A ONU alertou, nesta segunda-feira, que as reservas alimentares para o Sudão se esgotam em Outubro e a ajuda económica será suspensa em Setembro, caso não receba financiamento imediato, o que deixará 1,5 milhões de pessoas sem apoios.
Segundo o último relatório do Programa Alimentar Mundial (PMA), a organização necessita urgentemente de 288 milhões de dólares para manter os seus níveis mínimos de assistência durante os próximos seis meses, sem ser obrigada a reduzir as rações nem a excluir beneficiários.
No entanto, para operar na escala necessária e cumprir o plano anual completo no país africano, o orçamento necessário ascende a 624 milhões de dólares, indicou a agência da Organização das Nações Unidas (ONU).
Apesar do défice financeiro e dos crescentes obstáculos no terreno, o PAM conseguiu prestar assistência, em Julho, a 3,7 milhões de pessoas em todo o país, atingindo, assim, o seu nível de cobertura mensal mais elevado desde o início do ano.
Deste número, um milhão de beneficiários recebeu alimentos em zonas classificadas como estando em risco iminente de fome, enquanto 1,3 milhões de pessoas beneficiaram de ajudas económicas directas para adquirir alimentos em mercados locais que ainda se mantêm em funcionamento.
As operações humanitárias continuam gravemente prejudicadas pelo recrudescimento do conflito armado – que inclui ataques com drones e confrontos entre comunidades em Darfur (região fronteiriça a oeste) e no Cordofão (centro-sul) –, bem como pelos graves obstáculos burocráticos e pelo impacto da estação das chuvas torrenciais.
No estado do Cordofão do Norte, os combates em torno de Al-Obeid – cidade estratégica que liga Cartum e o centro do país a Darfur – continuam a provocar deslocações em massa da população, enquanto nas regiões de Kassala, Gedaref, Nilo Branco e Nilo Azul, as graves inundações danificaram infra-estruturas essenciais e bloquearam a passagem de comboios.
A estes obstáculos junta-se o bloqueio de dezenas de camiões com milhares de toneladas de alimentos retidos nas estradas do interior.
Apesar disso, a agência conseguiu reativar vários postos fronteiriços essenciais, alargar a assistência médica e nutricional a mulheres e crianças e retomar a distribuição de alimentos nas escolas após a sua reabertura.
A guerra no Sudão entre o Exército e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) causou dezenas de milhares de mortos desde o seu início, em 15 de Abril de 2023, e forçou o êxodo de cerca de 14 milhões de pessoas na pior crise de deslocamento e fome do mundo, segundo a ONU.
Profissionais de saúde que actuam no surto de Ébola na República Democrática do Congo agravam a greve devido às questões salariais, numa altura em que segundo as autoridades o surto continua a propagar-se mais rápido do que a resposta ao mesmo.
Os Profissionais de saúde que estão na linha da frente na luta contra o Ebola na República Democrática do Congo começaram abandonar seus postos de trabalho em protesto contra atrasos salariais, ameaçando os esforços para conter o surto.
Na província de Ituri, a mais atingida entre as três províncias do leste do Congo afectadas pelo surto , alguns profissionais de saúde e outros trabalhadores da linha de frente relataram à Associated Press que não recebem salários nem gratificações desde que o surto foi declarado, em 15 de maio.
Também alegaram trabalhar com equipamentos limitados e sofrer tratamento injusto tanto por parte das autoridades quanto das equipes de resposta.
A greve ocorre no momento em que se inicia o recrutamento para ensaios clínicos de tratamento contra o vírus Bundibugyo, responsável por este surto e esta não é a primeira vez greve de profissionais de saúde neste país africano.
Recorde-se que dois mil e quinhentos médicos e agentes de saúde do sector público da RDC anunciaram greve a partir de 11 de junho, por tempo indeterminado.
Dados governamentais mais recentes indicam 1.708 casos de ebola registrados, incluindo 580 mortes.
O Kartódromo do Automóvel e Touring Clube de Moçambique (ATCM) acolhe, no próximo dia 18 de Julho, a primeira prova do Campeonato Drift Rivals ATCM 2026, uma competição que assinala o regresso do drift ao calendário oficial do automobilismo nacional. O evento deverá reunir mais de 30 pilotos moçambicanos e sul-africanos, confirmando a dimensão regional que a modalidade começa a assumir.
Organizada pelo Automóvel e Touring Clube de Moçambique, a prova inaugura um novo ciclo competitivo para uma modalidade que tem registado crescimento significativo nos últimos anos, tanto em número de praticantes como de adeptos.
