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O País – A verdade como notícia

A produção de um filme é sempre uma grande preocupação para os cineastas dos PALOP. E busca do financiamento está no topo dessas preocupações. Para Zezé Gamboa, a falta de vontade política na África subsaariana é dos grandes factores que conduz os realizadores a uma situação de mendicidade. Por isso, o cineasta angolano, autor de O grande kilapy, defende, nesta entrevista, que é chegada a altura de os governos investirem na sétima arte.

 

Maputo tem organizado mostras de cinema com filmes de realizadores africanos. Qual é a importância deste tipo de iniciativa para si?

Logo à partida, a grande importância disso reside na circulação de filmes, porque nós nos conhecemos muito pouco em África. E acho que as mostras que acontecem em Maputo seriam ainda mais impactantes se passassem em outros países de língua portuguesa.

 

Quais são as dificuldades que limitam a circulação de mostras de cinema entre os PALOP?

Organizar uma mostra não é assim tão fácil. É preciso que haja uma logística para o efeito e apoios que garantam a aquisição dos filmes e a participação dos cineastas.

 

Na última mostra que passou no Scala, os filmes foram todos financiados pela União Europeia. Ou seja, nenhum realizador dos PALOP e Timor Leste teve (apenas) um suporte de uma entidade nacional. O que isto quer dizer?

Quer dizer que os nossos países devem se preocupar mais com a cultura e com o cinema. É muito importante que os nossos países tenham uma vontade política e uma atitude pro-activa em relação aos nossos cinemas. Nós vamos tentando sempre ter apoios no estrangeiro. Isto é, o filme tem uma identidade nacional, mas nunca o cunho financeiro é dos nossos países.

 

Nos últimos dois anos, Moçambique produziu quatro filmes, o que se considera muito bom. Com estes números, será possível que Moçambique e Angola, realidades com as mesmas dificuldades, conseguiam competir com países como Senegal, Burquina Faso ou Nigéria?

É complicado. No cinema, quanto mais produzes, maior é a possibilidade de teres qualidade. Por exemplo, Bollywood faz mil filmes por ano, e apenas 40 ou 50 é que são bons. A Hollywood produz por aí 450, 500 ou 600 filmes ao ano e serão mais ou menos 40 ou 50 bons. Portanto, fazer quatro filmes com as dificuldades que se fizeram, já é louvável e quase heroico. Agora, o que é importante é haver continuidade de trabalho. Em Angola, por aí em 2004, conseguimos produzir uns três filmes em pouco tempo. Mas e depois? Essa é a grande questão, até porque sempre vai surgindo uma nova geração de cineastas que também precisa de apoio. Portanto, vamos produzindo filmes como se pode, mas esta não é uma situação recomendável, pois estamos sempre dependentes dos outros. Sempre começamos a ter apoio de fora, o que coloca o nosso cinema numa situação de mendicidade, e uma das coisas que contribuem para que assim seja é que as leis não saem do papel nos nossos países.

Por que passam os realizadores mais novos, se mesmo para os cineastas como Zezé Gamboa ou Sol de Carvalho a situação é difícil?

É muito complicado para eles. A malta nova aguenta com muita coragem e com muitos sacrifícios que lhe é imposta.

 

As dificuldades que os cineastas jovens têm, nos PALOP, são as mesmas que teve a geração de Zezé Gamboa há 30 anos?

Não. Aí há um factor que difere tudo. Há 30 anos, e mesmo há 15 anos, havia um país que apoiava muito o cinema africano: a França, que abria muitos concursos para apoiar os cineastas africanos. Isso acabou e as dificuldades aumentaram. Depois de acabarem com esses concursos, eles criaram um fundo em que colocam eu, Licínio, João Ribeiro, e etc., a competir com grandes realizadores franceses. Ou seja, os trocos de 250 mil euros, que para nós já ajudaria muito, os consagrados vão buscar. E aquilo que eles precisam para tomar um champanhe, é o que nós necessitamos para fazer o nosso trabalho. Portanto, a lógica mudou.

 

A entrada da União Europeia não suplanta, digamos, essa “retirada” da França?

Não, porque os concursos da União Europeia não são anuais. E os concursos da União para o cinema estão fechados há três ou quatro anos. É muito tempo. Enquanto o da França era anualmente. E mais, os países francófonos, mesmo com as mesmas dificuldades sociais que nós, os PALOP, estão muito à frente porque a França sente-se na obrigação de continuar a apoiar, ainda que muito menos. Além disso, no Senegal, por exemplo, o governo criou um fundo de 3 milhões de dólares para o cinema. Esse é um valor de base, que permite os cineastas senegaleses começarem a trabalhar. Ou seja, as antigas colónias francesas em África perceberam que a França está a fechar-se e estão a criar condições que potenciem instituições nacionais ligadas, no caso, ao cinema. Por exemplo, Burquina Faso é pobre, mas tem fundo para o cinema. Mesmo o Quénia, aqui perto, também tem, creio, 2 milhões de dólares. Não é muito, mas é alguma coisa. Nos nossos países (PALOP), nem isso há.

