O País – A verdade como notícia

Na manhã daquele Domingo, a Alicinha e a Julia, que levava o sobrinho amarrado às costas,  puseram-se a caminho da casa da Melita. Esta vivia nas proximidades da taberna do Loureiro, até não muito distante donde ocorrera aquele incidente em que perdera o lábio superior. Iam a conversar sobre lugares-comuns, apenas para vencer o tempo da caminhada.

Cruzaram-se com raparigas e rapazes de roupas domingueiras, a caminho ou provenientes da missa na igreja da Missão de S. José. Vinham com ares descontraídos e alegres, de quem acabava de descomprimir os peitos com as comunhões ofertadas pelo padre Fernandes. Algumas mulheres estugavam o passo, de regresso dos mercados onde foram adquirir provisões para os matabichos dos maridos, antes do regresso dos campos de futebol onde iam assistir às partidas de futebol matinais entre as suas equipas favoritas.

Aproximavam-se da moradia da Melita, no cruzamento de um beco  nas traseiras do “Lourinho” com um caminho largo que desembocava no Muvumbi. A Alicinha estacou e disse à prima:

“ Estás ver esta casa aqui?”, apontou com um dedo as ruínas duma barraca de madeira e zinco, desgatada pelas intempéries e pelo abandono”. Aqui nesta casa aconteceram coisas muito misteriosas”.

“Estou curiosa por saber o que sucedeu”, disse a Julia, a ajeitar a criança às costas, desconfortada com o calor que crescia.

E a Alicinha contou  a tragédia da família que em tempos habitou aquela cabana ora  em ruínas.

“ Nesta barraca vivia um casal que tinha uma filha chamada Elisa. O dono da casa chamava-se vovo Madala, uma pessoa já de idade, de uns sessenta anos, talvez. Vinha de Porto Amélia e as pessoas diziam que era macua, porque é macua todo o homem que se veste com túnicas brancas e usa um barrete de tipo cofió. Trabalhava como alfaiate na varanda duma loja no Xipamanine, mais precisamente do indiano Bhai, onde fazia baínhas em capulanas e remendava roupa variada. Toda a gente gostava dele porque era um homem sossegado, alegre e  brincallhão.

A mulher do vovô Madala chamava-se Hassina, também muito estimada aqui na zona e vendia hortaliças no bazar do Diamantino. Eles juntaram-se quando ela acabava de ter uma filha, há dezasseis anos, depois de perder o marido num acidente de um barco que virou, durante uma travessia da Catembe para a cidade. Conheceram-se lá na loja do Bhai, e resolveram juntar-se. Assim, iam ajudar-se e viver o resto da vida porque tinham uma comunhão de interesses: uma companhia responsável e a partilha das dificuldades do dia-a-dia.

A criança cresceu nas mãos do velho como filha legítima e tudo ele fazia por ela, como se fosse sua. Ela estudou na escola primária da Missão e crescia que, eh!, os vizinhos diziam que era uma promessa de mulher, elegante, bonitona e alegre como o padrasto.

Tudo parecia correr bem neste pequeno lar. Como sempre acontece nas famílias, a Elisinha e a mãe começaram a desentender-se. Discutiam por dá-cá-aquela-palha. Coisas pequenas transformavam-se em grandes problemas. Ora era a água que faltava no tambor…porque é que não foste carretar água ali no Dias?…ora era a roupa do padrasto que não estava bem engomada…será que nesta casa não temos ferro de engomar?… ora chegava tarde da escola…onde estiveste durante este tempo todo?…; enfim, uma infinidade de reprimendas que deixavam a moça amuada e sem disposição para conversar durante dias. Refugiava-se sempre no ombro do padrasto para aliviar as frustrações. Este tranquilizava-a com palavras de afecto e de encorajamento: “…és mulher, um dia vais ser como a tua mãe…estas más disposições acontecem sempre a qualquer mulher e elas vão passar…desculpa a tua mãe…”. E a vida voltava ao normal.

