O País – A verdade como notícia

Um escritor que não gostaria de crescer. Ou melhor, que gostaria de continuar a ser criança. Tem livros para adultos, mas não os quer lançar. Esse escritor é Celso Cossa, autor de O menino que odiava números, o melhor livro publicado no país ano passado. Nesta entrevista, sempre com a imagem da criança nos argumentos, o escritor refere-se à importância do Prémio BCI de Literatura, da literatura infanto-juvenil e, claro, realça alguns aspectos do seu processo criativo.

 

Celso Cossa, imagino, está com os bolsos cheios de orgulho, pelo Prémio BCI de Literatura. Como qualifica o reconhecimento à sua obra?

Eu não me vejo como vencedor do Prémio BCI de Literatura. Na verdade, a distinção é de toda a juventude e da literatura infanto-juvenil. Enquanto jovens, todos nós deveríamos festejar pelo reconhecimento ao meu livro, porque se se diz que é de pequeno que se torce o pepino, então já temos aqui uma porta aberta para mostrar que queremos torcer o pepino ainda pequeno. Uma distinção do BCI de Literatura a um infanto-juvenil, por mais que não fosse o meu livro, é uma coisa que não cabia na minha cabeça. O que eu posso dizer é que estamos todos de parabéns. Houve uma passagem de testemunho.

 

Porquê não acreditava que um infanto-juvenil poderia vencer?

Porque, enfim, ainda há muita gente que pensa que escrever para crianças não é escrever. Então, penso que este prémio também foi uma bofetada para todas essas pessoas que pensam assim.  

 

Mas essa visão redutora em relação ao infanto-juvenil não é generalizada…

Exactamente! Mas quantos de nós vai aos lançamentos de livros infanto-juvenis? Um episódio. Ano passado, três escolas convidaram-me para dar uma palestra e oferecer livros aos alunos, no dia 1 de Junho. Na véspera, duas delas declinaram o convite – e o motivo é o mais mesquinho possível. Eles disseram-me que declinaram o convite porque os pais e encarregados de educação das crianças não viam a ideia de oferecer livros às crianças como boa, porque os meninos preferem camisetas do Barcelona, brinquedos ou bolas ao invés de livros. Ou seja, quem escreve para crianças é visto como uma pessoa que ainda está a caminhar para esta coisa de escrita. O prémio veio para alterar esta visão. Escrever para crianças é também escrever. E, se calhar, ao educarmos uma criança com livros, é menos um adulto na cadeia.

 

Que impacto pode advir deste primeiro reconhecimento a um infanto-juvenil pelo BCI de Literatura?

Antevejo um crescimento muito grande em termos de produção infanto-juvenil; antevejo maior interesse dos pais e encarregados de educação, das escolas e do Governo. A distinção ao meu livro foi um recado que, talvez, possa contribuir para acelerar a criação de um Plano Nacional de Leitura e de políticas que envolvem crianças. Eu antevejo um florescer da literatura infanto-juvenil, quer em Moçambique, quer nos PALOP. Num canal de televisão, que não preciso citar, quando foi anunciado o vencedor do BCI de Literatura, foi dito o seguinte: “um total desconhecido venceu o prémio”…

 

Entretanto esse “total desconhecido já tinha três livros”…

Sim. Aquela afirmação pode denotar algum desprezo, mas, no final das contas, é um chamariz muito importante. A partir daí, muita gente pode ter-se interessado em saber quem é esse desconhecido, que não é uma ilha, faz parte de uma colectividade e de um país. Há uma abertura e acho que vai mudar muita coisa.

 

Chegou atrasado à cerimónia da consagração. Como ficou a saber que O menino que odiava números tinha sido laureado o melhor livro de 2019?

Eu trabalho a mais ou menos 100km da cidade de Maputo. Alguém da organização da gala do Prémio BCI de Literatura conversou comigo sobre o evento ao telemóvel e, no final, a pessoa perguntou-me se eu estava em Maputo. Eu disse-lhe que não. Então a pessoa perguntou-me se eu poderia conseguir uma dispensa do trabalho ou algo parecido. Eu disse que sim. Aí a pessoa disse-me a organização estava satisfeita por se ter debatido à volta de um livro infanto-juvenil, algo que não era de se esperar. Depois disso convenceu-me a participar na gala e, depois, a tomar um vinho. Quando ouvi aquilo vi uma luz no fundo do túnel. Decidi que, independentemente de ganhar ou não, eu tinha de estar na cerimónia do anúncio do vencedor. Seria um mau perdedor se não tivesse ido. Entrei no carro e acelerei. Quando me encontrava a cinco minutos do Auditório do BCI, começei a receber várias mensagens de felicitação. Nisso, uma outra pessoa da organização liga-me a pedir que chegasse rápido para cumprir com aquele todo protocolo. Cheguei ao Auditório e o resto é a história que já se sabe.

 

O que lhe ocorreu no momento que recebe a primeira mensagem de felicitação?

A primeira coisa que me ocorreu é que vale a pena escrever e tirar as ideias que tenho na cabeça para o papel. Aquilo que penso quando me encontro na solidão da escrita serve para as pessoas. Fiquei feliz por todos nós que nos envolvemos na produção do livro infanto-juvenil. Eu tenho vários livros para adultos, mas não penso em lança-los.

 

Não agora?

Sim, e também não pensava há cinco anos. Desde essa altura que a minha preocupação é concentrar-me em produzir para uma faixa etária que é muito esquecida.

 

Indo à história do livro, quem é este Laerty, o menino que odiava números?

Laerty é o meu filho mais velho, e, com a excepção dos números, todas as personagens da história representam os meus familiares. Eu escrevo este livro pensando naquilo que passei quando me encontrava no secundário. Eu era muito bom a Matemática e via os meus colegas a exprimirem-se e odiar a disciplina. Então esta é uma forma de dizer que a Matemática não é um bicho-de-sete-cabeças.

 

Numa perspectiva pedagógica?

Não o escrevi a pensar em ensinar. O livro é sobre a Matemática, mas não ensina. Acho que aí está a diferença entre o professor e o escritor. Enquanto o primeiro ensina, o segundo “desensina”, para mostrar o outro lado da coisa, as diferentes perspectivas do mesmo objecto. Por exemplo, não ficaria muito feliz se duas pessoas lessem a minha obra e ficassem com a mesma percepção. Quem pode ficar feliz, nesse sentido, é o professor.  

