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O poema “Moçambique”, de Tânia Tomé, é analisado por professores e alunos secundários no Brasil.

 

O Manual do Professor Brasileiro é um livro didáctico. Nesse material pedagógico, um dos textos inserido ano passado e que continua a servir para o processo de ensino e aprendizagem no Brasil é precisamente o poema “Moçambique”, da autoria de Tânia Tomé.

O Manual do Professor Brasileiro abrange todo o ensino médio secundário e é assinado por Maria Luiza M. Abaurre, Marcela Pontara, Maria Bernadete M. Abaurre, tendo como áreas de conhecimento linguagens e as suas tecnologias.

No poema “Moçambique”, Tânia Tomé explora as suas possibilidades líricas, colocando o território nacional como um espaço colectivo e de pertença. Por isso, o sujeito poético almeja fazer desse território seu e dos outros.

O poema de Tânia Tomé faz parte do Manual do Professor para o Ensino Médio nas Escolas Públicas no Brasil, muito em particular na Amazónia, sendo, assim, analisado por professores e alunos brasileiros que, dessa forma, contactam-se com a arte literária moçambicana.

Segundo a informação partilhada por Tânia Tome, esta quinta-feira, a poeta é a única africana incluída no manual, no tópico literatura.

Com efeito, esta não é a primeira vez que Tânia Tome é estudada no Brasil. A escrita da autora é analisada desde 2012 por mestrandos, doutorandos ou pós-graduados em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, inclusive, em dissertações e teses.

 

O Poema “Moçambique” de Tânia Tomé 

 

Moçambique

Quando me sento descalça

sobre o sapato do menino pobre

que me enche o pé

muito mais que outro qualquer

me lembro que existir

não é sozinha

é com toda gente

E me lembro

que tenho de embebedar-me de ti

Moçambique

Porque tenho saudades de mim

Gémeos Parruque, Sizaquiel Matlombe, Wazimbo, Roberto Chitsondzo, Nelson e Tânia Chongo e Ivone Viegas são os artistas convidados à sexta edição do Celebrando vidas, na Casa d’Artista Kutenga.

 

A Casa d’Artista Kutenga volta à carga com mais uma iniciativa artístico-cultural. Depois de algum tempo sem promover eventos, por causa da COVID-19, a organização está a preparar a sexta edição do Celebrando vidas, cuja sessão de promoção das artes moçambicanas irá acontecer no próximo dia 23 de Abril, a partir das 13 horas, na Casa d’Artista Kutenga, no Bairro Tchumene 1, Cidade da Matola.

Depois de dois anos sem poder realizar o evento anual, a coordenadora do evento, Elvira Viegas, promete um programa de continuidade, que se esmera em preservar os valores das artes e da cultura moçambicanas. “O nosso Celebrando vidas continua a ser um evento anual e muito preocupado em contribuir para questões de identidade cultural. Por exemplo, ofertamos sumo de canhu genuíno, porque, ultimamente, ao contrário do nosso costume, o sumo tem sido vendido e misturado com açúcar e água. Nós também pretendemos contribuir para resgatar questões importantes da nossa tradição”.

À sexta edição do Celebrando vidas, na Casa d’Artista Kutenga, foram convidados vários artistas. Entre eles, Gémeos Parruque, Sizaquiel Matlombe, Wazimbo, Roberto Chitsondzo, Nelson e Tânia Chongo e Ivone Viegas. Com teatro, música, dança, literatura e momentos de gastronomia, a parte cerimonial da sessão foi pensada para durar hora e meia. Depois disso, seguirá a parte recreativa.

Para dia 23 de Abril, a expectativa da organização é enorme. Até porque, “quando falei com os convidados e com as suas famílias, em torno desta ideia, manifestaram-se muito satisfeitos. “De todas as vezes que fizemos o Celebrando vidas, houve diferentes formas de corresponder à emoção do evento, quer por parte dos artistas convidados, quer por parte do público”.

Como tem acontecido, a organização do evento não está preocupada em ter a casa cheia. O que importa mesmo é que o evento agrade por ter sido bem produzido. Por isso, Elvira Viegas recomenda aos interessados para fazerem as reservas com antecedência.

Como a sexta edição do Celebrando vidas coincide com o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, possivelmente, na Casa d’Artista Kutenga haverá exposição de livros e de discos.

 

Sobre Celebrando vidas

O programa anual Celebrando vidas é um evento artístico cultural que se realiza na Casa d’Artista Kutenga. A pretensão da organização é homenagear todos aqueles que, duma ou doutra forma, contribuem para o desenvolvimento artístico e sociocultural.

