O líder do principal partido da oposição na Tanzânia, Tundu Lissu, foi condenado, esta sexta-feira, a quatro anos de prisão, por incitação à violência, depois de ter sido absolvido da acusação de traição, que poderia resultar na aplicação da pena de morte. A decisão está a gerar fortes críticas da comunidade internacional, que considera o processo judicial politicamente motivado.
Tundu Lissu, de 58 anos, líder do partido Chadema, foi detido antes das eleições presidenciais de Outubro de 2025, tendo permanecido 19 meses na prisão. O tribunal considerou-o inocente da acusação de traição, mas condenou-o por incitação, apesar de este crime não constar formalmente do processo. Durante a leitura da sentença, o juiz afirmou que as declarações do político tinham como objectivo perturbar o processo eleitoral e instigar actos de violência.
Em reacção, Lissu classificou o julgamento como uma perseguição política e acusou os magistrados de actuarem sob ordens do Governo da Presidente Samia Suluhu Hassan.
A condenação surge num contexto de crescente tensão política na Tanzânia, onde o Governo tem sido acusado de reprimir opositores e críticos. Antes das eleições de Outubro de 2025, foram registadas detenções e raptos de membros da oposição, seguidos de manifestações de grande dimensão.
Samia Suluhu Hassan venceu as eleições com 98 por cento dos votos. Segundo a oposição e organizações de defesa dos direitos humanos, milhares de pessoas terão sido mortas pelas forças de segurança durante a repressão dos protestos. O Governo, por sua vez, reconhece oficialmente 518 mortos.
A decisão judicial provocou reacções de condenação no estrangeiro. Parlamentares britânicos e a União Europeia consideram o processo politicamente motivado e exigem a libertação imediata de Tundu Lissu. O embaixador dos Estados Unidos da América na Tanzânia, William Trachman, também manifestou preocupação com as implicações do julgamento para o Estado de Direito no país.
Na Tanzânia, as medidas de segurança foram reforçadas na capital comercial, Dar es Salaam, e nas imediações do tribunal, antes da leitura da sentença.
Este é o terceiro julgamento por traição de grande repercussão na história da Tanzânia continental. Os dois anteriores ocorreram nas décadas de 1970 e 1980, envolvendo acusações de conspiração para derrubar e assassinar o primeiro Presidente do país, Julius Nyerere.
Em 2017, Tundu Lissu sobreviveu a uma tentativa de assassinato, durante a qual foi atingido por 16 tiros. O político, que acredita que o ataque teve motivações políticas, foi submetido a cerca de 20 intervenções cirúrgicas na sequência dos ferimentos.
Os artistas e activistas socioculturais moçambicanos, Moreira Chonguiça (saxofonista) e Paulina Chiziane (escritora), estão nos Estados Unidos da América, onde vão participar de diversos programas de celebração da literatura e música moçambicanas.
Denominado Living, o programa terá o seu ponto mais alto no dia 28 de Fevereiro corrente, no campus principal da Universidade de Georgetown.
“É sempre uma honra poder falar do nosso país em outros quadrantes do mundo. Durante uns tempos estávamos a consumir o que é dos outros. Entretanto, nós temos o nosso turismo, a nossa Literatura, a nossa música, gastronomia e outras valências e potencialidades como país. Creio que são essas sinergias que mostram o quanto Moçambique tem a oferecer ao mundo”, disse Moreira Chonguiça.
Moreira Chonguiça é saxofonista, músico de jazz, produtor, compositor e influenciador cultural moçambicano. Chonguiça iniciou o seu percurso musical em Maputo, Moçambique, onde começou a estudar na Escola Nacional de Música (ENM).
Após os seus estudos em Maputo, continuou os seus estudos na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul. Com o seu público global, Chonguiça orgulha-se de partilhar o seu som africano com o mundo em geral.
O seu álbum mais recente, Sounds of Peace, lançado em Novembro de 2022, baseia-se em influências ocidentais e africanas, ao mesmo tempo que representa a herança cultural única de Moçambique através de temas musicais indígenas e canções cantadas nas línguas locais, incluindo Makhuwa, Makonde e Changana.
Chonguiça foi duas vezes nomeado para Melhor Álbum Africano nos African Global Music Awards e ganhou um prémio com o mesmo nome nos Just Plain Folks Music Awards pelo seu MP Reloaded de 2013.