 

Do ponto de vista técnico-narrativo O menino que odiava números é igualmente sugestivo, com histórias intercaladas de um aluno, de um avô e os seus netos e mais uma pouco aprofundada: a dos números. Por que decidiu contar a história de Laerty nesta perspectiva?

Quando projectei a história, quis que fosse uma série de sete livros. Entretanto, por não acreditar muito na receptividade, eu e a minha editora, Teresa Noronha, preferimos começar por uma trilogia. Quando diz que há uma história pouco aprofundada, tem razão. Esta história não termina ali. Como se pode notar, existe um prólogo no final do livro para indicar que a história continua.

 

Como tem sido este processo de revisitar a criança que existe dentro de si e, a partir dessa revisitação, dialogar com as outras crianças?

Se existisse uma maneira de não deixarmos de ser crianças, eu gostaria que isso acontecesse.

 

Estou a ver que gosta do Peter Pan…

Exactamente. É com esse medo de deixar de ser criança que eu escrevo para crianças. As melhores fases da minha vivi ainda criança. Agora que sou pai, muitas vezes ocorre-me coisas destas: “quem me dera que os meus filhos tivessem sido crianças no tempo que eu era”. Também escrevo para isso… para que os meus filhos possam resgatar a minha infância. Por exemplo, Laerty, personagem da história, também é um bocado de mim ainda novo.

 

Laerty, enquanto protagonista da história, é uma combinação do autor e do seu filho?

Não. O Laerty é o que eu gostaria que o meu filho fosse. É uma combinação daquilo que eu fui e daquilo que eu gostaria que o meu filho fosse. Acho que todo o pai vê no seu filho um portal para que se concretize aquilo que ele não conseguiu ser.

 

Com ou sem obsessão?

Não pode ser com obsessão. Eu gostaria que o meu filho realizasse alguns dos meus sonhos, mas isso não é forçado.

 

E na história temos uma história de amor pueril, com a Matemática como ponte…

Exacto. Mas, sem querer ir para o segundo livro, as coisas não serão fáceis para Laerty. Ele terá de provar que gosta muito de Matemática para conquistar a menina com cintura de vespa.

 

Como é esta coisa de ver a vida e as várias dimensões de um objecto a partir de uma perspectiva matemática?

Eu acredito em números. A minha vida é feita de números. Preocupo-me com as datas. Por exemplo, o Prémio BCI foi anunciado no dia 27 e um dos personagens do livro é o 7. Há essa toda simbologia para mim. Eu acredito que se Deus fez o mundo e tentou dar algumas dicas sobre o que é o sentido da vida, Ele deve ter escondido muita coisa na Matemática.

 

E repara, no dia 27 era suposto que a cerimónia iniciasse às 17 horas.

Exactamente. Tudo isso tem alguma coisa a ver… O meu primeiro livro também invoca muito o 7: Sete histórias sobre a origem de quem come quem.

 

Acredita que o 7 é um número mágico?

Eu gosto de compor e de tocar. São sete notas musicais. A semana tem sete dias e existem sete pecados capitais. A minha mãe é a sétima filha dos pais.

 

Então temos de mudar o seu nome. Passa a ser Celso Sete.

Acho que seria boa ideia.

 

O que lhe deu mais gozo ao passar para o papel O menino que odiava números?

Voltar à infância e dialogar com os amigos que perdi ao longo do tempo. Esse reencontro fez-me bem. Outra coisa, pude colocar mais um livro na prateleira da minha casa. Meus filhos têm mais opções de leitura. Na casa onde eu cresci, havia apenas três livros na cabeceira da minha mãe: Zabela, um romance em rhonga ou changana de Bento Sitoe; A minha luta, de Adolf Hitler; e A Bíblia Sagrada.

 

Está a querer dizer que escrever, para si, é uma forma de lembrar e de eternizar as suas lembranças?

Eu acredito que as pessoas estão na terra para tentar explicar o sentido da vida através de três formas: da arte, da ciência e da religião. Eu elegi a arte.  

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Ferramentas para desmontara a noite, de Japone Arijuane; e João Gala Gala, de Pedro Pereira Lopes.

 

PERFIL

Celso C. Cossa nasceu em Maputo. Possui uma licenciatura pela Universidade Pedagógica. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos e autor de Sete estórias sobre a origem de quem come quem (Prémio Nacional 25 de Maio, PAWA, 2015), O Gil e a Bola Gira e Outros Poemas para Brincar (EPM-CELP, 2016), Dandiwa – a menina que ganhou uma bolsa de estudo (Menção Honrosa no Prémio Matilde Rosa Araújo, 2015), O Sol e o Solzinho (Menção Honrosa no Prémio Matilde Rosa Araújo, 2016) – as duas últimas não publicadas.  

Actriz vai realizar um filme sobre ambiente e mudanças climáticas. A produção insere-se no concurso de curtas-metragens, organizado pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão.

 

“Eu sou uma máquina criativa”. Dito isto, Gigliola Zacara explicou o que a levou a interessar-se pela realização. Numa palavra: desafio. Ou seja, habituada a estar numa zona de conforto, muitas vezes sob os holofotes, nos palcos, agora, o grande fascínio da actriz é aventurar-se pelo cinema como realizadora. Nisso, na verdade, a artista de múltiplas faces não vê grande mudança: “Eu sou muito irrequieta. Como estava à frente das câmaras, foi só dar um passo e ficar atrás”.

Essencialmente, Gigliola Zacara está a trabalhar na produção e realização de uma curta-metragem que terá, no máximo, cinco minutos de duração. O projecto insere-se num concurso de curtas organizado pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), com apoio da Embaixada da Alemanha em Moçambique.

Sem saber ainda como vai proceder à filmagem do filme nesta época em que as distâncias entre as pessoas são fundamentais, por causa da COVID-19, Gigliola Zacara encontra-se a aperfeiçoar a história que vai contar através das câmaras. O tema do filme, mesmo a condizer com a exigência do concurso que tem como membros do júri Gabriel Mondlane e a cineasta alemã Tina Kruger, gira à volta do meio ambiente e das alterações climáticas.

Enquanto as gravações não iniciam, Gigliola Zacara aproveita o recolhimento para pesquisar os artifícios da realização. O seu interesse é ir além do óbvio. Por isso, ao invés de um documentário sobre as mudanças climáticas, está a investir na ficção. Recontar a realidade sem ser leal a essa condição. Para o efeito, a realizadora está a estudar as possibilidades de rodar a curta sem que o problema sanitário esteja comprometido.  

