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O País – A verdade como notícia

“100 papas na língua” é um livro escrito por Lurdes Breda e ilustrado por Tânia Clímaco. Editado pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa, o livro será lançado via online no site do Camões, esta terça-feira, 9h, no âmbito do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

De acordo com a nota sobre o lançamento, “100 papas na língua é um livro que projecta a riqueza deste património comum a vários povos espalhados pelos vários cantos do mundo, a Língua Portuguesa”. Assim, “num momento em que os desafios da globalização exigem respostas concertadas, solidárias, e o reconhecimento de que os destinos dos povos se juntam num desígnio comum, a Língua pode e deve ser um instrumento vivo que nos desperta e aviva a consciência de que constitui, per si, um património partilhado, que deve ser preservado e cultivado”.

O livro reúne 100 narrativas breves em torno de 100 expressões idiomáticas portuguesas, com subsídios de um imaginário popular a que se associam imagens que fazem jus ao humor e à sátira presentes nas diferentes histórias. “Tânia Clímaco teve a mestria de representar graficamente, numa interpretação muito feliz e bem conseguida, as diferentes leituras e significados ocultos existentes nos textos com as ilustrações que os complementam. O livro conta ainda com o prefácio do escritor Afonso Reis Cabral”. E tem uma pretensão: “Pretendemos que o livro leve os leitores e os nossos alunos a desfrutar a língua, a perceber-lhe as deliciosas nuances da expressividade e não apenas a suportar estoicamente a sua estrutura pragmática e funcional, e desta forma intentamos alimentar-lhes a imaginação. Gostaríamos que o mesmo fosse também ponto de partida à replicação para outros contextos onde as expressões, sendo outras, enxertam na língua portuguesa a riqueza de espaços diferentes, de povos diferentes, de histórias diferentes, dentro de uma vivência linguística que, tendo mais pontes que fraturas, se enriquece com a diferença”.

A nota da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa adianta ainda que o livro reúne um conjunto de contos cheios de humor, sátira, duplos sentidos, personagens caricaturadas e cenários picarescos.

Lurdes Breda nasceu no concelho de Montemor-o-Velho, Portugal. É autora de 26 obras e co-autora de outras 11, editadas em Portugal, no Brasil e em Moçambique. É conhecida, sobretudo, como escritora de livros para crianças e jovens. O seu livro O alfabeto trapalhão é um dos aconselhados pela “Casa da Leitura” da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi um dos livros selecionados pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas para estar no Pavilhão de Portugal, país convidado em 2012, na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em Itália. É, ainda, um dos livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura, 1º ano, leitura orientada. Também o livro A árvore mágica, editado pela Escola Portuguesa de Moçambique, foi um dos livros de leitura integral da disciplina de Português escolhido para 5º ano no referido estabelecimento de ensino. Foi premiada em vários certames literários nacionais e internacionais. Em 2005 foi distinguida com o Prémio “Mulheres de Valor” e em 2014 recebeu a Medalha de Mérito Municipal Cultural.

Tânia Clímaco nasceu em 1982.
Em 2007 aprendeu a arrumar ilustrações em livros, licenciando-se em Design de Comunicação. Suas ilustrações são publicadas pela primeira vez em 2009. Paralelamente à ilustração é professora de Expressão Artística e dinamiza oficinas de ilustração em várias instituições".

O livro físico estará disponível assim que puder ser transportado para Moçambique, porque o tráfego aéreo está limitado.

 

O cantor e saxofonista irá apresentar-se em concerto às 18 horas de quinta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Muzila será acompanhado por Válter Mabas e Hélder Gonzaga no concerto designado Celebrating life.

 

Na verdade, Celebrating life é o título do disco de Muzila, que, não fossem as restrições impostas pela COVID-19, seria lançado ainda este ano. Com a incerteza causada pela pandemia, o cantor e saxofonista decidiu então aceitar o convite de actuar ao vivo na Fundação Fernando Leite Couto, às 18 horas de quinta-feira, como forma de promover os temas que farão parte do disco.

Durante meia hora, claro, o que não é suficiente para o artista interpretar todos os temas do projecto de disco, Muzila levará ao público, que acompanhará a actuação através do Facebook e Instagram da Fundação Fernando Leite Couto, músicas como “O pescador”, “Moçambique” e “Life so amazing”. E é pela vida ser tão incrível que o saxofonista far-se-á acompanhar por dois instrumentistas: Válter Mabas (guitarra) e Hélder Gonzaga (baixo).

