O País – A verdade como notícia

Os espetáculos que serão levados ao Centro Cultural Brasil-Moçambique são aqueles espetáculos que tiveram sucesso na apresentação, os quais valorizam a dramaturgia contemporânea e o diálogo entre a cultura moçambicana e a brasileira.

Referindo-se ao evento, a organização adianta que "foi escolhida também a linguagem teatral para este acto uma vez que a cada ano se solidifica ainda mais como uma forte tendência as artes cênicas como uma das vocações do espaço, assim como consequente formação de plateia e democratização do uso de suas dependências para sobretudo grupos de teatro moçambicanos".

Segundo o curador da mostra, o actor brasileiro radicado em Maputo, Expedito Araújo, os artistas convidados trazem temas relacionados intimamente com a contemporaneidade da vida moçambicana e prometem surpresas, já que são estreitamente comprometidos com o fazer teatral. "Assim o Grupo Teatral Os Anónimos, o Grupo de Teatro do CCBM, o Grupo Cultural Hanya Arte, o Grupo de Teatro Tsakile Ngopfu, o Grupo Teatral Makwerho e as actrizes Lucrécia Paco e Melanie de Vales, a poetisa Énia Lipanga e a bailarina cubana Nena Vernes nesta mostra fazem valer o poder do teatro: de contar, de contestar, de reinventar, de transformar, para melhorar a vida, sempre.”.

A abertura oficial da mostra vai realizar-se no dia 18, às 18h30, no Auditório Vinícius de Moraes e arranca com "Comédias da vida privada", com o Grupo de Teatro Tsakile Ngopfu. É uma livre adaptação de Alberto Manoel a partir do livro do escritor cronista brasileiro Luís Fernando Veríssimo. A peça coloca em jogo a família, as angústias, os casais, os vizinhos barulhentos e a infidelidade. No elenco juntam-se Ana Fernandes, Danilo Cruz, Edgar Mbanze, Hervé Muneza, Isabel Taborda, Joana B, Lara Faria, Mar Correia, Rassula Santos e Yasfir Yusuf, com participação especial de Amélia Socovinho, Jéssica Garbo e Rivaldo Mumguambe, do Grupo de Teatro do CCBM.

No segundo dia, mesma hora, ao palco vai "Kuphanda", com o Grupo Teatral Makwerho. "Kuphanda, flores que nunca murcham?" é uma obra de artes cénicas que retrata a vida dos meninos da rua. Esta obra faz com que o espectador imagine a realidade passada nas ruas, levando-o a uma reflexão sobre o passado e o presente de quem sofreu os efeitos da vida nas ruas, elevando mais o valor dos mendigos, convidando os diversos traços sociais a valorizar a esta camada social. A obra foi criada pelo artista moçambicano Estreanty (Ernesto Langa para todas faixas etárias.

No dia 20 será a vez de "Que as paredes não me deixem mentir", com Énia Lipanga, Expedito Araújo, Melanie de Vales e Nena Vernes. Este é um espectáculo de poesia erótica onde vão ser interpretados, cantados e dançados poemas de Énia Lipanga. A interpretação estará a cargo de Expedito Araújo, na música a actriz e cantora Melanie de Vales e na dança estará a bailarina cubana Nena Vernes.

No dia 21, "A Espera do Godot", com o Grupo Teatral Os Anónimos. A espera do misterioso Godot pretende despertar a necessidade de cada um manter a esperança de um provável futuro melhor, depois das crises, miséria e fome que assolam o país. A peça, de Samuel Beckett, com adaptação e encenação de Fernando Macamo e supervisão de Angelina Chavango discorre sobre dois amigos Didi e Gogo, que depois da guerra ter destruído tudo, misteriosamente ganharam uma fé inabalável de que alguém muito poderoso virá buscá-los. E lá como forma de passar o tempo brincam, jogam, cantam, armam ciladas, tudo porque dá um tédio esperar no vazio por um desconhecido.

"A casa da fantasminha", com o Grupo de Teatro do CCBM, será apresentada no dia 23. A velha casa da fantasminha é palco de descobertas, amizades e trapalhadas. É onde os dois mundos se cruzam, o de fantasmas e de gente para brotar alegria. Texto de Pedro Heim e direcção de Maria Clotilde. No elenco, Abel Zacarias, Amarildo Rungo, Almira Rego, Amelia Socovinho, Cheila Maluleque, Eduardo Agostinho, Faizal Ussena, Filó Magaia, e Yuny Quehá, integrantes do Grupo de Teatro do CCBM.

