O País – A verdade como notícia

Próxima segunda-feira, arranca, na Cidade de Maputo, a décima edição do Kinani – Bienal Internacional de Dança Contemporânea. Desta vez, a iniciativa vai celebrar uma década de existência com artistas, promotores e directores de arte provenientes de 15 países, entre os quais África do Sul, Angola, Cabo Verde, Mali, Madagáscar, Marrocos, Nigéria e Tanzânia.

Num primeiro momento, a programação do Kinani inclui uma “Semana preliminar”, que inicia segunda-feira, dia 13, como forma de convidar o público ao que Quito Tembe, director do festival, considera imersão mais profunda no evento. Já de 20 a 26 de Novembro, será a deradeira fase da Bienal Internacional de Dança Contemporânea.

Ao todo, a Cidade de Maputo vai contabilizar 32 espectáculos em teatros, salas convencionais e espaços alternativos. Parte dos 32 espectáculos, inserem-se na bienal Danse em Afrique, que vai contribuir para que a capital do país também seja a capital da dança e de outras artes durante o mês de Novembro. Por isso mesmo, “A grandeza do Kinani, que passa do nosso controlo, traz interesse turístico à cidade. Agora, este é um evento que transcende a equipa de jovens que tem feito o evento acontecer”, afirmou Quito Tembe, durante o lançamento do evento semana passada, no Jardim Tunduru, em Maputo.

Como tem sido habitual, a organização do Kinani – Bienal Internacional de Dança Contemporânea não pretende, nesta décima edição, limitar-se a uma sala ou a um espaço. Pelo contrário, “Olhamos para a cidade como um palco. Por isso, o nosso principal parceiro é a própria cidade. Queremos aproveita o período da bienal para promover as artes e o turismo nacional”, disse Quito Tembe.

Para o Director do Centro Cultural Franco-Moçambicano, Vincent Frontczyk, a sua instituição, parceira do Kinani desde o início, a décima edição do Kinani constitui um momento da consagração para todos os sectores culturais moçambicanos. “Será uma grande festa, com impacto muito positivo pela cidade e pelo país. Gostava de agradecer e felicitar toda a equipa e todos artista. Aos que fazem de Maputo uma expressão de dança muito forte. Temos todos de aproveitar desta grande oportunidade”.

Por sua vez, a Vereadora da Cultura da Cidade de Maputo, Isabel Macie, entende que a décima edição do Kinani será um momento de exaltação da cultura e da força de Moçambique na capital. “Esta edição integra celebrações das festividades da Cidade de Maputo.

Combinando um evento nacional e o outro africano, o que indica que Maputo é uma cidade criativa. Esta plataforma está mais revigorada, a crescer e a enriquecer o roteiro da nossa cidade. A iniciativa de juntar artistas em Maputo prova que a linguagem cultural é aglutinadora, que não tem fronteiras. A arte funciona como vector da busca de soluções”, defendeu a vereadora.

De acordo com a organização do Kinani, a bienal vai apresentar, durante o evento, peças de companhias e a solo, com performances que valorizam a equidade de género e dimensão regional e territorial. As peças em causa, com efeito, resultam de actividades de pesquisa e de residências criativas.

Quanto aos espectáculos da décima edição do Kinani, serão apresentados na Praça da Independência, Jardim Tunduru, Centro Cultural Franco-Moçambicano, Teatro Avenida, Centro Cultural Moçambique-China, Cine-Teatro Scala, Sé Catedral de Maputo, Correios de Moçambique, Cine África, Quarto Andar e e Bairro Polana Caniço.

A organização da Feira do Livro de Maputo foi convidada a participar na terceira edição do Mercado de Indústrias Criativas do Brasil (MICBR), evento a ser realizado de 8 a 12 deste mês de Novembro, em Belém. O evento inclui rodadas de negócios, actividades de networking, showcases, mentorias, conferências, mesas de debate e actividades culturais.

Segundo o Ministério da Cultura do Brasil, o Mercado de Indústrias Criativas do Brasil pretende fomentar e impulsionar o crescimento dos sectores criativos, facilitar a circulação de bens e serviços culturais, estimular a internacionalização da produção cultural nacional e promover a profissionalização dos agentes culturais brasileiros.