Referindo-se ao concerto, Muzila considera que esta oportunidade de actuar num contexto adverso funciona como uma salvação, porque, em geral, os artistas não têm trabalho, já que tudo, quer dizer, quase tudo está encerrado.

A maior parte do repertório a ser apresentado pelo cantor é composto por músicas cantadas. Entretanto, para quem o prefere ouvir a soprar, o saxofone não andará longe. Pelo contrário, esse leal amigo do artista libertará os sons que o definem ao longo de vários anos na música.

Ora, e além do show na Fundação Fernando Leite Couto, o que é feito de Muzila? “Neste momento de isolamento social, o que tenho feito é praticar e seguir algumas rotinas domésticas, para não ficar deprimido. O momento que enfrentamos é um pouco stressante e temos de saber gerir a ansiedade”.

O momento actual também é difícil para Válter Mabas. Ainda assim, o guitarrista sublinha: o show revela que, apesar das novas circunstâncias, é possível levar alegria e esperança às pessoas, porque a arte faz e sempre fará parte da vida do povo. “A música, para nós, é como se fosse alimento. Então, ficar um tempo sem tocar é algo que nos dá ansiedade, por questões financeiras e afectivas. Não tocar para o público mexe com a nossa disposição”, afirmou Mabas, para quem acompanhar Muzila é um prazer, por aquele ser um cantor e saxofonista muito dotado. Por isso mesmo, garante o guitarrista, o público pode esperar muita “boa onda”.

Muito novo, Hélder Gonzaga decide tornar-se instrumentista. Primeiro aprendeu a tocar guitarra. Depois, apaixonou-se pelo baixo, deixando para trás o seu interesse pela bateria. Quando se apercebeu que o caminho por si escolhido não tinha volta, viajou para África do Sul, e lá se formou em Música. Hoje, o baixista que encarra a música como um equilíbrio entre o talento e a ciência, é dos mais solicitados em Moçambique. Nesta entrevista, Gonzaga fala do seu percurso artístico e do que lhe prende na música.

 

Descobre a guitarra aos 16 anos de idade, graças a um amigo seu. Quase um ano depois, já com alguma convicção, inicia a sua carreira musical. Qual foi a importância de Jaime Macucule nesse princípio?

Devo muito ao Jaime Macucule porque foi ele que me meteu nesta área. Na altura ele era meu vizinho e eu sempre o via a tocar no muro. Curioso, eu e muitos meninos íamos ter com ele. Aí apaixonei-me pela guitarra e pedi-lhe que me ensinasse a tocar. Ele tocava, depois passava para mim, explicando como é que eu tinha de fazer. Assim foi durante meses. Ficávamos a tocar até às 3 da manhã. Lembro-me que a minha mãe sempre gritava. Um dia alguém passou pela minha rua com uma guitarra. Perguntei-lhe se estava à venda. O moço disse-me que não, mas eu pedi-lhe que me vendesse e ele aceitou. Fui ter com a minha mãe. Na dúvida, ela acabou comprando e aí tudo continuou. Passei a praticar mais com o Jaime ou sozinho. Estava sempre com a guitarra. Em menos de seis meses, estava a fazer o meu primeiro show ao vivo, numa banda de rock. Toquei com Paulo Chibanga e Dino Miranda. Nós formávamos um trio e juntos fazíamos shows ao vivo.

 

Sem o episódio com o Jaime, acha que teria se tornado baixista?

É difícil saber. Talvez não, talvez sim. Na verdade, eu nem queria me tornar baixista. Comecei tocando guitarra, mas o que eu queria mesmo é ser baterista. Mas bateria é aquele instrumento que nos obriga a carregar muita coisa. Então o Jaime me disse que o baixo era o instrumento mais próximo à bateria. Não me pareceu boa coisa no princípio. Ele mostrou-me, porque também toca baixo, eu experimentei e foi amor à primeira vista. Daí não parei mais.

 

Foi esse amor ao primeiro toque que o leva a estudar música em Cape Town?

Sim, e isso calhou numa altura em que muitos dos meus amigos estavam a sair para estudar fora. Fiz o exame de admissão, que correu bem, e decidi seguir essa aventura.

 

O que o conhecimento científico adicionou à sua arte?

O conhecimento é sempre muito bom. Como diz um amigo meu, só de talento o artista fica lento. É sempre bom termos as duas vertentes: talento e ciência. Portanto, para mim, fazer música é uma espécie de equilíbrio entre o talento e a ciência. Casos há em que vêm músicos de fora e querem trabalhar connosco. Se não temos o mínimo de conhecimento, não conseguimos interpretar uma partitura. Há músicas que não devemos tocar apenas com o coração, devido à sua complexidade.

