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O País – A verdade como notícia

O acesso à terra continua um grande desafio em Moçambique, em particular para as mulheres que vivem nas zonas rurais. Sem este recurso, a participação feminina no agronegócio é ínfima.

É diante desta situação que as oradoras da segunda edição da MOZGROW debateram o empoderamento da mulher no agronegócio, tendo sido unânimes em apontar o acesso ao financiamento e falta de combinação das políticas de terra à educação, como os principais entraves para a sua maior participação.

Intervindo no debate a quatro, Florinda Isaías, do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais, entende que a nova política de terra, recentemente aprovada pelo Governo, pode mudar o paradigma.

“Neste momento, fala-se da auscultação para a revisão da política de terra, e uma das orientações do Presidente da República é que seja considerada a inclusão da mulher no espaço agrário. Ela (mulher) contribui com cerca de 24% do rendimento do país, pelo que é importante que ela seja empoderada para que contribua ainda mais”, defendeu Florinda Isaías.

A representante do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais indicou ainda que, há uma “cadeia de barreiras” que limitam o crescimento da mulher, em parte, devido o acesso à informação aos mecanismos de desenvolvimento.

“A mulher nem sabe como chegar aos bancos, as taxas aplicadas…ainda existe um trabalho muito grande no sentido de empoderar as mulheres”, realçou Florinda Isaías.

Para a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique (FEMME), Célia Ribeiro, há um baixo nível de literacia, pelo que é preciso contornar os tabus e dar poder de decisão às mulheres.

“É preciso passar muito conhecimento e informação para as zonas rurais, de modo a que as mulheres consigam ter a força de vontade. Elas têm vontade de abraçar as associações, mas porque a predominância é masculina nas zonas rurais, elas não conseguem progredir”, apontou a presidente da FEMME.

De acordo com Célia Ribeiro, “o factor indutor é a solidariedade”, uma vez que para atingir o sucesso é preciso alianças.

“Todos dias entramos numa guerra económica e queremos ter a nossa participação. Queremos que sintam que nós também temos o direito, temos que gastar muita energia para que nos oiçam”, referiu a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique.

Já Flaida Macheze, da União Nacional de Camponeses, indicou que a mulher é sempre relegada ao segundo plano, principalmente, no que toca ao acesso à terra.

“No campo, aquele que é o verdadeiro meio rural em Moçambique, a mulher não tem título (Direito de Uso e Aproveitamento de Terra, DUAT). Quem tem o título é o homem. A informação não chega ao meio rural, a mulher não conhece os seus direitos contemplados nas políticas e leis que temos em Moçambique. Há mulheres com posse, mas são ínfimas. Pelas práticas costumeiras, o próprio líder comunitário acredita que quem deve ter o DUAT é apenas o homem”, indicou.

De acordo ainda com a representante da União Nacional de Camponeses, “o cooperativismo está a falhar em Moçambique”, pois, falta articulação entre o produtor e comerciante.

Por sua vez, a intervenção de Margarida Lemos, uma produtora de hortícolas no distrito da Moamba, na província de Maputo, focou-se nas barreiras e altas taxas de juro nos bancos comerciais.

Margarida Lemos contou que há 12 anos, recorreu a um empréstimo bancário, mas foi preciso “coragem” para não desistir e honrar com as obrigações (reembolso do crédito).

A produtora defendeu a necessidade das instituições de crédito capacitarem as mulheres em matérias de gestão para melhor saberem articular os reembolsos dos empréstimos contraídos junta da banca.

“Nós não chegamos ao financiamento porque não conseguimos redigir um papel como deve ser (cupão de empréstimo, por exemplo). Nós não essa orientação de como fazer um cálculo para termos um cash-flow (fluxo de caixa), perceber as condições do mercado para avaliar se dá ou não suportar um empréstimo”, apontou Margarida Lemos.

Segundo as estatísticas oficiais, as mulheres constituem o maior número nas zonas rurais, cerca de 70%. Contudo, o seu envolvimento no agronegócio é ainda muito fraco.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) entende que Moçambique deve potenciar a agricultura familiar, de modo a garantir a segurança alimentar. A agência da ONU acredita que o país tem um potencial promissor.

Hernani Coelho da Silva, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura em Moçambique, FAO, na sigla inglesa, fez parte de um dos painéis da MOZGROW, onde expressou a relevância da agricultura alimentar.

