que se saiba como esse mesmo fundo deve ser constituído”, afirmou.

Na cerimónia de lançamento, o livro de Ibraimo Hassane Mussagy foi apresentado por João Mosca, para quem “o livro aborda várias questões actuais de Moçambique. Com certeza, irá contribuir para compreensão de alguns aspectos moçambicanos, e será um documento importante para o público ler sobre questões económicas”.

Economia de Moçambique e os desafios da nova crise foi prefaciado por Filipe Sungo e Jorge Ferrão.

Ibraimo Hassane Mussagy é Doutorado em Economia de Desenvolvimento pela Zimbabwe Open University e é Professor Associado e Coordenador do Curso de Doutoramento em Economia na Universidade Católica de Moçambique.

A Lei de castanha de caju vai à revisão. Entre outros aspectos, a proposta determina que só se pode exportar a castanha de caju depois do abastecimento às necessidades anuais da indústria nacional.

Os paradigmas de produção, processamento e exportação da castanha de caju mudaram profundamente ao longo do tempo. Para melhor acompanhamento dessa dinâmica, a Lei do caju número 13/99 de 1 de Novembro, existente há 22 anos, poderá, até ao fim de 2021, sofrer algumas alterações.

A exportação da castanha de caju, depois do abastecimento das necessidades anuais da indústria nacional, poderá constar do número 4 do artigo 10 do instrumento em referência.

Recuando no mesmo artigo, o número 3 prevê que o processador industrial poderá exportar o excedente da castanha de caju em bruto, isso para fins de processamento industrial.

No capítulo dos impostos, a proposta prevê uma mudança no número 1 do artigo 11 da Lei. Assim, a exportação da castanha de caju em bruto ficará sujeita a uma taxa de sobrevalorização de 22 por cento por um período não inferior a cinco anos.

Esta taxa, por conseguinte, deverá ser paga no acto do embarque, não sendo permitido o pagamento diferido da mesma.

A exportação da castanha de caju com película poderá ficar sujeita, por um período também não inferior a cinco anos, a uma taxa de sobrevalorização de 15 por cento, também a ser paga nas mesmas condições que o ponto acima.

Ainda no domínio dos impostos, a exportação da castanha de caju passará a ser sujeita a uma taxa de sobrevalorização de cinco por cento. O projecto sugere que a exportação da amêndoa processada está isenta das obrigações fiscais.

Segundo o Ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, a revisão do instrumento tem como objectivo assegurar a actividade sustentável da cadeia de valor, podendo permitir um ambiente de comércio justo.

A este objectivo junta-se o de aumento da renda familiar dos produtores através da melhoria da qualidade e produtividade da castanha de caju, promoção da investigação agrária e transferência de tecnologia para os produtores e renovação do parque de caju nacional.

“A comercialização e exportação da castanha de caju processada desempenham um papel importante na medida em que faz com que o produto tenha um relativo valor agregado, contribuindo para o aumento de postos de trabalho”, sublinhou Celso Correia.

O titular da pasta de Agricultura disse, igualmente, que a produção desta espécie de amêndoa “permite uma ligação duradoura entre as actividades de extracção e de processamento industrial, favorável para a exploração sustentável dos recursos naturais”.

Apresentada, esta quarta-feira, a vários actores de cadeia de valor de caju, a proposta da revisão da nova lei foi alvo de controvérsia, mas também de consenso entre os produtores industriais.

A proposta em causa sugere, ainda, o cidadão nacional ou estrangeiro pode ser exportador, individual ou colectivamente, desde que reúna requisitos exigidos. O preço mínimo de compra de castanha bruta poderá ser definido pelo Conselho de Ministros sob a proposta do Comité de Caju.

A Gemfields, firma que opera a Montepuez Ruby Mining em Namanhumbir, em Cabo Delgado, pretende que as organizações mineiras nacionais, observadores da indústria e os Governos anfitriões adoptem o “Factor G para os Recursos Naturais”, uma nova medida que promove uma maior transparência, relativamente ao nível de riqueza dos recursos naturais partilhados com os Governos dos países onde ocorre a extracção de recursos.

