O País – A verdade como notícia

Txukela, uma expressão em língua citswa que se traduzida em português significa açúcar, é o título do primeiro álbum da jovem cantora Tchakaze, um nome que por sinal, não veio por acaso. A cantora diz que o nome surge porque pretendia dar um nome neutro ao álbum, mas que ao mesmo tempo, fosse algo que combinasse com as 12 faixas do seu CD e lhe foi proposto o nome “Ulombe”, mas que não lhe agradou. A cantora é descendente de Manhambanes e conta que na sua casa, só falam citswa, aí pegou no “Ulombe” que ficou “Txukela” ambos com o mesmo significado.

Tchakaze diz que mais do apenas entreter as pessoas com música, usa o álbum como uma arma de guerra para combater vários males que afectam a sociedade, e exemplo disso são as músicas Nkata e A Luta Continua, que são uma espécie de chamado para as mulheres serem intolerantes à violência doméstica.

E porque o futuro está nas mãos dos mais jovens, a cantora usa a música “Guitarra de Latinha” para mudar a consciência da sociedade em relação às chamadas flores que nunca marcham que um pouco por todo país vivem sem teto, sem nada pra comer, sem saber o que será do amanhã e sem esperança de trocar essa dor por um futuro melhor.

Dentre as 12 faixas, há uma espécie de amor envenenado, interpretado por Tchakaze e Deltino Guerreiro que de tão forte tornou-se no chodo da cantora. Chama-se Lirandzo la Phoisene, uma música que fala de amor. Tchakaze conta que escreveu a música há pelo menos cinco anos, mas que não sabia com quem poderia cantar, mas numa viagem a Tete para um concerto musical, ela descobriu o músico Deltino e aí teve a certeza que aquela era a voz perfeita para aquela que seria a combinação perfeita de sons melódicos para o Lirando la Phoisene.

Tchukela é para Tchakaze mais que um sonho realizado, pois diz ser um álbum para vida toda, uma vez que além das 12 faixas doces serem boas para o ouvido, são também, perfeitas para educar.

Já no mercado há pelo menos 45 dias, Txukela já vendeu mais de 250 das 500 cópias disponíveis.

 

 

A segunda longa-metragem de João Ribeiro foi rodada em Maputo, em 2018. Tantos meses depois da pós-produção feita no Brasil e em Moçambique, Avó Dezanove e o segredo do soviético vai estrear no Pan African Film Festival, em Los Angeles, na Califórnia, nos Estados Unidos de América.

A estreia internacional do filme moçambicano no considerado maior festival de cinema negro nas terras do “Tio Sam” vai acontecer durante a 28ª edição daquele evento, a decorrer entre 11 e 23 de Fevereiro. Por isso mesmo, o realizador do filme sente-se satisfeito. Primeiro, porque a oportunidade sucede depois de um longo trabalho na busca de financiamento e apoio para a produção, preparação da produção e edição da obra cinematográfica, e, segundo, porque Avó Dezanove e o segredo do soviético vai estrear internacionalmente num festival relevante, de facto, e que acontece há 28 anos. Inclusive, lembra João Ribeiro, o afamado Black panther, de Ryan Coogler, estreou naquele festival.

A história da segunda longa de João Ribeiro passa-se numa cidade além do tempo e da geografia, num bairro não identificado, que ganha contornos quase mitológicos. A vida dos moradores gira à volta da construção do Mausoléu de um Presidente falecido. No entanto, o monumento acaba por ameaçar a vida tranquila que todos levam quando as autoridades anunciam que as casas do bairro têm de ser dinamitadas para a obra ser terminada.

Tentando não comparar, já que cada filme é diferente, João Ribeiro adianta que Avó Dezanove e o segredo do soviético é uma produção mais recomendável para ver em família, do que O último voo do flamingo, sua longa de estreia, até porque os protagonistas são crianças (Jaki, Jeanu dos Santos, e Pi, Caio Canda).  

