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O País – A verdade como notícia

Depois de terem sofrido com o calor e a chuva, os deslocados reassentados em Pulo, no distrito de Metuge, no centro da província de Cabo Delgado, estão a ser fustigados pelo frio intenso que se faz sentir na região, devido à falta de agasalhos. “Aqui faz muito frio, e nesses últimos dias que o céu anda nublado, a situação piorou, por isso não estamos a aguentar”, reclamou Agira Filipe, uma mulher deslocada com três filhos oriunda do distrito de Meluco.

Alguns deslocados já construíram casas relativamente melhoradas com recurso a pau-a-pique, mas a maior parte continua a viver em pequenas barracas cobertas de plástico.

“Não temos manta nem roupas para enfrentar o frio, o pior é que dormimos no chão. Isso quer dizer que só estendemos esteiras e cobrimos o corpo com capulanas”, explicou Joana Alberto, outra deslocada que perdeu o marido num dos ataques terroristas em Cabo Delgado.

Além da falta de agasalhos, os deslocados que vivem em Pulo reclamam da falta e/ou irregularidade no apoio oferecido pelas organizações humanitárias e pessoas de boa vontade.

“Eu só tenho esta roupa que está no corpo, o mesmo sucede com a minha filha. Desde que cheguei aqui, nunca me beneficiei de apoio em termos de alimentação e outras necessidades. Vimos as outras pessoas a receberem assistência e para nós prometeram trazer, mas nunca chegou”, revelou Viaze Yassin, outra deslocada que fugiu do distrito de Meluco há quase dois anos.

A maior parte dos deslocados que vivem no centro de reassentamento de Pulo são mulheres e vieram do distrito de Meluco.

O “O País” leu, igualmente, os manuais de Português, Ciências Naturais e Educação Visual que também apresentam incoerências. Nomes mal escritos, ilustrações incorrectas e deficiências na pontuação são algumas das situações detectadas.     

Começamos a nossa maratona com o livro de Ciências Sociais. Na página 43, está escrito que o Rio Zambeze nasce na República Democrática do Congo, mas não é bem assim, pois o rio que atravessa o nosso país nasce na vizinha Zâmbia.

DADOS SOBRE REINO DO ZIMBABWE INCONGRUENTES 

Na página 48, o manual revela que a Sul, além de Moçambique, o reino do Zimbabwe fazia limite com os actuais territórios do Malawi e Zâmbia. Consultado o mapa, notamos que Malawi e a Zâmbia são países que estão mais a Norte e não a Sul do perímetro que havia sido ocupado pelo reino.

A mesma página revela ainda que, a Oeste, o reino do Zimbabwe tinha como limite a actual República Democrática do Congo e Sudão, mas estes países não fazem fronteira nem com o Zimbabwe, muito menos com Moçambique, territórios que eram abrangidos pelo então reino.

O livro descreve, também, que o reino do Zimbabwe tinha, como limite a Norte, o Mar Vermelho e Golfo de Aden, o que é uma grande inverdade, pois o Mar Vermelho, apesar de se localizar no Oceano Índico, está entre os continentes africano e asiático.

Na página 52, no capítulo que aborda as causas da decadência do reino do Zimbabwe, o novo livro da 6ª classe ensina que não se conhecem exactamente as reais razões da sua queda, limitando-se descrever, que, na altura, havia seca, o que originou a redução das áreas de cultivo e de pastagem.

Entretanto, o “O País” encontrou um manual de Ensino à Distância produzido pelo Ministério da Educação que não apresenta dificuldades em descrever as razões do declínio do reino. O referido manual apresenta, sem rodeios, as seguintes causas: esgotamento do solo que provocou a emigração da população para as regiões mais produtivas; o esgotamento dos jazigos do ouro; a redução do caudal do rio Save, dificultando a navegação e a ligação entre o reino de Zimbabwe com a costa; as lutas internas entre os Clãs Rozwi e Torwa pelo controlo do comércio e aumento da população resultando na falta de terras para a prática da agricultura e pastorícia.

Já na página 121, o livro coloca a imagem da Assembleia Nacional de Angola para ilustrar o Parlamento de Moçambique. 

NOMES DE PAÍSES ESCRITOS DE FORMAS DIFERENTES

No referido livro, verificam-se erros, desde ortográficos, sintácticos até semânticos e/ou pragmáticos.