O evento vai reunir criadores e empreendedores dos sectores culturais e criativos do Brasil, além de convidados de outros países, abrangendo 15 sectores em sua programação.

A programação inclui, também, rodadas de negócio, apresentações para venda de ideia, projecto ou negócio, apresentações artísticas curtas com fins comerciais e actividades de formação de redes de contactos. Também são realizadas actividades formativas como mentorias, oficinas, palestras magnas (key-notes), mesas redondas e painéis e apresentações artísticas.

A participação da Feira do Livro de Maputo é resultado do trabalho abnegado do certame literário na internacionalização da literatura moçambicana e na criação de um espaço fértil para a mobilidade editorial e diálogo permanente entre os escritores dos países falantes da língua portuguesa, para além de firmar a cooperação que desde a primeira edição da Feira se assumiu “eterna” entre o Conselho Municipal de Maputo e a Embaixada do Brasil em Moçambique, por meio do Instituto Guimarães Rosa.

De acordo com a Coordenadora-Adjunta da Feira do Livro de Maputo e Directora Municipal-Adjunta de Bibliotecas e Arquivos, Verónica Chequele, diversas acções foram realizadas para atender ao convite feito pelo Ministério da Cultura do Brasil. A Coordenadora-Adjunta da Feira do Livro de Maputo, enquanto representante do Conselho Municipal de Maputo e de Moçambique, tem diversos compromissos oficiais durante o evento, participar em reuniões, debates e palestras.

“A presença da Feira do Livro de Maputo no MICBR 2023 reforça a reconstrução das pontes literárias e do importante papel da língua e do livro na valorização, divulgação e internacionalização das letras, artes, culturas e toda rede criativa da comunidade dos países da CPLP. Para nós, o fortalecimento das parceiras oferecerá uma oportunidade de estabelecer um diálogo permanente entre os criadores e a indústrias envolvidas nesta missiva cultural “, afirmou Verónica Chequele.

“Esta é uma excelente oportunidade para elevar a cultura moçambicana para além fronteira, promover os nossos fazedores das artes e fomentar o desenvolvimento da economia criativa na cidade capital. Estes mercados têm a capacidade de potencializar a produção, dar visibilidade e fortalecer as indústrias culturais, gerar empregos de qualidade e promover a comercialização de produtos nacionais e serviços no mundo” apontou a Coordenadora-Adjunta da Feira do Livro de Maputo.

O fotógrafo Mariano Silva vai inaugurar, às 18 horas desta terça-feira, a individual designada “Danças Comigo?”, na sala de exposições do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo.

A nova proposta de exposição de Mariano Silva, conforme avança a nota de imprensa do Franco-Moçambicano, reúne uma colecção de fotografias capturadas em performances de dança, vistas através da lente única do fotógrafo português, residente em Moçambique desde 2013, portanto, há 10 anos. “Mariano Silva tem uma paixão especial pela dança contemporânea e tem documentado as principais figuras da dança em Moçambique”, lê-se na na mesma nota do imprensa.

Mariano Silva nasceu em Elvas, Portugal, a 5 de Abril de 1976, com uma licenciatura em Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra – Portugal.

A fotografia ocupa a maior parte do seu tempo livre desde 2008, tendo-se tornado um profissional de pleno direito nesta área, já em Moçambique, em 2016.

Como fotógrafo profissional, executa uma infinidade de trabalhos para vários clientes, tendo a fotografia e vídeo empresarial, o trabalho de campo e a cobertura de eventos um stand-out. O seu conjunto de trabalhos já realizados permitiu-lhe adquirir uma vasta experiência profissional em vários sectores da fotografia e do vídeo.

“Danças Comigo?” fica patente no Centro Cultural Franco-Moçambicano até 9 de Dezembro.