Ao CCBM, Lucrécia Paco irá com "Soltar a palavra", uma forma de percorrer o tempo e o espaço através de excertos de autores que marcaram a trajetória da actriz.

Outro espectáculo que será apresentado é: "Ngilina da Zona", com o Grupo Teatral Hanya Arte. Ngilina, jovem vítima da tradição moçambicana, lobolada aos 16 anos, sofreu violações pelo seu marido. Ela foge de casa e como consequência torna-se prostituta com intuito de ganhar dinheiro e devolver o lobolo, que lhe torna presa ao seu passado. Com o Grupo Teatral Hanya Arte, grupo criado em 2016 com o propósito de promover, incentivar e desenvolver actividades culturais, tendo como foco o teatro. Com dramaturgia e encenação de Maria Clotilde, traz no elenco, Joana Mbalango, Ailton Zimila e Fernando Macamo.

 

 

Veio à capital do país para participar na Feira do Livro de Maputo. Ali encontrou-se com escritores e leitores e ainda referiu-se à sua oficina literária. Depois disso, o escritor português, Valério Romão,  garantiu: “não sei como, mas Moçambique vai se imiscuir na minha escrita”. 

 

Pela primeira vez vem a Moçambique. Como é esta coisa de conhecer um país por via da literatura?

É, de certa forma, estranha. É a primeira vez que estou cá em Moçambique e em África. Sinto-me entusiasmado por estar aqui, como é óbvio, e com vontade de ver as coisas a acontecer. 

 

É algo que lhe interessa estar em espaços que falam português? 

É óptimo estar em espaços que falam português. Embora eu tenha nascido em França e fale razoavelmente francês, a verdade é que qualquer outra língua que não seja português é sempre uma segunda língua que me obriga a uma tradução de mim próprio em simultâneo. 

 

Veio a Moçambique para participar na Feira do Livro de Maputo. O que significa para si estar em eventos literários desta natureza? 

Como em todo o lado, há escritores que gostam muito do contacto com os leitores e escritores que preferem um certo anonimato, os que cultivam a ausência desse contacto. Eu gosto de estar com os meus pares, gosto de lhes conhecer e de perceber o que pensam para além do que escrevem. Gosto de estar com os meus leitores, que são uma componente fundamental do que eu escrevo. Enquanto um autor deve ter uma autoridade suprema na forma como conduz um romance, quanto à interpretação desse mesmo romance a sua autoridade é completamente igual a do leitor. A sua interpretação não é melhor, nem pior, é apenas diferente. E é isso que eu também acho que traz beleza à literatura, esta democracia pós-feitura do livro que faz com que cada objecto possa ter múltiplas interpretações. 

 

Se podemos colocar a pergunta desta maneira, os que mais lhe interessam numa feira do livro são os escritores ou são os leitores?

Interessam-me os dois. Já me têm acontecido situações engraçadas com os leitores em eventos deste tipo. Eu tenho um livro que se chama Autismo, meu primeiro romance, que acaba de uma forma bastante dúbia. Uma vez teve um casal que numa apresentação do livro veio me perguntar qual dos dois tinha razão relativamente ao final. Como se eu tivesse alguma chave de leitura daquele livro, que não tivesse entregado quando o compôs, o finalizei, o imprimi e foi distribuído… A verdade é que eu não tenho essa chave, então voltamos à interpretação de cada um. A minha interpretação não é soberana em relação à interpretação deles. Eu acho que eles ficaram um bocado chateados comigo por eu não dar nem razão a um e nem razão aoutro. Acho que teriam ficado menos chateados se eu tivesse dado menos razão a qualquer um deles. 

 

Mesmo a propósito desse seu romance, Autismo, de uma linguagem dura e realidade crua. Por quê a crueldade?

A questão da crueldade tem sobretudo que ver com cada livro… A forma e o estilo devem adequar-se ao tema que se está a falar. Acho que seria desonesto da minha parte escrever sobre um assunto que é o autismo e adorná-lo de tanta decoração fantasiosa. Recuso-me também a isso porque acho que isso faz parte das indústrias do entretenimento, sejam elas o cinema ou a literatura de entretimento. E eu acho que a minha missão não é essa e a da literatura não a vejo a passar por aí. Tentei adequar a minha forma de escrever, o meu estilo à dureza que o próprio tema exige. Não quer dizer que eu vá ser sempre duro ou que escreva da mesma forma. Pareceu-me que seria uma fraude tentar vender aquele tema retirando-lhe todo o sangue e todas as vísceras que a prior tem. Há filmes sobre a guerra que são delicodoces, que se transformam em qualquer coisa que possa ser vista por toda a família ao domingo à tarde, mas isso não é uma coisa que me interessa. A mim interessa-me a radical honestidade. 

