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O País – A verdade como notícia

Editores da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto consideram que o Coronavírus está a comprometer a sustentabilidade das novas editoras. Entretanto, todos olham para crise como uma oportunidade de superação. Jessemuce Cacinda, Dionísio Bahule e Celso Muianga falaram do mercado livreiro nacional na véspera do Dia Mundial do Livro, que se assinala esta quinta-feira.

 

As editoras mais novas do país ressentem-se das imposições causadas pela crise sanitária que afecta o mundo, pois, em geral, não podem lançar ou comercializar os livros como faziam. Tal é o caso da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto, a editarem há três, um e cinco anos, respectivamente.

Falando na véspera do Dia Mundial do Livro que se assinala esta quinta-feira, o editor da Ethale Publishing considerou que se a COVID-19 continuar a impor o distanciamento social no país e no mundo, não só o negócio do livro fica afectado como também as pequenas editoras poderão parar de funcionar. Ainda assim, realça Jessemuce Cacinda, é preciso olhar-se para actual situação com optimismo. “Não há dúvidas de que editoras como Ethale estão a registar enormes prejuízos com esta crise sanitária. No entanto, se conseguirmos investir a longo prazo, num futuro breve teremos enormes oportunidades”. E Cacinda argumenta: “Por mais difícil que seja, temos de aceitar que este ano dificilmente iremos continuar a lançar livros publicamente, mas há uma coisa positiva que está a acontecer. Embora não se esteja a vender bem o livro, as pessoas, devido ao isolamento social, estão a ler cada vez mais. Quando esta crise passar, teremos um mercado fértil por explorar porque as pessoas estarão mais habituadas à ler”.

De acordo com Jessemuce Cacinda, dois dos factores que favorece as pequenas editoras, nesta altura, é empregarem pouca gente e funcionarem num modelo de cooperativa. Assim, ainda que o livro circule menos e algumas livrarias estejam encerradas, não têm de se preocupar com despedimentos ou com dívidas acumuladas.

Além da situação financeira, a COVID-19 está a prejudicar a Ethale Publishing porque, tendo criado o aplicativo Ethale Books, que concentra livros de várias editoras no formato electrónico, o mesmo não pode ser disponibilizado ao público por questões de natureza burocrática. “Para obtermos a licença, há um valor que devemos pagar e as transições internacionais não estão muito facilidades por causa do Coronavírus”.

Com a Ethale Books, Jessemuce Cacinda pretende que o livro passe a custar menos, já que não vai passar pela impressão. Paralelamente, mesmo a pensar numa nova geração de jovens que nasceu com o digital, a Ethale quer proporcionar livros aos que agora lêem através do celular ou do computador. “Boa parte dos livros nacionais não chega às outras províncias do país. A Ethale Books vai permite-nos chegar a todo lado com maior rapidez e precisão”, reforçou Cacinda.

Ainda que as dificuldades sejam óbvias, a editora TPC não pensa nesta crise como um fim. De casa, os colaboradores têm trabalhado para que o livro continue a chegar às pessoas como um elemento de terapia. “Temos de ter sempre a esperança de que isto vai passar. Nós trabalhamos como editora e como tipografia e já tínhamos um conjunto de trabalhos que nos permite aguentar esta fase. Por exemplo, estamos a trabalhar na reedição de O sétimo juramento, de Paulina Chiziane. Não teremos lançamentos, mas os livros continuarão a ser produzidos num ritmo mais pausado”, afirmou Dionísio Bahule, que pretende mudar a forma de lidar com as livrarias.

Segundo o editor da TPC, certas livrarias moçambicanas não são profissionais na relação com as editoras. “Depois de vender os nosso livros, chegam a levar três meses para nos pagar. Queremos mudar de estratégia. Agora, vamos passar a ceder os livros às livrarias com a mesma percentagem que negocial, mas com a diferença de que as mesmas deverão nos pagar no momento que recebem os livros.

Para Bahule, como defende Jessemuce Cacinda, o futuro do livro dependerá da união dos formatos físicos e electrónicos. Por isso, a TPC está a trabalhar com designers, criativos e a estabelecer contactos com a Amazon, plataforma que já contempla as obras da Ethale.

Há cinco anos a editar livros, a Fundação Fernando Leite Couto adianta que o risco de as jovens editoras fecharem sempre existiu. Agora, por causa da COVID-19, chegou o momento de as editoras reinventarem-se em termos de abordagem e estratégia comercial. Este posicionamento é partilhado por Celso Muianga: “O que vai ditar o sucesso das nossas editoras é a fórmula que cada uma vai adoptar para atravessar a crise”.