Até aqui, Gigliola Zacara já tem toda equipa técnica para produção, gravação e pós-produção montada. Toda despesa é investimento próprio. No entanto, a nova realizadora não vai gastar muito em termos monetários, afinal terá apoio técnico do Olhar Artístico e de actores do Centro de Recriação Artística. Portanto, Gilgliola deverá garantir a logística nos dias de gravação.

Ora, como é que a actriz torna-se realizadora? “Sigo muito Mel Gibson e vejo o processo de crescimento dele e de vários actores da Hollywood, dentro do cinema. Muitos começam como actores e, depois, tornaram-se guionistas, realizadores e etc. Eu sou actriz, mas também faço formação de actores, e tenho capacitação e formação que me ajudam a actuar em outras áreas do cinema. Por exemplo, tive formações no Brasil e em Angola que me permitem atrever-me um pouco mais. Agora, não posso estar no palco, mas posso escrever guiões em casa. Em termos de sustentabilidade isso é muito bom”.

Mesmo a propósito de sustentabilidade, Gigliola Zacara definiu uma estratégia para este período. Por exemplo, investir na comercialização de outras coisas que sabe fazer. Coisas simples como produzir piripiri, conservas e geleias. “Também faço decoração de interiores e essa também é a minha aposta para esta época. Esta crise não pode em nenhum momento dar cabo de mim. Tenho, dentro das coisas que gosto, de encontrar formas de ganhar dinheiro para pagar as minhas contas”. Também por isso, Gigliola Zacara considera-se “uma máquina criativa”.

 

 

 

 

 

 

A frase “o que eu pretendo fazer é tornar a cultura um activo económico” foi dita com convicção. Numa entrevista que durou mais ou menos uma hora, feita para este jornal e para o programa Artes e Letras da Stv Notícias, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, partilhou o que pensa para o sector que dirige, sobretudo nesta época em que os artistas e os turistas devem estar recolhidos. Sem deixar de se referir ao que lhe ocorreu quando foi convidada a assumir as suas novas funções, a Ministra, igualmente, comprometeu-se em fazer de tudo para suprir as necessidades dos artistas e garantir o apoio de que precisam. Paralelamente, Eldevina Materula disse que quer criar condições para que o turismo moçambicano possa acontecer em todos os sectores de mais variadas formas.

 

Há 30 anos, iniciou o seu percurso no universo das artes. Hoje é uma reconhecida oboísta que colabora com várias orquestras da Europa, América, Ásia e África. Foi nessa condição que recebeu a confiança de dirigir o Ministério da Cultura e Turismo. Pode contar o que estava a fazer, onde e como reagiu ao convite?

Quando recebi o convite de dirigir o Ministério da Cultura e Turismo estava a caminho de um ensaio que iria acontecer às 8h da noite. Nesse momento, tive um misto de emoções e sentimentos. Na altura pensei: porquê eu? Tenho tido o meu percurso artístico muito intenso e, de facto, nunca tinha pensado em estar na posição em que me encontro hoje. E, de repente, há dois meses que a minha vida mudou completamente.

Em algum momento, pensou em não aceitar?

Não pensei em não aceitar, mas, confesso, pedi tempo para pensar. Pedi para pensar porque, como deve calcular, eu estava a fazer uma média de dois concertos por semana e com agenda para o ano de 2020 completa. Além disso, tinha, obviamente, muitos planos pessoais. Para além dos palcos, eu estava muito dedicada à actividade pedagógica, que não acontecia apenas em Moçambique. Ao nível pedagógico, eu estava a trabalhar em três continentes diferentes. Obviamente que, quando me fazem um convite para assumir o cargo de Ministro da Cultura e Turismo, a primeira coisa que eu penso, e porque faz parte de mim, é: vou-me dedicar a 100%, mas, para isso, algumas coisas terão de ficar para trás. Ponderei, conversei com a minha família e, depois, disse que sim. Consciente da grande responsabilidade que é este cargo e do valor que tem a arte e cultura do meu país.

Há vários anos que vive entre Moçambique e Portugal devido ao seu trabalho como artista e como directora-artística. Além desta situação, que mais mudanças ocorreram na sua vida?

Tudo mudou: os meus horários, as minhas rotinas… antes, pelo menos passava quatro horas por dia a estudar o meu instrumento, a estudar ou a preparar-me para os meus espectáculos. Neste momento, a minha vida resume-se em Boletins da República, acórdãos, leis, Coronavírus, o povo moçambicano, a cultura e o turismo. Estas, neste momento, são as minhas grandes prioridades.

Vai deixar de tocar e de actuar em concertos nacionais e estrangeiros por isso?

Não, não vou deixar de tocar. Aliás, devo dizer que Sua Excelência o Presidente da República fez questão de incentivar, não só a mim, mas a todos os outros artistas que também são membros do Conselho de Ministros. Eu fiquei muito feliz com as palavras de Sua Excelência o Presidente da República. No entanto, também devo dizer, na altura que assumi esta responsabilidade, decidi fazer quatro concertos por ano. Neste momento, e devido à pandemia do Coronavírus, estão todos os meus espectáculos cancelados, em Moçambique e no estrangeiro.

No que ao ensino diz respeito, também vai deixar de ser professora convidada do projecto social Neojibá, no Brasil?

O projecto Neojibá, que é muito importante e especial para mim, foi o que me ajudou a conhecer melhor os projectos de inserção social, e foi aí onde eu comecei a trabalhar há mais de 10 anos. Foi depois dessa experiência que eu trouxe o Xiquitsi para Moçambique. Portanto, sim, vou ter de deixar de dar aulas nesse projecto, não digo oficialmente, mas, devido às minhas responsabilidades, é quase impossível conciliar as minhas actividades. E esta foi uma das coisas que fez pensar antes de aceitar assumir o cargo de Ministro da Cultura e Turismo. Eu sabia que muita coisa de que gosto teria de ficar para trás. Tive de colocar tudo na balança, e a balança pesou mais para o meu país. E se Sua Excelência o Presidente da República convidou-me para assumir este cargo, é porque ele acha que eu posso dar o meu contributo. E eu também acredito que posso dar um grande contributo.

Ao assumir o cargo de Ministro da Cultura e Turismo deixa, de facto, muita coisa para trás. Por exemplo, os seus alunos do Xiquitsi. Como vai ficar este projecto?

