O País – A verdade como notícia

A actriz e actual directora Executiva da X-Hub – Incubadora de Negócios Criativos, Júlia Novela, vai assumir o cargo de Directora-Geral do Festival AZGO.

Segundo uma nota de imprensa, a indicação de Júlia Novela tem por objectivo imprimir maior dinamismo e inovação ao festival, bem como captar novas perspectivas para a marca AZGO. “Aliás, a presente nomeação surge em resposta ao desafio do crescimento do festival ao longo das dez edições, precisando por isso, de uma estrutura de direcção capaz de manter a relevância e pujança do Festival AZGO”.

Júlia Novela tem o desafio de continuar um legado iniciado pela direcção máxima da Khuzula, empresa produtora do festival, e liderar uma vasta equipe que durante 12 meses constrói o evento. Outrossim, vai assistir de forma directa o director-geral da Khuzula e fundador do Festival, Paulo Chibanga, em todos aspectos ligados à gestão e organização do festival e das iniciativas paralelas. “É um grande desafio assumir a direcção de uma marca tão relevante e impactante como o Festival AZGO. Conto com a colaboração de todas equipes do festival que melhor conhecem o projecto nas suas variadas formas. Espero dar o meu contributo para o crescimento da marca, e sobretudo, para todo ecossistema cultural do nosso país”, disse Júlia Novela.

A Directora-Geral do Festival AZGO é formada em Gestão Cultural pelo Instituto Superior de Artes e Cultura (ISARC). Iniciou-se nas artes como bailarina na Casa da Cultura do Alto–Maé, e depois integrou a Associação Cultural Girassol como actriz. Para além dos palcos, Júlia Novela, actuou no cinema, ganhando relevância na história da ficção nacional.  Foi programadora e produtora cultural do Centro Cultural Franco Moçambicano. “Actualmente, exerce o cargo de Directora-Executiva da X-Hub, a primeira e maior incubadora de negócios culturais e criativos na África Lusófona”, lê-se na nota.

A 10ª edição do Festival AZGO terá lugar nos dias nos dias 19, 20 e 21 de Maio, com diversas propostas e exploração de diversos espaços. No evento, Elvira Viegas, uma das mais notáveis vozes da música ligeira moçambicana, estreia-se no Festival AZGO. A autora de “Lirere”, “Xikala Vito”, “Grito de Criança”, entre outros clássicos, está escalada para o principal evento do festival, dia 20 de Maio, no Campus da Universidade Eduardo Mondlane.

Elvira Viegas junta-se a outros artistas e personalidades da área criativa em Moçambique que dão voz e rosto pelo evento que regressa três anos depois.

No palco do AZGO, Elvira Viegas vai preencher o programa reservado aos ícones da música popular moçambicana. Este espaço é já uma tradição do festival e tem por objectivo contribuir para a valorização e divulgação da história da música nacional e dos seus protagonistas. “O Festival AZGO sente-se honrado por receber uma voz que marcou diversas gerações de artistas e de públicos em Moçambique e não só. Temos certeza que Elvira Viegas vai colorir o AZGO com carisma e pujança”, diz Júlia Novela, a directora do Festival AZGO.

Elvira Viegas nasceu no emblemático Bairro da Mafalala, nos anos 50, muito cedo começou a cantar por influência da mãe que na altura era regente do canto coral.

Elvira faz parte de uma geração de artistas que se entregou de forma voluntária para construir um sentido de cidadania e orgulho de pertencer a um país.

Em 2022, lançou o álbum “Ora Chegou”, que segundo as suas próprias palavras representa maturidade, crescimento e contínuo aprendizado.

 

A 3 de Março iniciaram as aulas de música (online) leccionadas pelos professores do Conservatório Agostino Steffani, de Castelfranco Veneto, Itália, no âmbito da convenção de colaboração entre as duas instituições. Esta implementação, segundo a Fundação MUSIARTE – Conservatório de Música e Arte Dramática é fruto de um protocolo assinado a 14 de Outubro de 2022.

A celebração da convenção tem como pontos fundamentais a colaboração nos seguintes pontos:

partilha de programas curriculares de nível pré-académico; leccionamento aos alunos da MUSIARTE numa base semanal; preparação de alunos de nível pré-académico para ingresso ao nível superior do sistema de ensino musical na Itália; preparação de alunos que pretendem realizar mobilidade Erasmus+, projectos KA 171, com fundos do Conservatório Steffani, que decorrem há seis anos; colaboração e troca de experiência entre os professores moçambicanos e italianos; avaliação e certificação dos conhecimentos dos alunos da MUSIARTE do curso de nível pré-académico para o ingresso no nível superior; e utilização do logótipo do Conservatório Stefani a ser publicado nas diferentes ferramentas de comunicação dedicadas à MUSIARTE, como instituição convencionada.

