O País – A verdade como notícia

Calene é o nome artístico de Cármen Custumes. Vive e trabalha na Beira, sua cidade natal. Este ano, celebra 33 anos de teatro. A seguir, os momentos mais marcantes da carreira da actriz que se notabilizou no programa televisivo Show de Talentos.

 

Há 33 anos, uma menina que frequentava a primeira classe, na Escola Primária Heróis Moçambicanos, na cidade da Beira, foi seleccionada pelo seu professor para integrar o grupo de teatro da Casa Provincial da Cultura de Sofala. A menina em causa chama-se Cármen Custumes, e, já naquela altura, demonstrava algum talento para a representação, ainda que não desse conta disso. Por isso, já integrada no elenco de actores, foi convidada a desempenhar o papel de macaco, na sua estreia como actriz.

Muito nova ainda, Calene, nome artístico de Cármen Custumes, percebeu que o teatro seria o seu futuro. Naturalmente, e sem grandes pretensões, a pequena actriz foi-se destacando nas apresentações do seu grupo teatral, o que chamou atenção de outros actores mais velhos, que passaram a dedicar-se a convencer Calane a deixar a Casa da Cultura. O falecido professor Arez, que ali encenava peças com crianças, entretanto, conhecendo o potencial da miúda, a protegeu de todos os interessados durante meia dúzia de anos. Depois disso, com 13 anos de idade, a actriz teve mesmo de integrar um novo grupo, chamado Tantan. Para Calene esse passo foi fundamental, pois, além dela, todas as crianças que faziam teatro da Casa da Cultura desistiram.

Mais ou menos adolescência, quando alguns deveres de casa passam a fazer parte da sua responsabilidade, a mãe de Calene entra em cena. Laurinda Lopes não queria saber de a filha estar a fazer teatro. Para ela, a arte era coisa de marginais e drogados. Além disso, muitas vezes, quando voltasse da escola, Calene corria logo para os ensaios, deixando para depois os seus deveres domésticos.

Certo dia, farta da teimosia da filha, Laurinda Lopes foi ao local dos ensaios com uma pilha de louça por lavar. O propósito era claro: envergonhar a actriz convicta de que assim ela desistiria do grande sonho. Calene não lavou a louça na Casa da Cultura. Voltou a casa cabisbaixa, toda contrariada. Mas não desistiu. Continuou a seguir em frente.

Vendo que o truque da louça não surtira o efeito desejado, Laurinda Lopes adoptou outras estratégias. Por exemplo, esconder um dos chinelos da miúda sempre que se aproximava a hora do ensaio. Sem um dos chinelos, a pequena actriz ficaria em casa. Ou iria descalça? Nem uma coisa nem outra. Calene usava um chinelo e ia aos ensaios simulando uma ferida no pé descalço.

Firme no teatro, Calene saiu do grupo Tantan e integrou Meia Preta. Depois, seguiu-se Massinguita, Haya-Haya (fundado há 30 anos) e Só Mulheres (que ajudou a fundar há 15 anos. Neste apenas integram actrizes).

Em 2008, a Stv lança Show de Talentos. Este programa televisivo foi importante para que a mãe de Calene sobrevivesse a uma infecção pulmonar e deixasse de pensar que a arte é coisa de artistas. Mas vamos por partes.

Quando o actor Pastor Djito ficou a saber do Show de Talentos, Calene acabava de admitir para a Universidade. Mesmo assim, Djito convenceu-a de que aquele programa era a “cena”. Calene não teve dúvidas disso, mas teria de deixar muitas coisas para trás. Nessa altura, sem condições para pagar a Faculdade, a actriz vivia desenrascando. Além de viver apenas com o filho mais velho, tinha de cuidar da mãe doente, que padecia de tuberculose. A escola estava a ser um fardo. Financeiramente, a vida não estava grande coisa. Indecisa, conversou com alguns familiares para saber o que achavam da ideia dela ir à procura do seu sonho. Uns a incentivaram, outros disseram que se fosse para Maputo, a mãe morreria porque ela era a filha que melhor cuidava da mãe enferma. Calene tomou uma decisão. Trancou a Faculdade. Vendeu uma mesa de bilhares a 25 mil Meticais e com o dinheiro comprou alimentos para três meses e pagou adiantado o aluguer da dependência que alugava a 700 Meticais por mesmo período.

O dinheiro da venda da mesa de bilhares, igualmente, uma parte foi dividida com a mãe e o outro valor pagou uma trabalhadora por um trimestre. Asseguradas certas responsabilidades, a actriz deixou o filho de 4 anos de idade com uma sobrinha de 15. Aí Calene viajou para Maputo a fim de participar no Show de Talentos. Contra as suas expectativas, na primeira semana adoece. Devido ao seu estado, teve uma consulta com um psicólogo, contactado pela organização do evento. “Eu fiquei doente por duas razões, e o psicólogo confirmou-me. Primeiro, quando viajo para participar no programa eu era uma mulher muito irrequieta. Sendo mãe-solteira, tinha de correr muito para conseguir algum dinheiro para sustentar a mim e ao meu filho e ainda ceder alguma coisa à minha mãe. No Show de Talentos mudo radicalmente de vida. Ao invés das lutas diárias, passo a ter tudo disponível: as refeições, a piscina, e etc. Praticamente fiquei monótona. A minha vida resumiu-se aos ensaios, quando eu não estava habituada a receber nada de outras pessoas. Tudo o que eu conseguia era resultado de muito esforço. Além disso, eu andava preocupada com a minha mãe. Lembro-me que no programa não conseguíamos contactar com a família e isso foi-me muito difícil, por saber que a minha mãe estava doente”.

Diagnosticado o problema no Show de Talentos, Calene deixou a angústia para trás e focou-se no que melhor sabia fazer: representar. Do programa, confessa a actriz, surgiu uma visibilidade nunca pensada. Antes do programa, os beirenses conheciam-na da rádio, onde também fazia humor. Depois do programa, a sua notoriedade explodiu e passou a ter vários espectáculos a nível nacional.

No dia em que regressou à sua cidade natal, mesmo sem terem vencido o concurso, Calene e Pastor Djito foram recebidos com muitos holofotes. À sua espera, estiveram o filho, familiares, amigos, vizinhos, conhecidos, curiosos e etc. A actriz sentiu a ausência daquela senhora que deixara doente e de quem não teve notícias durante três meses: a mãe. Perguntou a uma tia onde ela se encontrava. Embriagada, a tia perguntou-lhe: “não acompanhaste?” Calene gelou. Sentiu medo. “Essa frase marcou-me tanto que até hoje, quando me perguntam sobre alguém que me é próximo, respondo: não acompanhaste?”.

Convicta de que a mãe tinha morrido na sua ausência, depois daquela pergunta, eis que a tia responde que a mãe estava em casa. Foi na casa dela que ficou a saber do que se passou na sua ausência. “Numa das conversas que tive com a minha mãe, quando voltei a Beira, ela disse-me que o que a manteve viva não foi o tratamento de tuberculose, mas o desejo de me querer ver a actuar no Show de Talentos. Ela ansiava com que o domingo chegasse para que me visse a representar. Essa foi o maior tratamento da minha mãe. Disse-me”.

A senhora que antes não queria saber da filha ser actriz e que achava que a arte era para marginais, ao ver a filha a brilhar na televisão, percebeu finalmente a mensagem dos artistas. Compreendeu o sonho que a filha começou a construir aos sete anos de idade mais de 20 anos depois. Hoje, Laurinda Lopes diz que não imagina Calene a fazer outra coisa que não seja teatro e que, depois do Presidente da República, os artistas são os mais importantes no país.

Um ano depois do Show de Talentos, Calene voltou a frequentar o curso de Gestão de Recurso Humanos, na Universidade Pedagógica. Ali formou-se e agora perspectiva um mestrado. Enquanto a oportunidade não chega, muito por causa da agenda, concilia o teatro com o trabalho no Departamento de Cultura do Conselho Municipal da Beira, onde é funcionária.