 

Em Mahébourg, Maurícias, artistas, promotores de eventos artísticos e activistas africanos e europeus reuniram-se, este sábado, para debater sobre o investimento que deve ser imprescindível quando se fala dos jovens e adolescentes. No fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa”, os intervenientes de Maurícias, Moçambique, Quénia, Madagáscar e Tanzania  apontaram problemas e soluções inerentes ao drama da juventude”.

Há várias décadas, o poeta-mor da literatura moçambicana, José Craveirinha, escreveu  “O homem e a formiga”. Neste poema, o autor critica o facto de Humanidade construir arranha-céus modernos e, mesmo assim, haver pessoas que dormem na rua. No mesmo poema, o autor realça a união das formigas, que não se excluem do formigueiro que constroem em colectivo.

Sem nunca ter lido qualquer livro de Moçambique, no segundo dia do fórum “Nosso futuro: diálogos África-Moçambique”, realizado no anfiteatro de Mahébourg, nas Maurícias, o queniano
Dave Ojay, activista e fundador do NAAM Festival, apresentou uma abordagem temática muito próxima a de Craveirinha. Ao ser questionado sobre o lugar da juventude na realidade social do seu país e do continente africano, Ojay referiu ser inconcebível que, actualmente, se gaste milhões de dólares a construir estádios de futebol em detrimento de estúdios, plataformas ou incubadoras juvenis. Segundo lembrou, a maior densidade populacional em África é jovem. Portanto, “Os jovens são o presente e o futuro das nossas sociedades”. Pelo que, segundo acrescentou, as autoridades nacionais devem dedicar à juventude toda atenção e deixar de a encarar com desconfiança.

Para os artistas e activistas, que debateram durante duas horas sobre o tema “Jovens do Sul global: fazer nossas vozes serem ouvidas”, o bem-estar social passa pela inclusão e por projectos de inserção. Em parte, foi nessa condição que  Withney Sabino interveio no fórum.  A artista multidisciplinar e activista moçambicana, primeiro, fez uma apresentação panorâmica em prol da rapariga, em Moçambique, com a iniciativa Manas, de que é fundadora. Trata-se de um projecto feminista e, fundamentalmente, de desenvolvimento humano.

De seguida, Withney Sabino apontou para uma situação recorrente, quando se fala de iniciativas de desenvolvimento da juventude: a incoerência dos intervenientes. Especificamente, “Um dos problemas do Sul global é que enfrentam o constrangimento do Norte global financiar governos que oprimem a juventude”. Essa mesma juventude, busca financiamentos para a concretização de projectos de desenvolvimento. Nesse contexto, as dificuldades são enormes porque, para muitos líderes, antes vale milhões de dólares no bolso de um corrupto do que na conta de uma instituição juvenil que aplica o que possui em causas sociais.
Dito de outro modo, o tema da corrupção e do desvio de fundos destinados aos projectos dos jovens fez parte do debate. Segundo disseram os artistas, a transparência da gestão dos recursos é indispensável, sob pena de os próprios activistas acabarem corruptos tal como as lideranças políticas que criticam. Ao invés disso, concordaram
Tsimihipa Rindra e Anja Rado, activistas de Madagáscar, a questão do respeito pela situação socioeconómica, cultural e etária dos jovens dos jovens, combinada com a valorização dos seus direitos, deve ser observada.

Sublinhando as percepções do debate, a líder do projeto, a mauriciana Gaëlle Tossé, ainda realçou que é na juventude que o talento e a criatividade se revelam. “Os jovens podem mudar o mundo com inovação e  reciprocidade. Se não forem respeitados os seus direitos e serem coarctadas  as suas virtudes, sonhos e liberdades, podem-se tornar adultos falhados.

O debate “Jovens do Sul global: fazer nossas vozes serem ouvidas” foi preparado pelos artistas e activistas na sexta-feira, em jeito de workshop com inscrições limitadas, de modo que fosse apresentado ao público em geral este sábado. Entre as principais perguntas colocadas à reflexão, constam as seguintes: “O que podemos dizer dos jovens da periferia, dos do Sul ou dos pequenos Estados insulares cuja visibilidade é mínima? Como fazer ouvir a sua voz quando se tem 18, 25 ou 35 anos e se vive nestes territórios? Que impacto essa voz pode ter?”.