A expectativa em torno da competição é elevada, sobretudo porque o drift regressa ao Kartódromo do ATCM depois de um período sem provas oficiais. Para muitos pilotos e entusiastas do desporto motorizado, trata-se de um momento aguardado, numa altura em que o clube tem vindo a reforçar a organização de diferentes modalidades automobilísticas.
Nos últimos anos, o ATCM diversificou o seu calendário desportivo com competições de Spinning, Drag Racing, Karting e Troféu ATCM de Corridas de Velocidade, iniciativas que contribuíram para dinamizar o automobilismo nacional e aumentar a participação de pilotos provenientes de diferentes regiões do País.
Com o lançamento do Drift Rivals, o clube pretende consolidar também esta modalidade, criando um campeonato regular que permita aos pilotos competir de forma contínua e elevar o nível técnico das provas.
Segundo a organização, já confirmaram presença vários pilotos considerados referências na modalidade, bem como novos competidores que têm vindo a destacar-se em eventos realizados dentro e fora de Moçambique. A participação de pilotos sul-africanos constitui um dos principais atrativos da prova, uma vez que permitirá um confronto competitivo entre atletas dos dois países.
A presença de concorrentes estrangeiros representa igualmente um reforço do intercâmbio desportivo entre Moçambique e África do Sul, dois países que mantêm relações de cooperação em diversas modalidades do automobilismo.
Para a organização, este intercâmbio poderá contribuir para fortalecer o campeonato e incentivar uma participação mais regular de pilotos estrangeiros nas futuras etapas da competição.
Os preparativos para o evento decorrem sob coordenação do Departamento de Drift, Spinning e Drag Racing do ATCM, que trabalha na componente técnica, logística e operacional para assegurar que a prova decorra em conformidade com os regulamentos desportivos e de segurança exigidos para este tipo de competições.
A realização da primeira etapa do Drift Rivals representa mais um passo na consolidação desta modalidade no País e reforça o papel do Kartódromo do ATCM como principal palco do automobilismo moçambicano.
Paralelamente à competição de drift, o programa do evento inclui a realização de um espectáculo de Freestyle Motocross, no qual pilotos especializados irão executar acrobacias aéreas e demonstrações técnicas destinadas ao público.
A organização prevê igualmente outras actividades de animação, procurando transformar a jornada num evento dedicado aos amantes dos desportos motorizados.
Para os pilotos nacionais, a prova representa uma oportunidade de competir com adversários internacionais, adquirir experiência competitiva e elevar o nível técnico da modalidade no País.
Por outro lado, o campeonato poderá servir de plataforma para o surgimento de novos talentos e contribuir para o fortalecimento do automobilismo moçambicano, numa altura em que o ATCM procura diversificar as suas competições e ampliar o calendário desportivo.
Com mais de 30 pilotos já confirmados, o Drift Rivals ATCM 2026 inicia-se sob o signo da competitividade e da cooperação regional, numa prova que deverá marcar o regresso oficial do drift ao principal circuito do país e reforçar o crescimento desta disciplina em Moçambique.
O presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, efectua hoje, uma visita de trabalho ao distrito municipal de Nlhamankulu, para avaliar o grau de execução do Plano de Desenvolvimento Municipal 2024-2028 e acompanhar o progresso das obras de requalificação do bairro Chamanculo “C”.
A deslocação insere-se na política de governação aberta, participativa e de proximidade adoptada pelo município, visando reforçar o contacto directo com as comunidades e monitorar a implementação dos projectos de desenvolvimento.
Durante a visita, o edil de Maputo vai reunir-se com líderes religiosos no Centro Cultural Ntsindya. Em seguida, deslocar-se-á a área envolvente da Escola Secundária de Lhanguene, onde vai inteirar-se do estágio das obras de requalificação da praça inserida no Projecto de Requalificação do Bairro Chamanculo “C”.
Rasaque Manhique vai ainda dirigir uma sessão de audiências públicas na Praça da Munhuana, no bairro com o mesmo nome. O encontro tem como objectivo ouvir as preocupações dos munícipes, promover o diálogo directo e procurar soluções para os principais problemas apresentados pela população.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) está a recolher evidências sobre alegados casos de poluição ambiental resultantes das actividades mineiras na província de Manica. O órgão garante que serão tomadas medidas severas contra empresas que estejam a explorar recursos minerais em violação das normas ambientais em vigor.
No âmbito das diligências, o procurador-geral da República, Américo Letela, visitou, nesta quarta-feira, algumas empresas mineiras localizadas no distrito de Manica, onde procurou inteirar-se do funcionamento das unidades de processamento mineral, das condições de trabalho e do cumprimento das normas ambientais.
Na empresa Mutapa Mining Processing (MMP), Américo Letela reuniu-se com a direcção e com os trabalhadores, tendo destacado a necessidade de verificar a salvaguarda dos direitos laborais e os impactos da actividade mineira no ambiente.