A morte de Pastor Djito

Com Pastor Djito, Calene conquistou Moçambique. As suas peças hilariantes foram bem recebidas pelo público de tal forma que propostas de trabalho não faltaram aos dois. Inclusive, ambos foram convidados a trabalhar numa televisão em Maputo. Entretanto, feitas as contas, a oferta não compensaria as necessidades da actriz. Pastor Djito aceitou e seguiu para trabalhar na televisão. Calene continuou na Beira, mas sempre ligado ao amigo e colega de trabalho. Apenas a morte lhes separou. O episódio dá-se quando o actor viaja para enterrar o pai, na Beira, que perdera a vida na África do Sul. Depois do funeral do pai, Pastor Djito apanhou uma malária e, meses depois, morre. “A perda dele foi um momento muito triste para mim e traumatizante. Mas quando tens Deus, tens tudo”.

Com a morte de Pastor Djito, mais tarde Calene encontrou uma nova dupla. Chama-se Aníbal, e juntos fazem parte do grupo teatral Haya-Haya. Ambos trabalham em dupla, por exemplo, nas cerimónias de casamento, nos baptizados, nas graduações ou nos stand up comedy. Além de Aníbal, Calene também faz dupla com o filho Denilson (Dany) e com o esposo Dário Mucavele, igualmente actor. Na verdade, os dois conheceram-se num festival de teatro realizado na Beira. Depois de um ano a namorarem à distância, o actor deixou Inhambane e foi casar-se com Calene lá nas bandas do Chiveve.  

O teatro no Chiveve

Fazer teatro na cidade da Beira é interessante, segundo Calene, porque as pessoas gostam muito da arte da representação. Por isso, não faltam projectos. Além de trabalhar com Haya-Haya e Só Mulheres, a actriz colabora com Fusão de Actores, artistas de grupos diferentes. Esse grupo fez a peça Marcas do Idai, apresentada em todo o país. O espectáculo conta o drama do ciclone que arrasou o Centro do país, segundo Calene, principalmente por causa da ignorância: “Por ignorância, naquela noite de 14 de Março, muitos de nós fizemos piadas do ciclone na cidade da Beira. Desprezamos o Idai e isso custou-nos muito”.

Marcas do Idai foi, eventualmente, o espectáculo teatral que mais rendeu a Calene em termos financeiros. “Fizemos muito dinheiro com essa peça. Alguns actores do grupo até conseguiram comprar carro. Eu levantei a minha obra”.

O espectáculo foi apresentado diversas vezes no Novo Cine, na Beira, com capacidade para 614 lugares. Pela adesão, chegava-se a vender 700 ingressos. “Na Beira, o teatro compensa no final do mês, quando coincide com o vencimento. Mas com essa peça, qualquer altura do mês servia”.

Marcas do Idai teve encenação colectiva e contou com a participação de cinco actores. Os ingressos foram vendidos a 250 Meticais e sempre esgotaram antes do dia da apresentação. “É uma peça contagiante, com comédia, drama e tristeza. As pessoas riam e choravam. Trabalhamos muito na encenação, com música, casas montadas que desabavam. Isso mexeu muito com as pessoas e, por isso, apresentamos de novo essa peça no dia 14 do mês passado. O Conselho Municipal da Beira pagou-nos e assim as entradas foram livres para os munícipes”.

O teatro em Moçambique

Na percepção de Calene, não é fácil fazer teatro no país. Por isso mesmo, o Governo deve reparar muito nos actores porque, adianta, há uma percepção errada de que arte e cultura é apenas música. “Para os nossos governantes, cultura é música. Por exemplo, nas campanhas eleitorais, nunca aparece um actor, mas os cantores estão sempre lá. O artista em geral vive de arte. Sem oportunidades não têm como sobreviver. Na Beira escasseiam cine teatros. Ficou-nos a Casa da Cultura e o Novo Cine, agora Auditório Municipal. O Governo deve prestar mais atenção ao teatro”, sobretudo neste período em que, por causa da COVID-19, estamos todos em casa. No meu grupo, Só Mulheres, existem muitas actrizes que vivem do teatro. O que será delas agora?”.  

Cármen Custumes nasceu no Hospital Central da Beira, no bairro Macúti. É mãe de três filhos, dois rapazes e uma menina, e considera que o teatro deu-lhe tudo. “Tudo o que eu tenho é graças ao teatro, inclusive a minha família. Então fazer teatro para mim é como respirar”. Neste percurso, ajudam-na a respirar colegas como António Garcia (Apingar) e Lúcio Chiteve, ambos encenadores.

Além de actriz, também é publicitária e activista social. Essa é Calene, a “mulher que quando se espalha, ninguém a junta”.

 

Guto D'Harculete é cantor e produtor musical. Compõe e também actua como corista. Em 2013, lançou o seu primeiro álbum no formato digital, Íntimo e pessoal, constituído por 13 temas, muito afeiçoados ao amor. Actualmete, o artista encontra-se a trabalhar num segundo projecto, inspirado na sua filha. Nesta entrevista, o artista fala da sua relação com a música e com o humor, do que o move e do que alimenta a sua imaginação.

 

O seu álbum de estreia, Íntimo e pessoal, do ponto de vista temático, é carregado de muitas componentes líricas. Há uma explicação?

Íntimo e pessoal é uma experiência de uma simbiose entre produtores musicais e eu como artista. Íntimo e pessoal fez parte de um projecto chamado Excentric Music, que, em 2013, estava constituído por produtores que seleccionavam cantores para fazer a parte cantada nos seus beats. Eles convidaram-me também e, a partir daí, criamos um produto que foi inteiramente neo soul e Hip-Hop, em que a composição estava na minha responsabilidade. Na verdade, a partir do momento que tínhamos quatro músicas, começamos a chamar o álbum de Muito íntimo. Mais tarde, por sugestão de Neuro Toxina, ficou Íntimo e pessoal. Ao trabalharmos neste projecto, tentamos não fugir da alma neo soul, que era uma coisa nova aqui em Moçambique.

 

As suas músicas, neste álbum, apresentam constantemente uma musa, que responde, corresponde e, às vezes, nem por isso. Quem é esta “dádiva” – e este é o título de uma das músicas do álbum – não existencial que tanto o ilumina durante a composição?

Na produção deste álbum, procuramos não fugir ao estilo poético do neo soul. Quisemos ter a ficção, o futurismo e imaginação apenas, ao invés de assuntos reais. Isto é, essa dádiva não existe.

 

Está observado que não existe. Mas quem é essa dádiva na sua imaginação?

Pois é. Ela não existe, mas a tal dádiva que sempre coloco nas minhas composições é a própria música. Grande parte dos temas em que coloco a imagem feminina, é da música que se está a tratar.

 

Neste Íntimo e pessoal o amor é o ponto de partida para se pensar nas próprias relações reais, embora há pouco tenha dito que a realidade não lhe interessa muito. Estou e pensar, por exemplo, na música “Tarde de sexo”. Admite?

Sim, até porque o título dessa música, no caso, já sugere um envolvimento físico. Aqui nós tentamos levar ao álbum a parte passional do amor, procurando aproximar a parte carnal desse sentimento.

 

Mas nisso que chama aproximação, na verdade, há uma rejeição…

Sim e não. Refiro-me a parte carnal mais no aspecto do que a música vai criar. Não é carnal porque não existe contacto físico. Nessa música que se refere há uma conversa ao telefone que depois resulta num encontro. Aí procuramos apresentar uma imagem mais vermelha – costumo chamar as relações de cores –, mas aproximada às relações que chegam ao momento de sexo. De facto, além dessa música, a outra que tem essa particularidade é “Perfume”. Estas são duas das três músicas mais reais do álbum, em que a personagem não é exactamente a música.

 

O amor é apenas um elemento para concretizar um estilo musical ou a sua ocorrência tem outras razões?

Eu penso no amor como um tema muito vasto. No álbum, usei o amor apenas como um instrumento que me permite chegar a outros temas que queria tratar. Não é um elemento final, mas um trampolim para tocar em tantos outros assuntos. Essa tem sido minha estratégia na composição de vários temas. Eu uso muito amor, e não só no aspecto conjugal. O fraternal também me interessa.

