O País – A verdade como notícia

 

 

Por Nataniel Ngomane

 

Minha mãe:

Trago a resina das velhas árvores

da floresta nas minhas veias…

(José Craveirinha, “Mãe”, em Karingana ua Karingana)

 

Embora lançado no ano passado, não poderia haver melhor altura para rabiscar algo sobre History in a frame (2021), o mais recente álbum duplo de Jimmy Dludlu. Como sugere o título, trata-se de um conjunto de imagens sonoras que, reconstituindo uma longa e profunda História, a partir de diversos ângulos, apresenta-se sob a forma total de dezoito faixas musicais – nove em cada disco – inspiradas em grandes personalidades femininas. Essas faixas desfiam histórias sobre e dedicadas à mulher de um modo geral, mas não só, e à mulher moçambicana em especial. Daí a ideia de esta poder ser a melhor ocasião para aqui se reunirem alguns traços desse álbum e partilhá-los.

Talvez não fosse preciso lembrar que o mês de Março, que há pouco terminou, acolhe o Dia Internacional da Mulher. Mas já está lembrado. Abril, mês agora em curso, é especialmente marcado pelo Dia da Mulher Moçambicana. A culminar essa sequência, o folheto da capa do álbum mais recente de Jimmy apresenta vinte e uma dedicatórias a igual número de mulheres, sobre as quais se faz uma brevíssima abordagem, além da variedade temática que esse álbum oferece, incidindo de modo singular sobre a figura materna – no sentido mais amplo. Dessa óptica, de facto, não poderia haver melhor momento para dizer algo sobre esse álbum, que não fosse este.

 

As dedicatórias

A primeira dedicatória no folheto do álbum vai para a Rainha Abibi Achivandjela. Bibi Acivaangila I ou Aluusi Apitingombe, de nome próprio – de acordo com Manuel Vene (2018: 11) –, nasceu no actual território de Moçambique, na província do Niassa. De prisioneira de guerra, escrava e serva, chegou à grande figura histórica que reinou na região do hoje distrito de Majuuni, no Niassa. Isso, entre os finais do século XIX e princípios do XX. Já elevada a Rainha, Acivaangila I contribuiu para o engrandecimento do Estado de Mataaka em termos políticos, geográficos, económicos e demográficos, e resistiu grandemente à penetração colonial portuguesa na região sob seu reinado. Não por acaso, os seus feitos foram reconhecidos publicamente no X Festival Nacional de Cultura, em 2018, na cidade de Lichinga, festival a ela dedicado e em sua homenagem.

Janet Mondlane, Graça Machel e Lurdes Mutola são, entre outras, algumas das mulheres brilhantes para as quais este álbum é dedicado. Entre elas ainda se destacam Josina Machel, Noémia de Sousa, Bertina Lopes, entre outras. Winnie Mandela, Adelaide Tambo, Albertina Sisulu, Maria da Luz Guebuza e Isaura Nyusi não ficam de fora, sendo também contempladas. Nota particular, todavia, tal como no caso de Acivaangila I, vai para a dedicatória feita à escritora, ensaísta e música Paulina Chiziane, vencedora do Prémio Camões 2021, um dos mais prestigiados galardões atribuídos nas literaturas em língua portuguesa.

Com percurso literário sinuoso desde a publicação do seu primeiro romance, Balada de amor ao vento (1990), até à outorga daquela distinção – percurso, não poucas vezes, marcado por altibaixos em torno da qualidade da sua escrita, e não só, sobretudo no seu país –, ao ganhar esse prémio, Chiziane tornou-se na primeira mulher africana – e primeira negra – a ser laureada por tamanha distinção. Isso, num universo de trinta e três (33) premiações em que apenas sete (7) mulheres foram contempladas. Ela inclusa. Esse feito não contribuiu somente para colocar Chiziane ao lado dessas outras grandes mulheres batalhadoras da África Austral, mas também ao lado dos grandes nomes da literatura moçambicana e das literaturas em língua portuguesa. Em reconhecimento a esse trabalho, aos seus feitos, Jimmy faz essa dedicatória à Paulina Chiziane num álbum que, coincidentemente, veio a público no mesmo mês em que a autora moçambicana foi agraciada. É como se Jimmy tivesse previsto esse desfecho. Mas não, não previu: simplesmente, o seu olho artístico acompanhava atentamente as batalhas dessa outra grande mulher, Paulina Chiziane, tendo, por isso, decidido homenageá-la. A preparação e os acabamentos desse álbum recente de Jimmy, incluindo a inserção das dedicatórias, remontam, de facto, os anos 2019 e 2020.

A fechar o espaço das dedicatórias – e, diga-se, com chave de ouro -, o folheto apresenta-nos um poema de Malaika Dludlu, filha de Jimmy. Em muito poucas palavras, o poema traz-nos à memória o longo percurso histórico dos povos africanos, das origens à actualidade, passando pelas desumanas práticas da escravatura e violência colonial. Felizmente, superadas. Enquanto nos lembra de onde viemos, numa quase perspectiva materna, deixa no ar a ideia de que a nossa história deveria (ou deverá?) dar forma ao futuro, para o qual temos força para criá-lo. Afinal, a nossa história, o nosso futuro e a nossa esperança, afirma Malaika, estão dentro de nós! Habitam-nos. E é precisamente por aí que somos conduzidos no interior deste mais recente álbum de Jimmy Dludlu.

 

As temáticas

Essa breve incursão pelas dedicatórias à mulher, associadas à lavra feminina dos dezoito (18) versos do poema ora referenciado, explicam em parte porque a presença da mulher é retomada amiúde nas diversas faixas do álbum, directa ou indirectamente. É um álbum que não celebra apenas a mulher; mas, através dela, também os seus feitos, as suas realizações. Suas inspirações e aspirações. Assim se explica a evocação premente – logo na primeira faixa, “Tara Tara”, original da moçambicana Marllen Preta Negra – de se dever cuidar devidamente do homem e da mulher. Não apenas do homem, como se soe ouvir por aí. Aliás, o enfoque da letra de Marllen, mais completa, é apenas a mulher, sinal do quão tem sido ignorada, posta de lado. Já na composição de Jimmy, subjacente, está a ideia de que tanto o homem quanto a mulher têm o seu papel a desempenhar na sociedade. Na longa estrada da vida – transmite a faixa de Jimmy –, o homem e a mulher se complementam, assim se revalorizando alegremente o papel da mulher, socialmente.

