O País – A verdade como notícia

A coreógrafa, bailarina, professora de dança, investigadora de dança contemporânea e produtora de espectáculos e eventos artísticos projecta celebrar, este mês, com uma exposição intitulada “Maria Helena Pinto: Corpo e mente com histórias universais”, a ter lugar no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo, de 16 a 30 de Junho, e uma Festa Leilão, no dia 24, na Vila Artística Dans´Artes, no distrito de Djonasse.

Segundo avança uma nota de imprensa, Maria Helena Pinto completa 50 anos de vida, dos quais 40 entregues à arte performativa. Para comemorar, a artista projecta uma série de actividades com destaque para a exposição “Maria Helena Pinto: Corpo e mente com histórias universais”. Maria Helena Pinto é doutorada em Estética, Ciência e Tecnologia das Artes, opção Teatro/Dança na Universidade de Paris 8, através de uma bolsa do governo francês. É co-fundadora do ISARC e fundadora do projeto FIDC – primeiro Festival Internacional de Dança Contemporânea. Foi uma das coreógrafas principais da CNCD entre os anos 1995 e 2009, e directora artística em 2004. É também fundadora e Presidente da Associação Centro de Pesquisa Coreográfica em Maputo.

É autora de coreografias como “Amadsofer” (1995) co-criado com Augusto Cuvilas; “Amatodos” (1998) co-criado com Pérola Jaime e Augusto Cuvilas; ”Experiência” (2000); “Sim” (2000); “Mudar de casa” (2000); “Nascimento” (2000); “Tempestade” (2001); “Kudzila” (2003); “Dentro e Fora” (2004); “Maputo” (2004); “16 de Junho de 1960” (2005); “STOP SIDA” (2005); “O Olho d’a percepção” (2005); “Ventos de Mbuzine” (2006); “Passo em Feminino” (2006); “Sombra” (2007);  “Mar Vermelho” (2008); “Notícias” (2008);  “De passo em Feminino Para Mim” (2009).

Ao longo dos seus 40 anos de carreira, participou em festivais de teatro e dança de todo o Mundo, destacando “Dance Africa” e “Américan Dance Festival, nos EUA; “5° Encontro de coreografia africana”, em Madagáscar; “New Dance Festival” e “Djomba Festival”, na África do Sul; “Festival Sharp”, na Suíça; “Panorama Festival”, “Festival de Dança de Seara” e “Teatro SESC”, no Brasil;  “6° Rencontres chorégraphiques africaines”, na França; “Festival Bamako-Danse-Bamako”, no Mali; “Festival Interculturel”, na Ilha de Mayotte; “Danse l’Afrique Danse Tunisia, Centre National de la Danse de Pantin”, na França; “Encontro artístico « Dialogue »”, na Itália; “Festival des Danses Métisse Guyanne Francesa”, na Noruega; “Festival Kay Fecc Dakar Sénégal”, no actual Helsinki Finlândia, e entre outros. Destaca-se também a sua digressão por seis (6) estados importantes (Chicago, New York, Washington…) dos Estados Unidos de América e sua actuação impactante no Kennedy Center com o seu solo “Sombra”, tendo aparecido num artigo da New York Times, um dos maiores jornais americanos.

Como académica, é impulsionadora e criadora do primeiro curso de Licenciatura em Artes Cénicas, pela Universidade Pedagógica de Maputo e ainda foi presidente na criação do primeiro mestrado, no país, em Artes Cénicas e Estudos Culturais em perspectiva de arranque a breve trecho pela mesma universidade moçambicana.

Nas letras, publicou um livro, Devir(es) Contemporâneos, sobre o surgimento e a evolução da dança contemporânea, em Moçambique. Deu vários workshops, como na Universidade de Mariland nos Estados Unidos da América, na Universidade de Paris 8.

Maria Helena Pinto também ganhou prémios e distinções ao longo da sua carreira. Em 2003, ganhou o prémio de consagração nacional em coreografia com a peça “Tempestade” e entre outros, ainda recebeu este ano, em nome do Dans’Artes, um prémio das Indústrias Culturais e Criativas, organizado pelo Ministério da Cultura e Turismo, na categoria de Dança.

 

 

 

Por: Elton Pila

O edifício é o de uma antiga alfândega. A primeira em Moçambique, que entre outras coisas serviu também como ponto de venda de escravos. Mais do que memória física, prova ululante da aspiração portuguesa de presença permanente. Agora, o espaço é ressignificado por uma instalação em forma de experiência imersiva, “Nakhodha e a Sereia”, que também pode ser entendida como um monumento para celebrar a cultura marítima swahili e tudo o que ela pode ensinar a um mundo ameaçado pelas mudanças climáticas.

A idealizadora, Yara Costa, cineasta e directora criativa, mistura história, documentário, áudio e encenação para uma viagem com som imersivo e projecções de vídeomaping 360 graus. Uma realidade estendida, virtual e mista para colocar-nos num pêndulo entre o passado e o futuro. “A realidade virtual, aqui, representa a possibilidade de nos transportar para o passado. E ver, através do mar, a possibilidade de futuro”, diz-nos Yara Costa.

