As Organizações Sem Fins Lucrativos negam que estejam envolvidas em crimes de branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo. Por isso, exigem um tratamento diferenciado diante dos bancos comerciais e das autoridades públicas ligadas à matéria.
Por constarem da lista dos suspeitos de lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo há cerca de dois anos, nesta quinta-feira decidiram sentar-se à mesma mesa com o Governo e os bancos comerciais para limpar o seu nome e exigir também um tratamento menos asfixiante.
Num evento que contou com a participação da secretária permanente do Ministério das Finanças, as organizações queixaram-se de estar a enfrentar problemas sérios para abrir contas bancárias e para receber dinheiro de doadores externos para os seus projectos.
“O doador manda o recurso e o banco informa, às vezes depois de duas a três semanas, que recebeu uma transferência e começa a pedir uma série de documentos. Muitas vezes, esses documentos já foram entregues, às vezes não é um contrato novo. É uma transferência para implementar imediatamente. O tempo demora tanto, às vezes dois a três meses. Em alguns casos, há organizações que reportaram que não conseguem receber esse dinheiro e acabam perdendo o recurso. Por exemplo, se é uma resposta a uma emergência, como cheias ou outra coisa, depois de três a quatro meses torna-se irrelevante”, defende a activista social Paula Monjane, representante do Movimento para a Liberdade de Associação.
Diante das constatações, as organizações consideram inaceitável que cumpram os requisitos exigidos pelos bancos para gerir uma conta bancária e que, mesmo assim, os seus processos não corram. Acusam os bancos de ignorar as recomendações das autoridades oficiais.
“As nossas recomendações são: primeiro, que a avaliação sectorial de risco seja uma ferramenta de uso dos bancos e do sistema financeiro para definir as medidas proporcionais. Segundo, que as boas práticas do GAFI também sejam consideradas no processo de definição de medidas baseadas no risco. Terceiro, que haja um diálogo permanente entre o Governo, o sector financeiro e a sociedade civil. Quarto, que as medidas sejam proporcionais, de tal forma que não levem as organizações a abandonar o sistema financeiro formal para começarem a usar um sistema informal, no qual não vai ser possível encontrar e controlar operações suspeitas”, detalha a activista social Quitéria Guirengane.
Contudo, as organizações sem fins lucrativos exigem um tratamento tendo em conta o risco de cada uma delas. “O que nós exigimos como sociedade civil, sobretudo como CESC, é que essa lista das organizações que supostamente foram detectadas na avaliação fosse entregue aos bancos, no sentido de que, na altura das transacções financeiras, fosse a esse tipo de organizações que se devia demandar mais documentação. Não faz sentido, por exemplo, uma organização pequena, ao nível de Cabo Delgado, que precisa de receber fundos para poder implementar os seus pequenos projectos de desenvolvimento para alavancar o desenvolvimento local, não ter acesso a fundos porque, supostamente, as organizações da sociedade civil são susceptíveis de abuso, mesmo que não haja evidências sobre isso”, considera Domingos do Rosário, gestor do CESC, uma organização da sociedade civil.
Por sua vez, os bancos comerciais dizem estar a trabalhar com listas oficiais de suspeitos e com base na legislação, motivo pelo qual exigem melhor organização aos queixosos.
“Temos um sistema de identificação de entidades nacionais relacionadas com o financiamento do terrorismo, e isso consta de umas listas que são publicadas também ao nível nacional e enviadas aos bancos para que adoptem medidas proporcionais ou medidas de mitigação relativamente a essas entidades. Agora, identificar casos em concreto não seria o momento para trazer aqui. O que se pretende mesmo é que as instituições estejam preparadas para evitar que estes riscos de facto se concretizem e que haja de facto este uso do sector para o financiamento do terrorismo”, explicou aos jornalistas Edgar Fortes, da área de anti-branqueamento de capitais do Banco de Moçambique.
Por seu turno, Samir Zacarias, representante da Associação Moçambicana de Bancos (AMB), explica que os bancos têm métricas específicas para medir os riscos das organizações. “Tendo em conta o resultado, a documentação que é solicitada pode divergir em alguns pontos. Quando nós calculamos o nível de risco de uma associação, há associações que operam em áreas de alto risco. Vou dar um exemplo de Cabo Delgado, que é uma área assolada pelo terrorismo. Há outras que não operam numa área de alto risco. Evidentemente, o resultado do nível de risco dessas duas associações pode ser diferente”, explicou.