Associado a essa perspectiva, está o segundo tema, “Matue Tue”, pinçado das profundezas das práticas socioculturais dos bairros suburbanos de Lourenço Marques, agora Maputo, entre as inúmeras brincadeiras de crianças, em particular meninas. Em roda, e cadenciadamente, elas batem as palmas, repetindo o refrão, tal como nessa segunda faixa. Enquanto isso, duas delas – também cadenciadamente – vão circulando no interior da roda, como se de adversárias se tratassem para, de seguida, ao som do refrão, estancarem e, frente a frente, balançarem freneticamente o corpo, com as mãos sobre os ombros, executando uma ligeira dança e olhando-se frontalmente. Sempre ao som do refrão. Por fim, dando-se a mão direita – ou a esquerda –, executam uma veloz dança circular, rodopiando rápida e em correria sobre si mesmas, ao ritmo compassado e cada vez mais forte do refrão e das palmas, com cada uma puxando pela outra para o seu lado, sem se largarem! Pesem embora os movimentos em sentidos opostos, a união forte das mãos, bem apertadas uma na outra – muitas vezes, até, presas nos antebraços –, não quebra a unidade das intervenientes. Tal é a imagem da união transmitida por essa brincadeira de meninas e recuperada nessa segunda faixa, apesar da adversidade dos movimentos secundados pelas execuções instrumentais, no álbum, com solos vários de guitarra, palmas e vozes, solos de piano, mas sem nenhuma quebra da harmonia.

Por se tratar de uma brincadeira de meninas, entre meninas, e apenas entre elas, fica no ar a ideia de essa brincadeira se tratar de uma herança de outras pessoas do sexo feminino, de outras mulheres: as mães. Metaforicamente, desde logo, aí também se capta, no essencial, a ideia da transmissão e recepção de valores de ordem sociocultural, e não só, de mães para filhas e destas – também um dia feitas mães – para os filhos, e assim sucessivamente, aspectos que se configuram na herança aí representada por uma simples brincadeira de há muitos anos. Tal é o caminho, de um outro ângulo, que aponta para a necessária relevância do resgate da ancestralidade como tópico merecedor de profunda reflexão, desafio que nos impõe o álbum de Jimmy. E, como se não bastasse, essa reflexão volta a ser tema na sexta faixa, “Mamana Wanga”, composição do saudoso Maestro Justino Chemane (1923-2004).

Sufocado pela ausência da mãe, o Maestro pergunta por ela, projectando, dessa forma, não somente a ideia da grande falta que faz o amor de mãe, como também a sua importância no amparo afectivo, aconchego dos filhos e filhas, sobretudo em momentos difíceis, para sossegar inquietações e saudades.

No álbum de Jimmy, o início dessa faixa é marcado por uma doce e suave melodia nostálgica, com arrastados acordes de piano. Representação apropriada para a saudade, essa breve introdução é depois subitamente quebrada pela força com que a saudade se abate sobre o indivíduo, aí já representada por uma regular e crescente irrupção rítmica da bateria e de precisos acordes da guitarra baixo – como se estes quisessem mostrar o quão grave é esse sentimento. E, por via da voz feminina de Edna Mondlane, aí se clama pela figura materna para sossegar as inquietações que assolam a alma… À vista disso, a composição e a letra do Maestro Chemane – e todas as outras vozes que imploram pela presença ausente da figura materna –, ecoam nos ouvidos e nas memórias dos mais velhos, assim se retomando a ideia da transmissão e recepção de valores socioculturais próprios, sobretudo quando ausentes ou sinalizam essa ausência:

 

Mamana wanga akwine (Onde está a minha mãe?)

A ta teka mbilu yanga (Para tomar o meu coração)

Mamana wanga akwine (Onde está a minha mãe?)

A ta teka mbilu yanga (Para tomar o meu coração)

 

A ta susa a mazengu (Para extrair as inquietações)

Lawa mangani mbilu yanga (Que afligem o meu coração)

A ta susa a mazengu (Para extrair as inquietações)

Lawa mangani mbilu yanga (Que afligem o meu coração)

 

Pode-se imaginar, a partir daí, o desespero e as trevas que invadem, se apossam e revolvem o íntimo das crianças abandonadas, que crescem sem mãe; das adolescentes que caem nas malhas da maternidade precoce e suas implicações, sem o amparo e a orientação das mães; e muito mais. Embora nessa faixa de Jimmy se apresentem apenas quatro versos, por questões, certamente, ligadas ao plano de produção, a letra original, do Maestro, apresenta mais dois versos que evocam os antepassados, esses de quem se descende, em clara alusão às origens e conhecimento dos mais velhos. A estes atribuem,  esses outros versos do Maestro, a afirmação segundo a qual o coração de uma pessoa é um mundo. Dessa outra perspectiva, somos reenviados ao conteúdo daqueles outros versos, de Malaika Dludlu, sobre “a nossa história, o nosso futuro e a nossa esperança [que] estão dentro de nós”. E ainda se poderia acrescentar: desde as origens!

 

A va khali va hlayile (Os mais velhos já disseram)

Mbilu ya mhunu i tiku (O coração de uma pessoa é um mundo)

 

E quem melhor que as mães – afinal, de onde viemos – para limpar do nosso coração, e não só, as malezas da nossa história, do nosso futuro e da nossa esperança?

E os cruzamentos temáticos

Como sugerido, esse álbum aborda outros temas além desse central, em torno da mulher. Ainda assim, esta permanece à volta, como se de sombra fresca e revigorante se tratasse – quer do ponto de vista metafórico quanto metonímico –, como o fazem na vida real as mães, atentas ao que se passa com e ao redor dos(as) filhos(as).

A humanidade, por exemplo, cujas origens são atribuídas ao continente africano, enquanto seu berço, é outro dos temas abordados nesse álbum. É sabido que, por cá, abundam crenças religiosas diversas, umbilicais; todavia, muitas delas estão sufocadas – e quase desaparecidas – por religiões outras e suas gentes, estranhas às realidades locais, mas dominantes. Donde a importância do resgate da africanidade aí sugerida, das suas raízes, ainda que cruzada com outras realidades culturais, como a busca e o resgate da insubstituível figura materna que nos traz ao mundo e, junto com outras, nos mostra os caminhos a seguir, com indisfarçável orgulho.

Exemplo dessa linha de pensamento é-nos parcialmente oferecida em “Lulama”, a oitava faixa. Na base de um cântico zione, essa faixa reivindica, de certa forma, crenças de base autóctone, pesem embora as suas origens americanas, que nos reenviam para o cristianismo. Donde a sua parcialidade. Abstraindo-se, contudo, dessas outras origens, percebe-se a ênfase profunda do olhar para trás – isto é, para dentro –, para as origens próprias, moçambicanas, que têm tido, em particular, um peso considerável na cura de inúmeras doenças com base na medicina tradicional local, um dos principais eixos das práticas ziones, além da crença cristã. As origens externas estão lá, sim. Sobretudo a cristandade. Mas o que reverbera é o brado pelo resgate da ancestralidade africana, suas raízes. Curiosamente, em tradução livre, “Lulama” significa “endireite-se”.