Durante aquele perido de preparativos para as festas de Natal e do Ano Novo o vovô Madala demorava-se a largar do trabalho. Contingentes de mães exigiam da sua perícia para embainhar capulanas, as últimas remessas chegadas de Hong-Kong, às quais elas atribuíam nomes; ora era o Xivite xa Bhai, ora era o Xigubo xa Filipe, Salimina, ou Xi-kambana, e outras mais designações que eram homenagens ou registos de memórias na história da comunidade. Preocupada pelos atrasos a Elisinha ia ao Xipamanine ajudar o padrasto e, juntos, já ao anoitecer, recolhiam a casa em animadas conversas, confortados pelo sentimento de que o sacrifício valera a pena e que se o faziam era para o bem de todos. Ele adorava-a, era a filha que nunca tivera. Ela nutria por ele uma especial admiração e o orgulho de alguém grato por ter um pai afectuoso.

Até que chegou aquele dia em que todos despertaram dos sonhos de felicidade em que adormeciam.

A mãe Hassina atrasara-se nas vendas, esperara pelo homem da camioneta que  fornecia as hortaliças durante toda a tarde. E este não havia maneira de chegar e já fazia-se tarde. Era sempre um risco desafiar a escuridão dos becos deste Chamanculo, sem iluminação nem policiamento. Com os malaíta que se escondem nas sombras tudo poderia acontecer. Ainda há dias violaram e mataram a filha duma colega vendedeira lá do bazar, coitada da moça! Aquele demorara-se por causa duma avaria na camioneta, em plena estrada de Marracuene.

A mãe Hassina chegou a casa às vinte horas, quando a emissora da Hora Nativa transmitia as notícias do dia. Entrou pelo portão sem ruído. De dentro de casa escutava-se apenas a voz baixa do locutor no rádio transístor sobre o aparador. Do vovô Madala nem sombra! Da Elisinha também não detectava sinais da sua presença em casa. Dirigiu-se à despensa que esta ocupava. Ao contrário dos hábitos da casa, a   atmosfera do compartimento era de escuridão e os candeeiros já deviam estar acesos. Como a surdina de vozes que vêm de longe, escutou murmúrios, a respiração arquejada e suspirosa de gemidos de prazer que se soltavam daquele quarto. Pelas frestas de caniço descortinou o vulto convulsivo e gemebundo de seu marido, o vovô Madala, e testemunhou a entrega vuluptuosa e voluntária da sua filha Elsinha.

Recostou-se à parede para recobrar o equilíbrio. O que presenciara era uma cena dos quadros que se pintam e expõem no Inferno. Este caira e tomara como habitação a sua casa. Quantas vezes aquilo sucedera? Desde quando assim era? Porque razão não se dera conta destas práticas há mais tempo? Eram estas algumas das muitas perguntas que se atropelavam na cabeça.

Regressou ao fogo principal da habitação. Acendeu os candeeiros e compôs-se.

O vovô Madala penetrou na sala como se viesse do banho: fresco e sorridente. A Elsinha fez o mesmo mais tarde e deu à mãe a desculpa de que atrasara-se na cantina do Dias onde fora comprar petróleo.

A mãe Hassina sofrera já demais. Nem quer recordar o que foram os tempos em que vivera com o falecido marido. Tempos para esquecer! Com o vovô Madala parecia que os céus se abriram e contemplaram-na com a felicidade de ter alguém que a respeitava e amava. A si e à sua filha, que ele tratava com muito carinho, como se sua fosse. Nessa noite teve os piores pesadelos da sua vida, monstros que  lhe invadiram os sonhos, que a interpelavam e empurravam para o precipício dumas covas onde fogos altos ardiam; escutou os gemidos da filha no meio duma multidão de supliciados em combustão, a imagem do vovô Madala metamorfoseado em Lucifer, com uma máscara medonha, a soltar grunhidos; e trazia a forquilha de Satanás numa mão e uma serpente viva noutra; gargalhava à entrada do pórtico duma caverna guardada por mulheres nuas que entoavam cantigas obscenas e empunhavam varapaus com formatos de pénis.

A madrugada despontou serena. Os galos cantaram os cantos habituais. Mas o dia, ou os dias, jamais seriam como os habituais na casa da tia Hassina. Ela assim o concebeu e assim o decidiu. Recolheu  o escândalo no silêncio do peito, calou na boca as palavras de protesto. Sofrera já demais. Era de madrugada mas já tinha uma babalaza, a lazeira do sofrimento e da humilhação. E interrogou-se: qual é o xarope  para esta ressaca, senão voltar a beber do mesmo sofrimento? Qual é o remédio para calar o fogo dum escândalo senão outro escândalo?

