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O País – A verdade como notícia

Fredson Bacar está, desde ontem, numa visita de trabalho a Zambézia. No primeiro dia da visita, o Vice-Ministro da Cultura e Turismo visitou as obras de restauração da Catedral Velha de Quelimane, cujo plano em curso é transformá-la num museu de arte sacra e num centro cultural, no âmbito do Projecto da ABS de Reabilitação e Requalificação da Igreja de Nossa Senhora do Livramento.

De acordo com a nota do Ministério da Cultura e Turismo, Bacar esteve no Hotel Chuabo, que já foi mítico naquela província, e encontrou-se com os operadores turísticos, que vincaram as preocupações face à pandemia. O vice-Ministro partilhou as acções do Ministério em torno de várias iniciativas, visando apoiar o sector.

Hoje, o governante vai, dentre várias actividades, orientar uma reunião com os fazedores da cultura, na Cidade de Quelimane, e escalar o Distrito de Mocuba, o que acontece depois de manter encontros de cortesia com a Secretária de Estado, Judith Mussácula, e com o Governador da Província, Pio Matos.

Fredson Bacar encontra-se a trabalhar na Zambézia até sábado.

 

 

Pak Ndjamena é muitas coisas, no que à arte diz respeito. Entretanto, nesta entrevista, o bailarino e coreógrafo fala essencialmente de dança e do que esta manifestação cultural representa para si. Nesse contexto, o Director do Festival Raiz reconstrói o seu percurso, destacando o que contribui para que actualmente seja profissional de dança. Sem receios, Ndjamena também indica o horizonte que irá seguir quando, já com o peso da idade, não poder actuar em palco.

 

Considero a dança uma manifestação da alma através do corpo. Estou errado?

É com o corpo que nós expressamos os diferentes sentimentos e que fazemos uma reflexão para a sociedade.

 

Como é que o corpo se assume como um mecanismo de apreensão dos factores sociais?

Nós vivemos numa sociedade com vários estímulos, sejam políticos ou económicos. Tudo isso se reflecte no corpo. Então, de certa forma, a dança serve para colocar o corpo a apreender todos os estímulos através do movimento. Assim conseguimos transmitir alguma coisa e criar alguma transcendência para tocar as pessoas. Esse é o nosso grande desafio como artistas.

 

A dança está em justaposição com a vida, segundo sugere o seu espectáculo Justaposição “centauros”?

Sim, e essa obra foi uma colaboração com um artista visual, o Rafael Bordalo. Na altura fizemos uma pesquisa virada às sociedades de consumo e no que respeita ao poder político e económico que as sociedades têm, bem como a essa transformação que o mundo sofreu desde antes de Cristo até agora. Foi uma reflexão muito abrangente sobre essas sociedades: africanas, americanas e etc.

 

A dança consigo é, de facto, um movimento muito ligado à tradição, e que explora o social, o poder do ego e o poder do poder. Além de ser uma missão, o que a dança mais representa para si?

Eu nasci numa família de artistas. Os meus avôs dançavam para entreter e pela paixão. Eu também comecei na dança com paixão. Então, à medida que me fui profissionalizando, comecei a ter um rendimento. Para mim, a dança é vida, e surge como um dom. Não me surgiu por acaso. Eu sempre tive a dança dentro de mim, desde pequeno, e o contexto familiar favoreceu-me muito. O meu avô, João Rungo, foi um grande bailarino. Ele é uma das minhas inspirações, embora não tenha convivido com ele.  

 

Percebe que poderia investir na sua carreira quando começa a ter rendimentos?

Sim. Penso que a partir do momento que o artista passa a ter rendimento na arte que faz, torna-se profissional.

 

Começa o seu percurso na dança em 1996. Existe um período concreto para este tipo de princípio?

Para que tenhamos uma história com alguma emoção, temos de considerar os tempos primordiais. O princípio foi em 96, por causa das cerimónias familiares, em casa a dança sempre acontecia. Depois, os meus familiares aperceberam-se que eu tinha talento e a minha mãe levou-me à Escola Nacional de Dança. Foi assim que tudo começou. Claro, naquele tempo não estava preparado para as técnicas de dança modernas. Estava mais voltado para a dança tradicional.