Na última avaliação, as confissões religiosas apareciam com maior risco. Mas há trabalhos em curso para melhorar a situação e, em breve, haverá uma nova avaliação.
“68% das confissões religiosas foram apontadas com algum nível de risco. Elas estão identificadas na avaliação nacional de risco. Nós temos dados que apontam para as confissões religiosas, é preciso que se retenha o que se está a dizer. E quais são esses riscos? Não há contas bancárias, (…) há uma série de elementos que contrariam a Lei 14 do Branqueamento de Capitais”, destaca Luís Cezerilo, coordenador nacional de políticas de prevenção ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e proliferação de armas.
Espera-se que a reunião que teve lugar ontem em Maputo produza consensos entre os bancos, as organizações sem fins lucrativos e as autoridades do Governo, sem prejuízo das partes.
Peixes foram encontrados mortos nas águas e margens do Rio Loreco, nas proximidades de Marrangira, no distrito de Marrupa, província do Niassa. A ocorrência levanta preocupação sobre a qualidade da água, numa região onde também existe actividade de mineração artesanal. A causa da morte dos peixes ainda não foi determinada. Uma quantidade significativa de peixes foi encontrada morta nas águas e margens do Rio Loreco, nas proximidades de Marrangira, no distrito de Marrupa, em Niassa.
Imagens divulgadas pela Moçambique Bio mostram peixes mortos concentrados junto às águas e margens do curso de água. A ocorrência levanta preocupação sobre uma eventual alteração da qualidade da água, mas ainda não existem análises que permitam determinar a causa da morte dos animais. O Rio Lureco é identificado em documentos sobre o distrito de Marrupa como afluente do Rio Lugenda, que integra a rede hidrográfica da região.
A área de Lureco é também conhecida pela actividade mineira. Dados oficiais de produção de 2022 registam, por exemplo, produção de ouro no Acampamento de Lureco, em Marrupa. A existência de actividade mineira, entretanto, não permite estabelecer uma relação directa com a mortandade dos peixes agora observada. Para determinar a origem do fenómeno será necessária a intervenção das autoridades competentes, com recolha e análise de amostras de água, sedimentos e dos próprios peixes.
A investigação deverá igualmente esclarecer se existe alguma substância contaminante na água e se esta representa riscos para as comunidades e para os animais que dependem daquele recurso. A preocupação ambiental é relevante numa região onde os recursos hídricos têm importância para as comunidades locais e onde a pesca integra as actividades e meios de subsistência da população. Até que sejam conhecidos os resultados das análises, qualquer ligação entre a actividade mineira e a morte dos peixes continua por apurar.
A Ministra das Finanças, Carla Louveira, afirmou nesta quinta-feira, 01.10.26, na abertura do II Conselho Coordenador do seu sector, que Moçambique enfrenta em simultâneo três transições – climática, geopolítica e tecnológica – que se cruzam e exigem uma mudança profunda na forma como o Estado gere o Orçamento. Num discurso marcado pelo balanço da última época chuvosa, a governante foi directa: o país precisa de abandonar a lógica de reagir depois da emergência.
“Enfrentamos em simultâneo três transições, uma transição climática que nos testa, uma transição geopolítica que nos pressiona e uma transição tecnológica que nos convoca. Essas transições não actuam de forma isolada, elas cruzam-se e amplificam-se”, disse Louveira perante quadros superiores do Ministério, na abertura do II Conselho Coordenador.
Os dados apresentados pela Ministra mostram a dimensão do desafio. Entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026, Moçambique registou as inundações mais severas da última década, com mais de 100 mortos e cerca de 724 mil pessoas afectadas, das quais 691 mil de forma directa. Mais de 30 mil habitações foram destruídas e milhares de famílias ficaram desalojadas.
No total da época chuvosa 2025/2026, mais de 1 milhão e 78 mil pessoas foram afectadas, com um impacto estimado em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para Carla Louveira, estes números provam que o fenómeno climático deixou de ser uma emergência humanitária pontual para se tornar um choque fiscal estrutural.
“Esta realidade obriga-nos a abandonar a lógica de reagir depois da emergência e adoptar uma cultura de prevenção antecipatória. Reconstruir melhor não pode ser apenas uma expressão, deve traduzir-se em escolas mais seguras, estradas mais resilientes e comunidades melhor preparadas”, defendeu.