Não passavam três dias a mãe Hassina preparou aquele jantar de família. Calhava ser a data de aniversário do vovô Madala. Ia completar sessenta e cinco anos de idade. E estas ocasiões só se comemoram uma vez na vida. Convidados especiais não houve.

Durante a refeição a conversa decorreu amena: a chegada duma nova remessa de capulanas na loja do Bhai, “…como vai o curso de costura, minha filha?…as hortaliças já não chegam para os fregueses… o pedido da filha da vendedeira do balcão ao lado é já no sábado…há mulheres com sorte!…”; enfim, um nunca mais acabar de banalidades que preenchem as conversas duma família feliz. Quem diria que haveria alguma espécie de animosidade no espírito da dona da casa se ela se esmerara nos guisados, na mathapa à moda de Marracuene e na sobremesa? Até deu-se ao luxo de brindar o aniversariante com uma garrafa de vinho “Matateu”. Haveria mesmo algo que houvesse maculado o entendimento neste lar que parecia tão coeso e prendado?

E tudo aconteceu. Antes da meia-noite o vovô Madala morreu sem se aperceber das circunstâncias da sua própria morte. Apenas engasgou-se, espumou pelo nariz e pela boca; e caiu de lado, inerte, sem vida. No instante seguinte, a Elsinha desabou da cadeira e estatelou-se de bôrco na sala-de-jantar, cheia de vertigens e morreu sem um queixume, com os olhos esbugalhados, surpreendida pelo esgar de ódio que decifrou do rosto da mãe.

O desaparecimento simultâneo do vovô Madala e da Elsinha deu azo a desencontrados comentários e muitas interrogações. A mãe Hassina respondia que o marido e a filha haviam-se deslocado a Porto Amélia de urgência, para tratar de assuntos ligados à família que ele lá deixara: “…ele já não vê a família há muito anos e há problemas de heranças que tem de resolver. Daí a urgência na viagem e a demora lá na terra…”.

Três anos passaram depois do desaparecimento do marido e da filha da Hassina”.

“ Três anos sem ninguém saber o que aconteceu? Essa mulher teve sorte!”, admirou-se a Julia que, até àquele ponto do relato, mantivera-se silenciosa e espantada com o dramatismo da narração.

“Sim, três anos sem se saber ao certo onde eles estavam. O problema caira já no esquecimento. A vizinhança passou a ter outras preocupações e desviara a atenção para questões mais prementes: “…como ganhar o pão-nosso-de-cada-dia?…como alimentar e pagar a escola para estas crianças todas que não param de nascer?…”. Um segredo como este não fica assim por toda a vida. Alguma coisa tinha de acontecer para revelar a verdade.

Aquele homem andara pelas lojas dos indianos no Xipamanine, desde o Centro Associativo, até ao Zundap, a perguntar se conheciam um velho chamado  Madala, ou assim conhecido, e que trabalhava na varanda da loja dum tal Bhai. Nem foi difícil localizar o sítio. O próprio Bhai manifestou a sua grande preocupação pelo desaparecimento do alfaiate, que era seu amigo e um grande costureiro, atencioso e sempre pronto a ajudar a clientela. Mandara procurar pela esposa dele no bazar do Diamantino. Esta confirmara que o velho se deslocara para o norte, em Cabo Delgado, mas que não tardaria a regressar e que, ela própria, já estava em sérios cuidados pela demora dele e da filha.

O forasteiro ficou apreensivo com a informação:

”…o meu pai nunca pôs os pés em Porto Amélia há mais de seis anos, embora a gente se comunique por meio de cartas. Estou preocupado porque deixei de receber as cartas dele. A nossa família está desunida, cheia de confusionistas, e precisamos dele para resolver um problema de heranças. Os meus tios querem ficar com as nossas propriedades e só ele, que é o mais velho, é que pode resolver esse problema…”.

O Bhai desconfiou e enrugou a testa, cheio de dúvidas. “… o que você quer dizer é que o seu pai nunca chegou lá em casa, em Porto Amélia?”

”Sim, não vejo o meu pai há muito tempo, e nunca saí lá da terra”.

Os dados estavam lançados. Alguma coisa a mãe Hassina estava a esconder. O Bhai e o filho do vovô Madala dirigiram-se à esquadra da polícia, no Xipamanine, para comunicar a suspeita sobre o desaparecimento daquele e da enteada.