O encontro entre artistas, promotores de eventos e activistas africanos e europeus arrancou sexta-feira e termina este domingo à noite. A inicitiva do Instituto Francês de Paris e do Instituto Francês de Maurícias e parceiros  está a realizar-se entre Rose Hill e Mahébourg.


No dia inaugural do fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa, no Instituto Francês de Maurícias, na Cidade de Port Louis, artistas africanos de vários países debateram questões cruciais sobre a aposta na colecção artístico-cultural da região do Ocenao Índico. Nessa e noutras sessões, os artistas defenderam que o sector das artes necessita de mais intercâmbios no continente.

 

O primeiro texto do livro “Poema fértil”, da autoria de Jason Lily, poeta e cantor das Maurícias, diz, na segunda estrofe: “Nas notícias da ilha, e uma casa muito perfeita”.

Nesse exercício literário, o sujeito de enunciação retrata uma espécie de ocorrência que se materializa num lugar ideal, ou seja, a ilha: o equilíbrio entre a terra firme e o oceano.

Como se concordassem com a abordagem de Jason Lily em relação à ilha, vários artistas africanos fizeram do Instituto Francês de Maurice a sua “casa muito perfeita”, esta sexta-feira. Pois, entre diferentes compromissos, escolheram aquele espaço com uma arquitectura original, mais ou menos na linhagem do Franco-Moçambicano, para exprimir as suas ideias e as suas emoções.

Assim, por volta das 10 horas, a organização do fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa” realizou a sessão inaugural, convidando todos os participantes a um dia intenso e com discussões pertinentes para os países africanos e europeus.

Uma das sessões do dia, relacionada à colecção cultural na região do Oceano Índico, contou com a participação de Jason Lily, artista com enormes projectos. Já lançou o seu primeiro livro. Em breve, um álbum discográfico também vai sair. Para o autor, o fórum em que está a participar é realmente importante. E justiça: “Eu sinto-me muito grato por estar aqui porque precisamos de definir a arte africana. Temos de reflectir sobre as nossas mentalidades, os nossos projectos, o nosso futuro e aspectos relacionados às fronteiras”.

Com efeito, conforme ficou claro, quer o debate sobre os aspectos artísticos, quer a partilha de ideias relacionadas à protecção do património oral, imaterial e material, devem ser disseminados para que os artistas e a cultura possam transformar vidas de forma positiva.

Presente no mesmo debate, Soumette Ahmed avançou que, “Para mim, é certo que com os meios de criação e distribuição que temos, ou não, é interessante dar a conhecer a cultura e a arte das nossas ilhas para além das nossas fronteiras. Seria interessante continuarmos nos encontrando e nos conhecendo melhor. Mais intercâmbios nas artes, na cultura e na literatura são necessárias”, defendeu o actor, director e responsável por um centro cultural de Comores, que, inclusive, já esteve em Moçambique.

Na Cidade de Maputo, Soumette Ahmed trabalhou com Lucrécia Paco numa peça teatral e o artista lembra-se da actriz, da encenadora Manuela Soeiro e do Mutumbela Gogo com muita saudade.

Quem também encontra no intercâmbio cultural a força motriz para aproximação das nações africans e europeias é Ndoume Nelson. Na opinião do estudante de doutaramento do Gabão, o debate sobre as vicissitudes do Índico é pertinente “No sentido de que é a nossa história que deve ser contada e perpetuada”. Logo, acrescentou, “O Ocidente deveria rever as suas relações com África”.

No mesmo contexto de interacção, Siti Amina, cantora da Tanzania que faz questão de dizer que é natural de Zanzibar, a ilha onde nasceu Freddy Mercury, avançou que a conexão com os artistas do Índico é necessária uma vez que todos têm desafios comuns. Por exemplo, “O desenvolvimento de uma mentalidade a favor da conservação e partilha do património, acompanhada de divulgação”.