“Também queremos saber como os trabalhadores daqui têm salvaguardados os seus direitos, queremos saber como é a questão do impacto ambiental e entre outras coisas”, explicou Américo Letela.
Apesar de ter demonstrado satisfação com o nível de organização encontrado na MMP, a Procuradoria-Geral da República diz ter identificado, durante a visita a outras empresas mineiras, sinais de possível incumprimento das normas ambientais, estando em curso a análise dos elementos recolhidos.
Segundo o porta-voz da Procuradoria-Geral da República, Ângelo Mathusse, os dados recolhidos serão avaliados para determinar os próximos passos e, caso se confirmem irregularidades, poderão ser aplicadas medidas contra os responsáveis.
“Foram colhidos elementos para a clarificação deste tão badalado problema da poluição. Agora temos de fazer avaliação e tirarmos as necessárias ilações, e, se for necessário, avançarmos com as medidas para mitigar a poluição”, disse o porta-voz da Procuradoria da República, Ângelo Mathusse.
A visita da PGR acontece numa altura em que as actividades mineiras em Manica estão sob forte escrutínio, devido às denúncias de degradação ambiental, uso inadequado de recursos naturais e alegados impactos nas comunidades.
Nesta quinta-feira, Américo Letela prossegue a visita de trabalho no distrito de Vandúzi, onde deverá escalar a mina conhecida por “Seis Carros” para averiguar alegadas violações do decreto governamental que suspende as actividades mineiras, bem como investigar as recorrentes mortes de garimpeiros registadas naquela região.
Mais de 700 jovens foram graduados nesta quarta-feira, nos centros de formação técnico-profissional da cidade de Quelimane, na província da Zambézia, numa cerimónia orientada pelo ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse.
Na ocasião, o dirigente defendeu uma formação profissional inclusiva como instrumento de criação de emprego, geração de rendimento e promoção do desenvolvimento do País.
A cerimónia ficou marcada pela forte aposta na inclusão social, com destaque para a graduação de formandos com deficiência física, cujas histórias de perseverança deram um significado especial ao evento.
Entre eles estão Detinha Alberto, Angelina Engenheiro, Felícia Sozinho, Altina Victorino e Faustino António, que concluíram com sucesso os cursos de Culinária e Serralharia, ultrapassando inúmeras limitações ao longo da formação. Nos seus rostos, era evidente a satisfação de quem transformou obstáculos em conquistas.
“Valeu a pena frequentar esta formação para aprender uma profissão. Fiz o curso de Culinária, e espero, agora, criar o meu próprio negócio. Tenho uma filha menor, e acredito que, através do auto-emprego, poderei garantir o seu sustento”, afirmou Detinha Alberto, convencida de que a determinação e a fé são fundamentais para vencer as adversidades.
Também Faustino António, recém-formado em Serralharia, acredita que a qualificação lhe abrirá portas para servir à comunidade.
“Não foi fácil, mas consegui concluir o curso. Espero colocar em prática o que aprendi, prestar serviços à comunidade e criar oportunidades de trabalho que beneficiem tanto os clientes como as pessoas que vierem a trabalhar comigo”, afirmou.
Na ocasião, o ministro da Juventude e Desportos defendeu que o acesso à formação técnico-profissional deve chegar a todos os moçambicanos, independentemente da sua condição física ou social, permitindo que cada cidadão adquira competências para produzir riqueza, sustentar a família e contribuir para o desenvolvimento nacional.
“O nosso Governo, liderado pelo Presidente da República, tem demonstrado uma forte preocupação com a formação dos jovens moçambicanos. A formação não deve concentrar-se apenas nas cidades; deve aproximar-se cada vez mais dos jovens, onde quer que eles estejam. Esse é o caminho”, afirmou Caifadine Manasse.
O governante acrescentou que investir na qualificação da juventude representa uma aposta no futuro do país, defendendo que cada jovem formado deve colocar os conhecimentos adquiridos ao serviço do seu próprio desenvolvimento, da sua família e de Moçambique.
A cerimónia terminou com a entrega de certificados e kits profissionais aos graduados. Os 700 novos técnicos deixam, agora, os centros de formação com o desafio de transformar os conhecimentos adquiridos em oportunidades concretas de emprego, empreendedorismo e inclusão social.
O director-geral da Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze, Celso Cunha, visitou, nesta quarta-feira, as instalações do Grupo Soico, onde manteve um encontro com o presidente do Conselho de Administração da empresa, Daniel David. A visita culminou com a assinatura de um memorando de entendimento destinado a reforçar a visibilidade das acções e projectos desenvolvidos pela agência na região Centro do País.