A mãe Hassina foi surpreendida no bazar, quando apregoava a frescura das hortaliças expostas na banca. O espanto foi geral. Ninguém conseguia emudecer a surpresa: “…o que aconteceu com a Hassina?…terá roubado alguma coisa?…será que se meteu nas políticas do Mondlane?”…especulações sobrevoaram a atmosfera do bazar e alimentaram as conversas da semana.

Durante interrogatório sobre o paradeiro daqueles, pela boca da própria Hassina, veio a confissão do crime hediondo de envenenamento do marido, o vovô Madala e de sua filha, a Elsinha, por tê-los surpreendido num acto de ofensa sexual praticado na casa matrimonial.

“E onde estão os corpos?”, perguntaram os agentes da polícia.

“Vamos à minha casa. Vou mostrar onde estão”, respondeu, sem oferecer resistência.

Aquele foi um cortejo fúnebre com destino à casa onde ela habitava. Ia algemada e um contingente de testemunhas curiosas engrossava a procissão.

O ambiente da casa da Hassina era de muita tranquilidade. Nada fazia suspeitar que lá ocorrera um crime com aquela envergadura. Não havia indícios de violência, nem doutros sinais que pudessem fornecer pistas de que algo de monstruoso ali sucedera.

Quando lhe repetiram a pergunta sobre o paradeiro dos corpos ela apontou o chão por debaixo da mesa, com toda a naturalidade, sem nenhuns remorsos. Depois da morte daqueles, durante o resto daquela noite cavou um buraco muito fundo e lá depositou os cadáveres. Cobriu o chão com todos os cuidados e pôs uma esteira sobre essa campa improvisada. Meses depois, quando a notícia do desaparecimento já se esbatera na comunidade, ela própria cimentou aquele chão, como se de um mausoléu se tratasse. Convivia com as vítimas do seu crime, os mesmos que amara como marido e filha, mas que odiara como amantes.

Os coveiros da Câmara desenterraram os restos mortais, umas ossadas misturadas umas às outras, pedaços de carnes decompostas que inundaram o bairro com um cheiro nauseabundo, e meteram-nas numa urna metálica. Esta foi introduzida na carroçaria do carro funerário com alguma sem-cerimónia. Que espectáculo tão macabro!

Quando os residentes viram aquele kwerre comprido, todo pintado de um cinzento prateado, com as inscrições de “Serviços de Salubridade, Câmara Municipal de Lourenço Marques”, a rolar no areal ficaram a saber que a Hassina matara o marido e a filha para punir o crime de incesto que haviam praticado e que _ contradição das contradições_ conservara os corpos em casa porque os amava e deles não podia separar-se porque eram as únicas pessoas de família que possuía.

“ Chiça, ainda vou sonhar com isso!”, disse a Julia com um estremecimento. “E aonde é que essa Hassina está agora?”.

“ Onde é que ela poderia estar? No manicómio, claro!”, respondeu a Alicinha, a bater ao portão da casa da Melita.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

O Presidente da República não ficou indiferente à distinção de João Ribeiro e de Ana Magaia, no Kisima Music & Film Award, evento artístico realizado no Quénia este mês. Através de um comunicado de imprensa, Filipe Nyusi felicitou o cineasta e a actriz por hastearem a bandeira de Moçambique no continente e no mundo.

No mesmo comunicado de imprensa enviado à nossa redacção, o Presidente de República afirma: “Duas grandes figuras das artes dão-nos a primazia de celebrar e hastear a nossa bandeira no continente africano e no mundo. Apraz-nos e enche-nos de orgulho porque temos a certeza de que o nosso cinema capta atenções a nível mundial. Queremos que o cineasta João Ribeiro e a actriz Ana Magaia sejam um exemplo contínuo de elevação das artes dentro e fora do nosso país. É motivadora a vossa entrega e compromisso para com as artes. Vocês ganham e o povo moçambicano ganha mais ainda pela proeza do nosso feito. Estão de parabéns João Ribeiro, Ana Magaia e todos fazedores da Sétima Arte”.

 No Kisima Music & Film Award, realizado no Quénia, João Ribeiro foi laureado “Melhor Realizador de África” e Ana Magaia “Melhor Actriz Secundária”, pelo desempenho na longa-metragem Avó Dezanove e o segredo do soviético.