Na realização de João Ribeiro, a história do filme adaptado do livro do escritor angolano Ondjaki, que esteve em Moçambique ano passado, dura 90 minutos, contando com importantes actores de Moçambique (Ana Magaia, Anabela Adrianoupulos, Adelino Branquinho, Mário Mbjaia, Elliot Alex, etc.) e estrangeiros (Flávio Bouraqui, do Brasil; e Dimitri Bogomogov, russo).

Uma das expectativas de João Ribeiro é que a exibição do Avó Dezanove e o segredo do soviético no Pan African Film Festival exponha e promova a longa-metragem que terá estreia nacional nos finais do mês de Fevereiro, em Maputo, na quinta mostra de cinema africano. Nesse evento, a longa de Ribeiro será o filme de abertura.

O Pan African Film Festival é um evento cujo objetivo, de acordo com a organização, é “apresentar e mostrar o amplo espectro de obras criativas negras, particularmente aquelas que reforçam imagens positivas e ajudam a destruir estereótipos negativos. Acreditamos que o cinema e a arte podem levar a uma melhor compreensão e promover a comunicação entre povos de diversas culturas, raças e estilos de vida, enquanto ao mesmo tempo servem como veículo para iniciar o diálogo sobre as questões importantes de nossos tempos”.

O Festival americano foi fundado em 1992, e, sem fins lucrativos, dedica-se à promoção da compreensão cultural entre os povos de ascendência africana.  Portanto, desde os finais do século passado, anualmente, o evento apresenta mais de 150 filmes de artistas da América, de África e Europa, todos exibindo a diversidade e a complexidade das pessoas de ascendência africana.

Também anualmente, o Pan African Film Festival apresenta prémios de reconhecimento aos principais actores. Entre os laureados até aqui estão Forest Whitaker, Idris Elba e Nate Parker. Todos eles são negros e já fizeram filmes sobre o racismo ou a condição do negro. O primeiro, por exemplo, contracenou com Denzel Washington em The great debates (2007). O segundo encarnou a história de Nelson Mandela em Long walk to freedon (2013). Já o terceiro, além de ter contracenado com Denzel Washington e Forest Whitaker, também actuou como protagonista na longa A birth of a nation (2016), que tem a sua própria direcção.

Portanto, sem saber ainda se irá viajar para os Estados Unidos próximo mês, é num festival daquele país que o novo filme de João Ribeiro vai estrear. Igualmente de Moçambique, no Pan African Film Festival será apresentado a longa-metragem da Mahla Filmes: Resgate, o que constitui um grande marco para o cinema moçambicano, segundo entende o autor de Avó Dezanove e o segredo do soviético.

 

 

No princípio, o objectivo da GM Record, que tem editados grandes e novos nomes do Hip-Hop moçambicano, era agenciar artistas e publicar os seus álbuns. Rapidamente, o Director-excutivo da produtora/ editora moçambicana percebeu que aí não haveria futuro. Então, Sidney Mavie (DJ Sidney) passou a focar-se no compromisso de lançar discos de rappers moçambicanos, sejam álbuns ou EP.

A entrega à pretensão de promover a música e os autores moçambicanos, dando-lhes a oportunidade de se apresentarem em disco, na verdade, iniciou em 2017, ano que a GM Record editou cinco discos. Para o efeito, houve necessidade de a produtora/ editora fazer perceber aos artistas o que é o seu produto no mercado nacional. Sidney Mavie considera que essa tarefa acaba sendo um trabalho aturado porque, sem querer, devendo à fragilidade estrutural de alguns artistas na área de edição, produção ou distribuição de discos, vê-se a desempenhar funções de mananger.

Ainda assim, uma coisa é certa. A experiência e os anos de trabalho na música têm contribuído para os autores de Hip-Hop em geral confiarem cada vez mais na GM Record, daí em pouco tempo ter publicado 36 títulos. Só ano passado, a produtora levou às ruas 15 discos e em 2018 conseguiu lançar 16.

Porque cada disco tem a sua história, DJ Sidney lembra que para a GM Record, até aqui, o disco mais difícil de trabalhar foi A kaya, da autoria de Xitiku ni Mbaula. A explicação é muito simples: “naquela época o SG e o Dinguizwaio já não estavam muito ligados ao projecto deles. Houve necessidade de conversar muito com eles para que o disco saísse. Por isso foi o que levou mais tempo até agora”, contou Sidney Mavie.