Eu acredito que um bom projecto é aquele que pode funcionar institucionalmente. Naturalmente que precisa de um líder, mas não tem que ser, necessariamente, aquela pessoa… O Xiquitsi é o meu bebé e é aquele projecto que criei com muito carrinho, a pensar naquilo que deve acontecer no nosso país: a profissionalização das artes. Como é que o Xiquitsi vai ficar? Muito bem. Tive todo o cuidado, antes de me demitir do projecto Xiquitsi na qualidade de directora, de encontrar as pessoas certas, que podem dar a continuidade do projecto com a mesma qualidade artística que eu deixei.

Os mais optimistas, sobretudo os artistas, quando foi nomeada pelo Presidente da República, depositaram confiança em si. Muitos deles assumiram publicamente que Eldevina Materula é uma boa escolha. Os mais cépticos assumiram que a nova Ministra tem óptimas credenciais, entretanto “desconfiaram” da sua capacidade em liderar um sector tão importante quanto é o da Cultura e Turismo. O que lhe ocorre dizer sobre estas posições?

Estou muito consciente de que estas duas vertentes vão sempre existir, faça eu o que fizer. No entanto, o meu foco será sempre trabalhar para o desenvolvimento da cultura e do turismo. Como todos sabemos, existe já directrizes e um plano económico e social e nós já temos linhas de trabalho. E aqui também acrescenta-se a minha visão e os meus conhecimentos enquanto artista, enquanto colega de artistas e amante das artes. Portanto, existe uma visão e experiência internacional e eu acredito que aí estão as mais-valias que posso trazer para este trabalho. Mais do que isso, aos cépticos, aos felizes e a todos aqueles que estão do outro lado, a olharem para mim, para este Ministério e para o Governo, eu quero dizer que nos deixem trabalhar e, depois, vamo-nos julgar. É a melhor forma. Há muito trabalho pela frente e, por ironia da vida, penso que este ano será uma grande prova de força e de criatividade, tendo em conta a realidade em que nos encontramos.

Que ideias traz, primeiro, para a Cultura, e, segundo, para o Turismo?

Estas duas áreas vivem em paralelo. Ambos os sectores alimentam-se um ao outro. Isto tem de ser uma certeza e uma constante nesta liderança. Por outro lado, e falando da grandeza cultural, nós somos um país onde cada província tem a sua expressão cultural, cada província tem a sua força e manifestação cultural. Por isso, mais do que tudo, sem fugir daquilo que eu acredito que tem de acontecer, a cultura deve ter um grande dinamismo económico. O que eu pretendo fazer é tornar a cultura um activo económico, tendo em conta que o turismo está aliado a esta vertente.

Como?

Isto está dentro de um plano estratégico. Moçambique está representado em várias feiras internacionais e também temos o nosso FIKANI. Por razões óbvias, algumas destas iniciativas estão canceladas um pouco por todo o mundo. Nesses lugares, queremos mostrar o nosso belo Moçambique. Por outro lado, e agora mais do que nunca, temos a internet. Queremos investir mais nesta área para mostrar o turismo de Moçambique ao mundo. Garanto que estamos a trabalhar neste sentido.

O que acha que os artistas gostariam de ver melhor no seu mandato e o que fará para o efeito?

Porque sou artista, converso com muitos artistas e já vivi algumas questões, sei que há muita coisa que eles querem ver. Penso que o tema da pirataria está em cima da mesa, os direitos do autor, a sobrevivência dos nossos artistas, sobretudo em momentos comos estes. Há uma série de leis que devem ser revistas e regularizadas. Nós vamos, seguramente, trabalhar nesse sentido. Mais do que tudo, devemos abraçar os nossos artistas e suprir as suas necessidades. Os artistas esperam muito do Ministério. Eu sei e sinto esse peso. Estar deste lado faz-me ver melhor as coisas. Não é uma questão de eu cheguei e vou resolver as coisas. Já tive a oportunidade de dizer a vários colegas artistas que podem contar comigo. Se eu estou aqui, é para servir ao país. Neste caso, para servir a arte e a cultura moçambicanas.  

No dia da tomada de posse, o Presidente da República disse: “Como uma pessoa conhecedora do impacto da cultura na vida das comunidades, esperamos, igualmente, que use a cultura como um instrumento dinamizador da actividade turística”. Quais são as grandes estratégias?

Nós temos instrumentos que nos regem. Nesses instrumentos já estão as directrizes. Queremos tirar as mais-valias da ligação cultura e turismo. Há dias, eu conversava com o meu grupo de trabalho. Eu disse-lhes que o turista, quando vem a Moçambique, muito provavelmente não vem por causa das nossas praias; muito provavelmente não vem à procura de sol. O que nós temos que os outros países não têm? A cultura moçambicana. A nossa cultura só existe em Moçambique. É isso o que move, o que traz e o que faz acontecer o turismo no país. Vamos fazer valer e dar trabalho aos nossos artistas, nas cidades e nas zonas rurais. Vamos criar condições para que o turismo possa acontecer em todos os sectores de mais variadas formas.

Temos uma estrutura pensada ou devemos repensar para o efeito?

Está pensada, deve é ser aprimorada. Temos uma base e é partir dela que vamos seguir.

Uma das grandes pretensões de Moçambique deve ser tornar o turismo acessível para os moçambicanos, com pacotes que incluem facilidade de transporte ou logística em geral. Neste sector, o que se pode conseguir nos próximos cinco anos?

O turismo é transversal. Esta tem de ser a nossa base de consciência. Eu não posso chegar a este Ministério e pensar que vou mudar o turismo ou melhorar o que quer que seja se eu não estiver em estreita ligação com as outras instituições públicas, com os transportes e até mesmo com a Agricultura e Desenvolvimento Rural. Não posso. Não posso achar que vou fazer um trabalho sozinha. Há que haver uma estratégia que me dê visão de onde vou trabalhar, onde vou investir e para onde vamos. Queremos investir e muito no turismo cultural. Sabemos que depende de um avião e do preço do avião. Por exemplo, noutros países, o preço do avião mais hotel permite que as pessoas, digamos, de nível médio, economicamente, possam fazer turismo no seu próprio país. Temos consciência da nossa realidade e é nesse sentido que iremos trabalhar para criar ou melhorar pacotes turísticos que permitam que os moçambicanos conheçam o seu próprio país de forma acessível e com qualidade.

Em 2016, foi condecorada com a medalha da Ordem de Mérito pelo Presidente da República Portuguesa. De Moçambique, como acontece consigo, há muitos artistas que não sabem o que é uma distinção como aquela que recebeu de Portugal. Bem dito, muitos artistas consagrados de Moçambique queixam-se muito da falta de reconhecimento e até mesmo de apoio a nível nacional. A senhora Ministra está consciente de que herda este “fardo”?