 

Como descreve a oportunidade que tem de tocar com vários músicos, de diferentes géneros?

É uma experiência muito positiva, porque aprendo sempre. E acho que a minha simplicidade me favorece.

 

Existe um género musical que o excita mais?

Os artistas não se devem fechar a um único estilo, sobretudo os músicos de sessão. Temos de estar abertos e ouvir muita variedade de música. Temos de ser ecléticos, mas confesso que gosto mais da fusão de ritmos, o world music. Eu identifico-me mais com esse género.

 

Tem tocado com diversos artistas. Por exemplo, Jimmy Dludlu, Moreira Chonguiça, Stewart Sukuma, Paulo Flores, e etc.. Quem foi o mais difícil de acompanhar?

Tocar com Stewart Sukuma continua a ser um grande desafio porque o estilo dele é muito moçambicano, com mistura de ritmos nacionais. Além dele, também é um desafio acompanhar Moreira Chonguiça, que é uma pessoa um pouco maluquinha. Temos de entender o que ele quer e tem sido um desafio que vale a pena.

 

O que é determinante para que entre num projecto com outros músicos?

Eu gosto muito de saber com quem vou tocar, para saber como me vou comportar musicalmente. Até porque já tive dissabores com alguns músicos. Segundo, não gosto que me condicionem, porque isso me tira a autenticidade, a minha identidade.

 

Estúdio ou palco?

Sou mais de palco. Até porque eu estudei performance. No estúdio tens mais pressão e não podes te espalhar muito. O palco é onde nos expressamos e sentimo-nos mais à vontade. Eu gosto de sentir as pessoas. Por isso, sem as pessoas, é difícil ter motivação. Mas estou habituado às duas realidades.

 

No seu caso, como é fazer música em Moçambique?

É um desafio. Na altura em que saí para estudar fora era ainda mais complicado. Por isso saí. Agora está muito melhor.

 

O que melhorou?

Temos mais opções de estúdio, festivais e estamos a crescer.

 

Fez parte do Tucan Tucan. Que lembranças guarda desse período?

Foi um grande aprendizado, com Frank Paco como líder da banda. Aprendi muito com ele e um pouco do que eu sou hoje é graças a ele. Tocar com Tucan Tucan foi dos grandes desafios da minha carreira. Foi uma grande experiência.

 

 Além de tocar, tem interesse na área da pesquisa, concretamente no que diz respeito à preservação do património cultural. Quer argumentar?

Sem dúvidas. Creio que, em 2009, em Copenhaga, na Dinamarca, apresentei um estudo sobre a marrabenta, a convite de Deodato Siquir. Na altura tivemos que apresentar as particularidades do ritmo. Os dinamarqueses não faziam ideia do que é marrabenta e perceberam que é um ritmo difícil, ate para nós, músicos moçambicanos.

 

Como está a ser este período de isolamento para si?

Está a ser difícil porque não podemos expor os nossos trabalhos. Por isso tenho optado em fazer trabalhos de estúdio a partir de casa. É em momentos como este que sentimos que não somos valorizados. Quem está em casa tem entretenimento, escuta-nos e etc., mas nós não ganhamos nada com isso. É um cenário triste para nós que vivemos da música.

 

Em que aspectos gostaria de sentir a valorização dos músicos pelos moçambicanos?

Não devemos sempre arranjar culpados. Nós, os músicos, também devemos lutar por essa valorização. Temos a Associação dos Músicos, por exemplo, que eu acho que precisa de ser reestruturada. Há muita coisa que não está bem lá dentro.  

 

Há dias, numa reportagem exibida na Stv, António Marcos disse que, sem concertos, está a ponderar abrir uma sapataria. O que isto significa?

É muito complicado. Para quem vive apenas de música, é um momento catastrófico.

 

O que lhe prende na música?

A paixão que tenho por esta arte.

 

Se dependesse de si, o que adicionava ao universo artístico em Moçambique?

A primeira coisa que iria adicionar seria a educação musical. Aqui temos muito talento. Se nós tivéssemos o mínimo do que África do Sul possui, estaríamos num grande patamar.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o álbum Echoes from the past, de Jimmy Dludlu, e o filme Resgate, da Mahla Filmes.