 

Qual o ponto de intercessão entre o período em que se descobre na música e o período que se apresenta ao público?

Com os meus sete ou oito anos de idade fui convidado a participar num programa televisivo. Na altura, claro, nem fazia ideia de que poderia ter algum talento para a música. Por gostar de música, e até porque na família tenho coleccionadores de música, aceitei ir ao programa. Fiz mímica de uma música e, a partir dali, passei a interessar-me pela arte musical. Por volta de 2001 identifiquei-me com o estilo Hip-Hop e criei o nome artístico Guto. Dois anos depois, aprendi a fazer beats e, em 2005, começo a trabalhar como beat maker. Em 2007, percebo que, se calhar, eu poderia cantar nos meus próprios beats. Em 2008, quando me mudo para estudar em Maputo, dá-se a intercessão entre o Guto apenas beat maker e o Guto beat maker e cantor. Lembro-me que nessa altura calhei numa turma em que estava um irmão de Azagaia, com que fiz parte de um grupo. Algum tempo depois, Azagaia convidou-me a fazer parte da banda dele como corista e foi ouvindo os meus beats. Mais tarde ele convida-me para fazer o beat da música “Filhos da…” e uns tantos outros que entraram para o período de gravação do álbum Cubaliwa. No final ficaram no disco três beats: “Calaste”, “Cão de raça” e “Wa Gaia”.

 

E nessa mesma altura Guto aparece como humorista…

Nessa mesma altura eu imitava a voz do nosso ex-Presidente. Esse episódio levou-me a fazer parte do grupo Impro Riso e, a partir daí, as pessoas passaram a conhecer-me mais como humorista do que como cantor. É engraçado que algumas vezes era convidado para ir aos programas televisivos. Pensando que fosse para cantar, levava o meu instrumento, e lá ficava a saber que era para o humor.

 

O humor é posterior à música?

Sim, mas também diria que não. O humor é algo que vem na família. O meu irmão mais velho, Alberto, já fazia isso, e, nós, os mais novos, sempre imitávamos. Aliás, o meu irmão mais velho sempre foi um exemplo para nós. Por causa do meu pai, e, depois, dele, muitos membros da família passaram a coleccionar e a gostar de música. Agora, na minha família, sou o segundo de quatro irmãos que cantam. Então, a parte do humor surge com o empurrão do Azagaia, eu fiz um número numa música dele. O Azagaia passou a chamar-me para os seus shows. As pessoas que ouviam a minha actuação gostaram. O Impro Riso ouviu e convidou-me a fazer parte do grupo.

 

O que mais lhe entusiasma entre a música e o humor?

A música… sempre. E agora tem sido mais música porque as pessoas já não estão muito familiarizadas com a imagem do antigo Presidente.

 

E em relação a produzir as instrumentais, participar nos coros ou a cantar as suas próprias músicas, há algo mais especial?

Eu gosto de ouvir a minha voz. Não interessa se é na minha ou na música de outra pessoa. Ultimamente, tenho feito muitos coros nas músicas dos meus colegas e isso dá-me muito prazer. É um trabalho que gosto muito e gosto muito de saber que, se calhar, a música do meu colega ficou bem porque contribui com a minha voz. E muitas vezes a minha participação até passa despercebida. Sendo mais concreto, acho que o que eu mais gosto é de fazer coros para as músicas dos meus colegas.

 

Voltando ao disco, em que momento da sua vida Íntimo e pessoal foi lançado?

O álbum foi lançado num momento que eu considero de recriação pessoal. O álbum foi lançado na minha ausência. Naquele ano de 2013 tomei algumas decisões importantes para minha vida. Foi no ano que desapareci para as artes.

 

O que significa desaparecer, aqui?

Significa parar de fazer tudo. Em 2013, eu estava a estudar, e como me dedicava à música e ao humor, tive maus resultados na Faculdade. Isso afectou a minha vida pessoal e espiritual. Então aí decidi dar um passo em tudo e recriar a minha vida. Tive um reencontro com Deus e, a partir daí, comecei a redefinir algumas prioridades para mim. Portanto, não vi e nem acompanhei como foi lançado o álbum, mas sempre tive a confiança na equipa que o lançou. Quando retornei em 2019, com actuações ao vivo, as pessoas deram-me um retorno positivo, como se o álbum fosse ainda uma novidade. As pessoas ainda estão a consumir o álbum como se tivesse sido lançado ontem.

 

É por ser ainda novidade que vai relançá-lo no formato físico?

Exactamente. Nós estamos a pensar na reedição do álbum com uma versão física a acompanhar a digital. A ideia é também dar resposta aos coleccionadores de discos, que são muitos.

 

Há datas prováveis para esse lançamento?

Antes da pandemia chegar a Moçambique, tínhamos datas. Havíamos agendando um show para este mês, que iria culminar com a venda da versão física de Íntimo e pessoal, que as pessoas estão a consumir pouco. Além disso, tínhamos perspectivado lançar o meu segundo álbum, intitulado Guta, em Outubro. Por causa da pandemia, teremos de remarcar tudo de novo.

 

Além do seu segundo álbum ter um título inspirado no seu nome, tem outra história?

Tem. Guta é o nome da minha filha. Dei este nome ao álbum porque, além de tudo aquilo que um pai sente pela sua filha, amor incondicional, eu já apreciava a minha filha já antes dela nascer. Por ela desenvolvi um amor antes mesmo de a minha esposa estar grávida. Como manifestação de toda alegria dos eventos que se cumpriram, desde que eu a idealizei até nascer com a minha cara, comecei a criar algumas músicas e intitulei o álbum Guta, quando já possuía três músicas. Ou seja, criei as músicas do álbum inspirado na figura feminina da minha filha. Portanto, Guta será um álbum muito feminino, com conselhos para mulher e valorização da mulher.

 

Actualmente, como não podia deixar de ser, há uma nova vaga de cantores, instrumentistas e produtores musicais, com e sem discos lançados. Como está a nossa música a esse nível?

Acho que a música moçambicana está a passar por dois extremos. Criativamente, estamos muito ricos. Com o aparecimento de novas casas culturais que têm promovido muita música moçambicana, têm-se notabilizado muitos nomes que andavam escondidos ou que não conhecíamos os potenciais. Agora tem-se visto um investimento em novos ritmos e estilos e têm aparecido muitos novos bons cantores, mais ousados. Temos bons executores, e desenvolvemos muito na actuação ao vivo. Em segundo lugar, temos bons estúdios. Isso nos enriquece.

 

Faltam-nos editoras…

É aí onde que queria chegar. Estamos muito presos nessa questão. Não temos editoras radicadas em Moçambique com capacidade para albergar todos os artistas.

 

E como será com os seus discos?

Farei a captação e gravação cá. Se tudo correr bem, faremos a mistura e a masterização fora de Moçambique. Será trabalhado e impresso fora. Depois, vendemos nós próprios.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Cubaliwa, de Azagaia, e o livro Ritmo, alma e poesia, de Emílio Cossa.

 

 

PERFIL

Guto é o nome artístico de Augusto Delfim Harculete. Nasceu em Nampula, a 18 de Julho de 1988. Em 2005, ao lado do seu amigo de infância (C Duarte), inicia a carreira como beat maker e corista no estilo Hip-Hop. Em 2007, começa a estudar música e a cantar num grupo da igreja. Um ano depois, muda-se para Maputo a fim de se formar em Engenharia Civil, na UEM. Ali conhece Hélder Luz, irmão de Azagaia, com quem cria o grupo Gregos e Troianos, junto do Adviser. Gregos e Troianos gravaram sete músicas, tipicamente rap consciente, e lançaram a mixtape apadrinhados por Azagaia. Nas suas experiências, Guto também gravava discursos em forma de paródia de personalidades políticas, explorando a sua inclinação para comediante. Em 2010, Azagaia, tendo ouvido um desses discursos, pediu que Guto fizesse um semelhante numa das músicas que iria lançar. Na sequência, ouvindo os beats produzidos por Guto para os Gregos e Troianos, solicitou que Guto o fornecesse alguns dos seus beats. Em 2011, o grupo de stand up comedy, ImProRiso, convidou Guto a fazer parte do seu colectivo, inicialmente fazendo discursos imitando a voz do Presidente da República de forma cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Rapódromo é uma “batalha de MC’s”, em que, em jeito de improviso, cada rapper tenta derrotar o seu adversário com rimas criativas e, muitas vezes, hilariantes. Ao fim de alguns anos a realizar-se nas ruas de Maputo, o evento chega à televisão numa tentativa de ser mais abrangente.