Através do acordo, o Conservatório MUSIARTE pretende tornar-se uma referência nacional e regional na formação dos futuros alunos que pretendam realizar os seus estudos académicos superiores de música, no Conservatório Agostino Steffani e/ou em outras instituições de ensino superior a nível internacional. “Convidamos e encorajamos aos alunos das instituições parceiras da MUSIARTE no programa Erasmus+, do Conservatório Agostino Stefani, nomeadamente, a Universidade Eduardo Mondlane e a Universidade Pedagógica de Maputo, a frequentarem os cursos de instrumento musical, harmonia e outras disciplinas no Conservatório MUSIARTE para que possam beneficiar deste acordo”, lê-se na nota da Fundação MUSIARTE – Conservatório de Música e Arte Dramática.

A Fundação MUSIARTE – Conservatório de Música e Arte Dramátic, é uma instituição sem fins lucrativos, que tem como missão fornecer a mais alta qualidade em educação artística musical e geral, para crianças, jovens e adultos, proporcionando-os oportunidade de carreira e vivência musical que contribua para o seu desenvolvimento humano.

Fundado em 2013, pelas cantoras líricas moçambicanas Stella Mendonça e Sónia Mocumbi, o Conservatório de Música e Arte Dramática MUSIARTE, único no seu género em Moçambique, tornou-se referência na área da educação musical, oferecendo programas de educação artística à comunidade e actuando como defensor das artes na sociedade, através da sua promoção e criação de ligações culturais entre diferentes povos.

 

Paulina Chiziane e Jimmy Dludlu foram distinguidos na primeira edição do Prémio das Indústrias Culturais e Criativas. A sessão de gala decorreu esta quinta-feira, na Cidade Maputo.

Pela primeira vez, o Prémio das Indústrias Culturais e Criativas distinguiu artistas nacionais.

Num evento organizado pelo Ministério da Cultura e Turismo, Jimmy Dludlu subiu ao palco para ser distinguido na categoria Música.

Depois de levar a melhor, o guitarrista reconhecido com vários prémios internacionais foi um homem de poucas palavras.

“É pela primeira vez que eu recebo um prémio aqui, em Moçambique. É uma honra. Agradeço a Deus e a todos os que sempre me apoiaram”, disse Jimmy Dludlu.

E as surpresas foram tantas na primeira edição do Prémio das Indústrias Culturais e Criativas. O prémio carreira, por exemplo, foi para a escritora Paulina Chiziane.

Na categoria de Artes Plásticas, Manuel Bata foi o grande distinguido. Questionado sobre o seu sentimento após receber a homenagem, o artista não se mostrou surpreendido.

“Para mim não é surpresa; este é o meu décimo primeiro prémio aqui, em Moçambique. Estou satisfeito e vou continuar a trabalhar para continuar a colher mais frutos”, afirmou Manuel Bata.

Já na categoria Teatro, o júri premiou a dupla Lúcio Chiteve e Calene. “Eu digo, finalmente, considerando que já há muito que estávamos à espera de um evento como este”.

A primeira edição do Prémio Indústrias Culturais e Criativas foi dirigida pelo Primeiro-ministro, Adriano Maleiane, que apelou aos artistas para trabalharem mais.

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, disse que a premiação constitui o regresso da união entre os artistas.

Os vencedores das outras categorias do Prémio das Indústrias Culturais e Criativas foram Nivaldo Thierry, na Moda; Mélio Tinga, no Designer; Editorial Fundza, na Literatura; Dans’artes, na Dança; e Mahla Filmes, no Cinema.

O Centro Cultural Franco-Moçambicano, em parceira com o Alto-Comissariado do Canadá em Moçambique, apresentam a performance TheSheKings, de Thobile Makhoyane, nesta Sexta-feira, às 20h, na Sala Grande daquele centro cultural, em Maputo.

 

Segundo o Franco, TheSheKings é uma mostra de arte multidisciplinar apresentada através da música, dança, palavra falada, teatro e vídeo-arte, em comemoração às mulheres que trabalham nos sectores informais normalmente dominados por homens. Assim, em palco, Thobile far-se-á acompanhar por mulheres artistas de diferentes disciplinas, nomeadamente, Edna Jaime, Jazz P, Katarina Rombe, Lenna Bahule, Rita Couto e Tina Krüger.

A performance internacional apresenta uma oportunidade para fazer avançar o discurso sobre o importante papel que as mulheres desempenham no mercado informal, muitas vezes em papéis que não são remunerados ou são mal remunerados.

O evento que se insere no Mês da Mulher em Moçambique, uma iniciativa da Embaixada de França em Moçambique, o Governo de Moçambique e demais parceiros, como Alto Comissariado do Canadá, é caracterizada por uma diversidade de eventos culturais, desportivos e pedagógicos destinados a promover os direitos da Mulher visando promover a igualdade de género e uma sociedade mais justa.