Na mesma linha de “Lulama”, encontramos, de certo modo, “Black & Proud”, a sétima faixa do primeiro disco. Inspirada, por um lado, na música de James Brown “Say It Loud ~ I’m Black & I’m Proud”, um dos cantores americanos mais influentes do século XX, e, por outro, no brutal assassinato de George Floyd e acontecimentos subsequentes em todo o mundo, essa outra faixa reivindica a valorização das origens e suas diferenças, sobretudo do humanismo assente na auto-confiança negra e capacidade de enfrentar o mundo: “I am black and proud”. Com todas as conotações e preconceitos que o preto carrega: sou preto e com orgulho. Apesar das adversidades. E aí se recupera a metáfora daquela brincadeira de infância, “Matue Tue”: a adversidade dos movimentos das meninas não quebra, de modo algum, a forte união das suas mãos. Tudo isso, quer em “Lulama” quanto em “Black & Proud”, sob o ritmo de uma mistura de sonoridades tradicionais moçambicanas, sul-africanas, solos afro-jazz e cânticos religiosos.

Mas mergulho profundo, mesmo, na tradição local, nesse álbum, ocorre – entre outras – em “Ngalanga Jazz”, a última faixa do primeiro disco. Aí é sugerido um olhar sobre a importância e necessidade da aquisição e absorção das práticas culturais locais. Com bases do blues soul, inspiradas de Aretha Franklin, a rainha do soul music, percebe-se nesse tema a forte presença do Ngalanga cruzado com a timbila, ambos das terras chopes de Inharrime, distrito da província de Inhambane, e com o jazz, supostamente herdado das Américas, mas cujas origens são de facto africanas, da Mãe África celebrada por poetas como José Craveirinha e Noémia de Sousa. Na mesma linha dessa fusão, está “Mr. Gove”, também numa mistura de Ngalanga e jazz – a sexta faixa do segundo disco –, numa merecida homenagem a Carlos Gove, uma das maiores referências dos baixistas moçambicanos que, não por acaso, tem como suporte de base a guitarra baixo.

O mesmo sucede com “Mediterranean Crossing”, a sétima faixa do mesmo disco, assente no M´ganda, ritmo de uma dança tradicional do Lago Niassa, na província com o mesmo nome, que critica as travessias fatais que acontecem no mar mediterrâneo, em busca de melhores condições de vida mas, resultando, não poucas vezes, em mortes. Essa música questiona se haverá alguma esperança de melhorar essas vidas. Alguma luz no fundo do túnel? A resposta é-nos dada, de certa maneira, por “In to the light”, a faixa seguinte, e a partir da qual se pode levantar a poeira – em “Levanta Poeira” –, conforme sugere a última faixa. Aí faz-se alusão à dança das crianças sobre a areia, levantando literalmente poeira e, simultaneamente, alegria. Tudo numa mistura de ritmos e estilos, desde o dominante afro-jazz, típico de Jimmy Dludlu, passando pelos ritmos tradicionais retrabalhados pela sua exímia guitarra, e não só, até aos tradicionais locais, como o Ngalanga e o M´ganda.

Nessas misturas não faltam travessias oceânicas, como a homenagem que se faz à Miriam Makheba, em “The Click Song”, uma das figuras com que Jimmy trabalhou e aprendeu bastante, ou Bob Marley, o rei do reggae, cuja composição, “Get up, Stand up”, abre o segundo disco do álbum para, precisamente, chamar atenção para a necessidade de nos erguermos e andarmos para a frente, com moral sã, coração limpo e verticalidade, por forma a darmos sentido à vida, à família, aos pais, à África. Sem medo, mas com verdade. Tal como nos ensinaram, nos ensinam e seguirão nos ensinando sempre as nossas mães, algumas das quais aqui homenageadas, neste mais recente álbum de Jimmy Dludlu. Como quem diz Africa, get up and stand up!

 

Notas bibliográfica:

 

Vene, Manuel. Liderança Feminina no Estado Mataaka: Mitos e Poderes da Rainha

           Acivaanjila de Majuuni (Séc. XIX-XX). Lichinga: 2018.

 

 

 

We Know Our Why é o nome do grupo de Hip-Hop que se vai apresentar ao público, a partir das 17h30 de sexta-feira, no Café Bar Gil Vicente, na Cidade de Maputo.

O espectáculo musical, na verdade, não só servirá para o grupo se dar a conhecer. Igualmente, a dupla Rubish Man e Cóngio Lírico irá promover as músicas que irão compor o álbum de estreia, que será lançado em Setembro.

Sendo We Know Our Why um grupo de Hip-Hop, o evento será caracterizado por esse ritmo em harmonia com Reggae e Afro/Jazz. Para o efeito, foram convidados ao espectáculo autores como Kay Real, Lalah Mahigo, Jazz P, DJ Buddha e Hélder Leonel. Para o grupo, tal alinhamento transparece o que o álbum com o mesmo nome, We Know Our Why, é em termos de ritmo musicais.

O grupo We Know Our Why, criado ano passado, irá actuar durante 40 minutos, interpretando oito das 12 faixas do disco, entre às 21h10 e às 21h50.

We Know Our Why é um grupo de Hip-Hop underground, que investe mais na questão do ser africano, resgatando o que considera raízes africanas. O grupo rima em inglês, mas com inspiração no Reggae e Afro/Jazz.

 

A cerimónia de tomada de posse dos novos órgãos da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) realizou-se esta quarta-feira, na Cidade de Maputo. Filimone Meigos preside a Mesa da Assembleia, Carlos Paradona dirige o secretariado e Luís Cezerilo preside o Conselho Fiscal.

Os novos órgãos directivos da Associação dos Escritores Moçambicanos tomaram posse esta quarta-feira, na sede da agremiação em Maputo. Na sessão, coube, primeiro, ao escritor Juvenal Bucuane, na qualidade de membro presente mais antigo da AEMO, orientar a tomada de posse do Presidente da Mesa da Assembleia, Filimone Meigos. Depois disso, o poeta dirigiu-se aos confrades para confirmar o escritor Carlos Paradona como Secretário-Geral da associação.