 

A sua escrita é uma tentativa de buscar a história quotidiana ou de fugir disso?

São dois movimentos complementares. Ainda agora eu estava a vir aqui ter contigo, e, como é a minha primeira vez em Maputo, estou sob carga de sensações. Estou atento a tudo de uma forma que não estaria se estivesse em Lisboa porque lá eu já conheço tudo. Inclusive tenho a certeza de que Moçambique há-de voltar, de alguma forma, não sei qual, à minha escrita. Não sei excatemente como, mas Moçambique vai se imiscuir na minha escrita. Precisamente porque a escrita comporta-se nos seus movimentos a absorção, gestão e recomposição em alguma coisa de novo e de literário. 

 

Resolveu estudar Filosofia porque sempre acreditou que lhe daria conteúdo, ao invés da Literatura que lhe daria a forma. Não há conteúdo num curso de Literatura? 

É diferente. A abordagem é radicalmente diferente. Nietzschediz que alguém se torna escritor quando começa a ver a própria forma como conteúdo. De facto passa muito por aí, porque o estilo e a forma são a marca de um escritor e podemos ver isso tendo em conta que a Humanidade enquanto repositório de sonhos e esperanças não mudou muito nos últimos três mil anos. Ou seja, toda a nossa evolução é tecnológica, mas continuamos a amar, a odiar, a cobiçar, e etc. Portanto, esse fundo não muda, o que muda é a roupagem da época e o estilo do escritor. Nesse sentido, achei que Filosofia me dava melhor conhecimento da estrutura do humano do que a Literatura me podia dar num ponto de vista estritamente teórico, embora toda a Filosofia sejaassente nos discursos de literatura e nos relatos que a literatura traz. 

 

A forma já está inventada. É isso que está a querer dizer?

A forma é uma construção, o humano não é uma construção. Ou então é uma construção diferente da forma. 

 

Como a Filosofia tem-lhe valido na criação literária?

Há muitas situações que eu descrevo numa perspectiva literária, cujo fundamento é uma perspectiva filosófica. 

 

O que mais exigiu de si o Autismo?

Em primeiro lugar, exigiu-me passar pela situação descrita no livro. Não que o livro seja uma biografia, mas tem uma componente biográfica. A primeira condição para o ter escrito foi passar pelas vivências que lá são enunciadas em alguma parte. Ou seja, para escrever um livro como Autismo há que ter uma quota-parte de empenhamento de uma situação semelhante. 

 

O Autismo, livro escrito em três meses, é a forma de expressar o que não conseguiria se não fosse pela literatura?

Sim, também. Acho muito difícil contar uma história com aquela beleza temporal sem ser pela literatura, pelo teatro ou pelo cinema. Acho que estas são as artes narrativas que melhor exprimem este tipo de experiências.

 

Autismo é um livro catártico. A catarse é algo que lhe preocupa como escritor?

Eu acho que me preocupa mais do ponto de vista do leitor do que do ponto de vista do escritor. É mais importante induzir a catarse no outro do que a procurar por si próprio. 

 

Qual é a consequência que pode advir de nós ativarmos a catarse?

Pode advir uma certa redenção, uma espécie de afinal a culpa não é minha ou não é inteiramente minha. 

 

Além de Autismo é autor do livro O da Joana. O que lhe interessou no universo feminino, naquela história? 

Primeiro, foi o grande desafio de falar na perscpetiva de uma mulher, a possibilidade de mergulhar no corpo de uma personagem e fazer de contas. A literatura é um faz de contas. 

 

Ao escrever esse livro pensou em dar protagonismo à mulher por um factor extraliterário? 

Não. Para ser honesto, o que me interessou ali foi aquela história que me pareceu merecedora de ser contada e o desafio de a contar. 

 

Estes dois livros fazem parte da trilogia Paternidades falhadas. Como é que se falham essas paternidades?

O nome surgiu precisamente por causa do primeiro livro, Autismo. Neste caso é simples explicar. Penso que alguém é pai ou mãe em dois momentos distintos. Um, quando a criança nasce; dois, quando a criança diz papá ou mamã, uma espécie de reflexo que legitima aquela pessoa enquanto pai ou mãe. No caso do Autismo, existe um primeiro momento em que a criança nasce, mas não existe um segundo momento em que a criança fala. Não falando, não há esse momento de confirmação, esse reflexo que devolve a imagem daquilo que se é. A falha é precisamente essa. Em O da Joana a falha é diferente porque é alguém que quer ter um filho de forma obsessiva há anos e que vai à maternidade para descobrir que o filho está morto com sete meses de gravidez. No caso do que fecha a trilogia, é uma mãe com uma filha com Alzheimer, uma filha que não foi criada para ser adulta e que de repente, quando a mãe fica com demência, tem que tratar dela, como se a filha fosse a mãe e como se a mãefosse a filha. 