Assim, pela primeira vez em Moçambique, a batalha de MC’s deixa apenas de depender das redes sociais para promover os seus “gladiadores”, a forma como são tratados os rappers que disputam o concurso de improviso, e passa à emissão da Stv. A partir deste domingo, o Rapódromo ganha relevância no programa “Isto é show”, o que alegra a organização. “Esta parceria com a Stv vem mesmo a calhar porque há muito tempo que procurávamos uma plataforma viável para nos colocar em casa dos moçambicanos”, admitiu Duas Caras, apresentador das batalhas e mentor da iniciativa.

Nesta primeira fase, dedicada essencialmente ao casting, a rubrica terá uma temporada de aproximadamente três meses. Ao longo desse período, dezenas de “gladiadores” de Maputo, Gaza, Sofala e Zambézia vão disputar as batalhas. Porque se trata de um concurso televisivo, Duas Caras garante, os participantes terão o cuidado com as palavras. Isto é, cada interveniente terá a liberdade de escolher os temas e de dizer o que quiser, desde que respeite o bom senso, pois o Rapódromo quer chegar até aqueles telespectadores que não gostam de RAP: “nesta temporada no “Isto é show’, as apresentações dos nossos gladiadores também vão disseminar mensagens de prevenção da COVID-19, com observância de medidas necessárias para o efeito”.

Na visão de Duas Caras, o Rapódromo é uma plataforma diferente de promover o RAP. Estando no “Isto é show”, realça o rapper, a “batalha de MC’s” vai agregar valor à grelha da Stv. “Queremos tirar o maior proveito desta visibilidade. Este é um tipo de entretenimento que já faltava na televisão moçambicana. Na verdade, este é apenas um princípio, porque a nossa pretensão é ter um programa exclusivamente dedicado ao Rapódromo”.

Com a “batalha de MC’s”, Duas Caras sublinha que se está a conseguir dar mais espaço aos novos rappers moçambicanos, provenientes de diferentes pontos do país.

Segundo acredita Jorge Ribeiro, apresentador do “Isto é show”, neste momento de crise sanitária, os “gladiadores” vão passar mensagens pertinentes, porque o Hip-Hop e os rappers são mensageiros da mudança. “Em todo o mundo existe batalha de MC’s. Em França, por exemplo, é o maior sucesso. E também existe a batalha em Portugal e Angola. Hoje o projecto Rapódromo é abraçado aqui no ‘Isto é show’. Agora, vamos começar a ter um seriado aos domingos. Através do Rapódromo vamos sentir Moçambique e em cada batalha vamos ouvir uma história que contribuirá para a desconstrução da ideia de que o RAP é coisa de marginais. Faremos história com o Rapódromo”, garantiu Jorge Ribeiro.

Como é habitual nos concursos, depois das “disputas, um júri constituído por rappers conceituados irá decidir que “gladiador” irá seguir para a fase seguinte.

Portanto, este é o segundo casting desta edição do Rapódromo (o primeiro a Stv não transmitiu). No  programa “Isto é show”, que inicia todos os domingos às 17 horas, a “batalha de MC’s” vai durar cerca de 45 minutos.  

 

É o primeiro dos novos programas que vai estrear na Stv. O propósito é sempre o mesmo: entreter da melhor maneira a todos os telespectadores que, nesta época de isolamento social, devem ficar em casa. Por isso mesmo, a partir das 18 horas de hoje, irá ao AR “As nossas estrelas”, apresentado por Emerson Miranda.

Semanalmente, durante uma hora e cinquenta minutos, sempre aos sábados, “As nossas estrelas” vai proporcionar muita música e conversas descontraídas. De acordo com o apresentador do programa, “As nossas estrelas” são todos aqueles artistas que, a partir do seu talento, destacaram-se a nível nacional. Quer isto dizer que o programa não será apenas para cantores ou músicos. Igualmente, irá abranger estrelas de outras áreas.

Com efeito, o primeiro convidado desta noite é Nelson Nhachungue. No programa, o cantor vai cantar, tocar e falar do seu percurso artístico, desde os tempos do Fama Show à actualidade.

Além de “As nossas estrelas”, a Stv vai adicionar mais programas de entretenimento à sua grelha. Designadamente, “No sofá do Xavier”. Também aos sábados, o antigo integrante dos Rockefeller’s, que agora segue carreira a solo, Xavier Machiana, vai estrear-se como apresentador de televisão. Em geral, o seu programa é um talk show que vai romper com a tendência de produzir programas de género apenas com artistas e personalidades moçambicanas que vivem no país. Ou seja, Xavier Machiana, que viveu muitos anos na Noruega, pretende que os telespectadores da Stv saibam do que é feito dos moçambicanos no estrangeiro. Para o efeito, já que a distância separa, mas não limita a criatividade, o novo apresentador vai recorrer às redes socias para adicionar muito do que tem faltado na maneira de fazer televisão em Moçambique.

Outra cara nova da Stv é a actriz Juju. Na verdade, este é um regresso ao canal que bem conhece. Em breve, a actriz vai apresentar um programa de humor na Stv. O seu compromisso, segundo disse esta sexta-feira, é contribuir para que as pessoas sintam-se bem no isolamento em casa. Juju garante programas relaxantes, leves e que vão unir as famílias moçambicanas.

Ora, não obstante os novos programas, “Noites vivas” (que regressa à antena), “Manhãs alegres” e “Isto é show” foram restruturados. De acordo com a Directora de Conteúdos da Stv, Anabela Adrianopoulos, tudo foi pensado para que a programação do canal torne-se mais diversificada e atractiva. Por isso mesmo, o “Isto é show”, por exemplo, tem novas rubricas. Agora, o programa apresentado por Jorge Ribeiro conta com um momento dedicado ao artista da semana e com a popular batalha de RAP: Rapódromo.

Todas as novidades preparadas pela Stv foram pensadas para entreter o telespectador, sobretudo nesta época em que ficar em casa é fundamental para se evitar a propagação da COVID-19. A partir das 18 horas, as novidades começam a chegar à casa dos moçambicanos, e, depois da telenovela Órfãos da terra, os apresentadores dos novos e dos programas restruturados estarão juntos para contar ao pormenor que novidades serão levadas aos telespectadores.

Um dos grandes baixistas moçambicanos. Começou a tocar há 41 anos. De lá a esta parte, a música, para Childo Tomás, é o princípio e um meio privilegiado para tocar a sua tradição, a sua cultura. Por essa razão, o artista que vive na Espanha afirma categoricamente: “Quando tocamos o que é nosso, nunca ficamos desactualizados”. Nesta entrevista, partindo do seu álbum de estreia, Moçambique ni n´tumbuluku, Childo sublinha a ligação que tem com terra, refere-se a um tributo a Pedro Langa e, igualmente, deixa algumas conselhos para os moçambicanos.

 

 

Moçambique Ni N´Tumbuluku é o seu álbum de estreia. Que horizontes quis abrir com este projecto?

Este projecto traduz tudo o que eu sentia quanto ainda vivia em Moçambique. 90% das músicas de Moçambique Ni N´Tumbuluku foram criadas em Moçambique, baseadas na minha tradição. Ou seja, com este projecto o meu interesse foi sempre trazer a tradição ao de cima. Quis levar ao mundo a diversidade cultural do nosso país.

 

Num artigo sobre o seu disco, publicado há seis anos, o ensaísta Cremildo Bahule afirma que Childo interessa-se em evidenciar que Moçambique é o eloquente exemplo de vitalidade cultural no mundo. Quer argumentar?

Eu agradeço esse comentário, mas acredito que são muitos os moçambicanos que contribuem para evidenciar tal vitalidade cultural do nosso país. Sou uma parte de muitos valores que existem em Moçambique. Penso que sou um fragmento dessa utopia que transportamos para fora. Isso faz parte da minha missão.