 

PERFIL

Hélder Luís Gonzaga nasceu a 25 de Outubro de 1979, em Maputo. Em 2006, licenciou-se em Música pela Universidade de Cape Town, na África do Sul. Foi um dos membros da banda Tucan Tucan e actualmente faz parte das bandas The Moreira Project e Stewart Sukuma & Banda Nkhuvu, tendo actuado com vários músicos, como de Jimmy Dludlu, Manu Dibango, Lura, Nancy Vieira, Ivan Mazuze, Deodato Siquir, TP50, Tito Paris, Paulo Flores, Ghorwane e Isabel Novella. Também é professor particular de música: guitarra, baixo e piano.

 

 

 

 

 

Os espectáculos em directo através das redes sociais constituem mecanismo favoráveis para os músicos continuarem a chegar ao seu público em todo mundo. No país, a moda pegou e, por isso, sexta-feira, 17h, será a vez de Jimmy Dludlu proporcionar um concerto musical. No caso, com transmissão televisiva e via redes sociais (Facebook e Instagram) do  Standard Bank.

De acordo com uma nota de imprensa, o projecto que conta com o apoio do Standard Bank constitui uma forma de propagar mensagens de prevenção do coronavírus e entreter os moçambicanos, levando o melhor da música para o público assistir em directo nas suas casas.

O repertório do guitarrista vai incluir algumas das escolhas musicais dos seus fãs, seleccionadas previamente pelo músico, designadamente o tema “Ha deva”, e “Seja feita a vontade de Deus”.

Jimmy Dludlu promete, segundo a nota de imprensa: “Além do calor musical, vou aproveitar a ocasião para interagir com o público em casa sobre os cuidados que devemos ter para nos precaver do novo coronavírus, uma vez que se trata de um momento de grande reflexão”. Para o guitarrista, a iniciativa visa, igualmente, minimizar o vazio causado pelo isolamento social, através da música.

 

 

 

O Festival AZGO está integrado no Oslo World – Map The World, um circuito de festival virtual face à propagação da COVID-19. Segundo a nota daquela festival moçambicano, o circuito envolve mais  de 50 festivais de vários cantos do mundo. Cabe a cada um seleccionar vinte músicas de artistas que particimaram numa de suas edições. O AZGO seleccionou do seu vasto repertório construído ao longo das nove edições.

Com o alastramento da pandemia de COVID-19 e o consequente isolamento social ou quarentena, dependendo da circustâncias, a música tem sido o refúgio de muitas pessoas ao redor do mundo. Foi pensando nessa condição, num momento em que os maiores festivais a nível mundial estão cancelados, incuindo o AZGO, que o Oslo Word organiza um circuito de festival virtual.  “Face à pandemia do COVID-19, acreditamos que a música tem um efeito positivo em aprimorar o senso de união e nos acalmar em momentos de medo e / ou ansiedade. É por isso que a Oslo World está desenvolvendo um mapa mundial do festival online”, escreveu ao AZGO, Alexandra Archetti, representante da Oslo World.

A Oslo Word vê neste festival uma forma de solidarizar-se com a humanidade. “Para nós, agora é mais importante estarmos juntos com o restante da indústria para lutar por medidas e soluções eficazes para o sector – e mostrar solidariedade à nossa sociedade como um todo” acrescentou Archetti, citada na nota do AZGO.

 

Nesta quarta-feira celebra-se o Dia Internacional da Dança. A propósito da efeméride, Maria Helena Pinto, Edna Jaime, Ídio Chichava, Quito Tembe e Lindo Cuna contam como é fazer dança no país.  

 

A dança é uma manifestação artística que contribui para o desenvolvimento humano, afinal engloba vários aspectos da vida: o visual, o espaço, o ritmo, a percepção, a emoção e os sentimentos. Convicta disso, Maria Helena Pinto entende que Moçambique é um país abençoado, pois possui todas as variedades de dança que projectam o que acontece na sociedade. Aliado a esse factor, em termos de criação, a coreografa sublinha que os artistas contemporâneos moçambicanos, que há 10 anos estavam a iniciar-se, conseguiram afirmar-se com o desenvolvimento de perspectivas particulares.

Ainda assim, mesmo com vários factores favoráveis, os fazedores da dança no país entendem que não se está a tirar o maior proveito da arte. Imensas questões interferem para que, actualmente, seja difícil para os bailarinos e coreógrafos se profissionalizarem. Para começar, há o problema da formação artística de base a nível da dança em Moçambique, “o que a torna órfã, já que sem formação de base os aspirantes a artistas não têm onde buscar os diferentes conhecimentos que os permitam encontrar o caminho que pretendem seguir”.

