Skip to main content

O País – A verdade como notícia

A fim de acelarar o processo de restituição de artecfatos e objectos culturais saqueados em África no período colonial, a Open Society Foundations (OFS) disponibiliza 15 milhões de dólares. O anúncio foi feito por Patrick Gaspard, presidente da OFS e ex-embaixador dos Estados Unidos de América na África do Sul a estação televisiva SABC Digital News, a partir de Londres.

O interesse de apoiar a devolução de bens culturais ao continente africano coincide com o primeiro aniversário da publicação do “Relatório Sarr-Savoy”, encomendado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no qual se exige o retorno imediato e incondicional de objectos africanos obtidos por meio de roubo, saques, despojos, truques e consentimento forçado, antes de 1960.

Segundo Patrick Gaspard, a devolução é importante para os africanos, considerando que tal ajudará na construção de uma identidade consistente, baseada em factos concretos, palpáveis.  A restituição desses bens e artefactos com valor etnográfico, entende Gaspard, seria, por outras palavras, trazer África de volta para o seu continente, pois aqueles objectos são parte da essência das suas gentes e tradições.

Com efeito, o valor disponível será investido nos próximos quatro anos, para criar conexões entre os países do continente, envolvendo escolas, artistas, activistas e líderes espirituais que trabalham na área. Concretamente, o apoio irá abranger infra-estruturas que irão receber o material em condições de serem exibidos ao público.

Portanto, o presidente da Open Society Foundations acredita que a Restituição irá ajudar na afirmação do continente através da história que irá legitimar a identidade, avança uma nota enviada à imprensa moçambicana.

 

Sérgio Raimundo “suspendeu” um Poeta Militar que vivia dentro de si, desde muito novo. Por isso, largou os versos por tempo indeterminado. A prioridade do autor que se apresentou às letras como poeta passou a ser a narrativa, sobretudo agora que acaba de vencer o tão importante Prémio INCM/ Eugénio Lisboa. Mas como tudo aconteceu? O que a ascensão de Sérgio Raimundo na ficção tem a ver com a suspensão do Poeta Militar, seu pseudónimo?

50 dias antes de o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa encerrar as candidaturas, Sérgio Raimundo começou a escrever o seu A Ilha dos mulatos, texto com o qual venceu a 3ª edição daquele concurso literário. O anúncio foi feito esta sexta-feira. Antes de se tornar quase “viral” no facebook, a informação foi dada ao autor por alguém da Embaixada de Portugal em Moçambique, através de uma ligação telefónica. Presente de Natal antecipado. Cinco mil Euros zás… no bolso do escritor… sem aviso prévio.

Parece que estava escrito em algum lugar que 2019 seria o ano de Sérgio Raimundo, afinal, há quatro meses nasceu o seu primeiro filho, que se encontra de baixa no Hospital Central de Maputo. Bem dito, o escritor ficou a saber que era o vencedor da 3ª edição do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa momentos depois de ter sido informado pela mulher que a cirurgia do filho já não aconteceria no dia previsto. Houve um adiamento. Então, a notícia do prémio veio-lhe colorir o dia cinzento: “Foi um momento único. Naquele instante tive uma felicidade enorme”, afirmou Raimundo, clarificando a seguir que o seu texto, na verdade, é uma carta de amor à Ilha de Moçambique, onde se passa a maior parte da história.

Ora, além de ser essa carta, A ilha dos mulatos ficiona a actual realidade moçambicana, retratando situações como ataques em Cabo Delgado, o racismo, a homossexualidade e os efeitos de algumas doenças: a surdez, a síndrome de Down e alzheimer, que afectaram pessoas próximas ao autor.

Essencialmente, a história premiada é sobre uma família luso-descendente, que vive na Ilha de Moçambique, em vias de desaparecer. No enredo há mortes e investigação que aproximam a narrativa a um policial. “Além disso e de aspectos filosóficos, quis inserir na história mais elementos, mas ao fim de mais ou menos um mês e duas semanas tive de submeter o texto ao concurso”, disse o escritor, adiantando que na sua história cada personagem é dona da sua própria narração.