Num contexto em que a mobilidade de pessoas e bens constitui um enorme desafio para os africanos, os artistas presentes e um dos membros da organização do fórum “Nosso futuro”, Zia Gopee, historiador de arte, enalteceram que o objectivo dos encontros é encontrar soluções para à conectividade artistico-cultural permanentes. “A arte faz-se com estes encontros no reforço das nossas relações e das nossas identidades”.

Ainda assim, todos acreditam que há muito trabalho árduo a fazer, para que os artistas se mantenham num caminho comum. “Começamos pequenos, mas vale a pena parceiros de diferentes países trabalharem juntos em debates como estes que encurtam distâncias”, frisou o comediante das Comores, Soumette Ahmed.

No dia inaugural, do Quénia também houve uma contribuição. “Nós, os artistas africanos, precisamos de cada vez mais espaços para interagir. Isso é realmente fundamental para que possamos nos compreender melhor e aceitar o outro”, defendeu o poeta, cantor e guitarrista Teardrops, que vai lançar o seu livro em Dezembro.

Com o fórum “Nosso futuro”, portanto, a organização espera estimular um diálogo sobre a criação de uma colecção Índico-oceânica com artistas que trabalham em diversas disciplinas, visando apoiar a implantação de museus digitais, como o que existe no Instituto Francês das Maurícias. A ideia é explorar as riquezas artísticas da região e, posteriormente, integrá-las numa colecção. Tal evento, espera impulsionar a circulação do conhecimento artístico-cultural.

 

 

 

 

Em 1974, António Santos ofereceu à esposa, Ercília Rodrigues, o restaurante Galo de Ouro. O empreendimento funcionou em Vanderbijlpark, na África do Sul, por vários anos. Nessa altura, Celestino Santos, um dos três filhos do casal, tinha 14 anos de idade e nem sequer poderia imaginar que a sua vida iria afirmar-se na restauração. Quer dizer, mesmo sem se dar conta disso, o então adolescente teve tempo para aprender a observar a técnica da cozinha, de perguntar, de experimentar, de provar, de aprovar, de reprovar e de fazer da mistura dos ingredientes uma forma de amar os outros.

Da mãe, Celestino Santos aprendeu a cozinhar, sobretudo, grelhados de mariscos. Do pai, aprendeu a confeccionar pratos de tacho, como feijoada e guisados. Essa foi a combinação perfeita para aprender a sonhar com a culinária, uma década e meia depois de ter nascido na Beira. É de 1960 e o Chiveve é o seu chão e o lugar de afecto. No entanto, a ambição de trilhar um percurso internacional levou-lhe a explorar outros ares, tendo assentado arraiais na África do Sul.

Na terra dos bicampeões mundiais de rugby, os Springboks, onde este artigo é escrito no restaurante The Diner, Celestino Santos trabalhou durante anos, na Vanderbijlpark. Mas a saudade de casa atraiçou-lhe e Maputo, agora, é o seu doce lar. É a partir da Cidade das Acácias que se projectam os gostos e os sabores da sua culinária, ali bem pertinho do Jardim Dona Berta e da Associação dos Músicos.

A vida de Celestino Santos é dedicada à culinária. Quando conversa sobre comidas, imprime nas palavras alguns temperos e tantas outras coisas que colocam o interlocutor com água na boca. Precisamente por isso, e por reconhecer as suas habilidades com a culinária, a Embaixada da França em Moçambique convidou-lhe a participar no fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa”, na Cidade de Port-Louis, capital das Maurícias.

Naquele país que se encontra a cinco horas de voo de Maputo, com escala pelo meio, Celestino Santos vai participar num painel sobre culinária. O evento, na verdade, vai servir para o chief de cozinha partilhar ideias essencias que concorrem para aproximar pessoas e culturas através da culinária.

Nas Maurícias, Celestino Santos vai participar numa performance de culinária subordinada ao tema “Socialização através da comida: questionando e explorando”. Basicamente, o beirense espera, no regresso ao país onde esteve pela primeira vez em 1987, há 36 anos, o seguinte: “A minha expectativa é debater assuntos que nos ligam, africanos e europeus. Importa pensarmos, por exemplo, na produção de alimentos para as pessoas e no que isso implica em termos de convívio”.