 

O que quis encontrar na Feira do Livro de Maputo?

Pessoas que estão a escrever agora e que não conheço pessoalmente. 

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Parasita, de um realizador sul-coreano que não consigo lembrar o nome, e a obra de António Cabrita, que acaba de lançar uma antologia de poesia hispano-americana, traduções que ele fez de uma série de autores espanhóis e sul-americanos. 

 

 

PERFIL
Valério Romão é escritor português. Nasceu em 1974, em França. É formado em Filosofia e é autor de Autismo e O da Joana. Além de escritor de ficção, escreve para o teatro.

Desde terça-feira, a Associação Cultural Scala está a projectar uma mostra de filmes produzidos por realizadores dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e Timor Leste. Das mostras selecionadas para a projecção constam dois filmes do cineasta angolano Zezé Gamboa, nomeadamente O herói e O grande Kilapy.

Este segundo foi o escolhido pela organização da mostra para inaugurar a sessão que dura até dia 30 deste mês.

Os filmes dos seis países falantes de português, seleccionados para este ciclo de cinema, foram todos financiados pela União Europeia, que também apoia a mostra. António Sanchez-Benedito, Embaixador da União Europeia em Moçambique, na abertura da sessão cinematográfica explicou por que a sua instituição investe dinheiro na sétima arte dos países envolvidos no evento: "Para a União Europeia, o apoio às indústrias criativas no sector da cultura é muito importante porque, por um lado, acreditamos ser um factor de desenvolvimento económico, e, por outro, porque ajuda no melhor entendimento dos povos e das pessoas. Estes filmes trazem determinados contextos, que são comuns nos PALOP e em Timor Leste. Por isso estamos felizes por podermos apoiar esta iniciativa".

No entendimento do Embaixador da União Europeia em Moçambique, os filmes seleccionados para a mostra de cinema no Scala apresentam uma mensagem forte de esperança e confiança no futuro. Mas esse futuro ainda é incerto para os cineastas dos PALOP e Timor Leste, pois falta financiamento interno. Sobre este assunto que também preocupa muitos realizadores moçambicanos, Zezé Gamboa pronunciou-se, terça-feira à noite. No entanto, o angolano, primeiro, realçou a relevância da iniciativa sem fins comerciais: "Nós, no contexto dos PALOP e em timor Leste temos um mercado cinematográfico muito frágil, então é bom que, a partir destas sessões, as pessoas fiquem sabendo o que está a ser feito nos nossos países".

Depois disso, Gamboa focou-se nos factores que fragilizam a tal produção cinematográfica que se quer fértil: "Nos nossos países não há vontade política para que tenhamos uma produção cinematográfica séria. Todos os nossos países têm leis do cinema, mas que não saem do papel. Não saindo do papel não há concursos e não há possibilidades dos cineastas filmarem. Os realizadores mais velhos ainda conseguem apoio no estrangeiro, mas a juventude tem feito um esforço super heroico para produzir filmes. É dramática esta coisa de não haver um apoio para financiar filmes nacionais".

No último dia desta mostra de cinema serão exibidos filmes de jovens cineastas, uma forma de, segundo Sol de Carvalho, mostrar que há uma nova geração que está a trabalhar.

 

Os filmes selecionados para mostra de cinema no Scala:

Angola

O grande Kilapy – Zezé Gamboa

O Herói – Zezé Gamboa

 

Guiné Bissau

A República dos meninos – Flora Gomes

Nha Fala – Flora Gomes

 

Moçambique

O último voo do flamingo – João Ribeiro

A virgem Margarida – Licínio Azevedo

O jardim do outro homem – Sol de Carvalho

 

Curtas PALOP-TL

Percursos – Mauro Pereira (Angola)

Hora Di Bai – Samira Vera-Cruz (Cabo Verde)

Pá Nha Téra – Rui M. da Costa (Guiné-Bissau)

Vestindo a religião – Yara Costa (Moçambique)

Mina kiá – Kátya Aragão (São Tomé e Príncipe)

Tara bandu – Victor de Sousa (Timor-Leste)

 

 

 

Do rhonga, língua de Maputo, bonga significa berrar, gritar ou bradar. Coincidentemente, Bonga também é o apelido de Jaime, estudante recentemente licenciado em Ensino de Português pela Universidade Pedagógica de Maputo, que, sexta-feira, venceu a 16ª edição do Prémio Eloquência Camões. Mesmo assim, o vencedor não bongou, quer dizer, não berrou e nem gritou. Manteve a humildade aparente, tentando conter a satisfação de vencedor. Os sorrisos não o permitiram. Quando João Pignatelli, Director do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, disse o seu nome, ao anunciar o vencedor, Jaime, que poderia ser Bonde, mas que é Bonga, apenas sorrio com elegância, como se também isso tivesse aprendido ao longo das semanas nas oficinas da oralidade orientadas pela actriz Ana Magaia.

