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O País – A verdade como notícia

Pela terceira vez, a Agência Metropolitana dos Transportes volta a falhar a introdução de autocarros articulados em circulação e implementação dos autocarros articulados. Os autocarros permanecem parqueados 4 meses após chegarem ao país.

A 22 de Dezembro de 2023, Moçambique recebia 22 autocarros articulados, adquiridos pelo Governo na vizinha África do Sul, para minimizar o problema de transporte nos municípios de Maputo e Matola.

Na altura, o Governo dizia ser urgente a implementação destes meios nas rotas que interligam as comunidades à zona urbana.
“A aquisição dos meios é aliado ao projectos de facilitar a mobilidade nas áreas em que não temos a circulação dos transporte ferroviário, reafirmo as rotas como, Zimpeto-Baixa, Magoanine-Baixa e mais, aliados ao sistemas concebidos no sentido de solucionar os desafios neste sector.” disse na altura Ambrosio Sitoe, secretário permanente do Ministério dos Transportes e Comunicações.

E o desafio continua. A Agência Metropolitana dos Transportes tem vindo a falhar na introdução dos articulados em circulação, já lá se vão mais de três meses.

Foi assim em Janeiro, repetiu-se em Fevereiro e Março, a Agência prometeu a circulação das viaturas, mas já sem data. Ainda assim, debalde. Enquanto isso, a população vai se ressentindo.

No início de Março, a Agência Metropolitana dos Transportes garantiu que já haviam sido acautelados todos os requisitos para a entrada em circulação dos veículos, incluindo o sistema de gestão que abrange as empresas municipais de transporte de Maputo e Matola.

Na altura, o presidente do órgão, António Matos, reconheceu a complexidade da circulação destes autocarros.

“Neste momento as empresas municipais estão a encontrar algumas dificuldades com alguns processos para colocar em circulação estes autocarros de 18 metros de comprimento, talvez seja por ser uma experiência nova” referiu-se Matos a 29 de Fevereiro passado.

O País contactou a direcção da AMT, mas ainda não se pronunciou sobre essa nova falha da circulação dos articulados. Enquanto isso, os carros, com capacidades para transportar 150 passageiros por viagem, vão permanecer parqueados.

O Conselho do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Hoteleira, Turismo e Similares da Cidade e Província de Maputo (SINTIHOTS) realizou a terceira sessão do conselho consultivo provincial para o balanço do primeiro trimestre. Além do crescimento do número de sócios e registo de mais acordos empresariais, a instituição tem investido, sobretudo, na assistência na resolução de conflitos laborais. Assim, tem intervindo em situação de ameaça de paralisação de actividades em estabelecimentos, permitindo entendimentos entre organizações e trabalhadores.

Na intervenção em conflitos laborais, SINTIHOTS reverteu a favor de trabalhadores acordos antes assinados para cessar contratos de trabalho alegadamente por serem arguidos a processos que podem ser objecto de processos-crimes, os quais analisados e assistidos culminaram por indemnização de trabalhadores em instituições hoteleiras de Maputo.

A situação de fuga ao fisco e violação dos direitos dos trabalhadores em estabelecimentos em Matutuíne, Posto Administrativo de Zitundo, onde, estabelecimentos de exploração hoteleira, disfarçados de residências em condomínios turísticos empregam como empregados domésticos para trabalhar em situação de actividade normal de estabelecimentos turísticos, também foi abordada com vista a resolver-se. Ainda sobre o sul de Maputo, no caso Ponta do Ouro, na sessão do SINTIHOTS abordou-se “casos de violação grave de direitos dos trabalhadores generalizados, chegando até à agressão física de um trabalhador, onde houve assistência e encaminhamento do trabalhador para instâncias jurídicas para os procedimentos legais”, lê-se numa de imprensa.

O SINTIHOTS está preocupado com a falta de canalização de contribuições do INSS retidas na fonte pelos empregadores e situações de pagamentos fraudulentos de sistematização de redução de trabalhadores na folha rotativamente para iludir o sistema de modo a pagar menos com situação regularizada.

O SINTIHOTS recomenda a que os trabalhadores do sector e não só recorram sempre à assistência do sindicato para apoio na estabilização das relações laborais por via de negociações de acordos colectivos, resolução de conflitos laborais e dúvidas.