Do reino de eSwatini, Thobile Makhoyane encontra suas influências de “hypno-rock”. Seus vocais imponentes flutuam sobre sons acústicos ao vivo, muitas vezes compostos por uma mistura de instrumentos tradicionais e ocidentais. Colaborou com vários artistas em diferentes disciplinas artísticas, incluindo teatro, vídeo-arte, instalação artística, dança contemporânea e poesia. Sempre teve paixão de trabalhar com mulheres nas artes, ela é co-fundadora da “Spirits Indigenous” e fez muitas outras colaborações com mulheres nas artes.

Edna Jaime é bailarina e coreógrafa moçambicana. Formou-se em dança tradicional e canto na Casa da Cultura de Maputo. Teve o seu primeiro contacto com a dança contemporânea em 2001, numa oficina dirigida pela coreógrafa Brasileira Lia Rodrigues, convidada pela CulturArte e, a partir daí, deu continuidade à sua formação num estágio de seis meses em Desenvolvimento Coreográfico. Criou a sua primeira obra “Niketche”, em 2005, um trio feminino apresentado na 6ª edição do Danse L’Afrique Danse. De entre várias participações dentro e fora do país, destaca o projecto de colaboração artística entre Moçambique, África do Sul e Madagáscar “Lady, Lady” juntamente com Désire Davids e Gaby Saranouffi. Com “O Bom Combate”, em 2016, venceu o 1º prémio do Concurso de Dança Contemporânea da Delegação da União Europeia em Moçambique.

Lenna Bahule é cantora, arte educadora e activista cultural, natural de Maputo. Está mergulhada em constante pesquisa e intercâmbio com as afro-culturas e movimentos sociais do seu país, do Brasil e de outras diásporas africanas. No Brasil, onde morou por sete anos, fundamentou sua pesquisa sobre a música vocal e diferentes caminhos para o uso da voz e do corpo como instrumento musical e de expressão artística. O histórico de sua carreira musical conta com encontros e colaborações locais de diferentes diásporas, como Cheny Wa Gune (MZ), Stewart Sukuma (MZ), Mário Laginha (PT), Mû Mbana (GNB), Manecas Costa (GNB), Paulo Flores (ANG), Virgínia Rodrigues (BR), Benjamim Taubkin (BR), Kastrup (BR), Mateus Aleluia (BR), Mia Couto, entre tantos outros.

Tina Krüger, de Katemin, Alemanha, é uma artista multidisciplinar, fotógrafa, documentarista e designer de comunicação com um mestrado em Antropologia Visual (Universidade de Leiden, Holanda). Desde 2008, vive e trabalha em Maputo, Moçambique. Expôs o seu trabalho em Moçambique e no estrangeiro, destacando-se a série de pintura “Corpos Incondicionados” na Feira de Arte Joburg 2020, e “Maternidade” uma exposição permanente de fotografia na Maternidade do Hospital Central de Maputo. Os seus filmes documentários e vídeo-arte ganharam vários prémios em festivais internacionais de cinema. Actualmente, o seu trabalho centra-se em questões do corpo, natureza, conhecimento incorporado, e auto-observação crítica social e auto-observação. Trabalha com fotografia, videoarte, poesia, pintura, e instalação, para além de experimentar sempre novas técnicas. É co-fundadora e directora criativa da Aguacheiro Design & Multimédia desde 2013.

Jazz P JAZZ P é uma letrista e vocalista nascida no reino de eSwatini. Está na indústria musical há quase 13 anos, e ainda em busca de uma carreira musical. Passou 10 anos da sua carreira no seu país de origem e os três restantes no seu actual país de residência – Moçambique. Jazz P toca Hip-Hop, soul com um jazz afro e blues, misturado com Ragga dub. Em eSwatini, é considerada a primeira dama do Hip-Hop.

Katarina Rombe nasceu a 24 de Outubro de 1984, na Cidade da Beira, e cresceu na Cidade de Maputo. É flautista, violinista e oceanógrafa de profissão, no Instituto Nacional do Mar e Fronteiras. Trabalhou como professora de Educação Musical na Escola Internacional Willow, de 2011 a 2012, na Matola. É membro fundador do grupo TP50. Participou em vários espectáculos de artistas nacionais e estrangeiros, tais como: Mingas, Carlos Gove, Livong, Maria João, Jaco Maria, Xixel Langa, entre outros. Actualmente, está a trabalhar no seu projecto FLAUTARINA.