Assim, de 2014 a 2018 foram homenageadas várias individualidades, como Dilon Djindji, Ivone Mahumane, Glória Muianga e Izidine Faquirá.

Em 2020, o programa homenageou Pérola Jaime, Gilberto Mendes, Gabriel Júnior e Edelvina Materula.

 

 

Artista plástica entende que a experiência de participar em exposições nos Emirados Árabes Unidos a permitiu reinventar dinâmicas e processos criativos durante a pintura das suas telas.

 

A partir de Portugal, onde vive e trabalha, a pintora, escritora e educadora de infância, Suzy Bila, teve a oportunidade de viajar para os Emirados Árabes Unidos. Em Dubai, especificamente, a artista participou, durante 10 dias, na World Art Dubai com duas peças. Segundo afirmou, as telas seleccionadas revelam uma experiência nova, e, a sua passagem pelo Oriente reflecte a sua preocupação pelo conhecimento de novas dinâmicas que envolvem uma feira internacional de arte.

Em outras palavras, Suzy Bila considera que, na passagem pelos Emirados Árabes Unidos, nas duas últimas semanas de Março, explorou novos processos artísticos numa envolvência com o público local, “o que me permitiu divulgar o meu trabalho e dialogar com diferentes artistas do mundo”.

As duas telas que Suzy Bila levou ao World Art Dubai são intituladas “Esperança” (2020) e “Diálogo II” (2022), ambas pintadas seguindo a técnica acrílico sobre tela.

Ora, nos Emirados Árabes Unidos, Suzy Bila explorou sobretudo as novas dinâmicas e processos criativos no Pavilhão de Moçambique na Expo Dubai 2020. Foi uma espécie de unir o útil ao agradável. Por isso, a artista propôs ao Alto Comissariado da Expo Dubai inserir na programação do Pavilhão de Moçambique a sua performance, que poderia ser no decorrer da semana de World Art Dubai, onde poderia pintar ao vivo e interagir com o público no pavilhão de Moçambique. Dito e feito. Assim, a performance  foi possível no dia 23 de Março. “Em seis horas  silenciámos o tempo e vivemos o momento das coisas simples, deixando no pavilhão da terra que nos viu nascer quatro peças carregadas de esperança, de escuta  e de conexões de processos de criação de vários intervenientes”, disse Suzy Bila.

Nos Emirados Árabes Unidos, a artista, através da sua performance, quis realçar que a arte é transversal a todas as áreas. “Pretendíamos também  realçar que intervir na educação e na arte é desafiar as potencialidades das crianças para o acto criativo e para a descoberta de si”. E mais: “Nesta experiência feita no pavilhão de Moçambique, foi gratificante observar toda a dinâmica sem regras, mas a arte  como um acto natural, condicionado pela especificidade do lugar e influenciando o processo de construção da  artista”.

Suzy Bila lembra que no Pavilhão de Moçambique, na Expo Dubai, que encerrou no passado dia 31 de Março, as crianças entraram no pavilhão sem saber o que as esperava, acompanhadas pelos professores, educadores, monitores. E resume: “Os sentidos levaram-nas à timbila, que soou em diferentes tons. As crianças envolviam-se, tornando o momento único, o som característico tocava nos sentimentos, gerando curiosidade”. Claro, cada criança inventado as suas próprias linguagens.

A experiência foi tão boa para a artista moçambicana que ultrapassou o espaço do Pavilhão de Moçambique. Isto é, Suzy continuou a pintar ao ar livre, com e para um público mais diversificado.

André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s inauguram, esta quinta-feira, uma exposição colectiva para reclusas, na Cadeia Feminina de Ndlavela, em Maputo.

As reclusas da Cadeia Feminina de Ndlavela, na Matola, Província de Maputo, terão a oportunidade de comemorar o Dia da Mulher Moçambicana de uma forma diferente. Por volta das 9 horas desta quinta-feira, André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s irão inaugurar a exposição colectiva Inclusiva naquele serviço penitenciário. Com a actividade, na verdade, a ideia é levar a arte ao encontro das reclusas, como forma de lembrar que elas são como toda a gente e que o facto de estarem presas não lhes reduz a humanidade.

