Um automobilista morreu carbonizado na madrugada deste sábado, na sequência de uma colisão entre uma viatura ligeira e um camião, na Estrada Nacional Número Um (EN1), no Distrito Municipal da Katembe, Cidade de Maputo. O acidente provocou ainda dois feridos.
O sinistro ocorreu nas primeiras horas da manhã e destruiu completamente a viatura ligeira, que se incendiou após o embate, impossibilitando o condutor de escapar às chamas.
No camião seguiam duas pessoas. Uma sofreu ferimentos graves e a outra contraiu ferimentos ligeiros. Ambas foram socorridas e transportadas para uma unidade hospitalar, onde recebem assistência médica.
O proprietário do camião afirmou que, de acordo com as informações que lhe foram transmitidas, o veículo seguia normalmente no seu percurso quando ocorreu a colisão.
As circunstâncias em que o acidente se deu continuam por esclarecer. Contudo, a Polícia de Trânsito admite, como hipótese preliminar, que o sinistro tenha resultado de uma alegada circulação em contramão por parte do condutor da viatura ligeira. As investigações prosseguem para o apuramento das causas do acidente.
Até ao fecho desta edição, as viaturas sinistradas permaneciam no local do embate, enquanto decorriam os trabalhos das autoridades competentes.
O presidente do Quénia quebrou o silêncio sobre os recentes protestos antigovernamentais no seu país. William Ruto disse que não permitiria “anarquia” no país disfarçada de manifestações pacíficas.
Segundo o noticiário African News, Ruto ordenou que a Polícia “baleassem a perna” de qualquer pessoa que tentasse saquear ou vandalizar algum estabelecimento comercial.
Este foi o primeiro pronunciamento do Presidente queniano após manifestações que resultaram, segundo a imprensa internacional, em 31 mortos.
A província de Cabo Delgado busca oportunidades de investimento e parcerias no sector energético, na agricultura e na indústria pesqueira na Expo Osaka 2025. O objectivo é promover a Baía de Pemba, a terceira maior baía do mundo.
Cada província moçambicana tem duas semanas, cada uma, até Outubro, para apresentar potencialidades no Japão durante a Expo Osaka 2025.
O espaço para exposições temporárias, inaugurado pela província de Inhambane, chama-se Moçambicário e, desta vez, recebe a província de Cabo Delgado.
Na academia, a Universidade Lúrio quer desenvolver parcerias na área de inteligência artificial e robótica, temática central da participação de Moçambique nesta EXPO 2025, explicou Fred Nelson, vice-reitor da Unilúrio.
A cultura também foi usada para expor as potencialidades da terceira maior baía do mundo, Pemba, na Expo. A responsabilidade foi do músico AZ Khinera.
Cabo Delgado foi à Expo representada por entidades governamentais, académicos e músicos.
Uma discussão entre um casal terminou em tragédia no Bairro Chingodzi, na cidade de Tete. Um homem está detido, indiciado de assassinar a esposa de 40 anos, na presença de seus dois filhos menores, alegadamente por motivos passionais.
O indiciado matou a esposa na madrugada desta terça-feira, dentro da casa onde moravam, no Bairro Chingodzi, em Tete, com recurso a instrumentos contundentes, tendo o crime sido presenciado pelos dois filhos do casal, um de três e outro de sete anos. Inconsoláveis, familiares da vítima lamentam o facto e pedem punição exemplar.
Os vizinhos da vítima alegam que o casal vivia em constantes discussões, e o marido sempre foi violento.
O Comando Provincial da PRM em Tete confirma o assassinato e a detenção do indiciado. No entanto, refere que o suspeito teria usado instrumentos contundentes para desferir golpes contra a vítima.
A vítima tinha 40 anos de idade e deixou oito filhos, seis dos quais menores de idade.
O Ministro da Saúde, Ussene Isse, desafia a liderança da Comissão Multi-institucional de Fiscalização da Investigação em Saúde Humana a encontrar soluções para os vários desafios que o país enfrentar na área de investigação em saúde humana, apesar da redução do financiamento para a saúde a nível global.
A tomada de posse, nesta quarta-feira em Maputo, dos membros do órgão, marca um importante passo e vem responder aos desafios do país na componente de investigação em saúde humana. A efectivação deste projecto acontece dois anos depois da aprovação da Lei de Investigação em Saúde Humana em Moçambique.