Paulina Chiziane é membro do grupo Chope do Sul de Moçambique. Tendo nascido na província de Gaza, em Moçambique, em 1955, Chiziane viveu tanto a guerra colonial de independência de Moçambique como a sua subsequente guerra civil, um tema que informa grande parte da sua escrita.
Além disso, os direitos e o tratamento das mulheres na sociedade moçambicana são frequentemente abordados no seu trabalho. Ao publicar a sua primeira obra, Balada de Amor ao Vento, em 1990, tornou-se a primeira mulher a publicar um livro em Moçambique independente.
Em 2021, Chiziane tornou-se a primeira mulher africana a ganhar o prestigiado prémio Camões, a maior honraria para escritores lusófonos. Uma tradução para o inglês de O Alegre Canto da Perdiz será lançada ainda este ano.
Cento e vinte cinco mil e trezentos hectares de culturas diversas estão totalmente perdidos devido à insuficiência da chuva e pragas que afectaram os campos de produção agrícola, nos distritos da região sul da província de Tete.
A situação afecta mais de 100 mil e seiscentas famílias produtoras, segundo o chefe do Departamento da Agricultura e Segurança Alimentar na Direcção Provincial da Agricultura e Pescas, António Mourinho, entrevistado pela Rádio Moçambique.
O parlamento húngaro ratificou, esta segunda-feira, a adesão da Suécia à NATO. Era o passo final necessário para o país nórdico aderir à Aliança Atlântica desde a invasão russa da Ucrânia.
A candidatura de Estocolmo foi aprovada por uma esmagadora maioria de deputados (188 votos em 199 lugares), após quase dois anos de espera, escreve a Lusa.
Após a ractificação, há um mês, pelo Parlamento turco, a Hungria era o último dos 31 membros da Aliança que ainda não tinha aprovado a entrada da Suécia, num processo que começou há quase dois anos e até agora era bloqueado por estes dois países.
A ratificação pelo Parlamento húngaro, onde o Fidesz do primeiro-ministro, Viktor Orbán, tem uma maioria de dois terços, foi adiada várias vezes, tendo os deputados deste partido justificado o atraso, por exemplo, com as críticas da Suécia sobre a política e a deriva democrática na Hungria, também denunciada pela União Europeia.
Na sexta-feira, Orbán tinha anunciado a reunião desta segunda-feira do parlamento para tomar “as decisões necessárias, que encerrarão esta fase”, numa conferência de imprensa junto do seu homólogo sueco, Ulf Kristersson.
Segundo a Lusa, na mesma ocasião, Orbán revelou ainda a compra de quatro aviões de combate à Suécia, demonstrando o desejo de uma cooperação militar reforçada.
Também foram assinados acordos relacionados com a manutenção e prestação de serviços destes aparelhos.
Orbán garantiu que esta operação não se relaciona com a ratificação da entrada da Suécia na NATO e afirmou que restaurar a confiança entre os dois países tem sido um processo longo, mas reconheceu que a aquisição dos caças “contribuirá para restabelecê-la”.
Na altura, o chefe do Governo sueco evitou criticar a Hungria e afirmou que quando um país pede para ser membro da NATO sabe que o pedido terá de ser ractificado por todos os países.
O governante afirmou que Hungria e Suécia, apesar das suas diferenças, são parceiros na União Europeia “e em breve também na NATO”.
NATO SATISFEITA COM A ADESÃO DA SUÉCIA
O chanceler alemão, o Presidente francês e o primeiro-ministro britânico saudaram a adesão da Suécia à NATO, aprovada pelo Parlamento húngaro, último passo que faltava para completar o processo.
“O caminho está livre para a Suécia na NATO, é uma vitória para todos (…). Esta decisão reforça a nossa aliança de defesa e, com ela, a segurança da Europa e do mundo”, declarou o chanceler alemão, Olaf Scholz numa mensagem publicada na rede social X.
“Parabéns ao vosso país”, disse o Presidente francês, Emmanuel Macron, congratulando-se com o facto de a Suécia e, antes dela, a Finlândia terem aderido à NATO.
Por sua vez, o chefe do Governo britânico, Rishi Sunak, classificou o dia como “um dia histórico” para a NATO, após a ‘luz verde’ do parlamento da Hungria à adesão da Suécia, o único obstáculo que faltava ultrapassar para a sua entrada na Aliança Atlântica.
O Presidente do Senegal, Macky Sall, declarou amnistia geral para os envolvidos em protestos políticos desde 2021, durante negociações para uma nova data para as presidenciais.
