O País – A verdade como notícia

Um homem de muitas artes. É músico, compositor, realizador, ilustrador e designer freelancer. Chama-se Michel William e tudo o que faz aprendeu sozinho e com a ajuda da internet. O artista moçambicano, agora residente em Portugal, começou a tocar aos 12 anos de idade, quando uma prima o emprestou um teclado. Quatro anos depois, começou  tocar num bar, na cidade de Maputo. Já adulto, partiu de Moçambique para Portugal, com a mulher portuguesa que conheceu em Maputo e o filho, quando a crise económica e financeira afectou o país. Ano passado, o artista moçambicano lançou o seu álbum de estreia, uma fusão de estilos com destaque para o reggae, funk, ska, blues e, claro, marrabenta. Com o disco intitulado I’ve got a plan (Eu tenho um plano), Michel William pretende, essencialmente, transmitir uma mensagem de paz e amor. Na entrevista que se segue, o músico fala do seu percurso artístico, do que a música representa para si e do que o move.

É autor de I’ve got a plan, um disco com 11 temas. Que plano é esse que o Michel tem?

O plano é levar-nos para um estado de espírito e forma de pensar, onde, antes de qualquer preconceito, possamos partilhar a nossa essência de coração aberto e dar abertura à igualdade, ao respeito pela mãe-terra, aos direitos humanos e pôr um basta naquilo que não faz sentido existir mais na sociedade em que vivemos. Por exemplo, as guerras, a fome, a falta de informação e educação. Portanto, o plano é partilhar a paz e o amor.
 
Como é que este álbum, aparentemente altruísta, acontece?
Foi graças a uma campanha de crowdfunding, neste caso, aos crowdfunders, que acreditaram e apoiaram o projecto, que este álbum hoje está materializado e partilhado com o mundo. É com o desejo de contribuir para um mundo melhor e mais positivo que este álbum acontece. É importante realçar que parte das músicas deste álbum são viradas para um apelo a um olhar no interior. Existem factores externos que nos podem condicionar na sociedade em que vivemos hoje. Mas o foco é para percebermos que a paz não começa em nada que nos é externo, mas sim dentro de cada um de nós. O homem é um ser interdependente e nós estamos aqui de passagem. No fundo do nosso âmago reside o nosso desejo, paz, amor e tudo isto pode ser reflectido nas nossas ações, interações e na forma como deixamos o mundo à nossa volta. No fundo é com o desejo de que cada um de nós contribua para um mundo melhor que este álbum acontece.

O plano que tem ou que é aludido no título do seu CD tem alguma coisa a ver com Moçambique, seu país, ou com Portugal, país que lhe acolheu, ou tudo resume-se à música?
Moçambique, de forma directa ou indirecta, é a raiz do plano, pois foi aí que a inspiração  começou para abordar o tema do álbum. Por isso, sim, tem a ver com Moçambique e com o mundo. Eu adoro o meu país, as pessoas, a nossa forma de ser, conviver e de estar. Tenho noção de que o desafio de trazer a igualdade, educação e saúde para todos não acontecerá da noite para o dia. Sinto que é com a mudança de consciência e um profundo bem-querer para cada um de nós e do próximo que os maiores desafios, que são tão básicos, podem ser postos de lado. A desigualdade existe no nosso país, mas também existe nos outros países do mundo. A fome, a falta de saúde pública, da educação, entre outros desafios, comecei por ver no meu país, mas quando decidi olhar para fora e perceber a interdependência que existe neste planeta, fez-se luz. Não sou político e nem tenho pretensões nesse ramo, mas no plano para nos levar a um patamar equilibrado que para muitos é utópico. Não se exclui ninguém. Juntos vamos mais longe e mais seguros. Portanto, não é apenas pela música que canto e o plano tem a ver com Moçambique e com o mundo.

Como está a ser para si fazer música em Portugal?
A experiência de fazer música em Portugal é boa e gratificante, visto que a abertura para a arte é grande. Como em qualquer parte do mundo, a música em específico tem várias facetas e também é uma indústria que, por isso, requer bastante trabalho e persistência. E em Portugal não é diferente. Há que se expor, dar a conhecer e partilhar a nossa arte.
 
I’ve got a plan é um álbum de 2019. Portanto, ainda é novo. Que horizontes gostaria que o disco ampliasse?
Um dos sonhos que tenho neste momento é dar a volta ao mundo, apresentando o álbum numa tour. Neste momento estamos em processo de brainstorming e pesquisa para encontrar as melhores maneiras para o poder realizar.
 