Há uso arbitrário na escrita de alguns nomes, o que pode causar confusão nos alunos. Por exemplo, na página 133, o nome “Botswana” escreve-se com “w”, mas, na página 78, consta com letra “u” (Botsuana). As duas formas são usadas no mesmo manual, o que revela não haver padrão. E, então, como os alunos deverão escrever? O mesmo sucede com o nome actual da antiga Swazilândia que, no livro, aparece assim “Essuatíni”, enquanto deveria ser escrito desta forma “eSwatini”. O nome Lesotho entra também no festival das gralhas: é escrito sem a letra “h”. 

HÁ PALAVRAS MAL ESCRITAS NOS MANUAIS ANALISADOS

Do livro de Ciências Sociais, partimos para o de Educação Visual e Ofícios. Logo na página 19, a palavra “esfumagem” aparece mal escrita – sem a letra “u”, ficando assim “esfmagem”.

HÁ GRALHAS NA DISTINÇÃO DE CORES NO LIVRO DE EDUCAÇÃO VISUAL

Na página 25, apresenta a cor laranja como vermelha, o que compromete a distinção das cores vermelha e laranja para os alunos. Na página seguinte, a cor vermelha complica ainda mais o leitor, pois é apresentada como verde. Ainda na ilustração em alusão, a distinção entre as cores azul e violeta não é clara.

HÁ MAU USO DE SINAIS DE PONTUAÇÃO E ACENTUAÇÃO   

Já no livro de Ciências Naturais, na palavra “lã”, a letra “a”, em vez de levar o til (~), aparece com o acento circunflexo (^) – “lâ”. Ainda no mesmo livro, apresentam-se imagens ilustrativas de estrelas, da lua e do sol, mas esta última não está visível, aliás, não está lá.

HÁ ERROS A VÁRIOS NÍVEIS NO MANUAL DE PORTUGUÊS

Por último, no livro em que se ensina a Língua Portuguesa, também há erros que podem condicionar o domínio das competências linguístico-comunicativas. Destaquemos alguns, mas primeiro leiamos o seguinte excerto retirado da página 10:

“Podemos comunicar frente a frente, na presença de outra pessoa ou, quando isso não é possível, como no caso da Isabel e da avó, no texto Que alegria!, falar à distância. Como o próprio nome indica, as duas pessoas que conversam encontram-se longe uma da outra Com o telefone, é possível conversar directamente, mas à distância.”

No excerto acima, a expressão “frente-a-frente” (palavra composta por justaposição) aparece sem hífen (frente a frente). Verifica-se, ainda, o mau uso dos sinais de pontuação – há um período sem o ponto final e o uso simultâneo do ponto de exclamação e da vírgula no meio de uma frase.

Na página 11, analisemos este exemplo dado: “Não falto a uma aula desde que me matriculei; na verdade, nunca a escola me pareceu tão importante”.

Primeiro, as ideias não têm sentido lógico, já que a segunda parte até ao ponto e vírgula (;) contraria a primeira e, segundo, a ideia da segunda parte é inadequada às crianças, porque, em vez de incentivá-las a gostar de escola, desincentiva-as.

Ainda na página 11, vejamos esta frase: “Tu, aqui?! Pensei que “estavas” em Tete!”. A forma assinalada devia ser “estivesses” e não “estavas”, por causa do verbo pensar, que, segundo a norma-padrão, exige, na segunda oração, a conjugação do verbo no modo conjuntivo e, neste caso, no pretérito imperfeito (estivesses).

Para fechar esta parte dos erros no manual de Português, há esta surpresa num dos exemplos dados: “Estou a tentar consertar a televisão – disse o irmão”. Nota-se que os elaboradores não sabem distinguir “televisão”, que é um sistema electrónico que transmite imagens e sons ao mesmo tempo, do “televisor”, que é o aparelho que reproduz imagens para os telespectadores.

O Instituto de Patrocínio e Assistência Jurídica (IPAJ) leva a cabo, próximo dia 8 de Junho, no Estabelecimento Penitenciário Preventivo da Província de Maputo, uma feira de assistência jurídica alusiva à inauguração do edifício sede desta instituição.

O evento, a decorrer sob o lema “o papel do IPAJ na materialização dos direitos dos reclusos”, será aberto pela ministra da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Helena Kida, e contará com a presença dos directores do Serviço Nacional das Prisões e do Instituto de Patrocínio e Assistência Jurídica.

Durante o evento, serão realizadas palestras relacionadas com os prazos de prisão preventiva; liberdade provisória; liberdade condicional e direitos dos reclusos.