À chegada, Celso Cunha foi recebido por Daniel David e percorreu vários departamentos do Grupo SOICO, incluindo os estúdios e a redacção, numa visita que permitiu conhecer o funcionamento dos diferentes órgãos de comunicação da empresa.
Após a visita, as duas instituições formalizaram uma parceria que pretende ampliar a divulgação dos programas implementados pela Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze, com destaque para iniciativas de promoção do desenvolvimento socioeconómico nas províncias de Manica, Sofala, Zambézia e Tete.
Segundo Celso Cunha, a escolha do Grupo SOICO resulta do reconhecimento da sua capacidade de comunicação e da relação de cooperação já existente entre as duas instituições.
“O estabelecimento deste memorando com o Grupo SOICO deve-se, em primeiro lugar, ao reconhecimento do potencial deste grupo. Nós, como Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze, temos vários programas, como o Prospera e o Integra, entre outros, e sentimos que é hora de disseminarmos ao País, e ao mundo, o trabalho que a agência desenvolve na região Centro. O Grupo SOICO sempre trabalhou connosco na prestação de serviços, mas agora estamos a fortalecer ainda mais esta parceria”, afirmou.
Por sua vez, o presidente do Conselho de Administração do Grupo SOICO considerou o memorando um passo importante para dar maior visibilidade ao potencial económico e às transformações em curso na região abrangida pela agência.
“É um memorando muito especial de parceria com uma das instituições mais importantes do País, que impulsiona o desenvolvimento nas províncias de Manica, Sofala, Zambézia e Tete. Trata-se de uma região muito rica, e precisamos de levar esse desenvolvimento ao conhecimento dos moçambicanos. O Grupo SOICO tem um papel importante como veículo de comunicação para mostrar o que está a ser feito e como esta região está a transformar-se economicamente”, disse Daniel David.
O responsável acrescentou que a parceria permitirá divulgar os projectos em curso e inspirar outras regiões do País.
“A assinatura deste memorando visa garantir a visibilidade dos projectos que estão a decorrer e, ao mesmo tempo, catalisar e impulsionar outras partes do País a acreditarem que é possível fazermos diferente em Moçambique”, sublinhou.
A cerimónia terminou com um brinde simbólico ao sucesso da parceria, que ambas as instituições consideram estratégica para promover o desenvolvimento e aproximar os cidadãos das iniciativas implementadas na região do Vale do Zambeze.
O académico e sociólogo Elísio Macamo defendeu, esta quarta-feira, a necessidade de Moçambique construir um “Estado que aprende”, capaz de retirar lições da implementação das políticas públicas e adaptar as suas decisões aos desafios que surgem ao longo do tempo, em vez de se limitar a produzir novos planos de desenvolvimento.
Intervindo no painel “Prospectiva e Posicionamento Estratégico: 2026–2050”, integrado na Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique, Macamo afirmou que o país não enfrenta um problema de falta de estratégias, mas sim de incapacidade institucional para aprender com a experiência.
“Eu acho que nós temos tido bons planos desde que este país foi fundado. Então, o problema não está na qualidade dos planos”, afirmou.
Para o sociólogo, um plano representa apenas uma proposta de acção e, por isso, pode falhar. O verdadeiro desafio, explicou, consiste em avaliar continuamente os resultados obtidos e incorporar as lições aprendidas na definição das políticas públicas.
“O grande problema que nós temos é o de nós não aprendermos institucionalmente. Não aprendermos daquilo que nós fizemos”, sustentou.
Segundo Macamo, Moçambique já possui uma agenda nacional suficientemente clara, consagrada na Constituição da República, documento que, na sua opinião, define os valores, os direitos dos cidadãos e as regras que devem orientar a governação.
“Nós já temos uma agenda. E, por acaso, até a melhor agenda que um país pode ter. Qual é essa agenda? É a Constituição da República”, afirmou, defendendo que qualquer plano de desenvolvimento deve respeitar os princípios nela estabelecidos.
O académico propôs que as instituições públicas passem a adoptar uma cultura permanente de avaliação das políticas, baseada em três perguntas fundamentais: que problema se pretendia resolver, o que foi aprendido durante a implementação e de que forma essa aprendizagem alterou a compreensão inicial desse problema.
“Não é ciência astronómica. É apenas uma questão de ser pragmático na abordagem das coisas da vida”, afirmou.
Durante a intervenção, Macamo manifestou ainda algumas reservas em relação à ideia, defendida por outros participantes, de que os planos nacionais devem manter-se inalterados ao longo de sucessivos ciclos de governação.
Na sua perspectiva, os governos democraticamente eleitos devem preservar liberdade para redefinir prioridades, desde que essa mudança resulte da aprendizagem acumulada e não de decisões arbitrárias.