Referindo-se à sua iniciativa, que iniciou há dois anos, tendo sido suspensa ano passado por causa da COVID-19, a artista plástica Bena Filipe, esta quarta-feira, em Maputo, acrescentou: “O que queremos é mostrar às reclusas o que tem sido feito fora da cadeia em termos de manifestações ligadas às artes plásticas”. Assim, sublinhou a artista: “Esperamos alertar à sociedade moçambicana que, nós, os artistas, nos identificamos com as reclusas e esperamos que elas tenham esperança. Queremos contribuir para que elas estejam preparadas para a liberdade. Elas são como nós e merecem uma segunda oportunidade”.

Porque a cadeia não é um lugar de fácil abertura ao público externo, a exposição colectiva, entre 7 e 11 deste mês, será visitada pelas reclusas e pelo pessoal que lá da trabalha. No entanto, Bena Filipe explicou que, depois, a mesma mostra será exibida numa galeria ou numa sala de exposições fora do serviço penitenciário, de modo a que mais pessoas possam ver as obras em causa.

Na Cadeia Feminina de Ndlavela, igualmente, André Macie, Bena Filipe, Butcheca, Chauque, Dora, Faira Beatriz, Leidito Penga, Siquisse e Vovó’s irão orientar workshop e oficinas de pintura com as reclusas.

Por fim, mesmo a encerrar a Semana da Mulher Moçambicana, Bena Filipe organizou uma equipa de mulheres, desde artistas a apresentadoras de televisão, que irão disputar um jogo de futebol com as reclusas, na Cadeia Feminina de Ndlavela, no sábado.

A curta-metragem Silêncio, de Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze, foi nomeada à final do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens de Santigo, no Chile.

 

Ao concorrem ao RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens de Santigo, no Chile, o primeiro objectivo era levar a obra cinematográfica Silêncio além-fronteiras. Agora que esse propósito está alcançado, Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze esperam conseguir, através do filme, vender o cartão turístico moçambicano ao mesmo tempo que promovem temas de interesse nacional e mundial.

O filme Silêncio foi realizado por Gigliola Zacara e Osvaldo Mauze com custo próprio, quando, há alguns meses, o confinamento dificultava tanto o trabalho dos artistas. Por isso, nessa altura, os dois realizadores tiveram uma equipa bem reduzida, em que as pessoas desempenharam três ou quatro funções durante as rodagens.

Referindo-se à nomeação, esta terça-feira, em Maputo, Gigliola Zacara afirmou o seguinte: “Esperamos que, através desta plataforma [RENUAC], sejamos conhecidos em mais países e sejamos convidados a trabalhar em outras produções, com outros cineastas internacionais, para que possamos continuar a aprender”.

Além da nomeação premiar a equipa, Gigliola Zacara entende que ser finalista do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-metragens, no Chile, significa dar a conhecer o trabalho dos cineastas moçambicanos no estrangeiro. Por isso, Osvaldo Mauze não se esqueceu de todos os que contribuíram para o sucesso do filme: “Agradecer a todos os que estiveram neste projecto. Para nós, é uma honra estarmos nomeados no meio de tantos filmes que concorreram”.

Na co-produção entre o Centro de Recriação Artística e a 7 Ofícios – Rede de Mulheres
contou com o seguinte elenco: Adélia Maposse, Mabjeca Tingana, Gigliola Zacara, Khaleesi Mauze, Kawany Sango e Luís. Já a equipa técnica, aleem dos realizadores,

contou com a participação de Augusto Nhambi e Milagre Langa. Dama do Bling e Roberto Chitsondzo apoiaram com trilha sonora.

Segundo avança a organização do RENUAC – Festival Internacional de Curtas-Metragens de Santigo, no Chile, o objectivo do evento é criar uma plataforma útil para a promoção da indústria audiovisual: um espaço e tempo para a divulgação e promoção de conteúdos audiovisuais, transformando-o num ponto de encontro para cineastas, favorecendo o intercâmbio de iniciativas e promovendo um mercado aberto ao desenvolvimento de novos projectos.

Os vencedores desta edição do festival serão conhecidos ainda este mês.

 

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

Estranham o título?

De facto, quer a morte quer os mortos não são má companhia.

Eu sou a prova atestada disso, em história que vos contarei em seguida.

A morte é uma constante da vida. Desde que nascemos caminhamos no sentido do inevitável fim. Terreno, pelo menos.

A este propósito, veio-me à mente uma estrofe rascunhada a altas horas da madrugada.

 

E a morte quando chegar

É abraçá-la sem temor

Se sem dor

nos presentear

Para os crentes outra vida no além

Para os outros…

Pó, criação e alimento de outrem

 

E os finados?

Os defuntos que jazem frios nos seus sepulcros ou leitos de morte, nos ensinam.