Sem fazer justiça ao apelido que possui, no fim da cerimónia, Jaime Bonga falou serenamente, explicando por que se inscreveu no Prémio Eloquência: "sou muito apaixonado pela oratória. Escrevi-me neste concurso exactamente para desenvolver essas habilidades da oralidade. Fico feliz com este prémio e espero que esta seja uma porta aberta para mim mesmo, de modo que possa evoluir sempre e cada vez mais".

A 16ª edição do Prémio Eloquência Camões foi a primeira que teve como público-alvo estudantes universitários. Na final realizada sexta-feira, oito concorrentes disputaram o grande prémio de oratória. Além de Bonga, mais dois foram premiados, nomeadamente, Henrique Benhane e Pedro Sitoe.

Henrique Benhane, segundo classificado do concurso, destacou o seguinte da sua participação: “Penso que desta formação o que se pode retirar são as aulas que tivemos com a professora Ana Magaia. Penso que este concurso possa servir como montra e para me catapultar para outros terrenos que eu quero seguir”. Não distante desta abordagem, Pedro Sitoe considerou, no final da cerimónia desta sexta-feira, que “a oratória é algo que eu sentia estar em falta em mim. Por isso, quis poder aperfeiçoar a arte de poder falar em público. Com este concurso, tive a oportunidade de agregar valores”.

Além da actriz Ana Magaia, o Prémio Eloquência teve como membros do júri a docente universitária Carla Maciel e o Leitor do Camões na Universidade Pedagógica de Maputo, José Marques.

Na Oficina desta iniciativa que resulta de uma parceria entre o Camões – Centro Cultural Português e a Universidade Pedagógica de Maputo, os estudantes aperfeiçoaram técnicas de expressão oral dos textos que submeteram a concurso, os quais foram apresentados publicamente na final.

Os três classificados desta edição do Eloquência foram premiados com livros, certificados e dinheiro (cinco mil para o primeiro lugar, três mil para o segundo e dois mil meticais para o terceiro).

Orlando da Conceição caminhou até ao palco vagarosamente. Com o peso da idade às costas, o saxofonista e professor de Música subiu alguns degraus e, em alguns minutos, colocou-se no centro dos holofotes, onde esperaram por ele António Prista, Hortêncio Langa, Joel Libombo e Calane da Silva, a velha guarda do grupo TP50. A razão disso no meio de um espectáculo? Simples…

Na passada sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, cidade de Maputo, além de um tributo à música moçambicana em geral, no caso aquela feita desde a independência a esta parte, num concerto designado “Os tocadores de agora”, TP50 quis, em particular, reconhecer o trabalho de duas entidades que muito contribuem para o desenvolvimento da arte nacional através da formação de artistas. Primeiro foi Orlando da Conceição, a quem devem “eterna gratidão” autores como Moreira Chonguiça, Ivan Mazuze ou o outro Orlando, o Venhereque.

No palco, meio encabulado, Da Conceição agradeceu pelo reconhecimento, tendo ouvido, de seguida, aplausos de um público que se colocou de pé enquanto o saxofonista esteve no palco, de onde saiu com um galardão simbólico oferecido pelo TP50.  

Pela mesma razão que Orlando da Conceição, a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) também foi homenageada pelo TP50. Das mãos de António Prista, recebeu o galardão da ECA o professor de Teatro daquela instituição, Dadivo José, que igualmente é actor. E quando se pensava que não haveria mais nada de honras, lá mais para o fim, TP50 teceu elogios ao homem da “Baila Maria”. Já sem o fulgor de outros tempos, que a velhice consegue pausar muito o ritmo da vida, Chico António fez um dueto com Cheny Wa Gune, sempre ao som ao vivo do resto da banda TP50.  

44 anos de música num espectáculo
Há alguns meses, TP50 apresentou a reposição do tributo à música moçambicana num espectáculo denominado “No tempo dos tocadores”. Nessa viagem, o grupo percorreu o século passado, recuperando as primeiras ou então as mais badaladas manifestações musicais no país. Na sexta-feira, o grupo continuou o seu projecto de tributar a música, desta vez, de 1975 até esta parte.