Sérgio Raimundo vem da poesia. Há muitos anos adoptou o pseudónimo Poeta Militar. Inclusive, chegou a publicar um livro de poemas: Avental de um poeta doméstico. Entretanto, quando menos esperava, perdeu o pai, um dos seus principais leitores. Com a morte do pai, o autor sentiu como que tivesse perdido um colectivo de leitores. E como o azar não vem só. Logo a seguir contraiu tuberculose, o que lhe custou seis meses de cama. Ultrapassada essa fase péssima da sua vida, o poeta teve necessidade de contar coisas. Aí, então, decidiu “suspender” o Poeta Militar” por tempo indeterminado. A vez agora é do escritor, que até possui mais projectos de ficção. Mas clarifica: “O poeta ainda existe dentro de mim, até porque a minha prosa tem lá muita poesia”. Logo, Sérgio Militar ainda se vê a escrever poesia, mas não tão já.

De acordo com o júri, constituído por Mbate Pedro (Presidente), Sara Jona e Paula Mendes, a atribuição do Prémio INCM/Eugénio Lisboa a A Ilha dos Mulatos tem como explicação o “facto de o autor entrelaçar criatividade e originalidade, com a gestão da polifonia e de fluxos de consciência, numa narração que convoca à preservação da memória sobre a Ilha de Moçambique”.

Nesta edição do prémio, com 12 candidaturas, houve duas menções honrosas para os textos O homem que vivia fugindo de si, de Japone Agostinho [Arijuane] e O amor que há em ti, de Néusia Pelembe.

Portanto, o Prémio INCM/Eugénio Lisboa premeia trabalhos inéditos no domínio da prosa literária. Além dos 5 mil euros (cerca de 350 mil meticais) atribuídos ao vencedor, o concurso contempla a publicação das obras distinguidas em cada edição, sempre com o propósito de estimular a produção literária moçambicana.

Sérgio Simão Raimundo nasceu em Maputo, em 1992. É licenciado em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane e actua como colunista, jornalista, crítico de literatura e cinema. Em 2015, publicou Avental de um poeta doméstico.

 

 

 

 

 

 

Ao fim de seis meses, a primeira edição do Sunset Afro-jazz Series vai de “férias”. Próximo ano,  a organização regressa à actividade com a mesma pretensão de fazer do programa um instrumento de promoção da música e dos artistas nacionais em espectáculos ao vivo, concebidos para acontecerem em ambientes amistosos e familiares.

No espaço Big Brother, esta sexta-feira, a partir das 21 horas, duas bandas há muito tempo consagradas na música moçambicana vão subir ao palco para, durante mais ou menos uma hora, tocarem “clássicos” e temas que têm produzido nos últimos tempos. São os casos de Rockfellers, banda de rock que, depois de muitos anos no silêncio, regressou ao “mercado” para continuar a escrever a sua própria história. Os cinco integrantes da banda vão interpretar, neste encerramento do ano, cerca de 14 temas, nove das quais novas. A ideia de Rockfellers passa por começar a promover as músicas que farão parte do novo álbum discográfico, eventualmente a ser lançado nos próximos seis meses.

No entanto, porque há temas que constituem marcos das bandas, igualmente, os Rockfellers vão tocar e cantar os sons que lhes consagraram ao longo dos anos, por exemplo, “Minha vida”. Além dessa música, também vão tocar “Mãos no ar”, “Luz nos olhos”, “Cool”, “Pés no chão” ou “Uma história para contar”. “Temos um conjunto de músicas novas. Será uma oportunidade para os nossos apreciadores ouvirem-nos porque estamos com uma nova energia e com uma linhagem mais madura”, afirmou Ivan, baixista da banda de rock.

No derradeiro ensaio, na véspera do espectáculo, Kapa Dech, a outra banda que vai actuar logo à noite, preparou para o público, igualmente, uma simbiose de temas, entre os ‘clássicos’ e os mais recentes. “Não queremos ficar apenas nos ‘hits’. Sabemos que é perigoso ir a um ‘show’ e não tocar os ‘hits’, mas quando se fica na sombra do passado, as pessoas pedem inovação. Então tivemos a cautela de incluir coisas novas no nosso repertório, mas sem fugir do que é Kapa Dech”, explicou Roberto Isaías, uma das vozes da banda.  