 

Mas temos condições nos nossos países de apoiar o cinema de modo que os cineastas não recorram a fundos estrangeiros?

O problema aqui é um: vontade política. Se houver vontade política, fecham-se os filmes. Se não houver, a questão primária continuará a ser: “não há dinheiro”.

 

Mas temos condições financeiras, na sua opinião?

Sim, temos. Até porque quando pedimos dinheiro fala-se muito da Educação e Saúde, mas sabemos que esses sectores não melhoram… Para mim, a Educação e a Saúde são, de facto, dos sectores mais importantes de um país. Ma se não melhoram, não entendo por que não se financia o cinema. Outra coisa, se formos a ver, o reconhecimento dos nossos países, através do cinema, é mais eficaz do que através da Saúde. Não vejo os nossos médicos super conhecidos no mundo. Mas vejo a malta das letras e do cinema. Portanto, há um problema e o problema, volto a dizer, é vontade política. É preciso investirmos na Cultura e na Educação.

 

Já agora, como é esta coisa de contar a história do seu país a partir da ficção? Estou a pensar em O grande kilapy.

De facto essa história é verdadeira. Mais tarde eu encontrei o verdadeiro João, retratado no filme, e colhi as peripécias dele e de pessoas amigas. Depois dessa pesquisa surgiram os elementos para o guião.

 

Os seus filmes têm a particularidade de contar com participação de artistas de vários países. Por exemplo, em O grande kilapy estão Luís Carlos Patraquim (guião) e o actor Alberto Magassela. O que explica?

Acho isso muito mais interessante do que fazer um filme apenas com angolanos. Com pessoas de várias nacionalidades tenho mais possibilidade de aprender e isso é uma experiência boa. Gosto desse laboratório linguístico proveniente de diferentes geografias. É complementar.

 

Consigo, como acontece a selecção dos actores com os quais trabalha?

Há um feeling dentro de mim que me ajuda a perceber quem pode fazer bem determinados papeis. Claro, depois há um casting que é definitivo. No caso de Lázaro Ramos até foi diferente. Eu não o conhecia na altura em que estava a trabalhar para o Kilapy. Uma amiga minha disse-me que conhecia alguém que faria bem o papel de protagonista. Vi umas coisas dele e aí não saiu mais da minha cabeça.

 

Ele enquadrou-se com facilidade?

Com facilidade não, que ele é de uma cultura diferente. Tivemos de o orientar. Mas os bons actores como ele são inteligentes e conseguem mergulhar no universo que lhes é dado com muita naturalidade.

 

E tiveram de trabalhar o sotaque dele…

Sim, embora não tenha ficado bem do jeito que eu queria. Nesse tipo de casos, os americanos colocam o actor a trabalhar o sotaque com alguém uns três meses antes do filme começar. Infelizmente não foi o nosso caso. Foi um problema de produção.

 

Quais são as suas grandes preocupações cinematográficas?

Primeiro, a minha preocupação é fazer um grande filme e, depois, lutar para que vá a um grande festival de classe A, porque a partir daí sempre se consegue grandes voos. E eu consegui isso. Levei o filme ao Festival de Toronto.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a obra de Mia Couto e de Paulo Flores.

 

 

 

 

 

 

Há 10 anos que a Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM – CELP) edita literatura. Em uma década de publicação, aquela instituição de ensino já lançou aproximadamente 60 livros, e, ainda este semestre, vai levar às prateleiras mais três títulos infanto-juvenis.  

Um dos livros que será publicado em breve é intitulado O menino que odiava números, de Celso Cossa. Segundo Teresa Noronha, coordenador editorial, a EPM – CELP, tendo constado a falta de livros para leitores a partir dos 10 anos de idade, resolveu publicar o livro daquele escritor, que tem outros dois títulos lançados pela editora: O Gil e a bola gira e A capoeira dos sete pintos.

“Os nossos livros incidiam muito nos mais pequenos e o Celso começou a escrever O menino que odiava números, que acho interessante e que, ao mesmo tempo, fomenta o interesse pelas ciências, a Matemática em particular”.

Ainda este semestre, será publicado O pastor de ventos, da autoria de António Cabrita, poeta e escritor português a viver em Maputo há vários anos. O livro de Cabrita é a busca de um jovem que vive numa cidade em que tudo está em ebulição, portanto, sem paz. O personagem em causa, quando vê os pais a discutirem, tenta fazer alguma coisa. Nisso, surge alguém que lhe diz para procurar e domesticar o seu vento. De acordo com Teresa Noronha, a obra de António Cabrita “é um bocadinho desta metáfora de cada um procurar a sua paz e a transmitir ao próximo”.

Outro autor que vai publicar pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa é Sérgio Veiga. “Ele é caçador e mergulhador, e tem uma experiência muito ligada à natureza”, adiantou Teresa Noronha.

O livro de Sérgio Veiga tem como título As aventuras de Matoco, e revela uma preocupação que o autor tem em narrar histórias a partir de factos reais. Veiga também é autor de O velho e o mato e A primeira vida de Mapichana.