Há alunos que cedem as salas para as vítimas das inundações que estão em centros de acolhimento abertos em algumas escolas, no município da Matola. Os estudantes estão a ter aulas ao relento.

O município da Matola ainda conta com cinco centros de acolhimento abertos, dois dos quais são uma escola primária e uma escola básica.

No centro de acolhimento aberto na Escola Primária Muchisso, bairro Matibjana, no município da Matola, estão ainda 29 famílias que ocuparam três salas, empurrando alguns alunos ao relento.

“As turmas estão, agora, nas sombras, no sentido de dar espaço àquelas famílias, porque elas têm bens por conservar nas salas. A escola tinha 13 turmas ao livre, antes desta situação. Então, significa que saímos de 13 para 19 turmas ao ar livre”, revelou Maurício Herculano, director da Escola Primária de Muchisso.

Segundo o director da escola, esta é uma situação estranha com a qual a instituição deve lidar. “Temos de aceitar que esta é uma realidade alheia à realidade da própria escola. Trata-se de uma calamidade natural, que afectou a comunidade circunvizinha do bairro Matibjana, sobretudo as pessoas que estão aqui arredores da escola. Hoje , tivemos uma informação de que quatro famílias voltarão às suas casas e vamos continuar com 29 famílias”, disse.

E as vítimas que estão no centro de acolhimento aberto na escola de Muchisso nem sequer sabem quando poderão voltar às suas casas.

“Perguntei quando é que poderemos sair, mas ninguém disse nada. Fomos visitar as casas e a situação ainda não está boa”, disse Ângela, uma das vítimas das inundações, secundada por Ilda Cecília, outra vítima, que está num mar de incertezas quando ao regresso à casa. “Ainda não disseram quando é que vamos sair. Estamos à espera da orientação”.

No centro de acolhimento aberto da escola básica 08 de Março, bairro Tsalala, três salas ainda estão ocupadas pelas vítimas das inundações e fizeram-se arranjos para que alguns alunos não percam as aulas.

“Em função dos alunos das turmas, teríamos, em média, 85 alunos, mas não em todas as classes. Seria, apenas, na sétima e terceira classes, porque são as turmas que deveriam estar nas salas ocupadas pelas vítimas das inundações”, explicou Lourenço Matusse, director da Escola Básica 08 de Março, município da Matola.

Sob ponto de vista pedagógico, a saída encontrada pela escola não ajuda muito. “Os alunos não estão completos, hoje. Se estivessem completos, seriam quase 120 ou 130 alunos, porque juntámos as crianças. Então, não é nada fácil. Assim, tenho de sair daqui para outra turma, e faço exercício em mais de duas turmas”, disse Virgínia da Conceição, professora da Escola Básica 08 de Março, com voz carregada de resignação.

Mas o que preocupa não é só o número de alunos por turma, que agora chega aos 100. É estranho dar aulas naquele tipo de ambiente por vários motivos.

“Em parte, nós temos tido alunos que vêm à escola sem passar refeições. Agora, quando chegam aqui (à escola) e de um lado está a confeccionar-se a refeição, não sei como é que esse aluno vai conseguir lidar com esta situação”, observou Feliciano Daúce.

Os alunos também estranham o ambiente, mas o senso de solidariedade fala mais alto. “Foi estranho, porque eu achava que tivessem saído no domingo, também percebi que estavam a desinfectar as salas e, ainda, ouvi dizer que há pessoas com conjuntivite”, comentou com estranheza Jaime Mandlate Júnior, aluno da Escola Básica 08 de Março.

Foi estranho, também, para a sua colega, Shelsia Daniel: “Fiquei espantada. Foi a primeira vez a ver aquilo. São pessoas que sofreram com as cheias e vieram acomodar-se aqui, na escola. Então, temos de os acolher”.

Na escola, as vítimas que estão nos centros de acolhimento tendem a abandoná-lo.

“Estava previsto que eu saísse ontem, mas penso que hoje poderei sair. Dentro da minha casa, já não há água. Só o quintal é que ainda está ainda inundado”, avançou uma das vítimas das inundações urbanas, no município da Matola.

Contudo, há os que ainda não sabem quando poderão voltar às suas zonas de conforto. “A minha casa está cheia de água. Ainda não sei quando poderei sair do centro de acolhimento. Por agora, estou aqui”, afirmou Emília Machava, vítima das inundações.

