O País – A verdade como notícia

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, dirigiu, quarta-feira, um encontro com artistas e promotores de eventos culturais, para uma reflexão sobre o Impacto da Pandemia do Coronavírus na Indústria Cultural em Moçambique e estabelecer mecanismos de acção para sua mitigação.

Na sessão, foi discutida a problemática do novo Coronavírus e o impacto que poderá ainda criar para a área da Cultura e do Turismo no nosso país.

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, salientou que “o Coronavírus é um problema sério, pelo qual devemos todos nos preocupar e tomar medidas urgentes, visando impedir que se instale um caos. Estamos cientes da gravidade do assunto e vamos unir esforços com acções a todos os níveis, apelando, desde já, o envolvimento de todos artistas”.

No evento, ficou patente que esta pandemia está a reduzir as oportunidades de trabalho e de venda das criações e produtos artísticos, o que vai exigir dos fazedores da cultura, resiliência e reinvenção para a subsistência. Igualmente ficou clara a redução drástica do movimento turístico, com impacto negativo para a economia dos cidadãos e para o erário público. Deste facto, foi unânime a necessidade de esforços redobrados por parte do Governo e o envolvimento abnegado de todos artistas na prevenção deste mal.

Como resultado do encontro, e de todas contribuições dadas pelos artistas e promotores de eventos, o Ministério da Cultura e Turismo vai, nos próximos dias, desencadear uma série de acções que visam sensibilizar as pessoas sobre os perigos do Coronavírus, usando todas as formas da arte. A instituição vai trabalhar em conjunto com o Ministério da Saúde para elaborar o Plano Estratégico de Comunicação, bem como de Sensibilização, para reforçar as acções e medidas de combate à pandemia.

Por seu turno, a classe dos artistas e promotores culturais assumiu o seu papel privilegiado enquanto agentes fazedores e influenciadores de opinião, de mudanças de atitudes, tendo vincado o compromisso em fazer uso dos recursos artísticos como ferramenta para a difusão das mensagens de prevenção, sensibilização e combate ao novo coronavírus.

O encontro de reflexão surge após recomendações deixadas pelo Chefe de Estado, Filipe Jacinto Nyusi, para a observância de medidas de prevenção contra o novo coronavírus. Para além de artistas e promotores de eventos culturais, o encontro contou com participação do Vice-Ministro da Cultura e Turismo, Fredson Bacar, e de representantes do Ministério da Saúde.

 

 

O XI Festival Nacional da Cultura está adiado. O Ministério da Cultura e Turismo anunciou, através de um comunicado de imprensa, o adiamento do evento em conformidade com a comunicação feita pelo Presidente da República à Nação sobre o COVID-19.

Por causa da rápida evolução da pandemia a nível regional e internacional, o Governo decidiu reforçar medidas de prevenção anteriormente anunciadas: “Suspender a realização de todos eventos sociais que envolvam mais de 50 pessoas, tais como celebrações, celebrações, eventos desportivos, culturais, cerimónias religiosas, entre outros, com excepção de reuniões de interesse do Estado que cumpram com os requisitos de prevenção emitidos pelas autoridades sanitárias competentes”.

Devido à pandemia, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, reuniu esta semana, com vários artistas para reflectir sobre o impacto que o  poderá criar para a área da Cultura e do Turismo no País e traçar acções conjuntas.

É neste sentido que o Ministério da Cultura e Turismo vai, nos próximos dias, desencadear uma série de acções que visam sensibilizar as pessoas sobre os perigos do Coronavírus, usando todas as formas da arte.

A abertura da exposição intitulada Malangatana: Mozambique Modern estava agendada para próximo sábado. Entretanto, devido aos últimos desenvolvimentos, relacionados com o aumento de pessoas infectadas pelo Coronavírus um pouco por todo o mundo, o Instituto de Artes de Chigago, nos Estados Unidos, decidiu suspender por tempo indeterminado a inauguração da mostra de Malangatana Valente Ngwenya.

A decisão de suspensão da exposição individual do falecido artista moçambicano foi partilhada com a Fundação Malangatana Valente Ngwenya, que, por sua vez, lamentou a ocorrência: “oportunamente informaremos sobre novas datas, pelo que pedimos sinceras desculpas pelo inconveniente e transtornos”, disse Mutxhini Ngwenya, o Presidente da daquela instituição.