Tenho plena consciência disso. Eu tenho plena consciência. Seria fácil eu dar respostas como vamos fazer e vai acontecer… Mas eu não sou apologista das grandes promessas. Sinceramente, eu quero aconselhar para nos deixarem trabalhar, e nós estamos a trabalhar. Sua Excelência o Presidente da República foi muito claro a quando da minha nomeação. Já disse aqui. Ele acredita que a minha experiência será uma mais valia. É isso que temos de fazer: trabalhar.

Qual será o estilo da sua liderança como Ministra?

Esta palavra é muito interessante. O estilo de liderança… Não sei muito bem responder. Mas quem conhece os trabalhos que eu fiz e a minha liderança sabe que trabalho em equipa e em grupo. Tento o máximo possível ter qualidade de equipa. Essa será minha aposta. Estou feliz com a equipa que tenho em meu redor. Vamos fazer acertos.

Com quem mais quer contar, de facto, nessa equipa?

Com os artistas moçambicanos. Com todos aqueles que cozinham e conhecem os nossos paladares e podem levar o nosso país além-fronteira.

O mundo enfrenta, actualmente, um momento muito delicado. O país inteiro está mobilizado para combater a COVID-19. O que o Ministério está a fazer e pensa em fazer?

Estamos a trabalhar com todos os ministérios em medidas de contenção. Por exemplo, estamos a trabalhar com o Ministério das Finanças e todo o Governo está a trabalhar para que os artistas e o povo moçambicano em geral tenham o menor impacto possível desta pandemia. Também estamos a fazer uma campanha de prevenção com artistas e ainda faremos outra – na altura certa todos saberão. Portanto, entre as mais diversas actividades que estamos a realizar, e que algumas são públicas, o Ministério da Cultura e Turismo lançou uma plataforma digital para proceder ao mapeamento das indústrias culturais e criativas. O objectivo é conhecermos, termos acesso ao que de facto está a acontecer no nosso país. Esta iniciativa é resultado, também, do encontro com artistas que o Ministério da Cultura e Turismo promoveu há dias para poder entender aquilo que se passa no sector cultural, e assim melhor responder às necessidades do sector.

Quem pode ser mapeado?

Os artistas e promotores de eventos. Assim, iremos perceber como a pandemia está a afectar o sector e como podemos ajudar. Posso dizer que estamos a desenvolver muitas actividades. Mas como eu, recentemente, aprendi que devo falar muito pouco e agir mais, tenho a certeza que muito em breve vão poder ver em casa o trabalho que estamos a fazer neste momento.

Com este mapeamento haverá ajuda financeira aos artistas?

O nosso objectivo é ajudar os artistas a todos os níveis. E os que quiserem ser mapeados devem visitar a página web e o Facebook do Ministério da Cultura e Turismo. Além disso, faremos de tudo para que a informação seja partilhada através de várias plataformas de comunicação. O mapeamento é para todos os artistas, a nível individual e institucional. Com o apoio dos nossos Secretários de Estado em todas as províncias, vamos chegar às regiões com menos acesso à internet e vamos fazer a distribuição e recolha do questionário necessário para o mapeamento.

Será necessário a pessoa provar que é artista?

Sim, será necessário, mas não é difícil. O questionário é muito claro e vai nos permitir saber com quem estamos a trabalhar e até mesmo entender quanto é que o artista ou promotor, numa altura normal, ganha em termos de renda.

Como acha que a arte deve sobreviver a esta intempérie (COVID-19) sem que a saúde fique prejudicada?

Nós estamos num momento de reinvenção. Temos de nos reinventar, considerando que a nossa saúde deve sempre estar em primeiro lugar. Nós vamos sobreviver a isto. O povo moçambicano é lutador e, por isso, eu tenho a certeza que, com todos os esforços do Governo, vamos sobreviver a esta pandemia. Para o efeito, temos de aceitar que este é um momento de paragem, de nos cultivarmos de outras formas. É um momento de reflectirmos e de nos reeducar.

O Ministério não se esqueceu dos artistas…

Nós não nos esquecemos da arte e dos artistas. Nós estamos a trabalhar para que a arte e a cultura não parem. Não é um momento de desespero, é um momento de lutar e de reflectir. Este momento menos bom vai passar.

A Ministra assume as funções num momento terrível para implementar as suas ideias. Na verdade, este ano está praticamente perdido. Como se sente diante deste cenário?

Sinto que tenho um papel de grande responsabilidade. Não me vou desesperar. Farei de tudo para que os artistas sejam apoiados.  

Esta entrevista é gravada numa altura em que se comemora o Dia Mundial do Teatro. O que tem a dizer aos fazedores daquela arte?

Caros colegas do teatro, nós queremos ver-vos e vocês sabem como chegar às nossas casas. E vocês têm como chegar às nossas casas. Não apaguem a luz.

 

O Coronavírus já está a alastrar-se pelo mundo. Com a pandemia Cinemas, teatros e discotecas fecharam as portas por tempo indeterminado para evitar eclosão e possível propagação do novo Coronavírus.

Porque uma das medidas é evitar eventos com aglomeração de pessoas em espaços fechados, a Associação dos Escritores Moçambicanos, promotora do ciclo de palestras No Gume da Palavra, considera a possibilidade de continuar com a realização das palestras através das redes sociais, com os participantes em debate via Skype.

Através desta plataforma, a AEMO espera que No Gume da Palavra consiga alcançar a participação do público estudantil, que ora observa em casa o cumprimento das medidas de prevenção ao Coronavírus, anunciadas pelo Governo de Moçambique.

Para além de escritores e jornalistas, o Programa No Gume da Palavra é dedicado aos amantes da literatura moçambicana em geral.

“Acredito que a realização de No Gume da palavra via Skype “para além de manter em curso o debate intelectual, ira contribuir sobremaneira para a observância da medida de isolamento social, durante o tempo que for necessário. Neste momento iniciamos o processo de registo de participantes, esperando até a adesão de apreciadores da literatura moçambicana a nível internacional ”, disse Secretário-geral da AEMO, Carlos Paradona Rufino Roque.

A programação anual de No Gume da Palavra indica o 15 de Abril, para a realização da palestra subordinada ao tema “Existencialismo de Jean Paul Sartre e a Literatura Moçambicana: (Im)possibilidades de Intersecção”, tendo como palestrante o docente da Universidade Eduardo Mondlane  Albino Macuacua, com moderação de Dionísio Bahule, docente da Universidade Pedagógica de Maputo.