À imagem dos dois concertos anteriores, a missão de contextualizar as tendências musicais nacionais coube a Horácio Guiamba, que, a partir de uma abordagem teatral, animou e informou os telespectadores. Quer isto dizer que TP50, novamente, não só apostou em música. Ao Franco-Moçambicano, também levou muita dança e poesia dita por Calane da Silva. Na primeira aparição, o poeta recitou “As saborosas tangerinas de Inhambane”, de José Craveirinha, e, na segunda, um poema da sua autoria.

Seja como for, a música foi o principal. Com toques de timbila e exaltação a Eduardo Durão, TP50 iniciou o espectáculo, destacando os feitos dos Ghorwane, dos Alambique e do falecido Jeremias Ngoenha. Mesmo a condizer com os tempos actuais, ouviu-se no franco o tão popular “La famba bicha”, uma sátira aos “candongueiros”, esses que sempre se julgam no direito de se colocar à frente dos outros na fila só porque podem pagar mais.

Costa Neto, Wazimbo, Mingas, Grupo RM, José Mucavel, Djakas, Ali Faque, Moreira Chonguiça e Jimmy Dludlu são outros autores cujas músicas foram cantadas ou tocadas por TP50. E houve mais. Contra todas expectativas, eventualmente, o grupo também interpretou, com originalidade, “Ta se numa nice”, da Bang Entretenimento. “Pandza in the building”! Aquela música adicionou o tom muitas vezes hilariante ao concerto.

Alguns nomes do espectáculo
Jorge Mbie é antigo participante da segunda edição do Mozkids Talents. Quando o concurso infantil da Stv terminou, o violinista já não precisou de provar a ninguém que sabe tocar o seu instrumento predileto. Mas uma coisa é destacar-se num programa em que uma criança concorre com outras crianças e outra é, como aconteceu, um menino de 11 anos de idade deixar toda gente estupefacta no Franco-Moçambicano. Mbie tocou enquanto cantaram Xixel Langa e Onésia Muholove. Estes são os outros dois nomes a reter do espectáculo. A primeira pela performance em geral, a segunda por ter interpretado a um nível soberbo o que TP50 considerou “Momento lírico”. Onésia foi brutal e a Sala Grande reconheceu-lhe o talento do canto.

Por fim, e não os menos ou mais importantes, Bruno Huca e Texito Langa. Houve sensação de que cantar ou tocar bateria são coisas fáceis.

 

 

No dia 19 de Outubro de 1986, um grupo de teatro quis anunciar o seu surgimento em Moçambique. No entanto, nesse mesmo dia o país perdeu o seu primeiro Presidente da República e várias pessoas que com ele seguiam no Tupolov 134, que regressava de uma visita de Estado na Zâmbia. Devido à tragédia de Mbuzine, o grupo teatral só conseguiu anunciar-se algumas semanas depois. Já era mês de Novembro. Mas como tudo começou?

Há mais de 33 anos, Manuela Soeiro comprou o Teatro Avenida. O grande objectivo da encenadora e produtora, na altura, foi o de criar um grupo profissional de teatro com qualidade. Na véspera da viagem de Samora Machel para Zâmbia, Manuela Soeiro e Gulamo Khan passaram a noite a conversar. Lá mais para o fim da noite, a encenadora disse ao jornalista que iria anunciar o surgimento do seu grupo teatral. Mas faltava um nome. Então, Khan, que morreu no mesmo acidente de Mbuzine, sugeriu que fosse Mutumbela Gogo, inspirado nas cancões populares que lá para os subúrbios de Maputo se cantavam na época do carnaval. Sem imaginar que não voltaria a ver o jornalista, Manuela Soeiro aceitou o nome e assim foi baptizado o grupo teatral mais antigo do país.

Nesse princípio, com a Manuela estiveram João Manja e Victor Raposo. Com o tempo, foram surgindo actores recrutados para se profissionalizar no Mutumbela, como Evaristo Abreu, Adelino Branquinho, Lucrécia Paco ou Graça Silva. Nada foi fácil. Para manter o grupo que agora completa 33 anos de existência o grupo teve de ultrapassar vários obstáculos. Numa época de crise, sem dinheiro e tão-pouco patrocínio, Manuela Soeiro abriu uma padaria e também passou a confeccionar alimentos para que conseguisse pagar os actores.

