A ONU alertou, nesta segunda-feira, que as reservas alimentares para o Sudão se esgotam em Outubro e a ajuda económica será suspensa em Setembro, caso não receba financiamento imediato, o que deixará 1,5 milhões de pessoas sem apoios.
Segundo o último relatório do Programa Alimentar Mundial (PMA), a organização necessita urgentemente de 288 milhões de dólares para manter os seus níveis mínimos de assistência durante os próximos seis meses, sem ser obrigada a reduzir as rações nem a excluir beneficiários.
No entanto, para operar na escala necessária e cumprir o plano anual completo no país africano, o orçamento necessário ascende a 624 milhões de dólares, indicou a agência da Organização das Nações Unidas (ONU).
Apesar do défice financeiro e dos crescentes obstáculos no terreno, o PAM conseguiu prestar assistência, em Julho, a 3,7 milhões de pessoas em todo o país, atingindo, assim, o seu nível de cobertura mensal mais elevado desde o início do ano.
Deste número, um milhão de beneficiários recebeu alimentos em zonas classificadas como estando em risco iminente de fome, enquanto 1,3 milhões de pessoas beneficiaram de ajudas económicas directas para adquirir alimentos em mercados locais que ainda se mantêm em funcionamento.
As operações humanitárias continuam gravemente prejudicadas pelo recrudescimento do conflito armado – que inclui ataques com drones e confrontos entre comunidades em Darfur (região fronteiriça a oeste) e no Cordofão (centro-sul) –, bem como pelos graves obstáculos burocráticos e pelo impacto da estação das chuvas torrenciais.
No estado do Cordofão do Norte, os combates em torno de Al-Obeid – cidade estratégica que liga Cartum e o centro do país a Darfur – continuam a provocar deslocações em massa da população, enquanto nas regiões de Kassala, Gedaref, Nilo Branco e Nilo Azul, as graves inundações danificaram infra-estruturas essenciais e bloquearam a passagem de comboios.
A estes obstáculos junta-se o bloqueio de dezenas de camiões com milhares de toneladas de alimentos retidos nas estradas do interior.
Apesar disso, a agência conseguiu reativar vários postos fronteiriços essenciais, alargar a assistência médica e nutricional a mulheres e crianças e retomar a distribuição de alimentos nas escolas após a sua reabertura.
A guerra no Sudão entre o Exército e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) causou dezenas de milhares de mortos desde o seu início, em 15 de Abril de 2023, e forçou o êxodo de cerca de 14 milhões de pessoas na pior crise de deslocamento e fome do mundo, segundo a ONU.
O guitarrista e compositor moçambicano Jimmy Dludlu vai assinalar os seus 40 anos de carreira com um concerto em formato inédito, distribuído por duas noites, nos dias 24 e 25 de Julho, no Onix Events, na Katembe, cidade de Maputo.
Promovido pela Top Produções, o espectáculo pretende celebrar quatro décadas de dedicação à música e homenagear um dos maiores embaixadores do afro-jazz africano. Natural do bairro de Chamanculo, em Maputo, Jimmy Dludlu construiu uma carreira de dimensão internacional, tornando-se uma das mais respeitadas referências da música contemporânea do continente.
Sob o conceito “Concerto 2 em 1”, cada noite terá identidade própria, reunindo diferentes formações musicais e convidados especiais de Moçambique e da África do Sul, numa celebração da diversidade cultural da região.
Na primeira noite, a 24 de Julho, Jimmy Dludlu sobe ao palco acompanhado pela banda moçambicana In The Groove, num espectáculo que destaca as suas raízes musicais e a ligação ao País. A apresentação será conduzida por Seth Swaze e contará ainda com as participações de Stewart Sukuma, Mingas, Banda Kakana, Pika Tembe, Onésia Muholove, Elcides Carlos, Prince Chone e do DJ Sérgio Butler.
Já no dia 25 de Julho, o músico será acompanhado pela banda sul-africana C Base Collective, reforçando a dimensão regional da celebração. A segunda noite será apresentada por Izidine Faquirá e terá como convidados a cantora sul-africana Judith Sephuma, Frank Paco, John Hassan, Válter Mabas, Xixel Langa, Gabriela, além dos DJs No Name e Serito.
Segundo a organização, o evento pretende afirmar-se como uma plataforma de valorização da música africana, promovendo o diálogo entre diferentes gerações, estilos e culturas, tendo o jazz como elemento de ligação entre tradição e inovação.