Dos 36 discos lançados pela GM Record, entretanto, apenas um teve patrocínio, O rapper do povo, de Bander.

Neste caso, o próprio autor é que conseguiu adquirir financiamento para o CD. Com efeito, a capacidade financeira é determinante no que diz respeito à produção ou reprodução de exemplares dos discos, que varia, dependendo do autor. A produtora tanto pode lançar 100, 150 ou mais cópias. A ideia é sempre procurar esgotar a venda os CD e evitar prejuízos financeiros. Quando há mais procura, aí produzem-se mais.

Nestes três anos, entre os discos mais vendidos da GM constam Duditos way, de Duas Caras, que esgotou logo no dia da apresentação; Génesis, de Allan; A kaya, de Xitiku ni Mbaula, e A cura de Drakula. “Gostaríamos de ter apoio em termos de produção, para que os artistas não se limitem apenas à produção local. Queremos ter discos com qualidade padrão internacional”.

Mavie garante que há muito talento no país, na área musical, mas falta formação. “As pessoas trabalham muito com conhecimentos apreendidos de forma alternativa. Isso afecta a nossa indústria musical porque poucos têm alta competência na masterização, por exemplo. Eu próprio sinto que há conhecimentos que faltam à GM Record”.

Um dos rappers difícil de trabalhar, revela DJ Sidney, é Duas Caras. E explica: “trabalhar com Duas Caras não é fácil. As coisas acabam dando certo porque conhecemo-nos há muitos anos, desde 1995, e somos amigos. Isso facilita todo o processo porque existe confiança entre nós os dois. Fora isso, quando estamos  a trabalhar num projecto dele, levamos muito tempo a discutir, o que até é muito frutífero. Ma não é fácil. Por exemplo, até o passado mês de Dezembro, já tínhamos o disco de Duas Caras fechado, pronto para lançar. Mas, a certa altura, resolvemos esperar mais um pouco. Agora não sabemos ao certo se vai ser um EP ou um álbum. Seja como for, temos condições e músicas para investir num ou no outro formato. Contudo, dou-me muito feliz e honrado por conseguir publicar a obra de Duas Caras. É bom saber que contribuo para alegrar os apreciadores da música dele”.

Dos 36 autores publicados pela GM Record, estão ainda 3H, Micro 2, Ray B, Crack e DJ Edson e Homoplata.

 

 

 

Xavier Machiana vai investir, este ano, numa carreira musical a solo, depois de ter lançado dois álbuns com a banda Rockfeller´s.

 

A ideia é lançar um álbum discográfico até o final do ano. Por isso, Xavier Machiana já iniciou o percurso a solo. Recentemente, o músico de rock disponibilizou ao público, através de plataformas digitais, a primeira das várias músicas que vão constituir o seu disco. Intitulada “Grace”, a música traduz o interesse de o autor cantar sobre a necessidade de as pessoas serem mais humildes e, acima de tudo, aprenderem a verbalizar a gratidão. “Muitas vezes nós estamos numa corrida pela vida, e esquecemo-nos de dizer obrigado às pessoas que estão ao nosso lado ou de acarinhar os nossos filhos”, afirmou Xavier Machiana, esta segunda-feira, em Maputo, sublinhando que “Grace” é uma chamada de atenção para a necessidade de se ser mais humano e verbais em relação aos sentimentos positivos.

Já a tocar nas rádios, “Grace” faz parte de um projecto de composição a solo que Xavier iniciou em 2014. Foi escrita em casa do músico, na Noruega, quando lá viveu por cinco anos. Até ficar pronta, o tema sofreu várias alterações, tendo sido gravada (uma parte) em Nova Iorque e finalizada nos estúdios da Ekaya, em Maputo, com a produção, mistura e masterização por João Carlos Schwalbach. Nas terras do “Tio Sam”, as gravações de guitarras foram confiadas ao guitarrista John Caban, que que trabalhou com Richard Bona, Alana Davis ou Art Neville. As razões dessa preferência? “Ele ouviu a música, gostou e logo disse-me que queria fazer parte do projecto”.