Ao longo dos anos, Mutumbela Gogo fez teatro debaixo dos cajueiros. Nas viagens ao estrangeiro, os actores dormiram nos no chão dos teatros onde exibiram peças, já que não podiam pagar por um hotel. Entre carências e adversidades, o grupo foi-se consolidando, procurando elaborar peças não óbvias.

Como forma de assinalar os 33 anos de existência, Mutumbela Gogo levou ao palco do Teatro Avenida, esta quarta-feira, a peça Xicalamidadi, que, igualmente, encerrou o Festival de Teatro Ahoje é Ahoje. Na verdade, Xicalamidadi é um espectáculo apresentado há 19 anos, a propósito das cheias de 2000 que afectaram Moçambique. Porque o país enfrentou, este ano, duas grandes calamidades naturais (os ciclones Idai, no Centro, e Kenneth, no Norte), a peça foi recuperada para retratar o drama dos que perderam tudo, mesmo o que não tinham.

Na visão do Mutumbela Gogo, Xicalamidadi é uma história de esperança e de alegria. “Quando decidimos trabalhar o tema das cheias em teatro, criámos uma história e algumas personagens. Para vestir essas personagens de maior profundidade decidimos ir aos lugares que foram palco da tragédia. Recolhemos depoimentos tristes de quem perdeu tudo, mas recolhemos tambe?m canc?o?es que cantaram em cima das a?rvores para na?o adormecer. Recolhemos pretextos para fazer a alegria e recolhemos enfim, lic?o?es de dignidade. Essa dignidade de quem sabe que pode contar com os outros. Mas sobretudo, de quem por si mesmo se ergue do cha?o e volta a caminhar, para começar a vida uma outra vez”, realça o grupo.

Passados tantos anos a remar contra maré, a pretensão de Manuela Soeiro é deixar um legado para as próximas gerações de actores: “Por isso estou a construir uma escola de teatro com um museu, cujo objectivo é preparar os actores a saberem mais coisas além da arte de representação. Para que um actor seja um bom actor, tem de aprender tantas outras coisas à sua volta. Lutando sempre para não desistir”, afirmou Manuela Soeiro, para quem o teatro é a possibilidade de poder dar às pessoas a possibilidade de sentir um pouco de si e do país onde vivem. “O tetro é como se fosse uma arma. Bem usada ajuda na formação e no crescimento da pessoa”.

Um dos actores mais consagrados do Mutubela Gogo, Adelino Branquinho, também não deixa dúvidas de que a continuidade do grupo resulta de muita perseverança. Caso contrário, não teriam conseguido resistir a tantas intempéries, como a de não conseguir dinheiro para criar peças. “Vocês não imaginam como é tão difícil para um actor querer apresentar espectáculos teatrais e não poder porque falta financiamento. Essa é das coisas mais difíceis que temos de suportar”. Então, Branquinho deixa uma recomendação: “O teatro tem força. É preciso que se apoiem os actores na apresentação das histórias deste país”.

FESTIVAL AHOJE É AHOJE
Entre várias actividades, apresentação de peças teatrais e de livros, o Festival Ahoje é Ahoje homenageou, nesta edição, a Melhor Actriz da Europa 2019, Maria do Céu Guerra. A portuguesa foi distinguida “Patrona” do evento do Mutumbela Gogo. A razão da distinção é referida numa nota do grupo: Maria do Céu Guerra “tem sido uma permanente cidadã cultural a quem o teatro moçambicano deve gratidão. Pioneira, desde a independência, na formação de actores em Moçambique com o seu grupo A Barraca, que fundou em 1976. A porta do seu teatro, em Lisboa, tem recebido o teatro e as artes moçambicanas. Aos 75 anos, é uma das mais extraordinárias actrizes do teatro português e a alma da companhia teatral independente A Barraca”.

Do mesmo modo, Mutumbela Gogo quis com o festival manifestar gratidão às actrizes Graça Silva (falecida) e Lucrécia Paco. “Num ano em que se celebram os 33 anos do Mutumbela Gogo, um momento também especial para demonstrar um tributo de gratidão a Graça Silva, actriz que ocupará sempre um lugar único na história do nosso grupo, e Lucrécia Paco, actriz que, com seu talento, é uma referência inigualável na trajectória do Mutumbela Gogo, tendo sido um elemento preponderante na primeira edição do Ahoje é Ahoje”.

 

 

 

 

Há algum tempo, o cantor e guitarrista Xidiminguana tem atravessado um momento difícil. Doente, o autor teve de ser internado no Hospital Central de Maputo. Mas o pior já passou para a família Honwana, pois o artista teve alta hospitalar e já se encontra a recuperar no seio familiar.