Nos visitam nos sonhos. Falam connosco se soubermos escutar.

 

Primórdios da década de oitenta.

O ambiente na casa dos Pinto Lobo era pesado.

O decano da família estava às portas da morte, consumido por uma doença maligna.

O madeirame que sustentava os tectos altos rangia em lamento.

Até as flores dos canteiros do jardim esmoreciam, murchas de desgosto.

A família revezava-se à cabeceira da cama do marido, pai e avô, moribundo.

Em semi-coma. Por vezes as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e ele chamava pela mãe.

Porque nos refugiamos sempre no aconchego carinhoso, no colo das nossas mães nos momentos de aflição?

A altas horas da madrugada, a Fernanda minha esposa e a Bela, minha irmã mais velha, ouviram no corredor o chinelar arrastado dos passos da minha avó, que tinha ido descansar após umas horas de vigília. Ela diz-lhes que tinha ouvido o Braz chamar.

Reunimo-nos todos no quarto.

Pouco depois, agarrado à mão da minha avó Ângela, rodeado pelo filho, nora e netos, o meu avô faleceu.

Enquanto tentávamos resolver outro problema complicado, o do caixão, fomos durante a tarde à morgue depositar o cadáver do meu avô.

É que com a nacionalização das agências funerárias a falta de caixões era uma constante, ou melhor, uma certeza.

Depositar é um termo impessoal e frio, mas que outra palavra usar?

O funcionário informou-me que não havia gavetão disponível. Estavam todos ocupados.

«Então como vamos fazer?»

«Bem, se me ajudar há um morto que ninguém veio reclamar. Tiramos esse da gaveta e pomos lá o seu avô.»

Que remédio…

Abrimos o gavetão, na segunda fila a contar do chão e retirámos, a custo, um corpo não reclamado, de um homem coberto de pústulas e tumores. Embrulhámo-lo num lençol e colocámo-lo encostado a uma das paredes da sala.

Após esta operação, o funcionário dirige-se para a porta dando-me as boas noites.

Aprestava-me para sair quando aquele me diz:

«Tem de ficar. Se não vão roubar o seu avô.»

«Como assim? Só você tem a chave! Quem poderia entrar?»

«Estou só a avisar. Viram entrar um defunto novo consigo e estão à espera de roubar, pelo menos o fato com que o seu avô está vestido. Então você tem de ficar aqui, vigiando. Venho abrir às 7h,30m de amanhã.»

Ainda pensei que estivesse a brincar mas não, estava mesmo a falar a sério. Não tive outra alternativa senão passar a noite trancado na morgue.

Muitos anos depois, o meu amigo de infância Fipa Bragança, confirmou-me não só a questão dos roubos, como me contou que as morgues tinham arranjado um negócio inovador. Vendiam “água dos mortos”.

A “água dos mortos” é a água proveniente da lavagem dos corpos. Os assaltantes de casas compram essas águas, banham-se nelas e assaltam as moradias mesmo que estas tenham cães ferozes. Estes, farejando o odor a cadáver da “água dos mortos” ficam transidos de medo e fogem, deixando os bandoleiros à vontade no exercício do mister de rapinanço.

Voltando à história inicial, sem mais o que fazer, sentei-me no chão frio da morgue, encostado aos gavetões. O silêncio na sala era total, com excepção do leve ronronar das máquinas de refrigeração, que por sua vez tornavam o ambiente ainda mais frio. Muito de vez em quando, ao longe, a sirene de uma ambulância cortava o sossego da noite.

Não sei se foi por estar enregelado ou pela insensatez característica da juventude acabei por passar pelas brasas. Talvez sonhando ou em estado de vigília semi-acordado lembrei-me do meu avô e conversei com ele.

Sobre a sua paciência infinita ensinando-me o nome das plantas e das flores. Estas são rosas. Estes lírios e aqueles outros agapantos. Estrelícias e gerbéras. Os arbustos, hibiscos e crótanos. Fetos gostam de sombra. Temos de tirar as ervas daninhas da relva porque senão elas engolem tudo.

Relembrando os seus ensinamentos de música clássica quando ao final do dia regressado do trabalho na Breyner&Writh na baixa de Maputo, me pedia para colocar os discos de vinil na sua aparelhagem estereofónica, gravações da Deutche Grammophon e de orquestras dirigidas pelo maestro Von Karajan. Mozart, Bethoven, Vivaldi, Rachmaninov, Prokofiev, Bach, Schubert, Brahms, Verdi, Haydn, Wagner, Stravinsky e tantos outros de quem não me recordo. Debussy e o seu “Clair de Lune” que me encantou desde a primeira vez que o ouvi. Como se queixava de estar a perder a audição e já não conseguia ouvir todas as variações ou frequências das notas do som gravado, principalmente as graves.