Para quando concertos em Moçambique?
Provavelmente Abril ou Maio, mas anunciaremos as datas nas redes sociais brevemente.
 
Tem a pretensão ou sente-se na responsabilidade de representar a arte e cultura moçambicanas em Portugal?
Sim, de certa forma carrego alguns dos elementos da arte e cultura moçambicanas na música que faço. Mais concretamente a marrabenta. Mas devo acrescentar que tenho noção que a nossa cultura é muito vasta e diversa. Por isso sei que não consigo representar tanta diversidade sozinho e no estilo que faço. Mas, sim, quero poder, através da minha arte e identidade, mostrar mais uma faceta que Moçambique possui.
 
 
O Michel participou em alguns programas de entretenimento em Portugal. Por exemplo, The Voice e Got Tallent. Boa prestação! Como descreve a sua participação nesses eventos e que impacto tiveram para si?
A minha participação no The Voice e Got Tallent  foram experiências fora da minha zona de conforto pelas suas características competitivas. Mas foram boas lições e chaves para outras portas e oportunidades pela visibilidade que me deram.
 
 
O que significa cantar e tocar para si?
Significa liberdade para expressar o que não consigo falar. Desde que comecei a tocar foi sempre uma forma de canalizar os sentimentos que me eram difíceis de expressar oralmente.

 

Escritor e poeta morreu na manhã de sábado e o seu velório será na Capela 1 do Hospital Central de Maputo, às 10h desta segunda-feira.

 

Escreveu sobre várias vidas, como poeta, escritor ou amante do cinema. Durante anos, por volta da década de 80, por exemplo, Guilherme Afonso assinou imensos textos na Gazeta de Artes e Letras da prestigiada revista Tempo. Este homem que amou Moçambique, país que escolheu para ser sua pátria, ao fim de 90 anos de vida, morreu às 9h50 deste sábado, numa clínica privada, na cidade de Maputo.

De acordo com a família, o autor começou sentir-se mal terça-feira. Diagnosticado um problema de respiração, Guilherme Afonso foi levado à uma clínica privada. O autor de Circuito (1988), livro de contos publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), resistiu como pôde, mas, com o peso da idade, tinha 90 anos, cedeu à morte onde esteve internado durante quatro noites.

Infeliz com a perda, entretanto, a família do escritor sente que este não é um momento para chorar Guilherme Afonso. Longe disso, o que os dois filhos, Afonso e Carlos dos Santos, vários netos e bisnetos estão a fazer é celebrar a vida e a obra do autor cujo velório irá realizar-se às 10 horas desta segunda-feira, na Capela 1 do Hospital Central de Maputo. Meia hora depois, o corpo de Guilherme Afonso será cremado no Cemitério de Lhanguene, igualmente na capital do país.

Guilherme Afonso nasceu a 10 de Novembro de 1929, no Concelho de Santarém, em Portugal. Chegou a Moçambique em Outubro de 1959, a fim de ingressar no corpo de Polícia, onde desempenhou as funções de guarda, escriturário e arquivista no Comando-Geral durante a administração colonial e o Governo de Transição. Depois da independência nacional, no Instituto Nacional de Cinema, desempenhou as funções de Chefe do Sector de Documentação e Informação Cinematográfica, até 1988. Guilherme Afonso foi ainda apresentador do programa “Vamos falar de cinema”, na televisão pública.

Igualmente autor de Memória inconsumível (2007), livro de poesia publicado pela Imprensa Universitária, Guilherme Afonso foi o único distinguido com Menção Honrosa no primeiro prémio literário de Moçambique independente, promovido pela revista Tempo, em 1980/ 81, evento que estimulou acesos debates sobre o que é literatura moçambicana e quem são os autores moçambicanos. Guilherme Afonso foi um dos grandes rostos desse debate, logo a seguir a divulgação da decisão do júri em não premiar nenhum autor. Ao concurso da Tempo foram submetidos 93 trabalhos, os quais, cada, não deviam ultrapassar 100 linhas. Guilherme Afonso ultrapassou. Ao invés de uma centena, o conto “Abatido ao efectivo” do escritor, Menção Honrosa, mais tarde incluindo no livro Circuito (colecção Karingana da AEMO) teve 103 linhas. E daí surgiu o pseudónimo para o prémio literário: 103 linhas apesar de tudo.  