Mesmo optimista, o editor da Fundação Fernando Leite Couto assume que os efeitos da pandemia são negativos porque alteraram o modelo de trabalho. “Estamos a trabalhar a partir de casa, e, para quem tem filhos menores, há interferência na produtividade. Depois, ao nível comercial, não estamos a fazer vendas directas habituais nesta altura. A Fundação tem um certo número de visitantes frequentes que, quando lá vão, aproveitam comprar alguns livros. Agora não temos isso”.

Quando a crise sanitária passar, Celso Muianga espera que o Ministério da Cultura e Turismo revisite o que considera maior legado deixado por Armando Artur para o país, enquanto ministro: a política do livro aprovada em 2011, que poderá garantir o funcionamento das editoras e a formação de novos leitores. “Essa política prevê alocação de fundos do Governo às escolas e instituições do ensino superior para apetrecharem as suas bibliotecas. Isso seria uma grande alavanca para subsistência das editoras”.

Editores da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto consideram que o Coronavírus está a comprometer a sustentabilidade das novas editoras. Entretanto, todos olham para crise como uma oportunidade de superação. Jessemuce Cacinda, Dionísio Bahule e Celso Muianga falaram do mercado livreiro nacional na véspera do Dia Mundial do Livro, que se assinala esta quinta-feira.

 

As editoras mais novas do país ressentem-se das imposições causadas pela crise sanitária que afecta o mundo, pois, em geral, não podem lançar ou comercializar os livros como faziam. Tal é o caso da Ethale Publishing, TPC e Fundação Fernando Leite Couto, a editarem há três, um e cinco anos, respectivamente.

Falando na véspera do Dia Mundial do Livro que se assinala esta quinta-feira, o editor da Ethale Publishing considerou que se a COVID-19 continuar a impor o distanciamento social no país e no mundo, não só o negócio do livro fica afectado como também as pequenas editoras poderão parar de funcionar. Ainda assim, realça Jessemuce Cacinda, é preciso olhar-se para actual situação com optimismo. “Não há dúvidas de que editoras como Ethale estão a registar enormes prejuízos com esta crise sanitária. No entanto, se conseguirmos investir a longo prazo, num futuro breve teremos enormes oportunidades”. E Cacinda argumenta: “Por mais difícil que seja, temos de aceitar que este ano dificilmente iremos continuar a lançar livros publicamente, mas há uma coisa positiva que está a acontecer. Embora não se esteja a vender bem o livro, as pessoas, devido ao isolamento social, estão a ler cada vez mais. Quando esta crise passar, teremos um mercado fértil por explorar porque as pessoas estarão mais habituadas à ler”.

De acordo com Jessemuce Cacinda, dois dos factores que favorece as pequenas editoras, nesta altura, é empregarem pouca gente e funcionarem num modelo de cooperativa. Assim, ainda que o livro circule menos e algumas livrarias estejam encerradas, não têm de se preocupar com despedimentos ou com dívidas acumuladas.

Além da situação financeira, a COVID-19 está a prejudicar a Ethale Publishing porque, tendo criado o aplicativo Ethale Books, que concentra livros de várias editoras no formato electrónico, o mesmo não pode ser disponibilizado ao público por questões de natureza burocrática. “Para obtermos a licença, há um valor que devemos pagar e as transições internacionais não estão muito facilidades por causa do Coronavírus”.

Com a Ethale Books, Jessemuce Cacinda pretende que o livro passe a custar menos, já que não vai passar pela impressão. Paralelamente, mesmo a pensar numa nova geração de jovens que nasceu com o digital, a Ethale quer proporcionar livros aos que agora lêem através do celular ou do computador. “Boa parte dos livros nacionais não chega às outras províncias do país. A Ethale Books vai permite-nos chegar a todo lado com maior rapidez e precisão”, reforçou Cacinda.  

Ainda que as dificuldades sejam óbvias, a editora TPC não pensa nesta crise como um fim. De casa, os colaboradores têm trabalhado para que o livro continue a chegar às pessoas como um elemento de terapia. “Temos de ter sempre a esperança de que isto vai passar. Nós trabalhamos como editora e como tipografia e já tínhamos um conjunto de trabalhos que nos permite aguentar esta fase. Por exemplo, estamos a trabalhar na reedição de O sétimo juramento, de Paulina Chiziane. Não teremos lançamentos, mas os livros continuarão a ser produzidos num ritmo mais pausado”, afirmou Dionísio Bahule, que pretende mudar a forma de lidar com as livrarias.