Já na condição de Director-Artístico do Sunset Afrojazz Series, co-produzido pelo Big Brother e pela Stv, Roberto Isaías prometeu que a iniciativa vai encerrar em grande. “Este é o cair do pano, com promessas de voltarmos em 2020, com mais artistas que ajudaram a fazer revolução na música moçambicana, mudando paradigmas no campo social e até mesmo político. Queremos dar ao Sunset este capital inclusivo, afinal também estamos inseridos numa sociedade inclusiva. Fomos muito elogiados ao longo deste período e esperamos que no próximo ano possamos ter mais apoio, de modo que a qualidade dos concertos também melhor”, sublinhou o músico e produtor.

O último espectáculo desta edição do Sunset Afrojazz Series vai durar cerca de três horas, com música, gastronomia e sessão de venda do livro “Lomuku”, de Severino Ngoenha. E um dos nomes do cartaz, que também vai actuar no espaço Big Brother, na cidade de Maputo, é o rapper Azagaia, durante uma hora.

Veio a Moçambique para participar numa residência literária. A partir daí, Joana Bértholo interessou-se em escrever sobre Maputo e sobre os lugares que passou a conhecer. Logo à chegada, a escritora portuguesa começou a coleccionar impressões, sensações e cores para algumas páginas. Esta entrevista foi feita quando a autora de Museu do pensamento ainda estava em Maputo, inclusive, a participar no 31º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa, no Camões.

 

O que a trouxe a Moçambique foi uma residência literária. Por que aderir a uma experiência como esta?

Segundo me foi explicado, o fluxo de levar escritores moçambicanos a Lisboa já existe há alguns anos. Agora, a ideia também é inverter e começar a trazer escritores portugueses a Moçambique. Quando vi o anúncio, senti que tinha de concorrer porque a viagem faz muito parte do meu sistema de inspiração. Viajei bastante, mas nunca tinha estado no continente africano. Não sei explicar porquê, pois, mesmo a clássica viagem até a Marrocos, que muitos meus amigos fizeram, nunca tinha feito. Viajei bastante pela América do Sul, Ásia e Europa, e, mesmo sem escrever necessariamente sobre os sítios onde estou, o facto de estar a viajar e de estar muito atenta a tudo, de ouvir muitas pessoas, é muito bom para as coisas que escrevo. E depois, eu sei que há uma desproporção de dizer venho conhecer África e apenas conhecer uma cidade africana, achei que Maputo seria uma porta de entrada essencial para este diálogo pós-colonialismo, num sítio onde também se fala português, que também tenho imensas referências familiares e, ao mesmo tempo, com coisas que nunca vi. Essa mescla é muito interessante para quem escreve.

 

Não escrever sobre os lugares onde se encontra é uma decisão?

Não foi muito reflectido, até agora… Surgiu assim. A viagem exterior propicia uma viagem interior que não tem a ver necessariamente com o que me está a acontecer. No entanto, o objectivo desta experiência em Moçambique é outro. Aqui estou mesmo a tentar escrever sobre Maputo, sobre os sítios onde vou e sobre as pessoas que conheço. Não é um texto jornalístico e nem é sobre os factos. Queria mesmo que a cidade entrasse com uma força no texto que até aqui não foi muito a minha forma de escrever. Portanto, também estou aqui para me desafiar um bocadinho.

 

Acha que esse exercício proporciona o mesmo gozo?

Estou a ter o mesmo gozo. É mais difícil, mas o que mesmo gosto é do trabalho da imaginação sobre a ficção. Eu já escrevi, por exemplo, um excerto que se passa no Museu da História Natural (onde eu fui logo no primeiro dia), o que até tem a ver com o que senti, quando vi a colecção de fetos e quando a li a macabra história da sua origem. Mas, na realidade, não me aconteceu nada daquilo que pus no texto. Ou seja, há coisas que são reais: o museu e a colecção estão lá, mas depois o que se passa no meu texto não me aconteceu. Na verdade, há esta dança entre a imaginação e a realidade que pode ser divertida.

 

Interessa-me muito a resposta que se dá a esta pergunta. No seu caso, o que a excita mais no contexto da viagem, é a partida ou é a chegada?

