O País – A verdade como notícia

Numa altura em que o escritor Ungulani Ba Ka Khosa completa 60 anos de idade e 30 de careira literária, o que lhe valeu duas homenagens, uma pela SOICO e outra pela Universidade Pedagógica (UP), a professora e ensaísta Fátima Mendonça, da Universidade Eduardo Mondlane, residente em Portugal, publica, em exclusivo neste órgão, um texto inédito sobre o autor. A seguir, o estudo completo.  

Fátima Mendonça
Universidade Eduardo Mondlane
CLEPUL-Universidade de Lisboa

Nasci às 0.45 do dia 1 de Agosto de 1957 em Inhaminga, Sofala. O resto não interessa, pois segundo Roland Barthes.´´só há biografia enquanto a vida é improdutiva´´.Desde que produzo, desde que escrevo, é o próprio texto que se apropria (felizmente) do meu tempo narrativo´´Ungulani ba ka Khosa in Orgia dos Loucos.

Introdução

UNGULANI BA KA KHOSA, nome literário de Francisco Esaú Cossa, pertence à geração de jovens, conhecida como Geração do 8 de Março, que mercê de uma directiva do Presidente Samora Machel, ingressaram a partir de 1977 na Universidade Eduardo Mondlane a fim de aí completarem, de forma faseada, cursos de formação de professores nas várias áreas de ensino. Francisco Esaú Cossa formar-se-ia então na recém-criada Faculdade de Educação em 1978 e 1980 como professor de História e Geografia, tendo sido colocado na província do Niassa. De regresso a Maputo em 1982 ingressou no Ministério da Cultura. Posteriormente exerceu o cargo de director adjunto do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual de Moçambique, sendo actualmente director do Instituto Nacional do Livro e do Disco. Em 2003 Ungulani ba ka Khosa foi homenageado pela CPLP- Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e recebeu o Prémio José Craveirinha, em 2007.

O seu nome tsonga, Ungulani ba ka Khosa, seria o que viria a adoptar ao publicar Ualalapi, em 1987, dando sequência à publicação em 1982, no Diário de Moçambique na Beira, de um conto intitulado Dirce minha deusa nossa deusa .

Em 1988 Ualalapi o recebeu o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa e, em 1991, o Prémio nacional de ficção narrativa, instituido pela AEMO, em ex-aequo com Vozes Anoitecidas de Mia Couto. Consta da lista dos cem melhores livros africanos do século XX conjuntamente com Nós matámos o cão tinhoso de Luis Bernardo Honwana e Terra sonâmbula de Mia Couto.

Para além da sua actividade como ficcionista, Ungulani ba ka Khosa tem participado activamente em debates na Imprensa escrita, com a publicação regular de crónicas em vários jornais. O estilo provocatório e irreverente com que enfrenta os variados problemas que aborda tornaram-no uma referência nacional e consagraram a sua popularidade, com destaque para as camadas jovens urbanas, o que é visível na afluência aos lançamentos dos seus livros.

Outro aspecto que marca a trajectória de Ungulani ba ka Khosa é o seu carácter interventivo no seio da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Criada em 1982, com vocação para promover o contacto entre escritores, a AEMO despoletou uma nova dinâmica na vida literária do país, a par do activismo das páginas literárias e a criação de prémios e concursos literário, de que resultou o surgimento de uma nova geração de escritores. Desta, salientou-se imediatamente Ungulani ba ka Khosa que, em 1984, foi co-fundador da revista Charrua, com Eduardo White, Helder Muteia, Juvenal Bucuane e Pedro Chissano, a que se juntaram Tomás Vimaró e o artista plástico Ídasse Tembe, com apoio do então secretário-geral Rui Nogar e patrocínio oficial da AEMO. Embora tivessem surgido outras iniciativas do mesmo tipo, nomeadamente Forja da Brigada Literária João Dias e ECO, foi a energia dos activistas de Charrua que se sobrepôs até à própria dinâmica da AEMO. A partir dos anos 90, a geração de escritores, que tinha dado corpo à revista Charrua tomou conta dos destinos da AEMO, com a eleição de Pedro Chissano para Secretário-Geral, situação que prevaleceu até 2007, com Armando Artur e Juvenal Bucuane. A partir de 2007 a composição da direcção da AEMO mudou substancialmente com a entrada de Jorge de Oliveira (Jurista e coordenador nos anos 90 da Gazeta de Artes e Letras da Tempo) como Secretário Geral e a inclusão de novos elementos oriundos dos grupos surgidos nos finais dos anos 90.

Noutro lugar tive a oportunidade de equacionar a possibilidade de o percurso de alguns dos elementos de Charrua, entretanto guindados a funções de Estado, poder vir a exercer influência quer na dinâmica editorial quer na promoção da literatura moçambicana. Justificava-o as nomeações recentes do poeta Armando Artur para Ministro da Cultura, de Ungulani ba ka Khosa para Director do Instituto Nacional do Livro e do Disco e Marcelo Panguane para editor da revista Proler do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa. Tudo parecia indicar que a energia e o papel dos charrueiros não se esgotara com a sua intervenção na AEMO.

Mas o regresso recente à AEMO de Ungulani ba ka Khosa (eleito como Secretário-Geral em Março de 2013) e de alguns dos seus companheiros de estrada revela a surpreendente ligação afectiva a esse espaço simbólico que une esta geração notável de escritores.

1. O surgimento no início da década de 80 de Ungulani ba ka Khosa e Izaac Zita (este precocemente desaparecido em 1983 aos 22 anos e publicado em livro póstumo, (Os Molwenes, 1988), com percursos semelhantes (ambos frequentaram os Cursos de Formação de Professores, tendo começado a leccionar muito jovens no Norte de Moçambique, ambos fizeram a sua aparição como ficionistas na Imprensa) fazia antever para a ficção narrativa moçambicana um espaço idêntico ao que a poesia já ocupava. De facto ambos se mostravam possuidores de uma notável capacidade de narrar utilizando estratégias discursivas assentes na ironia que, embora com efeitos diferentes, ia ao encontro da rebeldia da sua geração. Em paralelo, Mia Couto, já conhecido como poeta e diferente percurso de vida, viria com Vozes Anoitecidas em 1986 completar a tríade em que assentariam as tendências da nova narrativa moçambicana, que a passaram a colocar em pé de igualdade com a poesia até então dominante.

Ualalapi, publicado em 1987 constituiu um fenómeno de recepção em Moçambique (à semelhança do que aconteceu com Nós matámos o cão tinhoso de Luis Bernardo Honwana), que o impuseram como texto canónico da narrativa moçambicana.