No plano externo, a Ministra alertou para o recrudescimento do conflito no Médio Oriente, com impacto directo nas cadeias globais de abastecimento de energia. “Para um país ainda dependente da importação de combustíveis líquidos,como Moçambique, o risco é triplo: pressão sobre os preços internos, maior volatilidade na disponibilidade de divisas e incerteza na programação orçamental. A resposta do Governo não pode ser controlar o preço do barril, mas garantir uma gestão de tesouraria eficiente que proteja as famílias e as empresas. O II Conselho Coordenador do Ministério das Finanças termina esta sexta-feira, sob o lema “Finanças Públicas Sustentáveis e Digitais em prol da Transformação Estrutural da Economia”.
No encerramento da sua intervenção, a Ministra definiu o lema como um compromisso de gestão: “Arrecadar com justiça, gastar com critério e investir com visão de longo prazo, usando o digital para aproximar o cidadão do Estado”.
O Presidente da República, Daniel Chapo, apelou à sociedade moçambicana para reforçar o respeito, a protecção e os cuidados aos idosos, considerando-os uma fonte de conhecimento e pilares fundamentais das famílias. Chapo falava durante o comício que orienta no distrito de Mapai, província de Gaza, em ocasião do Dia Mundial do Idoso, assinalado esta quinta-feira.
Perante a população, o Chefe do Estado destacou o papel dos pais e avós na criação e formação das novas gerações, defendendo que filhos, filhas e netos têm a responsabilidade de cuidar dos idosos. “Os idosos são a nossa biblioteca. São a nossa fonte de conhecimento”, afirmou Daniel Chapo, apelando aos mais jovens para que valorizem e protejam os mais velhos.
O Presidente da República condenou igualmente os casos de maus-tratos contra idosos, incluindo situações em que estes são acusados de feitiçaria e vítimas de violência no seio das próprias famílias. “Há pessoas que maltratam os idosos. Às vezes até tiram a vida dos idosos, acusando-os de feitiçaria”, lamentou, defendendo que estas práticas devem terminar.
Chapo recordou os sacrifícios feitos pelos pais e avós para criar os filhos e netos, incluindo as noites perdidas para cuidar de crianças doentes, e questionou a razão de, depois de adultos, alguns filhos e netos passarem a maltratar aqueles que deles cuidaram. O Chefe do Estado alertou ainda que o comportamento dos adultos perante os seus pais e avós constitui um exemplo para as novas gerações.
Segundo Daniel Chapo, os filhos observam a forma como os pais tratam os idosos e poderão reproduzir esse comportamento quando estes atingirem a velhice. “Cada um colhe o que semeia. Não existe ninguém que semeia milho e colhe arroz”, afirmou. O Presidente apelou, particularmente aos jovens, para que assumam a responsabilidade de proteger os idosos e garantir-lhes uma vida digna. “Temos que semear o amor com os nossos pais. Temos que cuidar dos nossos pais”, reiterou.
Daniel Chapo felicitou os idosos pela passagem do seu dia e reafirmou a necessidade de reforçar os laços de solidariedade entre as diferentes gerações, como forma de garantir que os mais velhos sejam tratados com dignidade e respeito.
O novo ano lectivo 2026-2027 arrancou, na quinta-feira, no Mali, com mais de 2.400 escolas impossibilitadas de reabrir devido ao agravamento da insegurança e à presença crescente de grupos jihadistas em várias regiões do país.
O ano lectivo foi declarado pelo Presidente Assimi Goïta como o “Ano da Educação e da Cultura”, numa tentativa de colocar o sector da educação entre as prioridades nacionais. Contudo, milhares de crianças iniciam o período escolar sem acesso às salas de aula.
Dados do Ministério da Educação do Mali indicam que o número de escolas encerradas tem aumentado progressivamente nos últimos anos, à medida que a violência se alarga a diferentes zonas do território.
Os encerramentos afectam sobretudo comunidades já fragilizadas pelo conflito, pelos deslocamentos populacionais e pelas constantes perturbações provocadas pela insegurança. A situação reduz as oportunidades de milhares de crianças de prosseguirem a sua formação.
Apesar da prioridade atribuída pelo Governo à educação, a persistência da violência continua a dificultar a reabertura dos estabelecimentos de ensino nas zonas afectadas. Com o início do novo ano lectivo, o Mali enfrenta o desafio de garantir não apenas o regresso das crianças às salas de aula, mas também condições de segurança que permitam manter as escolas abertas de forma regular.
O Presidente da República, Daniel Chapo, inaugurou, esta quinta-feira, o novo Comando Distrital da Polícia da República de Moçambique, em Mapai. Avaliada em cerca de 60 milhões de meticais, a infraestrutura entra em funcionamento num distrito onde o roubo de gado constitui uma das principais preocupações de segurança das comunidades.