“A agricultura familiar é uma componente importante no contexto global da produção alimentar. Por exemplo, os dados mostram que a agricultura familiar em si contribui em mais de 50% para a disponibilidade que temos a nível global”, explicou o representante da FAO, apontando outro aspecto relevante deste modelo de prática de agricultura:
“Constitui também um factor muito determinante no que toca à situação socioeconómica, cultural e, também, da dinamização da cultura onde estão inseridos”, disse, tendo assinalado da atenção que o modelo precisa.

De acordo com dados oficiais, Moçambique tem mais de 70% da população que pratica este tipo de agricultura, mas os agregados enfrentam problemas que têm a ver com questões do acesso a sementes melhoradas, insumos e meios financeiros para a modernização das actividades que são tradicionais.

Entretanto, para além da potenciação aos pequenos agricultores, o representante da FAO cita a investigação científica como outro aspecto que deve ser aprimorado.

“Nós temos por volta de 10 zonas agro-ecológicas. Significa que em cada zona há sua característica. Agora, precisamos saber qual é a zona mais apropriada para cada actividade. É daí que não só os pequenos agricultores, mas também as instituições de investigação tornam-se envolvidas”, afirmou.

Para Silva, em meio ao imbróglio que afecta muitos países não desenvolvidos, que diz respeito à existência de produção sem a existência de mercado, nos pequenos agricultores, dois elementos podem contribuir. O especialista refere, como primeiro elemento, a organização dos agricultores.

“Um agricultor pequeno, com um hectar, produzindo menos de uma tonelada, não vai ter essa capacidade de ele próprio levar a mercadoria e vender. Então, precisa de um sistema no qual pode estar agregado e ter um bom rendimento”, explanou.

O segundo elemento seria a parceria. “Ela tem que ver com os modelos de integração já praticados em diversas partes do mundo. A parceira ou entre eles e as empresas, ou entre eles e o Estado”, ilustrou da Silva.

“Um dos problemas que nós enfrentamos em todos países que partilham mesmas características, são essas situações em que o pequeno agricultor não tem essa capacidade, quer em termos técnicos, quer em financeiros, para poder rentabilizar a sua exploração”, lamentou, apontando que os impactos têm sido as perdas excessivas na própria colheita, processamento, armazenamento, para não falar sobre a parte de cadeia de valor da sua segmentação toda a partir do produtor até ao mercado”.

Hernani da Silva da FAO Moçambique falava no painel “Agricultura Familiar e os Desafios da Segurança Alimentar”. A edição na qual participou o representante da agência da ONU foi veiculada na noite de ontem, na STV Notícias.

José Graziano da Silva, antigo director-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defende uma articulação conjugada entre o Governo, sociedade civil e sector privado no combate à fome. O agrónomo entende ainda que o problema da fome no mundo não é causado pela “alta de alimentos”, mas sim “pela falta de dinheiro”.

 

Brasileiro, agrónomo de profissão, homem que já ocupou a direcção máxima da FAO (na sigla inglesa), José Graziano da Silva considera que para a efectivação do propósito “fome zero”, almejado por estados como Moçambique, um elemento é eficaz: “uma forte coordenação”.

“As políticas de segurança alimentar e nutricional são feitas tanto no nível central, como no nível municipal. E se elas não estiverem ajustadas, coordenadas e integradas, elas falham”, alerta José Graziano da Silva.

Nesse sentido, o especialista considera que “não é o governo que acaba com a fome, mas a sociedade”, pois, na sua óptica, “para acabar com a fome há muita coisa que a sociedade e o sector privado podem fazer”.

Ainda na sua perspectiva, o problema da fome no mundo não se deve à falta de alimentos. “Excepto nos países onde atravessam a guerra ou vivem em contexto de calamidades”, sustenta.

“Hoje no mundo sobram alimentos. Nós desperdiçamos muita produção. Perdemos muito do que produzimos”, diz o guru da FAO, assinalando que “o que falta é dinheiro para comprar os alimentos. As pessoas não têm acesso aos alimentos”.

Entretanto, para tornar os alimentos disponíveis aos que necessitam, da Silva diz ser necessário que sejam observados dois aspectos:

“Primeiro, uma articulação entre todos os sectores da sociedade, sector privado, sociedade civil e o Governo”, diz o homem da agronomia.

“Segundo, é pensar que o problema não é só produzir alimentos, o problema é pensar como fazer isso chegar na mesa, principalmente das populações mais pobres”, conclui.