“Um plano nunca pode limitar a liberdade democrática de um governo de tomar as suas decisões, porque um plano reflecte o conhecimento que nós temos agora e as prioridades que nós temos agora. Essas prioridades podem mudar daqui a três, cinco ou dez anos”, argumentou.
Por isso, acrescentou, “eu não coloco a mesma ênfase na necessidade de continuidade, se essa continuidade se referir ao plano. A continuidade tem que ser ao nível da aprendizagem institucional.”
Num dos momentos mais descontraídos da sua intervenção, o sociólogo comentou a metáfora dos animais utilizada na Agenda 2025 para ilustrar diferentes trajectórias de desenvolvimento, mostrando-se crítico da imagem da abelha como modelo a seguir.
“Aquela imagem da abelha é bonita por causa do mel que é doce, mas é um horror para mim. A abelha faz a mesma coisa a toda a hora”, afirmou, defendendo que Moçambique deve inspirar-se em diferentes características representadas por outros animais.
Na sua visão, o país deve aprender com “a prudência do cágado, a curiosidade do caranguejo e a auto-suficiência do cabrito”, em vez de procurar um único modelo de comportamento.
“Ao invés de nós nos concentrarmos apenas num animal, devíamos procurar saber quais são as qualidades que cada animal tem e que condições é que nós podemos criar para tirar proveito dessas qualidades”, explicou.
A concluir, Elísio Macamo reiterou que o maior desafio do país passa pela criação de instituições capazes de aprender continuamente com a experiência e de ajustar as políticas públicas à evolução da realidade nacional.
A educação, a qualidade das instituições e a preparação da juventude para os desafios do futuro dominaram o painel “Prospectiva e Posicionamento Estratégico: 2026–2050”, realizado no âmbito da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique. Durante o debate, académicos e especialistas defenderam reformas profundas para garantir que o crescimento económico se traduza em desenvolvimento inclusivo nas próximas décadas, com Jorge Ferrão a centrar a sua intervenção na necessidade de transformar o sistema educativo nacional.
Ao introduzir o debate, o moderador, Asif Osman, afirmou que Moçambique não sofre de falta de estratégias de desenvolvimento, mas sim de dificuldades em concretizá-las. Defendeu que o país deve deixar de produzir apenas planos e concentrar-se na implementação de reformas concretas que permitam transformar o crescimento económico em desenvolvimento, criar oportunidades para os cerca de 400 mil jovens que entram anualmente no mercado de trabalho e fortalecer as pequenas e médias empresas.
Convidado a reflectir sobre o papel da educação na construção de Moçambique em 2050, Jorge Ferrão começou por recordar uma das conclusões dos relatórios da OCDE: “A maior parte da força de trabalho do século XXI será educada em escolas africanas e a qualidade da educação oferecida no continente terá efeitos profundos na economia global, na coesão social e na prosperidade partilhada.”
A partir desta constatação, o antigo ministro da Educação alertou para a deterioração dos indicadores de aprendizagem no país. Citando dados do SACMEQ, explicou que a percentagem de alunos da 6.ª classe com um nível aceitável de domínio da língua portuguesa caiu de 62,7%, em 2013, para apenas 16% em 2023. Em Matemática, a situação é ainda mais preocupante, uma vez que apenas 8,4% dos alunos demonstraram competências mínimas de cálculo, enquanto mais de 90% ficaram abaixo desse patamar.
Para Ferrão, estes números comprometem seriamente a capacidade do país para responder aos desafios do desenvolvimento. “Sem dominar a língua e sem dominar o cálculo, naturalmente que não podemos planificar qualquer que seja o grande empreendimento deste país, não importa se pequenas ou médias empresas ou grandes empresas, porque não teremos essa capacidade de poder operar e operacionalizar essas empresas”, advertiu.
O académico considerou igualmente que o absentismo de professores e alunos continua a ser um dos principais factores que explicam o fraco desempenho do sistema educativo. Segundo referiu, existem diferenças significativas entre as regiões do país, o que demonstra que “estas políticas educativas não podem continuar a ser feitas com um sapato de um único tamanho”, defendendo respostas diferenciadas por província, distrito e grupo social.
Jorge Ferrão aproveitou ainda a ocasião para lançar um desafio ao Ministério da Planificação e Desenvolvimento, propondo um novo pacto nacional que coloque os dados e a evidência científica no centro das decisões públicas. “As opiniões da rua podem mais atrapalhar do que ajudar a planificar”, afirmou, defendendo que os indicadores produzidos pelas instituições nacionais e internacionais deixem de servir apenas para relatórios ocasionais e passem a orientar permanentemente a definição das políticas públicas.