No seu discurso de tomada de posse, Carlos Paradona referiu-se a necessidade de preservar uma AEMO de todos e para todos os escritores. E ainda justificou por que decidiu concorrer à renovação do seu mandato: “Não resisti à tentação de transcorrer parte das realizações conquistadas nos últimos três anos. Concretamente, exemplificando, a requalificação e a valorização das nossas instalações, as acções de âmbito social em benefício dos nossos associados. Concretamente, alocação de terrenos aos membros, o garante da inscrição na segurança social ou a vacinação privilegiada contra a COVID-19, fora outras acções da valorização da nossa literatura”. Entre tais accoes, Paradona destacou as sessões No gume da palavra, a edição e tradução de obras de autores moçambicanos no estrangeiro.

Ainda no seu discurso de tomada de posse, Carlos Paradona afirmou que a AEMO tem um registo de mais de 100 autores como membros efectivos. Entretanto, desse universo, menos de duas dezenas participam na vida associativa. Por isso mesmo, “como continuidade do nosso trabalho realizado no último triénio, propomo-nos a juntar esta grande família de escritores filiados à AEMO, que, por razões várias, parte dos seus membros tem-se apartado do convívio literário”.

O Secretário-Geral da AEMO sublinhou que o novo secretariado pretende abrir uma nova página na nossa vida associativa, buscando a valorização de cada membro em função da sua obra literária, desencorajando todo e qualquer acto que induz a uma perniciosa competição entre os escritores, “pois entendemos a literatura como um edifício onde cada componente é de suma importância para a diversificação e enriquecimento conjunto da nossa vasta bibliografia. Para nós, o que vale é o mérito literário”.

Na sessão desta quarta-feira, Filimone Meigos, na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia, defendeu a necessidade de os escritores discutir uma agenda que continua a ser comum. “Temos de discutir mais sobre a noção de crescimento que queremos para AEMO. Pois, de contrário, vamos continuar com a Lista A ou com a Lista B. Não me parece que isso seja a solução para AEMO. A AEMO é uma única lista, a AEMO é uma confraria. Por isso, somos confreiras e confrades. A confraria, normalmente, é caracterizada pelo facto de perseguir objectivos comuns. A mim me parece, e estou convicto disso, que continuamos a ter esses objectivos comuns, que é, basicamente, expandir a literatura”.

Com a tomada de posse desta quarta-feira, a Mesa da Assembleia-Geral passa a ser composta por Filimone Meigos (Presidente), Fernando Manuel (Vice-Presidente), Helga Languana (Relator). Já o secretariado é composto por Carlos Paradona (Secretário-Geral), Pedro Muiambo (Secretário-Geral-Adjunto), Alex Dau (Vogal para Programas e Finanças), Solange Macie (Vogal para Assuntos de Género), Deusa de África (Vogal para Extensão Territorial Sul), Francelino Wilson (Vogal para Extensão Territorial Centro), Manecas Cândido de Azevedo (Vogal para Extensão Territorial Norte) e Delmar Gonçalves (Vogal para Relações Exteriores). Por fim, no Conselho Fiscal estão Luís Cezerilo (Presidente), Sangare Okapi (Vice-Presidente) e Lídia Mathe (Relator).

E porque neste 2022 celebras-se os 100 anos do aniversário natalício de Craveirinha, Carlos Paradona anunciou que a 27 de Maio será conhecido o novo Prémio José Craveirinha de Literatura.

Por: Marcelo Panguana

A escrita deste texto representou para mim um enorme sacrifício, ou para ser mais preciso, um enorme sofrimento. Cada palavra significava o remover das dores duma ferida que tentava cicatrizar com a indiscutível terapia do tempo. No entanto, cada palavra significava um acto de cura, porque se tornava necessário enfrentar a dor para poder amainá-la. Dizia, alguém muito próximo, que se sentia bastante desolada por não ter conseguido verter uma lágrima desde que soube da viagem sem regresso do Hortêncio Langa. E isso martirizava-a. Sufocava-a. Porque a dor que habitara no seu peito nâo lhe permitia nenhum sossego. Talvez porque esse alguém, tal como eu, ainda não aceitou o facto de que Hortêncio Langa se afastou definitivamente de todos nós.

Reparem que digo que Hortêncio Langa se “afastou”. Recuso-me a utilizar nesta breve elegia a palavra “morte”. Porque na verdade o Hortêncio não morreu, apenas decidiu emigrar para uma outra dimensão existencial. Continuo a pensar que somente  morrem os que não são recordados, sobre os quais os escribas não debitam nenhuma palavra. Apenas morrem os que sobre eles não se verte nenhuma lágrima. Sobre os quais recai um silêncio maior que o próprio silêncio. Hortencio Langa pertence, felizmente, aos homens que nunca serão votados ao esquecimento porque o legado que nos deixou é demasiado marcante, uma espécie de ode a arte de um homem que agregou todas as artes sobre si, compositor, letrista, cantor, arranjista, escritor, pintor.  Hortêncio Langa não morreu porque nós, todos os dias, nos recordamos dele, porque todas vezes que é homenageado, ele ressuscita. Muito mais que as virtudes artísticas do Hortêncio Langa, há esse outro lado de profundo humanismo que o identificava. Era militante para todas as causas, abria o seu peito para acolher os que precisavam, afogava as mágoas dos que lhe batiam a porta, ostentando sempre o seu sorriso calmo. Nunca se exaltava. Em nenhuma circunstância levantava a voz. Nunca o vi apontando o dedo para quem quer que fosse. O silêncio e a serenidade das suas palavras constituiam a sua arma de persuasão e sedução. Era um homem simples. Ao contrário de tantos outros, que ao menor sopro de fama e popularidade levantam exageradamente os ombros, Hortêncio Langa detestava a arrogância e a vulgaridade. Amava a expontaneidade e o prazer da vida que ele perseguia intensamente, como se soubesse que o destino, com a sua voracidade, encurtava-lhe cada dia que passava a vida. Partilhei com ele momentos sublimes, extraordinários, momentos de alegria, beleza e arrebatamento. E também de sonhos, porque, como dizia o trovador Zeca Afonso, “o sonho é que comanda a vida”, e Hortêncio Langa sonhava, por exemplo, em trazer novas sonoridades que fossem capazes de enriquecer o nosso sistema musical, porque ele, sempre fez parte das pessoas que “fazem o caminho para que as outras o percorram”, como dizia o poeta Valter Hugo.

Quando o seu talento ofereceu-lhe oportunidades para abandonar a Pátria e explorar o seu talento em outros continentes, ele decidiu permanecer aqui. Sentia-se ligado a Moçambique pelo nascimento, pela sua vida e pelo seu trabalho. E valeu a pena ter permanecido aqui connosco, pelas canções geniais que criou, pelos quadros que pintou, pelos livros que escreveu. Era um sonhador, mas antes disso, um fazedor. Por isso, no auge dos seus setenta anos, nunca considerou afastar-se da sua arte. Não era capaz. A arte ensinara-lhe a ser solidário. O amor que apregoava na sua escrita, na sua pintura, nas suas letras, não representava apenas uma simples utopia, mas a forma mais perfeita de se existir. Talvez por isso, nunca conheci alguém que não gostasse dele, e se existia, esse alguém não sabia, com certeza,  gostar de si próprio.