Enquanto isso, um bom filme para descontrair e tentar esquecer-se do pesadelo das inundações causadas pelas chuvas da semana passada.

Os acidentes de viação continuam a fazer vítimas nas estradas nacionais. Só no período de 16 a 22 de Março passado, as autoridades contabilizaram 19 óbitos, resultantes de um total de 12 acidentes, cinco dos quais por atropelamento e três por choques entre carros.

Os acidentes, que provocaram ferimentos graves a 13 cidadãos e ligeiros a 21, foram responsáveis, também, por danos materiais avultados. O Comando Geral da PRM aponta a velocidade excessiva e a condução irregular como as causas da sinistralidade.

Durante a actuação, a Polícia de Trânsito deteve 33 indivíduos por condução ilegal e 29 condutores indiciados de corrupção activa, confiscou cartas de condução de 377 motoristas e aplicou 3304 multas por diversas infracções.

A PRM também apreendeu seis armas de fogo, incluindo quatro pistolas, duas caçadeiras e 3666 munições, na Cidade e Província de Maputo, Inhambane e Nampula.

Os níveis de água das principais bacias hidrográficas no Sul do país têm tendência a baixar desde as últimas 24 horas até quarta-feira.

A redução regista-se em todas as bacias, com excepção da Bacia do Maputo, em Madubula, que registou nível hidrométrico acima dos 26 centímetros.

Às bacias de Umbelúzi e Incomáti que já registavam tendência a baixar, adicionam-se a albufeira de Massingir, que registou descida do nível de enchimento em 71,98%, a de Corumana, em 60,77%, e a dos Pequenos Libombos, em 95,15%.

De momento, a situação não é preocupante, considera a ARA-SUL.

“para as próximas 48 horas, prevê-se a continuação do actual cenário hidrológico, caracterizado pela oscilação dos níveis hidrométricos com tendência geral a baixar, face ao abrandamento da chuva”, lê-se em comunicado.

Apesar da tendência geral a baixar nos próximos dois dias, os efeitos das chuvas continuam visíveis, sobretudo em Maputo, onde uma ponte desabou, escolas fecharam-se durante uma semana e inúmeras vias de acesso ficaram destruídas.

O Município de Maputo entregou mais 50 casas  às famílias vítimas do desabamento da lixeira de Hulene em Possulane, município de Marracuene. Entretanto, faltam serviços sociais básicos na zona de reassentamento e a edilidade promete criar condições. 

Passam já seis anos após a tragédia que matou 17 pessoas e feriu outras mais de duzentas em Hulene, quando a lixeira desabou. 

O Governo retirou da zona atingida, 275 famílias e prometeu dar novas casas.

De 2018 a esta parte, foram construídas 209 casas em Possulane, Marracuene, província de Maputo, das quais 159 já tinham sido entregues.

Esta segunda-feira mais 50 casas foram entregues pelo edil da Cidade de Maputo, Rasaque Manhique. “São casas muito bonitas e sabemos  que vocês  vão cuidar muito bem delas, portanto, aquilo que vamos dizer é que é uma parte que fizemos, falta ainda uma parte porque faltam ainda muitas casas para serem entregues”, disse Rasaque Manhique, presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo.    

A falta de serviços sociais básicos é ainda a maior preocupação e  as autoridades locais muito bem sabem. “Temos a consciência e também já estivemos a conversar em relação a algumas questões que faltam, em relação a uma escola, hospital, posto policial. 

Por sua vez, os beneficiários do projecto mostraram-se satisfeitos por receber suas casas, no entanto garantiram não parar de interagir com a edilidade de Maputo até que a entrega de casas prometidas seja concluída.      

Cada uma destas casas do tipo 3 custou cerca de um milhão e trezentos mil meticais.

Importa referir que não passa um mês desde que as  vítimas do desabamento da lixeira de Hulene protestam contra a falta de pagamento de subsídio de renda das casas alugadas onde vivem.  As famílias falaram ainda, de despejos por parte dos proprietários das casas.

Houve cinco mortos por conta das inundações nas cidades de Maputo e Matola, milhares de pessoas afectadas, casas quase engolidas pelas águas e abandonadas e vias de acesso cortadas. Ainda assim, o INGD entende que o sistema de alerta evitou que o pior acontecesse. Aliás, as pessoas que engrossam as estatísticas dos afectados foram avisadas, mas negaram sair das zonas de risco para proteger os seus bens.