Ou seja, a preferência de trabalhar com o guitarrista John Caban justifica-se porque o músico moçambicano procurava na altura alguém que tivesse um notável background de rock e que não na sua colaboração não fizesse simplesmente um trabalho encomendado. “Ele ouviu e mandou-me algumas ideias e senti que ambos percebemos a música da mesma maneira, apesar de não nos termos conhecido antes”.

Neste novo percurso de Xavier, a ambição vai além do rock, até porque o músico também tem escutado jazz, house music ou hip-hop. Logo, doravante, a sua criação terá um pouco desses elementos todos. Obviamente que o elemento rock estará mais presente em quase tudo, “pois eu cresci neste ambiente do rock”.

“Grace é um bocado de Xavier Machiana 20 anos depois, agora que é pai de meninos grandes, marido e uma pessoa mais serena profissionalmente. O percurso ora a trilhar a solo reflecte algo que está a passar, mas sem se esquecer de onde vem. “Eu sou produto da minha história, mas agora gritando ou saltando menos, sem se preocupar com o que as pessoas pensam, mas no que o projecto vai dar”.

Com efeito, até o disco ficar pronto e ser lançado, Xavier vai disponibilizar músicas regularmente. Por exemplo, mensalmente ou de dois em dois meses. Sem pressão. A estratégia tem mesmo a ver com as novas tendências, pois o músico entende que as pessoas, actualmente, ouvem mais música em formato digital e sem muita inclinação para álbuns. Assim, dará ao público a possibilidade de escutarem as músicas uma de cada vez, sempre com a dimensão internacional, afinal: “há que migrar para algo maior, abrangente e apostar nas aprendizagens que colhi nos países onde vivi e estabeleci contactos”, o que não quer dizer que vá sempre cantar em inglês. O artista da Matola compõe muito na língua de Shakespeare, mas não se esquece de português. Seja como for, “a língua não é o mais importante, até porque já vi pessoas na China a cantarem músicas de Mr. Bow”.

 

O ADEUS A ROCKFELLER´S?

Xavier Machiana lançou dois álbuns discográficos com Rockfeller´s, Vida dura e Tempo. O artista considera a banda que se prepara para lançar o terceiro disco sua família, a sua escola, onde surgiu e onde está a sua base de inspiração. “Rockfeller´s vai ser sempre um marco em tudo o que eu for a fazer”.

Questionado sobre por que deixou a banda, já que é sua família, Xavier explicou: “eu precisa de tempo, porque além de fazer música faço também outras coisas. Vamos dizer que eu pedi uma espécie de licença indeterminada até acabar este projecto. Não conseguiria ter energia e tempo para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas acredito que as nossas energias são muito boas e a qualquer altura pode haver uma surpresa de fazermos qualquer coisa juntos”, afirmou, garantido que uma família não se dissocia, mesmo tomando direcções diferentes.

 

O PERCURSO MACHIANA

Xavier Machiana é músico, compositor, actor e activista social. Foi vocalista dos Rockfeller´s, primeira banda de rock do país, actuando em mais de 250 espectáculos. Os Rockfeller´s dividiram o mesmo palco com artistas como: Kool & The Gang, UB40, Martinho da Vila, Lucky Dube, Hugh Masekela, Oliver Mtukuzi, Kassav, Delfins, Rui Veloso, Xutos e Pontapés e Filipe Mukenga. Como vocalista e guitarrista da banda Rockfeller´s, Xavier compôs, produziu, gravou e tocou em dois discos: Vida dura e Tempo, bem como co-produziu os vídeo-clips e um DVD ao vivo.

Xavier co-conceptualizou e produziu o concurso nacional de música alternativa “Sai da garagem”, para a promoção de bandas de rock em Moçambique, que contou com castings e festivais na Beira e Maputo. Co-gerenciou o grupo cultural da Comissão Nacional para a UNESCO em Maputo. Fez diversas performances ao vivo com artistas como o legendário ícone do rock mundial Bono Vox (U2), a diva do funk e Soul Sandra St. Victor (Prince, Chaka Khan, Tina Turner, Erykah Badu, etc. Como actor participou em curtas metragens, seriados, reality-shows e anúncios em Moçambique, África do Sul e Noruega. É formado em Linguística Aplicada, trabalhou como Gestor de Projectos e Especialista em Comunicação para a Mudança de Comportamento e colabora há mais de 15 anos em diversos programas e projectos para ONGs nacionais e estrangeiras.