É o entretanto. Apesar de me ver como uma viajante, sou uma má viajante, ou seja, uma semana anterior sinto imensas dores de estômago, fico nervosa e não consigo dormir. Não sou nada daquelas pessoas que são voluntariosas, sem medo. Eu tenho medo de tudo. Acabo fazendo esse sacrifício de passar por esse processo de sofrimento porque ver sítios que nunca imaginei e conhecer pessoas que mostram formas novas de estar no mundo, acredito, em última análise me faz escrever. Portanto, é esse maravilhoso entretanto, e, depois, as reverberações que cada viagem deixa em mim muito depois de ter estado num lugar. Eu só vou estar um mês em Maputo, que não é praticamente nada. No entanto, imagino que nos próximos anos haverá alguma coisa a activar em mim essa memória de Maputo. Como se eu viajasse para aqui de novo. Isso acontece-me em relação a muitos sítios onde estive, como se houvesse uma Buenos Aires, uma Marselha e uma Quioto interior.

 

É autora de Museu do pensamento, um livro com forte componente pedagógica. Foi mesmo isso que quis fazer do livro?

Não sei se foi isso o que quis fazer, mas apeteceu-me ter uma conversa com os mais novos sobre o que é isto de pensar e, também, um pouco mais alargado, sobre os benefícios da meditação. Eu vejo pelas sobrinhas, crianças e jovens que tenho à minha volta, que esta geração tem também o desafio de manter a presença e o foco numa sociedade em que há sempre uma ecrã na vida das pessoas: um telemóvel, um tablet ou uma televisão. Não estou a dizer que isto é melhor ou é pior, mas muda a atenção e a capacidade de se focar. O livro é um pouco sobre isso, sobre as coisas em que pensamos ou sobre o que fazemos com os pensamentos maus. E essas são perguntas que não têm idade, e eu não acredito que existam livros apenas para crianças. Apetecia-me falar com as crianças da minha vida. Foi por isso que até adoptei uma linguagem um bocadinho mais acessível.

 

Este seu livro, que pode ser lido em Moçambique, também sobre o conhecimento. Esta premissa é indissociável da ficção para si?

Não digo que sim, como regra geral da literatura ou como regra geral da ficção. Mas, para mim, faz sentido buscar o conhecimento porque sinto que escrevo para aprender. Não me sinto a escrever para ensinar, mas gosto muito de, enquanto tiver um projecto em mãos, me sentir a aprender coisas. Não é que eu penso muito nisso, mas sinto que se eu aprender alguma coisa, evidentemente, o meu leitor também vai aprender. É nesse sentido que o conhecimento torna-se uma variável importante no processo de escrita. Muitas vezes o meu ponto de partida para os textos é a minha ignorância. E eu gosto muito deste livro porque, sendo o meu único para os mais novos, é o que mais me faz viajar. Já andei por escolas de Portugal de Norte a Sul e tem sido uma experiência incrível.

 

Há autores que sentem mais pressão quando escrevem para os mais novos. E no seu caso?

Reconheço essa sensação. Eu já fiz várias peças para as crianças e as coisas têm de ser ou é bom ou não é. A criança não é um espectador que vai tentar perceber. Os miúdos ou gostam ou não gostam. Isso, para quem escreve ou encena, é um desafio lindo, de simplificar, ser directo, ser simples e essencial, porque as crianças constituem um público sem rodeios. Mas, quando escrevo para crianças, há uma grande possibilidade de brincar.

 

Outro livro seu, Ecologia, é descrito como incómodo e como uma convocação para repensar o mundo. Concorda com a crítica?

Eu confio nos críticos e percebo que o livro tem a possibilidade de ser lido dessa forma. Não tinha essa intenção específica quando o escrevi. Mas, claramente, queria pensar sobre o mundo em que vivemos, sobretudo sobre os limites desta coisa a que chamamos mercado, esta coisa invisível e que ao mesmo tempo está em todo o lado e em todos os nossos gestos. O livro é sobre as consequências à volta dessa coisa de a realidade estar a mudar muito de forma veloz e os valores estarem em constante negociação.

 

Ecologia é um livro além dos espaços. O que implicou escrever sobre a humanidade nesta ficção?