O posicionamento de Maria Helena Pinto é sustentado por Ídio Chichava, que acrescenta que a dança, em particular a contemporânea, é marginalizada no país. Por isso, o reconhecimento dos bailarinos nacionais vem do estrangeiro. “Nós Produzimos e exportamos, mas, a nível local, assiste-se uma marginalização de quem devia aproximar-se da dança e de quem não a conhece”. Logo, segundo Chichava, o investimento na criatividade sem igual dos artistas nacionais é reduzido ao interesse individual, por não se vislumbrarem políticas concretas indispensáveis para a produção de talentos. É por isso que Edna Jaime considera que para se ser bailarina no país é preciso haver uma grande paixão. “Sem isso, sem o prazer e motivação que nos leva ao palco, fica impossível. A nossa realidade, desde o orçamento destinado à área, o reconhecimento do público em relação à profissão, não é favorável. Sem paixão, facilmente nos rendemos às dificuldades”.

Em geral, na percepção de Edna Jaime, a sociedade não reconhece no artista alguém que também precisa de dinheiro para pagar as suas contas. A grande consequência disso nota-se nos momentos em que se negoceia o caché: “Quem nos deve pagar acha que o mínimo possível é suficiente para o bailarino porque a maior parte das pessoas ainda pensa que a arte é apenas entretenimento, a diversão dos que a praticam”. Assim, afirma a bailarina, se a arte não cria fundos dignos para os artistas reinvestirem na sua paixão fica muito complicado observar-se desenvolvimento da carreira artística.

O quadro negro que envolve a dança, para Edna Jaime, pode ser vencido se os moçambicanos aprenderem a amar o produto feito pelos seus artistas: “Temos de ter uma abertura para perceber o que está a ser feito a nível da dança no país, as abordagens e as lutas. Segundo, temos investir na dança porque a arte é uma arma indiscutível de comunicação, serve para passar mensagens sociais e é um meio privilegiado para expressarmos coisas que através das palavras pode ser difícil”. Com isso, Ídio Chichava recomenda que se aposte nas associações culturais, que, sem apoio nenhum, são responsáveis pelo aparecimento de valores. “Diante de tantas dificuldades, devemos pensar como podemos criar uma base forte de formação e ter profissionais mais competentes”. Além disso? “Temos de investir nos festivais, por serem das melhores formas de rentabilizar o artista. É dos festivais que o artista vive”.

Em termos de dança, o maior festival que o país tem é o KINANI, que se realiza uma vez em cada dois anos. Na verdade, o KINANI existe para contribuir na resolução dos problemas que afectam os bailarinos, coreógrafos, promotores e todos associados à arte. “Mas é impossível conseguirmos resolver todos os problemas de toda uma classe”, adianta Quito Tembe, apontando para um paradoxo institucionalizado: “No país, quando se pretende receber uma determinada personalidade, usa-se a dança. Ao mesmo tempo, esses mesmos bailarinos e dançarinos que dão graça aos eventos aparecem banalizados porque ninguém lhes dá o devido valor”.

A alternativa que Quito Tembe encontra para que as dificuldades passem no universo da dança é o apontado por Ídio Chichava, isto é, coordenação entre os profissionais do sector para serem eles mesmos a resolverem os seus próprios problemas. “Como KINANI, continuaremos a contribuir para dar respostas. Por exemplo, criamos o primeiro estúdio de dança do sector privado em parceria com o público para permitir a qualquer artista criar e elevar a sua qualidade técnica e profissional”. O grande propósito nisso é garantir condições para a profissionalização da dança, projecto que irá iniciar logo que a COVID-19 seja assunto ultrapassado.

 

“Temos uma percepção errada de dança contemporânea”, Lindo Cuna

Há 41 anos, foi fundada a Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). Até aqui, por lá passaram vários artistas, e, um eles, é Lindo Cuna, quem refere que, neste momento, a CNCD tem dificuldades de apresentar os seus espectáculos porque o Cine África continua em reabilitação. Tal cenário impede que a CNCD tenha fundos para apresentar-se publicamente. “Com o Cine África activo, não precisávamos de nos preocupar em pagar a sala, o som e a luz. Agora, sem tudo isso, fica-nos muito difícil”.

Além das dificuldades apontadas, Lindo Cuna acrescenta que a acentuada avalanche de bailarinos que se deixa levar por um conceito errado de dança contemporânea em Moçambique tem contribuindo para ofuscar os praticantes de danças tradicionais, como é o caso da CNCD. “Com muita simplicidade de movimentos, acaba havendo uma banalização da dança tradicional por causa da contemporânea. Os bailarinos contemporâneos estão mais afastados das tradições do país. Neste contexto, para os que pensam que paramos no tempo, a CNCD quer continuar a preservar as nossas raízes”.