Na semana passada, concretamente, nos dias 24, 25 e 26 de Março, a natureza entrou “em fúria”, na zona Sul do país. Maputo, Gaza e Inhambane estiveram sob fortes chuvas, mas os impactos foram mais notórios no primeiro ponto (Grande Maputo).

Muitas famílias entraram em desespero. Houve cinco mortes. As estradas foram cortadas. Casas quase engolidas pelas águas e muitos bens arrastados pela correnteza das águas. As famílias lamentavam. Clamavam por socorro.

Diante de tudo isto, muitas perguntas. A principal delas é: era possível evitar esta situação ou, pelo menos, minimizar os seus impactos? Sábado, 23 de Março: um aviso de mau tempo é emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia, INAM.

“Para este fenómeno, que aconteceu na zona Sul, nos dias 24, 25 e 26, o Instituto Nacional de Meteorologia já havia emitido, na tarde do dia 23 de Março, um alerta sobre a ocorrência de chuvas e trovoadas fortes na zona Sul”, recordou Júlio Langa, meteorologista do INAM.

E todos os que deveriam trabalhar para minimizar os impactos desta tragédia, incluindo os governos municipais, sabiam da ocorrência do fenómeno.

“Todas as autoridades, incluindo o INGD, já tinham sido alertadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia, através de canais próprios”, revelou Júlio Langa.

Um alerta que não foi suficiente para evitar o drama provocado pelas chuvas. “Estamos mal com água. Não temos comida. Não temos nada para comer. Na minha casa está cheio de água. É difícil ter acesso ao quintal”, contou Ana Inácio, uma das vítimas das inundações.

São chuvas de três dias que criaram um grande drama humanitário nas cidades de Maputo e Matola. Casas foram destruídas, abandonadas e milhares de famílias deslocadas por conta das chuvas. Buscava-se um abrigo longe das inundações, até na linha férrea. As outras vítimas das inundações urbanas estão nos centros de acolhimento, onde se queixam de tudo e mais um pouco.

Mas tudo isto era evitável? O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres na Cidade e província de Maputo diz que fez de tudo para proteger as pessoas dos impactos da última chuva. Por exemplo, sensibilizou as famílias para saírem das zonas de risco através de vários mecanismos, só que as pessoas foram renitentes.

“Se não tivéssemos os comités locais de gestão de risco de desastres a funcionar, não tivéssemos os centros operativos de emergência e o conselhos técnicos de gestão de desastres a nível do distrito da província e a nível central a funcionar, se não tivéssemos um sistema de aviso prévio que funcione, os danos seriam sido muito maiores”, afirmou Sara Matchie, delegada do INGD na província de Maputo.

Mesmo para o número de pessoas que foram afectadas pelas inundações, há uma explicação. “As chuvas foram acima de 160 milímetros em 24 horas durante três dias consecutivos. Então, é muita quantidade de água, apesar de as pessoas estarem informadas e terem sido tomadas as medidas, elas (as pessoas) foram apanhadas de surpresa, mas não porque não sabiam que haveria de ocorrer este fenómeno extremo”, explicou Esselina Muzima, delegada do INGD na Cidade de Maputo.

E foi através de mensagens como estas que o Instituto Nacional de Redução do Risco de Desastres alertou sobre a aproximação do mau tempo. O INGD afirma que o sistema foi eficiente, mas as famílias afectadas não abandonaram as zonas de risco para proteger os seus bens.

“As pessoas só se retiram quando vêem o perigo, porque elas têm bens por proteger. É sua responsabilidade cuidar dos seus bens. Alguns não tinham saído quando a chuva começou, porque estavam à procura de um local para conservar todos os seus bens”, observou Esselina Muzima.

E o INGD não tem como forçar as famílias a abandonarem as zonas de risco. “Nós só podemos sensibilizar as pessoas, comunicá-las do perigo que está a acontecer, mas às vezes algumas acatam e outras esperam para ver”, referiu Sara Matchie.  Porque, segundo o INGD, as famílias não acataram as mensagens de sensibilização, muitas casas ficaram inundadas e milhares de pessoas foram afectadas.

“A estrutura do bairro não nos informou sobre a aproximação do mau tempo, mas, uma vez que temos rádio e televisão, tivemos a informação através destes meios. A partir daí, começamos a precaver-nos, mas não foi fácil, porque não esperávamos que fosse nesta dimensão”, contou Rosa Maolele, vítima de inundações no Município da Matola.