A expectativa é reunir centenas de amantes da música, profissionais das indústrias culturais e criativas, empresários, estudantes e público em geral, numa celebração que reconhece o contributo de Jimmy Dludlu para o desenvolvimento da música africana.
Com uma carreira iniciada ainda na adolescência, Jimmy Dludlu destacou-se como guitarrista, compositor e professor de música, colaborando com alguns dos mais prestigiados artistas africanos e da diáspora. Ao longo de quatro décadas lançou vários álbuns de sucesso, distinguidos em diferentes edições dos South African Music Awards (SAMA), consolidando uma discografia marcada pela fusão entre o jazz e as sonoridades africanas.
O piloto internacional moçambicano Eduardo Campos voltou a representar Moçambique com distinção no RMC National Round 3 e no African Open 2026, provas disputadas no circuito de Zwartkops, na África do Sul. Em representação do Automóvel e Touring Clube de Moçambique (ATCM), o jovem piloto voltou a demonstrar o seu talento entre alguns dos melhores kartistas do continente.
Na sessão de qualificação da classe Mini Max, Eduardo Campos alcançou o quinto melhor tempo entre os participantes, confirmando a competitividade e o potencial para disputar os lugares cimeiros num dos campeonatos mais exigentes do karting africano.
Ao longo das três mangas, o piloto enfrentou corridas intensas e várias disputas em pista, circunstâncias que dificultaram a manutenção da posição conquistada na qualificação. No final da competição, terminou na 14.ª posição entre os 29 pilotos inscritos.
Apesar do resultado final, o desempenho evidenciado durante todo o fim-de-semana deixou indicações positivas quanto à evolução do jovem piloto, cuja velocidade e consistência demonstraram capacidade para competir ao mais alto nível da categoria Mini Max.
A participação no RMC National Round 3 e no African Open representa mais um passo importante no percurso internacional de Eduardo Campos, que continua a acumular experiência em competições de elevado nível, promovendo o nome de Moçambique nas pistas sul-africanas.
Com apenas 11 anos, Eduardo Campos continua a afirmar-se como uma das maiores promessas do karting moçambicano, destacando-se pelo talento, determinação e capacidade competitiva.
Além da participação no African Open, o piloto viveu um momento marcante ao estrear-se numa prova de karts equipados com motores eléctricos, uma competição que apura três pilotos por corrida para o Campeonato do Mundo da modalidade.
Na sua primeira experiência nesta categoria, Eduardo Campos protagonizou uma prestação de destaque, superando vários adversários directos e terminando na quarta posição da classificação geral, ficando muito próximo dos lugares de qualificação para o Mundial.
Após alcançar o Top 5 na qualificação do African Open e do Campeonato Nacional Sul-Africano de Karting, bem como o quarto lugar na corrida de karts eléctricos disputada no domingo, a equipa liderada por Rui Campos garante que continuará a intensificar o trabalho para assegurar a participação do piloto nos próximos desafios da modalidade, mantendo o foco na evolução desportiva e na conquista de novos resultados internacionais.
A seleção portuguesa despediu-se da Copa do Mundo, nesta segunda-feira, após a derrota por uma bola sem resposta para a Espanha, que avançou para as quartas de final. Quem também não passou para os oitavos de final são os Estados Unidos da América derrotado 1-4 pela selecção da Bélgica.
Chegou ao Mundial como um dos favoritos e com a grande ambição de vitória da copa para coroar a carreira Cristiano Ronaldo, um sonho que Portugal não conseguiu segurar… resvalou nos oitavos de final diante da Espanha, com com protagonizou um duelo intenso na noite desta segunda-feira…
O golo da vitória só saiu no primeiro minuto da compensação quando Mikel Merino recebeu livre e chutou firme, sem chances para Diogo Costa defender, embora em muitas outras ameaças o tenha feito e junto do seu homólogo, mas adversário, Unai Simón, tenham transformado o jogo em partida de guarda-redes.
Em outro jogo, a Bélgica venceu os Estados Unidos por 4 a 1 nas oitavas de final e avançou para as quartas de final. Após as quedas de Canadá e México, os EUA são os últimos anfitriões do da competição
Subiu para 3 535 o número de vítimas mortais provocadas pelos dois fortes sismos que atingiram a Venezuela no passado dia 24 de Junho, segundo o mais recente balanço divulgado pelo Governo venezuelano. O número de feridos também aumentou para 16 740, enquanto mais de 17 mil pessoas continuam desalojadas.