É a partir do litoral, da Ilha de Moçambique, que ainda se recupera das mazelas deixadas pelo ciclone Gombe, que se repensa a relação homem-mar, comunidade-mar, numa exposição erguida a milhões de braços conhecedores da realidade local.

No centro da exposição, há um dhow de 8 metros, que poderia muito bem estar a velejar numa longa viagem pelo mar. O dhow, a memória física do século XIII e que segue até os dias de hoje, é apenas um exemplo que há engenhos saídos das mãos de homens e mulheres swahilis cujo mar é a extensão das suas vidas.

O cicerone – na instalação – é um Nahota real, este ser mítico, quase irmanado ao dhow, intérprete dos fenómenos meteorológicos, como a temperatura, a velocidade e a direcção do vento, condições de navegação, estado do mar, entre outras, um longo caminho que precisa ser feito para se chegar a este estatuto.

Conta com o apoio do Sound Connects Fund, uma iniciativa da Music In Africa Foundation (MIAF) e do Goethe-Institut. O Sound Connects Fund é possível graças à contribuição financeira da União Europeia e o apoio da Organização dos Estados ACP. “Nakhodha e a Sereia” conta também com o apoio do Fundo dos Embaixador dos E.U.A. para Preservação Cultural e abre no final de Junho e segue até Outubro na Ilha de Moçambique, sempre a conservar a intenção de viajar também por outras paragens-portos. Talvez um deles seja o de Maputo.

A Cornelder de Moçambique e a Associação Kulemba lançam, às 16 horas de amanhã, no Mercia’s Garden (infra-estruturas verdes, bacia 3), Cidade da Beira, a primeira edição do Prémio Literário Mia Couto.

De acordo com a nota de imprensa da Kulemba, a iniciativa pretende estimular a produção literária de qualidade em Moçambique, distinguindo as melhores obras publicadas anualmente.

Assim, o Prémio Literário Mia Couto terá duas categorias (prosa e poesia), devendo-se distinguir uma obra em cada categoria. A iniciativa vai distinguir livros de autores moçambicanos, publicados em língua portuguesa, devendo a primeira edição ter sido publicada em 2021 e 2022.

Na cerimónia de lançamento do Prémio Literário Mia Couto irão intervir o patrono da iniciativa, o escritor Mia Couto, o Administrador Delegado da Cornelder de Moçambique, Jan de Vries, e o Presidente da Kulemba, Dany Wambire.

Os vencedores do Prémio Literário Mia Couto serão agraciados com valores pecuniários, na ordem de 400.000 MZN (quatrocentos mil meticais) para cada categoria.

Os pintores de sonhos, de Carlos dos Santos; A revolta dos bichos, de Miguel Ouana; Lamura, de Suzy Bila; Casa em flor, de Rogério Manjate; e Mungadze, a lenda do reino musical, de Agnaldo Bata são os livros finalistas da primeira edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil, instituído este ano pela Associação Kulemba.

Numa nota de imprensa do concurso, o júri constituído por Alberto da Barca (presidente), Marcelo Panguana e Angelina Neves, refere que a obra Os pintores de sonhos, de Carlos dos Santos, é finalista da primeira edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil porque contém uma “mensagem bonita, importante e muito actual, dada de uma forma muito didáctica”. Assim, sustenta o júri, o conto funciona como base de aprendizagem na preservação do ambiente, a história é cativante, desperta a curiosidade e está escrita de forma clara, e com ilustrações singelas.

Quanto ao livro A revolta dos bichos, de Miguel Ouana, refere o júri, é finalista do concurso porque a mensagem da narrativa é muito útil, passada de uma forma que faz lembrar “as histórias à volta da fogueira, próprias da nossa cultura (feiticeiros, chefes, animais que falam), onde a criatividade está presente ao relatar um conflito muito actual de uma forma engraçada”. No comentário do júri, o conto é escrito numa linguagem clara e as ilustrações são simples e casam bem com o texto. Por isso mesmo, “é preciso aplaudir por terem sido feitas [as ilustrações] por um jovem de 16 anos”.

Já em relação à obra Lamura, de Suzy Bila, o júri considera que “o conto reflecte sobre o sofrimento das crianças a quem é roubada a infância, fala-nos da desumanidade com a qual vivemos todos os dias. É uma narrativa contada de uma forma sóbria, sedutora, suave e poética. As ilustrações são pinturas bonitas feitas pela própria autora e que expressam de forma viva, vibrante, a história e o sentimento da autora”.

Quanto a Casa em flor, de Rogério Manjate, a obra é finalista porque, nesse caso, a poesia pode funcionar para os leitores infanto-juvenis como elemento que ajuda a gostar da arte do verso, da palavra elaborada, que ajuda a sonhar ao estar combinada com uma ilustração notável.
A quinta obra literária finalista, a ordem é aleatória, é Mungadze e a lenda do reino musical, de Agnaldo Bata, que combina muita criatividade com a ideia dum mundo musical e de uma criança salvar o mesmo mundo através da música. “A aventura discorre a um bom ritmo. As crianças podem reconhecer-se nas ilustrações”.