O Chefe de Estado iniciou, esta quinta-feira, a visita de trabalho de quatro dias à província de Gaza. À porta de entrada da província, em Mapai, Daniel Chapo inaugurou o novo comando distrital da PRM, uma infraestrutura destinada a reforçar a capacidade de resposta policial no distrito.
Financiado pelo Orçamento do Estado, o empreendimento está avaliado em cerca de 60 milhões de meticais e ocupa uma área de 10 mil metros quadrados. Mais do que um espaço administrativo, o novo comando reúne estruturas destinadas ao funcionamento operacional da polícia, incluindo gabinetes, sala de operações, sala de comunicações, salas de reuniões, celas masculinas e femininas, celas disciplinares e uma sala para identificação de suspeitos.
A infraestrutura dispõe igualmente de um sistema próprio de abastecimento de água, com uma cisterna de 12 mil litros, além de uma área destinada à parada. A inauguração acontece num momento em que Mapai procura reforçar a resposta aos problemas de segurança que afectam as comunidades, com destaque para o roubo de gado. A passagem de Daniel Chapo por Mapai marca o início da agenda presidencial em Gaza, centrada no contacto directo com as comunidades e no acompanhamento das suas principais preocupações.
Depois de Mapai, o Chefe de Estado vai escalar os distritos de Mabalane, Bilene e Xai-Xai, onde prossegue a visita de trabalho de quatro dias à província.
Três eurodeputados que estiveram em missão de apuramento dos factos no enclave espanhol de Ceuta, no Norte de África, consideram “grave” a situação humanitária vivida por milhares de migrantes retidos no território e alertam para a degradação das condições no local.
Dois meses depois da chegada em massa de dezenas de milhares de migrantes a Ceuta, três membros do Parlamento Europeu denunciaram, em Bruxelas, alegadas violações dos direitos humanos e defenderam uma solução para as pessoas que permanecem no território. A maioria dos cerca de 72 mil migrantes que chegaram ao enclave regressou a Marrocos poucos dias depois, mas estima-se que milhares tenham permanecido em Ceuta, incluindo menores.
Durante uma conferência de imprensa realizada após a missão de apuramento dos factos, a eurodeputada Estrella Galán, do partido A Esquerda, afirmou que Ceuta não pode transformar-se num espaço de redução de direitos nem num campo de refugiados a céu aberto. Segundo Galán, a resposta das autoridades não deve passar pela manutenção de milhares de pessoas em acampamentos de emergência improvisados. Por sua vez, o eurodeputado Jaume Asens, do Partido Verde, acusou as forças militares de alegados actos de tortura e de tratamento desumano contra migrantes. “Não são acontecimentos isolados. Existe um padrão”, afirmou Asens, acrescentando que algumas patrulhas realizariam rondas nocturnas e agrediriam migrantes.
O eurodeputado denunciou ainda alegados actos de humilhação, incluindo roubos, cortes de cabelo forçados e a obrigação de algumas pessoas se ajoelharem para beijar uma cruz cristã ou a bandeira espanhola. Asens considerou que as alegações são particularmente graves, acusando o Estado de actuar contra pessoas que deveriam estar sob sua protecção. As denúncias dos eurodeputados surgem na sequência de acusações semelhantes feitas pela Amnistia Internacional, que responsabilizou as forças de segurança espanholas por alegados actos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes contra migrantes retidos em Ceuta.
Perante as acusações, o Governo espanhol ordenou às Forças Armadas a abertura de uma investigação interna para identificar os responsáveis por eventuais abusos. Dados do Governo central espanhol apontam para a permanência de cerca de cinco mil pessoas em Ceuta, incluindo aproximadamente 1.200 menores. As autoridades locais, contudo, apresentam estimativas superiores. A chegada repentina de migrantes provocou uma forte pressão sobre os recursos de Ceuta, cidade com cerca de 84 mil habitantes, e gerou descontentamento entre parte da população. As autoridades locais afirmam ainda que o Governo central ignorou sinais de alerta que antecederam a entrada em massa de migrantes através da fronteira com Marrocos.
Centenas de pessoas tomaram as ruas da cidade sul-africana de Durban na quarta-feira em um novo protesto contra a imigração ilegal.
O grupo anti-imigrante March e March havia estabelecido a data 30 de setembro como um prazo não oficial para que imigrantes indocumentados deixassem o país. O movimento realizou manifestações em várias províncias.