 

 

 

 

O mês de Janeiro deste muito imberbe 2020 começa com uma cerimónia de apresentação do livro de estreia de Énia Lipanga. A artista e activista social vai lançar o seu livro de poesia intitulado Sonolência e alguns rabiscos. A obra literária será apresentada ao público este sábado, às 15 horas, na Minerva & Continental, na cidade de Maputo, e tem a particularidade de possuir textos em braile, mesmo a pensar nos cegos.

Para este projecto que se pretende inclusivo, Énia Lipanga começou a trabalhar há três meses, depois de identificar a editora com a qual quis trabalhar: a Kuvaninga, que produz livros com capa de cartão reciclado, os quais são pintados e cosidos manualmente numa oficina geralmente aberta a todos interessados. “Eu queria produzir um livro que não fosse apenas meu, e como a Kuvaninga já trabalha com reciclagem, decidi aliar-me a esta iniciativa”, explicou Énia Lipanga, realçando que fez questão de abrir a oficina de pintura a crianças, adolescentes, jovens e demais voluntários.

Ora, além disso, a artista esclarece que decidiu imprimir o livro também na versão em braile porque agora trabalha na área da inclusão. “Sinceramente, acho que todo mundo deveria trabalhar nesta área e preocupar-se com a ideia de como podemos criar uma obra artística e fazê-la chegar ao maior número de pessoas possível. Então, esta obra será para quem vê e quem não pode ver, o que acontece na sequência do meu trabalho na poesia na área de sinais”.

Énia Lipanga considera que livros em braile não são acessíveis em Moçambique. “Este será o primeiro no país. Para o efeito, tivemos de identificar uma gráfica e pessoas que nos pudessem ajudar e daí buscar financiamento. Tive uma equipa de pessoas que se ofereçam para ajudar gratuitamente, como Nataniel Ngomane, que fez a revisão do livro, e Mário Macilau, que me cedeu a fotografia da capa (interna)”.

Sonolência e alguns rabiscos é um livro de amor, sobre o género e sobre a inclusão. Com 20 páginas A4, devido ao alto custo de produção não puderam ser mais do que isso, este é o 26º livro da Kuvaninga Cartão d’Arte, projecto literário e ambiental criado em Maio de 2012, na cidade de Maputo.

O primeiro livro de Énia Lipanga será lançado sábado, mesmo a propósito da ocasião em que se celebra o Dia Mundial do Braile: 4 de Janeiro.

 

Tem dois discos lançados, Namasté e Eleven. Nasceu em Maputo e faz da música um mecanismo de descoberta e partilha de emoções. Está ainda no princípio do seu percurso artístico, mas sabe bem o que quer: atingir o pico da sua expressão artística e acrescentar à música nacional a sua perspectiva criativa.

É uma das vozes mais sugestivas que se podem ouvir em Moçambique. Cantora e compositora, Tégui é autora do disco Eleven, publicado ano passado, pela internet, e, desde este ano, disponível em formato físico. Constituído por oito músicas, o disco é, na verdade, uma síntese de como a autora vê o mundo, com a dimensão universal que a seduz.

Mesmo sendo o seu segundo disco, Tégui explica que Eleven é ainda um processo de descoberta, afinal na natureza em geral nada é infinito, tudo se transforma. “Eu não acordo todos os dias iguais, e a Humanidade está sempre a mudar. O que eu quero mesmo é atingir o pico da minha expressão artística, mas sem estar numa caixa onde fico confinada”.

Para Tégui, a música produz-se sem se pensar nos resultados ou no impacto que possa ter, pois correria o risco de desperdiçar alguma naturalidade, que considera importante. “A minha forma de criação é muito orgânica. A técnica é uma preocupação que vem muito mais tarde”.