Rita Couto é socióloga e também formada em Teatro pelo programa de intercâmbio da SP Escola de Teatro em São Paulo. A música e o teatro sempre foram paixões que a acompanham, sendo complementadas por formações em escolas de música, como a JB Jazz em Lisboa e companhias de teatro como o BANDO. Desenvolveu trabalhos e competências na área cultural e no domínio da produção e comunicação por via da arte em Moçambique, Portugal e Brasil. Essa experiência cobre desde o trabalho como socióloga em investigação e implementação de projectos de desenvolvimento comunitário até à dinamização de actividades teatrais, culturais e organização de eventos culturais na Fundação Fernando Leite Couto.

Por: Manuel Mutimucuio

 

A fogueira não era das melhores, mas numa noite de intenso calor pouco importava, não fosse a vontade de ver a água na panela, finalmente, ferver. Não que houvesse muito para confeccionar, pois, depois de duas semanas no mato, as provisões estavam por um fio.

Derek, de cócoras, soprou em vão para encorajar a lenha a produzir mais lume e menos fumo. Insistiu com ajuda da tampa da panela, mas, uma vez mais, viu os seus intentos gorados. Frustrado, bebeu de um só trago a cerveja que o acompanhava nesta odisseia e gesticulou a reclamar rendição.

“O que é que vos ensinam na escola nos dias de hoje?”. Petrus indagou irritado em direcção ao jovem estudante de ecologia que estava na RFB no quadro de um programa curricular.

“Não a fazer porras de fogo, podes crer”. Foi o que lhe apeteceu responder, mas não podia sequer se atrever. Derek já tinha convivido o suficiente com o velho Petrus para lhe reconhecer o temperamento de búfalo (com orgulho) ferido.

“Repete lá alto o que disseste?”. O velho comandou aos berros.

“O miúdo não disse nada. Podes organizar esta fogueira para comermos e repousarmos, se faz favor?”. Jaco, o mais sénior entre os expatriados, tentou desarmar a erupção, se bem que a ele também não passaram despercebidos os murmúrios do estagiário mandrião. Todavia, não só tinha a responsabilidade de evitar um ambiente de trabalho tóxico nas suas equipas como também devia proteger uma das joias da coroa. Não o Derek, um malcriado filho de papá rico, na opinião de quase todos que o deviam suportar na sua pequena aventura na selva, mas o que ele representava. Desde que foram interditos safaris de caça, a RFB dependia, em parte, das contribuições chorudas que investigadores reputados e outros de valência duvidosa doavam pelo privilégio de estudar um dos últimos redutos da dita natureza africana intacta.

“Será que a tua mãe sabe que bebes?”. Petrus não era de baixar a crista antes de ter a última palavra. Tinha o hábito de insinuar que estava demasiado velho para se importar, mas a realidade é que precisava do emprego tanto quanto do trabalho. Orgulhava-se de dizer que tinha vivido setenta anos bem vividos, incluindo alguns como recruta na tropa do Apartheid, tantos outros como soldado de fortuna em latitudes mais tropicais do continente, depois que os negros assumiram as rédeas da África do Sul e começaram a escangalhar o seu querido e temido exército. Muito recentemente, isto é, nos últimos vinte anos, Petrus tem servido como pau para toda a obra em reservas de caça, um espaço amplo que dá a impressão – real ou percebida – de que não houve descolonização. Estava, ainda assim, consciente de que um dos custos de uma vida passada à margem dos grilhões da nova ordem, era a falta de uma pensão para mitigar a dor da velhice. Tinha de trabalhar para continuar a desfrutar da terceira idade e da relativa liberdade da vida no mato.

Com as mãos, Petrus afastou a panela ainda quase morna e, com os pés, desfez a lareira. Metodicamente, mas rapidamente, o velho rearrumou os troncos, adicionou uns galhos e capim seco que encontrou ao lado e, dois por três, havia lume para cozer mais do que o modesto esparguete que estava disponível para o jantar.

O silêncio lúgubre que se instalou, dominou o resto da refeição e, sabe-se lá quantos mais pesados minutos. O coerente era cada um retirar-se para o desconforto da sua tenda, mas eram só vinte horas e com a bateria a minguar nos telemóveis à espera da energia de mais um dia de sol, as noites na escuridão do mato tinham a mania de durar muitos sonhos e pesadelos e mais algumas insónias de sobra. Ninguém se moveu e, uma vez mais, coube à Jaco a tarefa de quebrar o gelo e devolver algum ânimo à tropa. Jaco, na casa dos cinquenta, era também sul-africano, originário do KwaZulu-Natal, embora sempre somente destacasse o “Natal” ou, em contextos em que se sentisse forçado a ser politicamente correcto, fosse pela sigla “KZN”, como se as iniciais tivessem uma propriedade anti-séptica sobre o prefixo africano. Entretanto, era esse tacto de comunicação e de saber estar que o diferenciava do Petrus e de outros operários expatriados da mesma estirpe. Sem ser arrogante, era um indivíduo que comandava respeito e inspirava muita confiança.

