O País – A verdade como notícia

O Padre Manuel Ferreira vai apresentar ao público de Maputo, esta terça-feira, a partir das 17h30, no Camões – Centro Cultural Português, o seu mais recente livro.

Intitulada Serenidade, a nova proposta literária do Padre Manuel Ferreira convoca ao leitor uma série de emoções e sensibilidades. Trata-se de uma escrita poética a enaltecer o exercício introspectivo do “eu”, enquanto entidade que compõe o colectivo.

De acordo com a Editorial Fundza, o livro Serenidade traz uma poesia esclarecedora, mas que investe na consolidação do ser, ora dando sentido à existência, ora iluminando zonas de penumbra. Trata-se, avança a nota de imprensa daquela editora, de uma poesia em verso, descomprometida e espontânea, na qual o leitor poderá reencontrar-se com a sua singularidade.

Serenidade, de Padre Manuel Ferreira, conta com uma nota de apresentação do ensaísta e jornalista José dos Remédios, que também vai apresentar o livro, para quem o poeta “elabora uma versificação aparentemente simples sobre as múltiplas dimensões da palavra. Sereno, num mundo deveras compulsivo e agitado, o autor atribui aos seus sujeitos de enunciação a preferência por um jogo da construção do ser, da acção e da existência. Temos aqui uma(s) voz(es) que encontra(m) em si e nos outros alguma ‘nau futura’ rumo à coerência, às vezes, inefável das coisas”.

Manuel Serra Ferreira é um padre jesuíta português de 76 anos. Em 1963 licenciou-se em Filosofia, em Milão. Em Outubro de 1964, chegou a Moçambique. De 1964 a 1996 lecionou Português, História, Desenho e Música, na Escola Normal de Boroma, Tete. Em 1973, doutorou-se em Teologia, na Universidade Gregoriana de Roma. Regressado a Moçambique, em Fevereiro de 1974, leccionou Francês e Português, na Escola Secundária, Português e Técnicas de Expressão na Comercial, Português no Instituto Industrial e no pré-universitário. De 1990 a 2000, no Maputo, leccionou Teologia, no Seminário Maior e no Instituto Superior Maria Mãe de África. Regressado à Beira, a partir de 2003, lecionou Latim, no seminário propedêutico, e Ética, Mundividência Cristã e Latim, na Universidade Católica. Ao longo da sua longa formação, sempre se dedicou à Literatura. Publicou quatro livros de teor religioso, um deles a tese de doutoramento.

É comum que um autor fique perturbado com a leitura que se faz do seu livro. Não seria difícil citar 10 exemplos em que tal aconteceu. Vezes há em que tudo termina entre os botões do autor e sabe-se da sua perturbação pelos corredores, cafés e bares. Noutras vezes (não poucas) os escritores usam redes sociais ou colunas de jornais para manifestar o seu desencanto com a leitura de um certo crítico (ou aspirante ao ofício). Vemos, em alguns livros, uma tendência subtil do escritor deixar pistas que norteiem o exercício de leitura que, a priori, é alheio a si e é matéria de outros poderes. Neste caso, o do leitor. As epígrafes, os preâmbulos, as notas de autor e outras “manobras” paratextuais são recurso preferencial dos autores para enviarem recados ao leitor antes, durante e após a leitura da obra. Haverá, certamente, quem se interesse em aprofundar esta matéria.

Vem isto a propósito de uma nota que Wole Soyinka deixa em “a morte e o cavaleiro real”, uma peça originalmente publicada com o título “Death and the King’s Horseman”, traduzida para português por Sandra Tamele e publicada pela Ethale Publishing, em Moçambique.

Tive a infelicidade de ler a nota do autor antes que lesse a peça. Embora seja fascinado pelos fenómenos que emergem num contexto de contacto entre culturas, tenho reservado alguma sobriedade para ler o que o texto oferece e, aliando ao que já carrego no meu saber enciclopédico, faço uma leitura interactiva alicerçada nos preceitos de Mikhail Bakhtin. Neste caso, foi-me difícil ler o texto sem o assombro de Soyinka ao ouvido dizendo como a sua peça devia ser lida ou, quiçá, encenada.