As mais de 40 obras que compõem a individual Malangatana: Mozambique Modern deveriam ficar expostas no Instituto de Artes de Chigago até 5 de Julho, e a iniciativa resultou de uma parceria exclusiva entre a Fundação Malangatana Valente Ngwenya e a Galeria MOMO. Esta seria a primeira vez que as obras do artista estariam em exposição no Instituto de Artes de Chicago.

 

 

 

Um grupo de jovens empresários beirenses está, desde o princípio do presente ano, a estabelecer intercâmbios culturais entre artistas nacionais e estrangeiros, com vista a dinamizar a cultura moçambicana.

Constituído por DJ Cabeça, DJ Campira e Huide Cotene, o grupo de jovens empresários, da cidade da Beira, acredita que a promoção da cultura é um dos alicerces do bem-estar de uma nação e da promoção da reconciliação nacional. Por este facto decidiu estabelecer intercâmbios culturais dentro e fora do país, com vista a dotar os artistas nacionais de espíritos patrióticos e com capacidades para actuarem para o bem da nação. “Com este projecto, de certeza, estou a conseguir engrandecer a minha carreira, porque existem coisas que não sabia e que, por via do intercâmbio, aprendi com os outros”, afirmou DJ Cabeça, um dos integrantes. “Esta iniciativa já está a mudar muita coisa. Inclusive, agora, já estou com uma visão mais ampla de como as coisas funcionam fora de Moçambique. Antes desta iniciativa apenas tinha uma visão curta, que se limitava a nível nacional. Agora, eu e os meus colegas estamos mais preparados para enfrentar grandes desafios”, disse DJ Campira.

A iniciativa vem sendo implementada desde princípios deste ano e já houve digressões para alguns países. A segunda digressão estava agendada para Abril e seria para o Brasil, mas devido ao Covid-19, a viagem foi cancelada para uma data a anunciar.

 

A editora Kuvaninga Cartão d’Arte, que produz livros artesanais e outros materiais com recurso a capas de cartão reciclado, agendou para esta semana um conjunto de feiras literárias em diferentes instituições de ensino, na cidade de Maputo.

As feiras literárias, dedicadas aos alunos, professores e demais leitores ou interessados, são compostas por parte do acervo da editora com 26 títulos publicados, entre poesia infanto-juvenil, contos, romance, drama, novela e ensaios, bem como blocos de nota e cadernos de desenho.

Assim, entre 9 e 17 horas desta quinta e sexta-feira, a editora Kuvaninga Cartão d’Arte estará nos colégios Kitabu e Arco Íris, na cidade de Maputo. Segundo a nota da organização, com esta actividade “pretende-se alargar o universo literário dos estudantes em diferentes escolas ao permitir o contacto com novos autores moçambicanos, principais beneficiários da edição por parte da Kuvaninga (bem como estimular o hábito de leitura ao disponibilizar o livro a preço acessível), transmitir a consciência da preservação do meio-ambiente através do reaproveitamento do papelão, ensinar a amar o belo e a estética através da pintura do papelão e, porque não, a promoção da actividade artesanal”.

A Kuvaninga Cartão d’Arte é uma editora alternativa, sem fins lucrativos, fundada em Maio de 2012, na cidade de Maputo. Entre as várias publicações da editora constam os seguintes títulos: Livro livre, de Niosta Cossa; A vingança de Jesus Cristo, de Osvaldo das Neves; A consciência do absurdo quotidiano, de Leonardo Zunguene; O pacto, Segunda morte, Ratoeira virgem e O estatuto, de Leonardo Jossai; As três mulheres de Malunga, de Agostinho Inguane; Efeito borboleta, do português Diogo Tomaz; Me enterrem com a minha AR 15, do brasileiro Marcel Ariel; Xiphefu, de Elcídio Bila; e É tudo que tenho, de Herdino Polinésio.

Durante o período de 17 de Março a 17 de Abril, está suspensa a realização de eventos culturais na Fundação Fernando Leite Couto, na cidade de Maputo. A informação foi partilhada, esta terça-feira, por aquela instituição, através de uma nota de imprensa.

A decisão da Fundação Fernando Leite Couto surge em resposta às medidas preventivas anunciadas pelo Governo, para evitar a aglomeração de pessoas e minimizar o perigo de saúde pública. “Reavaliaremos, consoante a evolução desta situação, uma nova posição sobre as actividades culturais que irão decorrer após o final do período acima descrito”, adianta a nota de imprensa.