 

O que o move nesse processo de transportar as suas raízes e a sua cultura para fora do seu continente através da música?

É simples. Nós somos representantes da cultura, onde quer que estejamos. Lembro-me que, quando vivia em Moçambique, pensava muito no estrangeiro e nas culturas do Ocidente. Entretanto, quando se está distante das raízes, da sua mãe (terra e biológica), começa-se a dar mais valor ao que é nosso. Quando vim para Espanha, trouxe instrumentos como timbila. E com o som desse instrumento mágico, exótico para alguns, fui dando valor ao que eu sou. Nunca fui timbileiro e nem sou agora, mas comecei a tocar e a combinar sons com o instrumento. Ter vindo para este lado do mundo, permitiu-me perceber que temos muita música no país que a devemos fazer conhecer. Também por isso, decidi transportar as minhas raízes através da minha música.

 

Quando compõe ou toca, pensa em contar uma história para o mundo através do imaginário da sua gente, certo?

Certo. Há uns três dias, por causa da quarentena – descobrimos coisas positivas com esta pandemia –, estando na varanda, dia de sol, sem poder sair de casa, apareceu-me a imagem de Pedro Langa na mente. Lembrei-me dos momentos passados com ele em Xai-Xai, naquele período da guerra, dos episódios com Alambique e com Ghorwane, e etc. Nesse instante, pelo Pedro, inspirei-me e pus-me e trabalhar numa cancão. Liguei as máquinas e comecei a gravar um tema, para que, onde quer que ele esteja, o seu espírito fique em paz. Tudo foi tão real que pretendo gravar uma música com a instrumental. Portanto, respondendo à sua pergunta, sempre que componho, tenho uma história por detrás, e toco com alma, com um sentimento pela minha terra.

 

A língua é um factor determinante nesse processo criativo?

É, sim, e sempre será. A nossa língua é a nossa língua. Fico preocupado com a actual e com futura geração do nosso país. Estamos perdendo o orgulho das nossas línguas e em nós mesmos. Eu falo rhonga com o meu filho aqui na Espanha. Essa é a minha língua, e não o português. Em Moçambique está a acontecer uma coisa grave. Vejo jovens mais preocupados em dizer palavras angolanas ou inglesas do que das línguas bantu do país. Certamente, a culpa é dos pais, que não ensinam as suas línguas aos filhos. Ainda achamos que as nossas línguas bantu são de cão. Por isso mesmo, vamos perdendo o que é nosso.

 

Como pensa na sua cultura no contexto universal?

Em geral, penso que a cultura moçambicana é potente. Tem muitos recursos. Vejo o Xidiminguana, o Mutcheca, que tanto me inspiram. De Norte ao Sul temos muita música, e, nos tempos de Samora, com o festival das culturas, evidenciou-se muito isso. Acho que o artista deve-se preocupar em potenciar os recursos culturais do seu território. Os produtores também devem ser selectivos, sem desprezar os seus valores. Somos uma potência cultural em teatro, escultura, pintura e etc. O que temos de fazer é zelar pelo que é nosso, ao contrário do que acontece nos últimos anos, em que a tendência é investir no que é dos outros. Não me sinto bem por nos orgulharmos pelo que é de fora. Isso me preocupa. Ou seja, deixamos de dar valor no que realmente importa. Temos de alterar esse problema.

 

Considera o seu projecto “Messengers” a raiz da união de todos. Como a música pode ser um factor dessa união?

Entendo que muitas vezes as pessoas pensam nas origens das outras. “Messengers” lembra-nos que todos somos mensageiros de passagem e que todos devemos deixar a nossa mensagem na terra. Por isso escolhi esse título. Cada um deve fazer a sua parte, e na produção deste projecto uni valores latino-americanos que se parecem com África, e a minha filha [Xiluva Tomás, autora do disco Missava ni tilu] tocou violino para o projecto.  

 

O seu percurso artístico cruza muito com Omar Sosa. Que representa para si este artista?

É um grande amigo, temos uma história muito linda já há 20 anos. Juntos criamos e recriamos uma linguagem. Quando o conheci, eu acabava de chegar a Barcelona. Na altura eu tinha muitos projectos e ele propôs que tocássemos juntos. Começamos a trabalhar e aprendemos muito um do outro.

 

Entre o baixo e a voz, há algum elemento que complementa o outro, no seu caso?

Sim. Eu não sou cantor. Sou mais instrumentista do que cantor, mas admito que as duas coisas estão relacionadas. No meu caso, o baixo e a voz têm uma razão de ser, afinal tudo surge dentro de um ambiente de paz, de luz e com ritmo. Paz, luz e ritmo. Esta trindade, depois, complementa-se com melodia. Eu não penso nas notas, quando toco, mas no que quero criar, dentro de uma certa harmonia. O baixo e a voz são os meus motivos. Tento sempre criar algum motivo.

 

Esse motivo é acompanhado por uma preocupação de se adaptar aos tempos?

Não, não penso nisso. Eu não toco para os outros, mas para mim, primeiro. Não tenho tendências de tocar outras coisas para estar na moda. Por isso me preocupo quando outros pensam que o que vale é o actual. Podemos modernizar sem romper e sem destruir a parte fundamental da nossa construção. Não entro nesses beats simples. Quando tocamos o que é nosso, nunca ficamos desactualizados.

 

Como é para um moçambicano afirmar-se fora? Como foi no seu caso?

Isso, de facto, não é só uma questão de talento. Não há nenhum deus ou uma fórmula mágica. No entanto, há que conhecer gente, envolver-se em eventos internacionais e etc. É um outro ciclo, que não é fácil. E se os músicos não viajam muito de Moçambique para fora é por causa do custo que isso implica. Há 15 anos, por exemplo, grupos com 10 elementos conseguiam mais possibilidades de viajar. Agora é mais difícil.

 

Neste momento de isolamento social, com muitos casos de COVID-19 na Espanha, como tem sido o seu quotidiano?

Há eventos negativos que criam coisas positivas. Há pessoas que, antes, nunca tinham lido um livro. Agora lêem. Eu faço música todos os dias. Inclusive, estou a pensar em criar um álbum com tudo o que estou a criar nesta temporada. Até lá, vou criando. Enfim, esta situação da pandemia mexe muito comigo. É muita gente a morrer e isso me entristece.

 

Uma mensagem para os seus compatriotas?

A COVID-19 é um assunto muito sério. Nunca tinha vivido uma história como esta. Não vamos falar de final do mundo, mas é muito sério. Sinto isso aqui na Espanha. Há que tomar todas preocupações necessárias. Sei que as nossas condições não são as desejáveis, em Moçambique. Temos de vender na rua a fim de conseguir dinheiro para alimentar os nossos filhos. Mas temos de nos cuidar. Podemos olhar para alguém, pensarmos que está tudo bem, e, depois, descobrirmos que não está. Então, recomendo o maior cuidado, sem confiarmos na teoria do clima. Espero que a situação não agrave. Caso contrário, pode ser um desastre.

 

Perfil

Childo Tomás é o nome artístico de José Júlio Tomás. O baixista, percussionista e cantor nasceu a 18 de Agosto de 1963, em Maputo. Começa a tocar aos 16 anos de idade, fazendo, nessa altura, parte de vários grupos de música moçambicana tradicional e popular. Entre 1982-92, fez parte do grupo Alambique, com o qual participa em diversos espectáculos, em Angola, no Zimbabwe, na Suécia, Noruega e Dinamarca. No final de 1994, emigrou para Espanha, onde teve a oportunidade de iniciar profissionalmente sua carreira musical. Childo Tomás participou em grandes festivais mundiais, como: Festival de Jazz de Barcelona, Festival de Jazz de Roma, Blue-Note (Tokio- Yokohama- Nagoia) e Festival de Jazz de Chicago.

 

Selma Uamusse, Ivan Mazuze, Michel William, Venâncio Calisto e Cri Essencia são apenas cinco dos vários artistas moçambicanos que vivem na Europa. Nesta época de crise causada pela COVID-19, os autores falam das suas lutas, do seu estado de espírito, sugerem uma actuação dos governos em relação aos artistas e argumentam por que acham que a arte irá sobreviver à pandemia.  