 

Entretanto, não fica muito tempo na Escola Nacional de Dança…

Não fico muito tempo na Escola porque não me senti muito à vontade lá. Os preconceitos sobre a ideia de que o homem que faz dança é maricas e coisas assim afectaram-me emocionalmente. Curiosamente, antes de me inscrever na Escola Nacional de Dança, na altura, achava que aquela instituição era mais abrangente na questão do ensino das danças, e além do preconceito. Em pouco tempo saí e fui a um grupo cultural.  

 

Passam-se 24 anos, desde que se iniciou na dança. Comparando os anos 90 com o contexto actual, que diferenças destaca?

Naquela altura, havia muitos grupos, na cidade de Maputo, e muita dança. Por volta de 2010, muitos bailarinos começaram a trabalhar em outras coisas, deixando a dança para trás, mesmo por causa da questão sustentabilidade. Tipos como eu, Ídio e os outros que estão na Europa persistiram, reinventaram-se e conseguiram ser o que são hoje. Acho que é por esse empenho que os nossos projectos são bem recebidos a nível nacional.

 

O facto de sermos um país com muita dança tradicional torna a sua actividade mais simples ou mais complexa?

As duas coisas. Primeiro temos de ser um bailarino capaz de perceber a riqueza da dança que possuímos. Depois, é preciso haver condições de acesso e acervo. A tal preservação do património imaterial, que ainda falta.

 

É a pensar na preservação do património que faz questão de registar em vídeo os seus espectáculos?

Sim. Sempre tenho o cuidado de, ao fazer alguma obra, querer registar em vídeo ou fotografia. Repara que é com esse registo que conseguimos ter mais trabalhos.

 

Como pensa na dança nos próximos 24 anos?

Nessa altura, provavelmente, estarei fora dos palcos, a fazer coreografia. Acho que um bom coreógrafo deve ser um bom bailarino. Claro que existem bons coreógrafos que não foram bailarinos. Portanto, não me assusta a ideia de não poder dançar daqui a alguns anos, porque sempre posso fazer coreografia. A arte é vasta e a arte é incondicional.

 

Pak é um artista multidisciplinar. Existe uma área em que actua mais especial do que as outras?

Houve momentos que eu me colocava, primeiro, como bailarino. Há cinco anos, comecei a envolver-me com outras áreas artísticas. Hoje, já não me vejo apenas como bailarino. Vejo-me como artista.

 

É dos vários artistas moçambicanos afectados pela COVID-19. Por causa da pandemia, não vai poder realizar o Festival Raiz, que foi cancelado…

Infelizmente, foi cancelado. Teremos de nos reinventar. Teremos de seguir aquilo que o universo nos propõe. Por causa da pandemia, está-se a optar por eventos online. Iremos alimentar as pessoas com vídeos, memórias do festival e conversas com artistas através das redes sociais.

 

Numa conversa com Edna Jaime, a bailarina disse-me, há umas semans, que os bailarinos moçambicanos são mais valorizados no estrangeiro do que no país. Tem a mesma percepção?

Tenho, sim. Concordo absolutamente com isso, sobretudo na área da dança contemporânea. Acho que em Moçambique não existe valorização merecida. Mas acho que é assim em todo lado. Parece que basta atravessarmos a fronteira para temos valor. Nós valorizamos o estrangeiro, cá, da mesma forma que as pessoas dos outros países nos valorizam quando lá vamos actuar. O desafio é formar público, e o Festival Raiz e a ECA estão a trabalhar na preservação do património cultural moçambicano, com formação de público, de modo que os nacionais possam valorizar mais o que é nosso. Temos de levar a sério esta missão, porque em países como Senegal, sim, as pessoas têm o orgulho do que é tradicional e local.

 

É um dos bailarinos moçambicanos com uma expressão facial e corporal contagiante. O que contribui para o efeito?

Sinceramente, eu não consigo me espelhar. Espelho-me através dos outros. Fico feliz por essa observação. Acho que a expressão é das coisas mais fascinantes que temos na arte. Penso que o facto de ser actor também ajuda. Não é nada premeditado. Não trabalho a expressão facial. Acho que a minha forma de ser e de estar ajuda-me a saber como actuar.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o novo trabalho de Rodhália Silvestre.