Sobre esta matéria, o Governo defende que a indústria extractiva assegure a industrialização nacional, garantindo que os recursos sejam transformados em produtos de alto valor acrescentado, promovam mais emprego e dinamizem o mercado interno e as exportações, pois entende que os cidadãos devem estar devidamente informados sobre os processos inerentes à exploração dos recursos, ao longo de toda a cadeia de valor, do licenciamento, contratação, produção, venda, exportações, até aos fluxos de receitas para o Estado e a forma como essas são usadas para o desenvolvimento das comunidades afectadas.

Para a Gemfields, o “Factor G para os Recursos Naturais” será um indicador simples da percentagem das receitas de uma empresa de recursos naturais que é paga ao Governo do país anfitrião em impostos primários e directos, mais os dividendos quando o Governo anfitrião é accionista. Como tal, é um indicador da percentagem da riqueza dos recursos naturais paga ao Governo do país anfitrião.

O modelo, segundo a Gemfields, é calculado por cada empresa dedicada principalmente à extracção e venda de recursos naturais, seja no sector mineiro, petróleo, gás, madeira, seja na pesca, entre outros.

“Assim sendo, as empresas multinacionais de recursos naturais iriam publicar o ‘Factor G para os Recursos Naturais’ para cada filial operacional que se dedica à extracção e venda de recursos naturais”, refere uma nota enviada ao “O País”.

A designação “Factor G para os Recursos Naturais” vem dos “Gs” em “governo”, “governação” e “boas práticas”.

A Gemfields diz, porém, que nenhuma medida é perfeita e explica que o “Factor G para os Recursos Naturais” é uma “regra geral” que tem uma aplicação ampla, mas não é adequada a todas as situações.

Sean Gilbertson, Director Executivo da empresa, disse que “numa época em que se assiste a avanços significativos em matéria de transparência e governação, e em que os relatórios anuais das empresas públicas já exigem relatórios exaustivos sobre tantas facetas da actividade empresarial, é surpreendente que os parâmetros práticos que permitem uma visão mais directa e uma comparação de partilha da riqueza dos recursos naturais ainda nos iludam”.

Por isso, pede que a colaboração, contribuição e apoio para a adopção do “Factor G para os Recursos Naturais” seja um passo em frente a ser adoptado voluntariamente por outras firmas.

O Standard Bank confirmou a recepção da correspondência do Banco de Moçambique e afirma que continuará a dialogar e a trabalhar para esclarecer todas alegações sobre a sua suspensão do mercado cambial, e salvaguardar os interesses dos clientes e todas as partes interessadas.

Através de uma nota divulgada esta terça-feira, o Standard Bank explica que apesar da suspensão do mercado cambial, “as suas operações diárias não relacionadas com este processo não estão afectadas e continuam a decorrer com normalidade”.

O banco assegura, ainda, que dispõe de um plano “claro” de continuidade de negócios, de tal forma que já nomeou um Administrador Delegado interino, desde o início do processo que levou ao referido banimento.

“O Standard Bank está comprometido em fazer negócios de forma ética e responsável. Os seus processos de governance e conformidade são rigorosos, pois a sua reputação é um activo valioso”.

O Banco de Moçambique suspendeu o Standard Bank de toda a actividade cambial e de conversão de divisas, por um período de até um ano, e aplicou uma multa de pouco mais de 290 milhões de Meticais, como resultado do que classifica de “graves infracções de natureza prudencial e cambial”.

De acordo com um comunicado de imprensa emitido nesta tarde, o Banco Central detalha as infracções cometidas pelo Standard Bank e dois dos seus gestores, nomeadamente, Adimohanma Chukwuma Nwokocha (Administrador-delegado), e Carlos Domingos Francisco Madeira (Director da Banca Corporativa e de Investimentos).