“Num espírito de reconciliação nacional, apresentarei esta quarta-feira à Assembleia Nacional, em Conselho de Ministros, um projecto de lei de amnistia geral para actos relativos a manifestações políticas ocorridas entre 2021 e 2024”, disse o Presidente do Senegal, citado pela DW.
Macky Sall entende que a decisão vai permitir “pacificar a arena política e fortalecer ainda mais a coesão nacional”.
Várias centenas de membros da oposição foram presos no Senegal desde 2021, no meio da luta pelo poder entre o líder da oposição Ousmane Sonko e o Estado.
Macky Sall tem enfrentado protestos públicos e apelos crescentes para marcar as eleições, depois de ter adiado abruptamente o escrutínio, inicialmente previsto para 25 de Fevereiro, desencadeando uma das piores crises do país em décadas. Os protestos que se seguiram fizeram cerca de quatro mortos.
Sall disse, na segunda-feira, que pretendia organizar as eleições presidenciais até Julho, apesar de um movimento generalizado pedir eleições antes de 2 de Abril, quando o seu mandato expira.
A selecção nacional de futebol de praia iniciou, esta segunda-feira, a sua preparação tendo em vista a participação na Taça COSAFA 2024, competição a realizar-se de 17 a 23 de Março próximo, na cidade de Durban, África do Sul.
Para projectar esta competição, foram chamados 23 jogadores que se apresentaram, ontem, na Arena na Praia da Costa do Sol. Trata-se de Nelson Manuel, Manuel Tivane, Dário Machaieie, Paulo Gervásio, Hélio Mahota, Yuran Malate, Gerson Chivale, Gonçalves Bila, Martinho Manuel, Ângelo Tomás, Bachir Mussá, Hélder Mahumane, António Namape, Júlio Manjate, Ramossete Cumbe, Rachide Simithe, Fidel Cossa, Mauro Matimbe, Fábipo Coane, Amade Resso, Getro Paia e João Joly.
Destes, sairão os 14 que irão seguir para o palco da 4ª edição do torneio regional Taça COSAFA em futebol de praia.
A selecção nacional de futebol de praia conquistou, em 2021, pela primeira vez, o título de campeão regional da modalidade, ao derrotar a Tanzânia por 1-3 na final da Taça COSAFA disputada no Beach Soccer Arena, na cidade de Durban, na África do Sul.
No mesmo ano, precisamente em Agosto, Moçambique fez história ao participar no Campeonato do Mundo de Futebol de Praia, em Moscovo, capital da Rússia.
O combinado nacional estreou-se diante da Espanha, uma das equipas mais destacadas nesta modalidade.
Uff! Um alívio! O basquetebol, na Cidade de Maputo, continuará a respirar de boa saúde. Porquanto, depois de um período de indecisão, provocado por contestação por parte de alguns clubes de decisões concertadas, a Comissão de Gestão da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo fez um marcha-à-ré e vai continuar a dirigir a modalidade da bola ao cesto na capital.
O primeiro passo será dado no próximo dia 2 de Março, data para a qual está agendada uma assembleia-geral, reuniãoem que os clubes irão chancelar a sua continuidade, desta feita como direcção da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo (ABCM).
Com seu mandato expirado a 22 de Dezembro de 2023, a Comissão de Gestão da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo havia “batido na mesa” e decidido não continuar.
Mas, depois do voto de confiança e apelo dos clubes, a equipa composta por Sérgio Hitie, Ebenizário Hamela, Naftal Chongo e Anastácio Monteiro vai mesmo continuar a dinamizar as competições na Cidade de Maputo. Note-se que Michel Amade, um dos membros da comissão, passou para a Federação Moçambicana de Basquetebol na qualidade de secretário-geral.
Depois de assumir os destinos da agremiação, e num cenário de “seca” na capital em termos de provas (ficou-se seis meses sem competição), os jovens arregaçaram as mangas e promoveram ” 12 horas de basquetebol.”
A iniciativa, que cruzou os pavilhões do Desportivo e Maxaquene, paredes-meia, foi uma verdadeira maratona de basquetebol, envolvendo todos os escalões.
Seguiu-se o Torneio de Abertura, competição que teve como grande vencedor o Costa do Sol. Em femininos, os “canarinhos” derrotaram a A Politécnica por 53-41. Em masculinos, o Costa do Sol venceu o Maxaquene (59-55).
O retorno da Taça Maputo, desta feita com a designação de Taça Maputo Jogabets 100 Paus, foi uma das novidades trazidas pela Comissão de Gestão da ABCM.