O antigo governante manifestou também preocupação com a excessiva centralização das decisões, considerando que o país continua a ser pensado sobretudo a partir da capital. “Fico com a sensação de que nós continuamos a pensar Moçambique a partir de Maputo. Concentramos demasiada inteligência num único centro e escutamos muito pouco as vozes da periferia”, afirmou, acrescentando que o Norte, o Centro e o Sul enfrentam desafios distintos e exigem soluções adaptadas às suas realidades.
Na parte final da intervenção, Ferrão apelou para que a educação volte a assumir um papel central na estratégia nacional de desenvolvimento, sustentando que o futuro do país depende da capacidade de formar cidadãos preparados para construir uma economia moderna e competitiva. “Quando um povo aprende, deixa de esperar pelo futuro; passa a construir o futuro”, concluiu.
Especialistas defendem aposta nas pessoas, no diálogo e no sector privado para posicionar Moçambique até 2050
O desenvolvimento do capital humano, a criação de um ambiente favorável ao investimento privado e a construção de consensos nacionais foram apontados como factores determinantes para o posicionamento estratégico de Moçambique nas próximas décadas, durante o painel “Prospectiva e Posicionamento Estratégico: 2026–2050”.
Na sessão, que deu continuidade ao debate sobre o futuro do país, os intervenientes defenderam que o aproveitamento dos recursos naturais, por si só, não será suficiente para assegurar um crescimento inclusivo, sendo necessário investir na formação das pessoas, fortalecer as instituições e garantir maior estabilidade política e económica.
Também interveniente no painel, o economista Fauzio Mussá defendeu que os maiores desafios de Moçambique não são essencialmente económicos, mas humanos. Na sua perspectiva, “a solução para os próximos 25 anos não tem muito a ver com a economia; tem a ver com as pessoas”, defendendo uma aposta na educação, nos valores e na formação cívica das novas gerações.
Fauzio Mussá alertou que um crescimento impulsionado apenas pelos grandes projectos de gás poderá não beneficiar a maioria da população. “Nós temos hoje, de facto, uma economia dos projectos, mas fora da economia dos projectos vemos uma dinâmica muito frágil”, afirmou. Para inverter este cenário, considerou indispensável criar condições para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, que classificou como o verdadeiro motor da criação de emprego e de uma economia inclusiva.
O economista deixou ainda um alerta para os desafios colocados pela inteligência artificial e pela desinformação, defendendo que uma população mais instruída será também mais capaz de distinguir informação credível, resistir à manipulação e participar activamente na construção do desenvolvimento do país.
Na mesma linha, a representante da Coral Sul FLNG, Marica Calabrese, sustentou que o sucesso dos grandes projectos dependerá da capacidade de criar ligações efectivas com a economia nacional. Para isso, defendeu uma cooperação estreita entre Governo, empresas, universidades, parceiros de desenvolvimento e comunidades.
“Esses actores têm que trabalhar juntos, porque senão Moçambique não vai conseguir ser uma abelha”, afirmou, recorrendo à metáfora utilizada ao longo da conferência para ilustrar um país capaz de produzir riqueza de forma sustentável.
Segundo Calabrese, os megaprojectos devem funcionar como catalisadores da economia nacional e não como enclaves desligados do restante tecido produtivo.
“Não há projecto de sucesso sem que o país vá atrás do projecto, vá junto do projecto, vá crescer junto com o projecto”, defendeu, acrescentando que a aposta na formação de quadros nacionais e no conteúdo local constitui uma condição essencial para que os investimentos deixem benefícios permanentes no país.
Também a deputada Ivone Soares considerou que o desenvolvimento sustentável exige estabilidade política e uma visão de Estado que ultrapasse os ciclos de governação.
“Temos que ter realmente projectos de Nação, para que não haja medo que a governação do A ou do B possa quebrar o desenvolvimento que nós todos queremos”, afirmou.
Na sua intervenção, defendeu um diálogo permanente entre os diferentes actores políticos e sociais, alertando para os riscos da crescente polarização. “Precisamos de uma verdadeira reconciliação nacional”, declarou, acrescentando que “não podemos permitir que a nossa sociedade caminhe para esta cultura do ódio”, sob pena de comprometer a confiança necessária para atrair investimento e promover o desenvolvimento.
Por sua vez, o representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Moçambique, Rómulo Correia, defendeu que África deve reduzir a dependência da ajuda internacional e apostar na mobilização dos seus próprios recursos para financiar o desenvolvimento. “Já não estamos mais nesse período. Simplesmente a ajuda não é o que vai trazer o desenvolvimento aos países”, afirmou.
Para o responsável, o principal desafio passa por criar um ambiente institucional credível, capaz de atrair investimento privado e garantir a execução eficaz das políticas públicas.