Na anterior actualização, as autoridades contabilizavam 3300 mortos, o que evidencia o agravamento da tragédia à medida que prosseguem as operações de busca e resgate nas zonas afectadas.
O Governo venezuelano indica ainda que mais de 800 edifícios ficaram danificados ou foram completamente destruídos, agravando a situação humanitária e dificultando os trabalhos das equipas de emergência.
Os dois sismos, de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorreram com menos de um minuto de intervalo, a cerca de 200 quilómetros de Caracas, e foram seguidos por centenas de réplicas.
Entretanto, o Serviço Geológico dos Estados Unidos mantém o alerta para a elevada probabilidade de o número de vítimas mortais ultrapassar os 10 mil, tendo em conta a intensidade do abalo, a extensão dos danos e a continuidade das operações de busca sob os escombros.
A Administração Nacional de Estradas promete iniciar obras de drenagem nos pontos críticos da EN1, no troço Missão Roque-Zimpeto, na Cidade de Maputo. A empreitada poderá arrancar nas próximas semanas. A promessa surge depois de intervenções de emergência em alguns pontos da estrada.
Uma das zonas abrangidas pela intervenção foi a área da Total, onde os trabalhos consistiram essencialmente no tapamento de buracos e na aplicação de uma camada de resselagem para facilitar a circulação de veículos. Contudo, as obras não incluíram, nesta fase, a construção de valas de drenagem para o escoamento das águas pluviais, um dos principais problemas apontados pelos automobilistas.
Segundo o delegado provincial da ANE, Dado Novela, a instituição identificou três secções críticas ao longo do troço São Roque–Zimpeto, caracterizadas por buracos profundos e sérios problemas de drenagem.
“Tratou-se de intervenções de emergência para garantir a transitabilidade nestes pontos e reduzir os constrangimentos provocados pelos congestionamentos”, explicou.
O responsável reconheceu que a ausência de valas de drenagem constitui uma limitação das obras realizadas, mas garantiu que esta componente faz parte do projecto e será executada numa fase posterior.
“Nesta altura, a prioridade era assegurar a circulação de pessoas e bens. Conseguimos melhorar a fluidez do tráfego e, nas próximas semanas, avançaremos com intervenções para orientar o escoamento das águas”, afirmou, acrescentando que as obras de drenagem poderão arrancar dentro de cerca de 15 dias, embora sem uma data definitiva.
As intervenções surgem depois de vários anos de reclamações dos automobilistas, que se queixavam do estado degradado da via, marcado por buracos e frequentes congestionamentos.
Durante a visita ao local, automobilistas manifestaram satisfação pela melhoria das condições de circulação, mas defenderam que a solução definitiva passa pela construção de um sistema eficaz de drenagem, capaz de evitar a acumulação de água durante a época chuvosa.
A equipa de reportagem questionou ainda a ANE sobre as valas de drenagem construídas no ano passado em alguns troços da EN1, que continuam a revelar-se insuficientes para evitar o alagamento da estrada durante os períodos de chuva intensa. Em resposta, a instituição reiterou que está a avaliar novas intervenções para melhorar o sistema de drenagem nos pontos mais vulneráveis.
Enquanto as obras complementares não arrancam, os utentes da principal estrada do País esperam que as próximas intervenções resolvam de forma definitiva os problemas de escoamento das águas e contribuam para preservar a infra-estrutura rodoviária.
Uma pessoa morreu e outras ficaram feridas na sequência de um acidente de viação registado na noite deste domingo, no bairro Luís Cabral, na Cidade de Maputo, quando uma viatura se despistou e invadiu uma residência.
O sinistro ocorreu por volta das 23 horas, nas proximidades de uma das entradas do Porto de Maputo. O impacto foi tão violento que destruiu completamente um dos quartos da habitação, onde Rosália Orlando dormia.
Ainda abalada, Rosália conta que foi surpreendida por um forte estrondo e, quando se apercebeu do que estava a acontecer, já se encontrava debaixo dos escombros.
“Estava a dormir quando ouvi um grande estrondo. Nem tive tempo de perceber o que estava a acontecer. Quando dei por mim, já estava debaixo dos escombros”, relatou a moradora.
Testemunhas afirmam que três pessoas seguiam na viatura no momento do acidente. O impacto provocou a morte de um dos ocupantes no local, enquanto os restantes sofreram ferimentos.