As medidas anunciadas pela Fundação Fernando Leite Couto implicam ainda o encerramento da biblioteca para o público. Contudo, os escritórios continuarão a funcionar de forma normal.

Taruma pretende, nos próximos tempos, que os seus livros ultrapassem a fonteira da língua e possam ser lidos em mais países africanos.

 

Ndeje, Entebbe. 20 graus e céu muito nublado. Mais à frente, o enorme lago Vitória quase engole a visão de quem o contempla. Um poeta moçambicano esteve diante daquele universo líquido, naquela circunstância, a ponderar o que fazer de um projecto de livro inédito. Na verdade, como que inspirado pelo Vitória, a decisão foi rapidamente tomada. Aproveitando a passagem pelo Uganda, onde esteve a formar-se em assuntos editorias, ocorreu a Álvaro Taruma lá deixar um livro para ser editado naquele país e com financiamento local.

Trata-se de um livro de poesia, ainda inacabado, mas que o autor de Matéria para um grito pretende que fique nas prateleiras de Kampala e de todo o Uganda, até porque “nesta região de África, o mercado ugandês lidera em termos de produção. O Uganda publica em média 100 livros por ano, entre ficcão e não ficção. Os países vizinhos como Quénia, República Democrática do Congo e Tanzânia dependem muito do Uganda para a impressão dos livros”.

Poucos dias e passeios pelas livrarias ugandesas foram suficientes para Taruma constatar as potencialidades literárias daquele país. E mesmo a propósito de Quénia, a partir de Uganda o poeta foi convidado a participar no Festival Literário de Nairob.

Taruma pretende que o livro bilingue (português e inglês) que irá submeter para publicação no Uganda seja apresentado próximo ano no Quénia. Com isso, a ideia do poeta é levar a sua escrita ao maior número de leitores possível e, assim, implementar os ensinamentos apreendidos na formação sobre assuntos editoriais.

Segundo observou Álvaro Taruma, apesar do clima chuvoso e frio, Entebbe e, sobretudo, Ndejje, onde esteve, “é uma cidade uniforme de crescimento horizontal, com uma sucessão de colinas de onde se vê o majestoso lago Vitória”, certamente uma inspiração para novas produções.

Ora, na formação em que Taruma participou, estiveram presentes autores jovens, com mais ou menos dois livros publicados, do Malawi, Zâmbia, Uganda e Zimbabwe. Os mesmos autores tiveram quatro principais facilitadores: Otieno Owino, editor do Quénia e responsável pelos conteúdos da formação; Crystal Rutangye, editora ugandesa, residente na Escócia; Abu Ndengwa, autor e editor de livros a viver em Mombaça, Quénia; Oscar Ranzo, autor dos EUA; e Kizza Racheal, coordenadora do projecto formação.

Entre os vários conteúdos lecionados, Álvaro Taruma e os colegas da escrita aprenderam sobre “Escolha e implicações do tipo de edição: edição de autor ou editora?”, “Escolha do tipo de livro: ficcão ou não ficção?”, “Perspectiva da arte editorial”, “Fases da edição: edição estrutural, edição de texto e prova”, “Partilha de experiências editoriais por cada país” e “Processos de design, ilustração e impressão”.

No Uganda, Álvaro Taruma participo na oficina de treinamento e mentoria em matérias de literatura a convite da African Writer Trust, entidade que lida com 30 países em África. No evento, o poeta foi o único autor de língua portuguesa.

 

Cantor e compositor morreu sábado à noite, no Hospital Geral José Macamo. Restos mortais vão a enterrar esta terça-feira, no cemitério de Lhanguene, na cidade de Maputo.

 

30 anos depois de começar a gravar as suas composições nos estúdios da Rádio Moçambique, Gabar Mabote finalmente conseguiu lançar o tão almejado álbum. Ao mesmo, constituído por 14 músicas, intitulou Unganipoile. A cerimónia de lançamento aconteceu há dois, no bairro Malhazine, onde vivia, e, curiosamente, foi mais ou menos a essa altura que o autor começa a ter complicações de saúde.