 

 

A 27 de Março comemora-se o Dia Mundial do Teatro. A efeméride foi criada pelo Instituto Internacional do Teatro, em 1961. Mesmo a propósito da data, num contexto incerto como este, actores e encenadores avançam com algumas estratégias para que o teatro continue a chegar às pessoas.  

 

Um Dia Mundial do Teatro estranho. Ao contrário do que tem sido habitual, amanhã, na celebração daquela arte, não haverá espectáculos nos palcos no modelo tradicional. Tudo por causa de uma coisa chamada Coronavírus. Mas não importa. O que importa mesmo, disse Joaquim Matavel, é sobreviver, de modo que os actores, encenadores e dramaturgos possam ressurgir com vigor.

Para o encenador e Director do Grupo Girassol, num momento como este, é indispensável que toda gente ligada ao teatro, no caso, cuide de si, pois, caso contrário, remata: “Se perdermos esta batalha, não haverá mais teatro nos palcos”. Então, acrescentou o artista, todo o actor deve prosseguir com ensaios em casa, sozinho, com leitura e pesquisa que o permitam aprimorar a sua personagem. “Na verdade, este é o trabalho que sempre se oferece ao actor: com recurso ao espelho e ao auricular. Depois desse trabalho individual, os actores podem se contactar através das redes sociais e acertar o que for necessário”.  

Nesta impossibilidade de levar o teatro aos palcos, Joaquim Matavel enxerga um prejuízo e uma oportunidade de se dar atenção aos aspectos essenciais da vida. Por exemplo, ficar em casa e cuidar dos seus. Além disso, o encenador recorda: “A história da humanidade é feita de crises, que nos devem dar a possibilidade de nos reinventar, de modo que, neste contexto, o teatro continue vivo, e o teatro vai sobreviver”.

A actriz Sufaida Moyane, igualmente, vê no isolamento uma oportunidade que a obriga a ser criativa e a aprender a fazer coisas novas de que não gostava. Por exemplo, produzir material de ensino ou didáctico com recurso plataformas digitais. “Agora que passo mais tempo em casa, também quero fazer leituras de histórias para crianças, que posso partilhar através do celular. Temos de ser criativos para não ficarmos apagados”.

Neste dia 27 de Março não se vai comemorar nos palcos o Dia Mundial do Teatro, todavia, Sufaida Moyane observa: “o teatro existe e está em nós. Se calhar vamos descobrir que não precisamos estar no mesmo espaço para fazer teatro. Nestes dias teremos de descobrir alguma coisa que ainda não sei o que é”.

Enquanto Sufaida Moyane vai experimentando novas coisas, Gigliola Zacara aproveita o seu tempo para escrever e aperfeiçoar alguns projectos. A ideia da actriz é candidatar-se a um financiamento do PROCULTURA. Simultaneamente, vai desenvolvendo alternativas de fazer teatro sem precisar de palco. Gigliola e uma amiga querem criar um aplicativo que lhes permita apresentar as peças através da internet. “Não devemos deixar de fazer teatro e nem permitir que esta arte caia no esquecimento. Tudo o que precisamos é de fazer coisas sustentáveis e ganhar algum dinheiro mesmo estando em isolamento”.

Esta pausa obrigatória acontece numa altura em que Gigliola Zacara estava convencida de que 2020 seria o ano do teatro infantil, pela quantidade de projectos na manga e em implementação. No início do ano levou um espectáculo à cidade da Beira e já havia estabelecido contactos para levar o teatro infantil a Chimoio e a outras cidades capitais, unido performance e formação. Quase tudo adiado.

A propósito de os tempos de crise serem férteis para a imaginação dos artistas, Jorge Vaz está a ponderar a possibilidade de dramatizar o momento que o mundo vive actualmente. Se se concretizar tal projecto, o actor e encenador vai produzi uma peça que reflecte não o fenómeno do COVID-19, mas o que os olhos simplesmente são incapazes de captar.

Dure o tempo que durar o isolamento, Jorge Vaz garante, não há risco nenhum de os actores e o teatro desaparecerem. “Nós, os mais velhos, temos de incentivar os mais novos. O teatro é uma arte milenar e vai resistir a tudo isto. Este é um momento de pausa, depois disso, vamos avançar”.

 

 

 

 

O cantor, compositor e guitarrista estreou, esta terça-feira, o vídeo-clip da sua mais recente música: “Com amor se paga”. Com esta proposta, o autor espera contribuir para alimentar a alma dos moçambicanos nesta época em que devem “reaprender a ficar em casa”.

 

“Ajudei ao meu vizinho, um dia desses. Como forma de me agradecer, me deu 100 paus”. Assim vai o mundo, cada vez mais materialista e menos entregue ao afecto. Por isso, daquela forma inicia a música mais recente de Deltino Guerreiro. A sua pretensão ao compor o tema, na verdade, foi tecer uma mensagem crítica, mexendo com o que vai mal, sobretudo na sociedade moçambicana.

Em quatro minutos e catorze segundos, por via da música “Com amor se paga”, Deltino Guerreiro procurou protestar contra a tendência que as pessoas têm de pagar, quando são ajudadas. Segundo entende o cantor e compositor, a vida urbana tem afectado, de forma negativa, a essência africana, muito voltada à solidariedade incondicional. “Ainda bem que nas zonas rurais ainda é diferente. Lá as pessoas se amam e ajudam-se mutuamente”, observou Deltino Guerreiro, lembrando que a arte em geral tem essa capacidade de consertar a sociedade. Todavia, o que o moveu a compor o tema não foi tal acção, necessariamente.

A partir de “Com amor se paga”, o “Eparaka man” quis estimular uma reflexão à volta do que está errado, de modo que o bem triunfe. “Temos de trazer as pessoas à razão. A música deve ter a capacidade de nos fazer reflectir sobre coisa negativas. Certamente, não há melhor forma de contribuirmos para o desenvolvimento social, ético e moral do nosso país”.

A nova música de Deltino Guerreiro começou com umas notas de guitarra. No princípio, o músico até ficou desagradado. Porque da persistência advém o sucesso, o exercício continuou. Ao fim de três dias, o coro e a base da música estavam prontos. Mais ou menos a essa altura, “Com amor se paga exigiu” uma parceria ao criador. Deltino cedeu à exigência e foi convidar um rapper com quem há muitos anos já queria fazer uma parceria: Azagaia. “Ele é um rapper com uma veia crítica muito forte. Considerando a mensagem da música, não vi outra pessoa para esta parceria”.