A dado momento da sua nota, Soyinka diz o seguinte:

O mal dos temas deste género é que assim que são empregues criativamente adquirem logo o fácil rótulo de “choque de culturas”, um rótulo prejudicial que, longe da sua má aplicação, pressupõe uma potencial igualdade em todas situações da cultura estrangeira e da cultura indígena, em solo da última. (Na área da má aplicação, o prémio de literacia e condicionamento mental no ultramar cabe indubitavelmente ao autor da sinopse da edição americana do meu romance Season of Anomy, que afirma descaradamente que esta obra ilustra o “choque entre valores antigos e novas maneiras, entre métodos ocidentais e tradições africanas”!) É graças a este tipo de mentalidade perversa que penso ser necessário acautelar o potencial produtor desta peça contra uma triste tendência reducionista similar e, em vez disso, guiar a sua visão para a tarefa muito mais difícil e arriscada de elucidar a essência lamentosa da peça.

Trata-se de uma peça que aborda eventos ocorridos em Oyo, antiga cidade yoruba, na Nigéria, em 1946. O Cavaleiro Real, Olori Elesin, é o centro da trama. Segundo um secular costume tradicional yoruba, após a morte do rei, o seu cavaleiro devia suicidar-se para acompanhá-lo ao céu.

Elesin, gozando de simpatia pelos habitantes da comunidade yoruba, revigora-se para viver o seu último dia em absoluta felicidade. Alegra-se. Faz grassa com os seus. Faz o que mais lhe dá gozo. E, não menos importante, escolhe uma mulher com quem ter o último coito antes da partida e, segundo os costumes, é a esta que caberá a tarefa de lhe tapar os olhos depois de morto. Sucede, entretanto, que a mulher por si eleita já havia sido prometida para um jovem da aldeia. Embora tivessem surgido protestos para negar esse desejo, tal não podia prosseguir porque “ninguém iria remediar o flagelo da mão fechada no dia em que todas deviam estar abertas à luz”. Pela importância dada ao ritual, a comunidade yoruba esteve toda informada sobre o que iria suceder naquela noite e, entre cânticos e batuques, registava-se o momento. Tanto pelas informações que corriam quanto pelo som de cânticos e batuques, Simon Pilkings, o administrador colonial, toma conhecimento do que iria suceder e ordena a prisão de Elesin por considerar a prática do suicídio nociva, ilegal e, acima de tudo, entendia que o costume em volta dele era atrasado.

Para os yoruba, a interrupção do ritual e o impedimento do suicídio de Elesin significava a condenação de toda uma comunidade e das gerações posteriores a um caos sem precedentes por se ter inviabilizado uma ordem cósmica secular.

Este episódio ocorre na mesma altura em que Olunde, filho primogénito de Elesin regressa de Inglaterra, para onde fora cursar Medicina à mercê de uma bolsa de estudos facultada por Simon Pilkings como forma de incentivar o jovem que tinha bom desempenho na escola e merecia uma sorte melhor que “seguir tradições atrasadas e desumanas.” Ciente do que se estava a tratar, Olunde assume a responsabilidade do pai e suicida-se em seu lugar. Elesin, por seu turno, suicida-se, também, na prisão, mas tal não chega a ser suficiente para inverter a má sorte que se iria instalar a partir do momento em que o ritual foi interrompido e se invertido a ordem natural dos acontecimentos, segundo a visão do mundo yoruba.

Retomando a divisão aristotélica dos modos literários, indubitavelmente, “a morte e o cavalheiro real” é um texto circunscrito no modo dramático. De forma específica, trata-se de uma tragédia pelo tipo de temática que aborda, das acções em conflito e da mudança paradigmática da vida de Elesin da situação inicial à final. Do ponto de vista externo, a peça apresenta cinco actos e vinte e uma cenas. Internamente, diria que a exposição corresponde ao primeiro e segundo actos, o conflito ocorre nos terceiro e quarto actos, e o desenlace desencadeia-se no último acto. A peça gira em torno de Bardo, Elesin, Iyaloya, Simon Pilkings, Jane Pilkings, Amusa, Joseph, Noiva, Guarda, Sua Majestade Real o Príncipe, O Residente, Ajudante de Campo, Olunde, Batucadores, Mulheres, Meninas e Dançarinos do Baile.