Segundo o editor da TPC, certas livrarias moçambicanas não são profissionais na relação com as editoras. “Depois de vender os nosso livros, chegam a levar três meses para nos pagar. Queremos mudar de estratégia. Agora, vamos passar a ceder os livros às livrarias com a mesma percentagem que negocial, mas com a diferença de que as mesmas deverão nos pagar no momento que recebem os livros.

Para Bahule, como defende Jessemuce Cacinda, o futuro do livro dependerá da união dos formatos físicos e electrónicos. Por isso, a TPC está a trabalhar com designers, criativos e a estabelecer contactos com a Amazon, plataforma que já contempla as obras da Ethale.

Há cinco anos a editar livros, a Fundação Fernando Leite Couto adianta que o risco de as jovens editoras fecharem sempre existiu. Agora, por causa da COVID-19, chegou o momento de as editoras reinventarem-se em termos de abordagem e estratégia comercial. Este posicionamento é partilhado por Celso Muianga: “O que vai ditar o sucesso das nossas editoras é a fórmula que cada uma vai adoptar para atravessar a crise”.  

Mesmo optimista, o editor da Fundação Fernando Leite Couto assume que os efeitos da pandemia são negativos porque alteraram o modelo de trabalho. “Estamos a trabalhar a partir de casa, e, para quem tem filhos menores, há interferência na produtividade. Depois, ao nível comercial, não estamos a fazer vendas directas habituais nesta altura. A Fundação tem um certo número de visitantes frequentes que, quando lá vão, aproveitam comprar alguns livros. Agora não temos isso”.

Quando a crise sanitária passar, Celso Muianga espera que o Ministério da Cultura e Turismo revisite o que considera maior legado deixado por Armando Artur para o país, enquanto ministro: a política do livro aprovada em 2011, que poderá garantir o funcionamento das editoras e a formação de novos leitores. “Essa política prevê alocação de fundos do Governo às escolas e instituições do ensino superior para apetrecharem as suas bibliotecas. Isso seria uma grande alavanca para subsistência das editoras”.

 

 

O humorista Chaguatika Nzero perdeu a vida, esta manhã, no Hospital Central de Maputo, vítima de doença.

 

Hoje calou-se uma importante voz do humor moçambicano. Baptizado Nelson Coutinho de Sousa, o humorista perdeu a vida no Hospital Central de Maputo, vítima de doença que o afligiu durante mais ou menos cinco anos. Na verdade, Chaguatika Nzero deixou de se dedicar ao humor justamente por causa da enfermidade que nesta terça-feira custou-lhe a vida.

Os que trabalharam com Chaguatika Nzero lembram-se do humorista como uma pessoa distinta e irreverente. É o caso de Luísa Menezes, amiga que com ele fez humor na cidade de Chimoio já nos finais dos anos 80, depois de se terem conhecido em Tete. “Ele nunca estava satisfeito com nada. Queria sempre fazer mais e melhor, com aquela irreverência que, às vezes, magoava algumas pessoas que não recebiam bem as piadas dele. Penso que foi essa característica irreverente que lhe manteve no humor por tantos anos”.

Depois de juntos colaborarem no Chimoio, Chaguatika Nzero e Luísa Menezes trabalharam em dois projectos de humor com o mesmo título, intitulado A viagem do riso, gravados em cassete na altura. Foi mais ou menos nessa altura que o humorista se conhece com Izidine Faquirá. Ao locutor, a morte de Chaguatika faz lembrar os momentos mais altos que o humor moçambicano viveu através da Rádio Moçambique. “Eu conheci-o depois do A viagem do riso. Convidamo-lo para trabalhar connosco no programa Em cima da hora, todas as manhãs, e a sua versatilidade era fantástica”.

Nos seus projectos de humor, Chaguatika Nzero abordava diversos temas que mexiam com as pessoas, tendo-se (também) popularizado com o programa O riso não paga imposto. Para Búfalo, que com ele trabalhou nesse projecto, Chaguatika Nzero “é um dos grandes mestres do humor e da cultura de Moçambique. “Ele esteve em frente de grandes batalhas pela cultura e deixa um buraco difícil de cobrir”.

Além do humor, outra paixão de Chaguatika Nzero era a música. Inclusive, gravou o disco musical Haja amor (1994), com Célio Figueiredo, que sublinha: “tivemos uma amizade da qual eu estou muito grato. Aprendi muito dele e deu-me muita força nos momentos que eu achava que iria falhar. Pode-se fazer muito para que a obra dele não fique esquecida. Cabe-nos a nós continuar a divulgar as obras dele”.