Para o Ussene Isse, a investigação em saúde humana constitui um pilar essencial para a definição de políticas de saúde, tomada de decisão e planificação.
Nesse sentido, o governante entende que torna-se urgente definir os mecanismos para assegurar que a obtenção da evidência siga os melhores padrões de qualidade e princípios de ética em saúde humana.
O Ministro da Saúde assegura que, com a criação desta comissão, o país cumpriu com o dever de garantir melhor qualidade nos resultados de evidências científicas.
“Asseguramos desta forma a segurança de todos os participantes de estudos científicos. Assim, o Ministério da Saúde dá um passo importante de modo a contribuir para o avanço do conhecimento científico para enfrentar os principais desafios de saúde pública no país, na região e no mundo”, disse Ussene Isse.
Isse adverte à liderança da comissão que o contexto em que assumem as pasta é atípico devido a redução do financiamento à saúde a nível global e no país, em particular. Ainda assim, entende que esta é oportunidade para a identificação de fórmulas cientificamente comprovadas para a promoção da sustentabilidade dos sistemas de saúde.
A Comissão Multi-institucional de Fiscalização da Investigação em Saúde Humana é composta por especialistas provinientes de instituições académicas da área de saúde, sociedade civil e organizações não-governamentais.
A Primeira-Dama da República foi elogiada esta terça-feira, em Nova Iorque, pela sua dedicação à promoção da saúde, educação e protecção da criança, durante um encontro com a Presidente da Save the Children dos EUA, Janti Soeripto.
O encontro decorreu no âmbito da Terceira Edição da Global First Partners Academy, promovida pela Fundação Ford, que reúne Primeiras-Damas e parceiros de vários países para debater liderança resiliente e acções sociais transformadoras.
Janti Soeripto destacou que as prioridades de Gueta Chapo estão alinhadas com a missão global da Save the Children e manifestou entusiasmo em reforçar a colaboração com o seu gabinete e o governo moçambicano.
Na ocasião, a Primeira-Dama partilhou os pilares da sua agenda social, com foco no combate à desnutrição infantil, uniões forçadas e casamentos prematuros, bem como na melhoria do acesso à educação e saúde para as crianças.
A Save the Children, que trabalha em Moçambique há mais de 40 anos, reafirmou o compromisso de apoiar o país através de parcerias com instituições locais e nacionais. O encontro reforçou o interesse mútuo em aprofundar essa colaboração estratégica.
Teresa Bettencourt tornou-se na primeira rapariga moçambicana a conquistar um 2.º lugar no African Open na categoria Bambino, numa prova disputada no passado sábado no circuito de Zwartkops, na vizinha África do Sul.
A jovem piloto da equipa Rasteirinho Racing, em estreia nesta prestigiada competição, demonstrou talento e determinação desde o início. Logo na qualificação, Teresa lançou-se na luta pelos lugares cimeiros, assegurando o 2.º lugar na grelha de partida.
Ao longo das mangas, manteve-se firme, consistente e competitiva, conquistando com mérito o 2.º lugar final, numa grelha de 15 pilotos, elevando bem alto a bandeira de Moçambique no karting africano.
Para além do pódio, Teresa registou ainda a 2.ª volta mais rápida da corrida, com um tempo impressionante de 1:00.071 minuto.
Este resultado representa não só uma conquista pessoal para a piloto, como também um marco para o Automóvel e Touring Clube de Moçambique (ATCM), que viu uma das suas representantes brilhar entre os melhores da região.
Na edição de 2025 do African Open, Moçambique contou com uma forte representação, com oito pilotos distribuídos pelas categorias Bambino, Mini Max e DD2 Masters, todos eles com prestações dignas e empenhadas em representar com orgulho as cores nacionais.
Na classe DD2 Masters, o piloto internacional moçambicano, Cristian Bouché, também colocou Moçambique em destaque ao conquistar o 3º lugar, depois de ter enfrentado uma disputa renhida com os seus adversários directos. O experiente piloto moçambicano do ATCM qualificou-se em 2º lugar na sua categoria e se notabilizou ao longo da corrida, o que permitiu que conquistasse com mérito o 3º lugar para o país no African Open nos DD2 Masters.