Do ponto de vista de relevo, dentre estes personagens, Elesin (protagonista) e Simon Pilkings (antagonista) são principais; Olunde, Iyaloya, Bardo, Jane Pilkings, Amusa, Mulheres e Meninas são secundárias; Joseph, Noiva, Guarda, Sua Majestade Real o Príncipe, O Residente, Ajudande de Campo, Batucadores e Dançarinos do Baile são figurantes. Conforme referi, as acções de “a morte e o cavaleiro real” ocorrem num mesmo universo espacial e temporal: Oyo de 1946. Ora, conforme refere o autor na já aludida nota, “por meras razões de dramaturgia, a acção foi recuada dois ou três anos, para quando havia guerra.”

Em “a morte e o cavaleiro real” podem emergir várias leituras. Mas algumas não vingam, não só por ter sido objecto da refuta que Soyinka adianta na nota desta edição, como porque não encontra fundamento consistente no desenrolar da peça. De facto, ler a peça na perspectiva de contacto entre culturas só teria azo se o diálogo entre Olunde (filho de Elesin) e Jane Pilkings (esposa de Simon Pilkings) no quarto acto se tivesse prolongado e tomado as rédeas de todo enredo a partir do momento em que inicia. Mas, não! A pouca primazia que o autor deu a esta interação sustenta a coerência do que ele diz em relação àquilo que ocorre do ponto de vista material. A ter de fazer uma interpretação global da peça através de ocorrências bastante episódicas, haveria espaço, inclusive, para traçar um itinerário interpretativo que nos faria chegar a conclusão de que independentemente da formação académica a que Olunde fora submetido, o seu substracto cultural falou mais alto a ponto de se suicidar para salvaguardar um costume tradicional e manter a plenitude da sua comunidade por gerações. Portanto, a meu ver, as interpelações dialécticas que surgem nas entrelinhas da conversa entre Olunde e Jane Pilkings vêm a título de reboque de um impacto discursivo ainda maior.

Vejamos, se lermos o fenómeno Elesin numa perspectiva das narrativas orais (embora neste caso de trate de uma peça) podemos encontrar sustento na análise da sua situação inicial até a final. Dir-se-ia tratar-se de um herói (não se confunda com a noção de heroicidade; entenda-se o conceito na perspectiva de análise textual que é equivalente a protagonista) que teve uma situação inicial feliz, foi perpetrando transgressões no decorrer do enredo e culmina com uma situação final trágica: um castigo. Assim, do ponto de vista temático-antropológico, “a morte e cavaleiro real” seria um texto que apresenta “pessoas e/ou animais através do comportamento dos quais se pretende abordar questões ligadas aos costumes da comunidade, hábitos morais ou culturais, premiando os cumpridores e castigando os transgressores.

Objectivamente, diríamos que, em parte, o facto de ter usado o seu último dia para a satisfação de desejos até certo ponto mesquinhos pode o colocar na posição de transgressor dos costumes do povo Yoruba como, por exemplo, a tomada de uma jovem como sua mulher quando esta já havia sido prometida para um outro jovem da comunidade. Este e outros aspectos podem sustentar o seu infortúnio (castigo). Haja vista, contudo, que neste caso o castigo não é só para si, mas para toda comunidade.

Por outro lado, pode-se perceber que o jogo discursivo no plano extratextual independe da forma como a peça termina. Eis, quiçá, a razão de Soyinka não dar o desfecho sobre a previsão do infortúnio do povo Yoruba dentro da peça. O que pode sustentar que independentemente do que fosse acontecer naquele universo, cá (no plano extratextual) inscreve-se o essencial: compreender a cosmovisão do povo Yoruba relativamente à morte _ por um lado como continuidade da vida terrena numa categoria superior e com alcance aos destinos dos vivos; por outro, como um imperativo altruísta do ponto de vista existencial porque o suicídio do cavaleiro real era visto como uma atitude nobre em benefício da comunidade e das gerações posteriores àquela que conviveu tanto com o rei quanto com o cavaleiro real.