Nelson Coutinho de Sousa, filho de Alberto e Ana de Sousa, nasceu no 21 de Janeiro de 1961, em Ribaué, Nampula, e perde a vida aos 59 anos de idade. O seu funeral irá realizar-se sexta-feira, às 10 horas, no Cemitério de Lhanguene, cidade de Maputo.  

A actriz e encenadora Maria Atália destaca que a experiência de trabalhar na China foi positiva, mas carregada de muitas dificuldades que a tornaram outra mulher.  

 

Maria Atália trabalhou na China durante um ano e meio. Naquele país asiático, a actriz e encenadora colaborou com uma companhia que se dedica à dublagem de telenovelas, séries televisivas e desenhos animados.

Numa realidade tão diferente da moçambicana quanto à chinesa, a artista teve de enfrentar momentos muito difíceis, no entanto, reconhece que a experiência na China foi positiva. “Aprendi e ensinei”. Nesse processo de ensino e aprendizagem, Maria Atália apreendeu outra dinâmica de criação, produção e a sua relação com o tempo já não é a mesma. Ou seja, a actriz que regressou a Maputo, há quatro meses, para passar férias com a família, é distinta daquela mulher que há dois anos partiu para China. Sem vida social, sem diversão e com os dias preenchidos de muito trabalho, confessa Maria Atália, tornou-se outra mulher, mais chata. “Já ouvi de algumas pessoas próximas que a China me mudou. Tenho menos paciência para perder tempo. Por exemplo, irrito-me bastante quando as pessoas atrasam-se aos encontros ou quando não usam o tempo devidamente. Provavelmente já tivesse esta coisa, na China ficou carregada”. 

Na China, Maria Atália dublava, actuava na área técnica e traduzia. Tudo isso acontecia numa base de trabalho solitária, em que a artista, desde o momento que chegava aos escritórios até ao intervalo de uma hora para o almoço ou até regressar a casa no final do dia, não se contactava com os colegas, pela natureza das suas actividades. Trabalhava de segunda-feira a sábado, e o domingo apenas era dedicado às actividades domésticas, no contexto em que não há “diaristas”.

Segundo acredita Maria Atália, a sua experiência no teatro foi importante na China porque, “primeiro, no meu isolamento profissional, o teatro ajudou-me a não morrer. Sempre tive de trazer ao de cima a actriz que tenho em mim. Sem isso, eu teria voltado para casa ao fim de seis meses. Tive de olhar para aquela realidade como uma representação. Além disso, o meu lado actriz também ajudou-me nas dublagens, porque, nesta actividade, não basta só dizer, é preciso sentir o que se diz, considerando as circunstâncias”.

Para Maria Atália, foi igualmente difícil o trabalho na China porque levou tempo para entrar no sistema. “Eu sou uma pessoa muito perfecionista. No meu emprego, nós éramos avaliados pela quantidade do que pela qualidade. Eu era das que menos quantidade oferecia porque apagava muito. Na China resisti à ideia de apenas apostar na quantidade, sempre investi na qualidade, e as pessoas a quem prestava contas queixavam-se mesmo sabendo que o trabalho era bom”. Como meio-termo, à encenadora foi confiada a missão de se focar mais na tradução. Aí Maria Atália sentiu-se mais à vontade porque podia ser rápida como se pretendia sem comprometer a qualidade.   

 

COVID-19: Moçambique deve aprender da China

Maria Atália teve a oportunidade de conhecer a China seis meses depois de lá ter começado a trabalhar. Quando chegou ao país, foi levada ao seu apartamento e, no dia seguinte, começou a trabalhar. Um ano depois, com saudade de casa, pede férias e viaja de volta para Moçambique, em Dezembro. Não tardou, ao fim de duas semanas, explodem os casos da COVID-19 em Wuhan. Desde então, não viajou mais para China. “Assustei-me muito quando chegaram as notícias de Coronavírus. O que me tranquilizou foi saber que, ao contrário de nós, os chineses ouvem tudo o que o Governo diz. Sabia que os meus amigos estavam seguros. Quando tiveram de ficar em casa, todos os chineses e estrangeiros ficaram. Aliás, acredito que, se nenhum país tivesse retirado os seus cidadãos da China, o vírus não teria se espalhado tanto como se espalhou”.

A actriz e encenadora defende que, neste Estado de Emergência, os moçambicanos devem aprender a ouvir e a seguir as recomendações das autoridades, como os chineses, para que se possa vencer a COVID-19.