Mesmo depois de receber a informação, há quem ficou à espera até que a chuva caísse para proteger os seus bens. “Lá nas nossas casas, há roubos. Nós soubemos sobre a aproximação do mau tempo, mas, sempre que há esse tipo de alerta, não acontece nada. Por isso, nós não abandonámos as nossas casas”, explicou-se Graciete Cumbe, residente no bairro do Infulene Luís Cabral, cidade da Matola.

Entre as vítimas, há quem não recebeu nenhuma informação sobre a ocorrência das enxurradas e esperava por uma intervenção do INGD, em vão.

“Eu fiquei admirado, porque noutras zonas há sensibilização do INGD, mas desta vez não fomos informados”, disse Eduardo Lourenço, vítima das inundações no bairro Luís Cabral.
Sem informação, criou-se um espaço para especulações. “Ouvimos boatos. Disseram que iria chover, mas não acreditámos. Só saímos das nossas casas quando vimos que a água já estava a invadir as residências”, narrou Amélia Ubisse, outra vítima de inundações.

Porque falhou a prevenção, resta ao INGD remediar os impactos das últimas enxurradas, através da assistência a mais de 10 mil pessoas que estão em 30 centros de acolhimento na Cidade e Província de Maputo, através da disponibilização de produtos alimentares e não alimentares.

 

FAMÍLIAS NAS ZONAS DE RISCO: AS MAIORES VÍTIMAS

A população que mais sentiu os impactos das últimas chuvas é a que vive nas zonas ribeirinhas ou vulneráveis a inundações. Há, inclusive, nestes locais, placas que proíbem construções, por serem áreas de risco. Ainda assim, as pessoas fixaram residências, que têm água e luz, sob o olhar impávido de quem gere o solo urbano das cidades de Maputo e Matola.

As pessoas que vivem em zonas propensas a inundações estão sempre com o coração na mão, sobretudo quando chove.

“A minha casa estava cheia de água. Todos os meus pertences molharam, incluindo a comida”, contou Elsa Carlos, mais uma vítima.

Mulher de 32 anos e natural da Zambézia, Elsa foi obrigada a abandonar a sua casa, construída numa zona de risco. Ela comprou o terreno há sete anos. “Consegui o espaço à minha maneira. Eu e o meu marido trabalhamos. Então, começamos a juntar dinheiro para adquirir o espaço. Estava muito barato quando o comprámos”, detalhou.

Os que vivem em zonas de risco já mapeadas compraram os terrenos de alguém que o chefe de quarteirão muito bem conhece, inclusive os perigos de viver nessas áreas.

“Não temos condições para conseguir um terreno que não esteja em zona de risco. O terreno onde vivemos, comprei, e o chefe de quarteirão sabe que nós o comprámos, mas disse para não contarmos a ninguém, porque isso não é permitido. Ele disse que estava a ajudar-nos”, revelou Sílvia Ângelo, que vive numa zona propensa a inundações.

Alguns desses sítios foram integrados em alguns bairros há pouco tempo. “O bairro onde vivemos, perto da Portagem de Maputo, pertence ao Trevo, município da Matola. Esse é o nome que aparece nos documentos que solicitámos ao chefe do quarteirão para tratar água e luz”, esclareceu Francisco Eusébio, também residente numa zona de risco.

Sobre a construção de casas em zonas propensas a inundações, desobedecendo às placas de proibição, o INGD diz que a sua intervenção está limitada.

“Quando há uma ocupação das zonas de risco, desencadeia-se um processo, porque as pessoas não podem viver em constante perigo. O INGD pode chamar atenção para que os municípios tomem medidas”, observou a delegada do INGD na Cidade de Maputo.

E a delegada da mesma instituição na Província de Maputo, Sara Macthie, diz mais: “Não temos como obrigar as pessoas. Só podemos sensibilizá-las a abandonar as zonas de risco, e sentimos que isto está a produzir resultados. Já há um plano de retirada de pessoas nas cidades de Maputo e Matola”.

O Município da Matola justifica a construção de casas em locais propensos a inundações com o que chamou de êxodo rural. Mas há um trabalho para evitar que estas situações se repliquem.