Fico por aqui, para não repetir o que já outros disseram, além disso, quando as elegias são longas, deixam de o ser e passam a ser relatórios. Resta-me apenas dizer que as palavras verdadeiras e definitivas sobre o meu amigo e padrinho Hortêncio Langa, ainda estão a ser escritas por outras mãos. Porque há tantas coisas para se escrever sobre este artista genial, sobre esse homem íntegro, sobre esse cidadão de causas justas, e que venham o mais depressa possível essas palavras, para preencher o nosso vazio.

Nossa voz é o título da exposição colectiva inaugurada esta terça-feira, na sala de exposições do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo. A mostra junta obras de sete artistas moçambicanas.

O mês de Abril é sempre uma oportunidade para vários moçambicanos pensarem sobre a condição da mulher, em vários aspectos. Essa reflexão, na verdade, não começa e nem termina em Abril, mas, a estas alturas do ano, parece que há algo especial. Por isso mesmo, sete mulheres, nomeadamente, Aline Nobre, Huwana Rubi, Nália Agostinho, Lica Sebastião, Faira Beatriz, Nelsa Guambe e Carina Capitini juntaram-se para projectar o que consideram ser Nossa voz.

Mais do que um título de exposição colectiva, Nossa voz pretende ser uma espécie de missão, pois, ao longo dos anos, as artistas moçambicanas perceberam que, no país, as mulheres criativas não têm as mesmas oportunidades que os homens que também criam imaginários. Até nas artes, em particular, nas plásticas, há sempre “ismos” e “reticências” a separar o que o talento devia unir.
Assim, na sala de exposições do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo, além de cores, telas e imagens, a colectiva Nossa voz vai, igualmente, funcinando como um grito colectivo no combate à subalternização das mulheres artistas. “Às vezes, estamos em algumas exposições, mas, quando as pessoas descobrem que quem pintou uma determinada tela foi uma mulher, aparece um certo tipo de exclusão”, afirmou Huwna Rubi, acrescentando que esse problema nota-se, inclusive, na forma como os artistas homens vêem as produções ou as capacidades femininas.

Concordando com Huwana Rubi, Aline Nobre foi sintética ao defender o que pretendem: “Queremos os mesmos espaços que os homens ocupam. Queremos que a nossa voz, as nossas cores e as nossas mensagens sejam transmitidas da mesma foma”. Para o efeito, acrescentou Faira Beatriz: “Queremos encorajar a mulher a falar da sua própria emancipacao. As artes dão-nos essa possibilidade”.

De acordo com Carolin Brugger, a Directora do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, a exposição Nossa voz sugere muitas interpretações. Daí que sinta uma necessidade de acrescentar mais alguma coisa ao título, em jeito de provocação: “Gostaria de dar um subtítulo à exposição, que é ‘irmandade’, irmandade no sentido de solidariedade entre mulheres e na necessidade de cooperacao”.

A luta na conquista dos meus direitos para as mulheres artistas é longa e a sociedade moçambicana, segundo entendem as expositoras, deve participar no processo.
A colectiva Nossa voz pode ser visitada na sala de exposições do Centro Cultural Moçambicano-Alemao até 3 de Junho.

Nos dias 29 e 30 de Setembro, a Faculdade de Letras e Humanidades da Universidade Licungo (UniLicungo), sedeada na Cidade da Beira, irá realizar um simpósio sobre Terra sonâmbula, de Mia Couto. Os interessados em participar podem submeter candidaturas.

Em 1992, Mia Couto publicou o seu primeiro romance, Terra sonâmbula, e, com efeito, a obra literária destacou-se em Moçambique, em África e no mundo. Reconhecendo a importância do livro na ficcionalização de uma certa realidade e, igualmente, na preservação da memória colectiva moçambicana, a Faculdade de Letras e Humanidades da Universidade Licungo (UniLicungo), está a preparar um simpósio sobre Terra sonâmbula, previsto para acontecer nos dias 29 e 30 de Setembro.

O evento que pretende celebrar a escrita de Mia Couto irá acontecer de forma híbrida, ou seja, virtual e presencial, a partir da sede da Faculdade de Letras e Humanidades, na Cidade da Beira. “Como uma instituição preocupada com a pesquisa, consideramos importante celebrar este momento que traduz a mudança de paradigma de produção literária, através da emancipação das artes e da própria literatura”, disse, esta segunda-feira, António Domingos Braço, Director da Faculdade de Letras e Humanidades da UniLicungo.

Com o simpósio dedicado ao livro Terra sonâmbula, a organização pretende “potencializar o momento e criar uma celebração”. Por isso, todos os investigadores e estudantes de graduação e pós-graduação estão convidados a submeter propostas para o simpósio.

As actividades do simpósio incluem conferências, comunicações, debates e lançamentos de livros sobre Terra sonâmbula. Entre os participantes, esperam-se pesquisadores de Moçambique, Angola, Cabo Verde, Portugal, Brasil e Espanha. “Serão dois dias de intenso debate científico e compartilhamento de aspectos ligados à arte e à própria questão das culturas”, garantiu o Director da Faculdade de Letras e Humanidades da UniLicungo.

Enquanto o simpósio não arranca, os interessados, primeiro, deverão submeter um resumo da proposta de apresentação, até 4 de Julho, através de e-mail disponibilizado pela Faculdade de Letras e Humanidades da UniLicungo. A fase seguinte será da notificação dos resumos aprovados, até 29 de Julho. A terceira fase será do período de inscrição, até 5 de Agosto. A quarta etapa será da inscrição sem comunicação, até 31 de Agosto. Por fim, a submissão do texto final, que será publicado em livro em 2023, deverá ser feita até 30 de Dezembro de 2022.

A frase que dá título a esta entrevista está registada no braço esquerdo de Duas Caras. Esta sexta-feira, portanto, o rapper recorreu a uma tatuagem para partilhar uma (nova) forma de estar na música. Na verdade, nas linhas que se seguem, Kara Boss falou um pouco de tudo, tendo, como mote, o seu novo EP: Afromatic. Além da sua nova fase, o rapper falou do seu processo criativo, do que quer fazer da sua música, abordou a identidade, a importância da liberdade e ainda referiu-se à temática musical que será a sua aposta daqui em diante. Claro, justificou por que só agora efectivou uma parceria em disco com… Azagaia.