Na classe Mini Max, Moçambique teve maior número de pilotos em pista, e o destaque vai para Igor Esteves que terminou a sua participação em 14º lugar na geral.
Entretanto, o piloto internacional moçambicano Eduardo Campos enfrentou vários problemas mecânicos no seu Karting, mas conseguiu assegurar com mérito o 16º lugar numa grelha de 33 pilotos em pista.
Por seu turno, Daniel Resende terminou a competição em 20º lugar, e o internacional moçambicano André Bettencourt Jr. terminou a sua participação em 27º lugar no African Open.
O Chelsea é a primeira equipa a qualificar-se à final do Mundial de Clubes que decorre nos Estados Unidos da América, após vitória sobre o Fluminenses por 2-0 na primeira meia-final. O segundo finalista será conhecido esta quarta-feira, quando PSG e Real Madrid se defrontarem, a partir das 21h00.
Fluminense e Chelsea era mais do que um jogo das meias-finais. Era a disputa entre América e Europa por um lugar na final da prova mundial de clubes. Os ingleses sempre se mostraram superiores em campo, por isso não surpreendeu a vantagem no marcador.
João Pedro Jesus foi o herói londrino. Aos 18 minutos enviou uma bomba de fora da área, que só parou no fundo das malhas de Fábio.
A falta de sorte acompanhava os tricolores, que ainda viram Cucurella salvar o Chelsea na linha do golo, ainda na primeira parte. Os brasileiros ainda viram o árbitro assinalar uma grande penalidade, mas após consulta do VAR, a decisão foi revertida.
Na segunda parte o Fluminense até espreitou a baliza do Chelsea, mas foi João Pedro Jesus, novamente numa bomba, desta feita na área, a sentenciar o resultado final. Pediu desculpas, afinal é brasileiro, mas o golo foi festejado.
O Chelsea só não marcou mais porque a defensiva esteve atenta e a pontaria de Nkunku não foi afinada.
O Chelsea garante a sua primeira final no Mundial de clubes, que será disputada entre duas equipas do velho continente.
O funcionário da Direcção Provincial de Plano e Finanças, de 54 anos de idade, foi encontrado morto na noite desta terça-feira no interior da sua residência, em Chinunguine B, na praia de Xai-Xai, em Gaza.
O guarda e autoridades do bairro suspeitam que seja uma morte por envenenamento, uma hipótese levantada na sequência da presença de uma mulher desconhecida, na tarde de domingo, último dia em que o malogrado foi visto com vida.
“Encontrei uma moça dentro desse carro aqui ao lado, depois de 30 minutos perguntou-me, afinal o seu patrão ainda não voltou. O patrão não atendeu, acabei dispensando aquela moça, naquela hora das 18h10” explicou o guarda.
Familiares dizem que estado em que se encontrava o corpo, com sinais de agressão nos órgãos genitais, sugere envolvimento de terceiros.
“Está muito dilatado, então já arrebentou uma parte ali assim, na parte do anus, arrebentou e está a sangrar, escorreu um bocadinho de sangue”, disse um membro da família.
Outra testemunha disse que a morte abalou o bairro e causou estranheza. “É muito estranho, uma morte estranha mesmo, não sei explicar. Talvez a equipa de saúde poderá, a partir dessa prestações feita aqui, conclusões, no entanto, como pessoa não estamos a conseguir. Estamos muito abalados com este acontecimento. A única comunicação que eu tive com ele foi exatamente na quinta-feira que trocamos mensagem. Precisamos mesmo de saber as razões da morte dele. Nós até então achamos que a morte é muito estranha e dói muito isso”.
O Serviço Nacional de Investigação Criminal e a Medicina Legal estiveram no local para a averiguação, tendo de imediato autorizado a sepultura.
Autoridades locais dizem ser esta a terceira morte na zona de Chinunguine em menos de dois meses. Entretanto, autoridades da polícia prometem reagir nos próximos dias.