As viagens à Namaacha no velho Morris e as idas ao Luna Parque, da barraca de latas empilhadas onde quem derrubasse todas ganhava um prémio e ficou apenas uma em que falhou na última bola. Quando lhe disse que não fazia mal porque tinha deitado abaixo quase todas as latas. Do encantamento com o fantástico Circo Boswell de duas pistas.

Rememorando a sua religiosa leitura diária de jornal na varanda da frente de casa, enquanto ele e a minha avó esperavam à tardinha pela Fernanda, vinda das aulas, para conversarem e eventualmente darem um passeio até à Costa do Sol, no carocha verde da minha esposa.

De mandar aquecer a sopa fumegante por não estar suficientemente quente.

Das suas queixas de má digestão e gases, emagrecimento gradual, prenúncio do cancro de estômago que acabou por o levar. Como reclamava do médico amigo de família, por entrar mudo e sair calado. Este sem saber como informar a família que o desenlace se aproximava e não havia nada a fazer porque não havia recursos na época.

Acabei até por me rir, lembrando-me das idas ao veterinário com o Pequenu[1], um rafeiro minúsculo, esperto e ladino que nem um alho, que adorava passear de carro com o focinho de fora da janela apanhando o vento nos bigodes, mas que, quando virávamos uma determinada esquina, reconhecia o caminho do consultório veterinário e se metia debaixo dos bancos e era um cabo dos trabalhos para o tirar de lá.

Dizia o meu avô desgostoso, que os animais tinham melhores cuidados médicos do que as pessoas.

As horas foram passando sem eu dar conta. E o pobre indigente estendido no chão e embrulhado num lençol, encostado à parede na outra ponta da sala.

No dia seguinte, não às 7h,30 mas largos minutos depois da hora combinada, ouço finalmente uma chave na fechadura da porta e o funcionário da morgue entrando na sala.

«Então, como estás? Os mortos falaram contigo?»

«Não, não ouvi nada durante a noite. Só lembrei de histórias com o meu avô.»

«Então falaste com o vovô… os outros mortos te respeitaram com certeza. Viram que querias ter uma conversa com esse teu antepassado. Entenderam que esse era o vosso tempo.»

«Também não é todos dias que vêm alguém dormir com o seu defunto. Gostaram de ti e não te chatearam.»

«Estes aqui, de vez em quando falam comigo. Mais mais aqueles que ninguém vem buscar. Vêm se lamentar que não vão ter preparação do corpo nem cerimónia tradicional e então vai ser difícil calmar. Vão desassossegar por aí.»

Agradeci e despedi-me para tratar dos preparativos para o funeral.

Não sei se é memória ficcionada ou não. Um dos meus colegas e amigos das Indústrias Costa vendo a aflição da família com a inexistência de caixão, arranjou uma solução.

«Sr. Director, o senhor ajuda sempre os operários da fábrica com o que é necessário para as cerimónias fúnebres. Então para o seu avô, vamos fazer um caixão com a madeira de pinho dos caixotes dos Leyland que vieram para nós montarmos.»

«Envernizamos, colocamos de lado de fora aquelas pegas dos machibombos, em aço inox, que os passageiros seguram quando estão em pé, de forma a podermos carregar o caixão. A nossa secção de estofaria fará o forro interior, com espuma forrada a napa. Vai ver que vai ficar bonito.»

E assim foi feito. Realmente, quando falecia algum familiar de um dos operários, providenciávamos panos de linho cru branco, que tínhamos para forrar as cadeiras dos autocarros, algumas grades de cerveja quando possível e alguns quilos de farinha de milho comprados a uma moageira vizinha de outra fábrica em que eu era também director.

Em casa, começaram a chegar os vizinhos e amigos. Compungidos.

De vestes escuras e lenços pretos na cabeça.

Para prestar solidariedade e dar os pêsames à família.

Afadigaram-se a minha mãe Ninette, a Bela e a Fernanda improvisando sandes e chá, o pouco que havia para servir aos visitantes naquela época de faltas.

Velar defunto condignamente tem de ser acompanhado de comida e bebida.

Anos mais tarde dirigimo-nos ao cemitério para depositar uma flor na sua tumba e na da minha avó, que infelizmente não tinha tido a sorte de falecer junto da família.