Com ou sem banalização do tradicional apontada por Lindo Cuna, esta quarta-feira celebra-se o Dia Internacional da Dança, num contexto em que em Moçambique os entraves a ultrapassar ainda são ilimitados.

 

 

 

 

 

E o debate continua no digital, sem deixar que a pandemia do novo coronavírus cause severas paragens, a Associação dos Escritores Moçambicanos realizou mais uma sessão de “No Gume da Palavra”, desta vez, para leitura crítica da obra do escritor Aurélio Furdela, “Saga d’Ouro”, pelo professor Aurélio Ginja.

Para dar um ar natural e de afectos, a voz e a guitarra de Aniceto Guibiça fizeram as honras da casa, um início do evento à medida da leitura de uma obra cuja estória se funde a História.

Ao se expor na janela aberta ao mundo, através da plataforma de comunicação ZOOM Cloud Meetings, Aniceto Guibiça, cuja música é por muitos conhecida e o qualifica como um dos expoente de intervenção social, vincando os males da ganância, o músico viu-se surpreendido no auditório, pela presença do filho e netos, a participar no evento a partir dos Estados Unidos de América, facto que Guibiça fez questão de destacar, visivelmente emocionado, no final da palestra, pois há bastante tempo que o músico decano não os via estando em acção num palco.

Depois, a música deu lugar a uma reflexão sobre o livro, profunda e interativa, a cargo de Aurélio Ginja como palestrante e Nelson Lineu na moderação, numa clara demonstração do poder das tecnologias, nestes tempos que exigem mais da imaginação e da criatividade do que meios materiais para continuar a manter vivas as nossas artes e cultura.

Alías, ao colhermos o sentimento do músico Aniceto Guibiça, este revelou sentir-se surpreendido com a nova forma de realizar eventos, adoptada pela AEMO, num exercicio de contornar o isolamento social imposto pela COVID-19. “Não imaginava que podia cantar e ter uma plateia através da internet, uma plateia que pudesse cantar e interagir com ela. Ver o meu filho e os meus netos de tão longe a acompanhar-me e aplaudir foi uma coisa emocionante.” Rematou o músico, sem deixar de lançar um repto às demais agremiações culturais, no sentido de seguir o exemplo dos escritores, que “estão de parabéns pela iniciativa e por se lembrarem dos músicos. Está de parabens o Secretário da AEMO, que me convidou para abrilhantar o evento”.

“Acho que a SOMAS e a Associação dos Músicos deviam abraçar estas plataformas para fazerem com que nós artistas não paremos e cheguemos mais longe. Isto é incrível. Estou muito feliz. Nunca me vou esquecer.” – Assim finalizou o autor do sucesso “Eh male”, música que na década de 90 liderou os tops da música ligeira moçambicana, e que até hoje ainda causa emoção e reflexão.

Iniciando a sua intervenção, na sessão de leitura de “Saga d’Ouro”, Aurelio Ginja começou por destacar que este é um livro recheado de traições, feitiçarias e disputas de poder. “E Furdela escreve com mãos gémeas. A sua mão direita escreve História com ciência e outra com, a esquerda, escreve estória com “E”. Começou por dizer Aurélio Ginja no princípio da leitura crítica à obra de Aurélio Furdela.

Ao dar sequência a conversa, no encontro on-line realizado na tarde da passada sexta-feira, Aurélio Ginja mergulhou numa exaustiva explanação, percorreu o livro vencedor de Prémio Eugénio Lisboa, 2019, na mesma medida que sublinhava a sua dimensão Histórica, como ponto de partida do autor escapelzado, o palestrante despertava o auditório para as marcas de uma narrativa ficcional. Para a primeira dimensão, destacou que “Saga d’Ouro” fundamenta-se no choque cultural que foi gerado entre África Ásia e Europa, procurando resgatar um conflito inerente a expedição militar de Francisco Barreto que em 1571 é enviado pelos portugueses a fim de vingar a morte do Padre Gonçalves Silvério, acusado de prática de feitiçaria e morto por decreto do Imperador de Mwenemutapa em tempos, Negomo, antecessor de Gatsi Lucere.