Para chegar às cinco obras finalistas da primeira edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil, numa primeira fase, cada membro do júri rastreou quatro melhores obras, tendo em conta, de um modo geral, os seguintes critérios: a Mensagem, a Criatividade, o Ritmo e a Ilustração. A seguir a essa fase, os membros do júri reuniram-se e, num universo de 12 livros (quatro de cada membro de júri), seleccionaram as cinco obras finalistas sem, nessa fase, observar nenhuma classificação. Assim, os membros do júri voltarão a reunir para apurar o grande vencedor, que será anunciado durante a sexta edição do Festival do Livro Infantil da Kulemba (FLIK 2023), entre 14 e 17 de Junho, na Cidade da Beira.

 

 

 

 

Por: Manuel Mutimucuio

 

Não dava para acreditar que em todos anos de serviço na companhia esta era a primeira vez que punha os pés na vila da Gorongosa. Tudo que sabia do lugar era de relatos e de sua própria imaginação. Já no local, não dava para determinar se gostava ou desgostava, mas era incontestável que se tratava de uma terra de muita fartura. Sem mesmo se aventurar fora da via principal, tinha visto vários sinais de mineração artesanal, filas intermináveis de cereais expostos ao sol no leito da estrada e muita fruta que sem a pressão da escassez ou do mercado, estava perpetuamente votada a repetir o ciclo biológico.

Entretanto, algo parecia deslocado. Era impossível computar como uma vila com tantas oportunidades para fazer riqueza estava às moscas. Achou por bem perguntar a uma das poucas almas à vista, onde é que estava toda a gente.

“Saiu hipopótamo!”. Olhou para a estatura física do seu interlocutor e ficou ainda mais perplexo. Devia também desaparecer ou seguir o exemplo do rapaz enfezado que parecia imperturbado diante do perigo iminente.

“As pessoas foram arranjar caril”. Veio, finalmente, a resposta que punha tudo nos eixos. Quanto mais sabia da Gorongosa, mais compreendia a razão por que as guerras do passado, do presente e, certamente, as do futuro gostavam de ali se hospedar.

Mussa continuou a marcha e parou o carro na sombra de uma enorme figueira que servia de abrigo a um mercado que, em dias normais, devia ser um centro de vitalidade. Pelo menos, é o que denunciavam os vendedores presentes e as inúmeras bancas desocupadas. Com a vista largamente desobstruída, conseguiu ver no outro lado da estrada um restaurante construído para chamar atenção. Francamente, pelo requinte exterior e sugestões de ementa expressas em fotos e texto impressos nas paredes de vidro, podia estar em qualquer capital global. Não que soubesse algo das grandes cidades internacionais, mas ninguém podia disputar que um restaurante que servia pizza, strogonoff, byriani entre outros nomes importados de terras distantes, em sala climatizada com WiFi, assentaria como uma luva em Paris, São Paulo ou Nova Iorque. Entretanto, depois do susto em Púngue, não arriscaria mais a integridade da missão por causa dos seus apetites mundanos. Quando a fome batesse à porta, esperava poder contar com a merenda de frutas da época que foi juntando ao longo do caminho.

Telefonou para o Sr. Bila, à espera de novas ordens. Como tinha sido instruído, descreveu tudo que observara, mas o que lhe deu mais prazer em falar foram as suas conjeturas sobre o papel estratégico da Gorongosa. Entretanto, do outro lado da linha houve pedido de mais detalhes sobre a história do hipopótamo. É como se o Sr. Bila estivesse justamente à espera dessa notícia. Fez um montão de perguntas sobre as quais Mussa não fazia a mínima ideia, mas o chefe não parecia estar à espera de qualquer resposta. As perguntas eram, como se recordava de ter aprendido nos tempos de escola, retóricas.

Depois da inquisição, o único comando que fez sentido foi o de ir ter com Bucuta e Maurício. Devia conduzir de volta a sul na EN1 até à escola de Nhamissongora e de lá Bucuta e Maurício saberiam o que fazer.

Subitamente, Mussa sentiu cãibras nas pernas e nos braços. O sangue que já lhe fervia nas veias com as perguntas impossíveis do chefe, buscava agora uma válvula de escape para transbordar. “Agora devo receber ordens do Bucuta e Maurício! Ora pensei que os tipos não se podiam governar, mas afinal podem governar-me”. Furioso, Mussa ponderou se devia exigir explicações do chefe e optou pelo silêncio. Quis dar o benefício da dúvida para a possibilidade de aquele ser o procedimento operacional padrão. Imaginar que era assim também como o João, dava certo alento. Aliás, tanto quanto sabia, estava ali em substituição do autointitulado chefe João com plenos poderes. Ainda assim, com toda a boa vontade, não conseguia espantar a pulga na orelha que lhe dizia para não se perder em cogitações, pois não havia nada de complicado senão a pura falta de confiança. “Quem no gozo do seu perfeito juízo deixaria nas mãos de um estagiário o destino de uma missão que já lhe tinha custado a vida do seu operativo mais experiente?”, pensou. Para esse receio legítimo, Mussa só conhecia um remédio santo. Dar tempo ao tempo.