Um problema que chamou atenção de Maria Atália na China foi o racismo, que é uma realidade. A este respeito, a encenadora defende que nem sempre se deve olhar para os chineses como racistas, mas, acima de tudo, como ignorantes. “Estamos a falar de um povo que vive como se estivesse numa ilha; que, quando liga televisão, é para ver apenas canais nacionais. Não cabe na cabeça deles que existe um negro. Eles acreditam apenas nas histórias contadas pelos avôs de que o negro vive com leões. Têm redes sociais, mas apenas válidas para China. O racismo deles é resultado da ignorância”.

 

 

"Casal em casa" é o título da mini-série do grupo Haya-Haya que irá estrear às 18 horas deste domingo. A obra foi concebida para entreter os moçambicanos neste período de distanciamento social.

 

 

 

A COVID-19 impede que os grupos teatrais apresentem os seus espectáculos nos espaços habituais. Entretanto, a pandemia não impede que os actores cheguem a casa dos moçambicanos através das várias plataformas digitais disponíveis. A Internet facilita a necessidade os fazedores de arte apresentarem as suas obras. Assim, o grupo Haya-Haya, da cidade da Beira, preparou uma mini-série para entreter a todos que devem ficar em casa durante a vigência do Estado de Emergência no país.

A partir das 18 horas de hoje, a estreia da mini-série Casal em casa pode ser vista pelo YouTube ou pelo Facebook do grupo Haya-Haya. Em 45 minutos, cada episódio, a obra de Haya-Haya conta a história de um casal que se deve adaptar ao isolamento social, passando mais tempo junto, e foi filmada sem grandes produções. No elenco estão três actores: Lúcio Chiteve, Calene e Dany, que se considera sortudo por contracenar com a mãe. “É muito bom trabalhar com a minha mãe, e eu sinto-me muito privilegiado por isso”.

Na percepção do actor com 15 anos de idade, no teatro desde os 8, a mini-série Casal em casa vai ajudar a unir ainda mais as famílias moçambicanas neste tempo de distanciamento social. “Acho que as famílias vão-se divertir muito porque nós relatamos tudo aquilo se passa no dia-a-dia dos nossos lares com muita risada”.

Sem nenhum apoio financeiro, a mine-série foi produzida em casa da actriz Calene. Por isso, para o grupo de actores, todo o apoio é bem-vindo, já que da exibição nas redes socias não se adivinha nenhum tipo de remuneração. “Como qualquer espectáculo de rua, já que não temos nenhum tipo apoio financeiro, esperamos que o público que puder contribua com o que for possível para que continuemos a trabalhar neste projecto. Nós teremos uma espécie de chapéu virtual, com o número de M-Pesa ou Ponto-24 para onde podem canalizar a ajuda. Seja como for, o que nos interessa, de facto, é entreter as famílias moçambicanas através das plataformas digitais disponíveis”, afirmou Lúcio Chiteve.

Haya-Haya é um grupo teatral que iniciou as suas actividades em 1990, na Igreja Católica Sagrada Família, na cidade da Beira. Em Outubro de 1992, o grupo começou a trabalhar como semi-profissional, interessando-se, desde essa altura, em trabalhos focados na sensibilização e educação das comunidades.

Não há espetáculo, não há concertos, não há shows e muito menos casamentos. Moçambique está em Estado de Emergência devido ao novo coronavírus e está interditada a realização de qualquer tipo de evento cultural ou desportivo. E os impactos já são visíveis na vida de quem tem na cultura a fonte de rendimento.

 

O país está em Estado de Emergência. As pessoas circulam com restrições. Os mercados têm horários de funcionamento. Os cultos estão suspensos. Teatros, cinemas, espetáculos e concertos estão cancelados. Aliás, a sua realização está proibida. O novo coronavírus está a deixar impactos negativos na música e na vida de quem tem nela (a música) a fonte de rendimento.

Sem distinção, a pandemia COVID-19 afectou, negativamente, o estilo musical da antiga e nova geração. Conhecido no mundo da música como Duas Caras, o rapper sempre deixou transparecer, ainda que de leve, que vive disto.

“Uma outra actividade que também faço está afectada na medida em que não posso viajar, pois tem a ver com saídas internacionais então não posso fazer. Mas a música, com certeza, era uma das principais, mas vamos ver no que é que isso vai dar”, sublinhou o rapper Duas Caras.

Enquanto se espera por dias melhores, Duas aproveita o período de distanciamento social para manter a forma e escrever algumas letras até porque dias melhores estão por vir. “Não estou desesperado porque eu acho que é uma coisa que vai passar, mas tenho aproveitado esse tempo para continuar a trabalhar”.