Na mesma comunicação, o Presidente da República endereçou uma mensagem de felicitações a João Ribeiro pela conquista do Prémio de Melhor Longa de Ficção, na sétima Edição do Plateau – Festival Internacional de Cinema de Praia, em Cabo Verde, sempre com o filme “Avó Dezanove e o Segredo Soviético”, que teve a estreia internacional no princípio do ano, nos Estados Unidos de América.  

 


Conforme a previsão, a mais recente obra literária de Nelson Saúte foi apresentada ao público esta terça-feira, na cidade de Maputo. Na cerimónia de lançamento do livro, Saúte explicou que Planisfério moçambicano – atlas literário é uma reflexão, uma indagação e interpelação de um escritor sobre o fenómeno cultural moçambicano, sobre os seus autores, sobre os seus músicos, sobre os seus pintores, fotógrafos, sobre aqueles que têm praticado a arte no país e sobre o seu contributo.

Segundo afirmou Nelson Saúte, o seu novo livro é uma homenagem à cultura moçambicana. E mais: “É a perspectiva de um Moçambique através da cultura. Planisfério moçambicano, no meu entendimento, significa ver Moçambique através da cultura e daqueles que têm contribuído para que o país se inscreva não só no mapa de África, mas no mundo”.

Para o escritor e editor, a escrita dos textos que constituem Planisfério moçambicano foi sobretudo um grande exercício de memória. “Nós vivemos num país que tendemos a esquecer rapidamente aqueles que são as nossas referências. Este livro está polvilhado de referências, de pessoas que estão vivas e que têm contribuído muito para a perspectiva cultural e identidade moçambicana. No fundo, este é um livro de reflexão sobre a identidade moçambicana”.

Editado pela Marimbique, Planisfério moçambicanoé um livro de alguém que actuou como jornalista cultural ao longo de 30 anos, entrevistando escritores, visitando exposições de pintura, acompanhando concertos musicais, ouvindo, lendo, admirando as várias manifestações artísticas moçambicanas e que foi cartografando esses livros, discos, quadros ou artes cénicas.

O livro de Saúte inclui textos sobre vários autores. Por exemplo, Noémia de Sousa, José Craveirinha, Marcelino dos Santos, Rui Nogar, Rui Knopfli, Albino Magaia, Leite de Vasconcelos, Aníbal Aleluia, Malangatana, Ricardo Rangel, Kok Nam, Zena Bacar, João Cabaço, Pedro Langa, Zeca Alage e ainda figuras como Nelson Mandela ou Kofi Annan.

 

O poeta e escritor Nelson Saúte retorna às publicações. A partir das 18 horas desta terça-feira, o autor irá apresentar aos leitores o seu mais recente livro, intitulado Planisfério Moçambicano – Atlas Literário.

O volume publicado sob a chancela da editora Marimbique reúne textos sobre escritores, pintores, cantores, fotógrafos, actores e outras personagens da vida cultural moçambicana e africana, redigidos originalmente para este jornal entre 2017 e 2018.

De acordo com a nota de imprensa sobre o evento, autores como Noémia de Sousa, José Craveirinha, Marcelino dos Santos, Rui Nogar, Rui Knopfli, Albino Magaia, Leite de Vasconcelos, Aníbal Aleluia, o pintor Malangatana, fotógrafos Ricardo Rangel ou Kok Nam, cantores como Zena Bacar, João Cabaço, Joaquim Macuacua, Pedro Langa ou Zeca Alage, ou ainda figuras como Nelson Mandela ou Kofi Annan, atravessam as páginas do livro.

Num breve texto apresentação de Planisfério moçambicano, escreve-se sobre a obra: “É, sobretudo, uma celebração de Moçambique, dos seus autores, dos seus músicos, dos seus pintores, dos seus fotógrafos, da sua memória e da sua cultura, da sua inteligência e inquietude. Por outras palavras, um planisfério moçambicano: o país visto sob o ponto de vista cultural”.