Ginja encontra aí a História na estória de Furdela, portanto, essa parte escrita pela mão direita do autor. Com a mão esquerda, prossegue o crítico, Furdela incorpora outros elementos na obra, percorre através da imaginação o Vale do Zambeze, leva o leitor a cenários de um imperador que quer manter-se perpetuamente no poder, que oprime e comete tremendas injustiças, em meio a expedição portuguesa, que inclui a coisificação do ser humano.

Nesse ponto o crítico estabelece uma ligação antes feita em uma resenha do poeta Japone Arijuane, em que conclui que fica-se com uma “dúbia sensação de se estar a repetir a História”, ao contrário do ideal que seria o conhecimento do passado para pespectivar o futuro e evitar os erros já cometidos, aprendendo com as experiências positivas.

“Assim continua a existir um Zumbidzai [personagem feiticeira ao serviço do imperador], feiticeiro ao qual as mãos do Poder procuram a todo custo meios para reprimr os seus opositores, um cenário que se repete e torna a História numa tremenda realidade.” – analisa o crítico, para quem Furdela ao resgatar o imperador Gatsi Rucere, conseguiu trazer a tona o diabólico que existe e acompanha uma outra dimensão do ser humano.

Nas leituras de Ginja, “Saga d’Ouro” é o retrato, ainda que sombrio e desagradável, bem conseguido da contemporaneidade do nosso contexto. A confluência do diabólico e simbólico no ser humano, isto é, do divergente e do convergente, sendo que nesse conflito de personalidade, o diabólico quando alimentado é gerador de intrigas, da violência, da guerra e a opressão que “infestam” a sociedade.

Nessa obra, Aurélio Furdela, que por sinal é formado em História pela Universidade Eduardo Mondlane, mostra-se signatário de uma tradição da literatura histórica em Moçambique, a exemplos de Mia Couto e, sobretudo, de Ungulani Ba Ka Khosa, até na técnica, ao recorrer à explicação dos termos bantus nas entrelinhas da narrativa, mas que este em “Saga d’Ouro acrescenta as notas de rodapé, nesse exercício de evitar os glossários que obrigariam o leitor a interrupções para ir em busca dos significados dos termos. Esse segmento da tradição literária está em aliança com o seu talento – completando os signos do fazer literário – que está por conta própria os recursos para construir um romance digno de apreciação positiva do professor Aurélio Ginja.

Evocando o talento do autor, que chamou de “artimanhas”, Ginja recorre à presença comungada e articulada de cenários e agoiros sombrios na narrativa, à mistura do cómico e o uso dos animais que, aliás, já é uma assinatura indelével de Furdela, como se verifica no livro anterior “As Hienas Também Sorriem”.

Neste último livro, “há heróis e vilões, o trágico e o cómico, as crenças, as assombrações e há todo um conjunto de mitos que não são só criações do autor, como premeiam o imaginário popular”, refere o crítico que acrescenta “verificam-se animais que nos fazem mergulhar para o lado oculto, como o corvo que na obra quase se assume um personagem, apontando o indício de tragédias que possam ocorrer; há o crocodilo, a serpente, as impertinentes moscas que aparecem em momentos perturbadores da narrativa.” – Um ponto de chegada de toda a experiência de vida de outrora, mas também um ponto de partida para levar a esperança do amanhã.

E em última análise, Ginja situa “Saga d’Ouro” como uma “continuidade de memórias e do sonho das vidas sonhadas e vividas antes de nós. Essa estória, intermeada por outras estórias que corporizam o romance, é como se fosse um apelo para construirmos no futuro uma sociedade mais humana”.

De referir que esta conversa sobre “Saga d’Ouro”, contou com uma plateia bastante atenta, composta por leitores e estudiosos de literaturas de Moçambique, quer a nivel nacional e do estrangeiro, aqui com destaque a presença da Professora de literaturas africanas de língua portuguesa, Carmen Tindo Secco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A actriz Ana Magaia deu voz às palavras do narrador de “Saga d’Ouro”, ao fazer uma leitura de um excerto da obra. A poesia de Sangare Okapi foi outra presença do evento, com os poemas de “Os poros da concha”, declamados por Vânia Raquelina.

A próxima realização de “No Gume da Palavra”, ciclo de palestras e debates da AEMO patrocinado pela Austral Seguros, contará com o tema “Democracia, no Contexto da Diversidade Cultural Moçambicana”, tendo como oradores os professores José Castiano e Eduardo Sitoe, com moderação de Filimone Meigos.

 

    

 

Campanhas da Mr. Bow Foundation estarão voltadas para zonas suburbanas e rurais da Cidade e Província de Maputo, com o objectivo de despertar no povo Moçambicano a gravidade de Coronavírus.