De resto, a prova teve a particularidade de trazer consigo uma componente sempre motivadora: premiação monetária. De tal sorte que, ao conquistar a prova em femininos depois de vencer o Costa do Sol (62-47), o Ferroviário de Maputo encaixou 70 mil Meticais, enquanto o finalista vencido levou 30 mil.
Mesmo valor coube ao Costa do Sol, em masculinos, que superou na final a A Politécnica, vencendo por 69-55.
Cada um dos vencedores dos prémios individuais (melhor marcador, melhor triplista, melhor treinador e MVP) arrecadou o prémio de 10 mil Meticais.
A agremiação levou ainda a cabo o Campeonato da Cidade, prova que viria a ser amputada devido ao aperto de calendário.
Serve de referência recordar que, na prestação de contas, a Comissão de Gestão de Basquetebol da Cidade de Maputo reclamou ter deixado nos cofres da agremiação cerca de 638 mil Meticais.
Há equipamento avariado nos serviços de lavandaria do Hospital Central de Nampula. Falando durante um encontro com deputados do MDM, o ministro da Saúde diz que iniciou a reparação e que o Governo vai tercerizar os serviços.
Trata-se de um encontro em que o MDM e o Governo pretendiam fazer a radiografia de alguns hospitais, com destaque para o Hospital Central de Nampula.
Sobre esta unidade sanitária, o Movimento Democrático de Moçambique diz que a taxa de ocupação está acima de 100% e que as máquinas da lavandaria não funcionam.
“A avaria das máquinas de lavagem hospitalar, as máquinas de esterilização… há uma taxa acima de 100% e há problemas também de exiguidade orçamental para o funcionamento diário do hospital, alimentação, aquisição de bens e serviços, dívidas em alguns hospitais. Decidimos vir colocar estas questões enquanto deputados e ver a forma de encontrar uma solução conjunta”, apontou Fernando Bismarque, deputado da bancada do Movimento Democrático de Moçambique.
O ministro da Saúde, Armindo Tiago, conhece bem os problemas e diz que a conclusão do Hospital Geral de Nampula é uma das soluções.
“O Hospital Central de Nampula é o único hospital especializado naquela província, razão pela qual a nossa abordagem para a solução é a sua conclusão, que vai aumentar a capacidade na cidade de Nampula. Das 550 que existem, mais 400, passaremos para mais de 900 camas”, respondeu Armindo Tiago, ministro da Saúde.
Sobre o equipamento da lavandaria, Tiago diz que decorrem trabalhos de manutenção.
“O nosso pensamento é de terceirização dos nossos serviços de lavandaria, mas até lá vamos fazer a reparação do material existente. Por isso, já mandámos uma equipa de electrotécnicos para fazer o trabalho”, avançou.
Quanto à disponibilidade de medicamentos, o sector da saúde diz que há stock disponível para três meses em todo o país.
Cerca de 500 pescadores beneficiaram-se, esta segunda-feira, 26 de Fevereiro, de insumos destinados a actividades de promoção da pesca artesanal e melhoria da renda dos pescadores. A oferta está inserida no programa ProAzul, implementado pelo Ministério do Mar, Águas Interiores e Pescas.
Os insumos entregues esta segunda-feira pelo governador de Sofala, Lourenço Bulha, fazem parte de uma iniciativa que visa promover a pesca artesanal e a sua cadeia de valor, no que toca à captura, processamento, transporte e comercialização do pescado. Entre os bens entregues, estão congeladores, “kits” de painéis solares, motores para barcos de pesca, balanças, geradores, entre outros.
Cada beneficiário comparticipou com 20% e o Governo, com o apoio do Banco Mundial, entrou com 80%.
O governador de Sofala reconheceu a demora no processo, mas diz que o Governo está empenhado em apoiar várias iniciativas com vista ao desenvolvimento das actividades dos pescadores, e não só.
ProAzul é um programa desenhado como um mecanismo de financiamento em regime de comparticipação, não reembolsável, a pescadores artesanais, e tem como um dos principais objectivos melhorar o nível de renda dos pescadores tradicionais de forma sustentável.
Há uma fábrica chinesa de reciclagem de plástico, supostamente ilegal, que está a provocar poluição no bairro Infulene, cidade da Matola, Província de Maputo. Os residentes já se queixam de problemas respiratórios e dizem que a água que sai da empresa é tóxica e contamina as culturas na machamba. A reportagem é de Dário Cossa e Abdul Manhiça.