A narrativa, subdivide-se em seis narrativas curtas que, embora se estruturem como independentes, conduzem a uma leitura global justificada pelo facto de se desenvolver a partir de episódios históricos relacionados com a ascenção e queda de N´Gungunhane, imperador de Gaza, derrotado por Mouzinho de Albuquerque e posteriormente exilado nos Açores, onde faleceu. Os numerosos estudos dedicados a esta obra têm destacado o seu caracter anti-épico e questionador da História. Ana Mafalda Leite formula esta questão argumentando tratar-se da desmitificação da história de N´gungunhane, fornecida quer pela corrente colonial, quer pela revolucionária pós- independência, o que ´´convida a reflectir pela validade de uma e outra, das fontes escritas e orais, e daquelas que o narrador convoca no seu próprio discurso.´´(Leite, 1998:87-88). Outro aspecto que os estudos sobre Ualalapi destacam é a sua relação com o modelo da narativa fantástica latino-americana. Gilberto Matusse (Afolaby, 2010: 99-103) debruça-se sobre esta questão defendendo que essa aproximação pode ser interpretada como uma ruptura relativamente a um cânone europeu já que essa é a característica ¬ universalmete aceite ¬ das literaturas latino-americanas. Assim sendo, haveria em Ualalapi a busca de um modelo capaz de reflectir uma identidade moçambicana diferente da europeia, i.e., diferente da portuguesa. Matusse também sugere que a adopção do modelo latino-americano (já consagrado) legitima a utilização da técnica literária de incorporação da imaginação mitologica e simbólica das sociedades africanas tradicionais. Outra leitura possível, que constitui ainda hoje matéria de sedução, é a possibilidade que a carga disfórica do final do texto consente (através da profecia de N´gungunhane) de revisitar a história de Moçambique até 1986 (regresso dos restos mortais de Ngungunhane como herói a Moçambique e morte de Samora Machel) com todos os paralelismos possíveis deixados em aberto.

2. O caracter de novidade de Ualalapi, criou alguma expectativa relativamente a Orgia dos Loucos colectânea de 9 narrativas publicada em 1990, de que destaco A solidão do senhor Matias. As duas epígrafes que antecedem as narrativas, a felicidade é frágil e quando não a destroem os homens ou as circunstâncias, ameaçam-nas os fantasmas (Marguerite Yourcenar) e no meu país/a única forma de liberdade permitida/ é a loucura (Jorge Viegas) faziam prever a continuidade da tonalidade disfórica anunciada em Ualalapi. Do mesmo modo a dedicatória autoral A todos nós vítimas da nossa condição, colocava a leitura numa temporalidade vivida, e expressa com o mesmo tipo de ambiguidade presente em Ualalapi. Como pretende Fernanda Afonso, na esteira de Jean Marc Moura, estas mensagens paratextuais, visíveis em outros textos moçambicanos, visam não só conciliação de universos simbólicos diferentes (Afonso, 2004:304) como manifestam o propósito de reclamarar alteridade, inaugurando uma modalidade de narração.

Em suma, uma das particularidades, que nós constatamos em todas as antologias de contos é a enunciação de um vasto discurso paratextual a lembrar insistentemente a presença do autor: desvela as suas intenções, os seus modelos literários, enuncia asua estética, reindivica uma prática literária militante. No conjunto os textos preliminares são como linhas simétricas que permitem à obra elaborar-se polifonicamente segundo uma estrutura eficaz, que a torna espelho do contexto histórico (Afonso, 2004:307).

As personagens que circulam .nas diferentes narrativas incluidas em Orgia dos Loucos , sejam rurais ou urbanas, evoluem sempre em percursos descendentes que, articulados com os vários índices disseminados, encaminham o acto de ler para a identificação com experiências vividas, portanto históricas. No entanto as variadas modalidades discursivas utilizadas, frase curta sincopada em alguns casos, enumerações caóticas noutros, ou diálogos construidos sobre fórmulas sentenciosas traduzidas de línguas bantas moçambicanas, incorporam nos textos significações instáveis. O próprio autor reconhece serem, estas práticas diversificadas, oriundas de uma necessidade de encontrar um estilo próprio, não se furtando a revelar em entrevistas os seus modelos de escrita e identificação com autores como Ernest Hemingway, William Faulkner, Borges ou Gabriel Garcia Marquez. (Laban, 1998:1065) Chabal, 1994:311).

Influências literárias? Numa primeira fase, para os primeiros textos o autor que comecei a ler foi o Hemingway, para o conto, para a estrutura do conto. Mas depois abandonei, porque nos últimos contos eu comecei a sentir a nacessidade de me inserir na nossa identidade cultural. Tentei pegar mais no conto fantástico. Descer à nossa maneira de pensar, pegar nisso, mas experimentar um pouco a experiência latino-americana, porque acho que os latino-americanos têm uma certa técnica que me parece possível integrar na nossa mentalidade. Os latino-americanos pegam também na oralidade, e dão-lhe uma estrutura técnica mais dinâmica. Autores como o Garcia Marquez, textos dispersos do Borges. (Chabal:311).

3. Com A Solidão do senhor Matias, Ungulani ba ka Khosa aflora um espaço temático que volta a explorar no romance Choriro (2011) e que aparentemente sempre o interessou isto é, os fenómenos aculturativos em dois sentidos: tanto o da assimilação do africano ao europeu como deste ao africano. Em entrevista a Michel Laban (Laban, 1998:1066) refere, a propósito das primeiras ideias que lhe surgiram para escrever uma novela:
Primeiro fui descobrir que em 1860-70, no Reino do Barué, apareceu um primeiro ministro americano, branco que se aculturou ¬ vestia aquelas tangas todas ¬ e o rei era um assimilado que se vestia à branco ¬ com chapéu e bengala ¬ (…) Li isso no livro do Isaacman. (…) era interessante estudar este fenómeno da cultura que não tem nada a ver com a cor, porque há esta possibilidade e esta permissividade de a pessoa poder assimilar este aspecto.

Partindo deste foco temático A solidão do senhor Matias estrutura-se sobre o percurso do protagonista Matias, decréptico colono português, na interacção com uma memória histórica que convoca cronologicamente sucessivos marcos da História de Moçambique: colonização, independência, guerra civil.