Entre os mais de 50 títulos publicados inicialmente pela Escola Portuguesa de Moçambique, quatro foram considerados Altamente Recomendável no Brasil, ano passado, designadamente: O pátio das sombras, de Mia Couto; Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo; Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos. Na percepção de Teresa Noronha, a distinção é muito importante porque dá a conhecer a literatura moçambicana noutros países de língua portuguesa. “O contacto literário não pode ser apenas no sentido de autores brasileiros e portugueses chegarem a Moçambique. Deve ser também no sentido inverso, de dar a conhecer os escritores de Moçambique e de outros países africanos no Brasil ou em Portugal. Outro aspecto, o selo Altamente Recomendável demonstra a importância que é atribuída à qualidade literária dos nossos autores e ao livro enquanto objecto. Sentimo-nos muito satisfeitos por isso”.

Além desse reconhecimento, cinco livros editados pela Escola Portuguesa de Moçambique foram adoptados ao ensino em Portugal: O Pátio das Sombras, de Mia Couto; O casamento misterioso de Mwidja, de Alexandre Dunduro;  Kanova e o segredo da caveira, de Pedro Pereira Lopes (para leitura autónoma do quinto ano de escolaridade); Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; e O caçador de ossos, de Carlos Santos (sugestões de leitura na área da formação de adultos).

Entretanto, no país nada disso aconteceu. “Não posso dizer que fico triste em relação a isso, mas espero sempre que aconteçam coisas melhores daqui em diante. Acho que os caminhos vão se fazendo”, disse Teresa Noronha, revelando que a Escola Portuguesa de Moçambique tem adoptado os infanto-juvenis ao ensino dos seus alunos.

A terminar, a coordenador editorial, sentada voltada de costas para uma estante de livros na biblioteca da Escola Portuguesa de Moçambique, na cidade de Maputo, sexta-feira à tarde, revelou o que considera ser um facto em relação à qualidade dos infanto-juvenis de Moçambique: “francamente, estamos a fazer um caminho importante. Sem falsa modéstia, tenho contactos de Cabo Verde e Angola, Moçambique está muito à frente em termos de produção de literatura para crianças. E isto também tem a ver com quantidade de jovens que têm aparecido a escrever para os mais novos. Estamos num bom caminho”.

Entre os vários autores publicados por aquela instituição de ensino, também estão Ungulani Ba Ka Khosa, Mauro Brito, Rogério Manjate e Hélder Faife.
 

 

O título da nova longa-metragem da Leopardo Filmes (Portugal) é o nome de um insecto: Mosquito. A obra cinematográfica foi rodada, primeiro, em Nampula. Depois, quando se tornou arriscado regressar àquela província por causa dos ataques no Norte do país, a equipa de produção virou as atenções para Marracuene. Naquele distrito de Maputo, foi montada uma aldeia igual a que se pretendia inicialmente. E pronto. As filmagens prosseguiram com um elenco constituído por vários actores moçambicanos, como são os casos de Josefina Massango, Ana Magaia, Mário Mabjaia, Aquirasse Nipita, Gigliola Zacara, Maria Clotilde, Messias João, Hermelinda Simela e Gezebel Mocovela – além de Sufaida Moiane que esteve como figurante.  

Assim, tendo como realizador João Nuno Pinto e como produtor Paulo Branco, a longa-metragem irá inaugurar o Festival Internacional de Roterdão, nos Países Baixos, no dia 22 deste mês, o que, segundo entendem Josefina Massango e Gigliola Zacara é uma grande oportunidade de exportar a arte e a cultura moçambicanas no estrangeiro.

Ora, Mosquito é a história de Zacarias, avança a sinopse, “um jovem português sedento por viver grandes aventuras heroicas durante a Primeira Guerra Mundial. Enviado para Moçambique, onde o conflito se desenrola longe dos olhares do mundo, o soldado vê-se deixado para trás pelo seu pelotão e parte numa longa odisseia mato adentro, à procura da guerra e dos seus sonhos de glória”. Mais do que isso, é igualmente uma história de desespero, isolamento, esperança e amor, que, essencialmente, descortina os bastidores da guerra, afinal, adianta Ana Magaia, é importante resgatar peripécias da guerra “para nos ajudar a lembrar de onde viemos, para onde vamos, o que fizemos e como foi que tudo aconteceu”. Para que as gravações do filme acontecem com sucesso, a actriz realça: “a Josefina teve um papel preponderante em todo o processo, porque foi a pessoa que, de certa maneira, ajudou o realizador a encontrar as actrizes, na tradução e em tudo o resto”.

Com a participação no Mosquito, pela primeira vez, Gigliola Zacara inicia-se num filme histórico, o que a actriz considera notável para o seu currículo. No filme, Gigliola é uma das integrantes da Aldeia das Mulheres, onde o papel de líder humana foi confiado a Josefina Massango e de guia espiritual a Ana Magaia.