Atanázio Júlio, que testemunhou o acidente, descreveu o momento como sendo de grande violência.
“O carro vinha em alta velocidade, perdeu o controlo e entrou directamente na casa. O impacto foi muito forte e destruiu completamente o quarto”, contou.
As causas do despiste continuam por esclarecer. Até ao encerramento desta edição, não foi possível obter um posicionamento das autoridades policiais e dos serviços de saúde sobre as circunstâncias do acidente e o estado clínico dos feridos.
Moradores da zona manifestam preocupação com a frequência de acidentes naquele troço da via e apelam às autoridades para a adopção de medidas que reforcem a segurança rodoviária no local.
Um técnico de saúde está detido em Xai-Xai, acusado de violar uma menor de 10 anos de idade na cidade de Xai-xai, em Gaza. A família denuncia ameaças de pessoas alegadamente ligadas ao suspeito e exige justiça
A menor de 10 anos de idade, conta ter sido arrastada para área abandonada na alta de Xai-Xai, onde segundo afirma, foi sob ameaça violada sexualmente.
“Tapou-me a a boca primeiro, depois me carregou, depois me pôs numa casinha abandonada aqui embaixo, depois me meteu aí, depois me tirou a roupa, depois me subiu, depois eu voltei para casa e a mamã viu a dificuldade de andar”, revelou.
De acordo com a vítima, esta pode não ter sido a primeira vez em que o suspeito, por sinal, amigo íntimo da família submeteu a menor a cópula.
“É a segunda vez. Ele disse que quando dizer vai me matar quando me encontrar”.
A Polícia da República de Moçambique, na província de Gaza, confirma a detenção de um técnico de saúde em conexão com o caso.
“Um cidadão dos seus 38 anos de idade que é indiciado neste caso terá violado uma menor dos seus 10 anos de idade. A menor terá ficado sozinha dentro da residência quando a mãe encontrava-se a acompanhar um dos seus amigos e quando voltou deu falta da menor em casa, tentou procurá-la na vizinhança, mas não achou a menor, onde foi reaparecer por volta de uma hora tinha um líquido que escorria sobre a menina e trataram de levar a menina até o hospital, onde no hospital fizeram exames que comprovaram a questão de ter sido violada sexualmente”, explicou o porta-Voz, Júlio Nhamussua.
Os familiares da menor relatam, entretanto, dias de medo, alegando estarem a ser ameaçados por pessoas ligadas ao acusado para desistirem do processo.
“Retirar a queixa e eles estarem em liberdade, porque para eles o que é importante é o emprego deles, que está em jogo. A saúde da minha filha, o bem-estar não está nem aí para isso, a justiça seja feita, porque manchou a imagem da minha filha.
Detido na esquadra da PRM em Xai-Xai, o indiciado de 38 anos de idade recusou-se a prestar declarações sobre o caso.
Depois de perderem bens, emprego e anos de trabalho na África do Sul, dezenas de moçambicanos regressam à província de Inhambane sem saber como sustentar as suas famílias. Enquanto uns tentam reconstruir a vida do zero, outros admitem que a falta de oportunidades em Moçambique poderá obrigá-los a voltar ao mesmo país de onde foram expulsos.
As mãos continuam cobertas de cimento, mas já não trabalham para levantar edifícios na África do Sul. Agora servem apenas para tentar reconstruir uma vida que ficou destruída pela violência xenófoba. À entrada de um pequeno estaleiro improvisado na cidade da Maxixe, Aminosse Vilanculos molda blocos de construção na esperança de conseguir algum dinheiro para levar comida à mesa. Trabalha em silêncio, concentrado, mas basta recordar os últimos dias vividos na terra do Rand para que a voz abrande e o olhar se perca por instantes.
Durante vários anos viveu da construção civil na África do Sul. Foi com esse trabalho que alimentou a esposa e os três filhos, construiu algum património e acreditou que o sacrifício de estar longe da família valia a pena. Tudo terminou quando a violência contra estrangeiros voltou a tomar conta de alguns bairros.
“Entraram na nossa zona, invadiram as casas, queimaram, bateram nas pessoas e começaram a matar. Tentámos juntar-nos para nos defender, mas não conseguimos. Aquela era a terra deles”, recorda.