Por: Albino Macuácua
Todos os textos lato sensu dialogam uns com os outros ou, como afirmam as autoras Graça Paulino, Ivete Walty e Maria Zilda Cury, “[…] cada produção humana dialoga necessariamente com as outras” (PAULINO; WALTY & CURY, 1995, p. 13), o que não é diferente da literatura. Esta asserção é, no fundo, a extensão ou paráfrase do clássico conceito de intertextualidade pelo qual Julia Kristeva é bastante conhecida que diz que “todo o texto se constrói como um mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de um outro texto” (KRISTEVA, 1974, p.64).
Esta breve introdução justifica o título que atribuí a esta também breve apresentação com a qual gostaria, sobretudo, de partilhar a minha experiência ao ler Canção de Setembro para Zamuzaria Maria, de Rafael da Câmara, e os diálogos para os quais me apelavam os vários poemas deste livro. O pressuposto fundamental que orientou a minha leitura é o de que os vários diálogos que esta Canção de Setembro… estabelece com os autores e as obras que vou apresentar concorrem para a construção das diferentes temáticas cultivadas nesta obra.
O primeiro autor – não pela ordem de aparição, mas pela reconhecida grandeza – que entremeia os poemas desta Canção de Setembro… é José Craveirinha, poeta em grande medida transversal à inteireza da obra –, por um lado pelas características temáticas absorvidas e, por outro lado, pela invocação de outras figuras e autores que Da Câmara faz, mas “retirados” de certa poesia do nosso poeta maior. Craveirinha surge aqui como que a sustentar ou reforçar o retrato da condição humana que, segundo a filósofa alemã, Hannah Arendt, é diferente da natureza humana. A natureza humana corresponderia ao conjunto de elementos sem os quais a existência do homem deixaria de ser humana, e a condição humana é explicada pela autora ao afirmar que “[o]s homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contacto torna-se imediatamente uma condição de sua existência” (ARENDT, 2007, p. 17), o que significa que a condição humana é resultado das circunstâncias em que o homem vive e, por essa razão, é influenciada pelas coordenadas tempo e espaço (o cronótopo). O retrato da condição humana em Craveirinha recai, com a devida empatia e até identidade, quase sempre sobre figuras/personagens que povoam os seus poemas como, por exemplo, a prostituta e a criança, ambas igualmente presentes nesta Canção de Setembro…, o carregador, a dançarina do cabaré, o magaíza, etc. Em Da Câmara, não só recai sobre diferentes figuras/personagens, marcadas por diversos circunstancialismos, como também sobre os sujeitos poéticos da obra, imersos nos diferentes dramas que matizam o “nosso” tecido social que, não obstante, e nisso Craveirinha e Da Câmara são parecidos, levam os referidos sujeitos poéticos a questionar a prevalência, por exemplo, das desigualdades sociais, da indigência, do sofrimento, da guerra, da governação, da violação dos direitos humanos, da corrupção, etc. Para exemplificar, podemos citar poemas como “Moscas gémeas de Bié” (p.13): “Certa vez/Na boca da noite/Sob as asas negras/Vi pela janela duas moscas gémeas/Lambendo merdas bem perto da casas ao lado/Duas moscas gémeas tímidas e parecidas/Riam-se das vozes que vinham do outro lado”; “Aqui ninguém morreu” (p. 43): “[…]//Nossa cidade pintada a cores/Negro e branco e amarelo/O projéctil aceso e lustro/Vem rente a cabeça dos meninos de Bié/E zás!…//Recolheram a arma do crime?/Os bandidos foram caçados e calcinados?/Os marginais foram julgados e presos? […]”; “Partido Político da Oposição” (p. 58): “Baixa esse machado de guerra traidor/Filho da puta!/Senta-te à mesa/Junta-te aos bons/Mesmo o Judas Iscariotes sentou-se à mesa na última ceia/Apesar da traição com trinta dinheiros/Vem…/Puxa a cadeira e senta/Os nossos parceiros já assinaram o cheque/Revemos a Constituição?/Revogamos o mandato (sic) de captura? Fomos todos amnistiados?”; e ainda o poema “Um 25 de Junho estilo a besta que pariu” (p. 70): “E a tocha vem aí/[…] Tende infinita piedade senhor: porque deles só esperamos vozes desquitadas/Vomitando cólera e parindo desilusão!//E a tocha vem aí/Faça frio faça sol/A mágica magia da chama vermelha/Vem aí…/Vem aí…/Vem aí…”
Alguns poemas desta Canção de Setembro… – como sejam “Cantiga para o meu país” (p.17), “Carcaça de tractor numa concha de caracol” (p. 18) –, remetem também para Craveirinha, quando Da Câmara invoca artistas (músicos, em particular) como, por exemplo, Daíco e Fany Mpfumo.