Não obstante, Mosquito é uma história de ficção baseada em factos reais. Numa publicação feita sobre a longa-metragem, o realizador revela: “Em 1917, com apenas 17 anos, o meu avô paterno desembarcou em Moçambique junto com a 4ª Companhia Expedicionária Portuguesa, para defender a ex-colónia portuguesa da ameaça alemã. Como tantos outros soldados europeus em África durante a Primeira Grande Guerra, teve de fazer centenas de quilómetros a pé, em marchas diárias, enfrentando as mais duras privações, doenças, fome e sede. A diferença é que ele fez isso tudo sozinho, à procura da guerra e dos seus sonhos de glória. Mosquito é inspirado na história da chegada do meu avô a África. No entanto, o que se passou durante a sua longa e solitária caminhada pouco se sabe. É aqui que entra a ficção, a fabulação e o sentido que pretendo dar à narrativa”.

A longa-metragem Mosquito é uma produção da Leopardo Filmes em co-produção da Alfama Filmes Productions (França), APM Produções (Portugal), Delicatessem Filmes (Brasil) e Mapiko Filmes (Moçambique).

 

REALIZADOR NASCEU EM MOÇAMBIQUE

O realizador de Mosquito, João Nuno Pinto, nasceu em Moçambique, em 1969, e mudou-se para Portugal com cinco anos, logo a seguir à independência nacional. Os últimos anos do realizador têm sido divididos entre Lisboa (Portugal) e São Paulo (Brasil), onde residiu durante vários anos. A sua primeira longa-metragem de ficção é América, uma irónica reflexão sobre Portugal enquanto país destino de imigração. Mosquito, o seu mais recente filme, foi escrito pela sua mulher e também guionista, Fernanda Polacow, e por Gonçalo Waddington. O filme demorou quase sete anos a preparar.

 

 

Txukela, uma expressão em língua citswa que se traduzida em português significa açúcar, é o título do primeiro álbum da jovem cantora Tchakaze, um nome que por sinal, não veio por acaso. A cantora diz que o nome surge porque pretendia dar um nome neutro ao álbum, mas que ao mesmo tempo, fosse algo que combinasse com as 12 faixas do seu CD e lhe foi proposto o nome “Ulombe”, mas que não lhe agradou. A cantora é descendente de Manhambanes e conta que na sua casa, só falam citswa, aí pegou no “Ulombe” que ficou “Txukela” ambos com o mesmo significado.

Tchakaze diz que mais do apenas entreter as pessoas com música, usa o álbum como uma arma de guerra para combater vários males que afectam a sociedade, e exemplo disso são as músicas Nkata e A Luta Continua, que são uma espécie de chamado para as mulheres serem intolerantes à violência doméstica.

E porque o futuro está nas mãos dos mais jovens, a cantora usa a música “Guitarra de Latinha” para mudar a consciência da sociedade em relação às chamadas flores que nunca marcham que um pouco por todo país vivem sem teto, sem nada pra comer, sem saber o que será do amanhã e sem esperança de trocar essa dor por um futuro melhor.

Dentre as 12 faixas, há uma espécie de amor envenenado, interpretado por Tchakaze e Deltino Guerreiro que de tão forte tornou-se no chodo da cantora. Chama-se Lirandzo la Phoisene, uma música que fala de amor. Tchakaze conta que escreveu a música há pelo menos cinco anos, mas que não sabia com quem poderia cantar, mas numa viagem a Tete para um concerto musical, ela descobriu o músico Deltino e aí teve a certeza que aquela era a voz perfeita para aquela que seria a combinação perfeita de sons melódicos para o Lirando la Phoisene.

Tchukela é para Tchakaze mais que um sonho realizado, pois diz ser um álbum para vida toda, uma vez que além das 12 faixas doces serem boas para o ouvido, são também, perfeitas para educar.

Já no mercado há pelo menos 45 dias, Txukela já vendeu mais de 250 das 500 cópias disponíveis.

 

 

A segunda longa-metragem de João Ribeiro foi rodada em Maputo, em 2018. Tantos meses depois da pós-produção feita no Brasil e em Moçambique, Avó Dezanove e o segredo do soviético vai estrear no Pan African Film Festival, em Los Angeles, na Califórnia, nos Estados Unidos de América.

A estreia internacional do filme moçambicano no considerado maior festival de cinema negro nas terras do “Tio Sam” vai acontecer durante a 28ª edição daquele evento, a decorrer entre 11 e 23 de Fevereiro. Por isso mesmo, o realizador do filme sente-se satisfeito. Primeiro, porque a oportunidade sucede depois de um longo trabalho na busca de financiamento e apoio para a produção, preparação da produção e edição da obra cinematográfica, e, segundo, porque Avó Dezanove e o segredo do soviético vai estrear internacionalmente num festival relevante, de facto, e que acontece há 28 anos. Inclusive, lembra João Ribeiro, o afamado Black panther, de Ryan Coogler, estreou naquele festival.