“Quem é que não se curva perante esta sinfonia?” Jaco gesticulou como um maestro que deixa o público sorver a magia da orquestra que o acompanha. A pergunta era, claramente, retórica. Com aquele grupo estava a pregar para os convertidos, mas não se importava de ouvir pelo menos uma reacção de apoio, pois a intenção era quebrar o silêncio desencadeado pela disputa entre o velho e o rapaz que ameaçava arruinar a noite de toda a gente.

“Muitas pessoas que eu conheço dariam o braço pelo privilégio de todos os dias dormir ou acordar ao som de coaxos, zumbidos, cicios, chilreios, pios, chios, grasnos, guinchos, silvos, bramidos, mugidos, urros, grunhidos e rugidos, entrosados em intervalos milimetricamente espaçados pelos farfalhos da floresta de miombo.” Jaco enfatizou. A musicalidade que muitos puderam descortinar, porém, foi da beleza do seu verbo. Era inegável que tinha um jeito particular com as palavras e, talvez por isso mesmo, com as pessoas também. Entretanto, por mais esforço que a tropa fizesse para concordar com o bom do Jaco, aquela era uma noite vulgar. Sem luz, sem sons, a não ser que o chefe estivesse a romantizar o irritante ruído das cigarras.

Com a criatividade a minguar, Jaco recorreu ao único assunto que dava garantia de sucesso. A saga do hipopótamo na Vila da Gorongosa tinha, ao longo do dia, produzido intensas gargalhadas mesmo depois de ter sido contada de todas as formas possíveis. Ora, a notícia de animais que atravessavam os limites da reserva – quer porque os corredores de fauna bravia não respeitavam fronteiras arbitrárias, quer porque buscavam pasto mais doce nas machambas dos aldeões – era fait divers, mas o risco de um ser autopsiado pelas autoridades policiais, aos olhos suspeitos dos conservacionistas, era digno de manchete de jornal.

“Os pobres locais farão de tudo para comerem o pobre animal”, comentou Derek.

“Como é seu direito”, retrucou Petrus.

Estupefacto com a observação do velho, Derek olhou para os olhos do resto da malta à procura de simpatia, todavia, sem sucesso. Incrédulo, abanou a cabeça sem perceber se a falta de apoio estava associada à mensagem ou ao mensageiro. Já sabia que o velho não ia com a sua cara, mas a reacção dos outros era inédita.

Enquanto a malta se perdia em gargalhadas sobre o hipopótamo, Petrus estava pensativo a cogitar como educar o estudante sobre os direitos das comunidades locais: “é a sua terra e sempre viveram dos produtos da floresta, incluindo, claro, a carne de caça. Estas campanhas progressistas de interdição de corte de árvores e proibição de abate de animais são um capricho de muzungos de longe que têm a sua mesa de madeira maciça repleta de manjares”. O velho deixou-se ouvir o próprio discurso na cabeça antes de abrir a boca e não gostou do reflexo. “Será que os de perto eram diferentes?”, indagou-se. “Nós também somos africanos e conhecemos a mata como ninguém”. Petrus absolveu-se, mas a seguir questionou-se se conheciam igualmente as gentes. A resposta já não era tão óbvia. Ele estava em Moçambique há sete anos, mas do país só conhecia os terminais dos aeroportos de onde fazia o transbordo até à Gorongosa, aonde também chegava de avioneta de serviço da RFB. Não falava a língua e, em abono da verdade, tal nunca limitou o seu trabalho. O peso da hipocrisia fê-lo calar, mas só por um instante. Havia outra linha de questionamento que, de certeza, o colocava em posição moral avantajada. Aproveitou-se do facto de que o entusiasmo sobre o assunto do hipopótamo já se dissipara e com a boca cheia de cerveja, voltou à carga.

“Qual é mesmo o teu projecto de investigação cá na reserva?”, dirigiu-se, jocosamente, ao estagiário.

“Quando vocês não me ocupam com tarefas banais, tenho estado a estudar o complexo mecanismo de ataque das formigas matabele. A Gorongosa é dos poucos ecossistemas…”. Derek parou abruptamente a sua eloquente resposta.

Falar de ciência tinha quase um efeito catártico. Cada palavra apaziguava a sua cólera e recordava-lhe que num outro mundo não muito distante era talvez mais erudito e útil do que a cambada de velhos que ali o faziam sentir-se pequeno. Interrompeu, entretanto, a fala sem terminar o raciocínio porque lhe ocorreu que a pergunta não era sincera e que se devia explicações, não era de certeza ao tosco do Petrus. Queria, mesmo, era afastar-se da asfixia da companhia de todos eles.