A África do Sul enfrentou uma intensa campanha anti-imigração nos últimos meses, levando a episódios de violência contra cidadãos estrangeiros.
Vários imigrantes foram mortos, embora o número oficial de mortos permaneça contestado entre autoridades sul-africanas e estrangeiras.
Enquanto isso, mais de 200.000 pessoas fugiram do país, segundo uma contagem da AFP baseada em dados divulgados por governos africanos que repatriaram seus cidadãos.
Os organizadores dos protestos de quarta-feira também disseram que as marchas denunciaram a violência de gênero, após uma série de feminicídios chocar o país.
As famílias acordam às 2 da manhã, cortam tubagens e bebem água imprópria há meses. Águas e Saneamento da Beira reconhece o problema e garante solução em 30 dias.
Em algumas zonas dos bairros de Manganhe, Macurungo e Macúti, na cidade da Beira, a água não chega pela torneira. Chega pelo esforço, pelo buraco fundo no quintal e pela coragem de beber o que há. Sem pressão na rede, a população encontrou alternativas de risco para sobreviver.
Moradores fizeram cortes na tubagem principal nas bermas de uma vala de drenagem, para captar um fio de água naquele local impróprio, sem condições mínimas de higiene. O retrato é de desespero.
“Porque estamos a precisar. Estamos a beber água suja…suja. Não sai água nas torneiras”, Dina Matos, residente em Macúti.
As famílias que vivem perto do tubo principal tiveram que improvisar. Algumas, com orientação no terreno para não ficarem completamente sem água, criaram caixas de captação no chão. É dali que hoje tiram água para beber, cozinhar e tomar banho. Uma água que, em dias de chuva, se mistura com a lama e a sujidade.
“Nos dias de chuva, essa caixa enche com água suja, tem que tirarmos toda a água e depois para conseguirmos tirar a água da torneira. Nós estamos a cavar, quase dois, três metros,só à procura de água, não é uma mona, é só para conseguir alimentar as crianças e nós também”, desabafou Helena Matos, residente em Manganhe.
A luta começa de madrugada
Em Manganhe, o dia começa quando ainda é de noite. Acordar tarde é ficar sem água.
“Nós sempre acordamos três horas, duas horas para conseguirmos a água. Você acorda cinco ou seis horas, a água já está fechada”, explicou Helena Matos.
A falta de água está a afectar a vida laboral e escolar. Há quem tenha que escolher entre ir ao trabalho ou garantir água para a família.
“Temos que deixar um dia para só atender assunto de água, que é difícil. Pedimos as autoridades para aumentarem a pressão para a água chegar até nas nossas casas”, apelou Mona Molte, residente em Manganhe.
Segundo os moradores, o problema agravou-se após as obras de reabilitação das valas de drenagem na Beira, na sua segunda fase, que acabaram por danificar parte da rede de abastecimento.
“Cortaram os nossos tubos quando as maquinas estvaam a fazer limpeza das valas e a abrir novas. Então, somos obrigados a consumir essa água aqui, não temos outra forma. Doenças como diarreias tem sido frequentes nos últimos 4 a 5 meses, mas não temos outra opção, não temos condições para comprar água mineral”, lamentou Molte.
Resposta da empresa
Contactada pela nossa equipa de reportagem, a empresa Águas e Saneamento da Beira reconheceu a situação que afecta os bairros de Manganhe, Macúti e Macurungo.
A empresa garantiu, ainda que sem gravar entrevista, que o problema tem dias contados. Está em fase conclusiva a montagem de uma nova tubagem nestas zonas, um novo sistema que vai devolver a pressão, aumentar a cobertura e levar água com qualidade e dignidade de volta às torneiras dentro de 30 dias. A ASB adiantou ainda que estão a ser observadas formas para evitar futuras vandalizações da rede.
Enquanto aguardam pela solução definitiva, as famílias continuam a fazer das suas próprias mãos a rede de abastecimento, à espera que a água volte a jorrar nas torneiras
Uma bebé de um ano está internada no Hospital Provincial de Xai-Xai com queimaduras graves e sob suspeita de maus-tratos pelos próprios pais. O hospital confirma o caso e diz ter identificado sinais de agressões e traumas na menor. Perante as suspeitas, a Direcção Provincial de Género, Criança e Acção Social diz ter aberto um processo e retirado temporariamente a guarda da bebé aos pais, que estão detidos e negam as acusações.