O processo criativo de Eleven começou com instrumentais fornecidas pelos produtores com quem a cantora trabalhou, nomeadamente: Tony Bird, KEYbeatz, PIZZAW/Pinapples, J.Mc.Edwins e Origimoz. Depois de assimilar as instrumentais, a cantora trabalhou na composição consoante as particularidades das sonoridades. Ou seja, Tégui quis construir as narrativas por cima da criação dos produtores, pois das vezes que fez o contrário as coisas não saíram como pretendia. Por isso, nos próximos tempos, a artista quer aprender a tocar guitarra, piano e flauta, de modo a ampliar a sua capacidade de criação. Além disso, há outro desejo: “Gostaria de acrescentar à música moçambicana a minha perspectiva. Quero mostrar que existem outras formas de fazer música, inclusive em Moçambique, porque temos muito talento alternativo no país. Por exemplo, uma das pessoas com quem colaborei neste disco é Guto, que considero o melhor cantor moçambicano, pelo menos dos que são próximos de mim”.  

A primeira música gravada do Eleven, todo produzido em Moçambique, foi “Au revoir” e a mais difícil “Open for you”, pois a cantora teve de estudar muito para a fazer, alternando a sua maneira natural de colocar a voz. “A escrita também não foi fácil, porque o beat é inconstante”, acrescentou, realçando que o que mais gosta na arte musical é o acto da composição, até porque também escreve poemas. “Por exemplo, a música que dá título ao disco começou com um poema. “Também gosto de actuar ao vivo. O que não aprecio é o trabalho de estúdio. Acho o estúdio um pouco claustrofóbico”.

Tégui cresceu a escutar música porque o pai é grande coleccionador de discos. O seu interesse pelas artes em geral despertou quando tinha 10 anos de idade. Nessa altura, entretanto, a menina não sabia que era boa de canto. Quando tinha 11 anos, os elogios começaram a chegar. Primeiro foi uma amiga, e, depois, mais pessoas notaram-lhe o talento. Aí percebeu que se calhar poderia levar a música a sério. Em 2011, Tégui entra para o seu primeiro grupo, depois de uma prima que também canta a levar pela primeira vez a um estúdio, onde aprendeu como as coisas funcionam.

Tégui é o pseudónimo de Silke Teresa Guilamba, que nasceu a 16 de Setembro de 1993. Em 2016, a cantora lançou o seu primeiro disco, intitulado Namasté, uma forma de cumprimentar e de se anunciar oficialmente ao público. Segundo a autora, o EP foi produzido num contexto silencioso e calmo, dentro de um espaço muito íntimo e pessoal, “em momentos em que contemplei e questionei o cenário da minha vida”. Por fim, o título Eleven, onze em português, surge como somatório dos algarismos que compõem 2018, o ano em que a obra musical ficou pronta.   

 

 

 

 

 

A fim de acelarar o processo de restituição de artecfatos e objectos culturais saqueados em África no período colonial, a Open Society Foundations (OFS) disponibiliza 15 milhões de dólares. O anúncio foi feito por Patrick Gaspard, presidente da OFS e ex-embaixador dos Estados Unidos de América na África do Sul a estação televisiva SABC Digital News, a partir de Londres.

O interesse de apoiar a devolução de bens culturais ao continente africano coincide com o primeiro aniversário da publicação do “Relatório Sarr-Savoy”, encomendado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no qual se exige o retorno imediato e incondicional de objectos africanos obtidos por meio de roubo, saques, despojos, truques e consentimento forçado, antes de 1960.

Segundo Patrick Gaspard, a devolução é importante para os africanos, considerando que tal ajudará na construção de uma identidade consistente, baseada em factos concretos, palpáveis.  A restituição desses bens e artefactos com valor etnográfico, entende Gaspard, seria, por outras palavras, trazer África de volta para o seu continente, pois aqueles objectos são parte da essência das suas gentes e tradições.

Com efeito, o valor disponível será investido nos próximos quatro anos, para criar conexões entre os países do continente, envolvendo escolas, artistas, activistas e líderes espirituais que trabalham na área. Concretamente, o apoio irá abranger infra-estruturas que irão receber o material em condições de serem exibidos ao público.