A divisão do texto em partes numeradas de I a IV contribui para que a leitura se processe de forma a que se recuperem uma macronarrativa (História) onde se encaixam duas micronarrativas alternadas:protagonizadas por Matias, ora com a mulher morta (sob a forma de analapeses), ora com o empregado João. Este, ao acompanhar Matias na sua deambulação pela propriedade abandonada, actua na diegese como testemunha quasi silenciosa da decadência do mundo despedaçado do patrão, do qual restam apenas farrapos que a sua memória recupera e inscreve na história pessoal de Matias:
(…) branco que herdara as propriedades do pai ainda novo e que tinha como diversão predilecta a mania de tirar a virgindade das moças das aldeias em troca do sal amontoado num armazém onde as fornicava de pé e deitado, e onde uma delas teve o primeiro mulato das redondezas que resolveu emigrar, anos depois, para a distante cidade (…)

Enquanto o percurso individual de Matias é construido com longas descrições e recurso a analepses fornecidas pela memória de João, os acontecimentos históricos insinuam-se por meio de índices disseminados ao longo da narrativa. A tensão que se produz entre estes dois níveis da narração faz emergir a categoria Tempo como elemento estruturante da narrativa, funcionando não apenas como um marcador da memória colectiva ou individual mas, e não menos relevante, como um operador das transformações por que passa a personagem Matias em contraste com a estática indiferença atingida por João o subalterno-testemunha. Tempo que se apresenta em camadas sobrepostas, impregnando a narrativa de fragmentos de memória por meio de um narração distanciada e configurada em modo dramático. Parece-me por isso justificada uma leitura que incida sobre a forma como esse Tempo se articula com as personagens e o espaço físico onde decorre a acção.

O Tempo da colonização sintetizado na parte I através de índices como galeras  remotas e tempo da pacificação formula uma espécie de tese cuja ambíguidade impede uma leitura linear. A referência aos espíritos petrificados dos brancos, da desordem e da mentira, incapazes de susterem o avanço dos deuses africanos pode de facto ser lida retroactivmente tanto como figura metafórica (metáfora da independência) como sinédoque de um fenómeno geral aculturativo representado pela personagem Matias tal como é descrito na sua relação com o universo dos curandeiros (das palhotas das serpentes mortas e vivas)e que determinará o seu destino, profetizado na parte II por sua mulher africana, agora morta:
Não tens salvação Matias és preto e por mais que escarres, por mais que insultes estes pretos, não voltarás nunca à tua terra com a riqueza aqui tirada, porque há muito que foi dito que morrerás nestas terras. E a tua sepultura estará ao lado dum preto.(…).

A história de Matias, pela inserção de elementos que suscitam analogias, possibilita em simultâneo a representação do Tempo da colonização como um universo extinto pela voragem de um novo Tempo, o da troca de bandeiras. Desse Tempo anterior permanece como um rasto um velho colono consumindo todo o vinho que resta na casa deserta e que o vomita ao ritmo do único disco de fado (de Amália Rodrigues) existente, clichês simbólicos que (de)compõem a sua diluida identidade.

Contrariamente a Matias, João não tem história própria. A sua identidade é forjada pela função de testemunha que desempenha na diegese e por uma subalternidade difusa que o leva a acompanhar o patrão, pela propriedade devastada, obedecendo de forma mecânica a ordens que se repetem, num silêncio que quase lhe retira humanidade. Estas características colocam João quer no interior da focalização, como duplo do narrador, quer como destinador das acções de Matias, observando-as sem perplexidade, sem interrogações, sem dó.
O novo Tempo (o da independência) que sucede ao extinto Tempo da colonização, é vivido de forma indiferente quer por Matias o patrão, quer por João o empregado, nivelados, não por quaisquer transformações sociais motivadas pela violência que levou à destruição da propriedade, mas pela inércia e solidão que compartilham.
(…) trabalhadores eufóricos que arrancavam o milho a florescer, a mandioca a brotar e o amendoim a rebentar. E como se isso não bastasse, sabotavam as máquinas que davam pelo nome de tractores sob o olhar impassível do patrão que deixava os pretos, que outrora se arrojavam a seus pés, bradarem pelo kululeko, nome que a independência leva, e estragarem tudo excepto as casas, o armazém, a loja e o restaurante porque os que se aproximaram do cimento com os machados e as tochas e a fúria assassina tiveram uma morte instantânea e inexplicável aos olhos do vulgo, afora os curandeiros (…)
Como personagens fora da moldura deste quadro, Matias e João fundem-se no espaço de desolação dominado por uma natureza anárquica onde animais repelentes e plantas desordenadas substituem a antiga ordem, de que sobra, como relíquia arqueológica o  fantasmagórico e simbólico cimento, impenetrável mas inútil, das casas. A simbologia do cimento como refúgio dos espíritos dos brancos, enquadrada num campo de racionalidade assumida pelo narrador e integrada no imaginário em que as personagens estão mergulhadas, reforça o questionamento identitário subjacente a todo otexto.

Imersa num cenário apocalíptico A solidão do senhor Matias clarifica a sugestão lançada pela citação de Marguerite Yourcenar numa das epígrafes. a felicidade é frágil e quando não a destroem os homens ou as circunstâncias, ameaçam-nas os fantasmas Contida nesta citação ficam as possibilidades alegóricas permitidas por possíveis analogias entre os termos da alegoria. Felicidade-destruição-circunstâncias e fantasmas (re)aparecem pois reconstituidos, na trama narrativa, legitimando o carácter disfórico do percurso das personagens.

As profecias da mulher, incluindo a da sua própria morte, (no dia em que os pretos como eu entrarem por estas terras com as armas em riste) e a de Matias, (recuperadas pela memória deste), fazem inflectir a narrativa para outro dos campos privilegiados por Ungulani ba ka Khosa, em que o sagrado funciona como elemento ordenador das acções das personagens. Submetidas ao poder da profecia e destituidas de autonomia, estas cumprem em geral um destino que as aniquila, o que acontecerá a Matias, no final, cavando a sua própria sepultura, numa regressão animalesca, uivando prolongadamente.

Se a memória convoca o Tempo histórico – a destruição da propriedade convoca a  independência e a morte violenta da mulher, a guerra que se lhe seguiu  , o fim de Matias acumula em si os sinais de um destino individual, não histórico, dependente de desígnios proféticos. Esta particularidade aliada ao papel reservado a João – o de testemunha distanciada, com função de coro    impede uma grelha realista da leitura, remetendo texto para um nível de oscilação em que a História é interpelada.

Vários séculos de reflexão sobre o potencial retórico da palavra remetem-nos, hoje, para posicionamentos que privilegiam o acto de leitura como meio para completar, ou mesmo materializar, essas intenções textuais que comumente designamos por significações, sendo o seu resultado múltiplo e variado, visto que dependem em grande medida do lugar em que nos colocamos enquanto agentes, mas também sujeitos dessa leitura.

Se retormarmos a dedicatória expressa em Orgia dos Loucos, A todos nós vítimas da nossa condição, seremos inevitavelmente encaminhados para a instabilidade das significações que podem emergir de A solidão do senhor Matias. Mantido nesse nível de imponderabilidade, o texto atrai-nos, enquanto leitores, para o Tempo da História, numa referencialidade que o integra num Espaço e Tempo concretos – Moçambique antes e depois da independência e da guerra que se lhe seguiu durante 16 anos.