A história da segunda longa de João Ribeiro passa-se numa cidade além do tempo e da geografia, num bairro não identificado, que ganha contornos quase mitológicos. A vida dos moradores gira à volta da construção do Mausoléu de um Presidente falecido. No entanto, o monumento acaba por ameaçar a vida tranquila que todos levam quando as autoridades anunciam que as casas do bairro têm de ser dinamitadas para a obra ser terminada.

Tentando não comparar, já que cada filme é diferente, João Ribeiro adianta que Avó Dezanove e o segredo do soviético é uma produção mais recomendável para ver em família, do que O último voo do flamingo, sua longa de estreia, até porque os protagonistas são crianças (Jaki, Jeanu dos Santos, e Pi, Caio Canda).  

Na realização de João Ribeiro, a história do filme adaptado do livro do escritor angolano Ondjaki, que esteve em Moçambique ano passado, dura 90 minutos, contando com importantes actores de Moçambique (Ana Magaia, Anabela Adrianoupulos, Adelino Branquinho, Mário Mbjaia, Elliot Alex, etc.) e estrangeiros (Flávio Bouraqui, do Brasil; e Dimitri Bogomogov, russo).

Uma das expectativas de João Ribeiro é que a exibição do Avó Dezanove e o segredo do soviético no Pan African Film Festival exponha e promova a longa-metragem que terá estreia nacional nos finais do mês de Fevereiro, em Maputo, na quinta mostra de cinema africano. Nesse evento, a longa de Ribeiro será o filme de abertura.

O Pan African Film Festival é um evento cujo objetivo, de acordo com a organização, é “apresentar e mostrar o amplo espectro de obras criativas negras, particularmente aquelas que reforçam imagens positivas e ajudam a destruir estereótipos negativos. Acreditamos que o cinema e a arte podem levar a uma melhor compreensão e promover a comunicação entre povos de diversas culturas, raças e estilos de vida, enquanto ao mesmo tempo servem como veículo para iniciar o diálogo sobre as questões importantes de nossos tempos”.

O Festival americano foi fundado em 1992, e, sem fins lucrativos, dedica-se à promoção da compreensão cultural entre os povos de ascendência africana.  Portanto, desde os finais do século passado, anualmente, o evento apresenta mais de 150 filmes de artistas da América, de África e Europa, todos exibindo a diversidade e a complexidade das pessoas de ascendência africana.

Também anualmente, o Pan African Film Festival apresenta prémios de reconhecimento aos principais actores. Entre os laureados até aqui estão Forest Whitaker, Idris Elba e Nate Parker. Todos eles são negros e já fizeram filmes sobre o racismo ou a condição do negro. O primeiro, por exemplo, contracenou com Denzel Washington em The great debates (2007). O segundo encarnou a história de Nelson Mandela em Long walk to freedon (2013). Já o terceiro, além de ter contracenado com Denzel Washington e Forest Whitaker, também actuou como protagonista na longa A birth of a nation (2016), que tem a sua própria direcção.

Portanto, sem saber ainda se irá viajar para os Estados Unidos próximo mês, é num festival daquele país que o novo filme de João Ribeiro vai estrear. Igualmente de Moçambique, no Pan African Film Festival será apresentado a longa-metragem da Mahla Filmes: Resgate, o que constitui um grande marco para o cinema moçambicano, segundo entende o autor de Avó Dezanove e o segredo do soviético.

 

 

No princípio, o objectivo da GM Record, que tem editados grandes e novos nomes do Hip-Hop moçambicano, era agenciar artistas e publicar os seus álbuns. Rapidamente, o Director-excutivo da produtora/ editora moçambicana percebeu que aí não haveria futuro. Então, Sidney Mavie (DJ Sidney) passou a focar-se no compromisso de lançar discos de rappers moçambicanos, sejam álbuns ou EP.

A entrega à pretensão de promover a música e os autores moçambicanos, dando-lhes a oportunidade de se apresentarem em disco, na verdade, iniciou em 2017, ano que a GM Record editou cinco discos. Para o efeito, houve necessidade de a produtora/ editora fazer perceber aos artistas o que é o seu produto no mercado nacional. Sidney Mavie considera que essa tarefa acaba sendo um trabalho aturado porque, sem querer, devendo à fragilidade estrutural de alguns artistas na área de edição, produção ou distribuição de discos, vê-se a desempenhar funções de mananger.

Ainda assim, uma coisa é certa. A experiência e os anos de trabalho na música têm contribuído para os autores de Hip-Hop em geral confiarem cada vez mais na GM Record, daí em pouco tempo ter publicado 36 títulos. Só ano passado, a produtora levou às ruas 15 discos e em 2018 conseguiu lançar 16.

Porque cada disco tem a sua história, DJ Sidney lembra que para a GM Record, até aqui, o disco mais difícil de trabalhar foi A kaya, da autoria de Xitiku ni Mbaula. A explicação é muito simples: “naquela época o SG e o Dinguizwaio já não estavam muito ligados ao projecto deles. Houve necessidade de conversar muito com eles para que o disco saísse. Por isso foi o que levou mais tempo até agora”, contou Sidney Mavie.