 Sobejamente reconhecido no cenário artístico e cultural moçambicano, Nelson Saúte nasceu em Maputo. É formado em Ciências de Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e é mestre em Sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Foi jornalista na imprensa, na rádio e televisão e foi docente universitário. Foi colunista e publicou textos literários em diversos periódicos moçambicanos. Em Portugal integrou as redacções do JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias) e do Público e colaborou na rádio TSF. Manteve um programa sobre livros na televisão pública e foi comentador político na Rádio Moçambique, onde se iniciou, nos anos 80, como actor, no programa “Cena Aberta”. Foi administrador executivo dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). Editou, ao longo de seis anos, a revista de bordo Índico da LAM. Fundou e é curador do Museu dos CFM. É editor da Marimbique. Publicou volumes de poesia, de ficção e de entrevistas, compilou e organizou antologias de poesia e de contos. Seus livros estão publicados em Moçambique, Portugal, Brasil, Itália e Cabo Verde.

 

 

 

 

O diâmetro da base opaca do copo era menor que a do topo, o copo estava assente numa mesa rectangular de pinho, o conteúdo interior borbulhava até desaguar na superfície espumante, a frescura do líquido dourado transpirava deixando a parte externa deste completamente ensopada.

O proprietário do recipiente olhava meditabundo sem se importar com o barulho produzido por outros clientes que conviviam procurando fazer-se ouvir ante a música ensurdecedora expelido por potentes colunas.

Momentos de regressão inolvidável assaltaram a sua mente, um sorriso inocente errou-lhe pelos lábios ainda sequiosos.

Segurou o copo, sentiu o frescor fluir corpo adentro animando o seu estado de espirito, era a primeira vez em um ano que tinha o privilégio de usufruir de um momento especial, não demorou, deu um gole.

– Ahh! – estalou a língua.

Depois num trago prazeroso eliminou o que ainda restava da cerveja.

Buscou a servente, submersa num mar de gente segurando acrobaticamente uma bandeja com inúmeros copos.

Quando a capturou com o olhar levantou a mão direita com o dedo indicador erecto, a moça voltou a perder-se para retornar instantes depois com outro copo.

Enquanto aguardava ansiosamente que outro copo chegasse desequilibrou-se devido a estrutura deficiente do banco onde se encontrava sentado, movimentou-se para esquerda com o propósito de se equilibrar, este movimento fez que o guarda que se posicionava no limiar do bar o fuzilasse com um olhar inquiridor, mas quando percebeu que o seu vigiado não constituía ameaça manteve-se na posição de controla-lo a partir da porta.

A servente pousou o copo na mesa, ele não demorou a segurar e a levar para a boca, tragou sofrivelmente, limpou a barba de espuma, a animação que morava no seu ser redobrou.

Depois levantou-se e caminhou calmamente em direcção a porta onde estava o guarda, estendeu ambas as mãos e este algemou-o depois cobriu as mãos com uma camisola.

Iniciaram a caminhada de regresso a penitenciária de civil localizada num dos bairros da cidade. Enquanto caminhavam a movimentação popular fazia-se sentir com os citadinos aglomerados nas paragens, muitos dos que aguardavam o seu momento de embarcar estavam submersos nos seus telemóveis. Invejo-os pela liberdade que usufruíam, mas estava grato pelo momento de liberdade prematura que lhe permitiu beber dois copos.

“ Museu vazio” – gritou um cobrador de chapa.

Não demoram para chegar, quando adentraram para o recinto prisional o recluso verteu lágrimas de saudades dos breves momentos em que foi um homem livre. O guarda prisional acompanhou-o até a sua cela e libertou-o das algemas.

António Murrada cumpria a sua pena de prisão de dois anos devido a posse ilegal de “soruma”.

Dias antes da liberdade provisória António era hostilizado pelo seu verdugo que de forma implacável infligia pesado castigo, mas Murrada procurava a todo custo cumprir com as normas da cadeia para não sofrer a punição que o seu carrasco prazerosamente impunha.

Mas o guarda penitenciário Rafael Salgado, apossado de malvadeza encontrava sempre motivos para castiga-lo. Havia dias de cacetadas injustificadas e outros de serviço pesado.

António Murrada ficou com a musculatura consumida pelos dissabores do quotidiano penitenciário e a sua juventude perdeu-se por conta dos maus tratos.

Num desses dias Salgado apresentou-se imponente em frente a cela de Murrada e pediu que o acompanhasse, o prisioneiro resmungou, seu carrasco alvejou-o com olhar incisivo fazendo com que o recluso obedecesse.