Chegou o ano de 2019. Como no anterior, o compositor e guitarrista frequentou os hospitais com alguma regularidade. Sempre na tentativa de prolongar a vida, e, com isso, continuar a cantar as suas afamadas “Dana ndzole”, “Helenane”, “Lhupeco” ou “Djokotane”, músicas que o consagraram noutros tempos. Às vezes recuperou. Noutras a doença mostraou-se mais acutilante. E casmurra. Por isso, ao fim de dois anos de altos e baixos, Gabar Mabote teve uma recaída na passada quinta-feira. Nesse dia, foi levado ao Hospital Geral José Macamo, na cidade de Maputo, onde ficou internado por 48 horas. Na noite de sábado, entretanto, frágil e com os 62 anos a pesarem-lhe as costas, Gabar Mabote não resistiu mais. Partiu para longa viagem, deixando para trás tantas outras composições não gravadas.

Os restos mortais do autor de Unganipoile vão a enterrar esta terça-feira, às 14 horas, no Cemitério de Lhanguene, na cidade de Maputo. 30 minutos antes, familiares, amigos e apreciadores da música de Gabar Mabote irão se juntar para o último adeus, na capela do mesmo cemitério.

 

O PERCURSO E O AMOR PELO CINEMA 

A 10 de Agosto de 1957, na então Lourenço Marques, hoje Maputo, nasceu o primeiro de 10 filhos do casal Jaime Simbine e Teresa Manjate. Baptizaram-no com o nome Enoque Jaime Simbine, que foi crescendo como todas as crianças do seu tempo.

A partir da adolescência, Enoque Jaime Simbine começa a frequentar cinemas, ao mesmo tempo que o amor pela música se consolidava. Apaixonou-se pelo cinema indiano. Um dos filmes mais marcantes para Enoque foi Sholay (1975), do realizador Ramesh Sippy. Como que amor à primeira vista, naquela produção cinematográfica, o compositor e guitarrista identificou-se com o personagem Gabbar Singh, interpretado pelo actor indiano Amjad Khan. Então, quando chegou o momento de escolher um nome artístico, depois de se ter notabilizado num dos programas do falecido apresentador de TV Victor José, Enoque preferiu Gabar Mabote. O primeiro em homenagem ao seu personagem preferido e, o segundo, como tributo à terra natal da família, Mabote, distrito de Inhambane.

Gabar Mabote deixa viúva e cinco filhos.

Para este grupo a música é fruto da amizade. Conheceram-se ainda muito novos, no bairro Sommerschield, na cidade de Maputo. Tudo começou sem grandes pretensões. Quando deram por si, estava criado o grupo Dark Room Productions, ou seja, DRP. Nesta entrevista, mesmo a propósito do mais recente álbum lançado, Agora ou nunca, o grupo fala da forma como pensa o RAP e do seu compromisso com a música.

 

Passados 15 anos depois do primeiro CD, DRP volta ao game, como os rappers gostam de dizer. Quais são as histórias por detrás deste Agora ou nunca?

Este é um álbum que nós já queríamos fazer há algum tempo. Só agora é que foi possível porque, nos últimos 15 anos, muita coisa aconteceu. Inclusive, muitos dos membros do grupo tiveram de sair do país por causa dos estudos, mas, quando voltamos, começamos a programar a produção deste nosso novo álbum, num contexto em que alguns de nós já trabalham e têm família. Ainda assim, conseguimos nos concentrar para este projecto Agora ou nunca. E este título vem do feeling que tínhamos. Quer dizer, ou fazíamos o álbum agora ou nunca mais iríamos fazer.

 

Agora com maturidade, o compromisso continua o mesmo?

Sim, e agora com mais determinação e seriedade no nosso trabalho.

 

DRP é um grupo preocupado em contar histórias através do Hip-Hop. Que narrativas, desta vez, quiseram levar ao público?

Trabalhamos três anos neste projecto. No momento que decidimos avançar com o álbum, sabíamos de que enquanto estivemos sem lançar, as coisas foram mudando. Aliás, o próprio RAP evoluiu muito em Moçambique. Actualmente, temos grandes artistas que estão a fazer coisas maravilhosas em termos de qualidade. Então, decidimos que com este álbum tínhamos de tentar abranger um bocado de todos os moçambicanos, sabendo que a nossa faixa etária é de 35 anos para cima e que as pessoas que ouvem Hip-Hop são jovens. Então, tínhamos de falar de coisas com as quais as pessoas pudessem se relacionar. E não há melhor maneira… ao invés de inventarmos histórias, pegamos nas nossas próprias histórias, no nosso dia-a-dia e transformamos isso em música. Julgamos que assim fica mais fácil para quem ouve poder se identificar. Se falássemos de coisas fora do nosso quotidiano, haveria o risco de as pessoas não se reverem e nós não nos revermos nas nossas músicas.