 

Um pouco por todo o mundo há artistas moçambicanos que, à imagem dos que vivem no país, têm enfrentado dias difíceis por causa da COVID-19. Sem puderem actuar em público, muitos deles têm ficado em casa, sempre procurando alternativas para superar as restrições impostas pelo isolamento social. Este é o caso de Selma Uamusse, que vive em Portugal há vários anos. Para a cantora habituada a expor os seus trabalhos nos palcos, as últimas três semanas, praticamente sem sair de casa, têm sido angustiantes e de muita ansiedade.

A fim de superar tal situação em que se encontra, a autora do álbum Mati (do rhonga, água em português), tem exercitado a fé e procurado criar uma rotina para não ficar perdida. “Tento acordar cedo, rezar, comunicar-me com Deus”. Simultaneamente, porque o trabalho não pára e não deve parar, Selma Uamusse tem utilizado as redes sociais para se conectar com os outros artistas, aproveitando, por exemplo, algumas aplicações como Zoom para fazer vídeos-conferências com a sua banda e com sua agência.

Neste isolamento, explica Selma Uamusse, tem escrito mais e aproveitado para fazer trabalhos online, como se pretende, cumprindo com todas as regras de segurança sanitária. Um desses trabalhos tem que ver com a consciencialização da população. A artista faz parte de um movimento que sensibiliza as pessoas a ficarem em casa, em Portugal, pois, na sua percepção, esse é o acto mais generoso que se pode ter. Assim, acredita, a vida poderá voltar rapidamente à normalidade.

Apesar do isolamento social ser angustiante para os artistas, Selma Uamusse vê algo positivo nesta crise sanitária: “Penso que o facto de o mundo inteiro estar a viver de forma muito presente a luta contra a pandemia nos faz lembrar que nós somos todos iguais, não importa o credo, a etnia, a idade ou o extrato social. Este é um vírus que nos toca a todos. Por isso, temos de nos amar uns aos outros, não só de uma forma filosófica ou espiritual, mas de uma forma muito prática”.

O altruísmo defendido por Selma Uamusse é reforçado por Venâncio Calisto, actor e encenador que se encontra a fazer um mestrado em Teatro e Comunidade na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Segundo entende o artista, é importante que a Humanidade, mais do que nunca, perceba que uns precisam dos outros. Paralelamente, Calisto adianta que pior que a COVID-19 é o pânico. Logo, aconselha aos artistas: “Temos de quebrar o pânico e levar mensagens de esperanças às pessoas. A campanha poética e criativa é fundamental, porque nós só podemos resistir a isto se estivermos unidos e se espalharmos luz pelo mundo”. E Selma Uamusse acrescenta: “Este é o momento de o mundo perceber que a única forma de nós superarmos tudo é estarmos juntos. Mas também é um momento de nós percebermos as diferenças que existem porque os continentes enfrentam a crise de forma diferente. As condições de saúde e higiene também são diferentes. Precisamos de estar mais iguais no acesso à saúde e às plataformas de protecção”.

Enquanto não se alcança essa igualdade, Ivan Mazuze, saxofonista, compositor, director-artístico e consultor cultural residente na Noruega, aconselha que, neste momento em que o mundo parece parar, e na uma reflexão sobre aquilo que a Humanidade é, individualmente e colectivamente, que se deve apostar.“Há que aproveitarmos esta ocasião para encontrarmos respostas sobre o que será o nosso futuro como seres humanos”.

Nos últimos dois meses, as actividades artísticas de Ivan Mazuze foram todas adiadas para o segundo semestre deste ano. Entretanto, não há nenhuma certeza se de facto irão se realizar. Tudo dependerá do que vai acontecer em relação à COVID-19 nos próximos meses. Assim, como músico, para superar esta batalha, Mazuze tem aproveitado o tempo para estudar e investigar. “É uma oportunidade de os artistas usarem o tempo livre que todos têm para a criatividade. Devemos criar novas obras”, mesmo para superar o desemprego a afectar os artistas e produtores culturais de todo mundo.

Quem também sente o impacto da COVID-19, como músico, é Michel William, que também vive em Portugal. O autor do disco I’ve got a plan explica que é difícil para os artistas perceberem que o trabalho e todo o plano semestral vai abaixo. “No meu caso específico, o cancelamento de concertos tem um impacto financeiro negativo”.

Devido às circunstâncias actuais, William aproveita para criar, trabalhar, estudar e reinventar-se, convicto de que o impacto desta pandemia será prejudicial para muitas famílias, sobretudo para os mais desfavorecidos. Na óptica do músico, a COVID trará muito mais desigualdade ao mundo e, quando passar, deixará uma ferida nos corações e nas memórias das pessoas. “Deixará também uma ferida naqueles que perderem os seus familiares, nos que perderam as suas fontes de sustento, nos que hoje nomeamos como heróis e que neste momento arriscam as suas vidas para salvar os mais afectados e infectados pela COVID-19, nomeadamente os médicos, enfermeiros, assistentes, forças de segurança e todos os restantes”.

Nesta época, garante Michel William, a empatia e solidariedade são valores que serão postos à prova. “Mas acredito que é quando enfrentamos os maiores desafios e os vencemos que crescemos e ficamos mais fortes. Acredito que vamos superar”.   

 

O FUTURO DAS ARTES

Ivan Mazuze não tem duvidas nenhumas. Depois desta crise, as artes serão mais relevantes para o ser humano, até porque as artes e cultura movem as emoções e o espírito do ser humano. Enquanto isso não sucede, Michel William adianta que a COVID-19 vai custar uma grande parte do rendimento e sustento na vida de muitos artistas, principalmente naqueles que ainda não se adaptaram à rentabilização da sua arte virtualmente. “Acredito que depois desta crise a arte permanecerá connosco, tem-se visto artistas fazerem sessões ao vivo online para se manter a união e o contacto. Em tempos como este, de olhar para dentro, temos a oportunidade de lembrar e incentivar a nossa criatividade. Há muita coisa que marcará a memória do consciente colectivo. Espero que as coisas boas reflictam as mudanças em prol da igualdade, solidariedade, sustentabilidade, ao amor individual e ao próximo”.

Reconhecendo a dificuldade do momento, Venâncio Calisto tem escrito crónicas, numa espécie de diário da quarenta, nas quais conta como se sente perdido no mundo actual. Esta é a forma por si encontrada para partilhar a visão e proposta sobre como é que a humanidade pode vencer a COVID-19. E, especificamente como artista, o encenador desencadeou projectos de teatro em contextos de emergência, ao mesmo tempo que participa num movimento designado teatro ao telefone, financiado pela Câmara da Amadora. A iniciativa procura levar a arte às pessoas que se encontram sozinhas e que precisam de conforto.

À imagem dos seus compatriotas no estrangeiro, Venâncio Calisto acredita que crises como estas ajudam a redescobrir possibilidades estéticas que obrigam as pessoas a abrirem portas criativas, que muitas vezes não estão disponíveis. Mas de que forma se pode manter a arte viva? O encenador responde: “Essa reflexão conjunta precisa de um debate para se fortalecer. Temos de encontrar formas para que o teatro não morra ou fique estagnado, porque o teatro é uma salvação para todos nós, principalmente em momentos como estes. Este é um momento de levarmos a esperança às pessoas. O teatro é uma forma de pensarmos em possibilidades que nos podem enlevar o espírito. Portanto, temos de encontrar maneira de permitir que a arte continue a exercer o seu papel de humanizar, socializar as pessoas e despertar o espírito de comunidade e de muita ajuda”.

Sobre o futuro da arte, Selma Uamusse realça que a arte tem estado sempre na dianteira. A arte é a primeira a sofrer porque é feita para as outras pessoas. “É muito importante que estejamos conscientes de que os artistas vão precisar mais do que nunca do apoio do público, dos governos e de medidas que lhes possam proteger. Mesmo quando sairmos desta situação, os artistas vão precisar de ajuda porque as pessoas não vão querer estar num ambiente com muita gente e não vão ter sequer dinheiro para gastar em arte. Esta COVID está efectivamente a custar muito aos artistas pois não poderemos fazer as nossas actividades onde está a nossa maior remuneração, nos eventos, concertos, e etc”.