A barafunda dos arquivos era total. Folhas que tinham desaparecido, tal como alguns livros de registo. Indicaram-nos uns números das campas.

Penso que só para nos despacharem e receberem o aguardado “refresco”.

Não reconhecemos os locais que nos indicaram mas ainda assim prestámos as nossas homenagens. O meu avô e minha avó não se importaram.

Sabem como nós gostamos deles.

E os outros defuntos, fortuitamente sepultados no mesmo coval, certamente agradeceram os respeitos prestados.

 

 

Cascais, 7 de Outubro 2021

[1] Pequenu, tradução portuguesa de Pinkeltje, é um pequeno gnomo personagem de livros para crianças, criado pelo escritor holandês Dick Laan, muito popular na minha infância.

Livro organizado por Virgília Ferrão foi lançado esta sexta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo.

 

Virgília Ferrão percebeu que pouco se escreve sobre ficção especulativa em Moçambique e nos outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Por isso, propôs-se o desafio de organizar o livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. A antologia reúne contos de autores de Moçambique, África do Sul, Malawi, Angola, Cabo Verde e Nigéria. Por exemplo, Mia Couto, Oghenechovwe Ekpeki, Zukiswa Wanner, José Luís Mendonça, Suleiman Cassamo, Vera Duarte, Nick Wood,  Marcelo Panguana, Bento Baloi, Jorge Ferrão e Agnaldo Bata.|

A cerimónia de lançamento, com efeito, realizou-se esta sexta-feira à noite, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, e contou com a presença de tantos outros escritores, inclusive, a organizadora do projecto. Segundo disse Virgília Ferrão, primeiro, a experiência foi bastante interessante porque os envolvidos no processo estão a explorar um género que é ainda raro. Além disso, acrescentou: “Estamos contentes por podermos contribuir para promovermos este género literário, a ficção especulativa, e por podermos trazer mais vozes ao projecto”.

Reagindo à iniciativa de Virgília Ferrão, Daniel da Costa destacou que Espíritos quânticos é fundamental porque coloca um certo tipo de África a falar com África. “Acho muito importante que o continente tenha maior diálogo entre si. Os escritores africanos não se comunicam muito e, nesse aspecto, o livro faz uma ponte para os escritores africanos”.

No mesmo tom que Daniel da Costa, interveio Lex Mucache, para quem “Espíritos quânticos vem marcar uma nova visão sobre a literatura moçambicana, uma visão jovem e que mistura aspectos da ciência e da africanidade em si. A nossa questão sempre foi esta: como fazer uma mistura entre esses dois lados. A Virgília conseguiu nos convidar para este projecto interessante”.

Para a antologia, Sónia Jona foi buscar a casa das avós a inspiração para escrever. “Para mim, foi uma honra participar. É bom sabermos que fomos seleccionados e falarmos de um assunto que muitos nem querem ouvir falar. Temos de debater sobre estes assuntos porque tratam do nosso dia-a-dia. A história que escrevi, faz parte das minhas vivências, sobretudo quando frequentava a casa das minhas avós, em Inhambane e aqui em Maputo”.

Espíritos quânticos também conta com um texto de Álvaro Taruma, para quem o projecto é importante por ser pioneiro e inédito em Moçambique pela tipologia textual. “Reúne fantástico como o conhecemos, mas também adiciona elementos da ficção científica, completamente novos. Para mim, foi um pouco tremido porque não venho da tradição narrativa, mas acho que investi numa narrativa mais preocupada pela técnica do que pela própria história”.

Taruma acredita que Espíritos quânticos está a ser uma pedra basilar para coisas futuras da produção literária em Moçambique. Quem concorda com esta abordagem é Mélio Tinga: “Foi uma experiência interessante no sentido da experimentação do que pouco escrevemos. Foi um exercício prazeroso poder traduzir esses espíritos, já como designer, através da capa”.

A obra literária foi editada pelo blog Diário de uma qawwi.

O acesso ao livro infantil está vedado a muitas crianças devido à falta de bibliotecas. Entretanto, o vice-ministro da Cultura e Turismo diz que é preciso reforçar as livrarias públicas e baixar o custo do livro.

Momentos de estímulos e conexão com o livro infantil ainda não despertaram muitas crianças, pelo facto de muitas bibliotecas estarem centralizadas na Cidade de Maputo, existindo poucas nas províncias. “Isso dificulta o acesso a estes livros”, disse o vice-ministro da Cultura e Turismo.   