Uma chaminé que está às vistas de todos. É um canal de fumo que transporta doenças. A direcção na qual o fumo segue é em função do vento, e a intensidade com que sai e se espalha pelas casas à sua volta é a mesma com que faz vítimas.
É uma fábrica chinesa de reciclagem de plástico, no bairro de Infulene, cidade da Matola, Província de Maputo. O problema não é só da fumaça tóxica que se espalha pelas residências, mas, também, da água contaminada que sai da fábrica e segue numa vala improvisada e atinge campos agrícolas com culturas que alimentam muitas famílias. É a doença a espalhar-se pela terra e pelo ar.
A fábrica em causa chama-se Shenxian Plastic Recycling Limitada e opera no bairro de Infulene, cidade da Matola, Província de Maputo, desde 2022. De lá a esta parte, os que vivem nos arredores da empresa só se queixam de problemas respiratórios provocados pela actividade da fábrica.
“Não há nenhuma criança, por aqui, que tenha problemas. Todas as crianças do bairro de Infulene andam constipadas. Tenho muitos remédios, que fui buscar no hospital para qualquer eventualidade. Aquele fumo é muito tóxico durante a noite e nós não dormimos. Há pessoas que já usam bombas por já não estar a aguentar”, contou Pedro Zaqueu, residente no bairro de Infulene, cidade da Matola.
A situação é ainda mais grave para os doentes crónicos. “E basta começar a sair aquele fumo, não nos sentimos bem, mas o que fazer? Eles (os da fábrica) já foram recebidos. A coisa é mais grave para os doentes crónicos. Pioram. Eu próprio estou doente. Mas o que fazer?”, questionou de forma retórica Carolina Matsinhe, também residente do bairro Infulene.
E a situação só piora porque, mesmo de noite, a fábrica não pára de reciclar plástico. “Pernoitam a trabalhar. Aquelas máquinas funcionam dia e noite. No período nocturno, há coisas que eles queimam que cheiram muito mal. Tiram muita fumaça. Um fumo escuro. Qualquer dia, podemos ter problemas pulmonares”, denunciou Basílio Gomes, residente no bairro de Infulene.
E o fumo está muito perto dos que vivem à volta da empresa, porque o chaminé tem um comprimento de apenas três metros visível, chegando a ser ultrapassado pela altura de algumas árvores. “A chaminé devia estar mais em cima para que o fumo esteja mais em cima”, entende uma moradora de Infulene que falou na condição de anonimato. “Aquele fumo sai para nós todos aqui. Ficamos constipados. Semanalmente, temos de ir ao hospital. Não dá jeito. Não ajuda. Está a criar-nos problemas. Nem é possível cozinhar no quintal. Não dá”, desabafou.
ÁGUA CONTAMINADA CHEGA ÀS CULTURAS
No solo, o que se vê é plástico descartado. Há dois anos, forma uma lixeira, bem em frente da fábrica. É mesmo do lado frontal que saem as águas contaminadas que escorrem até às machambas.
O sistema de filtro concebido para não permitir que o plástico chegue às machambas já não funciona e tudo desce para as culturas que estão no Vale do Influente.
“A fábrica que foi instalada aqui, na zona, está a prejudicar-nos, porque tira água suja e que cheira mal. Esta água entra nas nossas valas, de onde tiramos a água para irrigação e as culturas não sobrevivem”, descreveu Rossina Maunze, produtora agrícola no Vale do Infulene.
E, na condição de anonimato, outra produtora acrescenta: “Essa água, de facto, não ajuda. Mata as culturas, porque está salgada e tem os químicos que são usados na fábrica.”
Nos dias de chuva, todo o plástico que é mal descartado pela fábrica de reciclagem é arrastado até às machambas e o plástico, segundo os produtores, “não apodrece com facilidade. Atrapalha muito. Não ajuda. Onde semeio alguma coisa enquanto há plástico, a cultura não se desenvolve bem”.
E, por conta disso, muitos canteiros foram abandonados, mas, por não ter escolha, Rossina insiste na produção agrícola e tem a sorte como sua aliada.
“Se viesse uma nuvem que trouxesse chuva, (as culturas) ainda podem sobreviver. Mas se isto continuar assim todo esse mês, não há hipóteses. – As culturas morrem por causa da chuva ou da água que usam? Temos a água e a chuva, mas se fosse só o calor, há anos que lutamos, até conseguir colher. Entretanto, isto se junta à água contaminada”, afirmou Rossina Maunze, com um tom carregado de esperança e, ao mesmo tempo, resignação.