 

Ou seja, a ideia de a DRP existir com os outros é bem presente na maneira de pensar a música?

Sim, porque a DRP não é uma ilha. Um dos nossos grandes objectivos para este álbum, que não conseguimos concretizar no nosso primeiro, foi de abranger todo Moçambique. Sabemos que nas cidades a nossa música é muito consumida, mas temos de levar a música para onde as pessoas estão.

 

Do ponto de vista de participações, Agora ou nunca é um disco eclético. O que pretenderam ao levar ao CD autores como Tégui, Muzila, Duas Caras ou Simon Silver?

Desta forma quisemos absorver o máximo possível dos nossos artistas e, a partir daí, com eles partilhar o que é a DRP. Tínhamos planos de trabalhar com mais artistas, mas o tempo e a direcção para a qual estávamos a levar o álbum não permitiram. Acima de tudo, tínhamos de ficar bem focados no que queríamos fazer do Agora ou nunca.

 

Sei que neste Agora ou nunca a DRP teve a preocupação de produzir as músicas a pensar em actuações ao vivo. É verdade?

Sem dúvidas. Quando fizemos o álbum sabíamos que tínhamos de investir nessa componente ao vivo, até porque somos mais conhecidos como artistas que fazem performances. Sempre trabalhamos nisso e fomos dos primeiros grupos que, naquela altura em que não haviam condições, tentava fazer actuações com banda. Pensamos, neste álbum, como é que poderíamos mexer com as pessoas de uma maneira subtil. Por isso Agora ou nunca é mesmo uma viagem. Calculamos como cada música poderia impactar no show e continuamos a trabalhar nisso – o CD só saiu há algumas semanas. Portanto, tentamos sair da caixa, até para quebrar aquela ideia de que o Hip-Hop é um estilo de marginais…

 

É a pensar nisso que cantam sobre a mulher, a autoestima e uma forma de estar?  

Isso sempre foi a DRP. A DRP sempre teve essa consciência porque assim é o tipo de RAP que nós gostamos e escutamos. Há muitas pessoas que, quando fazem os álbuns, apenas pensam num tópico. Por exemplo, ou falam das ruas ou de política. Nós preferimos pensar que o Hip-Hop é um estilo de música para todos. Mulheres gostam de Hip-Hop, mas poucas vezes nós ouvimos músicas positivas sobre elas. Então, nós tentamos mudar essa narrativa e consciencializar os rappers no sentido de que temos de investir na nossa música. No fim do dia, música é arte, arte é produto e produto dá dinheiro. Nós estamos a falar dessas coisas no álbum, que é também para incentivar as pessoas. É isso o que nós sabemos fazer e queremos evoluir com isso.  

 

A segunda música do CD é “Golo”, que nos sugere a mais afamada modalidade desportiva do mundo. Que golo é esse que quiseram marcar como grupo?

Quem fez o coro dessa música foi o Jonaze e a mesma produzida por Leeleo. “Golo” foi a última música que nós gravamos, em 2018. Nessa altura estamos prestes a concluir o álbum. Então tivemos o sentimento de estarmos a conseguir alcançar a meta que tanto ambicionávamos. Felizmente conseguimos chegar lá… e, por isso, a música, com participação de Duas Caras, foi o primeiro single do nosso álbum. Outra coisa, muita gente, quando ouve a música, pensa no futebol, claro, o maior desporto do mundo e que nos traz muitas alegrias. Entretanto, com a música nós não estávamos a pensar apenas na modalidade, mas sobretudo em alcançar um objectivo. Esse era o nosso golo e nós já o marcamos.

 

O título do vosso primeiro CD, Era uma vez, nos introduz para uma narrativa. Agora ou nunca conduz a uma determinação. Como começam as vossas histórias e para onde gostariam que as mesmas vos conduzissem?