Fredson Bacar diz ainda que o acesso ao livro infantil sofre condicionamento devido ao elevado custo e, por isso, “a maior aposta do Governo tem sido reforçar as bibliotecas públicas provinciais e criação de caravanas móveis para expandir o hábito de leitura”.

Por sua vez, a escritora Joana Carneiro diz que as famílias moçambicanas não têm a cultura de ler livros para as crianças, apontando aos pais e encarregados de educação que, segundo a escritora, deixam facilmente seus filhos assistirem televisão do que sentar para ler um livro.

Sob o lema “Meu livro, meu melhor amigo”, o Instituto Nacional das Indústrias Criativas reuniu, este sábado, crianças de algumas escolas primárias para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil.

Segundo o Director-geral do INICC, Ivan Bonde, a importância deste momento é criar o gosto pela leitura nas crianças.

Já na cidade da Beira, foi lançada a quinta edição do Festival do Livro Infantil promovido pela Kulemba, o que também coincidiu com o lançamento de três concursos: de contos, de declamação de poesia e de ilustração para crianças e adolescentes.

O Festival do Livro Infantil da Kulemba vai realizar-se no mês da criança, entre 13 e 17 de Junho.

O escritor Lucílio Manjate renunciou, hoje, à sua candidatura ao cargo de Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). A lista de Lucílio Manjate denuncia o que considera graves irregularidades no processo eleitoral.

 

Assim inicia o texto de renúncia à candidatura aos órgãos sociais da AEMO, assinado por Lucílio Manjate, Sónia Sultuane e Hélder Faife. “‘Em suas epopeias de humildade deixem intactos os sonhadores’, disse, em ‘Saborosas Tanjarinas d´Inhambane’, o nosso poeta maior, de quem este ano celebramos o centenário do nascimento. É com a força premonitória do verso de José Craveirinha que a V. Exas. nos dirigimos para renunciar à nossa candidatura ao cargo de Secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO)”.

Dito isso e citado o poeta da Mafalala, a lista de Lucílio Manjate avança para as razões da renúncia: “Esta decisão resulta da análise de factos ocorridos desde a convocação da Assembleia Geral, no dia 31 de Janeiro de 2022. Os referidos factos têm comprometido a possibilidade de um processo eleitoral transparente e justo, à luz dos Estatutos da AEMO. A situação torna-se mais grave quando os mesmos mancham a boa imagem da AEMO, construída arduamente através da pena de José Craveirinha e de muitos outros escritores que orgulham a literatura moçambicana”.

Entre os factos apresentados pela lista de Lucílio Manjate, consta uma sessão de 8 de Fevereiro, em que o Presidente da Mesa da Assembleia Geral e Presidente do Conselho da AEMO [Filimone Meigos] publicou um regulamento eleitoral. A esse regulamento, a lista de Manjate impugnou, em carta datada do dia 14 de Fevereiro, por apresentar disposições manifestamente anti-estatutárias. “Importa referir que, inclusive, aproveitámos a ocasião para anexar, à carta de impugnação, uma proposta de regulamento eleitoral que, no nosso entender, garantia eleições transparentes, justas e, por conseguinte, de fortalecimento do espírito associativo entre os membros da AEMO”.

Em segundo lugar, Lucílio Manjate, Sónia Sultuane e Hélder Faife relatam que enquanto aguardavam pela resposta ao pedido de impugnação, a 18 de Fevereiro, último dia regulamentado para a submissão das candidaturas, submeteram a candidatura. No entanto, a lista de Carlos Paradona submeteu a sua candidatura no dia 21 de Fevereiro, segundo afirmam, claramente fora do prazo regulamentado para o efeito e sem antes ter-se publicado outro instrumento que alterasse a data de submissão de candidaturas. E acrescentam que o segundo regulamento eleitoral não foi sequer publicado, como aconteceu com o primeiro. Por isso, tiveram de o solicitar.

Depois do acima exposto, perante a carta de impugnação do dia 14, observam Manjate, Sultuane e Faife, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral e Presidente do Conselho da AEMO elaborou um segundo regulamento, que, estranhamente, também foi datado de 8 de Fevereiro e no qual se prorrogava o prazo de submissão de candidaturas para o dia 23 de Fevereiro. Para os três escritores,  o único propósito disso era de legalizar uma candidatura fora do prazo, pois o anúncio da existência de um segundo regulamento só foi feito no dia 21 de Fevereiro, não obstante o seu comunicado estar datado de 16 de Fevereiro. Pelo que concluem, “isto pode significar que o mesmo terá sido produzido depois do dia 18 e datado retroactivamente, para acomodar o atraso da submissão da recandidatura do actual secretário-geral”.