“As infracções cometidas incluem, mas não se limitam a: i) manipulação fraudulenta da taxa de câmbio; ii) instalação e implementação de uma rede de pagamentos ilegal sediada fora do país, que, no geral, se assemelha à SIMOrede; iii) realização de operações irregulares de derivativos financeiros para a cobertura de risco associado à flutuação cambial, envolvendo o Director da Banca Corporativa e de Investimentos como cliente; iv) não regularização dos termos de compromisso das exportações; e v) não entrega ao Banco de Moçambique de gravações nos prazos estipulados, em clara acção de obstrução à actividade de inspecção”, descreve o comunicado.

Para além das medidas aplicadas ao banco em referência, a autoridade monetária decidiu suspender o Administrador-delegado do exercício de cargos sociais e de funções de gestão em instituições de crédito e sociedades financeiras no país, por um período de seis anos e aplicou-lhe uma multa no valor total de 6.380.090 (seis milhões, trezentos e oitenta mil e noventa meticais).

Para Carlos Domingos Francisco Madeira, o Banco Central aplicou uma multa no valor total de 14.036.198 (catorze milhões, trinta e seis mil e cento e noventa e oito meticais) e uma inibição do exercício de cargos e de funções de gestão em instituições de crédito e sociedades financeiras no país por um período de seis anos.

Na sequência das penalizações aplicadas, o Banco de Moçambique salienta que “com vista a salvaguardar os interesses dos clientes e de outros interessados, bem como assegurar a estabilidade do sistema financeiro, os accionistas do Standard Bank Moçambique, S.A. estão a colaborar com o Banco de Moçambique, por forma a sanar as irregularidades acima mencionadas”.

“Neste contexto, foram elaboradas medidas de acompanhamento contínuo que poderão ditar o levantamento da suspensão ao Standard Bank, S.A., antes do prazo estipulado, mediante avaliação positiva dos resultados”.

“A MAIOR SANÇÃO NÃO É A FINANCEIRA, É A INIBIÇÃO DO STANDARD BANK”

O Banco de Moçambique decidiu sancionar o Standard Bank, seu administrador-delegado e o director de banca corporativa e de investimentos por terem cometido diversas infracções, com destaque para a manipulação fraudulenta da taxa de câmbio, bem como, a instalação e implementação de uma rede de pagamentos ilegal sediada fora do país que se assemelha à SIMOrede.

Em entrevista ao “O País”, o economista Yasfir Ibraimo explica as sanções e diz que com a multa, o Standard Bank perde o equivalente a 5% do lucro líquido que obteve em 2020. Por isso, para si, a maior sanção que o banco teve é a sua suspensão, por até um ano, de exercer a actividade cambial de conversão de divisas.

De forma simples, peço que explique estas infrações cometidas pelo Standard Bank e os respectivos impactos na banca, em particular, e na sociedade como um todo?

Essas sanções derivam daquilo que é a inspecção da supervisão bancária junto do Standard Bank e coincidentemente, essas operações acontecem num período em que a taxa de câmbio teve um choque nunca antes visto no nosso panorama financeiro recente, o que significa que alguma actividade fora daquilo que são as normas financeiras e fora daquilo que é o regulamento do mercado cambial.

Foram exercidas pelo Standard Bank, o que levou o Banco Central a sancionar este banco. Isto, por um l ado, v em m ostrar a f ragilidade existente no nosso sistema financeiro, porque um dos maiores bancos da nossa praça está envolvido em uma fraude no sistema financeiro de grande dimensão e olhando também aos funcionários do banco envolvidos neste processo que são seniores, com posições relevantes naquilo que é a relação comercial entre o banco e os seus clientes e também com o próprio banco central.