A sessão de Celestino Santos está marcada para esta sexta-feira. No debate, o cozinheiro também vai explicar como o aproveitamento dos espaços pouco explorados, nas escolas ou universidades, podem ser decisivos para o desenvolvimento da agricultura sistematizada e, consequentemente, para estabilidade alimentar.

Apesar dos seus 45 anos de carreira na culinária, Celestino Santos confessa que espera aprender bastante, no fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa”, afinal “Na culinária e na vida aprendemos sempre e de todos”.

Expectante em reviver Port-Louis, essa cidade no meio do Índico, Celestino Santos quer conhecer gente, trocar impressões com os cinco cozinheiros convidados ao debate e, portanto, levar à gastronomia moçambicana outras e inovadoras possibilidades de confeccionar os alimentos. Pois, segundo afirma, Moçambique tem tudo, em termos de produtos alimentares. O que acontece é que as receitas de culinária, geralmente nos restaurantes, são importadas. Ao invés de só importar receitas, o cozinheiro quer compreender novos processos, e dar a conhecer as suas técnicas, de modo que possa agradar o paladar dos que apreciam comer bem. Afinal, “Somos o que comemos”.

”Nosso futuro: diálogos África-Europa”

O fórum “Nosso futuro: diálogos África-Europa” vai realizar-se a partir desta sexta-feira até domingo. A iniciativa é do Instituto Francês de Paris e o Instituto Francês de Maurícias e os seus parceiros locais. Fundamentalmente, trata-te de um debate público-regional. Esta será a quarta vez de uma série de nove fóruns regionais África-Europa, que terão lugar nos próximos anos, no continente africano.

Antes deste fórum, houve outros três da série: Joanesburgo, Yaoundé e Argel. O fórum vai promover as recomendações feitas na sequência da Nova Cimeira África-Europa (Montpellier, 8 de Outubro de 2021).

A secretária-geral-adjunta das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Joyce Msuya, está em Moçambique e quer advogar para que continue o apoio para a  população necessitada em Cabo Delgado e outros que poderão ser afectados pelas calamidades naturais.

As guerras na Ucrânia, no Médio Oriente, no Centro e Norte de África estão a empurrar milhares de pessoas para a dependência de ajuda humanitária. Essa situação pode complicar a vida daqueles que já vinham dependendo dessa ajuda, como é o caso das vítimas do terrorismo, ou mesmo das calamidades naturais no nosso país.

A tanzaniana Joyce Msuya ocupa o cargo de secretária-geral-adjunta das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e está em Moçambique para se inteirar da situação da vulnerabilidade do país para advogar por mais recursos, sobretudo para Cabo Delgado.

“Agora que falamos, há crise em Gaza, no Afeganistão, no Sudão, na RDC… posso dar uma lista longa. Isto significa que há uma grande necessidade humanitária, e estou aqui para advogar por mais recursos para as necessidades humanitárias em Cabo Delgado. Depois de visitar, amanhã [quinta-feira], terei uma melhor ideia, incluindo histórias das comunidades. Assim, poderei levá-las para advogar, fora de Moçambique, por mais recursos”, disse Joyce Msuya.

A responsável aprecia a hospitalidade da província de Nampula que continua a acolher as vítimas do terrorismo, sendo que o maior exemplo é o centro de reassentamento de Corrane. “Porque estou em Nampula, devo expressar profundos agradecimentos ao governador e ao Secretário de Estado pelo humanismo que têm prestado. Acho que é muito importante para o Norte. Por exemplo, Nampula é a província mais populosa de Moçambique, e há crise humanitária em Cabo Delgado e noutras partes, devido aos desastres naturais a que temos assistido, como ciclones e também conflitos, mas o bom é a forma como os residentes de Nampula têm recebido e acolhido as pessoas de Cabo Delgado nas suas comunidades, dando-lhes abrigo”, frisou Msuya.

O Programa Mundial de Alimentação é a agência das Nações Unidas que tem prestado grande apoio a Moçambique na assistência alimentar aos deslocados internos devido aos conflitos armados, assim como às vítimas de cheias e seca.