Ler a morte (e mais especificamente, o suicídio) neste viés yoruba abre os horizontes para perceber como um fenómeno intrínseco à condição humana pode ter tão variadas concepções em diversos povos. Se para uns a morte não é o fim, é parte do processo evolutivo da alma para chegar à pureza (nirvana); para outros é o fim de uma missão para encontrar o pai celestial e em função das acções terrenas abrir-se-ão novas possibilidades de existência noutro plano; há os que entendem que se trata de uma viagem para outro plano com a possibilidade de nortear o rumo dos que vivem e interceder por eles perante o supremo; etc. Para os Yoruba, este dilema existencial é tido de outra forma e na sua organização sócio-cultural não se espera que tal imperativo altruísta e existencial ocorra por causas naturais, mas voluntariamente através do suicídio que, neste caso, esteve entre “a morte e o cavaleiro real”.

O escritor Mélio Tinga foi seleccionado para uma residência literária em Lisboa, capital portuguesa, de 1 a 31 de Maio. Durante um mês, o autor de Marizza vai procurar enaltecer, através da ficção, a memória de Sebastião Alba.

Há 10 dias, Mélio Tinga foi laureado como impulsionador do design em Moçambique, na primeira edição do Prémio das Indústrias Culturais e Criativas (PREICC). Momentos depois de receber o galardão concedido pelo Ministério da Cultura e Turismo, o artista considerou a sua distinção uma chamada de atenção para a importância da área do design na vida das pessoas de forma perceptível.

Uma semana depois da consagração na gala das indústrias culturais e criativas, Mélio Tinga volta a receber uma excelente notícia: o seu projecto de residência literária na capital portuguesa foi aprovado pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo e pela Câmara Municipal de Lisboa. Desta vez, ao reagir ao reconhecimento do seu trabalho na qualidade de escritor, primeiro, Mélio Tinga explicou que entre 1 e 31 de Maio vai procurar dar mais vigor a um autor que não deve ser abafado pela morte: Sebastião Alba. “Levo para Lisboa dois sapatos, a roupa do corpo, um projecto narrativo de natureza ficcional que pretende ampliar a voz de um poeta quase mítico, esquecido no nosso universo – Sebastião Alba – cuja a vida lhe foi muito difícil, mas a poesia e a música lhe salvaram, a verdade e a lucidez espantosa, também, antes do atropelamento que lhe tirou a vida em 2000”.

Para Mélio Tinga, ficcionar Sebastião Alba é uma prioridade nessa tentativa de combater o esquecimento generalizado. Assim, o recurso à memória será algo a preservar através da sua escrita.

Embora saiba o que pretende explorar na residência literária em Lisboa, Mélio Tinga admite que em termos de processo criativo, é difícil prever como algumas coisas irão exactamente acontecer. “Tenho um processo mais ou menos firme que, claro, havendo necessidade pode ser moldado. Mas o mais importante é o contexto, o ambiente, as pessoas, isso é o que neste momento importa explorar. Tenho uma espécie de estrutura macro, agora, avançámos para a argamassa”.

Ao mesmo tempo que, para Mélio Tinga, a relação com as pessoas é o mais importante, poder ter mais tempo para se dedicar à oficina da escrita é algo que o satisfaz. Até porque, lembra: “António Cabrita costuma dizer que o maior activo do poeta é o tempo. Porque escrever e pensar o texto literário exige tempo, disposição e concentração. A maior importância desta iniciativa é permitir que o autor tenha tempo para pensar e concentrar-se no seu projecto literário, sem as tribulações rotineiras. Para além disso, tenho a convicção de que, quando os autores circulam, os livros também circulam, a palavra está em movimento, as histórias do seu país estão consigo, encurtamos as distâncias e permitimo-nos chegar a outros leitores, a outros mercados literários e aprendemos do outro, também”.

Há alguns anos, Mélio Tinga lançou dois livros em Portugal, Marizza, distinguindo do Prémio Imprensa Nacional/ Eugénio Lisboa e a engenharia da morte. Também por isso: “Penso que esta [residência] é, acima de tudo, uma oportunidade para dar a cara”.

 

 

 

 

 

O escritor português Samuel F. Pimenta faz parte da lista alargada de nomes que estarão em Moçambique este mês, para o VII Festival Internacional de Poesia 2023.