Dos 36 discos lançados pela GM Record, entretanto, apenas um teve patrocínio, O rapper do povo, de Bander.

Neste caso, o próprio autor é que conseguiu adquirir financiamento para o CD. Com efeito, a capacidade financeira é determinante no que diz respeito à produção ou reprodução de exemplares dos discos, que varia, dependendo do autor. A produtora tanto pode lançar 100, 150 ou mais cópias. A ideia é sempre procurar esgotar a venda os CD e evitar prejuízos financeiros. Quando há mais procura, aí produzem-se mais.

Nestes três anos, entre os discos mais vendidos da GM constam Duditos way, de Duas Caras, que esgotou logo no dia da apresentação; Génesis, de Allan; A kaya, de Xitiku ni Mbaula, e A cura de Drakula. “Gostaríamos de ter apoio em termos de produção, para que os artistas não se limitem apenas à produção local. Queremos ter discos com qualidade padrão internacional”.

Mavie garante que há muito talento no país, na área musical, mas falta formação. “As pessoas trabalham muito com conhecimentos apreendidos de forma alternativa. Isso afecta a nossa indústria musical porque poucos têm alta competência na masterização, por exemplo. Eu próprio sinto que há conhecimentos que faltam à GM Record”.

Um dos rappers difícil de trabalhar, revela DJ Sidney, é Duas Caras. E explica: “trabalhar com Duas Caras não é fácil. As coisas acabam dando certo porque conhecemo-nos há muitos anos, desde 1995, e somos amigos. Isso facilita todo o processo porque existe confiança entre nós os dois. Fora isso, quando estamos  a trabalhar num projecto dele, levamos muito tempo a discutir, o que até é muito frutífero. Ma não é fácil. Por exemplo, até o passado mês de Dezembro, já tínhamos o disco de Duas Caras fechado, pronto para lançar. Mas, a certa altura, resolvemos esperar mais um pouco. Agora não sabemos ao certo se vai ser um EP ou um álbum. Seja como for, temos condições e músicas para investir num ou no outro formato. Contudo, dou-me muito feliz e honrado por conseguir publicar a obra de Duas Caras. É bom saber que contribuo para alegrar os apreciadores da música dele”.

Dos 36 autores publicados pela GM Record, estão ainda 3H, Micro 2, Ray B, Crack e DJ Edson e Homoplata.

 

 

 

Xavier Machiana vai investir, este ano, numa carreira musical a solo, depois de ter lançado dois álbuns com a banda Rockfeller´s.

 

A ideia é lançar um álbum discográfico até o final do ano. Por isso, Xavier Machiana já iniciou o percurso a solo. Recentemente, o músico de rock disponibilizou ao público, através de plataformas digitais, a primeira das várias músicas que vão constituir o seu disco. Intitulada “Grace”, a música traduz o interesse de o autor cantar sobre a necessidade de as pessoas serem mais humildes e, acima de tudo, aprenderem a verbalizar a gratidão. “Muitas vezes nós estamos numa corrida pela vida, e esquecemo-nos de dizer obrigado às pessoas que estão ao nosso lado ou de acarinhar os nossos filhos”, afirmou Xavier Machiana, esta segunda-feira, em Maputo, sublinhando que “Grace” é uma chamada de atenção para a necessidade de se ser mais humano e verbais em relação aos sentimentos positivos.

Já a tocar nas rádios, “Grace” faz parte de um projecto de composição a solo que Xavier iniciou em 2014. Foi escrita em casa do músico, na Noruega, quando lá viveu por cinco anos. Até ficar pronta, o tema sofreu várias alterações, tendo sido gravada (uma parte) em Nova Iorque e finalizada nos estúdios da Ekaya, em Maputo, com a produção, mistura e masterização por João Carlos Schwalbach. Nas terras do “Tio Sam”, as gravações de guitarras foram confiadas ao guitarrista John Caban, que que trabalhou com Richard Bona, Alana Davis ou Art Neville. As razões dessa preferência? “Ele ouviu a música, gostou e logo disse-me que queria fazer parte do projecto”.

Ou seja, a preferência de trabalhar com o guitarrista John Caban justifica-se porque o músico moçambicano procurava na altura alguém que tivesse um notável background de rock e que não na sua colaboração não fizesse simplesmente um trabalho encomendado. “Ele ouviu e mandou-me algumas ideias e senti que ambos percebemos a música da mesma maneira, apesar de não nos termos conhecido antes”.

Neste novo percurso de Xavier, a ambição vai além do rock, até porque o músico também tem escutado jazz, house music ou hip-hop. Logo, doravante, a sua criação terá um pouco desses elementos todos. Obviamente que o elemento rock estará mais presente em quase tudo, “pois eu cresci neste ambiente do rock”.

“Grace é um bocado de Xavier Machiana 20 anos depois, agora que é pai de meninos grandes, marido e uma pessoa mais serena profissionalmente. O percurso ora a trilhar a solo reflecte algo que está a passar, mas sem se esquecer de onde vem. “Eu sou produto da minha história, mas agora gritando ou saltando menos, sem se preocupar com o que as pessoas pensam, mas no que o projecto vai dar”.