Contudo em simultâneo as possibilidades dessa referencialidade diluem-se pela imposição de um campo dominado por critérios só admitidos pela imaginação artística. A escolha de anti-heróis para corporizar esta narrativa, caracterizados por um alheamento da sua condição, acaba por perturbar as possíveis afinidades com realidades empíricas. Mantidas sob a vigilância de processos estilísticos que as configuram fora de um quadro de verosimilhança, as bizarras personagens de Matias e João parecem querer justificar a segunda epígrafe no meu país/a única forma de liberdade permitida/ é a loucura extraida de um poema de Jorge Viegas, poeta moçambicano contemporâneo de Ungulani ba Khosa. Como uma espiral, a rede de significações produzida pelas conexões entre epígrafes, dedicatória e narrativa, instiga a uma infinidade de diálogos não necessariamente coincidentes mas certamente inspiradores.

Bibliografia
Afolabi, Niyi (Ed.) ¬ Emerging perspectives on Ungulani ba ka Khosa. Trenton NJ: Africa World Press. Inc., 2010.
Afonso, Maria Fernanda ¬ O conto moçambicano – escritas pós-coloniais. Lisboa: Caminho, 2004.
Chabal, Patrick¬ Vozes moçambicanas. Literatura e nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994.
Laban, Michel ¬ Moçambique encontro com escritores Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998.
Leite, Ana Mafalda ¬ ´´Oralidade, escrita, história¬Ungulani ba ka Khosa´´. In Oralidades & escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Colibri, 1998.p.81-96.
Matusse, Gilberto ¬ A construção da imagem de moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 1998.
Noa, Francisco ¬ ´´A dimensão escatológica da ficção moçambicana: Ungulani ba ka Khosa e Mia Couto´´. In A escrita infinita: Maputo, 1998.
Saúte, Nelson ¬ Os habitantes da memória. Praia: Embaixada de Portugal/CCP, 1998

 

São 60 anos de uma vida de sorrisos e de reboliços. 30 anos de uma carreira e, como resultado, oito livros na prateleira. A Universidade Pedagógica (UP), considerando os feitos de Ungulani Ba Ka Khosa no país e na diáspora, tornou o dia do autor de “Ualalapi” um viveiro de emoções.
A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) parecia ter-se mudado para a Biblioteca Central da UP. Não só os amigos escritores de infinitas tertúlias se encontravam na sala, outros amigos: familiares e demais personalidades foram testemunhar mais uma homenagem ao escritor.
Foi um evento marcado por discursos entre académicos, literários e, por que não, filosóficos; mas também por momentos culturais, com destaque para a música e humor. 
No final do evento, apenas aos microfones do “O País” Ba Ka Khosa exortou aos seus leitores e aos demais para serem coerentes com eles próprios: “a coerência acima de tudo é que deve nortear a nossa conduta e o nosso dia-a-dia”. Mais nada. Só que antes, enquanto agradecia pela homenagem – esta que iniciou em Niassa, sua segunda das demais terras – prometeu voltar a cutucar “Ngungunhana”, este que preenche as últimas obras de Mia Couto em trilogia. Desta vez, Ba Ka Khosa fala sobre as mulheres do Rei de Gaza. O autor encarna essas mulheres e conta o drama que elas passaram saídos de Lisboa a São Tomé. “Quatro delas regressaram a Moçambique em 1911 e passaram despercebidas no país. Achei por bem prestar um grande tributo às mulheres do imperador que estará provavelmente, em Fevereiro ou Março, à disposição dos leitores”, prometeu.
Como forma de retribuir ao gesto da UP, Ungulani diz que sem dúvida o livro será lançado naquele espaço, garantindo assim que a classe académica seja a primeira a ser atingida com esta trama que foi completamente ignorada pela história moçambicana.
Sobre o livro, o autor não deu mais detalhes, prometendo que em momento oportuno irá se pronunciar. Ao “O País” prometeu exclusividade. Menos mal, e desde já aguardamos.
O evento foi bastante rico, entre risos e aplausos foi decorrendo à festa. Não foi uma cerimónia formal, mas não deixou de respeitar o espaço académico. Foi presenciado pela vice-ministra da Cultura e Turismo, Ana Comoana, e pelo reitor da UP, Jorge Ferrão, (ainda que este não estivesse ali fisicamente). 
Para o grande amigo de Chico, tal como é tratado informalmente, Ungulani tem um valor universal, mas “eu sinto que existe um défice de informação sobre Ungulani nas escolas, até nos estudantes do Ensino Superior, porque também é uma pessoa retraída e por querer esconder-se dele próprio e do resto país, fez com que ele adoptasse um nome que se torna difícil encontrar e o reencontrar”.
Como acontece em todas as festas, a família juntou-se ao centro da sala para cortar o bolo. Ainda que a sua voz as vezes lhes pregue partidas, o seu ar (mostrando ser mais eficiente) apagou as velas do bolo e acendeu os cânticos e aplausos.
Assim foi a passagem do sexagésimo aniversário de Ungulani; o pai, irmão e avô Francisco ou melhor o Chico.
 

O L’Atelier, uma das mais prestigiadas competições artísticas de África e entrou este ano na sua 32.ª edição. Esta competição anual tem como principal objectivo estimular jovens talentos nas artes visuais, servindo como uma plataforma para que os jovens artistas emergentes se afirmem na arena da arte africana e mundial. Ao longo dos anos, esta competição tem sido um instrumento fundamental no lançamento de muitas carreiras no campo das artes visuais. Este ano, a estratégia passou por abranger ainda mais países no continente africano. 
Nesse âmbito, nesta edição, o L’Atelier abriu as suas portas aos jovens artistas de países como o Gana, Quénia, a Zâmbia, Uganda, as Maurícias, as Seychelles, a Tanzânia, o Botswana, a África do Sul e Moçambique onde, pela primeira vez, esta competição procura distinguir, também, artistas a residir em Moçambique, contando com o apoio do Barclays Moçambique e da Fundação Fernando Leite Couto.
O concurso teve início a 20 de Fevereiro de 2017 e decorreu até 24 de Abril de 2017. As inscrições para esta competição, foram realizadas online, através do portal da instituição. Em Moçambique, dos 8 artistas que se apresentaram a concurso com um total de 19 obras, foram seleccionadas 5 obras, dos quais 3 artistas foram eleitos para a final, tendo a avaliação sido efectuada por um júri composto por profissionais experientes nesta área, garantindo assim uma avaliação isenta dos trabalhos a concurso. Moçambique será então representada pelas obras de Mauro Vombe, Titos Pelembe e Luís Santos.
De acordo com Luís Santos, artista plástico ” é uma oportunidade espectacular participar num concurso com tanto prestígio, visibilidade e consideração para com os seus participantes. Dá-nos uma perspectiva muito boa do que é o mundo da arte, para além das nossas fronteiras”.
A noite de premiação irá realizar-se no próximo dia 13 de Setembro de 2017, em Joanesburgo, África do Sul, na Galeria ABSA. Todos os trabalhos serão devolvidos às suas origens, em Novembro de 2017, e, no caso de Moçambique, haverá uma exposição das obras no final de 2017, na Fundação FLC.
Refira-se que esta competição tem sido extremamente bem-sucedida ao longo dos anos, com grande destaque no calendário artístico e cultural. A competição tem sido fundamental na projecção das carreiras de jovens artistas que passaram a ser procurados nacional e internacionalmente. O foco da organização não é apenas anunciar o vencedor e enviá-los de volta, há todo um trabalho durante e depois do concurso, monitorando as carreiras dos artistas e dando-lhes assistência e orientação sempre que possível, para uma melhor inclusão no mundo global das artes.
 