O governador do Banco de Moçambique, Rogério Lucas Zandamela, afirmou, esta quarta-feira, que o acordo extrajudicial em torno das “dívidas ocultas” vai “melhorar indicadores macroeconómicos” e tirar pressão à gestão das reservas internacionais.

“A anulação das dívidas contribui para melhorar a sustentabilidade dos indicadores macroeconómicos, com realce para o perfil da dívida comercial que, consequentemente, exercerá uma menor pressão sobre as Reservas Internacionais”, reconheceu Zandamela, na abertura do 48.º conselho consultivo do banco central, esta quinta-feira, na cidade de Inhambane.

“Além de abrir espaço para a restauração da confiança dos investidores estrangeiros em relação ao país e o reforço da estabilidade do sector bancário nacional”, apontou ainda Zandamela, citado pela agência Lusa.

A Lusa noticiou anteriormente que Moçambique pagou 130 milhões de dólares a instituições financeiras no âmbito do acordo extrajudicial com o Credit Suisse para terminar uma disputa judicial no Tribunal Comercial de Londres sobre o caso das “dívidas ocultas”.
De acordo com documentos apresentados a 20 de Outubro em tribunal, Moçambique pagou valores entre um milhão de dólares e 38,2 milhões de dólares a oito instituições.

Estas instituições incluem o Banco Internacional de Moçambique (BIM), Banco Comercial e de Investimentos (BCI), Moza Banco, United Bank for Africa, Atlantic Forfaitierungs e os fundos de investimento VR Global Partners, Farallon Capital e ICE Canyon.

Tornado público no dia 01 de Outubro, véspera do início do julgamento a decorrer na justiça britânica, o acordo tem como principais subscritores o Governo moçambicano e o grupo UBS, dono do banco Credit Suisse, principal financiador da empresa estatal Proindicus para comprar navios e equipamento de vigilância marítima em 2013.

O chamado Acordo de Transação celebrado entre a República de Moçambique, a empresa estatal Proindicus, o Credit Suisse e outros litigantes foi aprovado por resolução do Conselho de Ministros em 06 de Junho, mas só oficializado no Suplemento do Boletim da República datado de 14 de Setembro.

“O Acordo de Transação tem como objecto a resolução global e definitiva do litígio entre as partes referidas no artigo anterior e a renúncia total e recíproca das suas reivindicações, no litígio, para o caso das partes litigantes, e fora dele, para o caso das partes não litigantes, quanto às responsabilidades no financiamento à Proindicus”, refere a publicação.

Na terça-feira, o advogado que representa a Procuradoria-Geral da República (PGR) moçambicana, Joe Smouha, indicou que o Credit Suisse renunciou a uma dívida pendente de cerca de 450 milhões de dólares (526 milhões de euros), mas que não pagaria qualquer compensação a Moçambique.

Os pagamentos previstos pelo acordo extrajudicial às restantes instituições financeiras que entraram no empréstimo sindicado da Prodindicus ou tinham interesses no negócio variaram em termos de proporção conforme o estatuto de litigantes ou não.
Por exemplo, o BIM participou com 61,2 milhões de dólares, mas recebeu 38 188 800 de dólares, enquanto o UBA contribuiu com 35 milhões de dólares, mas recebeu 21,84 milhões de dólares.

Ambos eram parte em acções interpostas contra Moçambique por falta de pagamento das dívidas e receberam com um desconto de 37,6% ao investimento inicial.

De fora do acordo extrajudicial ficaram o banco VTB, que esteve envolvido no financiamento à Proindicus, e o banco português BCP, que só participou no empréstimo à empresa MAM.

O julgamento em curso é o culminar de quase quatro anos de litígio na justiça britânica, à qual o país africano recorreu alegando corrupção, conspiração para lesar por meios ilícitos e assistência desonesta para anular dívidas e reclamar compensação financeira no valor de milhões de dólares.