Tinha ouvido falar da dupla Bucuta e Maurício e quase sempre descritos como uns patetas. Sabia da sua longevidade na empresa, embora não se recordasse de alguma vez ter ouvido um comentário abonatório a seu respeito. Vê-los, finalmente, ao vivo era uma oportunidade para Mussa construir o seu próprio juízo.

Depois das saudações e outros salamaleques próprios de pessoas que se encontram pela primeira vez, deixaram de subsistir quaisquer dúvidas em Mussa sobre por que razão Bucuta e Maurício eram sempre concebidos como um ser indivisível, do género produto e embalagem. Inseparáveis, mas somente um, pelo menos à vista desarmada, realmente útil. Olhos atentos, porém, notavam que mais do que uma relação de parasitismo, havia uma simbiose perfeita. Maurício era o porta-voz, mas Bucuta tinha, de facto, o poder de veto e talvez explicasse a precedência do seu nome. Era uma dinâmica que gerava muita curiosidade, mas Mussa decidiu-se ficar pela imaginação, porquanto para o que realmente pretendia perguntar, nem o tempo era capaz de o absolver.

Já no carro, Mussa não se arreliou por estar praticamente a prestar um serviço de táxi. Estava sozinho à frente enquanto a dupla se refastelava no banco de trás. O que causava desassossego era o labirinto em que o carreiro se tornara, nem tão pouco aligeirava o temor o conhecimento de que os companheiros de viagem estavam em terreno familiar, pois todas as ocasiões em que atirou os seus olhos ao retrovisor, fora recebido por caras de poucos amigos.

Cada vez mais preocupado com a sua integridade física, Mussa tentou fazer conversa. Falou da beleza da mata, do sol que estava a minguar, da chuva que só chovia quando bem entendesse, dos buracos vorazes da EN1, do calor que fazia no inverno. Nada. Do banco de trás não recebeu sequer um simples suspiro. Para apimentar tudo, recordou-se que em Nhamissongora, Bucuta e Maurício tinham, cada um, uma catana e agora a memória traí-lhe se as deixaram na carroçaria com outra quinquilharia que empunhavam ou se as levavam consigo na cabine. Já aflito, Mussa decidiu improvisar. Parou repentinamente a viatura e desceu. Revirou a bagagem na parte traseira do veículo e de lá voltou com dois objectos que os presenteou aos companheiros de viagem.

Em perfeita harmonia, Bucuta e Maurício, cada um tirou, sabe-se lá de que entranha, um punhal e com destreza de quem tenha feito vezes sem conta, desferiram golpes limpos e precisos no seu farnel. Animado, mas ao mesmo tempo estupefacto, Mussa abrandou a marcha, como se fosse possível andar ainda mais devagar e, com o auxílio do retrovisor, assistiu em câmara lenta à demolição dos ananases que comprara para o seu almoço.

Ansiosamente à espera de um “obrigado” ou comentário melieiro equivalente, Mussa contabilizou uma vintena de minutos até que se ouvira um som do assento traseiro que não fosse de mastigação. Maurício, após receber um sinal críptico do Bucuta, ordenou que Mussa imobilizasse o veículo ao mesmo tempo que ele e a sua alma gêmea destrancavam a porta.

Sem dizerem por que paravam ou o que se seguia adiante, levaram todos os seus pertences e começaram a caminhar. Mussa, obrigado a seguir-lhes o exemplo, sem informação sobre o que era essencial levar consigo, nem tão pouco o tempo estimado da romaria, transferiu o que pôde da carroçaria para a cabine, trancou o carro e pôs-se no encalço da dupla carregando a sua mochila, saco-cama e uma tenda. Meia dúzia de passos dados, começou logo a duvidar se era mesmo necessário estar equipado. Recordou-se da imagem romântica de exploradores em capa de revista de viagens e tudo parecia uma grande falsidade. “Como iria alguém sorrir com o lastro da sua cozinha, quarto e casa de banho nos seus ombros!”

A carga não era, aparentemente, o único peso com que se devia preocupar. Com Bucuta e Maurício na dianteira e ele nas trevas em relação ao plano, era comprovadamente um seguidor e não o líder que julgava ter sido entronado quando lhe foi confiada a missão na Beira. Tentou reclamar a iniciativa e com ar de quem tinha tudo sob controlo, gritou para a dupla que já tinha galgado um bom bocado.

“Eh! Não se esqueçam de que isso é uma maratona”. Bucuta e Maurício viraram ligeiramente a cabeça, não o suficiente para reconhecer o chamamento que viera do interlocutor atrás, mas bastante para se entreolharem. Continuaram a marcha como se nada tivessem ouvido. Mussa, disposto a preservar o que lhe restava de dignidade e não acelerar o passo para os alcançar, sentiu-se encurralado. Depois de tantas voltas que deram naquele carreiro de fim de mundo, sabia que já não era dono do seu próprio destino. Engoliu o orgulho e correu como um menino ao encontro da dupla enigmática que, pelo andar da carruagem, estava mesmo no comando da missão.

 

Por: Filimone Mieigos

 

O problema da arte não é saber como é.

É como fazê-la.

José Craveirinha

 

Certa vez, tal como hoje, o Zeca emboscou-me, claro, filho de turra sabe emboscar. E aqui estou, num domingo igualzinho ao primeiro numa exposição sobre o Sontinho. Todos os domingos são santos, mas os nossos são Sontos.