Ungulani Ba Ka Khosa teve um presente de natal fora de órbitra, em Dezembro de 1998. Numa altura difícil da sua vida, oescritor conheceu Salomé de Sousa Pinto. Num ápice, amor a primeira vista. Graças a Salomé, o escritor reencontrou-se e continuou a sorrir para a vida. Salomé é o pilar do lar de Ungulani. Com o suporte da mulher, o escritor continua a desempenhar o papel de bom pai, marido e avô que é. 
Na Salomé, Chico tem, não apenas uma esposa, mas uma musa, amiga e cúmplice de todas as coisas. Nela, as leitoras de Ungulani têm uma razão para serem invejosas, não fosse Salomé a primeira leitora, revisora e crítica dos livros do escritor. Por isso, não poderia deixar de ter um livro de eleição: “Entre memórias silenciadas”, que bem recupera a narrativa de “Fragmentos de um diário”, de “Orgia dos loucos”, o livro que mais marca Khosa. 
A esposa de Ungulani vive os livros antes de serem escritos e tem a responsabilidade de gerar o ambiente para que existam. Assim foi, por exemplo, com “Os sobreviventes da noite”, escrito quando o casal encontrava-se num retiro, na Moamba. Mas esse não é a única circunstância em que o maridão de Salomé cria: “o Chico escreve em qualquer ambiente. “É incrível! Para ele não importa se há barulho, multidão ou silêncio. Escreve à vontade”, admira a esposa, lembrando que, nos tempos em que ela cursava Direito, juntos acordavam à madrugada para cada um exercer a sua actividade. Ela cedia à falta de concentração. Então, ao invés de estudar, ficava ali, olhando o marido escrever afincadamente. Falando apenas quando oportuno, apenas para responder a alguma pergunta que permitisse a tinta da pena do autor deslizar. 
Como marido, Ungulani é um sujeito tranquilo, atencioso, carinhoso. Salomé não se lembra de, em nenhum momento, terem-se aborrecido com seriedade. Estão juntos há 19 anos e, de mãos dadas, vão cumprindo os deveres paternais e de avôs com a dedicação de sempre.
Olhando para trás, Salomé não hesita, assume que valeu a pena ter-se deixado conquistar porque Ungulani é um homem maravilhoso. Então, um desejo: “continues sendo esse maridão, amigão, que eu amo-te muito e tu sabes bem disso”. E como sabe, por isso o escritor é adolescente quando o assunto é o seu amor. Aos 60 anos, Chico passeia com a esposa por tudo quanto é lado. Salomé é a asa de um escritor livre, desinibido, corajoso, determinado, mas frágil nos assuntos que dizem respeito ao coração. 
Mas porque a vida não é apenas feita de momentos felizes, nove anos depois de se juntarem, Salomé sentiu o medo e a angústia a abraçar-lhe intensamente. O seu Chico, forte como um touro, foi diagnosticado um cancro. O assunto era grave. As lágrimas teimavam em jorrar a catadupas. De urgência, Salomé e o cunhado Elias, irmão mais velho de Ungulani, levaram o escritor a África do Sul, onde deveria ser operado. Antes disso, o médico foi claro: “vamos operar, mas há 70% dele perder a língua e 30% de a operação dar certo. Na verdade a operação não foi necessária, ficou-se pelos tratamentos fortes de quimioterapia e radioterapia. Esse foi o único momento da vida que Ungulani quase desistiu. Mas um Khosa é teimoso. Voltou a erguer-se, graças a Deus e ao sucesso dos tratamentos. Mas havia uma contrapartida: o escritor já não devia consumir álcool nem tabaco como se tivesse 30 anos. Nada de terrível, afinal, ainda podia dizer que te amo, Salomé. 
 

“Não há investimento cultural para páginas literárias neste país, como não há, no próprio texto jornalístico que nós lemos nos jornais, o mínimo de eficácia comunicacional, de referencialidade à língua portuguesa (se é escrita em português) que seja perceptível de alguma maneira”. Estes foram os pronunciamentos de Luís Carlos Patraquim à volta do tema “Jornalismo, engrenagem literária” num debate havido sexta-feira na Fundação Fernando Leite Couto.
Patraquim é uma voz autorizada quando o assunto é jornalismo e artes no país, até porque foi por isso que o autor da recente obra “Deus Restante” foi convidado como orador dessa palestra testemunhada maioritariamente por jovens escritores e jornalistas. Ou seja, público certo.
Patraquim não se deu o trabalho de procurar palavras mais suaves para exteriorizar o seu pensamento sobre aquilo que é o jornalismo cultural praticado actualmente: “Não temos uma página cultural em Moçambique a sério, ninguém liga a isso”, reclamou.
No segundo momento, Patraquim disse haver “falha de qualidade muito grande, muito sinceramente”, reiterou. No pensamento do pseudo-jornalista esse problema deve-se a educação defeituosa conjugada com outros assuntos. Para o orador é um “grande equívoco pensar que o erro é uma derivação nacionalista do moçambicanismo que não está lá. Por que não está lá? Porque essas coisas não se inventam, vão acontecendo num processo sociológico, político, cultural, de aprendizagem”.
Precisamente, Patraquim critica o facto de as páginas dos jornais esquivarem-se por completo dos assuntos culturais: “Não há nenhuma análise crítica de absolutamente nada”, rematou. Concorda apenas que há pequenas notícias, regra-geral, repetindo comunicados de imprensa de algumas entidades.
Como que a identificar o problema de facto, num tom certeiro, o palestrante disse que peca-se quando se transforma a oralidade para a escrita. Neste quesito há questões de gramática e de técnicas que os jornalistas desrespeitam por incompetência. “Estamos numa sociedade de pequeno espectáculo e de muita ignorância a este nível”, despejou.
Em Moçambique vive-se com medo
Não é só de jornalismo cultural que Patraquim dissertou na sessão de aproximadamente duas horas, que contou com a moderação do jornalista José dos Remédios. O jornalismo investigativo também foi chamado à mesa, mas a crítica não mudou. Aliás, para o orador nem se quer existe o jornalismo de investigação, porque quem o fazia foi assassinado 
“Neste momento, há medo. Em Moçambique vivemos com medo, acabou o jornalismo de investigação”, concluiu. 