 

PERFIL

Pak Ndjamena é nome artístico de Bernardo Guiamba, produtor artístico, bailarino, coreógrafo e performer. Nasceu em Maputo e iniciou-se na dança em 1996, na Escola Nacional de Dança. Em 2001, surge-lhe a primeira oportunidade de formação em dança contemporânea, no Projecto Alma Txina. Colaborou e participou em vários projectos nacionais e internacionais. Actualmente, também exerce a função de Director do Festival Raiz.

 

 

 

 

 

 

 

 

O poeta Léo Cote declama, esta quarta-feira, na cidade de Maputo, poemas de autores moçambicanos no sarau designado “Campo de história e poesia”.

 

Meia hora. Esse é o tempo concedido pela Fundação Fernando Leite Couto a Léo Cote. Às 18 horas desta quarta-feira, o autor de Campo de areia vai contar uma história (“A fogueira”), de Mia Couto, e dizer poesia de oito autores moçambicanos: Rui Knopfli, José Craveirinha, Rui Nogar, Heliodoro Baptista, João Grabato Dias, Sebastião Alba, Eduardo White e Luís Carlos Patraquim. Nada ao acaso. Estes são os autores que na primeira fase da vida literária marcaram o declamador.

Na verdade, a Léo Cote até ocorreu dizer poesia de mais autores relevantes da literatura moçambicana. Entretanto, porque time is Money e não se recomenda o desperdício, teve de retirar alguns poemas da sua lista, de modo a garantir que o seu sarau não exceda 30 minutos. Assim, o poeta irá recitar um texto de cada autor por si seleccionado.

Com o sarau, acredita Léo Cote, irá contribuir para combater o esquecimento dos moçambicanos em relação à escrita dos que, estando falecidos, continuam a influenciar gerações de poetas nacionais. Nisso, antevê o poeta que pela primeira vez vai recitar poesia para o público no contexto de Estado de Emergência imposto pela COVID-19, a sessão será diferente sem as pessoas presentes. “Mas irei actuar como se tivesse público. Será mais difícil, porque sinto que terei de atingir os leitores um de cada vez”.

Ora, a oportunidade de poder apresentar-se em público, num período tão hostil como este, é algo muito relevante para Léo Cote, e não é só pelo dinheiro: “além do caché, oportunidades destas garantem-nos visibilidade. De algum modo, este tipo de eventos nos permite aparecer em público e afirmar o nosso trabalho. Deste modo, evoluímos como artistas, porque temos de trabalhar sempre”. Paralelamente, entende Léo Cote, os eventos artísticos que estão a ser realizados online pelas redes sociais, como é o caso do sarau na Fundação Fernando Leite Coto, permitem a construção da memória deste período em que o mundo enfrenta um grave problema sanitário.

O sarau designado “Campo de histórias e poesia” chegará aos interessados através do Facebook e do Instagram da Fundação Fernando Leite Couto. Entre os textos seleccionados, constam: “Elegia carnívora”, de Patraquim, “Ode às palavras, de Heliodoro Baptista, “Nunca mais é sábado”, de Rui Knopfli”, e “Do amor pelas pedras”, de Rui Nogar.  

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) prossegue com o ciclo de palestras “No gume da palavra”. Às 18h da próxima terça-feira, a palestra “Reinventar o humanismo Ubuntu para resistir ao COVID-19” será a proposta levada ao público. A sessão terá como orador o filósofo José Castiano e contará com a moderação do poeta Nelson Lineu, sempre através da plataforma ZOOM.

A AEMO encontrou na internet uma alternativa para manter as suas actividades no âmbito do ciclo de debates e palestras, neste Estado de Emergência, agora com a vantagem de ainda poder concentrar o público estrangeiro, pois as sessões se chegam a todo mundo através da ZOOM Cloud Meeting, segundo anota o comunicado de imprensa da instituição.

No actual modelo, a AEMO estreou-se no 15 de Abril, com o debate “Poéticas do caos – Entre a faticidade e o absurdo na literatura moçambicana”, conduzido pelo filósofo e crítico de arte Dionísio Bahule, seguido da palestra realizada no dia 24 de Abril, proferida pelo docente Aurélio Ginja, sobre a obra vencedora da 2.ª edição do prémio Literário Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM)/ Eugénio Lisboa, em 2019, “A Saga d’Ouro”, de Aurélio Furdela. .