Guilherme Afonso colaborou imenso com a imprensa, tendo publicado muitos textos, alguns com o pseudónimo Amadeu Soquiço, no A Tribuna, Notícias da Beira, Notícias e Domingo.

O último livro publicado por Guilherme Afonso foi Pão amargo (2010), livro de teatro com a chancela da Alcance Editores. No entanto, é com um excerto do poema do autor, “Perseverança”, de Memória inconsumível, que termina este texto: “Venda-se quem se vender/ Traia quem trair/ Subverta-se o que se subverter// Porque tão tranquilamente/ como tenho vivido/ quero morrer// Que não será morrer/ mas ir-me embora/ so(bria)mente”.

 

 

A conceituada cantora angolana Yola Semedo actua amanhã na cidade do Maputo, num espectáculo que vai marcar as celebrações do “dia dos namorados”.

Yola Semedo, que se encontra em Maputo desde quarta-feira, considera especial voltar a cantar para o público moçambicano e promete uma memorável, para celebrar o amor.

"Vai ser um momento especial cantar para o público moçambicano, alegrar os corações de todos os apaixonados que se farão presentes no show, esta sexta-feira, em Maputo” explicou a artista em conferência de imprensa.

Para além de Maputo, Semedo actua, já no sábado, na cidade de Quelimane, onde promete também “um momento único e marcante”.

As actuações da artista angolana é patrocinado pela empresa Puma Energy que alia-se à cultura para celebrar o amor.

“Este é um momento único para a história da empresa. O nosso core business não é a música, mas quando o assunto é apoiar as artes e a cultura, a nossa empresa identifica-se com esse tipo de iniciativas", disse Ivanilson Machado, director da Puma Energy.

Yola Semedo vai dividir o palco com alguns compatriotas como Preto Show, Cef e Titica. Do lado de artistas moçambicanos, destaque vai para Dama do Bling, Xixel Langa e Rodália Silvestre. Bling promete uma actuação igual a si própria.

“Foi sempre uma honra cantar para corações apaixonados, principalmente numa data em que se comemora o amor. Vamos juntos, com o público, enaltecer esta qualidade que na verdade une todas as pessoas que amam”, disse Dama do Bling.

Já em Maputo, espera-se a presença de grandes vozes femininas, como Xixel Langa e Rodália Silvestre, executantes do Afro Jazz.

O cineasta moçambicano Júlio Silva é, desde Janeiro do ano em curso, pesquisador do laboratório Folclore e Etnomusicologia do Departamento de Musicologia, membro do conselho editorial da Academia Internacional Mariinskaya na. M.D. Shapovalenko e membro do conselho editorial da revista científica russa “Mariinskaya Academy”.

“Convidamos-te a juntar-se à nossa academia para ser pesquisador do laboratório Folclore e Etnomusicologia do Departamento de Musicologia e ser membro do conselho editorial da publicação da Academia Internacional Mariinskaya”, lê-se no convite endereçado ao cineasta moçambicano, sublinhando que o “compromisso é gratuito”.

A equipa do “laboratório” diz ainda esperar que o trabalho a ser desenvolvido por Júlio Silva “lhe traga satisfação”, assim como acredita que os artigos por ele propostos para publicação nos periódicos da editora tornarão a própria comunidade científica orgulhosa.

Além de cineasta, Júlio Silva é etnomusicólogo e antropólogo Cultural. O laboratório Folclore e Etnomusicologia do Departamento de Musicologia refere que as resenhas produzidas pelo artista tem um “potencial expressivo e convincente”.

Há anos que Júlio Silva passou a viver em Portugal. Os seus trabalhos cinematográficos retratam problemas da população rural, principalmente do dia-a-dia. Os seus filmes já participaram em vários festivais.

Do seu repertório de filmes constam “Lágrimas nas Ondas Do Mar”, que retrata as tragédias constantes que acontecem aos pescadores artesanais em Cabo Verde; “Traços de uma Vida”, uma longa-metragem baseada em factos reais ligados ao “Carnaval de Quelimane” e narra a vida quotidiana do “machuabo”, suas crenças e os mitos de Inhassunge, um dos distritos da província da Zambézia.

“Chikwembo” – longa-metragem que aborda temas e costumes moçambicanos (obscurantismo, feitiçaria e curandeirismo) – e “A Terra a Quem Pertence?” são outros filmes de Silva. O último incide sobre os problemas comuns na sociedade moçambicana.