Nenhum calendário me diz quando cruzei os caminhos do Chico, porém nossos reencontros servem para estabelecer pontes. Pontes de análises, de concórdia e de discórdia, de comunhão e de construção de futuros.

Eventualmente viemos da mesma família de ventres e locais distanciados, só a vida e o tempo nos uniram. O percurso nunca gerou uma amizade, mas a mão dada que colhe frutos de uma árvore que nunca nasceu.

Existe algo de comum que nos une. O abraço que simboliza o amor pelas crianças, pelos jovens, pelas causas sociais e, sobretudo, o amor por este país, criando a simbiose perfeita entre a cidadania e a solidariedade.

Muito recentemente, trilhámos, juntos, o caminho de volta para cidade de Lichinga, exercendo rituais distintos, ainda assim complementares.

Lichinga recebeu-nos com a mesma emoção. O frio cinzento que, misturado à poeira castanha teimam em ser o cartão-de-visita, o símbolo da hospitalidade. No final, o horizonte nos trazia de volta um exercício semelhante, desafiar as mentes juvenis, regar as esperanças de novos leitores, adubar vontades.

Lichinga sempre foi a terra do Chico. Também minha. Esta cidade que nos fascina e preenche recordações vivas de um período azul, revolucionário, que não desaparece. Lichinga, a melhor cidade do Planeta.

Para este lugar foram transportadas as placentas de quem nasceu distante, porém aqui se desterrou para estimular a moçambicanidade, formar e educar outras gerações.

O Chico chegou como Chico e partiu como Ungulani. Nenhum se fez Alguém e como filho saiu de Niassa e levou as memórias e histórias positivas daquela província e do seu povo que, incansavelmente, lutam para não serem nem os últimos e nem os mais esquecidos nos indicadores sociais e de desenvolvimento.

Juntos partilhamos cumplicidades. Muitas. Estar juntos em Lichinga permitiu-nos viver “Entre as Memórias Silenciadas” e recordar sonhos, amores, patriotismo e, principalmente, voltar a perceber que “o Sonho comanda a vida”, como escreveu um poeta de quem os dois gostamos.

O Ungulani já mereceu diferentes homenagens, desde o reconhecimento da comunidade dos países de língua portuguesa, até o prémio nacional de literatura e ao prestigiado prémio José Craveirinha. Porém, nenhum destes prémios seria tão significante e importante como é o prémio de ter sido adoptado pela província do Niassa e ter esta cidade como a sua cidade natal.

Ungulani Ba Ka Khosa é, também, um cidadão de África, um cidadão do mundo. Ele faz parte dos 100 melhores autores do Continente Africano do Século XX, Ualalapi o consagrou. Fazer parte dos 100 melhores, de um universo de 1 Bilhão, 216 milhões de pessoas, equivale a ter o mundo a seus pés. Niassa ajudou Ungulani a ser homem, pensador, crítico, e acima de tudo humanista. Mas o Ungulani escreveu também outros livros com títulos bonitos, como Orgia dos Loucos, Os Sobreviventes da Noite, Choriro e mais.

O escritor Ungulani tem servido de referência para vários intelectuais, estudantes, professores, operários, camponeses. Por conseguinte, ele se transformou numa referência obrigatória para Moçambique, para África e para o Mundo.

As suas Cartas de Inhaminga revelam, claramente, os 30 anos de carreira e como as diferentes histórias ainda mexem com ele, seu consciente e com todos nós. O autor mostra preocupações, sonhos, vontades, as suas principais referências literárias, a quem chama a sua “família literária”, composta por uma longa lista de nomes de escritores que lhe deram o norte.

Ao percorrer estas cartas, ocorrem-me esses outros nomes da arte da palavra como Luís Bernardo Honwana, Eduardo White, Paulina Chiziane, Marcelo Panguana, Adelino Timóteo, Lília Momplé e vejo como o Ungulani influencia e se deixa influenciar. A mim, em particular, tem-me dado o sul, neste exercício de passagem da oralidade para escrita.

O Ungulani tem a liberdade de dizer o que quer, quando quer, como quer. E faz sempre com arte e mestria. A crítica mais áspera e severa chega aos nossos ouvidos, como canção e poesia.

Porque decidimos que os homens e as obras devem ser celebrados ainda vivos, a Universidade Pedagógica, unindo-se à família dos Escritores Moçambicanos, à família do Ungulani e, sobretudo, à Família Moçambicana, comemora a passagem dos sessenta anos de vida deste Homem e, principalmente, deste grande talento que se revelou na Bacia do rio Rovuma e do Lago Niassa e se catapultou até aos estuários do rio Maputo, inspirando aqueles que aspiram tornar-se escritores e desenhadores de palavras. Tudo isto porque o Ungulani é, para nós, o Ualalpi da Literatura Moçambicana.

A primeira revista literária de Moçambique independente, “Charrua” (1984), foi fundada por jovens boémios e irreverentes da cabeça aos pés. A “Charrua” não foi criada para ser continuidade, longe disso, o objectivo da revista sempre foi romper com uma literatura ideologicamente comprometida, e, com isso, apegar-se aos elementos estéticos. Ungulani Ba Ka Khosa impôs-se desde o princípio como um dos timoneiros do movimento, com a acutilância e rebeldia que o caracterizam. A forma crítica como Ba Ka Khosa olhava para a realidade circundante, fez dele um “barril de pólvora”, sem papas na língua. Talvez, como castigo, quase a perderia (a língua).

Com efeito, entre a boémia e a irreverência, o escritor nunca se desviou. Antes pelo contrário, a criatividade sempre esteve lá, presente, intacta e autêntica. É neste contexto, diga-se, de muita cumplicidade literária, que Ungulani aparece com um manuscrito que viria a marcar a História Literária do país e do continente: “Ualalapi”, escrito no 10º andar de um prédio do Alto Maé, onde o escritor viveu. Quando julgou que a estória estava acabada, entre poucos amigos, Ungulani pediu que Teresa Manjate e Armando Artur lessem o livro. Manjate foi uma das revisoras da obra que Ungulani pretendeu, no princípio, publicar o primeiro capítulo (“A morte de Mputa”), na revista Tempo. Albino Magaia sugeriu que não o fizesse. E o escritor ouviu o conselho do “macaco velho”. Conteve a ansiedade até poder publicar o livro em 1987.

“Ualalapi” foi a grande revelação de Ungulani, por isso não foi de admirar que esta obra fosse consagrada Prémio de Ficção Moçambicana, em 1990, e, mais tarde, tenha sido considerada um dos melhores romances africanos do séc. XX.