O Instituto de Patrocínio Jurídico pretende, com a realização da feira, dar a conhecer aos reclusos os seus direitos e deveres; fazer com que os reclusos conheçam e entendam o processo de tramitação e legalização das detenções; impulsionar e dinamizar a tramitação de processos com prazos de prisão preventiva largamente expirados.

Outrossim, pretende-se aumentar o número de reclusos carenciados beneficiários de patrocínio e assistência jurídica, aumento da população consciente sobre os seus direitos e deveres, consciencializar os cidadãos sobre a existência de órgãos competentes para a resolução de conflitos de natureza jurídica e aumento do nível de informação no seio da comunidade prisional dos internos, com vista à protecção dos seus direitos.

Para além da capital do país, estão previstas feiras de assistência jurídica e palestras do género nas 11 delegações provinciais do Instituto de Patrocínio Jurídico.

Instituído através da Lei nº 6/94 de 13 de Setembro, o Instituto de Patrocínio e Assistência Jurídica tem como objectivo garantir a concretização do direito de defesa constitucionalmente consagrado, proporcionando ao cidadão economicamente desprotegido o patrocínio e a assistência jurídica de que carece.

Ademais, o IPAJ tem como atribuição a promoção e divulgação dos direitos e deveres de cidadania, nos termos do art. 3, alínea h) do Estatuto Orgânico aprovado pelo decreto nº 15/2013 de 26 de Abril.

Trinta jovens moçambicanos vão beneficiar-se de bolsas de estudo para a Malásia, disponibilizadas pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia. Os bolseiros serão formados em petróleo e gás num período de cinco anos.

A ida dos 30 bolseiros para a Malásia enquadra-se na estratégia do Governo de formação e capacitação técnico-profissional, com vista a garantir quadros qualificados para responder à demanda dos mega-projectos na área de petróleo e gás no país.

“Vinte dos 30 estudantes são provenientes das zonas onde decorrem os grandes projectos. Falo de distritos como Larde, Moma, Mocímboa da Praia e Palma. Portanto, façam valer o esforço, obtenham conhecimento e tragam-no para implementar no nosso país. Não se desviem do vosso propósito de estudo, não se deixem levar pela beleza exterior, permaneçam firmes”, apelou Marta Vieira, do Ministério dos Recursos Minerais e Energia.

Por sua vez, os beneficiários das bolsas do programa que envolve o Governo e a Universidade de Petronas não esconderam a sua satisfação e prometem dar o melhor de si.

“Estaremos focados em nós próprios de modo a beneficiar o país e o povo. Vamos aproveitar o máximo a estudar e a colher ferramentas que impulsionam a indústria extractiva em Moçambique”, afirmou Érica Cupelo, beneficiária da bolsa.

“Quero orgulhar ainda mais os meus pais e o meu país. Não me vou desviar, vou focar-me a 100%. Quero contribuir de forma positiva para acelerar o desenvolvimento do país”, afirmou Darçai da Glora, beneficiária da bolsa.

Para os encarregados, esta oportunidade vem de bom agrado e motivo de orgulho. “Sinto-me orgulhoso de ver um filho atingir esse patamar. Segundo agradecer à organização pela grande oportunidade que dão ao meu filho e aos moçambicanos. Isto vai beneficiar a todos no fim das contas”, declarou Eduardo Manuel, encarregado.

“É fenomenal, como bem disseram. Foram muitos candidatos e a minha sobrinha ter conseguido estar nos 30 apurados é quase que inacreditável. Sentimo-nos honrados de verdade”, avançou António Rashid, encarregado.

Os bolseiros partem para a Malásia no próximo dia 4 e deverão permanecer naquele país durante cinco anos. O Governo comprometeu-se a criar condições para envolver os estudantes nos grandes projectos da indústria extractiva depois da formação.

O especialista em Direito Eleitoral, Guilherme MBilana, diz que nada impede a realização das eleições distritais em 2024. Entretanto, há, no seu entender, a necessidade de se rever o modelo de representação do Estado para que a máquina governativa não fique pesada e se evite a sobreposição de órgãos.

Durante o encerramento da V sessão ordinária do Comité Central da Frelimo, no último Sábado, o Presidente da República, Filipe Nyusi, que é também Presidente do partido Frelimo, disse que é preciso um debate aberto e profundo sobre a viabilidade das primeiras eleições distritais em 2024.

No entanto, os partidos Renamo e MDM entendem que não se deve pensar no adiamento do escrutínio.

Por sua vez, o especialista em Direito Eleitoral, Guilherme Mbilana, entende que há condições constitucionais para que o escrutínio ocorra na data prevista.