Essas sanções trarão implicações, olhando, primeiro, à sanção que o próprio Standard Bank sofre como banco que vai pagar em termos percentuais, comparando com o seu último exercício económico, cerca de 5% do lucro líquido que obteve no período de 2020; do ponto de vista de imagem do próprio banco; e também para a economia como um todo. O Standard Bank vê-se privado por um ano de realizar qualquer transação de conversão em moeda estrangeira. Nós sabemos que este é um dos bancos que tem maior exposição em relação às transações em moeda estrangeira, dado à capacidade de mobilização de moeda estrangeira que este possui. Isso vai afectar, primeiro, os clientes; as empresas corporativas; vai afectar ainda as famílias e as Pequenas e Médias Empresas, tendo em conta aquilo que é a estrutura económica do país que é extremamente importador, um país em que os bancos comerciais são chamados a fazer a intermediação financeira com o resto do mundo e o Standard Bank sendo um dos bancos que está ligado aos grandes projectos de investimento estrangeiro no país, isso, de certa forma, vai impactar na relação com o resto do mundo e também com essas empresas.

E do ponto de vista das famílias, isso vai implicar a migração para outros bancos, vai obrigar as famílias a redefinirem a sua ligação com o próprio banco, porque, neste momento, a continuar as operações do próprio banco com o resto do mundo, será feito nos moldes que o Banco de Moçambique está a utilizar, isto é, as divisas são transferidas para outros bancos comerciais e estes poderão fazê-lo para o resto do mundo.

Isto é uma estrutura muito complexa e leva muito tempo de reacção e as famílias e empresas não irão manter esta plataforma de transações e vai levar as famílias e empresas a migrarem para outros bancos dentro do sistema financeiro nacional por forma a flexibilizar os processos de transações financeiras. Isso vai implicar uma queda do volume de depósitos, do volume de transações do banco, tendo em conta aquilo que é o interesse desses agentes económicos de transação de divisas e por outro lado vai impactar no próprio balanço económico do Standard Bank nos seus próximos exercícios económicos, tendo em conta que as comissões que os próprios bancos comerciais ganham com essas transações com o resto do mundo, tendo em conta a entrada de divisas que o banco recebe e com isso permite-lhes fazer acumulação de divisas e uma das margens de lucros desses bancos são as transações de divisas no mercado cambial interbancário.

O que significa que o Banco de Moçambique está atento ao que acontece no sistema financeiro e vai apertar a supervisão bancária. Uma das sanções é que o Standard Bank manipulou a taxa de câmbio e essa manipulação inviabiliza a condução da política cambial.

Em palavras mais simples, neste caso, o que seria a manipulação da taxa de câmbio?

Conforme vem no comunicado do banco central, os bancos comerciais criam mecanismos de protecção de riscos de flutuação cambial entre o sector empresarial que solicita ao banco uma cobertura cambial para minimizar preocupações de riscos e isso afecta as suas previsões de cash flow e as suas previsões de riscos e esses agentes económicos, as famílias e empresas, fazem acordos futuros de taxas de câmbio, onde uma determinada taxa de câmbio é acordada para ser paga em um determinado período de tempo. Portanto, quando há um choque da taxa de câmbio, como por exemplo, a que nós verificamos, isso impacta na rentabilidade dos próprios bancos e de certa forma podem ser utilizados mecanismos para forçar uma depreciação da nossa moeda, criando escassez aparente de divisas no mercado cambial.

Por exemplo, se o Standard Bank é um dos bancos com capacidade de maior acumulação de divisas, é um banco que tem maior possibilidade de intervir no mercado cambial para criar algum choque na taxa de câmbio, por exemplo, forçando uma aparente escassez de divisas, pode se presumir que foi o que de certa forma aconteceu no mercado, quando o metical começou a apreciar em relação ao dólar norte-americano e isso levou aos bancos a emitirem pagamentos, mas em algum momento, não encontravam divisas para fazer esses pagamentos. Então, isso pode ser visto como uma possível manipulação da taxa de câmbio para forçar uma taxa de câmbio que vai de acordo com aquilo que

é a projecção que o banco faz para os seus pagamentos futuros. Por outro lado, temos a influência dos gestores do banco que têm acesso à informação privilegiada que o grosso dos agentes económicos não têm e podem com base nesses instrumentos intervir à margem daquilo que é a regulamentação cambial para forçar uma taxa de câmbio que melhore a situação do banco e desses gestores, porque esses têm um bonos pela sua performance nos mercados.