Selma Uamusse considera que esta é uma fase de grande fragilidade para quem vive de música e de arte em geral. Por isso, uma das palavras-chave, de facto, é reinvenção. Mas apenas isso não basta, evidentemente. Mais do que isso, a cantora afirma que os artistas precisam daqueles que gostam das suas obras. Concretamente, o que espera é que as pessoas que puderem sejam capazes de pagar por parte, seja em plataformas digitais ou não, que façam donativos e que os Governos dêem apoio aos artistas que ficarão muito tempo sem praticar as suas actividades, correndo risco de passar fome e muitas necessidades. “Antevejo um futuro diferente, em que teremos de utilizar mais as plataformas digitais para falar mais da importância de estarmos juntos. A COVID vai nos custar financeiramente, mas também vai nos trazer muita inspiração e criatividade, porque enquanto artistas somos muito resistentes e resilientes”.

 

MENSAGEM PARA MOÇAMBIQUE

Cri Essencia vive na Europa há vários anos. Depois de uma passagem por Portugal e Holanda, a escritora vive agora na Inglaterra. Comparando o antes e presente de Londres, onde trabalha, a autora de Em busca do mar certo lembra que, antes da COVID-19, o transporte público da capital inglesa andava abarrotado de gente. Agora as coisas mudaram. Ela e tantos outros londrinos ficam recolhidos em casa, deixando as vias públicas quase desérticas. “Dá um medo”, argumenta Cri Essencia: “Eu moro num prédio e começo já a não subir o elevador, mesmo quando tenho compras, por ser um espaço muito fechado e propenso à infecção pelo Coronavírus”.

De acordo com Cri Essencia, a situação é tão grave na Inglaterra que falta equipamentos de protecção. “O Governo do Reino Unido está a portar-se como de um país em vias de desenvolvimento. Não está a dar conta dos testes. Por exemplo, na Alemanha, por semana, fazem-se 500 mil testes. Na Inglaterra, apenas 50 mil”.

Em Moçambique, as condições são menos favoráveis ainda. Até aqui, desde que se descobriu o primeiro caso, o número de testes não excede a 400. De domingo para segunda-feira, por exemplo, foram testados apenas quatro pessoas. É considerando a realidade nacional que Cri Essencia recomenda a produção e o uso de máscaras de capulana a todos que vão à rua. Para a escritora, o confinamento é a palavra de ordem neste momento. Entretanto, Moçambique e o mundo precisam ter cuidado com os aspectos negativos daí resultantes, como a depressão e violência infantil. E para os que não podem ficara em casa? A escritora recomenda: “É preciso criar-se condições para que as pessoas não se abarrotem nos chapas e my loves”.  

Ivan Mazuze também tem um conselho para os seus compatriotas: “Para podermos vencer a propagação deste vírus, todos unidos, devemos respeitar e seguir as recomendações de prevenção dadas pelas autoridades moçambicanas, seguindo a distância social e pura higiene”. E Selma Uamusse acrescenta: “Moçambique está a ser atingido numa fase tardia em relação ao resto do mundo. Por isso, as regras de segurança e protecção devem ser muito mais apertadas, para que a situação não se alastre. Mais do que tudo, temos de estar consciente de que um gesto como sair de casa, e sem protecção, constitui um risco. É muito importante protegermos o mais velhos como toda a população que tenha doenças pulmonares, asma, doentes oncológicos ou pessoas com HIV, porque estarão mais expostas se apanharem o vírus”.

Os cinco artistas moçambicanos no estrangeiro deixam para o país uma mensagem de esperança, que a todos permita reflectir por que estão no mundo. “Nas minhas preces, desejo sempre que as notícias do Ocidente estejam erradas no que se refere à hipótese de um surto descontrolado desta epidemia no nosso país.  Enquanto aguardamos pela possível cura, ou seja, a vacina, a melhor forma que cada indivíduo tem de contribuir para que esta pandemia não se propague é o isolamento. Daí a citação que temos visto nas redes sociais: FICA EM CASA”, finalizou Michel William.

O livro mais recente de Japone Arijuane é constituído por três cadernos: todos escritos num ritmo próprio. Ferramentas para desmontar a noite é o título do livro do poeta, lançado pela Fundação Fernando Leite Couto. De acordo com o autor, a sua segunda obra literária é um exercício que, ao desmontar o que é maléfico, propõe-se a montar o amor e a plenitude da vida.

 

Mais uma vez a noite é um pretexto para a produção de um livro de poesia. Já tínhamos a noite, por exemplo, na escrita de Armando Artur e, mais recentemente, de Júlio Carrilho. Agora, também está retratada no seu segundo livro. Porque a noite?

No processo de produção deste meu segundo livro, pensei na noite como a metáfora do abismo e das trevas que enfrentamos enquanto povo e nação. É esse elemento da agonia que eu fui trabalhando. E este livro acaba sendo a síntese dessas noites todas. Se calhar, já agora, essa noite vai passando de geração em geração porque ainda não amanheceu. Nós ainda não despertamos ou estamos muito longe da aurora. Então, a noite continua a ser essa machamba onde vários poetas vão trabalhando, porque existe muita coisa oculta, muito misticismo.

 

Sendo a base do seu segundo livro, a noite é uma condição complexa, daí ter precisado de ferramentas para a desmontar?

Pois, é um elemento muito complexo, de tal forma que a noite vai-se metamorfoseando. Nós passamos por várias noites que são cobertas pela grande noite. Por isso as ferramentas vêm para a desmontar. Na verdade, este livro é uma proposta para conseguirmos nos libertar daquilo que nos fecha o horizonte ou que nos impede de vislumbrarmos o futuro. No fundo, o livro é essa proposta, esse convite para que as pessoas consigam vislumbrar o que o horizonte tem ou o que o futuro nos pode dar a partir da poesia.

 

 A partir da acção de desmontar a noite, na verdade, o que os sujeitos poéticos pretendem, no seu livro, é reconstruir. Pode argumentar?

Desmontar traz a ideia de que alguma coisa não está bem. Para que nós consigamos atingir algum plano bom, temos de desmontar para montar. Ou seja, o meu livro propõe desmontar o que não está bem para se montar o que se pretende ou poderá vir a ser o bem. Na verdade, este é um livro que desmonta o ódio, o nepotismo, a corrupção, a má governação, as agonias individuais das pessoas para montar o amor e plenitude da vida.

 

Será por isso que o sujeito poético exige um momento de pausa, ou seja, a certa altura, temos o seguinte verso no Ferramentas para desmontar a noite: “Não posso desmontar a noite com o motor a roncar”. Roncar aqui sugere algum movimento. Parece que a pausa é indispensável para si.  

Precisamos de ir ao fundo dessa noite, para que possamos arrancar o mal pela raiz. Esta paragem ou olhar para as coisas de forma desapaixonada, distante, vai nos permitir com que nós consigamos atingir ou resolver o problema de forma estrutural. Essa pausa é mesmo necessária para que as pessoas olhem para o exterior e o interior de modo que se perceba o que está a falhar.

 

Parece que o que alimenta este livro é a visão do poeta, ser existencial, em relação aos factos que se passam no seu plano concreto. Como se conectam estas duas vertentes?

Este livro foi criado em três momentos distintos. Por isso temos três cadernos. Durante os seis anos que fiquei sem publicar, eu fui produzindo vários projectos. A certa altura, fui visitar os textos e notei que existia uma certa intertextualidade entre os mesmos (muito voltada à vanguarda). Portanto, começo a produzir o livro a partir desse ponto, de tal forma que alguns textos vou busca-los à minha infância, com introspecção. Ora, no livro há textos extremamente actuais e poder-se-á dizer que também há textos futuristas. A ideia mesmo foi criar poesia com o que nos é dado no dia-a-dia. Por exemplo, o que nós observamos.

 

E o que se fez com o que não se consegue observar?