 

 

 

O Ministério da Cultura e Turismo lançou, na manhã de hoje, a iniciativa Arte no Quintal, que consiste na realização de concertos e programas das mais variadas manifestações culturais, com transmissão online via Facebook, Youtube e Instagram.

De acordo com a nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, a iniciativa abrange todas as manifestações artísticas, e a transmissão irá realiza-se aos fins-de-semana.

Na conferência de imprensa de hoje, avança a nota de imprensa ministerial, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, afirmou que o lançamento do projecto é um contributo necessário às Indústrias Culturais e Criativas e aos criadores, cientes de que não é a solução para todos os problemas na área, mas parte das inquietações dos artistas terão resposta através da iniciativa.

Com Arte no Quintal, o Ministério da Cultura e Turismo pretende incentivar a produção, contribuir para a consciencialização da sociedade sobre as medidas preventivas da COVID-19 e dotar os fazedores das artes de meios alternativos para enfrentarem a pandemia. Assim, o projecto vai beneficiar directamente artistas que, devido à COVID-19, não podem continuar com o seu ritmo de produtividade, encontrando nesta iniciativa uma alternativa ao seu trabalho, com alguma remuneração.

O Ministério da Cultura e Turismo realça que Arte no Quintal está igualmente alinhada com o Programa Quinquenal do Governo (2020-2024), assim como com outras intervenções no âmbito do combate e resposta à COVID-19.

Arte no QUintal surge em resposta ao encontro que o Ministério da Cultura e Turismo manteve, em Março, com artistas e promotores de eventos.

A Associação Cultural Xitende reuniu textos de 11 autores numa antologia de poesia intitulada Fique em casa, amor!, publicada em formato PDF.

 

Segundo avança a nota de imprensa da associação sedeada na cidade de Xai-Xai, em Gaza, através da iniciativa pretende-se partilhar com os leitores o resultado de uma produção artístico-literária em solidariedade a todos os que estão assolados pela COVID-19. O propósito, segundo XItende, é que a literatura contribua, nesta altura, para que as famílias unam-se ainda mais, ficando em casa, como forma de reduzir os riscos de contaminação por Cornavírus.

Com efeito, de modo que ficar em casa não se transforme num tédio e nem resulte em depressão, a Associação Cultural Xitende leva ao público uma antologia edita pela Oleba Editores. A mesma pode ser adquirida através de um download.

Fique em casa, amor! conta com textos dos seguintes autores: Adolfo Matilde; Almeida Cumbane; Artista Moçambicano Qualquer; Deusa d'Africa; Dom Midó das Dores; Elísio Miambo; Lahissane; Imperador Luís Cezerilo; Mafavuka Khosa; Mbalapala; Mufana wa Xithokozelo; Mudjondzisse Bukwani; Otildo Justino; Poeta Militar e Wa Gune. O prefácio foi escritor por Absalão Cossa.

Às 10 horas de segunda-feira, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, irá lançar, na Casa de Ferro, cidade de Maputo, “Arte no quintal”, uma iniciativa conjunta entre o Ministério da Cultura e Turismo, a UNESCO, o banco ABSA e a Galeria do Porto de Maputo.

Segundo o comunicado ministerial, “Arte no quintal” surge em resposta ao encontro que Eldevina Materula manteve com artistas e promotores de eventos no mês de Março, cuja agenda foi um debate sobre o “Impacto da COVID-19 na indústria cultural e acções a desenvolver”.

“Arte no quintal” pretende apoiar os artistas nesta fase de confinamento, através da realização de concertos e diálogo online, envolvendo todas as manifestações artísticas.

 

A música moçambicana não se encontra num estágio muito agradável, porque, de acordo com Stélio Mondlane, existe uma desvalorização generalizada dos valores culturais nacionais: “estamos a tornarmo-nos muito ocidentais e a deixar de tocar, por exemplo, a nossa música tradicional”. Logo, em geral, as coisas não estão bem. Além disso, na percepção do baterista, produtor e compositor, é necessário que a maioria dos músicos moçambicanos melhor a sua performance, aprofunde o conhecimento sobre música e pare de competir uns com os outros. Neste entrevista, Mondlane fala, igualmente, dos seus projectos musicais: The Stélio Mondlane’s Project e New chapter, a ser lançado ainda este ano.