Outra infracção apontada pelo Banco de Moçambique que foi cometida pelo Standard Bank é a instalação e implementação de uma rede de pagamentos ilegal sediada fora do país que no geral se assemelha à SIMO rede. O que o banco central quer dizer com essa colocação e caso as infrações continuassem, que riscos podiam ser esperados no sistema financeiro e na economia nacional no geral?

Primeiro, temos uma questão de pagamentos ilegais que são feitos para o exterior, o que significa saída de divisas no nosso país para o resto do mundo e isso contribui para o desgaste das reservas internacionais líquidas que o Banco de Moçambique procura acumular. E o Banco de Moçambique tem como um dos objectivos ter o controlo de divisas que estão em circulação na nossa economia e as divisas que saem e entram: também faz parte do regime de controlo de branqueamento de capitais, de financiamento ao terrorismo e da fuga ao fisco. Os bancos comerciais funcionam como intermediários financeiros e todas as saídas de divisas do país carecem de autorização junto do banco central, até mesmo em relação aos pagamentos antecipados, os bancos comerciais, à posterior, devem remeter ao banco comercial o comprovativo de que a mercadoria ou os serviços que foram pagos já estão concretizados e já estão em nosso país.

Uma das sanções que o banco coloca é que esses comprovativos não eram emitidos ao banco central, o que significa que, ordenou-se pagamentos de determinados bens e serviços ao resto do mundo e em contrapartida, o banco central não teve acesso a esses documentos, o que pode em parte significar pagamentos de bens ilícitos e fuga ao fisco e, por outro lado, temos um espaço em que o banco central acaba não tendo controlo de finalidade das divisas que estão a ser usadas e nós sabemos que há fugas de capitais no nosso país para o resto do mundo e os bancos comerciais também, em parte, colaboram com este mecanismo e a sansão do banco central em relação a este especto mostra que há um conjunto de pagamentos feitos ao exterior sem o devido comprovativo e em parte sem a devida autorização do próprio banco central, o que infringe as normas do próprio Banco de Moçambique relativa à regulamentação do mercado cambial.

No entanto, a continuidade dessas acções por parte do Standard Bank teriam implicações no próprio mercado cambial. Nós sabemos que a taxa de câmbio em Moçambique é uma variável extremamente importante para os objectivos de política monetária, isto pela relação que existe entre a taxa de câmbio e a inflação. Essas acções a continuarem, poderiam inviabilizar os esforços do Banco de Moçambique de estabilização da taxa de câmbio e por outro lado poderiam obrigar o banco central a um maior desgaste de divisas no mercado cambial, na tentativa de estabilizar a taxa de câmbio e isso pode afectar a capacidade do banco central de conter a inflação, pode afectar a capacidade de importação da economia de bens essenciais como combustíveis e equipamentos, assim como colocar Moçambique no mapa de financiamento de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo.

Como classifica essas sanções do Banco de Moçambique em termos de dimensão?

São sansões graves, tendo em conta a inibição do próprio banco de intervenção no mercado cambial. Do ponto de vista de sansões monetárias, penso que isso está ao alcance do próprio banco. Se o banco tivesse que pagar essas sansões e amanhã ter a entrada no mercado cambial aberta, isso seria benéfico para o próprio banco e este, rapidamente, transferiria esse montante para o banco central.

Mas, a maior sanção não é a financeira, é a inibição do Standard Bank por um período de um ano de qualquer intervenção de conversão de moeda estrangeira no mercado cambial e isso afecta a actividade do banco, que é um dos maiores em termos de exposição ao mercado externo. Essas investigações devem ser estendidas a outros bancos.

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