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“Falhámos de novo”

Quando falhamos de novo, somos inevitavelmente remetidos para uma profunda reflexão sobre a condição humana. E surge uma pergunta que ecoa no silêncio da nossa consciência: porquê? Por que razão se mata um Bispo? Porquê?

Seja qual for o motivo. Seja qual for o mal. Porquê?

Quando a violência, a crueldade e a barbárie chegam ao coração de uma instituição que prega a paz, a reconciliação e o amor ao próximo, o que podemos dizer da nossa própria segurança? O que podemos dizer da nossa humanidade?

Quando um Bispo é assassinado, como aconteceu com Dom Osório Citorra Afonso, a pergunta deixa de ser apenas sobre ele. A pergunta passa a ser sobre todos nós.

Durante a homilia diante do corpo inerte do Pastor de Quelimane, o Núncio Apostólico, Dom Luís Cárdaba, tocou profundamente os corações dos presentes ao afirmar:

“A morte violenta de Dom Osório, como tantas outras mortes violentas no nosso mundo de hoje, é uma falha da humanidade… é uma falha da humildade. Perante os restos mortais do Bispo de Quelimane, devemos reconhecer com tristeza que falhámos de novo… falhámos de novo. Hoje, Caim matou novamente o seu irmão Abel. Hoje, o homem voltou a ser lobo do próprio homem. Mais uma vez, violência entre irmãos.”

Falhámos de novo.

São palavras duras. Palavras que pesam. Palavras que ferem.

Na última semana, gostaria de ter escrito sobre crismas, ordenações sacerdotaes, visitas pastoraes e momentos de alegria. Gostaria de ter narrado histórias de esperança, conduzidas por aquele que era amigo de todos: Dom Osório.

Mas não.

Passei dias a relatar o assassinato de um homem de paz. Um pastor. Um servidor de Deus. Um homem que dedicou a sua vida aos outros.

Tudo porque falhámos de novo.

E, quando falhamos de novo, somos obrigados a olhar para dentro de nós mesmos. Somos chamados a uma dolorosa introspecção.

Quem somos nós diante do sofrimento do próximo?

Quem somos nós diante da vida humana?

Quem somos nós para tirar a vida de outro homem?

Porquê?

Afinal, porquê?

Hoje, mais do que revolta, sentimos vergonha. Vergonha por pertencermos a uma humanidade que ainda escolhe a violência. Vergonha porque continuamos incapazes de proteger os construtores da paz. Vergonha porque continuamos a falhar.

Falhámos de novo.

Queria escrever mais.

Queria encontrar palavras capazes de explicar a dor.

Mas as lágrimas escorrem pelos meus olhos e roubam-me a voz.

Por isso, resta apenas uma última despedida.

Vá em paz, Dom Osório.

Vá em paz, homem de Deus.

Vá em paz, pastor do seu povo.

Que a terra lhe seja leve e que o seu testemunho continue a iluminar os caminhos daqueles que acreditam que o amor é sempre mais forte do que o ódio.

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