“Esse é um quadro profissional que consagra a realização para as assembleias distritais e administradores do distrito” disse Mbilana.

Gulherme Mbilana defende que se deve pensar no modelo de representação de Estado, de modo a que não se corra o risco de sobrepor órgãos e sufocar a máquina governativa.

“A questão é o modelo; não podemos replicar por replicar. De acordo com o que eu percebi do Presidente da República, há uma sobreposição de órgãos, o que transtorna o próprio Governo”, frisou a fonte.

Segundo Mbilana, a não realização das eleições distritais criaria desilusão por parte dos partidos da oposição.

“O partido Frelimo, que está no poder, continuaria com os admiradores logo, então isso não interfere nada em termos de hegemonia, em termos de governação do partido Frelimo. Em relação dos partidos da oposição, quero eu pensar que estão mais expectantes em que haja eleições nas assembleias municipais”, acrescentou o especialista

A realização das primeiras eleições distritais surge no âmbito do processo de descentralização em vigor no país.

O Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) anunciou, esta manhã, a suspensão do Conselho de Avaliação do Livro Escolar, na sequência dos erros contidos no livro da 6ª classe.

O MINEDH diz também que todos os livros produzidos desde o ano 2016 serão reavaliados de modo a perceber se há outros erros que terão sido leccionados.

As informações foram avançadas pela ministra da Educação e Desenvolvimento Humano, Carmelita Namashulua, que esteve na Escola Primária do Guebo, no distrito municipal KaMavota, Cidade de Maputo, para perceber como estavam a ser dadas as aulas aos alunos da sexta classe sem o uso do livro problemático.

Após assistir à aula da disciplina de Ciências Sociais, Namashulua conversou com professores, tendo apelado, na ocasião, para que todos fiscalizassem os conteúdos dos manuais. A dirigente explicou que não haverá erratas aos referidos livros, dada a quantidade das gafes existentes e que os professores vão continuar a trabalhar sem livro.

A discussão sobre as novas tarifas dos transportes semi-colectivos de passageiros, que está a gerar um braço-de-ferro entre os transportadores, na cidade da Beira, e a edilidade, desde o início deste ano, vai finalmente a debate na Assembleia Municipal, em meados deste mês.

As contradições entre as partes já levaram os transportadores a paralisarem as suas actividades por um dia, na passada segunda-feira, como forma de pressionar a edilidade a acelerar a aprovação da tarifa proposta pela classe.

De acordo com o presidente do órgão, Ricardo Langue, o documento que contém as propostas, da Associação dos Transportadores da Beira, e a contraproposta, do município, deu entrada esta quarta-feira e será debatido entre os dias 15 e 16 deste mês.

“Já estamos a apreciar a matéria e, brevemente, iremos notificar as três bancadas representadas no Conselho Municipal da Beira, de modo a que, até ao dia da sessão, todos tenham domínio deste tema tão sensível que iremos debater, nomeadamente, as propostas de agravamento das tarifas propostas pelo ATABE e pelo Conselho Municipal. Portanto, são dois valores propostos, um incremento de cinco Meticais por parte dos transportadores e quatro da edilidadade”, disse Ricardo Langue.

Na cidade da Beira, não há revisão da tarifa dos transportes desde 2018 e a actual alteração foi proposta pelos transportadores devido ao recente agravamento dos preços dos combustíveis. Os transportadores já estavam indignados pela aparente indiferença da edilidade, uma vez que a proposta de revisão deu entrada no município há cerca de cinco meses. Face à pressão dos transportadores, a Assembleia Municipal da Beira pediu calma.

“Os transportadores devem ter um pouco de paciência. Sabemos que há um número considerável de transportadores chantageados e que obrigam os munícipes a pagarem os preços que ainda vão a debate. Os transportadores estão a ser desonestos, pois eles se importam apenas em produzir dinheiro. O custo de vida está alto a nível nacional e é preciso respeitar os utentes”, disse Langue tendo acrescentado que a edilidade vai intensificar a fiscalização para punir os prevaricadores.

O director-geral do Instituto Nacional para Desenvolvimento da Educação, Ismael Nheze, está suspenso das suas funções, na sequência do escândalo dos erros detectados nos livros de distribuição gratuita da sexta classe, confirmou o visado ao “O País”, esta manhã.

Ismael Nheze foi director-adjunto do INDE durante vários anos e o mandato cessou em 2012. Três anos depois, em 2012, foi indicado director-geral. Nas suas funções, o dirigente liderou a reforma curricular do ensino primário.