 

Duas, comecemos esta conversa com uma pergunta que, na verdade, é um dos títulos de uma música do EP Afromatic?: “Qual é o assunto?” à volta deste seu quarto trabalho discográfico a solo?

É o quarto disco?! Nem sequer tinha a noção disso. Bem, Afromatic é o título que escolhi para esta minha quarta proposta discográfica, que é um marco naquilo que é a minha trajectória, com pouco mais de 20 anos. No EP faço a consolidação desta que é a minha nova forma de estar e de ser. Se em Djundava estava um bocadinho reticente, em relação ao rumo que iria tomar, no Afromatic temos o consolidar desse meu desejo de me encontrar na música. E, na verdade, é uma busca incessante por um RAP que me identifica como moçambicano e como africano.

 

Sobre a identidade, é por isso que na música “Mamyo” temos a seguinte afirmação: “Novo Duas. Então, esquece o antigo”?

A música acaba sendo um manifesto de toda a transformação interna que estou a atravessar. E quando digo transformação, é a todas as dimensões. Do ponto de vista espiritual e físico até. Tenho passado por várias transformações ao longo do tempo. Antes, porém, eu passava por essas metamorfoses, de uma forma inconsciente. Agora, mais do que nunca, nesta idade que se diz ser da consciência (a partir dos 40 anos), essa mudança é mais consciente. No passado, eu tinha as minhas dúvidas. Actualmente, estou mais seguro do que quero para a minha carreira e para a minha vida pessoal. E, no meu caso, eu sempre quero mais. Sobre isso, ainda há dias alguém me perguntava se eu tinha mais sonhos. Tenho vários, sei que não vou conseguir realizar todos, mas luto todos os dias para que isso aconteça.

 

Ou seja, conforme sugere em “Mamyo”, está a competir consigo mesmo. Desde o princípio.

Sim, sempre foi assim, desde o princípio. A tendência que as pessoas têm é de fazer comparações. Às vezes, até de forma implícita. Parece uma coisa do ser humano e nós vimos isso nas redes sociais, quando as pessoas fazem comparações que, às vezes, podem não corresponder à verdade. No meu caso, estou numa luta constante em sempre querer encontrar uma melhor versão de mim. Eu costumo dizer que se praticar algo que quero ver em mim 1% por dia, ao fim de 365 dias vou atingir 20% daquilo que quero atingir. Então, isso encaixa-se nessa busca incessante de encontrar a melhor versão de mim mesmo e não para as pessoas.

 

Nessa ordem de ideias, como é que se quer ver daqui em diante, mas considerando a sua trajectória artística que lhe permite ser um dos artistas importantes no universo da língua portuguesa?

Eu quero deixar um legado, principalmente para os mais novos. Quero contribuir para escrevermos o nome de Moçambique no cenário do Hip-Hop internacional. Acho que a melhor forma de eu fazer isso é criar nessa identidade pela qual eu busco. Acho que só poderemos ter alguma coisa a dizer não do sentido de ser mais uma réplica do RAP americano, mas no sentido de ser um rapper genuinamente moçambicano.

 

Ainda em “Mamyo” ouvimos-lhe dizer que não espera pela aprovação de ninguém, nem da família, e que é capitão do seu barco. Em Djundava assume que é ovelha negra da família. Como é que este mesmo sujeito pode contribuir para colocar o RAP moçambicano no cume da montanha, ora sendo ovelha negra da família, ora não esperando pelo seu apoio?

É uma pergunta interessante. Para começar, até onde eu sei, sou o único artista da família e tive uma trajectória bastante peculiar. Para já, o meu nome já diz tudo: Duas Caras. Na infância, eu era bastante indisciplinado, mas os meus pais nunca souberam disso. Era um excelente filho em casa. Mas também sempre fui muito introvertido. Então, Duas Caras acaba por ser uma versão melhorada de Hermínio Chissano. E sinto-me mais confortável como Duas Caras e não como Hermínio Chissano, porque Hermínio Chissano tem mais falhas e mais imperfeições. Então, o personagem Duas Caras, que eu construí, é mais interessante do que Hermínio Chissano.

 

A comunidade Hip-Hop nem quer saber do Hermínio Chissano, mas do Duas Caras, que é amado e muito exigido. Às vezes, até se tenta colocar rótulos nos estilos do rapper. Como é lidar com isso?

Quem acompanha a minha trajectória, sabe que sempre gostei de experimentar coisas novas. Xtaka Zero foi um exemplo disso. Fizemos uma mistura de RAP e Pandza e as opiniões são validas, são pontos de vista e diferem de indivíduo para indivíduo. Estou confortável com as opiniões, sejam boas ou más. O mais importante é que faço o meu trabalho com muito amor, zelo e profissionalismo. Tento dar 100% de mim para que o produto final seja agradável. Primeiro, para mim, e, depois, para as pessoas.

 

Ao longo dos anos, habituou à comunidade Hip-Hop a um certo tipo de RAP. É verdade que fez experiências como Xtaka Zero e, na altura, muitos fãs não lhe perdoaram por isso. Se optasse em fazer álbuns e EP do RAP “genuíno”, venderia à vontade, se a questão fosse dinheiro. Não acha que está a correr risco, quando faz experiências na ordem Djundava e Afromatic?

É um risco que vale a pena porque, em termos de RAP “genuíno”, sinto que não tenho mais nada a contribuir. Quem acompanha a minha carreira sabe de todas as obras que tive a oportunidade de lançar no mercado. Existem outros valores que podem levar isso adiante. Quanto a mim, quero atingir novos horizontes e continuar a ter vontade de fazer música, porque uma pessoa como eu não faz música por dinheiro. Se fosse por dinheiro, estaria a fazer outra coisa, porque não é a música que nos dá dinheiro.

 

Como é que justifica então “No Money no RAP”?

Na verdade, a marca foi uma ideia de um fã. Nós já trabalhávamos com merchandise há muito tempo, mas não queríamos que agora a marca fosse muito ostensiva. até porque há pessoas que não se sentem muito confortáveis em usar uma t-shirt com o nome Duas Caras. Acho que “No Money no RAP” acaba por ser mais positivo, mas abrangente e as pessoas sentem-se mais confortáveis, porque ao fim ao cabo acaba por ser um movimento, porque sem mola, também, não há RAP.