Isso fica nas entrelinhas. Se as pessoas conseguirem entender o livro, vão perceber o que não está dito, o que não se pôde dizer, mas que se pode sentir. Acho que aí está a graça da poesia. O que não se diz com as palavras, pode-se fazer chegar através de outros sentidos. O livro propõe-se a isso: a mostrar o que está, o que não está e o que pode estar. No primeiro caderno, discuto muito questões existências e o sentido da vida. No segundo, interessou-me mais com o amor personificado na carne, mas que vai além disso. Já no terceiro momento, aparece o amor às coisas, ao outro à natureza. Penso que este livro consegue fazer o casamento do amor que eu mais admiro: o amor de Platão (que consiste em estimarmos aquilo que não temos), de Aristóteles (que consiste em apreciamos aquilo temos e somos) e o amor segundo Jesus Cristo (ao próximo).  

 

 Considerando a sua missão e a complexidade do processo de produção da poesia enquanto manifestação da linguagem, como pode considera esta escrita um “inutensílio”…

Considero-a “inutensílio” na medida em que para transformarmos a poesia numa coisa útil, temos de ir muito ao fundo da palavra. Nós trabalhamos os elementos do dia-a-dia com muita nuvem em volta e sensibilidade. Ou seja, a poesia não vai transformar as pessoas sem elas se transformem para receber a própria poesia.  

 

Se lhe dissesse que à imagem do seu livro de estreia, neste Ferramentas para desmontar a noite o silêncio é o grande pretexto para o surgimento da própria palavra, concordaria ou discordaria?

Concordaria até certo ponto. Tenho uma paixão pelo silêncio. Não sei explicar porquê, mas o silêncio é deveras arrebatador. O silêncio não é ausência de respostas, pode ser uma corrente de respostas que se pretende. E, em alguns casos, o silêncio até pode ser um barrulho ensurdecedor. Admito que trabalho as várias facetas do que o silêncio nos proporciona.

 

E na sua poesia há um outro elemento na manifestação do amor: o tempo.

Que às vezes perde o verdadeiro sentido do seu significado. Desestruturo o tempo…

 

Tem estado à procura de um eu que lhe habita.  Acredita num encontro absoluto?

Não, não vai haver um encontro absoluto. Nesta busca pela poesia sinto que ainda não cheguei à perfeição. Por exemplo, no trabalho ligado aos elementos intrinsecamente do ser humano – aquelas questões que, independentemente do ser humano ou do lugar onde se encontra, vão contribuir para a pessoa sentir a minha poesia. Quero que os moçambicanos que forem a nascer em 2050 e além disso possam se identificar com a minha poesia. Este é o meu grande desafio. Tornar a minha escrita além do tempo e do espaço, de tal modo que ao ser traduzido para o mandarim, o chinês se reveja na minha escrita. Portanto, o meu grande desafio é tornar a minha poesia universal.

 

Quando é que percebeu que Ferramentas para desmontar a noite estava a começar e quando é que teve a certeza de que estava a acabar?

Essa é uma certeza que eu nunca tenho. Até o último dia, quando me pediram o aval para impressão, eu queria alterar coisas.

 

Há sempre uma insatisfação na satisfação?

Exactamente isso. Os livros nunca terminam. É sempre uma continuidade.  

 

Agora, aquela velha pergunta: por que continuar a escrever?

Porque me concebo melhor escrevendo e a poesia.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Asas da água, de Nelson Lineu, e Matéria para um grito, de Álvaro Taruma.

 

Perfil

Japone Arijuane nasceu na Zambézia, a 29 de Maio de 1987. Estudou Gestão de Marketing e Publicidade na Escola Superior de Jornalismo. É Copywriter, guionista e jornalista. É autor de Dentro da pedra ou a metamorfose do silêncio e Ferramentas para desmontar a noite.

 

 

 

Textos escritos por crianças de 11 e 12 anos de idade serão disponibilizados gratuitamente pela Associação Kulemba.

 

A Associação Kulemba vai disponibilizar para crianças histórias de três volumes do livro À volta da fogueira, nesta época em que a COVID-19 obriga as pessoas a ficarem recolhidas em casa. Ao todo, serão 10 títulos escritos por alunos das escolas primárias da Beira, Dondo e Nhamatanda, e a novidade é anunciada para condizer com o Dia Internacional do Livro Infantil.

As histórias seleccionadas pela Associação Kulemba, ao contrário do que aconteceu nos três volumes, desta vez, serão ilustradas por Otélio Ernesto, Cleide Conga, Nelo Aboo, Walter Zand, Renato Macuane, Juvêncio Nhantumbo, Augusto Mambasse e Edie da Graça. Depois, o que se segue, a partir do próximo domingo, é a disponibilização dos textos no formato PDF, um por semana.

Os que quiserem ter os textos escritos por crianças com 11 e 12 anos de idade deverão aceder às plataformas digitais da Associação Kulemba, da Revista Soletras e da editora Fundza.

As histórias em causa veiculam valores morais, com temas atinentes ao amor ao próximo, à solidariedade e ao trabalho. Ora, considerando que a Internet não é recomendável às crianças, a visão da organização é que os pais, tios ou encarregados de educação possam fazer os downloads ou imprimir os contos para elas. Os textos não são longos. Então, também podem ser lidos do celular para os mais pequenos, como uma história contada à volta da fogueira. Desta forma, a Associação Kulemba espera dar o seu contributo para que as crianças não se sintam isoladas neste momento de crise sanitária.

Os três volumes de À volta da fogueira, de onde serão extraídas as 10 histórias cedidas gratuitamente, foram lançados entre 2016 e 2018. Na altura, os livros foram distribuídos aos alunos e às escolas primárias da Beira, de Dondo e Nhamatanda.  

Os volumes de À volta da fogueira resultaram de um concurso organizado pela Associação Kulemba, que, até hoje, dentro das suas possibilidades, continua a dar acompanhamento aos alunos que participaram na iniciativa. Alguns deles – casos de Anguista Tomás, Natasha Macuácua e Michael Raposo –, inclusive, participaram no Festival do Livro Infantil (FLIK), realizado ano passado na cidade da Beira.   

 

 

A escritora Eliana N’Zualo é a vencedora do programa de Residência Literária, a realizar em Setembro/Outubro, na cidade de Lisboa, em Portugal. 

O programa Residência Literária foi criado ao abrigo do protocolo de cooperação celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo, e destina-se a escritores de nacionalidade moçambicana com obra publicada, residência oficial em Moçambique ou que se encontrem a viver, estudar e/ou trabalhar no país e que pretendam desenvolver um projecto de criação literária, coerente com o seu percurso e pertinente na proposta de relação com a cidade de Lisboa.

Segundo informa a nota do Camões CCP, o júri constituído por Clara Riso (Casa Fernando Pessoa, convidada), Manuel Veiga (Câmara Municipal de Lisboa) e João Pignatelli (Camões – Centro Cultural Português em Maputo) decidiu por unanimidade seleccionar a proposta de trabalho de Eliana N’Zualo, considerando que no universo das candidaturas admitidas é a que melhor se enquadra na lógica do presente programa de Residência Literária. O júri valorizou o impacto e benefícios expectáveis que novos encontros e experiências proporcionados pela residência poderão reflectir, de forma determinante, na actividade literária da candidata vencedora, bem como, o projecto de criação literária apresentado, em função do currículo e do tempo do programa.

A escritora vencedora do programa Residência Literária vive e trabalha em Maputo. É fundadora e membro do colectivo Mata-bicho Feminista, que pretende ser um espaço de debate e reinvenção do Feminismo em Moçambique. Eliana N’Zualo publicou, ano passado, o livro infanto-juvenil O elefante Tendai e os primos hipopótamos, com a chancela da editora Fundza, baseada na cidade da Beira. A autora participou também na 1ª edição da Residência UpCycles (dedicada aos arquivos audiovisuais), em 2019, Maputo, e na 1ª edição da residência para escritores, jornalistas e críticos em Língua Portuguesa Talent Press Rio, em 2016, Brasil. Co-Produtora do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas Poetas d’Alma, em 2019, Maputo.

 

 

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