Quando chegaram ao destino o guarda penitenciário indicou-lhe o trabalho que deveria efectuar.

– Desculpa chefe, mas eu limpei as latrinas ontem, hoje é dia de outro – bradou serenamente.

– Preso cento e vinte – cumpra ordens.

Olhou furioso para Salgado, todo seu o nervosismo ficou condensada nos olhos injectados de sangue. Depois de cumprir a nefasta tarefa regressou para o seu domicílio prisional acompanhado do seu fiel verdugo.

Num dia pela manhã quando António Murrada tomava o seu banho de sol no quintal da prisão era severamente acompanhado vigiado por Salgado.

De repente uma queda aparatosa do guarda Rafael Salgado levantou um reboliço no quintal prisional, ninguém se aproximava da vítima estatelada que esperneava e esbracejava, os seus colegas que estavam longe demoravam a chegar.

Quando todos chegaram guardas e reclusos ninguém se prontificou a socorrer a vítima pois estavam reféns das suas superstições.

Quando Murrada percebeu do que acontecia correu para socorrer a seu implacável verdugo que sofrera um ataque epilético, o socorrista introduziu um pedaço de pano entre os dentes para evitar que este mordesse a língua e colocou a cabeça da vítima na lateral porque este se babava.

Quando as autoridades médicas chegaram o primeiro socorro já tinha sido acautelado, recolherem o enfermo, colocaram numa maca e procederam a retida do recinto prisional em direcção ao hospital central de Maputo.

Comentaristas não remuneráveis entre reclusos e guardas debatiam a pronta intervenção de Murrada que apesar de massacrado socorrera o seu mais directo inimigo.

No dia seguinte o pequeno herói da penitenciária foi chamada a presença do director.

– Caro senhor António estou imensamente grato pela atitude e préstimos oferecido ao nosso colega – afirmou o director. – Graças a sua intervenção que o nosso colega escapou.

Murrada manteve-se firme e calado.

– Gostaríamos de recompensa-lo, diga-me o que deseja?

Não demorou para o recluso levantar a mão direita e esticar dois dedos, indicador e o mediano.

– O que significa esses dois dedos, recluso Murrada?

– Dois copos – respondeu por fim – e logo acrescentou. – De cerveja.

– Muito bem, irei pedir a um dos guardas que comprem uma garrafa – afirmou o director.

– Desculpe senhor director mas o meu pedido não esta completo.

– Diga.

– Gostaria de beber os dois copos como um homem livre.

 

 

O Museu Nacional de Arte, na cidade de Maputo, tem várias obras de Mankew, Makamo e Noel Langa patentes na exposição Tempos e percursos em 3D, aberta ao público até Fevereiro do próximo ano.

Os três artistas plásticos têm uma longa experiência nas artes plásticas. Já no período colonial, exerciam a actividade e, tantas décadas depois de se descobrirem artistas, continuam a fazer o que gostam. Assim sendo, a exposição colectiva patente no Museu Nacional de Arte, na cidade de Maputo, não poderia ter um outro título, se não Tempos e percursos em 3D.

Inaugurada há dias, a colectiva traz uma mensagem concreta de Mankew, Makamo e Noel Langa: “Com esta exposição, nós quisemos dizer que ainda estamos aqui. Ainda estamos vivos e com a nossa arte. A exposição é para lembrarmos aos amantes da nossa arte, aos que nos apoiam, aos nossos governantes que continuamos com talento forte e cada vez mais forte, em relação ao que fizemos no passado”, afirmou Mankew.

Tempos e percursos em 3D é uma mistura de telas e esculturas (antigas e novas). Em algumas obras, no entanto, Mankew confessa que não conseguiu atingir a perfeição que desejava, pois a vista já não dá para tanto por causa da velhice. Ainda assim, ficaram muitas telas pintadas fora da exposição colectiva, que, próximo ano, irão integrar uma individual do pintor.

Num encontro promovido pelo Museu Nacional de Arte, na cidade de Maputo, Mankew partilhou suas histórias e percursos. Aí os mais jovens ficaram a saber que o artista de Marracuene, distrito de Maputo, começou a pintar com tinta de china, em 1960. Já em 1971, fez uma exposição colectiva na Associação Africana de Lourenço Marques, no Alto Maé, hoje Matchedje.