Não é sem razão que o meta título desta exposição é um poema sobre a arte e a sabedoria que lhe está subjacente, da pena do próprio Sontinho, o poeta José Craveirinha: O problema da arte não é saber como é.

É como fazê-la.

Nascido num sonto (domingo) dia melhor não haveria para explicar essa coisa de como fazer arte, particularmente nas telas do Zeca.

Pois, como fazê-la?

Em primeira instância, essa coisa do “como fazê-la ”, tem muito que se lhe diga. Aliás, depende do ângulo do motorista. Portanto, não tem nada a ver com a marca do automóvel, tão pouco com a estrada ou picada por onde o carro anda. Assim é a arte na perspectiva do “como fazê-la”. O artista é o soberano motorista do my love na madrugada do processo criativo. Segue em frente, vira à esquerda, pisca à direita e faz marcha à ré sempre que lhe der na real gana. Assim são os que sabem como fazê-la, seguem os espíritos do ser. Portanto, “Como fazê-la”, está primeiro que tudo na poesia de quem a faz, o artista. Depois, virão os especialistas, os académicos, os críticos, os jornalistas culturais e por aí adiante para do mesmo modo, e com arte, terem que enfrentar a mesma questão: como fazê-la?

Cada sentença sua cabeça assim é que é, ao avesso. Não vá o diabo fardar-nos de unanimismos. Se aceitarmos, não sei por que carga de água, estar em comunhão de pareceres ou de vontades nas artes, estaremos a ser outra coisa que não nós próprios. Não é assim como se faz arte.

Como se faz é como cada um revela o seu direito de vontade no andamento da emoção. Resulta claro, o artista representa e elabora mentalmente, cada um à sua maneira.

Por exemplo, esta exposição é à maneira do Zeca, é a sua elaboração sobre um sonho que se vai dissipando, embora sempre presente e imortalizado na tela.

Na pintura do Zeca, a chave de rodas na poesia do cromatismo, a subtileza no volante do pincel, o espelho retrovisor na magia do sentimento, a técnica na leveza do traço, são o som da composição que avoluma o Binga da sua criação artística. Qual drone voando na Mafalala, literalmente seguindo a mesma utopia do Sontinho, o seu norte. Isso mesmo, pessoa que se preze tem norte, mal de nós se tal não fosse. Aí seria outra coisa: “ai a passividade animal!”.

A sombra titular (não tutelar) é um decalque ao sentimento do grande poema Maria. No caso, é o filho de Maria, o Zeca, a presenciar a ausência sempre permanente do poeta, por assim dizer, agora feitos três: Zé, Maria e Stélio.

Na lonjura da tela tacteamos o bonacheirão do tio Zé namorando sua Maria, enquanto os dois assistem Stélio a saltar as barreiras da vida.

Chapéu preto, gola à maneira, sapatos como sempre bem engraxados, calça com vinco, e aquele bigode matreiro que o Zeca recria na sua própria face e nos seus quadros, esse é o tio Zé que povoa estes quadros. Afinal não fosse o poeta subversivo, coisa que o Zeca vivenciou e por conseguinte assume e inoculou.

O acentuado negro no cromatismo desta exposição, o som do escuro sugere essa presente ausência dos seus.

E ainda bem, porque a pergunta “como fazer” é respondida em uníssono pela família: “se faz fazendo-se tendo presente as nossas raízes já de si fasciculadas”.

Pois é, tal como sabemos, uma raiz fasciculada tem vários eixos, ramificados ou simples, mais ou menos iguais na espessura e no comprimento. Não é possível distinguir o eixo principal dos secundários.

É como quem diz uma verdade a la palisse: os frutos sejam de que árvore for, não caiem muito longe do seu perímetro. É assim que se vai reconstruindo uma reciprocidade, um dar e receber na base da ancestralidade, no próprio chão da árvore. Tais são as raízes que prendem a terra às nossas árvores porque a terra não pode esvair-se-nos entre os dedos, como se de água se tratasse.

Assim se manifesta a poesia do Zeca nestes quadros que têm raízes profundas e uma muito bem conseguida trans-geracionalidade nascida por debaixo dessa frondosa árvore, o embondeiro da Mafalala.

Então a arte não é essa maneira de dizer com pincéis, palavras, gestos, acordes, ou seja lá o que for, aquilo que de outro modo não seria possível dizer?

Isso responde, em boa parte, a questão como fazê-la. Estas telas dizem-nos da sinédoque do augúrio vivenciado num passado não muito distante. Uma pátria. Uma campeã olímpica. Uma cidadania. Sermos nós.

Sabemos que persistem os milícias Fakir. Do mesmo modo sabemos que é verdade que se re-configuram “essas palmas induvidosas que palmeiam os discursos dos chefes”.

Claro que a pergunta persiste: “Uma população que não fala não é um risco?”

“Deixem-me ser tambor”. É assim que eu faço, replica o Zeca nas suas altifalânticas telas:

Siavuma!