Trabalho, trabalho e mais trabalho só que a partir de casa para evitar a contaminação pelo novo coronavírus é o mesmo que faz o músico “mais velho” Wazimbo depois que a pandemia ter condicionado a realização de oito concertos que tinha pela frente.

“Eu vivo do meu dia-a-dia. Daí que o pouco que havia é aquilo que fui aguentando até neste momento. Doravante só Deus é que sabe o que vai acontecer. Vamos desenrascando aqui e acolá”.

E é diante do mesmo Deus que Wazimbo pede união de todos para que o momento difícil que o mundo está a passar passe o mais cedo possível “porque se isto continuar assim, as nossas reservas vão esgotar e aí virão dias de fome, desemprego e criminalidade”.

Falando em reservas, António Marcos ainda tem o mínimo para sobreviver…o mínimo mesmo e receia que se a situação piore nos próximos dias e não tenha como alimentar a si e aos seus netos.

“Eu tinha três festivais gigantes que, de repente, cancelaram. Eu vivo da música. Tinha tantos outros trabalhos que não preciso aqui especificar”, lamentou o músico António Marcos.

O que o homem da boina e luvas brancas não sabe especificar é o que fará nos próximos dias para sobreviver, mas consertar sapatos parece ser a alternativa mais viável. “Tento me recompor para poder escolher o que devo fazer. Não posso ir para madeira nem para carpintaria. Mas estou a considerar a possibilidade de abrir uma sapataria”, avançou, António Marcos.

A pandemia do novo coronavírus encontrou a todos em contramão, daí ser o momento de repensar numa fonte alternativa em caso de próximas crises. “Isso chama-nos à atenção para necessidade de, muito cedo, enquanto trabalharmos, saber fazer poupança. O músico não tem um salário fixo. Há fins-de-semana que ganha mais, outros (fins-de-semana) ganha menos. O mais importante é que ele defina cada mês qual é o seu salário e deposite uma parte como poupança”, aconselhou Aniano Tamele.

Segundo Tamele, o Governo não tem condições da subsidiar todos os sectores que poderão ser devastados pela pandemia da COVID-19 e muitos menos a cultura, “ Melhorar as políticas culturais, “impondo-se que os músicos tenham algum seguro privado para situações calamitosas como estas”.

Não obstante os prejuízos que os artistas tem somado devido à COVID-19, o mais importante é preservar a saúde, aproveitando os dias de distanciamento social para manter a forma.

“Estamos a perder dinheiro, mas acima de questões financeiras está a nossa saúde pois ela (a saúde) é a nossa vida. Daí que é importante cumprir todas as medidas preventivas”, afirmou o rapper Flash Ency.

E cumprir com as recomendações das autoridades da saúde pode salvar a nossa vida e da dos demais, sobretudo “tendo fé no pensamento, tornando-se o soldado deste movimento, cumprindo com as normas do Estado de Emergência, ficar em casa e prevenir-se desse vírus”, aconselhou Flash Ency.

Além da música, os efeitos desastrosos da COVID-19 são indisfarçáveis nos salões de festas e casamentos. Cadeiras dos noivos, padrinhos e convidados vazias…na pista, nenhum movimento de garçons para servir os presentes…já lá vão dois meses que o complexo Palhota não conseguiu esconder os seus clientes da COVID-19.

“Tínhamos casamentos, seminários e foram cancelados. Desde o mês de março e agora estamos a caminho de Junho não temos nenhum evento. Isso deve dar uma estimativa de, mais ou menos, seis a sete milhões de meticais”, revelou Rosa Issufo, gestora do Complexo Palhota.

A Palhota ainda não despediu seus trabalhadores, isso porque a parte da acomodação ainda tem alguns clientes. “É só ter fé, mantermos a esperança. Temos a parte da acomodação que estamos ainda a 80% em termos de cancelamento, então isso vai permitir a sobrevivência da empresa neste momento”, referiu Rosa Issufo, com um tom carregado de suspiro de desespero.  

E num momento em que os casos positivos da pandemia COVID-19 nem a minha casa, ou seja, Kaya Kwanga, é um local seguro para realizar qualquer tipo de evento. Casamento, nem pensar.

“Em termos de festas estamos a 0% de funcionamento. Infelizmente aquilo que o decreto prevê, não se pode mais nenhuma festa”, deplorou Jaime Bila, gerente do complexo residencial Kaya Kwanga. 