Implicou esquecer um pouco que nasci em Lisboa, em 1982, e tentar pensar de uma forma mais interligada, mais global, que acho ser uma das características dos autores contemporâneos. O livro aponta para alterações climáticas e ao que estamos a fazer ao planeta. A mim, para começar, interessava falar de ecologia e protecção do planeta. E percebi que não podia falar de ecologia sem falar de dinheiro. É por isso que o livro fala de mercado, de compra e de consumo. Não porque o tema me interessa por si, mas porque é isso que eu acho que devemos falar, quando falamos de ecologia.

 

Penso que este foi o livro que exigiu mais de si…

Sim, e foi o que demorei mais a escrever, cerca de seis anos. Penso que também é o livro mais ambicioso de minha parte, em termos de fôlego. É um livro caleidoscópico, algo complexo também, simplificado pelo facto de, no fundo, serem histórias de vida de pessoas. Foi um processo criativo que eu adorei.

 

Duas perguntas numa. O que gostaria de levar e de deixar em Moçambique?

Gostava de deixar cá a minha contemplação e a minha devoção. Gostaria de levar tudo o que me têm dado. Vou levar comigo este conjunto de cheiros e sensações.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro livros de Pedro Pereira Lopes e de Hirondina Joshua. No teatro, sugiro “Incêndios”, na encenação de Victor de Oliveira.

 

PERFIL

Joana Bértholo é escritora e dramaturga. Nasceu em Lisboa, em 1982. Licenciada em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e Doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. O seu último romance, Ecologia, foi semi-finalista do Prémio Oceanos 2019. O seu Museu do Pensamento recebeu o prémio de melhor livro infanto-juvenil da Sociedade Portuguesa de Autores 2018 e do Prémio Literário de Fátima na mesma categoria. A artista também trabalha regularmente em projectos teatrais.
 

 

Terminou o concerto. À saída da Sala Grande, um som intermitente: “Wake up, wake up, tomorrow is another day”. É um dos coros da terceira música de Perfect plan, e das que no Franco-Moçambicano mais mexeu com os expectadores. No disco, o tema dura três minutos e trinta segundos. Levou mais tempo ao vivo, e, nem sequer por isso, ficou facilmente nas cabeças daquelas pessoas que até às 17h30 do dia do espectáculo haviam esgotado os ingressos.

Embora “Wake up” seja a terceira música do novo álbum de Gran’Mah, no espectáculo de lançamento do mesmo, sexta-feira à noite, foi a 10ª a ser tocada. Antes, como que endiabrados, num show intenso, o “people” já havia se entusiasmado ao som de “Gran’Mah band”, “Aurora lights”, “New years” e “Índico”, essencialmente, a única da banda em português.

Sempre com Regina dos Santos como vocalista, Leo Fernandes (baixo), Luís Silva (guitarra), Miguel Marques (teclado), Miguel Wilson (baterista), Ricardo Conceição (saxofone) e, igualmente, Tégui nos coros e Nemias e Arcénio nos trompetes, mais do que apresentar o seu segundo álbum, Gran’Mah, demonstrou a sua evolução performativa e criativa.

Desde o princípio, o público sempre esteve expectante e insaciável, reagindo aos “beats” de pé a maior parte do espectáculo, ora dançando, ora eles próprios armando-se altos cantores que afinal não deixaram de ser.

A propósito de bons cantores, Nelson Nhachungue, um tanto ou quanto desaparecido dos palcos, todavia sempre com aquele “sweeg” que lhe caracteriza já desde os tempos do Fama, demonstrou ser ainda um “menino fofinho”, agora com uns músculos mais destacados. Não obstante, o que mais chamou atenção e protagonizou um dos momentos interessantes do espectáculo foi o seu dueto com Regina ao som de “Dont wanna wait”. O evento ia ao meio e parecia que não iria terminar. “ – Bis, bis, bis”. Ouviu-se algumas pessoas gritarem. A primeira vez a líder da banda ignorou ou não ouviu. A partir daí o pedido repetiu-se mais vezes, ao fim de cada tema interpretado. Regina finalmente quis perceber: “Afinal esse bis é de quê?”. Sem resposta, ela própria e muitos dos que se encontravam próximos do palco soltaram breves gargalhadas”.