O cineasta é também autor do livro “Instrumentos Musicais Tradicionais de Moçambique”.

A STV estreia, hoje, em horário nobre a telenovela brasileira Órfãos da Terra. Com um elenco de luxo, a história desenrola-se no medio oriente.

É das novelas que retrata parte do drama da Guerra na Síria. Missade, papel interpretado por Ana Cecília Costa, e Marco Ricca, Elias na cena, fogem para o Líbano com seus filhos, Khaled e Laila, papeis representados por Julia Dalavia e Rodrigo Vidal. Já no Libano, Laila aceita se casar com o poderoso sheik Aziz Abdalah, Herson Capri, em troca de dinheiro para pagar o tratamento do irmão, que ficou gravemente ferido num ataque bombista.

Órfãos da Terra dá-se entre o médio oriente e o Brasil, para oonde parte dos protagonistas foge.

Com enredo de luxo, com destaque para Ana Cecília Costa, Marco Ricca, Julia Dalavia, Rodrigo Vidal, Renato Góes, Alice Wegmann, Kaysar Dadour, Allan Souza Lima, entre outros, Orfaos da Terra foi escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes, com colaboração de Dora Castellar, Aimar Labaki, Carolina Ziskind e Cristina Biscaia.

Drama, amor e vingança passarão a preencher as noites na STV a partir desta quinta-feira.

 

 

Nos dias 24, 25 e 28 deste mês, o filme Um animal amarelo, realizado pelo brasileiro Felipe Bragança, será apresentado na 49ª edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, nos Países Baixos.

A longa-metragem possui 115 minutos de duração e foi rodada em Moçambique, Brasil e Portugal. E a relação que o filme tem com a Pátria Amada não se restringe apenas ao espaço de gravação, há muito que se lhe diga quanto à trama. Essencialmente, Um animal amarelo é uma história sobre Fernando, um falido cineasta brasileiro que cresceu assombrado pelas memórias violentas de seu avô e pelo espírito de um moçambicano que lhe prometia riquezas e glória. Nos finais de 2017, perseguido pelo estado político e cultural de seu país, o personagem cineasta mergulha em uma jornada de desventuras e inesperados milagres, em busca de fantasmas do passado, conforme adianta a própria sinopse do filme.

No constante regresso ao passado, o protagonista brasileiro Fernando vê-se a viajar para Moçambique (e depois para Portugal), conectando-se com as suas raízes africanas que muito têm a ver com a cultura brasileira.

De acordo com a informação divulgada pelo site Filmow, a longa-metragem de Felipe Bragança é uma história ficcional que faz desaparecer as fronteiras nacionalistas, étnicas e coloniais, “porque, como nas melhores viagens, nesta fábula tragicómica, não se trata tanto do destino, mas da jornada imprevisível”.

Além disso, Um Animal Amarelo é descrito como uma história sobre as heranças do colonialismo português no Brasil actual. E o site Filmow cita o realizador: “filmar nesses países não foi como filmar no estrangeiro exactamente, mas filmar ainda mais perto de mim, nesse continente cultural instalado nas minhas vísceras, como que me vendo pela nuca, reinstalado como cineasta brasileiro. E, claro, voltei desse mergulho cheio de dúvidas, com a sensação de que a própria ideia de Brasil como harmonia construída sobre as ruínas coloniais está hoje se desfazendo por completa, e se tornando uma ainda mais nova ruína”.

A longa-metragem de Felipe Bragança teve como produtores Marina Meliande e Luís Urbano, e é uma obra das produtoras Duas Mariolas Filmes e o Som e a Fúria. Entre os actores que integraram o elenco esteve Matamba Joaquim, que antes deste filme já tinha vindo a Moçambique para trabalhar num outro projecto cinematográfico. O actor angolano foi protagonista de Comboio de sal e açúcar, de Licínio Azevedo, tendo contracenado com Melanie de Vales ou Aquirasse Nipita. 

Durante as filmagens em Moçambique, Um animal amarelo, que concorre para o prémio Big Screen Competition, teve apoio do então Instituto Nacional de Áudio Visual e Cinema (INAC), da Universidade Pedagógica e do Governo de Moçambique.  