As recordações continuam vivas. Não fala apenas das agressões ou das casas incendiadas. Fala também do medo constante de não saber se conseguiria sobreviver ao dia seguinte. Os estrangeiros tentaram organizar-se para resistir, mas rapidamente perceberam que não tinham qualquer hipótese. A prioridade passou a ser fugir.
Sem alternativa, foi acolhido pelas autoridades moçambicanas até conseguir regressar ao país. Voltou vivo, mas sem o fruto de anos de trabalho. Hoje, recomeça praticamente do zero, recorrendo ao único ofício que conhece.
Arrendou um pequeno espaço onde fabrica blocos e aceita qualquer serviço ligado à construção civil. Há dias em que consegue vender alguma coisa. Em muitos outros regressa a casa sem um único cliente. Ainda assim, insiste, porque sabe que a família depende exclusivamente do que conseguir ganhar.
A experiência vivida na África do Sul deveria ser suficiente para afastar qualquer hipótese de regresso. No entanto, a realidade económica em Moçambique obriga-o a pensar de forma diferente.
“Hoje digo que não volto. Mas aqui não temos trabalho. Se um dia a situação acalmar, a pobreza pode obrigar-nos a regressar.”
A frase resume o drama vivido por muitos dos repatriados. O medo da violência continua presente, mas a falta de emprego e de rendimento faz nascer outro medo igualmente pesado: o de não conseguir alimentar a família.
“Tento fazer blocos e outros trabalhos para conseguir o pão de cada dia. É duro viver num país onde não nos querem, fugir para sobreviver e ver compatriotas morrerem sem poder fazer nada.”
A história de Manuel Ricardo segue praticamente o mesmo caminho, embora tenha começado doze anos antes. Aos 39 anos, saiu de Moçambique convencido de que encontraria na África do Sul aquilo que nunca conseguiu no seu país: trabalho estável. Encontrou-o na construção civil e, durante mais de uma década, conseguiu sustentar a esposa e os quatro filhos.
O salário permitia alimentar a família e manter alguma esperança num futuro melhor. Mas bastaram poucos dias de violência para destruir um projecto de vida construído ao longo de doze anos.
Hoje está novamente em casa, mas sente que regressou a um lugar onde também não encontra espaço para reconstruir a vida.
“Aqui ainda não sei o que fazer. Durante todos estes anos vivi da construção civil e agora não encontro uma forma de sustentar a minha família.”
Sem emprego, decidiu tentar outra estratégia. A família reuniu algum dinheiro e comprou hortícolas para vender no mercado local. O objectivo era simples: garantir pelo menos o essencial para sobreviver. Mas a iniciativa durou pouco.
“Tentámos vender no mercado para comprar açúcar e outras necessidades, mas tiraram-nos as mercadorias. Fomos expulsos de lá e agora também não conseguimos trabalhar aqui na nossa terra. Isso dói muito.”
A frase é curta, mas resume um sentimento de abandono. Depois de ser forçado a deixar a África do Sul, Manuel sente que também em Moçambique continua sem encontrar oportunidades para reerguer a família. O rendimento desapareceu, as despesas mantêm-se e os filhos continuam à espera que o pai consiga encontrar uma solução.
A história mais dramática é talvez a de Ariel Jossai. Trabalhou durante três anos na África do Sul até que, no final de Maio, a violência xenófoba quase lhe custou a vida. Foi espancado com extrema violência e abandonado inconsciente. Os familiares chegaram mesmo a receber a notícia de que tinha morrido.
“Vieram onde eu estava a viver, levaram quase tudo e espancaram-me. Só acordei às sete da noite no hospital sem perceber como lá cheguei. Alguns familiares receberam a informação de que eu já tinha morrido. Voltei gravemente ferido e sem nada.”
As cicatrizes ainda são visíveis. Há poucos dias retirou os pontos das feridas provocadas pelas agressões. O corpo recupera lentamente, mas as dúvidas continuam.
Ao contrário do que muitos imaginam, Ariel explica que nunca sonhou viver na África do Sul. A decisão de emigrar nasceu da falta de alternativas em Moçambique.
“Quando tive o meu primeiro filho procurei trabalho aqui, mas não consegui. Cheguei a ganhar mil e quinhentos meticais por mês. Isso não chegava nem para comprar um saco de arroz. Foi essa situação que me obrigou a partir. Não fui porque gostava da África do Sul. Fui porque aqui não havia outra saída.”