Uma bebé de apenas 20 meses luta pela vida no Hospital Provincial de Xai-Xai, depois de sofrer queimaduras graves e apresentar sinais de agressão, num caso que envolve a madrasta, com quem vive há quatro meses no posto administrativo da praia de Xai-Xai.
O Hospital Provincial de Xai-Xai diz ter recebido a menor com uma queimadura na região do glúteo, que já se encontrava infectada. A unidade sanitária afirma ainda ter identificado sinais de agressão e diagnosticado uma queimadura de segundo grau, superficial e profunda.
“Os relatos que mostram é que a madrasta é que causou esta situação do procedimento na criança. Uma criança de 20 meses de idade. Nós recebemos a criança e fizemos uma avaliação geral da criança e verificamos que a criança tinha uma queimadora na região Guluté, que esta queimadora apareceu infetada. Há indícios que a criança sofreu esta agressão, esta queimadora, e simplesmente a criança permaneceu na sua residência. Isto levou tempo e a queimadora ficou infetada. Então nós avaliamos, diagnosticamos e verificamos que a criança tinha uma queimadora de segundo grau, superficial e profunda”, explicou Wilson Pedro, representante do Hospital Provincial de Xai-Xai.
Além das lesões físicas, o hospital diz ter observado sinais de trauma na menor, apontando para um comportamento de apatia e medo durante os procedimentos clínicos.
“Não tendo alguém diretamente para assistir a criança, a criança está muito apática. Verifica-se que a criança está traumatizada, porque mesmo quando a criança é feito canalização a uma veia, é feito algum procedimento, a criança simplesmente fica no silêncio. Fica no silêncio porque a criança já está traumatizada e tem aquela situação de medo. Então a criança fica totalmente no silêncio. E isso mostra claramente que a criança tem um trauma. Sofreu várias consequências que o deixaram traumatizar a criança”, afirmou Wilson Pedro.
O casal, de 28 e 22 anos de idade, está detido na segunda esquadra e rejeita as acusações. O pai da menor apresenta, entretanto, uma versão diferente sobre a origem das queimaduras, afirmando que a criança se queimou depois de derrubar uma chaleira com água quente.
“Em nenhum momento, em nenhum momento nós maltratamos a criança. A mãe esqueceu que atrás deixou uma chaleira. Então chutou aquela chaleira, a água escorregou-lhe. Essa criança escorregou-lhe, aquela água escorregou-lhe e queimou na perna”, explicou o pai da menor internada.
A versão apresentada pelo pai é confrontada pelo quadro descrito pelo hospital, que localiza a queimadura na região do glúteo e a classifica como de segundo grau, superficial e profunda.
Perante as suspeitas, a Direcção Provincial de Género, Criança e Acção Social abriu um processo e determinou a retirada provisória da guarda da bebé aos pais. A medida, segundo as autoridades, visa garantir a protecção da menor enquanto decorrem as averiguações.
“Esta percepção de que estas queimaduras resultam de um ato voluntário. As autoridades competentes estão a investigar e nós como assistentes sociais também estamos a fazer uma intervenção com vista a apurar alguns elementos que possam sustentar a nossa posição. Se de facto os pais vinham violentando a criança, uma das medidas é garantir que a criança esteja num ambiente condigno. É afastar a criança deste ambiente tóxico. É uma questão muito triste”, lamentou Gerônimo Nhabete, chefe do Departamento da Criança na Direcção Provincial de Género, Criança e Acção Social.
Histórico de alegadas agressões
Dados constantes de uma informação da Polícia da República de Moçambique indicam que o caso poderá ter antecedentes de violência contra a menor.
Segundo a PRM, os primeiros factos reportados remontam a Agosto, quando a criança terá sido fisicamente agredida pela madrasta, tendo sido empurrada e embatido contra uma geleira, situação que teria provocado uma fractura no braço.
A mesma informação policial refere que, no dia 20 do mês em curso, uma denúncia anónima deu conta de que a menor teria sido novamente agredida, desta vez com água quente, provocando ferimentos graves.
A denúncia aponta ainda para alegadas agressões recorrentes contra a criança desde que o casal passou a viver com a menor. Segundo a informação policial, a comunidade terá manifestado preocupação com o alegado comportamento dos responsáveis.
A PRM refere igualmente que a mãe biológica da menor enfrenta problemas de saúde mental, com períodos de lucidez, razão pela qual a guarda da criança teria sido confiada aos actuais responsáveis.
A Polícia da República de Moçambique promete pronunciar-se sobre os novos dados do caso nesta quinta-feira.