 

Sonto, 29 de Maio, Kanfumo 2023

 

 

 

A 19ª edição do Festival Internacional de Teatro de Inverno vai decorrer na Cidade de Maputo, de 26 de Maio a 4 de Junho. O festival contará com a participação de companhias de teatro nacionais e estrangeiras, que se apresentarão em diferentes pontos da cidade.

O Festival Internacional Teatro de Inverno é uma iniciativa da Associação Cultural Girassol, que teve o seu início em 2004 com o objectivo de apoiar os grupos amadores de teatro através da divulgação do seu trabalho artístico, associativismo cultural e formação de actores.

No Franco-Moçambicano, serão apresentadas peças teatrais nos dias 26 e 27 de Maio, às 18h e às 19h30, no Auditório, proporcionando ao público a oportunidade de apreciar uma variedade de espectáculos cativantes. As peças teatrais programadas incluem: “Mancha de Sangue” – Grupo de Teatro Mahamba, de Moçambique; “Rain Song” – X Theatre, da África do Sul; “L’homme qui a épousé un arrêt de bus” – Vôva Theatre, da R.D. Congo; e “Moz My Love” – Grupo de Teatro Kulhanganheta, de Moçambique.

Ainda no dia 27 de Maio, às 10h30, será apresentada a peça especialmente voltada para crianças, totalmente gratuita, intitulada “A História de João Gala – Gala”. A performance do grupo Teatralidade, de Moçambique, pretende proporcionar uma experiência enriquecedora e divertida às crianças.

O festival traz uma variedade de espectáculos teatrais, oferecendo uma experiência única para o público, a partir de performances de narrativas que discorrem sobre as diversas temáticas sociais.

Sinopses das peças

Mancha de Sangue – Grupo de Teatro Mahamba (MZ)

Carlos Sigaúque, um homem de negócios, bem-sucedido, retorna da extinta República Democrática Alemã (RDA) e refugia-se em Manjacaze, na província de Gaza, em Moçambique, onde tem uma vida tranquila e solitária, que é virada de cabeça para baixo quando uma visita inesperada chega em sua porta. Tina Koch Sigaúque, uma jovem mestiça, que reivindica ser sua filha, nascida de um relacionamento com Ingrid Koch, uma mulher do passado. Carlos fica intrigado e surpreso com essa revelação, pois ele nunca soube da existência de uma filha. Carlos enfrenta o desafio de descobrir se a jovem é realmente sua filha ou se ela é uma impostora em busca de sua fortuna.

Rain Song – X Theatre (SA)

“Rain Song” é uma peça provocativa que mergulha nas profundezas da natureza humana, explorando temas complexos como incesto, ganância e traição. A história examina como a posse, o poder e o desejo de vingança podem corromper e alterar o comportamento psicológico dos seres humanos, levando-os a se autodestruir. Esta peça será apresentada em língua inglesa.

A História de João Gala-Gala – Teatralidade (MZ)

Esta história, baseada na biografia de Chico António, narra uma aventura de um rapaz, do campo para as margens das ruas da cidade, onde semeia amigos e histórias e recolhe sons e harmonias com que mais tarde comporá as suas canções. O enredo é baseado na obra literária do escritor moçambicano Pedro Pereira Lopes. É composto pela alternância de cenas cómicas, momentos imagéticos, jogos e brincadeiras ao som da música produzida pelos instrumentos musicais tradicionais de Moçambique, com uma cenografia fantástica e cheia de cores onde o campo se transforma em cidade.

L’homme qui a épousé un arrêt de bus – Vôva Theatre (RDC)

É a história de um homem que se casou com uma prostituta. Após voltar de país para onde havia emigrado, flagra a esposa com um menino de rua, numa rua deserta. Tocado por isso, ele bate na esposa até a morte. Esta peça será apresentada em língua francesa.

Moz My Love – Grupo de Teatro Kulhanganheta (MZ)

Em vésperas de uma eleição determinante para o segundo mandato de um Presidente da República de Moçambique, em exercício, este fica sem saber o que fazer para salvar a sua campanha eleitoral. O desespero de perder o poder consome-lhe, dias e horas passam e, nos mídias o favoritismo do candidato concorrente agiganta-se sobre a incompetência sua e do seu elenco. Após finalmente surgir uma ideia brilhante que o faz disfarçar-se em “Guarda” e sua primeira dama em “Mukherista”, pela primeira vez, encontra-se intimamente com o país real e com a imensurável injustiça, que criam nele um conflito interno entre o poder e a sensibilidade humana.

Tina Turner, cantora americana considerada a rainha do rock n’ roll, morreu aos 83 anos. A morte foi confirmada pelo assessor dela esta quarta-feira. A causa da morte não foi divulgada, mas ela morreu “após uma longa doença” na sua casa na Suíça.

A cantora de sucessos como “What’s Love Got to Do with It” e “We Don’t Need Another Hero (Thunderdome)” lançou-se em carreira solo nos anos 1980. Tina e o ex-marido, Ike Turner, que morreu de uma overdose de cocaína em 2007, fizeram sucesso no final dos anos 1960 e início dos anos 1970.

Anna Mae Bullock nasceu em uma família pobre dos Estados Unidos. Aos 15 anos, foi abandonada pelos pais e cantou em boates para se sustentar.