 

RUY GUERRA PARTICIPA NO FESTIVAL

O cineasta Ruy Guerra nasceu em Lourenço Marques (Maputo), em 1931. Vive no Brasil desde 1958. É realizador, poeta e dramaturgo. A Moçambique, Guerra regressou em 1980, tendo cá filmado Mueda, Memória e Massacre. O cineasta ajudou a criar o então Instituto Nacional de Áudio Visual e Cinema. Já dirigiu mais de uma dezena de filmes, longas e curtas-metragens. No Festival Internacional de Cinema de Roterdão, nos Países Baixos, Ruy Guerra vai participar com Aos pedaços, filme de 93 minutos de duração. A longa-metragem foi produzida pela Kinossaurus Filmes, e, no festival, será exibida de 27 a 30 deste mês.

A 49ª edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdão decorre entre 22 de Janeiro e 2 de Fevereiro. O filme de abertura do evento é Mosquito, longa-metragem do cineasta português João Nuno Pinto, rodado nas províncias de Nampula e Maputo, com mais de uma dezena de actores nacionais.

A produção de um filme é sempre uma grande preocupação para os cineastas dos PALOP. E busca do financiamento está no topo dessas preocupações. Para Zezé Gamboa, a falta de vontade política na África subsaariana é dos grandes factores que conduz os realizadores a uma situação de mendicidade. Por isso, o cineasta angolano, autor de O grande kilapy, defende, nesta entrevista, que é chegada a altura de os governos investirem na sétima arte.

 

Maputo tem organizado mostras de cinema com filmes de realizadores africanos. Qual é a importância deste tipo de iniciativa para si?

Logo à partida, a grande importância disso reside na circulação de filmes, porque nós nos conhecemos muito pouco em África. E acho que as mostras que acontecem em Maputo seriam ainda mais impactantes se passassem em outros países de língua portuguesa.

 

Quais são as dificuldades que limitam a circulação de mostras de cinema entre os PALOP?

Organizar uma mostra não é assim tão fácil. É preciso que haja uma logística para o efeito e apoios que garantam a aquisição dos filmes e a participação dos cineastas.

 

Na última mostra que passou no Scala, os filmes foram todos financiados pela União Europeia. Ou seja, nenhum realizador dos PALOP e Timor Leste teve (apenas) um suporte de uma entidade nacional. O que isto quer dizer?

Quer dizer que os nossos países devem se preocupar mais com a cultura e com o cinema. É muito importante que os nossos países tenham uma vontade política e uma atitude pro-activa em relação aos nossos cinemas. Nós vamos tentando sempre ter apoios no estrangeiro. Isto é, o filme tem uma identidade nacional, mas nunca o cunho financeiro é dos nossos países.

 

Nos últimos dois anos, Moçambique produziu quatro filmes, o que se considera muito bom. Com estes números, será possível que Moçambique e Angola, realidades com as mesmas dificuldades, conseguiam competir com países como Senegal, Burquina Faso ou Nigéria?

É complicado. No cinema, quanto mais produzes, maior é a possibilidade de teres qualidade. Por exemplo, Bollywood faz mil filmes por ano, e apenas 40 ou 50 é que são bons. A Hollywood produz por aí 450, 500 ou 600 filmes ao ano e serão mais ou menos 40 ou 50 bons. Portanto, fazer quatro filmes com as dificuldades que se fizeram, já é louvável e quase heroico. Agora, o que é importante é haver continuidade de trabalho. Em Angola, por aí em 2004, conseguimos produzir uns três filmes em pouco tempo. Mas e depois? Essa é a grande questão, até porque sempre vai surgindo uma nova geração de cineastas que também precisa de apoio. Portanto, vamos produzindo filmes como se pode, mas esta não é uma situação recomendável, pois estamos sempre dependentes dos outros. Sempre começamos a ter apoio de fora, o que coloca o nosso cinema numa situação de mendicidade, e uma das coisas que contribuem para que assim seja é que as leis não saem do papel nos nossos países.

Por que passam os realizadores mais novos, se mesmo para os cineastas como Zezé Gamboa ou Sol de Carvalho a situação é difícil?

É muito complicado para eles. A malta nova aguenta com muita coragem e com muitos sacrifícios que lhe é imposta.

 

As dificuldades que os cineastas jovens têm, nos PALOP, são as mesmas que teve a geração de Zezé Gamboa há 30 anos?

Não. Aí há um factor que difere tudo. Há 30 anos, e mesmo há 15 anos, havia um país que apoiava muito o cinema africano: a França, que abria muitos concursos para apoiar os cineastas africanos. Isso acabou e as dificuldades aumentaram. Depois de acabarem com esses concursos, eles criaram um fundo em que colocam eu, Licínio, João Ribeiro, e etc., a competir com grandes realizadores franceses. Ou seja, os trocos de 250 mil euros, que para nós já ajudaria muito, os consagrados vão buscar. E aquilo que eles precisam para tomar um champanhe, é o que nós necessitamos para fazer o nosso trabalho. Portanto, a lógica mudou.