Para além de director-geral da FAO, José Graziano da Silva foi ministro da Segurança Alimentar e Combate à Fome no Brasil. Ontem, o ex-dirigente fez parte de um dos painéis da MOZGROW que debateu o tema “Agricultura Familiar e os Desafios da Segurança Alimentar e Nutricional”.

O painelista debruçou-se em torno de elementos como a necessidade de o país adaptar-se diante das catástrofes cíclicas, bem como sobre o lanche escolar que acredita ser elementar na assimilação de conteúdos.

José Graziano da Silva, que falava através de uma plataforma virtual, congratulou Moçambique por optar pela criação do Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN), um órgão do Estado.

A Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique e o Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária consideram que é preciso investir-se na rentabilidade da agro-pecuária com investigação e financiamento à inovação.

O Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) tem uma missão bem definida. De acordo com a Directora-Geral daquela instituição, Olga Fafetine, essa missão passa por gerar conhecimento e oportunidades para o agronegócio. Com isso, assegurou a dirigente, o que se pretende é garantir que a rentabilidade da agricultura nacional seja aumentada e que os riscos que estão associados à mesma actividade sejam reduzidos, sobretudo os associados à agricultura do sector familiar.

Enquanto se luta por alcançar a tão almejada rentabilidade, Olga Fafetine explicou que o sector agrícola, no país, enfrenta uma série de entraves: “os entraves que têm dificultado o  desenvolvimento do agronegócio em Moçambique são bem conhecidos. Os mesmos estao relacionados com o acesso limitado aos insumos, as sementes, aos defensivos agrícolas, aos fertilizantes e a algum conhecimento das práticas do maneio agrícola recomendáveis internacionalmente”.

Olga Fafetine explicou ainda que Moçambique está a investir, no sector da pecuária, em melhor o material genético, de modo que as produções sejam de boa qualidade e que cheguem de forma segura aos consumidores. Nesse processo, há um trabalho intenso que está sendo feito no país, relacionado com diagnósticos de doenças e com a prevenção de doenças dos animais, com recurso a vacinas.

A Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique disse, neste terceiro dia da MOZGROW, que um dos factores relevantes para o sucesso do agronegócio tem que ver com a capacidade de exploração dos produtos florestais, mas sem degradar o ambiente e a biodiversidade. Do mesmo jeito, os ensaios são igualmente indispensáveis: “o nosso papel é fazer ensaios experimentais até descobrir variadas qualidades [de sementes ou amostras] com melhores atributos em relação aos que já existem”. A ambição do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique é conseguir adquiri qualidades de produtos agropecuários tolerantes às doenças ou a altas temperaturas. “No caso do milho, já temos algumas variedades no mercado que estão a ser muito requisitadas”.

De acordo com a Directora-Geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique, o negócio da semente é um bom negócio e as empresas deviam investir mais nisso. Essa variadas, quando comprovadas a qualidade, depois, são multiplicadas e conseguem garantir boas receitas aos produtores e ao Estado.

Uma das acções desempenhadas pelo Instituto de Investigação Agrária de Moçambique foi a introdução de variedades que foram tropicalizadas, o que permitiu que agricultores passassem a produzir hortícolas em todo o ano. Nada disso teria acontecido sem investigação ou sem tentativas de melhoramento das sementes ou dos insumos, segundo assegurou Olga Fafetine.

No campo da pesquisa, um dos grandes problemas tem que ver com dinheiro. Sendo uma área exigente, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique tem trabalhado com iniciativas público-privadas para conseguir financiamento à investigação e à aquisição de tecnologias necessárias para o desenvolvimento do sector. O que se pretende é impulsionar o crescimento de camponeses e empresas privadas. Para o efeito, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique disponibiliza informação e serviços, às vezes gratuitamente.

A participar no debate subordinado ao tema “Investigação e pesquisa como catalisadores da transformação no agronegócio” esteve virtualmente o Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), quem partilhou experiências. De acordo com Celso Moretti, a sua instituição tem o papel de apoiar o desenvolvimento sustentável e competitivo das cadeias produtivas de todas as agriculturas, pequena, média e grande. EMBRAPA tem 47 anos no Brasil. Na altura, quando foi fundada, o Brasil importava tudo, alimentos, carne e estava numa situação de insegurança alimentar, sem tecnologias. Foi com a chegada da EMBRAPA que transformaram a realidade agrícola. “Nós transformamos a realidade da agricultura brasileira. O Brasil, em menos de cinco décadas, saiu de um importador para se transformar num dos maiores exportadores de alimentos, fibras e bioenergia. Isso nós fizemos graças a um forte investimento em investigação, pesquisa, desenvolvimento e inovação”.