Ainda assim, Xidiminguana precisa de dinheiro, sobretudo agora que não pode pisar os palcos para fazer o que realmente gosta: cantar e tocar. Por isso mesmo, depois de uma visita efectuada por Silva Dunduro, o Ministério da Cultura e Turismo decidiu lançar uma campanha de apoio a Xidiminguana. Já que o músico possui cinco mil exemplares de discos diversos (originais) da sua autoria, sem ter onde os vender, até porque teme que sejam pirateados, o Ministério decidiu comercializá-los em algumas repetições suas. Assim, a Casa de Ferro, o antigo Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema e o Instituto Nacional do Livro e do Disco foram os locais escolhidos para a venda das obras discográficas de um dos maiores compositores da música popular moçambicana.

Mais do que ceder espaços para venda dos discos de Xidiminguana, na comunicação que o Ministério da Cultura e Turismo fez na manhã desta terça-feira exortou aos apreciadores da música do artista e ao público em geral para, pelo menos, comprarem um disco ao preço de 500 meticais, como um gesto solidário.

“Mesmo sem poder ir aos palcos ou perder noites por razões de saúde, Xidiminguana tem um legado que pode vender: os discos dele. Isto leva-nos a apelar à sociedade moçambicana e às instituições para que comprem os discos de Xidiminguana”, afirmou Arnaldo Bimbe, representante do Ministério da Cultura e Turismo.

Questionado sobre se não seria oportuno o Ministério da Cultura e Turismo pagar pelos discos do músico, dando-lhe assim dinheiro imediato, e, depois, reaver o valor aos poucos, Arnaldo Bimbe assumiu que a ideia é, de facto, boa. Mesmo assim, para já o Ministério da Cultura não vai avançar com a proposta.  

Xidiminguana (Domingos Honwana) nasceu na localidade de Vuthu, do distrito de Bilene, província de Gaza, a 03 de Agosto de 1936. Filho de pais camponeses, apascentou gado na infância. Em 1949, Xidiminguana aprendeu a tocar a sua primeira viola feita de lata e fios de pesca e no mesmo ano conseguiu comprar uma guitarra. É autor de grandes sucessos, como “Xikona”, “Nilhaisse”, “Mwamungoro”, “Tiba bem” e “Frelimo”.

Dois anos depois de uma paragem forçada, o teatro está de volta à cidade de Inhambane.

A sala multiuso do Cine Teatro Tofo é a única sala de teatro em Inhambane, entretanto fechada desde 2017, depois que foi devastada pelo ciclone Dineu. De lá a esta parte, as artes cénicas entraram em hibernação.

Agora, num outro palco na Casa Provincial da Cultura em Inhambane, quatro actores pretendem devolver as artes cénicas na terra da boa gente.

Pra já, está em exibição a peça "Mãe Grande" que retrata a história de uma mulher que junto do seu marido vivem com o seu irmão, que entretanto impulsiona a irmã a trair o marido em troca de dinheiro.

Denominado Fundzeketa, que em português significa constipação, o grupo pretende colocar sorrisos em muitos rostos, mas relatando factos do dia-a-dia da terra da boa gente, desde coisas boas como forma de estímulo até à crítica das coisas más para retrair tal comportamento.

Os Fundzeketa pretendem ainda trabalhar com as camadas iniciais para que nasçam mais grupos teatrais em Inhambane.

 

 

, Presente na VII edição do Festival Internacional de Turismo – FIKANI 2019, a Província de Inhambane apresentou o melhor que se pode desfrutar nos 700km de uma combinação da areia branca, do azul do mar e do sol.  

Como resultado do seu potencial, a província arrecadou pela quarta vez consecutiva o Prémio de Melhor Expositor.

Paralelamente, a agência de viagem Moz Massaii ganhou o prêmio de Melhor Stand nacional e o operador turístico José Da Cunha, que é igualmente o Presidente da Associação Provincial de Hotelaria e Turismo de Inhambane, foram sorteados com uma passagem aérea e alojamento no Hotel Meliã!

A Província de Inhambane participou na presente edição do FIKANI com uma delegação constituída por 32 expositores distribuídos por 11 Stands, dos sectores público, privado, fazedores das artes e cultura, incluindo a rica gastronomia de Inhambane.

O stand de Inhambane recebeu mais de 1200 visitantes, os quais na sua maioria buscavam informações sobre os principais pontos de interesse turístico, alojamentos, eventos e actividades para quadra festiva do Natal e Final-de-Ano, bem assim produtos diversos como bolos e torradas de Sura, frutas secas, piri-piri da Dona Rachida, licores, artigos de arte e de artesanto.

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