Portanto, o presidente da Open Society Foundations acredita que a Restituição irá ajudar na afirmação do continente através da história que irá legitimar a identidade, avança uma nota enviada à imprensa moçambicana.

 

Sérgio Raimundo “suspendeu” um Poeta Militar que vivia dentro de si, desde muito novo. Por isso, largou os versos por tempo indeterminado. A prioridade do autor que se apresentou às letras como poeta passou a ser a narrativa, sobretudo agora que acaba de vencer o tão importante Prémio INCM/ Eugénio Lisboa. Mas como tudo aconteceu? O que a ascensão de Sérgio Raimundo na ficção tem a ver com a suspensão do Poeta Militar, seu pseudónimo?

50 dias antes de o Prémio INCM/ Eugénio Lisboa encerrar as candidaturas, Sérgio Raimundo começou a escrever o seu A Ilha dos mulatos, texto com o qual venceu a 3ª edição daquele concurso literário. O anúncio foi feito esta sexta-feira. Antes de se tornar quase “viral” no facebook, a informação foi dada ao autor por alguém da Embaixada de Portugal em Moçambique, através de uma ligação telefónica. Presente de Natal antecipado. Cinco mil Euros zás… no bolso do escritor… sem aviso prévio.

Parece que estava escrito em algum lugar que 2019 seria o ano de Sérgio Raimundo, afinal, há quatro meses nasceu o seu primeiro filho, que se encontra de baixa no Hospital Central de Maputo. Bem dito, o escritor ficou a saber que era o vencedor da 3ª edição do Prémio INCM/ Eugénio Lisboa momentos depois de ter sido informado pela mulher que a cirurgia do filho já não aconteceria no dia previsto. Houve um adiamento. Então, a notícia do prémio veio-lhe colorir o dia cinzento: “Foi um momento único. Naquele instante tive uma felicidade enorme”, afirmou Raimundo, clarificando a seguir que o seu texto, na verdade, é uma carta de amor à Ilha de Moçambique, onde se passa a maior parte da história.

Ora, além de ser essa carta, A ilha dos mulatos ficiona a actual realidade moçambicana, retratando situações como ataques em Cabo Delgado, o racismo, a homossexualidade e os efeitos de algumas doenças: a surdez, a síndrome de Down e alzheimer, que afectaram pessoas próximas ao autor.

Essencialmente, a história premiada é sobre uma família luso-descendente, que vive na Ilha de Moçambique, em vias de desaparecer. No enredo há mortes e investigação que aproximam a narrativa a um policial. “Além disso e de aspectos filosóficos, quis inserir na história mais elementos, mas ao fim de mais ou menos um mês e duas semanas tive de submeter o texto ao concurso”, disse o escritor, adiantando que na sua história cada personagem é dona da sua própria narração.

Sérgio Raimundo vem da poesia. Há muitos anos adoptou o pseudónimo Poeta Militar. Inclusive, chegou a publicar um livro de poemas: Avental de um poeta doméstico. Entretanto, quando menos esperava, perdeu o pai, um dos seus principais leitores. Com a morte do pai, o autor sentiu como que tivesse perdido um colectivo de leitores. E como o azar não vem só. Logo a seguir contraiu tuberculose, o que lhe custou seis meses de cama. Ultrapassada essa fase péssima da sua vida, o poeta teve necessidade de contar coisas. Aí, então, decidiu “suspender” o Poeta Militar” por tempo indeterminado. A vez agora é do escritor, que até possui mais projectos de ficção. Mas clarifica: “O poeta ainda existe dentro de mim, até porque a minha prosa tem lá muita poesia”. Logo, Sérgio Militar ainda se vê a escrever poesia, mas não tão já.

De acordo com o júri, constituído por Mbate Pedro (Presidente), Sara Jona e Paula Mendes, a atribuição do Prémio INCM/Eugénio Lisboa a A Ilha dos Mulatos tem como explicação o “facto de o autor entrelaçar criatividade e originalidade, com a gestão da polifonia e de fluxos de consciência, numa narração que convoca à preservação da memória sobre a Ilha de Moçambique”.