O show estava bom, ao estilo de amigos para amigos. A música, a luz, o cenário e o ambiente, portanto, “nos trinques”, como diriam os brasileiros. Logo, quase não se compreendeu o que sucedeu a seguir. De repetente, um grito: “Injustiça, injustiça!”. A voz estridente era de Miguel Wilson, o baterista da banda. “Mas que raio de injustiça vinha a ser aquela?”. Alguns semblantes transpareceram essa pergunta. Então os instrumentos recomeçaram a tocar. Regina dos Santos colou o timbre no microfone. Percebeu-se. “Injustiça”, na verdade, não era bem, bem “injustiça”, mas “Injustice”, o título da oitava música do álbum, que retrata essa temática recorrente.

Com efeito, depois de “injustice” ouviu-se “Perfect plan”, a música que igualmente intitula o disco. Passados alguns minutos, a banda recolheu-se, nesse “classic” de fingir o fim do concerto. Ou seja, Gran’Mah fingiu despedir-se de todos e o público que não é tolo fingiu acreditar. Eunice Andrade, a mestre de cerimónia, entrou em cena e ajudou a pintar de verdade toda aquela “mentirinha”. Aí, numa só voz, todos gritaram pelo regresso da banda. Os rapazes voltaram recompensados e tocaram mais algumas músicas: “Never enough”, “Sing about you” e “Injustice”.

Com a justiça feita, aí, sim, Gran’Mah recolheu-se a sério, para mais tarde assinar autógrafos aos discos comprados e deixar-se fotografar. “ – hi, ya, valeu ter vindo ver este espectáculo. Foi nice!”, afirmou Ângela Carneiro, fã da banda que voou de Manica para Maputo, especialmente para ver a apresentação de Perfect plan. E pronto. A ecoar em algum lugar de Moçambique, esse coro: “Wake up, wake up, tomorrow is another day”.

O escritor moçambicano nunca tinha dito isso em público. Como que farto de guardar a sua opinião, Mia Couto aproveitou a cerimónia de lançamento do livro O terrorista elegante e outras histórias para desabar. Nisso, na noite de quarta-feira, no átrio da Fundação Fernando Leite Couto, na cidade de Maputo, Mia disse ser estranho o facto de José Eduardo Agualusa não ter sido laureado com o Prémio Camões, o mais importante de língua portuguesa.

Para Mia Couto, que venceu o Camões em 2013, o escritor angolano com 14 romances publicados já deu provas da sua qualidade literária, tanto que internacionalmente, pelo menos em espaços de língua inglesa, é reconhecido, o que tarda a acontecer ao mais alto nível no que se considera “lusofonia”.

“Não é por ser amigo do Agualusa”. Assim começou Mia Couto, realçando que o que estava por vir nunca tinha sido dito por ele em público. “Eu preciso de dizer isto. Acho muito estranho que Agualusa nunca tenha ganho o Prémio Camões. Ele foi finalista do Man Booker Prize, que é dos prémios mais importantes do mundo, depois do Nobel; ganhou o International Dublin Literary Award, que é um dos prémios mais prestigiosos do mundo. Ou seja, ele ganhou prémios em vários cantos, mas na comunidade lusófona não há esse reconhecimento? Certamente que há razões de acertos políticos que não deviam estar presentes quando se faz a avaliação da qualidade literária de uma obra”, avançou Mia Couto.

Ainda na cerimónia de lançamento de O terrorista elegante e outras histórias, em que os autores conversaram longamente com os leitores, Mia Couto reconheceu que a carreira literária de José Eduardo Agualusa foi mais difícil do que a sua. “Por isso fico muito feliz que ele tenha vencido um prémio, há semanas, o Prémio Nacional de Cultura em Angola, depois de vários anos em que foi uma figura pouco simpática para o regime”.

Segundo entende Mia, o regime angolano mudou a ponto de aceitar um filho da terra angolana.

Como que para clarificar as coisas, o Director do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, João Pignatelli, sentando bem ao lado de Agualusa na apresentação do livro, tomou o microfone e explicou a todos que o júri do Prémio Camões é escolhido pelos governos. “Mas o Instituto Camões, que eu represento aqui, tem apenas o mesmo nome do prémio e do poeta Camões. Mas eu ficaria contente que um dia o José Eduardo pudesse ganhar esse prémio, porque a sua trajectória e qualidade literária é reconhecida não só nos países de língua portuguesa. Eu ficaria muito contente se pudéssemos celebrar a conquista do prémio nesta bela cidade de Maputo. Se eu ainda estiver cá, o Agualusa fica já convidado para uma festa no Instituto Camões e na Fundação Leite Couto”. E José Eduardo Agualusa gozou com a situação: “o melhor dos prémios é mesmo a festa”.