As nossas histórias começam com a nossa amizade, nós crescemos juntos e a maioria das nossas músicas, no princípio, foram criadas no quarto da Taíla. Naquela altura, preocupávamo-nos em fazer um exercício de composição sobre o ego, mas rapidamente percebemos que a música não é só isso. Existem tantas outras coisas relevantes, coisas que nos afectam. Quem ouve o nosso primeiro CD e nos conhece percebe que lá estão muitas músicas que relatam situações que vivemos. Por exemplo, “Get together”. Um dia antes de gravarmos essa música, nós realmente fizemos um “Get together”. Outro exemplo, o que Jonaze relata na música “A carta”, ele realmente escreveu numa carta para uma namorada dele que foi embora. Nós sempre tivemos essa proximidade que nos leva a partilhar histórias. E por termos uma mulher no grupo, a Taíla, isso sempre nos ajudou a estarmos focados na dimensão humana. Um rapper tem de contar narrativas que impactam na sua e na vida de outas pessoas, comunicando-se com os outros. É por aí que nós caminhamos.

 

Já agora, de que forma se consegue o equilíbrio entre o exercício sobre o ego, muito comum no RAP, e o lirismo, de tal forma que o rapper não se torne uma voz narcisista?

O “eu” ou o “ego” é qualquer coisa que a maioria dos rappers usa como capa. Esse é o ponto de introdução. É como toda a gente, na verdade. A nossa primeira preocupação, como pessoas, é o nosso “eu”. Enfim, o rapper está a mudar. Agora este ritmo é uma indústria de um bilião de dólares, anualmente. Há 20 anos, o RAP era considerado música de marginais. Hoje não se faz nada sem o RAP. Por isso, actualmente, as empresas assinam contratos com rappers para que sejam suas caras. Internamente, é o caso de Ellputo, que está a fazer trabalhos com muitas empresas grandes. Ellputo vende o Hip-Hop.

 

Era possível lançar um álbum assim há 15 anos?

Não, não era possível. Quando fizemos o nosso primeiro álbum, não tínhamos a intenção de o lançar para o público. Estávamos a fazer o álbum para os nossos amigos. Só que, começou a ficar tão bom que os nossos próprios amigos começaram a exigir… Ou seja, do ponto de vista criativo, a qualidade até existia para produzirmos um álbum como este há 15 anos, mas, emocionalmente, como grupo, não estávamos preparados. Agora, sim, estamos muito preparados.

 

A prova disso?

Estamos a fazer tudo sozinhos, como uma equipa. Temos o nosso manager, abrimos uma empresa. A DRP agora já não é apenas um grupo de música, também é uma empresa que produz roupas. Há 15 anos não estávamos com este nível de preparação e não teríamos alcançado a qualidade que o álbum tem e nem as participações que trouxemos. Não tínhamos a concentração necessária.

 

Qual é a música que mais deu gozo de gravar e a mais difícil?

A que deu mais gozo foi a primeira, “Agora ou nunca”, a que dá o título ao álbum; e a mais difícil foi a quarta, “Pouco a pouco”. Fizemos essa música com Mark Exxodus e tivemos de sair da nossa zona de conforto. Mas são esses desafios… Se não sais da tua ilha, ficas sozinho, isolado.  

 

Como gostariam que os moçambicanos, gostando ou não do Hip-Hop, olhassem para a marca DRP?                                                                                                                                                           

Gostaríamos que os moçambicanos percebessem que DRP é um movimento para promover artistas nacionais, sobretudo de RAP. É isso que nós queremos e já estamos a fazer. O nosso produtor, Leeleo, tem um estúdio e está a produzir vários artistas. Nós gostamos muito de Hip-Hop.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugerimos o disco Eleven, de Tégui; Resgate, da Mahla Filmes; Memórias em voo rasante, de Jacinto Veloso; e La famba bicha, de Jeremias Ngoenha.

 

Perfil

DRP significa Dark Room Productions (Quarto Escuro Produções) em referência ao estúdio/quarto de DaBrain (Ntanzi), onde se criava e avaliava as músicas: dentro de um quarto todo escuro. É um grupo de RAP, formado por amigos de infância: Afonso “Gusto” Coelho, Jonaze “Kwitas” Americano, Taila “Yillah” Carrilho, Dwalak “Mollas” Mendes, Nonulio “Fresh Nunas” Wetela, Lúcio “Lucky Luciano” Sumbana, Robert “D.K. Vader” Honwana e Leandro “Leeleo” Costa. Além de cantar, o grupo produz, edita álbuns e tem uma empresa de vestuário.

 

 

 

 

 

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