 

A entrada da União Europeia não suplanta, digamos, essa “retirada” da França?

Não, porque os concursos da União Europeia não são anuais. E os concursos da União para o cinema estão fechados há três ou quatro anos. É muito tempo. Enquanto o da França era anualmente. E mais, os países francófonos, mesmo com as mesmas dificuldades sociais que nós, os PALOP, estão muito à frente porque a França sente-se na obrigação de continuar a apoiar, ainda que muito menos. Além disso, no Senegal, por exemplo, o governo criou um fundo de 3 milhões de dólares para o cinema. Esse é um valor de base, que permite os cineastas senegaleses começarem a trabalhar. Ou seja, as antigas colónias francesas em África perceberam que a França está a fechar-se e estão a criar condições que potenciem instituições nacionais ligadas, no caso, ao cinema. Por exemplo, Burquina Faso é pobre, mas tem fundo para o cinema. Mesmo o Quénia, aqui perto, também tem, creio, 2 milhões de dólares. Não é muito, mas é alguma coisa. Nos nossos países (PALOP), nem isso há.

 

Mas temos condições nos nossos países de apoiar o cinema de modo que os cineastas não recorram a fundos estrangeiros?

O problema aqui é um: vontade política. Se houver vontade política, fecham-se os filmes. Se não houver, a questão primária continuará a ser: “não há dinheiro”.

 

Mas temos condições financeiras, na sua opinião?

Sim, temos. Até porque quando pedimos dinheiro fala-se muito da Educação e Saúde, mas sabemos que esses sectores não melhoram… Para mim, a Educação e a Saúde são, de facto, dos sectores mais importantes de um país. Ma se não melhoram, não entendo por que não se financia o cinema. Outra coisa, se formos a ver, o reconhecimento dos nossos países, através do cinema, é mais eficaz do que através da Saúde. Não vejo os nossos médicos super conhecidos no mundo. Mas vejo a malta das letras e do cinema. Portanto, há um problema e o problema, volto a dizer, é vontade política. É preciso investirmos na Cultura e na Educação.

 

Já agora, como é esta coisa de contar a história do seu país a partir da ficção? Estou a pensar em O grande kilapy.

De facto essa história é verdadeira. Mais tarde eu encontrei o verdadeiro João, retratado no filme, e colhi as peripécias dele e de pessoas amigas. Depois dessa pesquisa surgiram os elementos para o guião.

 

Os seus filmes têm a particularidade de contar com participação de artistas de vários países. Por exemplo, em O grande kilapy estão Luís Carlos Patraquim (guião) e o actor Alberto Magassela. O que explica?

Acho isso muito mais interessante do que fazer um filme apenas com angolanos. Com pessoas de várias nacionalidades tenho mais possibilidade de aprender e isso é uma experiência boa. Gosto desse laboratório linguístico proveniente de diferentes geografias. É complementar.

 

Consigo, como acontece a selecção dos actores com os quais trabalha?

Há um feeling dentro de mim que me ajuda a perceber quem pode fazer bem determinados papeis. Claro, depois há um casting que é definitivo. No caso de Lázaro Ramos até foi diferente. Eu não o conhecia na altura em que estava a trabalhar para o Kilapy. Uma amiga minha disse-me que conhecia alguém que faria bem o papel de protagonista. Vi umas coisas dele e aí não saiu mais da minha cabeça.

 

Ele enquadrou-se com facilidade?

Com facilidade não, que ele é de uma cultura diferente. Tivemos de o orientar. Mas os bons actores como ele são inteligentes e conseguem mergulhar no universo que lhes é dado com muita naturalidade.

 

E tiveram de trabalhar o sotaque dele…

Sim, embora não tenha ficado bem do jeito que eu queria. Nesse tipo de casos, os americanos colocam o actor a trabalhar o sotaque com alguém uns três meses antes do filme começar. Infelizmente não foi o nosso caso. Foi um problema de produção.

 

Quais são as suas grandes preocupações cinematográficas?

Primeiro, a minha preocupação é fazer um grande filme e, depois, lutar para que vá a um grande festival de classe A, porque a partir daí sempre se consegue grandes voos. E eu consegui isso. Levei o filme ao Festival de Toronto.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a obra de Mia Couto e de Paulo Flores.