Com as mesmas amizades, entre a cerveja e a pena, mesmo depois de a revista “Charrua” ter sido deixada para trás, Ba Ka Khosa lança, em 90, a colectânea de contos “Orgia dos loucos”. Nessa altura, Ungulani já havia gerado todos os seus filhos. Já nem se devia duvidar, estava-se diante de um grande autor. Por isso, o Instituto Nacional do Cinema, agora Instituto Nacional de Áudio Visual e Cinema (INAC), convidou Ungulani para fazer guiões para filmes/ documentários. Aliás, alguns textos do escritor foram adaptados para o cinema. O considerado “barril de pólvora” por Matias Xavier, amigo que o levou ao cinema, chegou a ser Adjunto-Director do INAC. Nada que o retirou a frontalidade com que encara a vida, mas que quase lhe faltou a 16 de Outubro de 1998. Nesta data Ungulani Ba Ka Khosa perde sua primeira esposa, Judite Mandua, a que lhe deu quatro dos cinco filhos que tem, com quem se casou oficialmente em 1980.

20 anos depois de conhecer em Niassa aquela professora de Biologia, Ungulani encara momentos difíceis. A morte que tanto vitima personagens dos seus livros abraçou o autor com fel, sem piedade. Ba Ka Khosa andou triste. Deprimido. Mas não fracassou, como nos livros, vulgarizou a morte e lutou até a exaustão. E a escrita permitiu-lhe continuar a proporcionar sonhos aos seus leitores, pelo que no ano seguinte lança “Histórias de amor e espanto”.

Viúvo, Ungulani continua a investir na educação dos filhos, de forma inteligente e convincente.  Por essa razão, todos guardam lembranças incríveis do pai. Misete, a Primeira, por exemplo, lembra-se que Ungulani, para motivar-lhes a ler, voltava a casa sempre com o jornal Notícias. Na altura, persuadia os filhos a ler as matérias enquanto ele fingia fazer outra coisa. Depois, cada um resumia a editoria que lhe cabia. Uns calhavam sempre com Política e outros com Desporto ou Cultura. Assim o escritor influenciou todos os filhos, com a excepção da Damboia, nome roubado de “Ualalapi”, a seguirem o ramo das letras.

Mas a esperteza de Ungulani nem sempre foi percebida pelos filhos quando adulto. O terceiro filho do escritor, ainda na juventude, sacou-lhe a malandrice. Ungulani tinha uma mania de esconder dinheiro nos livros. Tudo na vida dele resume-se ao livro. Na altura em que vivia no Alto Maé, quando voltasse a casa com o juízo amais, lá ia ele fazer de um conjunto de papel cofre. Porque dormia deveras embriagado, acordava dia seguinte sem se lembrar de onde havia guardado o dinheiro. A missão de vasculhar o dinheiro sobrava para Segone, quem era convencido a ir revirar a prateleira de livros. Como se de nada soubesse, o menino lá ia encontrar o valor, mas, porque a esperteza parece ser daquelas coisas hereditárias, Segone entregava ao pai apenas parte do valor e todos ficavam felizes para sempre.

Ora, Ba Ka Khosa é um pai liberal, que respeita as escolhas dos filhos. Para ele, o que mais importa é “tudo na cabeça e nada no bolso”. Ao mesmo tempo que, quando criança, tirava o sono dos filhos quando estivesse a escrever na sua máquina, que na altura computadores eram escassos, Ungulani sempre soube compensar-lhes qualquer incómodo com lições de vida. Os outros filhos do autor, Esaú e Éric, não se esquecem de terem escutado aquela voz “rouca” dizer: “constrói-te. E uma das formas de conseguires tal proeza é com leituras e com a busca do conhecimento.” Assim o escritor formou todos os filhos no ensino superior.

Uma das grandes alegrias de Ungulani são os netos. Tem 10, o suficiente para o antigo jogador de basquetebol, agora reformado por não ter como aguentar o formato arredondado da sua estrutura, formar duas equipas de bola ao cesto. Quando falam de Ungulani, os netinhos (Wangari, Alvin e Amiel) são unânimes em afirmar que gostam do avô Chico porque ele ajuda-lhes em muitas actividades, oferece livros e, claro, empresta o tablet para que possam divertirem-se nos videojogos.

Esta é a outra face de um homem com os pés no chão que Salomé, os cinco filhos e dez netos quase perderam, em 2007, quase numa “morte anunciada”.

“Vamos todos encher o Franco”. Ousado não é? Este foi o título do primeiro concerto de Danilo Malele desde que o grupo Trio Fam se desfez, quem no universo hip-hop identifica-se como Kloro. Nesta nova aparição, o rapper aparece como Xigumandzene, termo changana que significa mais novo. Xigumandzene é também a nova sugestão discográfica do artista em forma de “mixtape” e, por que não, uma forma alternativa que Kloro encontrou para se reenquadrar no universo hip-hop.

O trabalho de casa foi bem feito, não só pelo mais novo dos Malleles, mas também pela Rádio Cidade, a pretexto da comemoração dos 24 anos daquela estação emissora. E a mensagem chegou, viu-se muito antes do espectáculo começar. O pátio do Centro Cultural Franco-Moçambicano já tinha gente, entre risos e conversas soltas. Era o prenúncio de uma noite que inaugura um novo paradigma no hip-hop nacional.

O grande sonho do Kloro era de encher o Franco-Moçambicano na última sexta-feira, espaço que simbolicamente tem um grande valor para o rapper. Foi ali onde actuou há 20 anos, antes mesmo dos Trio Fam surgir, num concerto dos Rappers Unit – um dos grupos que inaugura a trajectória do hip-hop moçambicano – onde fazia parte seu irmão Hélder Leonel. Leonel – locutor do programa “Hip-hop Time” da Rádio Cidade – foi uma das pessoas que fez a propaganda para que se enchesse o Franco. A sua arma de massificação foi bem eficiente, por isso o Franco… encheu.

Mas nos primeiros instantes a sala tinha assentos vazios só com o tempo ficou composta. Mas, como clarificou o artista, o objectivo, no fundo, era mais do que encher o espaço. Kloro queria, e conseguiu, encher mentes com mensagens motivadoras.

Mais que espectáculo

A bateria, os microfones, as guitarras, o teclado e as colunas denunciavam um espectáculo ao vivo. Os ânimos dos que entravam na sala elevavam-se perante a imagem do palco, ainda que os três sofás colocassem dúvidas do que na verdade iria acontecer. As primeiras ilações que se podiam tirar é que não seria apenas um espectáculo, mas uma noite de conversa sentados à mesa, tal como fazem pessoas civilizadas.

Não há dúvida que Kloro seja civilizado, os seus 20 anos de carreira ensinaram-lhe o suficiente. O espectáculo começa como quem sai do quarto para sala à madrugada. Kloro trazia roupa de dormir e peúgas compridas e foi acomodar-se na poltrona. Era o início do show. Não, o início de uma revolução. Afinal, é possível fazer um espectáculo só de um artista de hip-hop nacional e, como se não bastasse, lotar o sítio? Esta é a pergunta que este concerto sugeriu. A resposta viu-se em cada mão levantada, em cada assobio dado, em cada grito feito e em cada salva de palmas: sim, é possível.