O pouco que se consegue tirar da machamba, alertam os residentes do bairro de Infulene, pode estar contaminado. “Essas coisas são levadas e vendidas na cidade. A pessoa vai comer sem saber que está a consumir um produto que pode estar contaminado, mas os produtores não têm outra alternativa. Vivem disto”, rematou Pedro Zaqueu.
Além das culturas, a água contaminada que sai da fábrica está a dizimar o peixe que existe nestas valas e no rio Mulauzi, que é o seu destino final.
NÃO HOUVE CONSULTA PÚBLICA PARA INSTALAÇÃO DA FÁBRICA
A nossa equipa de reportagem sabe que, aquando da instalação da fábrica naquele bairro, não houve auscultação pública e os moradores foram simplesmente surpreendidos com a fábrica já a funcionar.
Aliás, os moradores ficaram a saber, mais tarde, de um encontro restrito e num ambiente informal para se decidir pelo funcionamento da fábrica. “Fizeram uma mini-festa a chamarem os trabalhadores e estavam com um grupo da INAE num bar do bairro. Comeram e beberam. E, depois, disseram que nos chamariam para mostrar o que está a acontecer e o que a empresa quer fazer. Até aqui, este é o terceiro que já metemos a documentação e não está a dar em nada”, queixou-se Pedro Zaqueu.
E os residentes chegaram a submeter a reclamação ao chefe de quarteirão que, simplesmente, ignorou o assunto.
“O chefe de quarteirão é o pior de todos. Ele trabalha ali mesmo. Pode mandar fechar a empresa onde está a trabalhar para não ter emprego? Não é possível”, desconfiou Basílio Gomes.
E o chefe de quarteirão trabalha como um dos guardas na fábrica que está a poluir no bairro. Segundo informações em nossa posse, terá sido ele quem ajudou a fábrica de capitais chineses a adquirir a parcela naquele quarteirão.
“SER HUMANO CONSOME PLÁSTICO TODOS OS DIAS”
De acordo com o ambientalista Rui Silva, o ser humano consome plástico porque, depois de usado e descartado, ele vai parar no oceano e, consequentemente, serve de alimento para as espécies que vivem no mar e que fazem parte da dieta alimentar do Homem.
“Nós próprios acabamos por ingerir plástico, microplástico, pelo facto de o peixe confundir o plástico com um alimento, além de outras espécies que acabam por morrer. Esse microplástico acaba no nosso organismo, porque o peixe que nós vamos comer, o sal que utilizamos, 90% tem partículas de microplástico”, contextualizou o ambientalista Rui Silva.
Esta é uma ideia geral do que o plástico faz na vida do ser humano.
Com o ambientalista, analisámos a situação da fábrica de reciclagem de plástico na Matola e falou das consequências deste tipo de empreendimento próximo das residências.
“Logo, uma das coisas que pode afectar, gravemente, as pessoas são essas águas que, infiltradas nos solos, se calhar coincidir com a passagem de uma linha de água, quer dizer que quem tiver os seus poços ali nas redondezas acaba por ter, depois, uma água contaminada. Este tipo de indústria, por norma, tem de ficar fora das zonas residenciais”, observou Rui Silva.
Para este tipo de indústrias, entende Rui Silva, a única solução é mandar fechar, pelo bem da saúde das pessoas e do meio ambiente. “Na minha opinião, não há meio-termo. Ou há zonas industriais, onde possam estar, mediante apresentação de estudos de impactos ambientais… juntar-se a residências? Não há meio-termo”, rematou Rui Silva.
À nossa equipa de reportagem, a empresa chinesa não quis prestar quaisquer declarações e recusou-se, também, a mostrar as licenças para o exercício da actividade e ambiental, bem como o estudo de impacto ambiental.
O “O País” sabe que a fábrica que antecedeu a Shenxian Plastic Recycling Limitada foi multada em cerca de cinco milhões de Meticais e encerrada por violação das normas ambientais.
Além de violar, de forma grosseira, todas as leis ambientais, informações em nossa posse dão conta de que a fábrica de reciclagem de plástico se instalou no mesmo espaço físico que, há dois anos, uma empresa do género foi encerrada por atropelar as normas do ambiente. Ademais, não existe licença ambiental e não foi feito o estudo de impacto ambiental.