 

 

 

 

 

 

Há 10 anos que a Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM – CELP) edita literatura. Em uma década de publicação, aquela instituição de ensino já lançou aproximadamente 60 livros, e, ainda este semestre, vai levar às prateleiras mais três títulos infanto-juvenis.  

Um dos livros que será publicado em breve é intitulado O menino que odiava números, de Celso Cossa. Segundo Teresa Noronha, coordenador editorial, a EPM – CELP, tendo constado a falta de livros para leitores a partir dos 10 anos de idade, resolveu publicar o livro daquele escritor, que tem outros dois títulos lançados pela editora: O Gil e a bola gira e A capoeira dos sete pintos.

“Os nossos livros incidiam muito nos mais pequenos e o Celso começou a escrever O menino que odiava números, que acho interessante e que, ao mesmo tempo, fomenta o interesse pelas ciências, a Matemática em particular”.

Ainda este semestre, será publicado O pastor de ventos, da autoria de António Cabrita, poeta e escritor português a viver em Maputo há vários anos. O livro de Cabrita é a busca de um jovem que vive numa cidade em que tudo está em ebulição, portanto, sem paz. O personagem em causa, quando vê os pais a discutirem, tenta fazer alguma coisa. Nisso, surge alguém que lhe diz para procurar e domesticar o seu vento. De acordo com Teresa Noronha, a obra de António Cabrita “é um bocadinho desta metáfora de cada um procurar a sua paz e a transmitir ao próximo”.

Outro autor que vai publicar pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa é Sérgio Veiga. “Ele é caçador e mergulhador, e tem uma experiência muito ligada à natureza”, adiantou Teresa Noronha.

O livro de Sérgio Veiga tem como título As aventuras de Matoco, e revela uma preocupação que o autor tem em narrar histórias a partir de factos reais. Veiga também é autor de O velho e o mato e A primeira vida de Mapichana.

Entre os mais de 50 títulos publicados inicialmente pela Escola Portuguesa de Moçambique, quatro foram considerados Altamente Recomendável no Brasil, ano passado, designadamente: O pátio das sombras, de Mia Couto; Na aldeia dos crocodilos, de Adelino Timóteo; Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; e O caçador de ossos, de Carlos dos Santos. Na percepção de Teresa Noronha, a distinção é muito importante porque dá a conhecer a literatura moçambicana noutros países de língua portuguesa. “O contacto literário não pode ser apenas no sentido de autores brasileiros e portugueses chegarem a Moçambique. Deve ser também no sentido inverso, de dar a conhecer os escritores de Moçambique e de outros países africanos no Brasil ou em Portugal. Outro aspecto, o selo Altamente Recomendável demonstra a importância que é atribuída à qualidade literária dos nossos autores e ao livro enquanto objecto. Sentimo-nos muito satisfeitos por isso”.

Além desse reconhecimento, cinco livros editados pela Escola Portuguesa de Moçambique foram adoptados ao ensino em Portugal: O Pátio das Sombras, de Mia Couto; O casamento misterioso de Mwidja, de Alexandre Dunduro;  Kanova e o segredo da caveira, de Pedro Pereira Lopes (para leitura autónoma do quinto ano de escolaridade); Leona, a filha do silêncio, de Marcelo Panguana; e O caçador de ossos, de Carlos Santos (sugestões de leitura na área da formação de adultos).

Entretanto, no país nada disso aconteceu. “Não posso dizer que fico triste em relação a isso, mas espero sempre que aconteçam coisas melhores daqui em diante. Acho que os caminhos vão se fazendo”, disse Teresa Noronha, revelando que a Escola Portuguesa de Moçambique tem adoptado os infanto-juvenis ao ensino dos seus alunos.

A terminar, a coordenador editorial, sentada voltada de costas para uma estante de livros na biblioteca da Escola Portuguesa de Moçambique, na cidade de Maputo, sexta-feira à tarde, revelou o que considera ser um facto em relação à qualidade dos infanto-juvenis de Moçambique: “francamente, estamos a fazer um caminho importante. Sem falsa modéstia, tenho contactos de Cabo Verde e Angola, Moçambique está muito à frente em termos de produção de literatura para crianças. E isto também tem a ver com quantidade de jovens que têm aparecido a escrever para os mais novos. Estamos num bom caminho”.