 

Considera a música um meio viável para a transmissão de vários saberes. Que impacto pretende que a sua música tenha na vida das pessoas?

O meu grande projecto é dar a conhecer as raízes africanas através da música. Por isso, nos vários projectos que tenho, estou firme e constantemente valorizo as nossas culturas, mantendo os nossos ritmos sempre vivos. Sempre que faço uma composição, seja de jazz, pop ou afro/pop, deixo lá uma identidade moçambicana, que é para dar a entender que sou africano e, acima de tudo, moçambicano.

 

Como é isto de enaltecer a(s) identidade(s) de um território tão vasto como Moçambique numa música de três, quatro ou cinco minutos?  

Quando entramos para o meio da música, devemos começar a distinguir o que nos faz bem e o nosso horizonte. Assim torna-se mais fácil destacarmos a nossa identidade. Temos de saber definir como queremos ser ouvidos ou interpretados.

 

Esta identidade de que se refere é mais pessoal ou mais colectivo?

Eu acho que é mais individual, porque é uma coisa muito minha. De tal modo que, quem me conhece, ao ouvir a música sabe que é minha ou que tem um dedo meu. Agora, claramente, nunca faço música sozinho, a dimensão colectiva também é algo a ter em consideração, porque trabalho com outros músicos.

 

Para si, é importante considerar as emoções do destinatário da sua música?

É sempre bom ter uma opinião dos outros. Há uma coisa que nós chamamos de listen sessions, um momento que, depois de termos a música produzida, levámo-la a ser escutada por algumas pessoas que confiamos. Aí colhemos as sensibilidades e daí tomamos a nossa própria decisão. A decisão final é sempre nossa.

 

Em 2012 cria The Stélio Mondlane’s Project. Quais foram os seus motivos com esta iniciativa?

Apeteceu-me abordar a música jazz de forma diferente. Antes tivemos Jimmy Dludlu, Moreira Chonguiça, Ivan Mazuze e Orlando Venhereque… Eu decide, com o projecto, adicionar a minha abordagem do jazz, com continuidade, variações e tocando com vários músicos. Este é um projecto como se fosse um sindicato. Quero mostrar a minha forma de ver a música em Moçambique.

 

E como vê a música no país?

Actualmente, para ser sincero, a nossa música está no estágio não muito agradável, porque estamos a deixar morrer os nossos valores. Não tenho nada contra a tendência da música actual, mas é preciso não deixar morrer aquilo que é a essência da música moçambicana. Estamos a tornarmo-nos muito ocidentais e a deixar de tocar, por exemplo, a nossa música tradicional. Agora, estamos muito naquela de misturar marrabenta com qualquer outro estilo e, no final do dia, o ritmo não tem nada de Moçambique. Ou seja, fica sem ser nosso ritmo e nem se torna ritmo dos outros. Na verdade, estamos perdidos.

 

Em termos de qualidade e quantidade?

Nós ainda temos de trabalhar muito. É preciso melhorarmos a nossa orquestração, a nossa performance e aprofundarmos o nosso conhecimento. Acho que ainda não estamos a conseguir sair da caixa. São poucos os que já encontraram a visão.  

 

Há algum start que demos dar para as coisas acelerarem?

Acho que sim. Primeiro, temos de parar de competir uns com os outros. Segundo, temos de parar de fazer música para os músicos. Temos de fazer música para o povo, tocar e começarmos a inspirarmo-nos nos melhores músicos mundiais, até para vermos onde é que estamos a falhar.

 

Numa entrevista que concedeu ao jornal O País, Childo Tomás, com quem já tocou, disse que sentiu mais na Europa a necessidade de tocar as suas raízes. Acha que a viagem é fundamental para este tipo de posicionamento?