“Música da sociedade” foi a faixa escolhida para iniciar o périplo pela “mixtape”. Logo nos primeiros minutos, houve barulho na sala e até ao fim das intensas duas horas o barulho prevaleceu.

A banda, composta por Mauro no teclado, Texito Langa na Bateria, Michael na guitarra, Mitó no baixo, fez uma aventura sonora sem igual. O entrosamento foi notável. Não faltou maturidade na execução. Teknik e Teg nos coros estiveram igualmente bem, se houvesse mais sintonia entre os dois seria melhor. Mas Kloro fez questão de acautelar quaisquer erros, dizendo que se trata de espectáculo para família e que as falhas claramente existiriam.

Houve falhas sim, mas são aspectos minúsculos para aquilo que representa o início desta revolução cultural. Esta revolução resgatou também vozes que há muito não apareciam. Caso é de Nelson Nhachungue, quem participou na segunda música do espectáculo: “sonhos”. O jovem anda sim desaparecido, mas não anda encalhado. Dice também subiu ao palco para cantar “Família em primeiro”.

Não foi apenas uma noite de actuação, antes da música, Kloro tratou de encorajar os presentes a seguirem os seus sonhos independentemente do julgamento de outrem. Ele decidiu fazer música, ponto final. “Conseguimos encher o Franco, o primeiro sonho foi alcançado”, disse Nhachungue antes de abandonar o palco.

“Imaginação”, “Claramente Puto”, “Killa”, “Par Ideal”, “Corpo da Cidade”, “Não Posso Esperar”, “Música da Sociedade” foram outras músicas que entraram no pacote e com elas novos rostos da música, membros da Indústria do Bom Som (IBS).

Trio Fam: a família

O humorista Rico fez toda a diferença nos intervalos do concerto. Quem se sentiu cansado pela agitação da música renovou-se com a boa disposição trazida por um dos percursores do “stand up comedy” em Moçambique. A ele coube o convite aos Trio Fam, um dos mais referenciados colectivos quando o assunto é hip-hop nacional. O grupo desfez-se, mas a “revolução” tratou de os juntar no mesmo palco novamente. Foi uma oportunidade para que seus seguidores matassem as saudades de músicas como “Tu és tão linda” e “Dje Dje”.

É. O Franco encheu e o hip-hop agradece

 

O 13.º livro de Paulina Chiziane – lançado esta quarta-feira em Maputo, diferentemente de outras 12 criações da considerada primeira romancista moçambicana – é de poesia. Tal como contestou que as obras “Balada de Amor ao Vento”, “Ventos do Apocalipse”, “O Sétimo Juramento” ou “Niketche” fossem romances, a escritora distancia-se do gênero poético neste novo livro. Para ela, a obra em causa é um conjunto de cantos, por isso, “Canto dos Escravos”.

A cerimónia bastante concorrida, com destaque para literatos, artistas diversos e de potenciais seguidores da “utopia paulinista”, trouxe à tona os cantos que a obra aborda na voz da actriz Lucrécia Paco e o seu acompanhante. Os dois prenderam a atenção da assistência por mais de 30 minutos, mas a performance foi bem desenhada que não chegou a fartar. Muito pelo contrário. No fundo, os dois – numa clara exposição daquilo que é a exploração do povo e a negação da identidade africana – apresentaram o pano de fundo desta obra de 120 páginas, que sai pela Matiko e Arte, com a capa e maquetização de Mauro Matsinhe.

A apresentação do “Canto dos Escravos” coube ao seu prefaciador, o crítico literário e filósofo Dionísio Bahule. Na sua locução, Bahule afirmou que Paulina faz-nos o convite para voltar para trás. “O voltar para trás em um sentido de consciência não sou histórica e social, mas também económica”. Para o filósofo, a obra de Paulina Chiziane leva-nos a nossa casa, que, numa linguagem metafórica, é de volta a casa do meu pai, onde nos revisitamos a nós e a nossa situação, para nos compreendermos como pessoas e para discernirmos em volta da nossa circunstância.

Bahule não se posicionou em relação a forma dos textos, nem sequer revisitou poemas. Afinal, o principal objectivo desta obra – tal como se traduz em toda escrita de Chiziane – é a mensagem final: a tomada de consciência em relação a nossa identidade, para que não permitamos ser escravizados.
A escravidão que a autora nos traz nesses tempos não é a física, mas a mental. Para a escritora, este livro é um pretexto para que qualquer pessoa se questione se é realmente livre ou escravo. É que, na colocação de Chiziane, não faz sentido que hoje nos falte pão e que as pessoas não tenham norte. “O canto dos escravos é exactamente uma reflexão: quem somos nós, para onde vamos, o quê que fazemos para preservar esta liberdade”, defende a autora.

O livro é inspirado no hino nacional, que destaca um dos excertos numa das primeiras páginas: “Nós juramos por ti ó Moçambique/Nenhum tirano nos irá escravizar”. O excerto supracitado foi o condão inicial para que Paulina, mesmo depois de jurar não voltar a publicar livro, ter-se aventurado novamente.

Com o seu discurso inflamado, Paulina criticou várias esferas da sociedade. Diz ser inconcebível que as pessoas se retalhem uns aos outros no lugar da unidade e harmonia. Independentemente da raça e do partido político de cada um, o importante – sugere Paulina – é que se desperte e que se lute pela liberdade que foge. Outro assunto que não fugiu a sua comunicação é a questão das dívidas externas: “como ela veio eu não sei. Mas eu sei que ontem, a escravatura e colonização veio planificada num território que não é o meu. Não estará a acontecer o mesmo? Por que não abrimos os olhos? Estamo-nos a matar porquê?”
O que Paulina não entende é o facto de nos anos passados termos ultrapassados crises piores, mesmo sem recurso, e agora com mais recursos não conseguimos ultrapassar este dilema. “É hora de despertar…”, reitera.

A plateia ficou atenta a todo instante, quem Paulina tratou-os de meninos e meninas, mostrando-os que o “Canto dos Escravos” é um diálogo de esperança, onde a solidariedade, independentemente das diferenças, é que vence. “Vamos todos cantar, todas as raças, todos os sexos, pessoas de todos quadrantes do mundo. E nós os moçambicanos vamos chorar juntos. Depois do choro, recobrar energia e reconstruir a esperança.

Como que a dar continuidade à narrativa de Chiziane, o rapper Azagaia – apoiado ao som da guitarra -, cantou o tema “Vampiros”. Aliás, toda assistência cantou junto, como que a concordar com os pronunciamentos dos artistas, de que realmente é hora de despertar.

+ LIDAS

Siga nos