Moçambique exige 3,1 mil milhões de dólares por danos, compensação e indemnização ao grupo naval Privinvest e ao proprietário, Iskandar Safa, os quais acusa de pagar subornos a funcionários públicos, incluindo o antigo ministro das Finanças Manuel Chang, que assinou as garantias soberanas sobre os empréstimos.

O processo no Tribunal Comercial de Londres, parte do Tribunal Superior [High Court], está previsto durar até Dezembro.

Por: Chádia Sofia Chicohe

Considerado autor de um dos melhores livros africanos do século XX,Terra sonâmbula, vencedor do Prémio Camões 2013 e um dos nomes mais sonantes da literatura mundial, Mia Couto é autor do texto “A porta”, publicado no livro O país do queixa andar (2003), que reúne um conjunto de crónicas jornalísticas sobre vários temas da sociedade moçambicana.

Em geral, “A porta” é um texto que, a partir de uma narrativa polissémica, representa, através de um porteiro sob comando de “vozes desconhecidas”, factos comuns à sociedade moçambicana, os quais nos conduzem a um horizonte intrigante sobre a postura e as relações socioculturais de Moçambique.

Através da crónica de Mia Couto, somos levados a reflectir sobre Moçambique e sobre a possibilidade de uma “porta” poder descrever a realidade de um povo.

Além do título que desperta a nossa atenção, na estrutura do texto encontramos uma série de diálogos mediados por um narrador que nos intriga com várias eventuais perguntas. Que porta seria essa? Quem pode abri-la? Não obstante estas questões, o texto deixa-se enriquecer pela sua plasticidade lexical, que faz com que o autor e/ou leitor brinque com as palavras e com isso crie determinadas conexões.

Ainda na estrutura do texto, encontramos personagens que, na sua maioria, apresentam o mesmo atributo “moçambicano”, mas com núcleos diferentes. Por exemplo, “Indiano moçambicano”; “mulato moçambicano”; “moçambicano branco”; “negro moçambicano”.

Duas das personagens apresentadas pelo narrador chamam a nossa atenção pelas suas particularidades: “um estrangeiro mandando a inglês” e um “porteiro” que não se deixa caracterizar. Mas quem seria esse porteiro?

Ao longo do texto, também nos é apresentado um conjunto de elementos que colocam à tona algumas questões, tais como: O que significa ser moçambicano? E o que significa uma porta abrir-se de Moçambique para Moçambique?

Na escrita de Mia Couto, em “A porta”, somos assaltados por um conjunto de temas expressos durante as intervenções das personagens. Mas um tema, em particular, atrai a nossa especial atenção, a construção da imagem de Moçambique através de um porteiro. Vejamos, a título de exemplo, as seguintes passagens:

(1) Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:- Não abras, essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. (2) Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:
– Não deixa entrar, esses não são a maioria.
(3) Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
– Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências…
(4) Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
(5) Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

A partir das passagens (1), (2), (3) e (4), poderíamos formular o seguinte: que a porta representa uma entidade e o porteiro a consciência dessa entidade, que também é guiada por outra consciência: “as vozes”. Porém, na última passagem (5), percebemos uma atitude alienante do porteiro e a ênfase na imagem do “estrangeiro, mandando a inglês”, como superior.

Não obstante, verifica-se no texto, quando a porta é comprada pelo estrangeiro, o silenciar das vozes que outrora gritavam ao porteiro. Portanto, observamos aqui a submissão do porteiro a um ideal e, eventualmente, a um regime.

Concluindo, “A porta” é um bom exercício de cidadania, que nos leva a questionar o seguinte: Será que somos independentes, se considerarmos que o materialismo estrangeiro define o nosso destino, como povo? Até quando precisaremos de estar submetidos a um regime opressor e que coloca fronteiras entre nós? Comparando os cenários da crónica de Mia Couto com a actualidade moçambicana, será que o porteiro representa a imagem do nosso país?

 

Bibliografia
– Couto, Mia (2003). O país do queixa andar. Maputo: Editorial Ndjira.

*Texto escrito como actividade da oficina A escrita e a crítica literária e jornalística, orientada pelo ensaísta e jornalista José dos Remédios, no Centro de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Universidade Eduardo Mondlane.

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