“Estamos a instar as autoridades, desde os chefes de 10 casas, de quarteirão, secretários do bairro, chefe do posto, até a polícia municipal, para não estare ausentes do território. Não pode haver vazio no controlo do território. As famílias não podem, por elas, fazer a densificação dos bairros”, avançou Júlio Parruque, presidente do Município da Matola.
Para travar o fenómeno, o Município da Matola promete tomar medidas mais arrojadas.

“Quando for necessário demolir algumas casas, nós não iremos hesitar. Vamo-nos entender com as pessoas e com as entidades para podermos gerir as águas. É um trabalho que faremos com responsabilidade e tranquilidade”, concluiu.

Contactámos o Conselho Municipal de Maputo para falar sobre a ocupação das zonas vulneráveis a inundações, mas não houve sucesso.

O facto é que este fenómeno é, também, característico da capital do país, onde até o mangal é abatido para dar lugar a construções de luxo, agravando ainda mais a situação de inundações urbanas.

As aulas vão mesmo arrancar esta segunda-feira, apesar de algumas escolas ainda serem centros de acomodação na autarquia da Matola. A edilidade diz que os alunos vão partilhar espaço com as vítimas das enxurradas. Para todos os efeitos, Matola já desactivou cinco dos nove centros transitórios de acomodação.

Analita Zaqueu, aluna da 11ª classe que está, junto com a família, no centro de acomodação que funciona na Escola 8 de Março, diz que a água já secou na sua casa e já pode regressar.

“Na minha casa já não há água, por isso acho que já podemos regressar à nossa casa para ceder a escola.”

Quem também diz que já há condições para abandonar o centro de acomodação é Irene Vilanculos.

“Não está suficientemente seco, mas já dá para estar. O resto vamos ver lá podemos ficar sim.”

Ao contrário das anteriores entrevistadas, Natália diz que ainda vai permanecer no centro de acomodação da escola 8 de Março, porque a sua residência ainda está cheia de água.

“Não há condições. Há muita água na minha casa. A situação agrava-se porque está próxima a uma bacia de retenção. Então há muita água concentrada.”

E sobre esta situação, o edil da Matola diz que, para já, a solução será a partilha de espaços, e garantiu que as aulas vão mesmo arrancar.

“Aqui, nós teremos uma situação para segunda-feira, talvez até terça, em que teremos uma partilha do espaço, porque as famílias, as pessoas não ocupam todas as salas. Se a escola, por exemplo, tem 20 salas, estarão ocupadas duas ou três para acolher os munícipes.”

O edil da Matola diz que, para já, não há espaço para debates, sendo que a prioridade é gerar soluções para os diferentes bairros afectados na autarquia.

E uma das grandes preocupações nos centros de acomodação é, por enquanto, a escassez da  alimentação, e a cidade da Matola recebeu, este domingo, kits de alimentos e produtos diversos.

Uma embarcação, operada pela Unidade Nacional de Protecção Civil, naufragou, neste sábado, com 11 pessoas a bordo. Fala-se de um morto devido ao incidente. 

“Nas primeiras horas do dia de hoje, estávamos no processo de desencalhar a embarcação e os marinheiros aperceberam-se da presença de um corpo que estava por baixo de embarcação e, esta manhã, ao levantar a embarcação, viu-se o corpo, confirmou-se que se trata do corpo de um homem de cerca de 50 a 60 anos”, explicou a presidente do Município de Boane, Jubia Bonifácio.

A fonte explica que na embarcação havia coletes salva-vidas, mas a vida mortal não usava. O caso está a ser investigado pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal.

A razão por que se usa a embarcação para ligar as margens do rio Umbeluzi é que a ponte de “Mazambanine” está submersa devido à subida do caudal do mesmo. A situação preocupa a população que, mais uma vez, exige que seja construída a referida ponte. 

Adamugi Amade diz ser recorrente a existência de naufrágios, por isso, entende que a solução é mesmo a construção da ponte. “Estamos a pedir ao Governo para construir a ponte para parar com o sofrimento das pessoas aqui em Mazmbanine”, disse.

Neste momento, a travessia entre os bairros Sete de Setembro e 25 de Setembro é feita por embarcações artesanais e convencionais. O facto mais alarmante é que as embarcações da Unidade Nacional de Protecção Civil terminam de operar às 17h, sendo que no período nocturno, as comunidades arranjam uma outra solução.

Para já, o drift de Mazambanine está encerrado ao trânsito.

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