Com efeito, até o disco ficar pronto e ser lançado, Xavier vai disponibilizar músicas regularmente. Por exemplo, mensalmente ou de dois em dois meses. Sem pressão. A estratégia tem mesmo a ver com as novas tendências, pois o músico entende que as pessoas, actualmente, ouvem mais música em formato digital e sem muita inclinação para álbuns. Assim, dará ao público a possibilidade de escutarem as músicas uma de cada vez, sempre com a dimensão internacional, afinal: “há que migrar para algo maior, abrangente e apostar nas aprendizagens que colhi nos países onde vivi e estabeleci contactos”, o que não quer dizer que vá sempre cantar em inglês. O artista da Matola compõe muito na língua de Shakespeare, mas não se esquece de português. Seja como for, “a língua não é o mais importante, até porque já vi pessoas na China a cantarem músicas de Mr. Bow”.

 

O ADEUS A ROCKFELLER´S?

Xavier Machiana lançou dois álbuns discográficos com Rockfeller´s, Vida dura e Tempo. O artista considera a banda que se prepara para lançar o terceiro disco sua família, a sua escola, onde surgiu e onde está a sua base de inspiração. “Rockfeller´s vai ser sempre um marco em tudo o que eu for a fazer”.

Questionado sobre por que deixou a banda, já que é sua família, Xavier explicou: “eu precisa de tempo, porque além de fazer música faço também outras coisas. Vamos dizer que eu pedi uma espécie de licença indeterminada até acabar este projecto. Não conseguiria ter energia e tempo para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas acredito que as nossas energias são muito boas e a qualquer altura pode haver uma surpresa de fazermos qualquer coisa juntos”, afirmou, garantido que uma família não se dissocia, mesmo tomando direcções diferentes.

 

O PERCURSO MACHIANA

Xavier Machiana é músico, compositor, actor e activista social. Foi vocalista dos Rockfeller´s, primeira banda de rock do país, actuando em mais de 250 espectáculos. Os Rockfeller´s dividiram o mesmo palco com artistas como: Kool & The Gang, UB40, Martinho da Vila, Lucky Dube, Hugh Masekela, Oliver Mtukuzi, Kassav, Delfins, Rui Veloso, Xutos e Pontapés e Filipe Mukenga. Como vocalista e guitarrista da banda Rockfeller´s, Xavier compôs, produziu, gravou e tocou em dois discos: Vida dura e Tempo, bem como co-produziu os vídeo-clips e um DVD ao vivo.

Xavier co-conceptualizou e produziu o concurso nacional de música alternativa “Sai da garagem”, para a promoção de bandas de rock em Moçambique, que contou com castings e festivais na Beira e Maputo. Co-gerenciou o grupo cultural da Comissão Nacional para a UNESCO em Maputo. Fez diversas performances ao vivo com artistas como o legendário ícone do rock mundial Bono Vox (U2), a diva do funk e Soul Sandra St. Victor (Prince, Chaka Khan, Tina Turner, Erykah Badu, etc. Como actor participou em curtas metragens, seriados, reality-shows e anúncios em Moçambique, África do Sul e Noruega. É formado em Linguística Aplicada, trabalhou como Gestor de Projectos e Especialista em Comunicação para a Mudança de Comportamento e colabora há mais de 15 anos em diversos programas e projectos para ONGs nacionais e estrangeiras.

 

 

 

 

O mês de Janeiro deste muito imberbe 2020 começa com uma cerimónia de apresentação do livro de estreia de Énia Lipanga. A artista e activista social vai lançar o seu livro de poesia intitulado Sonolência e alguns rabiscos. A obra literária será apresentada ao público este sábado, às 15 horas, na Minerva & Continental, na cidade de Maputo, e tem a particularidade de possuir textos em braile, mesmo a pensar nos cegos.

Para este projecto que se pretende inclusivo, Énia Lipanga começou a trabalhar há três meses, depois de identificar a editora com a qual quis trabalhar: a Kuvaninga, que produz livros com capa de cartão reciclado, os quais são pintados e cosidos manualmente numa oficina geralmente aberta a todos interessados. “Eu queria produzir um livro que não fosse apenas meu, e como a Kuvaninga já trabalha com reciclagem, decidi aliar-me a esta iniciativa”, explicou Énia Lipanga, realçando que fez questão de abrir a oficina de pintura a crianças, adolescentes, jovens e demais voluntários.

Ora, além disso, a artista esclarece que decidiu imprimir o livro também na versão em braile porque agora trabalha na área da inclusão. “Sinceramente, acho que todo mundo deveria trabalhar nesta área e preocupar-se com a ideia de como podemos criar uma obra artística e fazê-la chegar ao maior número de pessoas possível. Então, esta obra será para quem vê e quem não pode ver, o que acontece na sequência do meu trabalho na poesia na área de sinais”.