Um outro autor é Luís Bernardo Honwana, com o texto “Papá, cobra e eu”, título parecido com o título do primeiro poema do livro de Da Câmara, “A papaia, o menino e o cão”(p. 11). E por que me lembrei do conto de Luís Bernardo Honwana? Justamente por causa da personagem infantil, cuja construção, neste conto, é revestida de grande complexidade, distante da ingenuidade que se esperaria de uma criança, muitas vezes tomada como simples. Ginho, protagonista da história (que também é narrador), só a título exemplificativo, faz perguntas e afirmações ao pai que tacitamente questionam a não acção de Deus quando o seu pai, o Sr. Tchembene, faz a sua oração, após o episódio em que é enxovalhado pelo Sr. Castro que exige dele uma indeminização pelo cão morto, após ter sido picado por uma cobra que andava na capoeira da casa do Ginho. O pai do Ginho procura, em conversa com o filho, passar a ideia de que tal acontecimento só houve porque Deus assim o quis, mas Ginho desresponsabiliza Deus, dizendo que ele podia ter evitado que o cão do Sr. Castro fosse mordido. Podemos afirmar que Da Câmara revisita, através do poema “A papaia, o menino e o cão”, a complexidade a que me refiro no retrato e construção da personagem infantil, ao colocar a criança como força centrípeta (que atrai para si) e força centrífuga (que tira para fora de si) reflexões inimagináveis, aparentemente banais, mas que, no caso concreto, se relacionam com o conhecimento sobre a essência das coisas e dos seres/entes e sobre a Natureza enquanto entidade suprema:
[…]
De repente, não sei porquê, lembrei-me
Da história da papaia
Do menino e do cão
Estavam juntos sentados à mesma mesa
Estavam divertidíssimos
Conversavam de coisas banais
Diziam, por exemplo
Que todas as papaias maduras são amarelas
Que o cão quando é cachorro
É amigo dos meninos
Os meninos adoram cachorros e papaias.
Certa vez!
Aprendi que quando os meninos
Estão sentados à mesma mesa
Devem saber cantar e
Contar histórias
Do nascer e do pôr-do-sol
Que se um menino achar um búzio na praia
Deve dizer que é casa de um bichinho entre os milhões que vivem no mar
Equinodermes, Plâncton, Sirénios, Crustáceos, Celenterados
[…] (p. 11)
Eugénio de Andrade, poeta português, também parece presente nesta Canção de Setembro para Zamuzaria Maria. O poema de Da Câmara, dedicado a Sebastião Alba, que me lembrou o poeta português tem como título “Carcaça de tractor numa concha de caracol” (p.18):
Sabe: gosto dos meus amigos
Modelam a vida sem interferir
Gosto deles quando cantam e encantam
Inventam canções de embalar a alma
E sabem que também é branca a luza da madrugada
[…]
Sabe: gosto dos meus amigos
Aqueles que pintam interiores e modelam a ferrugem
Almas insípidas no exílio à luz da cidade nocturna
Onde marulham outras águas
Outras caças no sorriso irónico (p. 18)
Este retrato eufórico (e carregado de lirismo) da amizade que até, num outro viés, lembraria o “Poemazinho eterno” de Craveirinha, lembra o poema “Os amigos”, de Eugénio de Andrade, sobretudo no que à partilha de amor e alegrias diz respeito: Os amigos amei/despido de ternura/fatigada/ uns iam, outros vinham,/a nenhum perguntava/porque partia,/porque ficava;/era pouco o que tinha,/pouco o que dava,/mas também só queria/partilhar/a sede de alegria —/por mais amarga.