Totalmente isolado, o jovem estudante admitiu que já era tempo de recolher para os seus aposentos. Havia de matar mais alguns minutos estudando mapas da área onde trabalhariam no dia seguinte. O único problema, porém, faltava-lhe coragem para caminhar sozinho até ao acampamento. Em ocasiões anteriores nunca faltou companhia porque recolhiam todos em grupo ou quando os mais velhos bebessem até muito tarde, não se envergonhava de pedir que alguém o levasse até à sua tenda. Não naquela noite. Não lhes daria a mínima oportunidade de o humilhar mais do que já se sentia ultrajado.

“Boa noite. Amanhã começamos à mesma hora?”. Olhando para a única alma que julgava ainda merecedora do seu respeito, Derek perguntou já em pé e a caminhar lentamente.

“Bom descanso, rapaz”. Jaco, reciprocou em tom apaziguador.

“Alguém aí acompanhe o puto até à tenda dele”, ordenou sem especificar quem o faria, mas não deixou equívocos de que queria a tarefa cumprida.

“Sei o caminho”, Derek rechaçou liminarmente a oferta. Toda a gente mais velha tratava-o por puto e nunca tinha parado para pensar no significado ulterior da palavra, mas naquele momento soube diferente e parecia adicionar insulto à mágoa. Contra, provavelmente, o seu melhor interesse estava disposto a tentar a sua sorte com as ferras da selva a ter de dar o gosto àquela malta de o ensinar mais uma ou duas coisas sobre a vida no mato.

Ligou a lanterna que levava na cabeça e, para reforçar a visibilidade, accionou também uma lanterna de mão. Caminhou o suficiente para se afastar do grupo, mas não demasiado para perder o desvio que sabia estar muito próximo da cozinha improvisada. Precisava da pausa para, desprovido de qualquer emoção, testar a convicção da decisão que tomara. Apagou as duas lanternas para sorver o momento e pensar criticamente. O entusiasmo da liberdade recém-conquistada deu outro sentido à experiência. Os devaneios de Jaco já não pareciam uma mera quimera. Ele próprio via esplendor naquele escuro de azeviche e conforto quase erótico no zumbido das cigarras. Sentindo-se validado pela irrepreensível natureza na intenção de desafiar a mata a solo, retomou a marcha com o vigor de quem conhecia o endereço e, para o seu conforto, com o auxílio da luz poderosa das lanternas que empunhava, foi reconhecendo alguns marcos familiares no trilho.

Depois da euforia de recém-chegado, esta era a primeira vez em exactamente quarenta e oito dias que se sentia animado. Passara a contabilizar religiosamente o tempo logo a partir da segunda semana de estágio quando lhe foi solicitado que suspendesse temporariamente a sua pesquisa para ajudar a limpar aceiros à volta da reserva. Àquele trabalho, sucederam-se tanto outros que de si só exigiam braços e obediência. Navegar sozinho o mato, à noite, servindo-se somente da sua cabeça e estar a sair-se bem, dava a sensação de liberdade e controlo.

Não tardou que Derek começasse a duvidar das suas certezas. O tempo percorrido não tinha qualquer paralelo com as vezes que fizera o percurso na companhia dos outros e contra todas as suas expectativas o caminho do desvio teimava em não aparecer. Tentou convencer-se que não se passava de uma pequena alucinação e perseverou no carreiro até que a paisagem se apresentou totalmente estranha. Interrompeu a marcha e murmurou algumas palavras de encorajamento para que não se deixasse apossar pelo pânico. Antes que cometesse mais asneiras, aceitou a derrota e decidiu seguir o mesmo caminho de volta para junto dos colegas e pedir auxílio.

Começou a caminhar no que lhe pareceu ser o sentido inverso sem, no entanto, encontrar quaisquer vestígios da sua marcha anterior. Naquele momento de incerteza, esfumou-se por completo a noção romântica da floresta como sinónimo do belo e do bem-estar. Aflito, não se reconhecia como ecólogo em formação. Trocaria num piscar de olhos a picada por uma estrada pavimentada com iluminação e endereços. O capim e as árvores não lhe tinham muita utilidade para além de esconderem perigo. Limparia tudo e com eles os sons sinistros da mata. Ainda assim, de tudo quanto imaginava poder mudar, nada tinha mais urgência e relevância que a companhia de outros seres humanos. Receberia de braços abertos mil Petrus, com os seus filhos, noras e netos.

“O mundo é mesmo injusto”, continuou o seu solilóquio introspectivo. Naquele grupo de muzungos, ele tinha a certeza de ser o único indivíduo que tinha a vida inteira pela frente ou, como o pai gostava de dizer, era um cheque pré-datado. Petrus devia ter duzentos anos com a data de validade há muito vencida. Jaco, feito em sábio, se valesse a metade do que ele julgava ser, de certeza que estaria nos Okavangos, Serengetis ou Amboselis deste mundo. Ele era somente um zarolho em terra de cegos. Em relação aos outros, nem havia de gastar os seus neurónios. Eram simplesmente lixo branco que ganhava alguma utilidade entre mabecos e macacos. Porquê, então, tinha o destino reservado a si esta prova de vida? Não tinha lógica nenhuma.