Énia Lipanga considera que livros em braile não são acessíveis em Moçambique. “Este será o primeiro no país. Para o efeito, tivemos de identificar uma gráfica e pessoas que nos pudessem ajudar e daí buscar financiamento. Tive uma equipa de pessoas que se ofereçam para ajudar gratuitamente, como Nataniel Ngomane, que fez a revisão do livro, e Mário Macilau, que me cedeu a fotografia da capa (interna)”.

Sonolência e alguns rabiscos é um livro de amor, sobre o género e sobre a inclusão. Com 20 páginas A4, devido ao alto custo de produção não puderam ser mais do que isso, este é o 26º livro da Kuvaninga Cartão d’Arte, projecto literário e ambiental criado em Maio de 2012, na cidade de Maputo.

O primeiro livro de Énia Lipanga será lançado sábado, mesmo a propósito da ocasião em que se celebra o Dia Mundial do Braile: 4 de Janeiro.

 

Tem dois discos lançados, Namasté e Eleven. Nasceu em Maputo e faz da música um mecanismo de descoberta e partilha de emoções. Está ainda no princípio do seu percurso artístico, mas sabe bem o que quer: atingir o pico da sua expressão artística e acrescentar à música nacional a sua perspectiva criativa.

É uma das vozes mais sugestivas que se podem ouvir em Moçambique. Cantora e compositora, Tégui é autora do disco Eleven, publicado ano passado, pela internet, e, desde este ano, disponível em formato físico. Constituído por oito músicas, o disco é, na verdade, uma síntese de como a autora vê o mundo, com a dimensão universal que a seduz.

Mesmo sendo o seu segundo disco, Tégui explica que Eleven é ainda um processo de descoberta, afinal na natureza em geral nada é infinito, tudo se transforma. “Eu não acordo todos os dias iguais, e a Humanidade está sempre a mudar. O que eu quero mesmo é atingir o pico da minha expressão artística, mas sem estar numa caixa onde fico confinada”.

Para Tégui, a música produz-se sem se pensar nos resultados ou no impacto que possa ter, pois correria o risco de desperdiçar alguma naturalidade, que considera importante. “A minha forma de criação é muito orgânica. A técnica é uma preocupação que vem muito mais tarde”.

O processo criativo de Eleven começou com instrumentais fornecidas pelos produtores com quem a cantora trabalhou, nomeadamente: Tony Bird, KEYbeatz, PIZZAW/Pinapples, J.Mc.Edwins e Origimoz. Depois de assimilar as instrumentais, a cantora trabalhou na composição consoante as particularidades das sonoridades. Ou seja, Tégui quis construir as narrativas por cima da criação dos produtores, pois das vezes que fez o contrário as coisas não saíram como pretendia. Por isso, nos próximos tempos, a artista quer aprender a tocar guitarra, piano e flauta, de modo a ampliar a sua capacidade de criação. Além disso, há outro desejo: “Gostaria de acrescentar à música moçambicana a minha perspectiva. Quero mostrar que existem outras formas de fazer música, inclusive em Moçambique, porque temos muito talento alternativo no país. Por exemplo, uma das pessoas com quem colaborei neste disco é Guto, que considero o melhor cantor moçambicano, pelo menos dos que são próximos de mim”.  

A primeira música gravada do Eleven, todo produzido em Moçambique, foi “Au revoir” e a mais difícil “Open for you”, pois a cantora teve de estudar muito para a fazer, alternando a sua maneira natural de colocar a voz. “A escrita também não foi fácil, porque o beat é inconstante”, acrescentou, realçando que o que mais gosta na arte musical é o acto da composição, até porque também escreve poemas. “Por exemplo, a música que dá título ao disco começou com um poema. “Também gosto de actuar ao vivo. O que não aprecio é o trabalho de estúdio. Acho o estúdio um pouco claustrofóbico”.

Tégui cresceu a escutar música porque o pai é grande coleccionador de discos. O seu interesse pelas artes em geral despertou quando tinha 10 anos de idade. Nessa altura, entretanto, a menina não sabia que era boa de canto. Quando tinha 11 anos, os elogios começaram a chegar. Primeiro foi uma amiga, e, depois, mais pessoas notaram-lhe o talento. Aí percebeu que se calhar poderia levar a música a sério. Em 2011, Tégui entra para o seu primeiro grupo, depois de uma prima que também canta a levar pela primeira vez a um estúdio, onde aprendeu como as coisas funcionam.

Tégui é o pseudónimo de Silke Teresa Guilamba, que nasceu a 16 de Setembro de 1993. Em 2016, a cantora lançou o seu primeiro disco, intitulado Namasté, uma forma de cumprimentar e de se anunciar oficialmente ao público. Segundo a autora, o EP foi produzido num contexto silencioso e calmo, dentro de um espaço muito íntimo e pessoal, “em momentos em que contemplei e questionei o cenário da minha vida”. Por fim, o título Eleven, onze em português, surge como somatório dos algarismos que compõem 2018, o ano em que a obra musical ficou pronta.   

 

 

 

 

 

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