Numa das apresentações, conheceu Ike Turner com a banda The Kings of Rhythm. Anna Mae pediu para ser backing vocal e em pouco tempo se tornou uma das vozes principais. Ike e ela decidiram formar uma dupla e, após se casarem, ela adoptou o nome artístico Tina Turner. Ao lado do marido, Tina dominou o cenário da música soul nos anos 60 e 70.

Na vida pessoal, o casamento foi marcado por brigas e escândalos. Alcoólatra e dependente de drogas, Ike culpava Tina pelo declínio da dupla, a agredia, humilhava e traía. Ela apareceu em público diversas vezes com o olho roxo ou com o lábio inchado. Depois de 18 anos, ela cansou-se das agressões e decidiu abandonar o marido. Na justiça, propôs abrir mão de todo o património em troca de poder manter o sobrenome Turner.

Tina recomeçou do zero. Sem dinheiro, morou com uma amiga e abriu shows para outros grupos famosos, como os Bee Gees. Para voltar ao cenário musical, apostou no rock, influenciada pelos Rolling Stones e por David Bowie. Adoptou também um novo estilo, com roupas ousadas e cabelos loiros espetados.

Em 1984, lançou o álbum ‘Private dancer’. O hit ‘Whats love gotta do with it’ teve ascensão meteórica e ajudou Tina a vender mais de dez milhões de cópias em todo o mundo. O título de rainha do rock surgiu aos 45 anos. Ela exibia as belas pernas, cantava e dançava sem perder o fôlego, levando a multidão ao êxtase.

Em 1986, lançou a biografia ‘Eu, Tina: a história da minha vida’, que conta a trajectória profissional e pessoal com o ex-marido, além de revelar as constantes agressões. O livro virou filme em 1993, estrelado por Angela Basset e Laurence Fishburne. Ike morreu em 2007.

O álbum seguinte foi ‘Break every rule’, com o qual Tina fez a maior turnê de sua carreira. Foram 14 meses viajando. Um show dessa turnê no Brasil entrou para o livro dos recordes: a cantora reuniu nada menos que 184 mil pessoas numa única apresentação no Maracanã. O show foi transmitido ao vivo para todo o mundo.

No início dos anos 90, lançou a música ‘The best’, que chegou a ser tema de alguns atletas. Um deles foi Ayrton Senna, que subiu no palco ao lado de Tina durante uma apresentação.

Os trabalhos de Tina Turner não ficaram restritos à música. Ela estrou-se nos cinemas em 1975 no filme ‘Tommy’. Dez anos depois, fez outro sucesso: ‘Mad Max – Além da cúpula do trovão’. Ela foi responsável também pelo tema da longa-metragem, que dominou as paradas de sucesso. A cantora gravou a trilha de muitas outras produções, incluindo ‘007 contra Golden Eye’.

O sucesso da música fez com que Tina Turner, então com 56 anos, lançasse um novo álbum, ‘Wildest dreams’. No fim da década de 90, lançou o nono álbum da carreira solo e anunciou a aposentadoria dos palcos. ‘Twenty four seven’ teve apenas dois hits, mas o clima de despedida atraiu milhões para os shows.

Em 2008, para marcar os 50 anos dos prémios Grammy, fez uma apresentação histórica. Além de cantar os seus grandes sucessos, fez um dueto com a cantora pop Beyoncé. Aos 73 anos, Tina Turner superou Meryl Streep e foi a mulher mais velha a estampar a capa da revista Vogue. A cantora vivia há duas décadas com o marido, Erwin Bach, na Suíça. No ano passado, renunciou à cidadania americana e ganhou nacionalidade suíça.

Poucos artistas igualaram tantos números: oito Grammys e 100 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. A rainha do rock chega aos 75 anos sem previsão de novos lançamentos, mas deixa a certeza de que conquistou o mundo com uma das vozes mais marcantes da música. E, para muitos, ela é simplesmente a melhor.

Por: Ungulani Ba Ka Khosa

 

Li, com manifesta estupefacção, o texto inserido na página de recreação do jornal notícias do dia 15 do corrente, no qual o escritor Jorge Oliveira se assume como meu biógrafo. Tal honraria, por mais merecida que fosse, está nos antípodas do que sou e almejo ser.

Em 2020, o Jorge, depois de uma breve conversa, fez-me chegar às mãos umas quinze páginas em folhas A4. Era o início do que intitulou ser seu projecto. Após a leitura, enviei-lhe um e-mail, do qual retiro algumas passagens:

20 de Março de 2020 – às 16.28

‘’… Li o teu bosquejo, compreendi a tua intenção (…), mas pessoalmente não me revejo no teu projecto. Infenso que sou a biografias em idade bem activa, a tua iria criar alguns constrangimentos às pessoas que me rodeiam. Aduzo algumas:

1 … Falar de bebedeiras e meretrizes e noitadas, é bastante inócuo na vida de um criador. A quem interessa hoje dizer, por exemplo, que Pablo Neruda teve, à portas de casa, uma amante a quem construiu uma moradia? E do François Mitterand? Isso é para a literatura cor-de-rosa.