Entre os vários autores publicados por aquela instituição de ensino, também estão Ungulani Ba Ka Khosa, Mauro Brito, Rogério Manjate e Hélder Faife.
 

 

O título da nova longa-metragem da Leopardo Filmes (Portugal) é o nome de um insecto: Mosquito. A obra cinematográfica foi rodada, primeiro, em Nampula. Depois, quando se tornou arriscado regressar àquela província por causa dos ataques no Norte do país, a equipa de produção virou as atenções para Marracuene. Naquele distrito de Maputo, foi montada uma aldeia igual a que se pretendia inicialmente. E pronto. As filmagens prosseguiram com um elenco constituído por vários actores moçambicanos, como são os casos de Josefina Massango, Ana Magaia, Mário Mabjaia, Aquirasse Nipita, Gigliola Zacara, Maria Clotilde, Messias João, Hermelinda Simela e Gezebel Mocovela – além de Sufaida Moiane que esteve como figurante.  

Assim, tendo como realizador João Nuno Pinto e como produtor Paulo Branco, a longa-metragem irá inaugurar o Festival Internacional de Roterdão, nos Países Baixos, no dia 22 deste mês, o que, segundo entendem Josefina Massango e Gigliola Zacara é uma grande oportunidade de exportar a arte e a cultura moçambicanas no estrangeiro.

Ora, Mosquito é a história de Zacarias, avança a sinopse, “um jovem português sedento por viver grandes aventuras heroicas durante a Primeira Guerra Mundial. Enviado para Moçambique, onde o conflito se desenrola longe dos olhares do mundo, o soldado vê-se deixado para trás pelo seu pelotão e parte numa longa odisseia mato adentro, à procura da guerra e dos seus sonhos de glória”. Mais do que isso, é igualmente uma história de desespero, isolamento, esperança e amor, que, essencialmente, descortina os bastidores da guerra, afinal, adianta Ana Magaia, é importante resgatar peripécias da guerra “para nos ajudar a lembrar de onde viemos, para onde vamos, o que fizemos e como foi que tudo aconteceu”. Para que as gravações do filme acontecem com sucesso, a actriz realça: “a Josefina teve um papel preponderante em todo o processo, porque foi a pessoa que, de certa maneira, ajudou o realizador a encontrar as actrizes, na tradução e em tudo o resto”.

Com a participação no Mosquito, pela primeira vez, Gigliola Zacara inicia-se num filme histórico, o que a actriz considera notável para o seu currículo. No filme, Gigliola é uma das integrantes da Aldeia das Mulheres, onde o papel de líder humana foi confiado a Josefina Massango e de guia espiritual a Ana Magaia.

Não obstante, Mosquito é uma história de ficção baseada em factos reais. Numa publicação feita sobre a longa-metragem, o realizador revela: “Em 1917, com apenas 17 anos, o meu avô paterno desembarcou em Moçambique junto com a 4ª Companhia Expedicionária Portuguesa, para defender a ex-colónia portuguesa da ameaça alemã. Como tantos outros soldados europeus em África durante a Primeira Grande Guerra, teve de fazer centenas de quilómetros a pé, em marchas diárias, enfrentando as mais duras privações, doenças, fome e sede. A diferença é que ele fez isso tudo sozinho, à procura da guerra e dos seus sonhos de glória. Mosquito é inspirado na história da chegada do meu avô a África. No entanto, o que se passou durante a sua longa e solitária caminhada pouco se sabe. É aqui que entra a ficção, a fabulação e o sentido que pretendo dar à narrativa”.

A longa-metragem Mosquito é uma produção da Leopardo Filmes em co-produção da Alfama Filmes Productions (França), APM Produções (Portugal), Delicatessem Filmes (Brasil) e Mapiko Filmes (Moçambique).

 

REALIZADOR NASCEU EM MOÇAMBIQUE

O realizador de Mosquito, João Nuno Pinto, nasceu em Moçambique, em 1969, e mudou-se para Portugal com cinco anos, logo a seguir à independência nacional. Os últimos anos do realizador têm sido divididos entre Lisboa (Portugal) e São Paulo (Brasil), onde residiu durante vários anos. A sua primeira longa-metragem de ficção é América, uma irónica reflexão sobre Portugal enquanto país destino de imigração. Mosquito, o seu mais recente filme, foi escrito pela sua mulher e também guionista, Fernanda Polacow, e por Gonçalo Waddington. O filme demorou quase sete anos a preparar.

 

 

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