Quanto ao livro, Agualusa disse, na Fundação Fernando Leite Couto, que o mesmo teceu-se num processo democrático. “Foi como uma democracia, esse regime em que duas ideias diferentes combinam para gerar uma ideia eventualmente melhor. Connosco a produção do livro foi muito por via democrática. Um sugeria uma ideia, uma história ou um nome de uma personagem e o outro dizia olha que seria bom, mas talvez ficasse melhor assim. Daí surgiram vários caminhos”.

A complementar o raciocínio do angolano, Mia afirmou que o processo de escrita fluiu naturalmente porque ambos vêm de escolas comuns e com mesmas influências. “E agora nós os dois queremos fugir do mesmo tipo de coisas e de buscas. Juntos, cada um no seu caminho, claro, procuramos que esta presença da poesia não seja demasiada. Nós estamos a contar uma história ou um conto e então a poesia tem de surgir de forma natural, e não como um elemento de beleza”.

Otildo Justino Guido é o grande vencedor do Prémio Literário Fernando Leite Couto. O anúncio do vencedor que submeteu a sua obra de poesia intitulada Ka madaukane e o silêncio da pele foi feito hoje à tarde, na cidade de Maputo.

De acordo com o júri, constituído por Calane da Silva, Lucílio Manjate, Elídio Nhamona, Ana Mafalda Leite e Carmen Lucia Tindó Secco, o jovem de 21 anos de idade venceu esta edição do prémio porque o seu trabalho distinguiu-se no que se refere à qualidade estética e temática, performance linguística e todas outras qualidades linguístico-literárias referentes ao texto poético.

Para o agraciado, o seu trabalho poético é uma colecção escrita baseada numa região de Homoine, Inhambane. Através do exercício, o Prémio Fernando Leite Couto 2019 quis descrever a beleza natural das coisas, das pessoas e das palavras.

Guido começou a escrever os seus primeiros textos em 2013. A partir daí, o que o prende na escrita é a vida e o que lhe move no mesmo exercício é a morte.

Otildo Justino Guido nasceu em Inhambane e está a frequentar o curso de Contabilidade e Auditoria na Universidade São Tomás, em Xai-Xai. Com Prémio leva para casa 150 mil meticais.

 

 

Teodoro Waty lançou, hoje, na Minerva & Continental, na cidade de Maputo, a obra A amarrada chuva de Kamutxukhêti, uma narrativa ficcional sobre os espaços e costumes.

A obra de Teodoro Waty foi apresentada por Vítor Gonçalves, quem considera que o autor investiu no livro numa originalidade forte. “Ou seja, aquilo que mais me fascinou na leitura de A amarrada chuva de Kamutxukhêti foi o retrato da terra, da tradição e da flora, num substrato cultural profundo que marca o quotidiano das pessoas. Ele quer falar da terra e da maneira como as pessoas passam pela terra. Isso fascinou-me no livro”.

Na sessão de apresentação do livro de Teodoro Waty esteve a Embaixadora de Portugal em Moçambique. Maria Amélia Paiva, que Já começou a ler o livro, foi ao evento porque estava muito interessada em poder assistir ao debate do escritor com os leitores. “Penso que é isso o mais importante, estimular os leitores a poderem pegar num livro. Estou muito satisfeita que o professor Teodoro Waty tenha iniciado este processo de se abrir a outros estilos de escrita. O professor é conhecido como académico. É sempre muito interessante quando alguém com o perfil dele envereda pelo romance”.  

A partir do seu livro, acredita Teodoro Waty, os leitores ficarão a saber como é que se vive num determinado espaço e como as pessoas se relacionam. Waty quis escrever A amarrada chuva de Kamutxukhêti num esforço de distração dos livros que considera muito sérios e académicos. “Espero que os leitores compreendam, através deste livro, que os bons procedimentos não estão apenas nos manuais de protocolo ocidentais. Em Moçambique e em pequenas terras vive-se e convive-se de acordo com padrões de bom senso e de ética que devem ser preservados”.