Segundo a Associação Cultural Xitende, que realiza o evento em parceria com o Conselho Municipal da Cidade de Xai-Xai, de 23 a 29 de Abril, a capital de Gaza será a capital moçambicana da literatura por via da realização da sétima edição do Festival Internacional de Poesia na Cidade de Xai-Xai, com a participação de escritores africanos, europeus e americanos.

No Festival, Samuel F. Pimenta fará a apresentação do seu novíssimo romance “Ophiussa”, que interpreta o mito da fundação de Lisboa e das suas sete colinas, partindo da tradição oral e o seu livro de poesia “Àgora”.

O evento da XItende inclui a realização de workshops sobre a literatura para o público em geral no paços do Conselho Municipal da Cidade de Xai-Xai e para estudantes nas escolas e universidades da província de Gaza.

Samuel F. Pimenta é poeta, escritor e artista. Nasceu a 26 de Fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Começou a escrever com 10 anos e licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa.

Até ao momento, publicou oito livros, além de estar presente em colectâneas, antologias e outras obras colectivas, em Portugal e no estrangeiro. Tem participado em diversas conferências e em encontros literários nacionais e internacionais. Em 2016, representou Portugal no International Young Poets Meeting, em Istambul, Turquia. Alguns dos seus livros deram origem a peças de teatro e teses académicas. Tem vindo a colaborar com publicações em Portugal, no Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde e na Galiza, entre as quais o jornal Público, a Revista Gerador, a Revista Caliban e o PGL – Portal Galego da Língua.

São vários os prémios que lhe têm sido atribuídos, como o Prémio Jovens Criadores 2012 (Portugal), a Comenda Luís Vaz de Camões 2014 (Brasil) e o Prémio Liberdade de Expressão 2014 (Brasil). Em 2015, foi um dos vencedores das Bolsas Jovens Criadores, do Centro Nacional de Cultura. Em 2016, com o livro Ágora, ganhou o IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna, galardão anual destinado ao melhor livro de poesia dos países e regiões de língua portuguesa. Em 2019, com Ascensão da Água, ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada.

Neste momento, integra diversas associações e colectivos, como o PEN Clube Português, a Academia Galega da Língua Portuguesa e o colectivo PROMETEU. Além da literatura, faz collage e dedica-se à promoção dos direitos LGBTI+, dos direitos humanos e dos direitos da Terra.

A edição do festival irá contar com vários escritores moçambicanos, como Francisco Noa, Nelson Saúte, Paulina Chiziane, Sónia Sultuane, Andes Chivangue, Deusa d’Africa, Dom Midó das Dores, Elísio Miambo, Lahissane, Lino Mukurruza, Alerto Bia, Almeida Cumbane, Cheina, Ingrid Ellen, Suely Vasconcelos e entre outros. Nos próximos dias, serão conhecidos os outros convidados desta festa literária.

 

 

 

Antes do Dia da Mulher Moçambicana, Janeth Mulapha vai encerrar o programa de actividades no âmbito do Mês da Mulher com o espectáculo de dança “Vozes”, a realizar-se esta Quinta-feira, às 19 horas, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

De acordo com uma nota de imprensa, “Vozes” é uma peça coreográfica que conta com um elenco de mulheres unidas na busca de exteriorizar a liberdade de expressão feminina através da dança. Nesta iniciativa, apoiada pelo Alto Comissariado Canadiano em Moçambique, as intérpretes exprimem as suas conquistas e vozes de liberdade, mostrando a sua expressão corporal sem se preocuparem com a rigidez técnica do movimento, idade ou experiência. “Vozes” vem mostrar que cada mulher tem a sua própria voz e é revolucionária.

Janeth Mulapha é bailarina, performer e coreógrafa, natural de Maputo, Moçambique. É uma artista multifacetada, que teve o seu início marcado por desportos competitivos antes de se voltar para a dança e entrar para a Escola de Dança Máscara, em 1998. Formada no âmbito do programa “Danças na Cidade de Maputo”, conduzido por Panaíbra Canda, participou nas peças “Orobrtoy, Stop!” e “Smile If You Can”, de Horácio Macuácua, “Há mais…”, de Thomas Hauert, e “25”, de Kubilai Khan Investigations. Em 2014, lançou “O Meu Género Mora Aqui”, uma co-produção da CulturArte e Studio Kabako no âmbito do programa Pamoja. Desde então, tem vindo a retrabalhar na peça, imaginando diferentes versões para diferentes espaços, tendo apresentado no Festival KINANI, em Maputo, no Tchad e em Paris.