Segundo lembra Celso Moretti, houve compreensão do Estado brasileiro que era capital que o país desenvolvesse a sua agricultura e o seu agronegócio e que se investisse muito em ciência, tecnologia e inovação. Por isso, nos cinco primeiros anos foram enviados para fora mais de mil pesquisadores. “Eles foram aprender o que havia de mais inovador e trouxeram conhecimentos para desenvolver a agricultura brasileira. Houve muitos investimentos de peso, em recursos humanos e infra-estruturas”.

A cada ano, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária busca apoio do sector privado, recursos por meio de parcerias e contratos. Mas a maior parte do financiamento vem do Estado federal.

Olga Fafetine disse que o IIAM está a estabelecer contactos com a EMBRAPA. Por exemplo, o centro de excelência de algodão que está sendo estabelecido no país tem apoio dos brasileiros. Moçambique tem vários estudantes que se vão formar no Brasil e estagiam na EMBRAPA. “Estamos a tentar contactos com eles para trazer projectos de arroz, com especialistas para o nossos centros. Não temos nada de concreto mas estamos a discutir sobre o apoio ao arroz e a feijões. O centro de Namacurra está a começar a sua operacionalização com alocação de quadros e pensamos inaugurar ou este ano ou próximo, com um centro de referência na pesquisa, importante para Moçambique e para a região”.

Produzir por contratos, conhecer a estrutura de custos dos produtos e investir em armazéns de conservação é essencial para tornar o agro-negócio sustentável. O debate sobre Mercados e Estabilização dos Preços de Produtos, na MOZGROW, aprofundou essas ideias

O agro-negócio é nulo sem a definição do preço e do mercado dos produtos. No entender de Mahomed Valá, director-geral do Instituto de Cereais de Moçambique (ICM), os produtores devem ter ambições económicas e financeiras para saber qual é o seu mercado e que preços praticar.

“O produto moçambicano deve ser agregado valor. Se nós continuarmos sem esta evolução, sem esta transformação, isso nos remete a abaixo de 45 anos, antes da independência, que Moçambique era um mero produtor de matéria-prima para a indústria no mundo, na Inglaterra, caso do chá e de muitos outros produtos”, considera o director-geral do Instituto de Cereais de Moçambique.

Tal fórmula funciona bem quando o produtor sabe a quem vai vender e que quantidades vai vender.

“Um produtor de tabaco não sofre em Tsangano, Marávia, Mandimba, não sofre porque ele já fez um contrato com a Mozambique Leaf Tobacco, produziu tanto, a qualidade tem que ser esta e eu compro a tal preço. Tem que ser este o caminho de Moçambique, já começamos, mas temos que aumentar a escala”, defende Mahomed Valá, referindo-se à produção por contrato.

E para definir um preço competitivo dos produtos é preciso saber quanto custou para produzir, segundo explica Tatiana Mata, directora-geral da Muthiana Investimentos, uma empresa que disponibiliza insumos aos agricultores e facilita o seu acesso aos mercados.

“O produtor tem de começar a saber a sua estrutura de custos e é aí onde começam as dificuldades porque os produtores muitas vezes não têm essa capacidade de se questionar, quanto é que custa semente, quanto é que custa a água para poder irrigar os campos e o tempo que ele e a família dedicam, tudo isso tem de ser calculado para determinar o preço”, explica Tatiana Mata.

Contudo, é fundamental que os agricultores, a todos os níveis, tenham informações sobre o mercado para saber diferenciar os produtos com ou sem determinada qualidade.

Árabe Jonange é secretário da Associação da Feira Ntindo de Mandimba, uma organização que criou este armazém no distrito de Mandimba, na província do Niassa. Compra produtos dos agricultores, conserva neste local e depois vende para Nampula e o vizinho Malawi.

Trata-se de uma experiência, que segundo o secretário, reverteu a tendência de venda de produtos ao Malawi a preços longe de serem competitivos. É que com a falta de locais para conservar os produtos, os produtores, por medo de perder os seus produtos por deterioração, optavam por ir vender naquele país a preços baixos.