 

Sinto muita relação entre o que me diz nesta conversa e o que canta. Por exemplo, na música “Real talk”, de Allan, o Duas diz assim: “Amo demais o RAP, mas é assim: preciso de algo mais sex”…

Era uma forma de exteriorizar o que me vai à alma, porque já tive muita oportunidade de fazer o RAP que eu fazia. Agora, deixo isso para a nova geração de rappers. Se calhar, eles podem fazer melhor do que eu. Pessoalmente, quero experimentar novas coisas, porque isso me dá mais motivação, porque o tipo de música que faço agora não é fácil de fazer. Cada vez mais me interessam os novos fãs que estou a granjear, incluindo crianças, porque têm mais empatia e conseguem absorver melhor as mensagens do que os fãs tradicionais.

 

A dificuldade excita-lhe mais?

Sim. A dificuldade motiva-me mais. Eu já experimentava cantar há muito tempo. Todas as obras da G. Pro sempre teve a minha mão, mas era uma coisa mais tímida. Agora, estou a gostar do rumo que isto está a ter.

 

O que não quer dizer que vai deixar de fazer o RAP que nos habitou?

Não, não. Para mim, é sempre um prazer fazer aquilo que faço melhor. Faço isso há mais de 20 anos. Então, faço com alguma facilidade. O meu foco é nessa nova vertente alternativa de fazer RAP.

 

Finalmente, temos Duas Caras e Azagaia em disco. Isto nunca tinha acontecido para um disco seu ou dele. Tivemos de esperar tanto porquê?

Mas eu já participei de outros trabalhos do Azagaia que nunca viram a luz.

 

Sim, mas nunca em disco de um dos dois.

Sim. Realmente, esta foi a primeira vez que fizemos algo mais significativo. É um clássico do RAP moçambicano e eu já queria fazer isso há muito tempo. Estava à espera do momento certo e esse momento acabou por chegar.

 

Noutros países, essa parceria disparava em termos de venda…

Claro, mas acho que os números são bem decentes para aquilo que é a realidade moçambicana. Por exemplo, quando olhamos para os acessos à internet.

 

A primeira impressão da escolha do tema “Panthera”… Bem, são duas panteras da música. Foi por aí que escolheram o título?

Na verdade, o tema foi inspirado no filme Black panther, mas, também, quisemos homenagear todas aquelas figuras proeminentes do pan-africanismo. Até, a composição já existia. Eu tinha escrito para uma outra pessoa, mas parece que a pessoa desistiu. Então, peguei na letra e tive de mudar e penso que o resultado foi interessante.

 

A sua composição em “Panthera” é muito erudita. Como se diz na comunidade Hip-Hop, cuspiu barras muito fortes. Da literatura à filosofia, ou do pan-africanismo à negritude.

Exacto. Só quem está por dentro do movimento pan-africanismo consegue perceber a dimensão daquela faixa.

 

E mesmo a falar das figuras pan-africanistas, depois vai buscar uma figura muito importante, mas não tão falada: Trotsky. E Malcolm também.

Com o Trotsky foi algo muito orgânico na hora de escrever. Podia ter citado outros, mais acho que caiu bem. A biografia de Malcolm X foi um livro que operou muitas transformações em mim, principalmente na forma de ver como é que os rappers norte-americanos se comportam. Deu-me um estalo em relação à maneira como nós consumimos a música norte-americana. Em algum momento, cheguei à conclusão de que muita coisa estava errada naquilo que nós ouvimos da América. Inclusive, foi um dos motivos de querer me distanciar um bocadinho do RAP que eu já fazia, e investir numa abordagem mais afro centralizada.

 

E no Afromatic também temos uma homenagem a Ungulani ba ka Khosa, com a referência a Ualalapi.

Ualalapi foi o primeiro livro que eu li e muitos jovens não conhecem a obra. Provavelmente, ouviram na música e foram investigar na intenet.

 

Como foi esta parceria com Azagaia e Ras Haitrm, quer para a música, quer para o vídeo-clip?

Foi uma experiência interessante. Eu já queria trabalha com ambos. Com Ras Haitrm já tinha tentado antes. E como o Ras e o Azagaia já tinham trabalhado juntos numa faixa… se repares, a parte instrumental do Azagaia, em “Panthera”, é muito à cara dele. Fui buscar um bocadinho daquela música que eles fizeram juntos, que era para ele se sentir um pouco mais à vontade. A parte do Ras Haitrm é um bocado mais reggae. Depois, a música muda de sonoridade e vai para uma coisa mais RAP e aí já é a minha praia. E foi uma cena interessante.

 

A liberdade é um tema muito presente nas suas composições, neste Afromatic. Por exemplo, em “Mamyo” ouvimos: “Podem-te chamar de louco se tentares voar fora da gaiola, longe da zona de conforto”. Isto é muito profundo.

É verdade. Nessa música falo dessa liberdade de escolhermos o que queremos ser na vida. A maior parte de nós, vem a este mundo e não sabe em quem se torna e nem para quê veio ao mundo. Passamos uma vida inteira a preencher expectativas, no sentido de fazermos o que os nossos pais, amigos e fãs esperam de nós. E esquecemo-nos de fazer aquilo que efectivamente queremos. O sentido é esse. Voar fora da gaiola e buscar outros horizontes. Tem uma outra passagem da música, em que eu digo: “Não se Vêem os limites da ilha sem a observar do topo”. Gira à volta disso porque, muitas vezes, nós não sabemos o que se encontra do outro lado. Há um texto que eu li há algum tempo em que se diz que se tivermos duas portas, mas em que as pessoas estão a entrar numa delas, o mais provável é que você também siga pela mesma porta. Porque ninguém sabe o que está na porta ao lado. Isto para dizer que o desconhecido assusta sempre, mas quem sabe que a nossa felicidade está na porta ao lado?

 

Está aí uma forma de combatermos o efeito manada. Não nos deixarmos levar pelos outros…

Exactamente.

 

O quão difícil é estar neste percurso há mais de 20 anos?

Já foi mais difícil, porque houve uma época em que eu fazia música por outros motivos, diferentes dos motivos que me norteiam hoje. Agora, sou mais feliz porque faço música pelos motivos que mais gosto. Faço aquilo que a minha consciência manda e não aquilo que as pessoas estão à espera que eu faça.

 

“Eu recitaria versos for free”…

Exactamente. É uma música [“Qual é o assunto?] interessante, com o Tule, e a música gravita, mais uma vez, à volta de fazermos aquilo que gostamos. Quando fazemos o que gostamos, não nos sentimos a trabalhar nem um dia. E se formos pagos por isso, melhor ainda.

 

Para quem não comprou o EP, houve muita expectativa à volta da última música disponibilizada na intenet: “Nikensa Yesu”, com Jay Argh. Foi tudo propositado.

Para já, não sou gospel, mas gosto da música gospel. Sou um crente, mas tenho as minhas próprias crenças. Então, queria fazer esta música em forma de louvor e manifestar a minha gratidão a Deus. Precisamos de Deus em todo momento das nossas vidas. Foi a minha forma de manifestar essa gratidão.