Todo o processo de composição, gravação e finalização de “Com amor se paga” levou mais ou menos quatro meses, entre Setembro de 2019 e Janeiro deste ano. Esta terça-feira, Deltino estrou o vídeo-clip na televisão, o que acontece numa época em que o mundo enfrenta o COVID-19. Por isso mesmo, o músico não ficou indiferente à gravidade da pandemia: “Esta minha música fala de amor. E eu acho que é o momento de solidariedade e entendimento. Será difícil seguirmos as medidas de prevenção anunciadas (pelo Governo), considerando que somos um povo de contacto e receptivos, mas temos de conseguir vencer esta batalha. Espero que a minha música e o meu vídeo consigam contribuir para alimentar a alma das pessoas em casa, neste momento que devemos evitar ir à rua”.

“Com amor se paga” teve a pré-produção de Milton Gulli e a produção-executiva da Eparaka Music, a empresa de Deltino Guerreiro. Os arranjos ficaram na responsabilidade de Hélder Gonzaga.

Fotógrafo vai distribuir produtos higiénicos às pessoas que precisam nas comunidades de Maputo e Inhambane.

Mário Macilau vai deixar a sua câmara fotográfica de lado, nos próximos dias. Na verdade, com o caso confirmado do COVID-19 no país, o fotógrafo pretende levar a cabo um projecto de sensibilização às comunidades.

A partir da próxima semana, Mário Macilau irá levar uma mensagem de conforto a algumas comunidades de Boane, pois, no seu entender, sempre que existem situações de saúde que poem em risco a vida das pessoas, a sensibilização é pensada em função das pessoas urbanas. Ou seja, para o fotógrafo, os que se encontram fora do perímetro da cidade ficam muitas vezes marginalizadas.

Assim, além de levar uma mensagem visando a consciencialização das pessoas, o activismo do fotógrafo será acompanhado com doação de material de protecção higiénico. “Ao invés de apenas falarmos, precisamos de actos concretos, que, sobretudo, beneficiem às populações fora do centro da cidade de Maputo”, afirmou.

A iniciar para semana, a campanha de Macilau irá abranger o distrito de Boane, Ponta de Ouro e, no final, alguns pontos da província de Inhambane. Nesse sentido, o fotógrafo está em contacto com as secretarias dos bairros onde vai oferecer os produtos. E deixa um recado: “Infelizmente, o tipo de economia que temos não permite, primeiro, que as pessoas fiquem trancadas em casa. Estamos a seguir um modelo ocidental na gestão do COVID-19, onde um pobre tem diversas actividades em casa e a luz e a água nunca cortam”. 

Para Macilau, por um lado, a ideia de ficar em casa é boa, mas, sendo realista, não é uma prática direcionada a todos, isto é, beneficia “o patrão, que mesmo ficando em casa um mês não terá falta de comida e nem terá as suas receitas em risco. Por isso eu vou ao campo e tentar ajudar as pessoas ao invés de ficar a alimentar o intelectualismo virtual, compartilhando o que não sabemos se é real ou falso”.

 

Por outro lado, segundo entende o fotógrafo, o Coronavírus vem ensinar ao ser humano a posicionar-se em relação à sua ambição para com o poder económico. “Foram muitas décadas em que vivemos explorando o ambiente, poluindo, emitindo gases, fazendo lucro e sem se preocupar com um ambiente saudável e poluindo a camada de ozono. Eu tenho mais pena do futuro da geração dos nossos filhos do que da presente consequência. O vírus mata quem está numa idade já avançada e se um dia tivermos um vírus oposto deste? Um vírus que tira a vida das crianças? É muito triste e lamentável”.

Ao longo dos dias que irá doar produtos higiénicos pelas comunidades, Macilau irá iniciar um projecto de pesquisa que vai explorar o consumismo. Essa poderá ser a bordagem de uma eventual exposição fotográfica.

 

A marca de moda da estilista Isabel dos Santos foi lançada na cidade de Maputo e foi concebida para toda mulher sofisticada.

 

Chama-se Isabel dos Santos. É estilista e vive nos Estados Unidos de América há quatro anos. No entanto, agora encontra-se na sua província natal, Maputo, onde, além de rever família e amigos, lançou a marca Isabel Matini, especialmente concebida para mulheres executivas, sofisticadas e que gostam de se vestir com rigor.

A concepção das peças de roupa iniciou nos meados do ano passado, sendo que ficaram prontas em Outubro. Depois disso, no entanto, a estilista teve de trabalhar mais cinco meses até realizar o seu grande sonho: “lançar a minha marca na minha terra. Adiei muito este sonho, mas me dou por feliz por finalmente conseguir fazer o que sempre sonhei”.

Decisivamente, a cerimónia de lançamento tinha de se realizar na cidade onde Isabel dos Santos nasceu, e, de facto, foi o que aconteceu. Há uma semana, as 40 peças da colecção foram apresentadas no desfile de moda que se realizou na sede dos Caminhos de Ferro de Moçambique, com uma pretensão bem especifica: “Queria que as mulheres moçambicanas vissem o trabalho que eu faço e convida-las a vestir as minhas roupas”. E as mulheres viram as obras de Isabel dos Santos, produzidas com recurso à seda, um tecido de luxo escolhido com a pretensão de representar melhor a mulher moçambicana.

Com recurso à seda, igualmente, a estilista quis contrariar a tendência recorrente de os estilistas nacionais trabalharem a capulana nas colecções. “Pensei que seria altura de começáramos a pensar em tecidos mais frescos, por causa do nosso clima quente. E a seda pareceu-me o melhor tecido para o que pretendia mostrar”.

Nesta colecção, Isabel dos Santos investiu em cores vivas, reflexo do que encontra em Moçambique. Bem dito, foi no meio ambiente moçambicano que a estilista inspirou-se. Logo, o azul predominante nas roupas representa o mar e as praias, o verde estampando tem a ver com a vegetação nacional e o vermelho representa o clima quente. Contudo, para os que não apreciam essas cores, a colecção também possui peças com cor preta, branca e creme.