“Se nós mostrarmos que nós investimos em nós mesmos, tenho a certeza de que os internacionais também vão investir em nós”, concluiu, defendendo que a confiança dos investidores começa pela capacidade dos próprios países acreditarem e investirem no seu potencial.
Um painel de economistas e académicos moçambicanos defendeu hoje, em Maputo, durante a Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique, a urgência de se reestruturar o modelo de desenvolvimento de Moçambique, apontando o resgate das Pequenas e Médias Empresas (PME) e uma efectiva descentralização fiscal como as vias indispensáveis para quebrar o ciclo de exclusão e corrigir as profundas assimetrias regionais que afectam o país.
Durante o painel, que se propôs a analisar as dinâmicas económicas entre 2000 e 2015 e o legado da Agenda 2025, os analistas constataram que, apesar das elevadas taxas de crescimento macroeconómico registadas no passado, a estrutura económica de Moçambique manteve-se inalterada. Esta paralisia estrutural impediu a redução efectiva da pobreza e gerou, em contrapartida, um aumento visível das desigualdades sociais e territoriais.
Na sua intervenção, o economista Egas Daniel contextualizou a trajectória do país desde o início do século, apontando que o crescimento económico verificado no primeiro ciclo, frequentemente fixado acima dos 7% anuais, com o Produto Interno Bruto (PIB) per capita a avançar a uma média de 4,7%, foi o resultado natural da estabilização pós-guerra. O fim das hostilidades permitiu o retorno das populações às zonas de produção, gerando um impulso inicial inevitável.
“O dividendo da paz era inevitável que se traduzisse num crescimento relativamente elevado nos primeiros anos”, afirmou Egas Daniel, esclarecendo, contudo, que o cerne do problema residiu na fonte que alimentou esse desempenho. O economista questionou se a adopção deste modelo foi uma escolha deliberada ou um produto orgânico das circunstâncias, mas enfatizou que o forte influxo de Investimento Directo Estrangeiro se concentrou de forma desproporcionada no sector extractivo e nos megaprojectos.
Esta configuração, caracterizada por um modelo de capital intensivo, revelou poucas ou nenhumas ligações com os restantes sectores da economia nacional, comprometendo a capacidade de geração de postos de trabalho em larga escala. Por outro lado, falhou a expectativa de que o sector extractivo pudesse robustecer as receitas do Estado para que este, por sua vez, financiasse a diversificação económica.
Egas Daniel assinalou que a arrecadação de receitas não foi proporcional ao crescimento do sector, limitando a margem de manobra do Executivo para dinamizar actividades complementares. Como resultado, os inquéritos aos orçamentos familiares (IOF) passaram a reflectir o agravamento das desigualdades. “Estamos aqui para reflectir como é que nós mudamos essa direcção e não voltamos a repetir e a cometer os mesmos erros, ou a ignorar os mesmos factores que dificultaram a transformação económica esperada no âmbito da implementação ou do seguimento da visão da Agenda 2025”, alertou.
Descentralização e a asfixia orçamental das províncias
Na sua intervenção, O cientista político e docente da Universidade Eduardo Mondlane, José Jaime Macuane falou sobre as assimetrias territoriais, nomeadamente o fosso entre as zonas urbanas e rurais e as disparidades históricas entre as regiões sul, centro e norte do país. O cientista político e docente sublinhou que o paradigma de descentralização desenhado após a aprovação da Constituição de 1990 e o fim da guerra dos 16 anos padeceu de uma visão puramente política e elitista.
Para o académico, o processo foi desenhado essencialmente como um mecanismo de partilha e acomodação de poder entre um número restrito de actores políticos, descurando a dimensão do desenvolvimento socioeconómico local e a sua articulação com o progresso nacional. Macuane reconheceu que houve avanços administrativos ao longo das duas últimas décadas, assinalando que “o distrito de hoje não é o mesmo que existia há 20 anos” e que “a província, nestes últimos oito anos, teve um aumento, claro, com o redutor da existência de uma estrutura bicéfala, com a representação do Estado que está sobredimensionada, mas, essencialmente, este aumento de algum poder, de alguma participação a nível local” representa uma evolução.
No entanto, o investigador argumentou que este incremento de participação não se traduziu numa autonomia efectiva. Os governos locais continuam a disputar competências com o governo central, um processo cuja lentidão tem sido historicamente justificada pelo princípio do gradualismo e pelo argumento recorrente de que falta capacidade técnica ao nível local. José Jaime Macuane rejeitou esta premissa, afirmando que cabe ao Estado central criar as condições antes de delegar funções.