Definitivamente, a viagem é importante. Uma das várias viagens que fiz com artistas renomados, e que me marcou, foi a Bélgica, ano passado, num projecto maioritariamente constituído por moçambicanos. Mas também tinha uma sul-africana e um belga. Aí confirmei o quão importante é mantermos as nossas raízes firmes e sermos constantes naquilo que caracteriza a nossa identidade. No projecto, a sul-africana promoveu actuações chopes. Ela estava preocupada com os ritmos africanos e isso é uma coisa muito bonita. Isso mostrou-nos que a opção de valorizarmos as nossas culturas é a mais certa.

 

Um dos seus grandes objectivos é internacionalizar a sua música, estando esta enraizada nos ritmos moçambicanos. Como é que estamos nesse domínio?

Os poucos que se preocupam com isso, fazem bem. É de felicitar ao Jimmy Dludlu, Stewart Sukuma e Deltino Guerreiro. Esses são os músicos que entram na área do jazz preocupados com a internacionalização dos ritmos tradicionais (além deles, claro, Ghorwane e Kapa Dech também). Precisamos de mais, que é para valorizarmos a nossa cultura.

 

É baterista, produtor, compositor e arranjista. Destas áreas, existe alguma, para si, que se impõe às outras em termos de relevância?

Eu acho que não. Penso que consigo ter todas áreas no mesmo nível.

 

Em termos de instrumento musical, quanto vale para si a bateria?

Eu estou cheio de conceitos muito confusos dentro de mim. A bateria é um instrumento muito importante para mim, pois me fez chegar onde me encontro. Mas eu vejo-me mais como músico, sem a especificação baterista, tanto que criei The Stélio Mondlane’s Project, para quebrar essa coisa de ser baterista. Eu gosto que me vejam como baterista, mas eu quero quebrar essa coisa, de modo que as pessoas me olhem como músico completo: sou compositor, produtor, arranjista e, acima de tudo, tenho o meu projecto a solo. Vejo a bateria como qualquer outro instrumento musical.

 

Será? A bateria foi a sua porta de entrada para a música…

Foi a minha porta de entrada, mas nem tanto… Quando era criança, eu cantava e fiz, na altura, parte de vários concursos. Primeiro cantei, depois, veio a bateria. E quando achei que já não queria mais esse instrumento, fui a Escola de Música, onde aprendi a tocar um pouco de piano, guitarra e outras coisas. Nessa altura não queria saber nada de bateria. Depois vi que a bateria era o instrumento com o qual me destacava facilmente. Decidi então investir na bateria, e gosto desse instrumento, com certeza. 

 

Considera-se activista social…

Sou músico, mas, acima de tudo, considero-me activista social. Eu nasci no Bairro Polana Caniço, onde existem várias carências. Se consegui tornar-me um baterista foi graças a muito esforço. Agora, quando olho para trás, sinto a necessidade de pesquisar e encontrar formas para ajudar crianças que, nos subúrbios, não têm condição de se tornar músicos, tendo amor à arte e com talento. Penso que podemos usar a música para concretizar certos objectivos, como forma de rendimento para pagar a escola e etc. É assim que cada vez mais eu penso a música.

 

E fazer da música uma fonte de rendimento para concretizar outros objectivos é mais possível agora?

Sim. Se tivermos os objectivos bem traçados, é bem possível.

 

Oiço “Moya wanga”, “África”, “Inhamussoro”, “Sê ndza famba”, todas músicas do The Stélio Mondlane’s Project. E perguntou-me, como é que a música surge consigo?

Se dissesse que não é nada fácil, estaria a mentir. Eu acho que tudo isso é fruto do talento, e o talento é uma coisa que Deus dá. Para mim, o processo de criação é uma coisa que não tem igual. De repente encontro-me a bater numa mesa e surgem-me certos sons. Quando tenho uma ideia bem concebida, ligo para os meus colegas e vamos ao estúdio. É um processo único e eu gosto, porque naquele momento sou eu e a minha consciência. A partir daquele momento começo a imaginar como a música vai ficar. Para mim, é um momento muito bonito.

 

Tem tocado com vários autores. Quais são as vantagens e as desvantagens de trabalhar com tanta gente?

A vantagem é aprender mais, porque cada músico tem sua forma de estar e a sua bagagem. Por exemplo, ao trabalhar com o Stewart, aprendi muito dele como aprendo hoje ao trabalhar com Jimmy ou Moreira. Essa partilha é importante para mim porque cada um passa-me o seu testemunho.