  1. Falas da Charrua, desvalorizando, de certo modo, muitos dos meus confrades (…). A Charrua, revista, para mim, tem um valor que está acima de quem é mais ou menos na falível classificação de leitores e críticos. Tenho-os como amigos de hoje e sempre. Nunca, no universo da minha obra, irei permitir comentários que atentem contra a imagem deles. Aliás, uma geração é feita de pessoas, e, depois, de obras!

Agradeço a tua intenção, mas pessoalmente não estou na disposição de entrar em biografias e quejandos. Sou daqueles que ainda pensam como Roland Barthes: a biografia só está para os que não se preocupam com o presente e o amanhã …’’

Surpreende-me que passados três anos, o Jorge Oliveira venha a público afirmar que está para publicar uma biografia minha. Surpreende-me que Jorge Oliveira tenha conseguido, em tão pouco tempo, ir a Inhaminga, fazer o levantamento da minha linhagem materna, ver o cenário de Nova Sofala, em Búzi, deliciar-se com a imponente floresta da vila de Dombe, no distrito de Sussundenga, e dormir na missão franciscana de Amatongas, distrito de Gondola, espaços da minha infância, esse tempo que paira na memória. Espanta-me que em tempo recorde, Jorge Oliveira tenha embarcado no paquete império da Beira com destino a Lourenço Marques e, depois, por via terrestre, tenha chegado a Vila Trigo de Morais, hoje Chókué, onde o biografado passou a viver com o pai e o irmão, Elias Cossa. De Chókué, o biografado passa para Lourenço Marques, onde vive e estuda, consecutivamente, na escola primária João de Deus e na escola secundária Joaquim de Araújo. E nesse interim, passa as férias grandes em Banhine, onde é rebatizado com o nome de Ungulani Ba Ka Khosa, e em Panda, onde o pai trabalha como  funcionário administrativo, e no qual tentou comer carne de macaco. Quantas amizades se fizeram e desfizeram-se nessa pré-adolescência?

Depois veio Vila Junqueiro, hoje Gurué, onde se encanta com a sétima arte no emblemático cinema Gurué, na altura Manuel Rodrigues, dos passeios pela estonteante paisagem vestida de verde do chá, das amizades e namoradas, e do colégio que frequenta num ambiente claramente racista. A seguir, já adulto, assiste aos festejos da independência em Namapa, distrito de Eráti, em Nampula, e fixa-se em Quelimane. O fim do carnaval em Quelimane, as amizades no liceu, as noites de estórias no lar da Sagrada Família, os passeios de fim-de-semana pela colorida marginal, a beleza das mulheres chuabos, o encanto pelos livros da livraria ovedekula, a militância política, e os amigos que ficaram para a vida. Pasma-me que o Jorge tenha percorrido esse mundo tão diverso sem ao menos ter dialogado com o biografado. Será que a fonte foram as emotivas e esporádicas conversas de uma ou duas horas num bar?

Desassossega-me que em tempo recorde, o Jorge Oliveira me tenha acompanhado na viagem que fiz a Maputo aquando do 8 de Março de 1977, e a minha integração no grupo de jovens para o curso de formação de professores. Soube, por acaso, o que se terá passado no deslumbrante ano de 1977 no antigo seminário Pio X? Teve a detalhada informação de quando desembarquei em Lichinga, na soturna tarde de quinta feira, de 7 de Fevereiro, do ano da graça de 1978? E os dois anos (78/80) que lá passei, como professor de Geografia? Ó Jorge!..

Não me alongo mais, pois dos anos 80 aos dias de hoje muita água passou debaixo da ponte. Do que acima escrevi, o Jorge Oliveira nem deve saber da metade. Não sabe em que casa vivi no Gurué, em que camarata estive na Sagrada Família, em que zona de Lourenço Marques vivi, quem foi o meu encarregado de educação, a casa do meu pai em Nampula, o número do quarto da minha pensão em Lichinga, etc. E decorrente disso tudo, facilmente se depreende que o Jorge não tem estaleca em se adentrar na minha vida, procurando retratá-la. Trabalhos desta natureza exigem equipa, paciência, e estudo.

Mas há o outro lado da moeda: a minha vida pública, o meu mundo de escritor. Esse, iniciado com a publicação do conto Dirce, minha deusa, nossa deusa, na página cultural Diálogo, do Notícias da Beira. Terá o Jorge Oliveira, por acaso, em mãos, a primeira recensão crítica que recebi do conto? Gostaria que o republicasse.

O mundo literário é por todos devassado porque exposto nos meus livros, nas minhas entrevistas, nos estudos sem fim que fazem da minha obra em teses de licenciatura, mestrado e doutoramento. É o mundo aberto a todos que queiram investigar.

Chegados aqui, Jorge, creio ser desnecessário repetir o que já disse: não estou na disposição de entrar em biografias e quejandos. Aconselho-te a fazeres o que bem sabes fazer: escrever contos e romances.

Se teimas em enveredar por esse caminho de inverdades, nada me restará senão ancorar-me no que a modernidade nos proporciona: a justiça.

O abraço de sempre

 

Ungulani Ba Ka Khosa

 

P.S. Há mais de um semana que o Jornal Notícias não publica este texto/resposta.

 

 

 

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