 

Podemos dizer que as suas crenças oscilam entre o que o levou a assumir o nome Djundava e as razões do louvor em “Nikensa Yesu”?

Não sei se é pela idade, mas encontrei Deus em mim mesmo. Deus está dentro de nós. Podes ir à igreja, mas se não tiveres Deus dentro de ti, não vale a pena.

 

“Nikensa Yesu” é a música mais diferente do álbum.

Sim. E acho que terá o seu lugar, quando nós divulgarmos o vídeo-clip. Vivemos num mundo digital, em que as pessoas, mais do que ouvir, querem ver. Acho que vai despertar outro tipo de fãs, que pensava que Duas Caras fazia um tipo de música e é bom porque vai espantar esse velho fantasma de que os rappers são marginais.

 

Noto que passou a ter mais cuidado com a linguagem, ao contrário do que tem caracterizado o Hip-Hop.

Sim, mas eu acho que essa coisa da linguagem, muitas vezes, é importada do RAP americano, o que não quer dizer, necessariamente, que em Moçambique deve ser assim. Nas minhas músicas tenho-me reinventado até nesse sentido porque passei a ter fãs de várias idades, a partir do momento que passei a posicionar-me de outra forma. Crianças, inclusive. Agora tenho tendência de investir numa componente mais pedagógica.

 

Teremos regularmente um Duas Caras mais “Geração Tv”, “Gueime” e “Nikensa Yesu”. Ou seja, música para ouvir ao domingo à tarde, com a família?

É essencialmente isso. Música que se pode ouvir a qualquer momento. No carro, por exemplo, em família. É nesses momentos que temos a oportunidade de tocar a alma das pessoas.

 

Ouve o que os seus admiradores tradicionais dizem dos seus novos trabalhos?

Porque tenho a consciência de que o que eu faço é com muito carinho, com o objectivo de tocar a alma das pessoas, para terem alguma consciência sobre algumas coisas que são importantes na vida, isso, por si só, já responde a todos os comentários que podem advir do trabalho que eu faço. O exercício que eu faço é, e tenho isso escrito no meu braço: “Não me aflijo com as críticas e não me envaideço com os elogios”. O meu exercício é não ter um vínculo emocional com os comentários.

 

Numa outra conversa, a propósito do Djundava, disse-me que seria mais regular no lançamento de discos a solo. Parece que está a cumprir a promessa.

Sou capaz de lançar mais um EP ainda este ano. Não sei. Já comecei a trabalhar. Ainda não voltei ao estúdio, estou no processo de composição. Não sei se vou lançar mais um EP porque ainda temos muitos vídeos-clipes para lançar até meados do ano. Não tenho muita certeza, mas uma das coisas que gostaria de fazer é shows ao vivo, com banda, porque nunca explorei essa parte. No passado, não era nada profissional. Agora, interessa-me fazer coisas mais grandiosas, com seriedade. Penso que este é o momento certo para isso.

 

Sempre aliando o disco a uma marca?

Como diz o DJ Sidney, que trabalha comigo, o disco é um cartão-de-visita de um artista. Não levamos a venda do disco como negócio. A venda do disco é um dos poucos momentos que temos de interagir com os fãs, mas não é daí que vêm os nossos ganhos. Temos de diversificar. E uma das formas de diversificar é vendendo chapéus, t-shirts e óculos. As pessoas gostam mais de vestir do que de comprar um CD. E eu percebo. A forma de ouvir música, hoje, mudou muito. Acho que temos de investir mais naquilo que é nosso.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o livro O poder do hábito, de Charles Duhigg, e a música “Maçonaria”, de Azagaia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São retratos da maternidade. Várias fotografias que mostram diferentes momentos de mulheres durante a gestação e a altura em que dão à luz.

“Já nasceu” é o título da exposição fotográfica inaugurada ontem na Fundação Fernando Leite Couto. Com autoria de Lina Cunha, as obras retratam momentos de parto de um bebé.

As imagens foram feitas desde a preparação do parto à saída do bebé. Com este trabalho a artista partilha a sua mais profunda experiência de criação artística. “É um tema que constitui tabu na nossa sociedade, talvez mostrar desta forma ligada a arte é sempre mais aceite”.

Para o curador da exposição, Paulo Alexandre, a série de imagens representa o desafio de estimular aos pais a acompanhar de perto o processo do parto. “Temos uma sociedade relativamente muito fechada, neste momento é importante mostrar isso.

O trabalho estará à disposição do público, na Fundação Fernando Leite Couto, até o dia 30 do mês em curso.

Natural de Nampula, Lina Cunha é médica e exerce a profissão de gastroenterologista em Maputo, em finai de Novembro de 2022 realizou a sua primeira exposição fotográfica intitulada “Olhares Cruzados” na galeria do porto, em Maputo.

“Tabuleiro Semiótico ou Cálculo da Raiz Quadrada” é o título da nova obra do ensaísta e crítico Dionísio Bahule. Lançado ontem, o livro traz uma ligação entre a narrativa e a crítica, que, segundo o autor, rompe o sentido estabelecido de fazer a academia.

O cálculo da raiz quadrara não existe apenas nos números e na disciplina de Matemática. No seu livro, Dionísio Bahule traz uma reflexão que envolve teorias no universo literário, filosófico, artístico e, acima de tudo, semiótico. “A primeira previsão que tem é trazer o modo como se pensa a arte e como quem pensa a arte compreende este mesmo elemento”.

Uma das questões que estimulam o exercício de cálculos, nesta obra, tem a ver com a arte africana, em particular moçambicana. “Convocar os críticos a pensar a arte, não pelo formalismo, a pensar primeiro com uma dimensão endógena”.

Evaristo Abreu e Élia Gemuce apresentaram a obra e entendem que a mesma não só faz crítica às artes, mas, também, procura buscar soluções.

O “Tabuleiro Semiótico ou Cálculo da Raiz Quadrada” inaugura um ciclo de lançamentos da Kuvaninga cartão d’arte e o terceiro livro de Dionísio Bahule.

Discute, Bahule, nesta nova proposta literária a autonomia da arte para um contexto africano como o nosso “O que pressupõe isto? E porque nós não conseguimos ler os sinais dos nossos tempos?”, são estas e outras questões que o “Tabuleiro semiótico [ou] O cálculo da raíz quadrada” procura responder em seis ensaios, nomeadamente: “O cálculo da Raiz Quadrada”, “Crónica da Michelle Souza”, A “Toxina dos Catetos”, “A Insossegável Tarefa de Pensar e O Pós-independência e Sísifo.

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