Nesta edição do prémio, com 12 candidaturas, houve duas menções honrosas para os textos O homem que vivia fugindo de si, de Japone Agostinho [Arijuane] e O amor que há em ti, de Néusia Pelembe.

Portanto, o Prémio INCM/Eugénio Lisboa premeia trabalhos inéditos no domínio da prosa literária. Além dos 5 mil euros (cerca de 350 mil meticais) atribuídos ao vencedor, o concurso contempla a publicação das obras distinguidas em cada edição, sempre com o propósito de estimular a produção literária moçambicana.

Sérgio Simão Raimundo nasceu em Maputo, em 1992. É licenciado em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane e actua como colunista, jornalista, crítico de literatura e cinema. Em 2015, publicou Avental de um poeta doméstico.

 

 

 

 

 

 

Ao fim de seis meses, a primeira edição do Sunset Afro-jazz Series vai de “férias”. Próximo ano,  a organização regressa à actividade com a mesma pretensão de fazer do programa um instrumento de promoção da música e dos artistas nacionais em espectáculos ao vivo, concebidos para acontecerem em ambientes amistosos e familiares.

No espaço Big Brother, esta sexta-feira, a partir das 21 horas, duas bandas há muito tempo consagradas na música moçambicana vão subir ao palco para, durante mais ou menos uma hora, tocarem “clássicos” e temas que têm produzido nos últimos tempos. São os casos de Rockfellers, banda de rock que, depois de muitos anos no silêncio, regressou ao “mercado” para continuar a escrever a sua própria história. Os cinco integrantes da banda vão interpretar, neste encerramento do ano, cerca de 14 temas, nove das quais novas. A ideia de Rockfellers passa por começar a promover as músicas que farão parte do novo álbum discográfico, eventualmente a ser lançado nos próximos seis meses.

No entanto, porque há temas que constituem marcos das bandas, igualmente, os Rockfellers vão tocar e cantar os sons que lhes consagraram ao longo dos anos, por exemplo, “Minha vida”. Além dessa música, também vão tocar “Mãos no ar”, “Luz nos olhos”, “Cool”, “Pés no chão” ou “Uma história para contar”. “Temos um conjunto de músicas novas. Será uma oportunidade para os nossos apreciadores ouvirem-nos porque estamos com uma nova energia e com uma linhagem mais madura”, afirmou Ivan, baixista da banda de rock.

No derradeiro ensaio, na véspera do espectáculo, Kapa Dech, a outra banda que vai actuar logo à noite, preparou para o público, igualmente, uma simbiose de temas, entre os ‘clássicos’ e os mais recentes. “Não queremos ficar apenas nos ‘hits’. Sabemos que é perigoso ir a um ‘show’ e não tocar os ‘hits’, mas quando se fica na sombra do passado, as pessoas pedem inovação. Então tivemos a cautela de incluir coisas novas no nosso repertório, mas sem fugir do que é Kapa Dech”, explicou Roberto Isaías, uma das vozes da banda.  

Já na condição de Director-Artístico do Sunset Afrojazz Series, co-produzido pelo Big Brother e pela Stv, Roberto Isaías prometeu que a iniciativa vai encerrar em grande. “Este é o cair do pano, com promessas de voltarmos em 2020, com mais artistas que ajudaram a fazer revolução na música moçambicana, mudando paradigmas no campo social e até mesmo político. Queremos dar ao Sunset este capital inclusivo, afinal também estamos inseridos numa sociedade inclusiva. Fomos muito elogiados ao longo deste período e esperamos que no próximo ano possamos ter mais apoio, de modo que a qualidade dos concertos também melhor”, sublinhou o músico e produtor.

O último espectáculo desta edição do Sunset Afrojazz Series vai durar cerca de três horas, com música, gastronomia e sessão de venda do livro “Lomuku”, de Severino Ngoenha. E um dos nomes do cartaz, que também vai actuar no espaço Big Brother, na cidade de Maputo, é o rapper Azagaia, durante uma hora.

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