Seu segundo solo “Let’s Talk”, criado com o músico Ben Muthemba e estreado no Festival KINANI, em Maputo, foi apresentado no Theatreformen, em Braunschweig, e estava previsto para ser apresentado no Le Grand T, em Nantes (França) antes de ter sido cancelada. Em 2020, Janeth foi convidada no festival Fari Foni Waati, em Bamako, para criar uma peça para 14 bailarinos da região. Mulapha tem também trabalhado regularmente com bailarinos portadores de deficiência. Em 2022, de Fevereiro a Abril, realizou uma Incubadora de pesquisa coreográfica para Mulheres, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

 

 

Menos de 20% das entidades artísticas em Moçambique pagam a taxa de rodagem para que os seus vídeos possam passar nas televisões. O regulamento que obriga ao pagamento da taxa gera discórdia e o Governo quer rever.

 

A ministra da Cultura e Turismo reuniu-se, esta quarta-feira, com diferentes produtores de artes para debater os problemas que afligem as artes e cultura em Moçambique. No local, Eldevina Materula deu a entender que a maior parte dos produtores de artes ainda não paga a contestada taxa de rodagem.

A governante explicou que, nos últimos seis meses, apenas 16 entidades artísticas pagaram a taxa de rodagem de vídeos, o que equivale a 18% do universo de entidades que deviam pagar as taxas neste momento.

Por outro lado, a ministra da Cultura e Turismo avançou que tanto o regulamento que versa sobre a obrigatoriedade de pagamento de taxa de rodagem assim como outras normas que regulam o funcionamento das indústrias culturais e criativas em Moçambique serão revistos. Para já, o regulamento da indústria de audiovisual e cinema vai para o Conselho Técnico do Ministério da Cultura e Turismo para depois ser analisado pelo Conselho Consultivo do mesmo órgão para depois ser socializado na comunidade artística, antes de o Conselho de Ministros aprovar o documento. “Tenham calma e paciência. O nosso Ministério não está para prejudicar os fazedores de artes”, apelou Materula.

Os produtores de artes concordam com a ideia de rever o regulamento que versa sobre as taxas de rodagem. Mickey Fonseca, realizador e produtor de filmes, disse que há entidades que devem continuar a pagar a taxa de rodagem, sobretudo porque fazem um trabalho remunerado, mas questiona até que ponto jovens criativos que filmam com os seus telemóveis devem pagar taxa de rodagem para os seus conteúdos passarem nas televisões.

Por seu turno, o músico Roberto Isaías reconheceu que há uma abertura por parte do Governo para discutir os assuntos relacionados aos produtores de artes, tendo acrescentado que a ministra da Cultura e Turismo é também artista, sendo que as decisões por si tomadas vão repercutir no momento que não será mais governante e esta não teria a intenção de se prejudicar.

No geral, os produtores de artes questionam o benefício de pagamento da taxa de rodagem dos seus vídeos, na medida em que após cumprirem esta obrigação não há uma contrapartida. Neste momento, os produtores de artes, em particular da música, devem pagar em média oito mil Meticais, por ano, ao Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC) para que os vídeos possam passar nas televisões.

 

 

 

O Município da Matola realiza a primeira edição do “Matola Gospel Festival”. O evento de manifestação da cultura religiosa terá lugar no dia 15 deste mês Abril, às 16h, na Cidadela da Matola.

Segundo uma nota de imprensa, trata-se de um festival que serve de montra para que os artistas possam exibir os seus trabalhos. Portanto, anualmente, terão este espaço como pretexto para mostrar a sua evolução em termos artísticos.

“Matola Gospel Festival” propõe ainda uma ponte para os novos talentos do universo gospel. Para além de ser uma vitrine de revelação de novas vozes, o evento é um canal para a manifestação cultural religiosa através do gospel.
Sendo um estilo de música evangélica, tal como o nome sugere, o conteúdo deste evento cinge-se unicamente sobre Deus, com a ideia de ajudar a sociedade para que tenha valores que ultimamente tem escasseado, a exemplo da compaixão, amor ao próximo e misericórdia.