Ainda assim, a lista de Lucílio Manjate adianta que o segundo regulamento, de forma flagrante e grave, continuava a constituir um atropelo aos Estatutos da AEMO e frustrava a necessidade de um processo eleitoral transparente e justo. Por exemplo, a possibilidade de cada membro presente à Assembleia-Geral poder votar por outros dois membros ausentes, quando os Estatutos garantem a possibilidade de o membro presente votar por apenas um membro ausente.

Insatisfeito com a situação, Manjate e os seus apoiantes avançaram com uma segunda carta de impugnação, datada de 2 de Março, denunciando que o segundo regulamento mantinha disposições anti-estatutárias já denunciadas a propósito do primeiro regulamento. Em resposta à segunda tentativa de impugnação, “entendeu o Presidente da Mesa da Assembleia Geral e Presidente do Conselho da AEMO, na introdução do documento que nos foi dirigido, que ‘muito do que se refere não tem relevância para o que se pretende com o presente processo eleitoral’”.

A lista de Lucílio Manjate submeteu um pedido do Relatório de Actividades e Contas no dia 28 de Fevereiro, cuja apreciação era um dos pontos da agenda de trabalhos. No entanto, nunca lhes foi entregue e só no dia da Assembleia Geral tiveram conhecimento do seu teor, quando Carlos Paradona, Secretário-Geral em exercício e candidato à sua própria sucessão, leu aos demais “num acto de total violação aos Estatutos da AEMO, que preconizam como direitos dos membros efectivos ‘Examinar os livros de contas e demais documentos respeitantes a agenda da Assembleia Geral, nos oito dias que antecedem a realização destas’ (artigo décimo sexto)”.

Na renúncia feita esta tarde, Manjate, Sultuane e Faife criticam ainda a tentativa de o actual secretariado admitir 40 novos membros da AEMO de forma irregular. Na insistência, numa outra reunião marcada para semana seguinte a Assembleia-Geral, verificou-se que, dos 40 supostos novos membros, apenas três tinham os requisitos preenchidos para a sua admissão como membros efectivos. Igualmente, criticaram o comunicado enviado pelo actual secretariado, no dia 22 deste mês, por ter faltado à verdade em tudo quanto lhes tinha sido informado no dia 9 de Março “e, inclusive, anexava uma lista de 17 membros recém-admitidos, expurgados, portanto, dos iniciais 40. No dia 9, esta lista não foi apresentada, porque a Comissão de Verificação, que o devia fazer, ainda não a tinha produzido. Repare-se que, estranhamente, esta lista é datada de 1 de Março de 2022, quatro dias antes da realização da Assembleia geral e dois antes da data da primeira lista, ou seja, a emenda é anterior ao soneto. Como é possível?”.

À pergunta retórica, de facto, ninguém respondeu. Ao invés de qualquer espera, a lista de Manjate continua citando um evento mais recente. “No dia 30 de Março, em resposta ao posicionamento da Comissão de Verificação, que repudia o comunicado de imprensa tornado público pelo Secretariado da AEMO, este mesmo Secretariado disse que ‘o secretariado está livre de emitir qualquer comunicado que entender’ e que a nota de repúdio da Comissão de Verificação ‘revela enfermidade mental’. Diante dessas afirmações, Manjate, Sultuane e Faife apresentam-se espantados, pois, no seu entender, ao substituir-se à Comissão de Verificação, o Secretariado contraria a decisão da Assembleia-Geral, o mais alto órgão soberano da AEMO que criou e mandou a mesma Comissão para ajudar a resolver o impasse eleitoral.

Finalmente, na sua renúncia à sua candidatura aos órgãos sociais da AEMO, os escritores afirmam que “é nossa convicção que os actuais Presidente da Mesa da Assembleia Geral e simultaneamente, Presidente do Conselho da AEMO [Filimone Meigos] e o actual Secretário-Geral da AEMO [Carlos Paradona] (ambos candidatos à sua própria sucessão) têm agido de má-fé e em clara violação dos estatutos e regulamentos da AEMO, deste modo comprometendo a transparência do presente processo eleitoral. E porque se afigura evidente, decidimos renunciar à nossa candidatura ao cargo de Secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos”.

Deste modo, a lista do escritor Lucílio Manjate desiste da candidatura aos órgãos sociais da AEMO dois dias antes das eleições.

 

 

 

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