Ainda que nada esteja a funcionar como dever ser, os Dois Oceanos continuar a fazer “flutuar” os seus serviços, mas também a partir de casa. “Estamos a usar instagram para fazer lives, alguns vídeos, onde as pessoas possam pagar um valor para os cursos e teremos algumas sessões grátis porque numa altura em que as pessoas não estão a trabalhar e por isso não há rendimentos. Então temos que ajudar de alguma forma” explicou Giovanni Paolo

E uma das formas de ajudar em tempos de distanciamento social, é montando um escritório em casa. “O cliente tem que, primeiro, dizer que tipo de trabalho faz ou serviço presta. Nós pegamos a informação e nós montamos o cenário” disse Paolo da Dois Oceanos.

Mas nem com esse ambiente, os promotores de eventos e espetáculos conseguem trabalhar. Os promotores de espetáculos falam dos prejuízos acumulados por conta da pandemia. “Nós temos uma plataforma que é o Moments of Jazz que, anualmente, faz dois concertos, um no primeiro semestre e outro no segundo, mas fomos obrigados a cancelar e ainda não temos datas porque não se vislumbra uma solução a curto prazo”, lamentou Belmiro Quive, promotor de eventos.

A Ministra da Cultura e Turismo exigiu à Direcção-Geral do ARPAC – Instituto de Investigação Sociocultural a criação de Planos concretos para formação dos recursos humanos. Eldevina Materula interveio na inauguração do novo edifício do ARPAC, esta manhã, em Xai-Xai, e, no local, apelou ao uso racional da infra-estrutura do Estado.

Num evento restrito, segundo o comunicado de imprensa, Eldevina Materula disse que não fosse a pandemia da COVID-19, a cerimónia tomaria um sentido mais festivo, com a participação de maior número de pessoas, com mais brilho artístico que caracteriza o povo moçambicano: “Esta restrição não pode e nem deve ser entendida como abandono dos planos e projectos institucionais e sociais assumidos em prol do bem-estar do nosso País. Pelo contrário, devemos entendê-la como um chamamento à adopção de medidas alternativas às habituais, para a realização dos desideratos das nossas tarefas diárias, sobretudo do nosso Plano Económico e Social”.

Na cerimónia de inauguração, a Ministra da Cultura e Turismo afirmou que o acto é resposta do desafio lançado pelo Chefe do Estado de promover o desenvolvimento de instituições especializadas na protecção do património sociocultural, tendo como objectivo promover a pesquisa, a preservação, a valorização e divulgação da cultura moçambicana no país e no estrangeiro.

A inauguração enquadrou-se no plano de realizações dos primeiros 100 dias de governação do presente quinquénio. Assim, com o novo edifício, a província de Gaza passa a dispor de mais um instituto devidamente equipado para investigação e divulgação do seu património cultural, contribuindo, desta forma, para dentre outras coisas, diversificar a oferta de produtos culturais e turísticos baseados num profundo conhecimento da realidade sociocultural das comunidades.

 

 

Já se observou que a COVID-19 alterou o quotidiano dos artistas moçambicanos. Não podendo expor os seus trabalhos como antes, ficam recolhidos em casa, “à espera” que o Estado de Emergência passe e a vida volte à normalidade. O futuro é incerto para todos os intervenientes das artes e para os que deste sector dependem. Por isso mesmo, segundo entende Quito Tembe, Director do Festival Internacional de Dança Contemporânea – KINANI, o Coronavírus, no caso de Moçambique, veio pôr a nu a fragilidade do sector da cultura. Como implicação directa dessa fragilidade, para Tembe, há toda uma cadeia de valor que fica completamente parada e cujos integrantes, actualmente, sentem-se completamente desprotegidos.

Num momento como este, em que, devido ao isolamento social, as televisões e as rádios estão a ter o pico de audiência, não é justo, para Quito Tembe, que os artistas, que as fornecem conteúdos, estejam em casa arrumado, a debaterem-se sobre como sobreviver. “Pergunto-me, por exemplo, onde está a nossa sociedade de autores, a SOMAS, que devia estar, neste momento, no seu pico em termos de distribuição de renda. Não se explica e não se justifica que tenhamos artistas que estiveram todos estes anos a produzir conteúdos, a estarem em grandes palcos e hoje a olharem para o Ministério da Cultura e Turismo como salvação. E digo, não sei se a salvação vem do Ministério da Cultura”.

Diante da desorganização que abala o sector artístico, o Director do KINANI julga que os moçambicanos devem fazer do caos causado pela COVID-19 uma oportunidade para alterar as coisas, com clareza e eficácia.