 

Numa parceria com o Ministério da Saúde e o Conselho Municipal da Cidade de Maputo, a iniciativa Mr. Bow Foundation contempla, de acordo com um comunicado, um conjunto de acções que visam o uso de instrumentos de comunicação directa e de massas dirigidas às zonas suburbanas. A Mr. Bow Foundation acredita aquelas são as áreas onde é possível encontrar uma camada social mais resistente na adopção de medidas de prevenção, sendo umas pela falta de acesso à informação, outras pela necessidade natural de manterem o seu curso normal de actividades comerciais de subsistência como forma de sustento familiar, e outras ainda por não acreditarem nos reais impactos da doença.

Os artistas da Bawito Music e outros nacionais irão abraçar a causa, produzindo anúncios de TV e Rádios em línguas locais com mensagens claras de sensibilização sobre os impactos da pandemia e com as medidas a adoptar. A par dos spots, informa o comunicado da fundação, a campanha contemplará mobilização através de megafones, oferta de máscaras para a população, desinfectação, limpeza e higienização de paragens, mercados, orfanatos, lares de idosos e zonas residenciais de grande densidade.

A iniciativa de Mr. Bow, Presidente e Patrono da Mr. Bow Foundation, surge numa altura em que se regista um crescimento acentuado da COVID-19 pelo mundo e no país. A organização é sem fins lucrativos, e pretende contribuir para o desenvolvimento sócio-económico da população moçambicana.  

 

Crossed Paths – Life just Happens é o título do roteiro para longa-metragem de Sérgio dos Céus Nelson, seleccionado para a final do New York Cinematography Awards (NYCA). A novidade foi anunciada terça-feira e surge depois de aquele roteiro ter tido destaque no Rome Independent Prisma Awards.

Em termos de história, o roteiro de Sérgio dos Céus Nelson é um drama que retrata a vida de um jornalista e uma enfermeira que precisam passar por situações complexas para que possam fazer valer a oportunidade que têm de ser feliz.

Para o roteirista de 26 anos de idade, ser selccionado para a final do New York Cinematography Awards é um privilégio, pois, assim, pode competir com colegas de outros cantos do mundo, alguns dos quais que passaram por melhores escolas de cinema. “É um enorme privilegio destacar-me numa final de concurso de Nova Iorque. Isso significa que existe alguma qualidade nos meus escritos, o que me mantém confiante na ideia de que é possível atingir a meta de ver meus trabalhos produzidos”.

De igual modo, segundo considera Sérgio dos Céus Nelson, estar na final daquele concurso nova-iorquino é uma oportunidade ímpar de poder fazer parte de clubes, grupos de roteiristas ao nível da cidade norte-americana. “Felizmente tenho estado a interagir com alguns actores renomados, como é o caso de Chris Chalk, que tem actuado ao lado de Chris Evans, Brad Pitt, Lupita Nyong'o Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, entre outros. Tenho estado também a interagir com outros profissionais ligados ao mundo de cinema, desde produtores, realizadores, etc.”

Os vencedores do concurso deverão ser anunciados no dia 29 de Maio, sendo que o evento da consagração está agendando para 29 de Junho. Portanto, Sérgio dos Céus Nelson está a concorrer para a posição de Melhor Roteiro.

Sérgio dos Céus Nelson é natural de Inhambane e, actualmente vive e trabalha em Nampula, onde desempenha a função de Oficial de Comunicação na Universidade Lúrio (UniLúrio). O roiterista é licenciado em Jornalismo, pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane. Tem trabalhado com roteiros desde 2014, o que resulta de uma capacitação que teve nessa altura. No entanto, muito do que hoje sabe é resultado de vídeos-aulas e interacção em grupo com roteiristas estrangeiros. Entre os seus roteiros, Dos Céus destaca Vermont – The Last Land, que foi semi-finalista em Hollywood Casting and Film – Screenplay Competition e no Cinema Lab, tendo sido ainda seleccionado no First Time Filmmaker Sessions, MoziMotion e Inshort Film Festival de Lagos, na Nigéria.

Sérgio dos Céus Nelson é fundador da Associação de Jornalistas Ambientais e de Direitos Humanos (AJADH), na qual actua como pesquisador. No seu percurso, tem uma Menção Honrosa no Prémio Internacional sobre Jornalismo em Direitos Humanos, pela Associação de Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Por estar na final do concuro de Nova Iorque dá-se como vencedor porque tal feito conseguiu estar à frente de muitos outros concorrentes.

 

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