Envergonhado por ter pensamentos tão perversos, Derek rezou o que ainda se recordava das lições de catequese. Jurou que não era má pessoa, mas não estava disposto a terminar nos intestinos de uma ferra sem dar luta. Levaria consigo para o inferno tudo e todos que a sua ira e desespero permitissem. Tirou do bolso a caixinha de fósforos que ficara consigo quando tentava cozinhar para aquela cambada de mal-agradecidos. Raspou o primeiro palito, mas o vento apagou a fagulha no mesmo instante. Repetiu o acto até que, sem se dar conta, a chama já lavrava o primeiro metro quadrado de mata com promessa de muito mais.

 

18 de Mar. de 23

 

O escritor Valério Maunde vai lançar, esta quinta-feira, a partir das 17h30, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, o livro “Ausência, intermitências e outras incompletudes”, que narra a história de amor de Daniel e Vanessa.

A história inicia de forma inesperada. “Esta narrativa nos traz o amor como pano de fundo, a traição, a amizade, o desgosto e as incertezas próprias da vida, deixando como reflexão que na vida nada é garantido, tudo pode mudar a qualquer momento, sem ou com a nossa participação. Porque afinal o amor está onde menos se espera e este é como uma planta, é preciso que se alimente diariamente”, lê-se na nota de imprensa.

Na história, Daniel (jornalista) e Vanessa (estudante de arquitetura) conhecem-se de forma inesperada, através do Facebook, numa dessas noites em que o Daniel não tinha muito que fazer. Contra todas as expectativas, a amizade evoluiu para algo mais pintado e dali para namoro. Facto que foi posto à prova, num contexto em que o mundo é abalado pela COVID-19 e em paralelo o terrorismo em Cabo Delgado, põe também o país à prova e mexe com o tecido social.

“Ausência, intermitências e outras incompletudes” (romance), é a segunda obra do escritor e professor Valério Maunde, depois de ter publicado “O Mar & Amar”, em 2020. “É um romance que nos leva a conhecer os lugares apaixonantes da cidade de Maputo, lugares icônicos como o Jardim dos Professores, o Jardim dos Namorados e o belíssimo e invejável Miradouro e nos coloca na posição de apreciadores das belezas desta metrópole. Pela mão do autor, descobrimos as formas mais belas de cortejar, à maneira clássica de amar, escrevendo cartas, bilhetes, recitando poemas e trocando livros. Daniel, jornalista, poeta, escritor e consumidor voraz de livros, que personagem principal do livro, é um alter ego de Valério Maunde, que também é um voraz consumidor de livros e também se diz poeta”, lê-se na nota de imprensa.

O livro “Ausência, intermitências e outras incompletudes” será apresentado por Virgília Ferrão, escritora e activista literária.

Valério Maunde é natural de Maputo. É professor de Língua Portuguesa, revisor linguístico-literário, guionista, investigador linguístico-literário e escritor. A sua bibliografia inclui narrativas de ficção, poesia, guiões de radionovelas, crónicas, publicadas regularmente no Jornal O País, e trabalhos académicos de investigação linguística e didática. A sua obra de estreia é uma colectânea de poemas intitulada ‘O Mar & Amar’ (2020). A nível nacional destaca-se a sua participação na antologia “No Cais do Amor” (Editora Kulera, 2022), e na obra de investigação científica “Português Moçambicano” (Alcance Editores, 2022). A nível internacional, tem textos dispersos em periódicos e revistas literárias digitais. Além da escrita, actua no activismo literário, sendo membro fundador e perpétuo do Círculo Acadêmico de Letras e Artes de Moçambique, membro correspondente da IdeiArte Cultura / África e Brasil, e membro correspondente do Movimento Literário Mapas do Confinamento, que reúne autores de várias nacionalidades. Em 2022, criou o canal Cais das Letras no YouTube, um espaço virtual de lançamento, encontro e convivência de escritores e poetas.

A Associação Kulemba realiza, às 18 horas desta quinta-feira, na Livraria Fundza, Cidade da Beira, uma sessão de conversa subordinada ao tema “A arte de escrever e a função do texto”. A iniciativa, que se insere no mês da mulher, vai juntar no mesmo painel a escritora Argentina Banze e a jornalista Benícia Faiane.

Segundo a nota de imprensa da Kulemba, ao longo de aproximadamente 90 minutos, as duas oradoras vão partilhar as suas experiências e percepções sobre como concebem e projectam a escrita enquanto recurso importante no diálogo com o leitor.