O ponto crítico, apontou, reside na centralização orçamental: actualmente, cerca de dois terços do Orçamento do Estado continuam a ser geridos directamente pelo aparelho central em Maputo. “O desenvolvimento local só pode funcionar efectivamente se os actores locais forem autores e sujeitos ao seu próprio desenvolvimento. Pensam porque conhecem melhor os seus próprios problemas e, consequentemente, as suas próprias soluções”, defendeu, instando a que os programas de capacitação ultrapassem a burocracia estatal e abranjam os actores sociais, económicos e a própria cidadania.
O erro histórico do abandono das PME
Luís Magaço, licenciado em Gestão e mestre em Finanças Aplicadas, trouxe uma perspectiva histórica e empresarial ao painel, argumentando que o diagnóstico da actual crise do sector privado moçambicano não pode limitar-se aos anos mais recentes. O analista recuperou a trajectória do país desde a independência em 1975, lembrando a adopção da economia centralmente planificada, o êxodo de técnicos qualificados, a aplicação de sanções económicas à Rodésia em 1977, que devastou o corredor de desenvolvimento entre Machipanda e a Beira, e o impacto prolongado da guerra civil.
Magaço destacou um paradoxo na gestão macroeconómica contemporânea: entre 1992 e 2005, o país registou taxas médias de crescimento entre 7,5% e 8%, chegando a atingir um pico de 12,5%, num período em que a economia não dependia do carvão, do gás ou do petróleo. O Banco Mundial apontava então Moçambique como um caso de sucesso internacional na redução da pobreza e no fomento empresarial.
“Este país, entre 92 e 2005, não tínhamos carvão, não tínhamos gás e não tínhamos petróleo. Mas crescemos a 7,5%, a média”, enfatizou o gestor, questionando as actuais ambições governamentais e as projecções de analistas que esperam que os recursos minerais façam o país crescer apenas 5% ou 6%. “Alguma coisa está muito errada”, sentenciou.
Segundo o especialista, a grande ruptura ocorreu a partir de 2005, quando o foco político e as prioridades do executivo abandonaram as reformas que sustentavam o crescimento das PME, tais como as actualizações do Código Comercial, da Lei do Trabalho e do Código de Investimentos, para se sintonizarem quase exclusivamente com os projectos de carvão e gás.
Desde então, o ambiente de negócios degradou-se. As taxas de juro de financiamento bancário dispararam para níveis insustentáveis, na ordem dos 20%, e o sistema financeiro nacional tornou-se altamente concentrado e desprovido de um verdadeiro banco de desenvolvimento. Luís Magaço denunciou o fenómeno de crowding out (asfixia do crédito privado por via do endividamento público), observando que a banca comercial prefere hoje financiar o Estado ou conceder empréstimos ao consumo aos funcionários públicos devido à garantia de reembolso, em detrimento do sector produtivo.
A representante do Banco Mundial, Isabel Gamberoni, defendeu que a maior lição dos últimos 25 anos é que “o objectivo não é apenas criar empregos, mas criar empregos melhores e mais bem remunerados”. Para alcançar esse propósito, considerou essencial adoptar um modelo de crescimento intensivo em emprego, assente na estabilidade macroeconómica, no aumento da produtividade agrícola, no desenvolvimento do turismo, no reforço das competências da população e na diversificação da economia. Gamberoni sublinhou ainda que “a chave é conseguir executar essa visão”, defendendo uma administração pública capaz, instituições fortes e uma gestão responsável das receitas dos recursos naturais.
Na sua intervenção, Virgínia Videira sustentou que o principal problema de Moçambique não reside na falta de estratégias, mas na sua execução. “Há muitos documentos feitos, mas é difícil implementar esses documentos”, afirmou, acrescentando que os planos nacionais deixam de ser instrumentos de trabalho no dia-a-dia da administração pública. A economista defendeu que o sistema de planificação cumpra a legislação em vigor, que os programas sejam orientados para resultados, haja monitoria permanente e maior responsabilização dos gestores públicos, alertando que “o problema fundamental no Estado é a produtividade do trabalho”.
Por seu turno, Castigo Langa considerou que o aproveitamento dos recursos naturais só produzirá benefícios duradouros se for acompanhado por instituições sólidas, educação de qualidade e políticas públicas consistentes. Citando uma obra de Alvin e Heidi Toffler, recordou que “uma economia avançada precisa de uma sociedade avançada”, defendendo que a educação é determinante para o desenvolvimento. O engenheiro apelou ainda ao combate à corrupção e à valorização do sector privado, afirmando que “a empresa tem de ser acarinhada pelo Estado como uma mãe acarinha o seu bebé”, por ser nas empresas que se criam riqueza, emprego e oportunidades para transformar a agricultura de subsistência numa agricultura comercial e promover o desenvolvimento das zonas rurais.