As mexidas, devido aos erros constatados nos manuais em referência, sobretudo o de Ciências Sociais, atingiram igualmente a porta-voz do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH), Gina Guibunda.

Contactada pelo “O País”, Guibunda explicou que estava de férias por tempo indeterminado e acrescentou que estava impedida de se pronunciar sobre quaisquer assuntos da instituição.

“A criança tem direito de brincar, estudar e ser feliz, todos nós temos esses direitos e ninguém deve roubar-nos”, disse Yunick Milton, menino de 11 anos, aluno da 6ª classe e residente no bairro Chamanculo.

11 horas do dia 1 Junho, Yunick Milton pedala uma bicicleta já estragada, a corrente sai a todo instante, o que obriga a si e seu irmão mais novo que vai à sua boleia pararem sempre para consertar. A bicicleta não é sua,  é do seu amigo, que, por sinal, é o único na zona com uma bicicleta. Por isso, 11 meninos, incluindo Yunick e seu irmão, fazem fila à espera da sua vez para pedalar.

Ali estão todos irreconhecíveis, pálidos, com os pés sujos e com uma roupa de “deixar qualquer mãe irritada”, mas Yunick não se preocupa: “minha mãe sabe que eu estou a brincar e que não tenho como brincar sem sujar, ela zanga, zanga, mas depois passa”, alegrou-se.

Disse que, para uma criança ser feliz, é necessário ter amor, paz, carinho, estar rodeado de pessoas que a amam e, acima de tudo, ter amigos para brincar e partilhar os momentos felizes, por isso lamentou o facto de nem todas as crianças, no país, terem a mesma oportunidade.

“Algumas crianças não podem brincar, não podem ser felizes, porque devem estar na rua a trabalhar para ajudar os seus pais, por isso eu gostaria de pedir ao Papá Nyusi para ajudar essas crianças, dar brinquedos, dar comida, mantas para eles também serem como nós.”

Num outro quarteirão, ainda em Chamanculo, “O País” encontrou Marcelo António  que fintava com a bola os seus amigos. Marcelo é também chamado “Tchequero”, que, conforme explicou, esse nome se deve ao facto ser magro e de estatura baixa.

De tanto jogar, a sua sapatilha até se estragou, ainda assim, ele não parou, isso porque, segundo justificou, precisa de treinar muito para ser como o seu ídolo, o jogador Cristiano Ronaldo. “Eu quero que todos conheçam o meu nome, quero marcar o meu nome a nível mundial, todos vão ver-me como aquele jogador de Moçambique que está no Atlético de Madrid”, afirmou categoricamente.

Tchequero confessa que, para além de ter o sonho de ser jogador de futebol,  tem o “dom” de fazer carrinhos, por isso a sua ideia é aperfeiçoar a técnica para, nos tempos livres, quando for jogador de futebol, montar carrinhos e distribuir para as crianças desfavorecidas.

Nas brincadeiras de Chamanculo, há um pouco de tudo, há quem brinca com o pião, também chamado “xindiri”. Outros jogam Robocop, um jogo em que quem toca o berlinde de outro ganha.

As meninas não ficam de fora, em grupo também fazem as suas brincadeiras. Jogam neca, zotho, esconde-esconde, matacuzana e salto à corda.

Paula Chilaúle saltou à corda, perdia várias vezes, mas não aceitava parar o jogo, o que gerou grande confusão, as suas amigas reclamavam, contudo Paula ignorava, jurando que as suas amigas é que a estavam a sabotar. Por conta da confusão gerada pela “batota” de Paula, o jogo parou.

Segundo Paula, é assim que brincam e ela não é a única a proceder daquela forma. Fez batota ontem, mas, noutro dia, pretende salvar vidas, trabalhando num hospital como médica.

“Eu gosto de ajudar as pessoas, quando alguém está doente em casa, eu ajudo a cuidar, entrego os comprimidos e xaropes, e sou boa a ciências naturais, então, quando eu crescer, quero ajudar as crianças, se forem pobres, elas não vão pagar nada no hospital”, prometeu.

É a brincar que muitas delas ensaiam o que serão no futuro. Umas dançam, para serem grandes bailarinos, outras brincam de Polícia com o sonho de ser agentes no futuro, há quem canta e sonha em ser uma artista de renome. Por isso, quase todos os entrevistados pelo “O País” fizeram um apelo para que todos os adultos dessem a chance de as crianças brincarem, para serem felizes e, acima de tudo, deixaram que elas “sejam crianças”.

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