Ora, a fim de ajudar os artistas a todos os níveis, o Ministério da Cultura e Turismo lançou, recentemente, uma campanha de mapeamento das indústrias criativas e culturais ao longo de todo o território nacional. Para Quito Tembe, a iniciativa é boa, mas, considerando-se que o Estado de Emergência também afecta a área cultural, se se pôr uma máquina ministerial a fazer o mapeamento, o Estado de Emergência irá terminar  com muito trabalho ainda por fazer. “Não quero com isto dizer que o mapeamento não é uma ferramenta necessária para o sector, é uma das ferramentas muito importantes. No entanto, não sei se é o momento indicado para se avançar com este levantamento, até porque já se fizeram várias pesquisas do género que ficaram em banho-Maria”.

Tembe receia que, ao invés de se buscar soluções pragmáticas para o sector, perca-se tempo a discutir a questão de base de dados. “Devíamos ir para além de mapeamento e tomar decisões para que se resolva o problema que afecta o sector. Não podemos pôr toda uma cadeia de valor completamente adormecida.” E para que não fique adormecida, num debate televisivo moderado por Boaventura Mucipo, na Stv Notícias, quarta-feira à noite, o promotor do KINANI chamou atenção para não se cometer o erro de, ao falar-se de indústria criativa, focar-se no artista: “é preciso olharmos para todos os intervenientes porque no rácio de 100, por exemplo, o artista representa apenas 10% do que implica um festival”. E Quito Tembe constatou: “Este é o ano do Festival Nacional da Cultura. Considerando que já não vai acontecer, por que não realocar a verba de uma forma aberta, e apoiar aqueles que estão a ficar lesados neste período, ao invés de trancar o cofre?”.

Presente no debate, Roberto Isaías discordou que o apoio ministerial seja dado aos que viram seus eventos cancelados. Para o músico dos Kapa Dech, a haver apoio, deve ser abrangente para todos. E justificou: “A situação da COVID-19 é devastadora e angustiante. A cultura, hoje, também é negócio, que envolve o artista, o produtor, o iluminotécnico, os motoristas, o pessoal do catering, os fornecedores de bens e serviços e o sector informal, que se aproveita dos eventos. Assim, há uma perda de renda de sobrevivência dessas pessoas todas”.

Roberto Isaías espera que o Estado de Emergência não seja prolongado porque o cenário nas artes pode ser ainda mais devastador.

Esta sexta-feira, quando forem 10 horas, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, vai inaugurar o novo edifício onde passará a funcionar a Delegação Provincial de Gaza do ARPAC – Instituto de Investigação Sociocultural, na cidade de Xai-Xai.

A construção é de raiz, financiada exclusivamente pelo Governo, visando conferir condições condignas de trabalho à instituição pública de carácter cultural e científico, vocacionada à pesquisa, conservação e divulgação de forma sistemática, dos aspectos da cultura moçambicana (nos domínios da etnologia, antropologia, linguística, sociologia e história), com finalidade de estudo, educação e deleite. Além de gabinetes técnicos, a infra-estrutura possui uma biblioteca para o acervo de especialidade da área de trabalho do ARPAC.

A Delegação Provincial do ARPAC de Gaza foi criada e iniciou as suas actividades em 2009, tendo partilhado o espaço de funcionamento com a Casa Provincial da Cultura, ao longo de anos, com todos os inconvenientes que a situação representava.

Com esta inauguração, enquadrada no Plano de Realizações dos Primeiros 100 dias de Governação do presente quinquénio, o ARPAC fortalece a sua expansão territorial no País, faltando apenas delegações em duas Províncias, designadamente, Nampula e Inhambane, já que na Zambézia funciona um Núcleo do ARPAC que assegura as actividades do Instituto de Investigação Sociocultural, podendo formalizar-se como Delegação Provincial em breve.

De acordo com o Ministério da Cultura e Turismo, a cerimónia de inauguração das novas instalações do ARPAC em Xai-Xai, terá a observância das medidas de prevenção da Pandemia do Coronavírus pelo que, será de participação restrita, devendo contemplar intervenções culturais mínimas e discursos oficiais.

Além da Ministra da Cultura e Turismo, tomam parte do evento a Governadora da Província de Gaza, Magarida Mapandzene, o Secretário de Estado na Província de Gaza, Amosse Macamo; o Presidente do Conselho Municipal de Xai-Xai, Emídio Xavier; o Director-Geral do ARPAC, João Fenhane, membros do Governo Provincial e Municipal e outros convidados.

 

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