Mankew nasceu 1 de Janeiro de 1934, em Marracuene. Com 20 anos de idade, emigrou para trabalhar nas minas da África do Sul. Algum tempo depois, voltou a Moçambique e aí começou a pintar na área da construção civil. Lá esteve cinco anos. Quando se fartou, preferiu investir na agricultura, no seu distrito natal. A partir de 71, sim, as coisas mudam e Mankew passa a investir nas artes plásticas, o que lhe garantiu muitas oportunidades, como exposições e intercâmbio artístico em vários países, como Zimbabwe, África do Sul, Egipto, Tanzânia, Alemanha, Áustria, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Itália, Cuba, Nigéria e Portugal. E ainda ofereceu uma obra à União Africana.

A promover a exposição em forma de conversa, no Museu Nacional de Arte, também esteve Noel Langa. Nas telas do artista que “pinta olhando para o mundo”, como é habitual, não faltam pássaros, cajus e senhoras.

A exposição colectiva de Mankew, Makamo e Noel Langa está patente no Museu Nacional de Arte até 7 de Fevereiro, podendo ser visitada de terça a domingo, incluindo feriados.

 

A Companhia Nacional de Canto e Dança celebrou, esta noite, 41 anos existência. O espectáculo de comemoração realizou-se com a presença do Presidente da República, no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, na cidade de Maputo.

O verso foi dito com ênfase: “No povo buscamos a força e a razão”. Alto e bom-tom! Os protagonistas? Um conjunto de bailarinos de outros tempos da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD), como que a justificarem a longevidade de um grupo que existe lá vão “apenas” 41 anos. Quer isto dizer que foi fundada em 1979, quatro anos depois de proclamada a independência nacional.

Num espectáculo realizado no Centro Cultural Universitário da UEM, várias gerações da CNCD juntaram-se para celebrar trajectos e percursos de uma instituição artística que levou para longe o nome de Moçambique. Por isso, como reconhecimento da sua contribuição na promoção da cultura, o Governo associou-se ao evento de celebração dos 41 anos de existência como forma de valorizar a obra feita e que ainda está por fazer.

Durante mais ou menos duas horas, na primeira fila, o Presidente da República viu os artistas contarem parte da história do país através da arte. A Companhia não só dançou. Igualmente, cantou, recitou poemas e desenrolou narrativas enraizadas na memória colectiva dos moçambicanos. E quando chegou o momento de subir ao palco, Filipe Nyusi, sorridente, livre das formalidades políticas, ainda ensaiou alguns passos de dança enquanto caminhava em direcção aos holofotes. Antes de tudo, primeiro confessou que a emoção de estar ali – naquele palco montado no Centro Cultural Universitário da UEM, localizado na Avenida Agostinho Neto, na cidade de Maputo – era grande. E ficou-se a saber porquê. Há muitos anos, no mesmo palco que discursava, afinal Filipe Nyusi dançou mesmo a valer. Na altura, o Presidente fazia parte de um grupo de jovens que vinha de Tunduru. Na primeira pessoa: “Em 1975, antes da independência nacional, eu dancei aqui”. Depois de algum espanto naquele centro cultura, prosseguiu: “Aqui revela-se a história de todo Moçambique, de todas as gerações”, por isso ter pedido que a Companhia continue o seu percurso como um clube infinito, inclusive, produzindo melhores jovens artistas.

Nesta noite de 17 de Dezembro, a CNCD voltou a ecoar a sua arte ao público muito tempo depois do seu último espectáculo. No palco foram exibidas várias danças moçambicanas, com maior destaque para xigubo. E, quem ficou até ao fim da sessão, ouviu a Ministra da Cultura e Turismo prometer que a mesma noite, de 17 de Dezembro, marca o regresso da Companhia Nacional de Canto e Dança. “É verdade que andamos um pouco desaparecidos, mas este é o primeiro sinal, de que vamos regressar”. A partir do próximo ano, de acordo com Eldevina Materula, a CNCD terá uma temporada.

Em 41 anos de existência da CNCD, o coreógrafo David Abílio serviu mais de 30 anos. “Nesta nova jornada, a Companhia arrancou com a minha obra. Esta é a maior homenagem que a Companhia podia prestar. Hoje senti-me valorizado e digo que valeu a pena todo o esforço”, afirmou David Abílio, de facto, antigo professor de teatro de Filipe Nyusi.

 

 

 

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