Como já dissemos, a construção de considerável parte das temáticas da obra de Da Câmara está ligada às intersecções que ela estabelece com vários outros textos, conscientemente ou não, e, neste domínio, podemos alagar tais intersecções referindo-nos, por exemplo, ao livro de poemas de Filimone Meigos, Globatinol – Antídoto – Ou o Garimpeiro do Tempo, presente no poema “Chamadas telefónicas (ii)”, (p. 23) que funciona, como o próprio poeta afirma, como um oráculo de Muxúngue, remetendo, por conseguinte, para os ataques armados nesta região do país, iniciados em 2013, e autorizados, teórica e paradoxalmente, por um “garimpeiro do tempo” ou, se quisermos, um dos garimpeiros da nossa história.
Com De Medo Morreu o Susto, de Aurélio Furdela, em particular com o conto “A minha morte”, o diálogo é estabelecido através do poema “Epitáfio” (p. 26), em que a morte é descrita sobretudo como um estado de sensações: “Só sei que já parti/E que vou chegando devagar/Singrando na fuligem melancólica/Sobre a planície verde com espigas de bronze/A densa madrugada tamborilando as sete balas vazias”. Além disso, o poema “Fim de citação” (p. 28) revela, por um lado, um diálogo com Chitlango, Filho do Chefe, de Chitlango Khambane e André-Daniel Clerc, precisamente com o capítulo primeiro deste livro, denominado “O escorpião dentro do pilão” e tal se pode ver pela epígrafe “Um escorpião dentro do pilão”. Por outro lado, e isto mostra a preocupação do poeta com temáticas mais universais, há um subtil diálogo com o filósofo austro-britânico, Karl Popper, a quem o poema é dedicado, cuja reflexão sobre a tolerância – conhecida como o paradoxo da tolerância – na sua obra A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, já foi usadas para analisar a guerra entre Israel e Palestina que, no poema em causa, se resumiria na questão “A guerra próxima: o próximo judeu?”, em que, tal como o protagonista de Chitlango, Filho do Chefe esmaga um escorpião no pilão, esta seria provavelmente uma analogia do que a história nos legou até agora sobre esta guerra.
Temos ainda, neste livro, o “Let my people go” que nos lembra Noémia de Sousa (e também o Livro de Êxodo, da Bíblia Sagrada e até a canção de Louis Armstrong), “inserido” num poema intitulado “Maçanica para uma mulher de Misrata” (p. 38) que fala sobre a cidade líbia, Misrata. No poema é criticada a acção do Ocidente que muito bem se revela numa metáfora que gera uma ironia que atinge o sarcasmo nos versos seguintes: “O tanque subtil do diabo-mor ocidental/Toca piano no centro da cidade de Misrata”.
Os diálogos são vastos. Há outros com escritores e músicos que não podem ser desenvolvidos nem explicada a sua natureza e papel nesta Canção de Setembro… (como, por exemplo, diálogos com escritores como Rui Knopfli, Eduardo White, João Paulo Borges Coelho, com o músico Alexandre Langa, etc.). O importante talvez seja compreender a poesia de Da Câmara como que revestida de subtilezas diversas e de uma certa dose de lirismo, mas também de uma contundência (esta que se vê em Craveirinha), ao, por exemplo, abordar questões sociais actuais, desde problemas da maioria anónima do nosso país às atitudes e posturas reprováveis dos nossos governantes que mantêm este estado de coisas, e é provavelmente por estas e outras razões que o poeta afirma num poema com cujo título termino esta apresentação: “Sinto que este momento presente me assassina” (p. 67-68). No fundo, os momentos presentes que vivemos assassinam-nos a todos, todos os dias.
Muito obrigado pela atenção!
Fundação Fernando Leite Couto, aos 3 de Julho de 2025
Referências bibliográficas
ANDRADE, Eugénio. (1956). Até amanhã. Lisboa: Guimarães Editores.
ARENDT, Hannah. (2007). A Condição Humana. 10.ª ed. Trad. Roberto Raposo. Rio do Janeiro: Forense Universitária.
CÂMARA, Rafael da. (2023). Canção de Setembro para Zamuzaria Maria. Maputo: Gala-gala edições.
KRISTEVA, Julia. (1974). Introdução à Semanálise. Trad. Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva.
PAULINO, Graça; WALTY, Ivete & CURY, Maria Zilda. (1995). Intertextualidades: teoria e prática. Belo Horizonte: Editora Lê.

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