A amarrada chuva de Kamutxukhêti levou menos de um ano a ser escrito. Possui 200 páginas e foi publicado sob a chancela da Minerva.

 

Leal a essa fusão que une o Reggae, Dub e R&B no mesmo ritmo, Gran’Mah volta a lançar mais um disco original. Intitulado Perfect plan, a obra discográfica será apresentada ao público na próxima sexta-feira 13, no entanto sem bruxas, e longe de assombrações.

A partir das 20h30, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, portanto, não haverá azares. Longe disso, os espectadores poderão viver e partilhar com Gran’Mah um plano perfeito, num espectáculo que, garante Miguel Wilson (baterista), foi preparado ao pormenor, “daí termos pensado também nesse título para o álbum, Perfect plan”.

Nesse espectáculo que pretende divertir a todos, aos que gostam da banda e aos que não conhecem, claro, com a excepção das bruxas – essas estarão longe da Sala Grande do Franco –, Gran’Mah vai tocar todas as nove músicas que compõem Perfect plan e mais algumas do disco de estreia, pelo menos as mais populares, mas com uma nova roupagem. “Finalmente conseguimos fechar este nosso segundo trabalho e estamos preparados para vos mostrar”, frisou Miguel Wilson sempre naquele ar descontraído, mesmo a condizer com o “menino mais indisciplinado da banda”.

Para Regina Santos (vocalista), a apresentação de Perfect plan será memorável e muito especial. E a única menina da banda explica: “Estamos a experimentar novos sons, novos instrumentos e mais vozes. O que agora estamos a trazer é o Gran’Mah elevado e evoluído. Por isso mesmo, mais do que um concerto, o que estamos a tentar levar ao Franco-Moçambicano é uma experiência que vai acontecer num ambiente de festa”. E um dos convidados especiais à festa é Nelson Nhachungue. Com o cantor, Regina Santos vai interpretar uma música que escreveram juntos.

Perfect plan é um disco produzido e masterizado nos estúdios Ekaya, tendo como produtor musical Rui Martins. Levou um ano para ficar pronto, e, em termos temáticos, aborda, por exemplo, a justiça social, a ganância e o amor ao próximo. O grande propósito dos integrantes da banda, com esta proposta musical, é o de passar mensagens positivas.

Com efeito, todas as composições do disco têm a pena de Regina dos Santos, que, neste exercício, superou o desafio de cantar em português, afinal todo o primeiro álbum foi cantado em inglês. Esse desafio ultrapassado faz parte de um objectivo maior: “queremos evoluir como artistas. Por isso tivemos de ver mais shows e ouvir mais trabalhos de artistas para melhorarmos a forma como tocamos e cantamos”.

Perfect plan tem muitos sentidos para Gran’Mah, pois “tudo o que fizemos no passado, o disco de estreia, os ensaios, os espectáculos e as digressões no estrangeiro era para chegarmos aqui. Nada acontece por acaso, por isso cada um de nós deve ser capaz de criar o seu próprio plano perfeito”, conclui Regina dos Santos. 

O trajecto e os integrantes

Regina dos Santos (voz), Miguel Wilson (baterista), Leo Fernandes (baixo), Luís Silva (guitarra), Miguel Marques (teclado) e Ricardo Conceição (saxofone) constituem a banda que se iniciou na música em 2009. Cinco anos depois, em 2014, GranMah foi nomeado ao Mozambique Music Awards e ganhou o prémio de Melhor Canção Alternativa. Até aqui, a banda actuou em vários festivais, com destaque para: Festival da Terra do Tofo (2010), Festival AZGO (2011, 2013 e 2016), Park Acoustics (2013 – África do Sul), Kome Caves Beer Festival (2014 – Lesoto), Festival Internacional das Artes de Harare (2015 – Zimbabwe), Zakifo Music Festival (2016 e 2019 – África do Sul), MTN Bushfire (2019 – Eswatini) e Festival Sakifo Musik (2019 – Ilha da Reunião).

Além de tocar nesses festivais, também já actuaram nos Estados Unidos, Portugal e Angola (2018).

 

+ LIDAS

Siga nos