Na edição inaugural, o evento traz o melhor do gospel nacional e da África do Sul, com as vozes dos moçambicanos Mandjely Nhatelo, Princess Sophie, Pedro Sive, Alberto Gune, Coral Tchatchus, Lázaro Sampaio, Mais Bênçãos, Edu, Alfa Thulana, Coral Rejoice, entre outros, e com a participação especial dos artistas sul-africanos Rebecca Malope e Gospel Silinda. Estes são os artistas que a produção optou para esta primeira edição, por serem executores do estilo gospel e por cantarem músicas que honram a Deus, para além de granjearem boa reputação.

Para falar sobre o evento, o Município da Matola concede uma conferência de imprensa no seu auditório esta quinta-feira, 6 de Abril, às 9h, na Cidade da Matola.

 

 

 

O Museu Mafalala recebe, no dia 29 deste mês, o segundo concerto do projecto Running From the Urb. Trata-se de uma iniciativa de exaltação da periferia e seus ícones, bem como de reinvenção da memória colectiva e reivindicação de espaços marginalizados, através da música, da fotografia, vídeo e outras formas de expressão.

Na sua segunda edição, o Running From the Urb é co-produzido pelo Museu Mafalala, MAC – Creative Lines e traz para a ribalta os D.R.P (Dark Room Produtions), conjunto sobejamente conhecido pelo ritmo, arte e poesia que reproduz narrativas marcantes do dia-a-dia da cidade de Maputo, com especial enfoque para a juventude.

O concerto quer cruzar diferentes perspectivas e interpretações dos diversos elementos constitutivos e identitários da Mafalala, por extensão da periferia (Chamanculo, Xipamanine, Minkadjuíne e Mavalane) numa busca que se pretende profunda e constante do passado, ao mesmo tempo em que se abre uma janela para o futuro dos becos, da madeira e zinco e outros traços dos históricos bairros da urbe. Reclamando, também, para si o direito à cidade.

É objectivo do espectáculo revisitar figuras icónicas da periferia exaltar a renaissance suburbana de Maputo, instigando a discussão em torno do seu papel e influência na edificação da consciência colectiva, face aos eventos de sua época.

 

O professor defende que é preciso dinamizar o espaço da cultura nos órgãos de comunicação social. O académico falava, esta segunda-feira, num encontro entre universitários para discutir uma possível existência de uma escola de crítica literária no país.

Francisco Noa juntou-se a outros académicos, docentes, escritores e estudantes, na Cidade de Maputo, para discutir a possibilidade da existência de uma escola de crítica literária no país.

No encontro, Francisco Noa afirmou que a crítica literária entrou em colapso: “A crítica jornalística é que está em crise, porque, se formos a ver, na própria história da literatura moçambicana e das outras literaturas, os escritores afirmavam-se e iniciavam no jornal e na revista. Era onde se fazia todo o trabalho de legitimação e de divulgação e perdemos esse espaço”.

O académico defende que esses espaços nos órgãos de comunicação social são fundamentais, pois as obras da arte só vivem se tiverem públicos especializados a falarem sobre elas.

Para Francisco Noa, mesmo antes da existência de uma escola, falta crítica literária dos que deviam fazê-la. “Literatura sem crítica é como se fosse uma literatura sem uma especialização e isso não ajuda. O que eu sinto é que nós somos muito atomísticos, no sentido de que somos muitos dispersos. Não há uma enorme consistência na forma como nos organizamos”, acrescentou.

O ensaísta diz ainda que, para a existência de uma escola de crítica literária, deve haver organização entre os fazedores da arte, o que não há. “Deve haver uma organização por detrás disso tudo, para que exista, de facto, uma escola. Essa escola não precisa de ser necessariamente um prédio, um edifício; tem a ver com a concentração daquilo que é o conceito das pessoas sobre a literatura, que conceitos as pessoas têm sobre a sociedade e sobre o livro e elas comungam esse mesmo conceito e depois entra numa produção que está alinhada com esse conceito que as pessoas têm sobre a literatura”, defendeu Noa.

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