 

Retornando ao The Stélio Mondlane’s project, qual é a história do seu CD/ DVD Mixed cultures ao vivo no CCFM?

Este DVD será sempre importante para mim, porque é o meu primeiro bebé. Foi com muito esforço que concretizei o sonho de ter esse DVD, numa altura em que toda a gente está a lançar CD. Tive muita ajuda do meu tio, Filipe Mondlane, uma das pessoas que muito me tem apoiado. Quis fazer algo diferente e, por isso, sou o único baterista em Moçambique com um DVD live no Franco. É algo que tenho orgulho e sempre vou procurar honrar.

 

E imagino que também vai querer sempre honrar a distinção Melhor Canção atribuída à sua música “Nilangue Wene”, em 2013, no Ngoma Moçambique…

Com certeza. Sempre que entro para o estúdio e vejo aquele prémio fico feliz. Vou trabalhar para que tenha mais prémios. Eu não esperava por aquele prémio, na altura, e achei que fosse impossível ganhar. Foi muito emocionante.

 

Tão emocionante como o prémio Melhor Voz conquistado no mesmo concurso três anos depois?

Também foi emocionante. E isso sempre impulsiona a carreira de um músico, contribuindo para que trabalhe e investigue mais.

 

Ainda este ano vai lançar o seu novo trabalho: New chapter. Que capítulo vem aí?

É um novo capítulo do Stélio Mondlane. Quis fazer uma coisa perfeita, mesmo porque sou muito perfecionista. O New chapter vem com géneros musicais diferentes. Não segui à risca a linha do jazz. As coisas ainda estão no forno.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro + Eu, de Assa Matusse, e Kwiri, de Roberto Chitsondzo.

 

PERFIL

Stélio Mondlane é baterista, compositor e produtor, com participações em vários festivais, como AZGO, More Jazz Series (Moçambique), Bushfire (eSwathini), MASA (Costa do Marfim), Lugano (Suíça), Sesco Series (Brasil), Quaresma (Eslovênia) e Mindelo Jazz Summer (Cabo Verde). Viveu por mais de 10 anos na África do Sul. É autor de um CD/DVD: Mixed cultures.

 

Actriz Sufaida Moyane irá contar histórias extraídas dos livros de Rafo Diaz e Lourenço do Rosário na manhã de sábado.

 

Sufaida Moyane tem um compromisso com as crianças de várias idades. Às 9 horas de sábado, a actriz estará em casa de todos os pequenos que a abrirão a porta para uma sessão de histórias apresentada online através do Facebook e do Instagram da Fundação Fernando Leite Couto.

Em 30 minutos, Sufaida Moyane vai contar às crianças histórias de três livros por si seleccionados: O mar de Maputo e O coração do embondeiro, de Rafo Diaz, e Contos tradicionais do vale do Zambeze, de Lourenço do Rosário. E porque a sessão foi pensada para ser algo descontraído e alegre, a contadora de histórias pretende, igualmente, levar às crianças algumas brincadeiras e cantigas tradicionais do país.

O convite da Fundação Fernando Leite Couto foi recebido com muito agrado pela actriz, pois, assim, numa altura com pouquíssimas oportunidades de expor trabalhos em público, a sessão infantil permiti-a sentir que a arte não se vergou ao Coronavírus. “Esta sessão de histórias revela que todos nós estamos a tentar sobreviver, não no sentido financeiro, mas no de continuarmos a fazer o que nos dá prazer. E para as crianças também é positivo. É um desafio muito grande fazer isto via online, mas tenho de me adaptar às tecnologias”.

Sufaida Moyane é uma das artistas que acredita que na crise as pessoas devem sempre procurar soluções para os seus problemas, com criatividade. Simultaneamente, evidencia, “num período como este, temos de aprender a fazer coisas que antes não conseguíamos por falta de tempo. Eu, por exemplo, passei a fazer uma horta em casa, porque isso poupa dinheiro e estimula a actividade”.

A sessão de histórias protagonizada por Sufaida Moyane, antes deste distanciamento social, foi ensaiado de outra forma. Há alguns meses a actriz quis teatralizar O mar de Maputo com crianças. Porque o tempo mudou, aí vem a artista com um novo formato.

 

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