Hoje, já recuperado das agressões, percorre mercados, empresas e estaleiros à procura de emprego. Até agora, sem sucesso.
“Todos os dias procuro trabalho. Vou aos mercados e a vários lugares, mas não encontro nada. Há muita gente a vender e poucos compradores.”
A esposa e os três filhos dependem agora da esperança de que apareça uma oportunidade. Enquanto ela não chega, Ariel vive dividido entre a memória da violência que sofreu e a realidade económica que enfrenta em casa.
As histórias de Aminosse, Manuel e Ariel são diferentes apenas nos detalhes. Em comum têm o medo, a perda de património, a incerteza e uma pergunta para a qual ainda não encontraram resposta: como reconstruir a vida quando tudo ficou para trás?
Segundo dados do Governo, cerca de 200 moçambicanos regressaram recentemente à província de Inhambane na sequência da nova vaga de violência contra estrangeiros na África do Sul, com maior incidência nos distritos de Massinga e Morrumbene. Para muitos deles, porém, o maior desafio começou precisamente no dia em que atravessaram novamente a fronteira. Regressaram vivos, mas encontraram um país onde o emprego continua escasso e onde o sonho de uma vida digna parece tão distante quanto aquele que um dia os levou a procurar oportunidades além-fronteiras.
O Ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse, desafia a juventude moçambicana a adaptar-se às novas exigências do mercado de trabalho, apostando na inteligência artificial (IA), nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e no empreendedorismo como alternativas para gerar rendimento e reduzir a dependência do emprego formal.
Numa entrevista exclusiva concedida ao jornal O País, o governante afirmou que o actual contexto económico exige uma mudança de mentalidade, sustentando que o emprego já não pode ser visto apenas como uma responsabilidade do Estado ou como sinónimo de uma vaga na Função Pública ou numa grande empresa.
Segundo Manasse, a transformação tecnológica está a criar novas oportunidades de negócio e de geração de rendimento, pelo que os jovens devem investir na aquisição de competências que lhes permitam responder às exigências da economia digital.
“A juventude tem que se adaptar à realidade actual. Hoje ganha-se dinheiro de várias formas. A inteligência artificial, as TIC e o conhecimento estão a diferenciar esta geração das anteriores, que esperavam apenas trabalhar numa empresa ou ser funcionários públicos”, afirmou.
O ministro defendeu ainda que os jovens devem assumir uma postura mais proactiva na construção do seu próprio futuro, deixando de esperar exclusivamente pela intervenção do Governo.
Durante a entrevista, o governante comentou igualmente sobre a mobilidade laboral dos moçambicanos para o exterior. O ministro explicou que o Governo está a reforçar os acordos de cooperação com vários países para garantir que os jovens possam emigrar através de mecanismos formais, protegidos pela legislação laboral e com maior segurança.
Segundo disse, decorrem entendimentos, sobretudo com Portugal, para a formação e capacitação de jovens moçambicanos antes da sua integração naquele mercado de trabalho. Processo semelhante está igualmente a ser desenvolvido com os Emirados Árabes Unidos.
“O objectivo é que os jovens não saiam por vias informais. Queremos que tenham protecção laboral e o acompanhamento do Estado”, sublinhou, acrescentando que o Instituto Nacional do Emprego continuará a desempenhar um papel central na organização desta mobilidade.
Sobre o Fundo de Desenvolvimento Económico Local , Manasse fez um balanço positivo da implementação da iniciativa, considerando que o mais importante foi dar início ao processo de apoio aos empreendedores.
Reconheceu, contudo, que os recursos disponíveis não são suficientes para responder à procura existente, razão pela qual apelou aos beneficiários para utilizarem corretamente os fundos e procederem ao seu reembolso, permitindo que outros jovens possam igualmente beneficiar.
“O dinheiro deve servir para criar empresas, gerar emprego e depois ser devolvido para que mais jovens tenham acesso ao financiamento”, afirmou.
O governante acrescentou que o Executivo pretende mobilizar mais recursos para ampliar gradualmente o número de beneficiários.
Caifadine Manasse voltou igualmente a defender uma mudança de entendimento em relação à agricultura, considerando que o sector continua a ser uma das maiores oportunidades económicas para a juventude moçambicana.
Para o ministro, é necessário abandonar a ideia de que a agricultura é uma actividade destinada apenas às pessoas mais desfavorecidas, lembrando que, em vários países, o setor constitui uma importante fonte de riqueza e de criação de empresas.