Na apreciação de Madina Abacar, dona da Medja Moz, agência que co-organizou o evento de lançamento da marca Isabel Matini, a colecção de moda da estilista reflecte e bem a mulher moderna sofisticada. “Eu acho que as roupas podem ser usadas por mulheres de várias idades”, e acrescentou Madina Abacar: “E a qualidade das roupas é garantida, o que é bom porque Moçambique precisa estar no mapa do mundo com marcas boas. Esta, certamente, é, com bom tecido e excelentes acabamentos”. 

Uma semana depois de Isabel dos Santos lançar a sua marca, a estilista realçou que Moçambique tem muitas potencialidades no que à moda diz respeito, com jovens muito criativos. “O que temos de fazer em apoia-los porque alguns deles não têm recursos. A indústria da moda é muito cara e nós precisamos de investir na criatividade”. E além disso? “Eu gostaria de ver os nossos estilistas mais unidos, a criarem mais coisas bonitas juntos. Esse é o meu outro sonho, ver toda gente a trabalhar pela qualidade e as nossas marcas serem reconhecidas no estrangeiro”.

A pensar nos seus sonhos, Isabel dos Santos irá abrir, em breve, uma loja e um atelier no país, onde as pessoas possam visitar e escolher as roupas.

 

A ESTILISTA NUM TRAJECTO

Isabel dos Santos nasceu a 6 de Dezembro de 1964, em Maputo, e começou a sua carreira na diplomacia, no Ministério dos Negócios  Estrangeiros. Foi Assistente de Protecção no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados em Maputo. É mestrada pela universidade St. John's de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Isabel dos Santos pertence a uma família de costureiras, mas o seu interesse pela moda começa em 2006, em Berlin, na Alemanha. Naquele país, estagiou numa boutique de alta-costura. A partir de 2011, a estilista frequentou um curso completo de moda e em paralelo estagiou no atelier de alta-costura Kosibah, em Londres, Inglaterra, com o estilista Yemi Osunkoya, seu mentor.

Em 2017, fez um curso intensivo de moda na cidade de Roma, Itália, e estagiou no atelier "Elvira Gramano”.

O primeiro trabalho de Isabel dos Santos foi apresentado na gala anual da organização "Books for Africa", onde anualmente convidam um estilista africano a apresentar o seu trabalho. 

Ano passado, exibiu as suas roupas ao lado de estilistas de renome na Embaixada Francesa em Washington DC, nos Estados Unidos.

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O editor Celso Muianga considera que Moçambique está a produzir mais e melhores poetas ao nível dos PALOP. Ainda assim, para o académico Elídio Nhamona, há maus livros poeticos no país.

 

A 21 de Março (amanhã) celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Considerando a importância do simbolismo por detrás da efeméride, O País ouviu alguns intervenientes da arte literária ao nível nacional. Todos eles, consideram que têm aparecido grandes produções literárias em Moçambique, nos últimos anos. Todavia, há sempre um “mas”.

Dos entrevistados, o primeiro a referir-se à arte poética produzida no país foi Celso Muianga. Na óptica do editor da Fundação Fernando Leite Couto, a poesia moçambicana respira boa saúde por se ter renovado bastante em todos aspectos nos últimos 15 ou 20 anos. Inclusive, realça Muianga, há novos centros de produção a considerar fora de Maputo. “Por exemplo, o último vencedor do Prémio Literário Fernando Leite Couto, Otildo Guido, nasceu em Inhambane e está a estudar em Xai-Xai, onde existe um movimento literário forte”.

Na sua análise, Celso Muianga acrescenta que Moçambique recuperou a classificação “País dos poetas”,  quer pela quantidade de autores, quer pela qualidade. E não se fica só por aí: “Ao nível temático, por exemplo, há uma preocupacao dos poetas no sentido de garantir maior rigor estético e apurado. A propósito, neste 2020 celebra-se 40 anos de Monção, de Luís Carlos Patraquim, um livro que é divisor de águas, com um pendor lírico muito longe de compromentimentos de ideais políticos. Esta geração que está a progredir nos últimos 15 a 20 anos ancorou-se, de alguma forma, no estilo de Patraquim, do mesmo modo que ele ancorou-se num Rui Knopli”.

Outro elemento que contribui para que o editor da Fundação Fernando Leite Couto considere que a poesia moçambicana está saudável é o Prémio Glória de Sant’’Anna. “Em poucas edições, conseguimos colocar muitos poetas na lista de finalistas, o que demonstra a nossa qualidade”.

Ainda assim, Celso Muianga entende que o país tem o desafio de investir mais em número de poetisas. “Seja como for,  comparando com os anos 80, temos muitas mais mulheres”.

Nas contas do editor, o número de poetas com qualidade que Moçambique possui supera e muito o dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). “Se fosse um jogo de futebol seria uma goleada”. E Muianga destaca alguns nomes: Sónia Sultuane, Rinquel, Sangare Okapi, Andes Chivangue, Mbate Pedro, M. P. Bonde, Chagas Levene, Jaime Munguambe, Hirondina Joshua, Rogério Manjate, Japone Arijuane, Amosse Mucavele e Álvaro Taruma.

Quem também entente que Moçambique vive um bom período em termos de produção poética é o escritor Juvenal Bucuane. “Tenho testemunhado textos com muita qualidade literária dos jovens autores, o que me faz acreditar que a poesia moçambicana tem continuidade. Nota-se que os novos poetas preocupam-se em dar qualidade ao que escrevem e com conhecimento de técnicas literárias. Se faço prefácios e apresentações dos livros dos novos poetas é por ter confiança neles”.

Por sua vez, na sua apreciação ao cenário poético, o professor de Literatura, Elídio Nhamona, primeiro, concorda que há qualidade: “Pelo que vejo, há no país uma poesia muito bem feita e escrita, que demonstra bom gosto dos seus autores”.  A poesia em causa, para Nhamona, é produto de muita leitura de livros de autores antigos, moçambicabos e estrangeiros.

Segundo, nem tudo é um mar de rosas. Elídio Nhamona adianta que, no meio da boa poesia, há, igualmente, muita que é má, feita de forma apressada, apenas a pensar-se na publicação. “Ou seja, temos uma mistura de boa e má poesia. Mas acredito que o tempo vai ajudar a seleccionar os melhores, que se vão destacar e tornar-se novos poetas. Os maus irão desaparecer”.

Enquanto os bons poetas amadurecem e os maus não desaparecem, um pouco por todo o mundo celebra-se a 21 Março o Dia Mundial da Poesia, data instituída pela UNESCO, em Novembro de 1999, com o intituito de promover a leitura, a escrita e a publicacao de textos poéticos. 

 

 

 

 

 

 

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