Em primeiro lugar, na sua intervenção, Argentina Banze vai, essencialmente, basear-se na actividade de escrita criativa sem ignorar as lições de Direito, sua área de formação.

Argentina Banze é autora de Insiste em ignorar-me, livro lançado ano passado pela Editorial Fundza. Segundo afirma, “Sempre viu a escrita como uma forma de terapia: a poderosa forma de curar e solucionar problemas através das palavras”. O seu gosto pela escrita é representado pelo texto de Fernando Pessoa, que diz: Se escrevo o que sinto, é porque assim diminuo a febre de sentir. Portanto, partindo do que a escrita significa para si, a autora irá revelar o que, na sua percepção, constitui a “função do texto”.

Em segundo lugar, Benícia Faiane fará do texto jornalístico o ponto de partida da sua intervenção, ora partilhando experiências inerentes à produção de matérias televisivas, ora referindo-se à arte de escrever textos radiofónicos. De igual modo, porque a repórter tem contacto com os livros desde pequena, inspirada pela sua mãe, professora de profissão, a intervenção de Benícia Faiane também irá consistir numa reflexão sobre o texto literário, até porque a jornalista tem textos inéditos (prosa e poesia) e a literatura está presente no seu quotidiano.

A sessão de conversa sobre “A arte de escrever e a função do texto” será moderada pelo docente universitário Dércio Chiemo.

Argentina Alfredo Banze nasceu na Província de Inhambane. É formada em Direito pela Universidade Zambeze. É advogada estagiária, voluntária no TEDx Beira. Exerceu docência universitária no curso de Direito e estreou-se em livro com Insiste em ignorar-me (Fundza, 2022).

Benícia Télisma Gomes Faiane nasceu na Província de Inhambane. É licenciada em Ciências da Comunicação, pela Universidade Zambeze. Também tem uma licenciatura em Ciências Políticas e Relações Internacionais. É jornalista da Rádio Moçambique.

 

 

O professor universitário e ensaísta, Francisco Noa, foi eleito, este mês, como sócio correspondente estrangeiro da Academia das Ciências de Lisboa. A eleição foi confirmada pelo presidente da instituição, José Luís Cardoso.

 

O plenário de sócios efectivos da Academia das Ciências de Lisboa, realizado no passado dia 7 deste mês, aprovou a eleição de Francisco Noa como sócio correspondente estrangeiro daquela instituição. Desse modo, segundo José Luís Cardoso, Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, reconheceu-se a qualidade dos serviços académicos que o intelectual moçambicano tem prestado e pode vir a prestar em benefício do desenvolvimento cultural e científico, quer em Portugal, quer noutros cantos do mundo.

Enquanto para a Academia das Ciências de Lisboa será com grato prazer que irá acolher a presença e participação de Francisco Noa nas sessões públicas que promove, o académico entende a eleição como um reconhecimento pelo trabalho que tem desenvolvido, ao longo de todos estes anos, como ensaísta, pesquisador e professor de literatura.

Além da eleição ser algo que prestigiante, considerando a reputação da Academia das Ciências de Lisboa, na percepção do autor de Além do túnel – ensaios e travessias, trata-se de uma forte motivação para continuar a fazer o seu trabalho com a responsabilidade, rigor e entusiasmo de sempre.

A Academia das Ciências de Lisboa é uma das mais antigas instituições científicas de existência contínua em Portugal. Foi fundada a 24 de Dezembro de 1779, portanto, há 244 anos. Nos termos estatutários, entre várias actividades, compete à Academia das Ciências de Lisboa promover e incentivar a investigação científica, sempre que possível e necessário de forma interdisciplinar, e tornar públicos os resultados dessa investigação; estimular o enriquecimento e o estudo do pensamento, da literatura, da língua e demais formas de cultura nacional; colaborar em actividades de educação e ensino e fomentar a sua difusão e aperfeiçoamento; ou elaborar os pareceres que o Governo português e outros serviços solicitarem.

A Academia das Ciências de Lisboa é o órgão consultivo do Estado Português em matéria linguística, podendo ainda ser consultada em outras áreas científicas. Entre os membros da instituição, constam, na secção de Literatura e Estudos Literários, personalidades como Eugénio Lisboa, Manuel Alegre, Helder Macedo, Carlos Reis e António Lobo Antunes.

Além de Francisco Noa, entre cidadãos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), fazem parte da Academia das Ciências de Lisboa Graça Machel, Mia Couto, Jorge Ferrão, Teresa Maria Cruz e Silva, Lourenço do Rosário (Moçambique), Pepetela (Angola), Germano de Almeida (Cabo Verde), Inocência Mata (São Tomé e Príncipe) e Carlos Lopes (Guiné-Bissau).

 

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