Árabe Jonange, Tatiana Mata e Mahomed Valá foram os intervenientes do debate sobre Mercados e Estabilização dos Preços de Produtos esta quarta-feira na plataforma MOZGROW.

 

Moçambique dispõe de políticas públicas para promoção das marcas nacionais, mas a internacionalização ainda é um desafio, num mercado global cada vez mais exigente no que toca a inovação e qualidade dos produtos colocadas à venda.

É neste contexto da globalização, que a directora de Marketing da Delta Cafés, Sandra Veludo, partilhou a experiência desta marca portuguesa rumo a internacionalização, tendo destacado as valências do mercado moçambicano.

A especialista, que participava via plataforma digital num dos painéis da segunda edição da MOZGROW, a partir de Portugal, disse que o mercado moçambicano é “acolhedor” e dispõe de produtos de qualidade.

“Por se tratar de uma marca global, a Delta Cafés teve que se adaptar a realidade local, mas sem desvirtuar a essência da marca”, apontou Sandra Veludo.

Já o director-geral da Good Trade, Diogo Lucas, indicou que os produtores moçambicanos devem estar atentos à dinâmica do mercado global, pois há qualidade nos produtos nacionais, mas falta uma aposta forte na promoção das marcas.

“É preciso apostar mais na publicidade para despertar o interesse nas nossas marcas. Trabalhar para que as nossas marcas tenham mais visibilidade e consistência”, argumentou Diogo Lucas.

Com as tendências do mercado a colocarem a marca como o elo de ligação entre o produtor e o cliente, Emídio Rafael, representante do Instituto de Propriedade Industrial indicou que a instituição está a abraçar uma série de iniciativas inovadoras. O cabrito de Tete é um dos exemplos no que toca a promoção de marca local.

“Neste momento, o cabrito de Tete é uma indicação geográfica…a primeira moçambicana já registada (no Instituto de Propriedade Industrial). O que nós fizemos foi trabalhar com os próprios criadores de cabrito e todos intervenientes da cadeia de produção para estabelecer uma associação. Desenvolvemos com a própria associação, um caderno de especificações do produto”, explicou o representante do Instituto de Propriedade Industrial.

O referido caderno das especificações indica as condições de pastagem do cabrito, suplemento, transporte para o matadouro, processamento e embalagem. No próximo mês (Novembro), o Instituto de Propriedade Industrial vai proceder com o lançamento do teste comercial do cabrito de Tete.

Entretanto, a promoção das marcas nacionais estende-se para outros produtos e regiões, segundo deu a conhecer Emídio Rafael.

O Instituto de Propriedade Industrial está igualmente, a trabalhar no arroz produzido na Zambézia, café de Gorongosa, Ibo e Niassa.

“É uma pluralidade de produtos nacionais com grande potencialidade de conquistar o mercado nacional e internacional. No entanto, é preciso que os produtores entendam que o uso da propriedade industrial para agregar valores a esses produtos é fundamental”, anotou Emídio Rafael.

O trio dos oradores da segunda edição da MOZGROW debateram ainda, o uso de agrotóxicos na agricultura, numa altura em que o mundo recua desta prática por questões climáticas.

Estima-se, que em Moçambique, apenas 5% dos agricultores recorrem a diversos químicos no processo de produção agrícola, como forma de aumentar os níveis de produtividade.

O sucesso da indústria nas suas relações com a agricultura depende, em parte, da formação dos agricultores, políticas claras para o sector, recursos para produzir mais e potenciar o mercado interno, defenderam os painelistas que esta quarta-feira reflectiram sobre a “Agro-indústria e o desenvolvimento local”, no contexto da segunda edição da MOZGROW.

O vice-presidente da Associação Industrial de Moçambique (AIMO), Francisco dos Santos, começou por fazer um enquadramento histórico da agro-indústria em Moçambique, “de onde vimos e onde estamos”, de modo a dar perspectiva do que pode ser opção das prioridades do país neste momento.

Olhando para o panorama mais regional, a industrialização em África é fraca e Moçambique não é excepção, disse o interlocutor, o primeiro a intervir no painel.

Para Francisco dos Santos, “talvez, a particularidade de Moçambique é ter tido um processo de independência que abriu muitas oportunidades e depois teve a infelicidade” de ser assolado por uma guerra que só cessou volvidos 16 anos.

Essa guerra não só significou um retrocesso, como também o país ficou estagnado “enquanto todo o mundo andava a uma velocidade rápida. Isto trouxe um preço muito alto para o país, que ainda hoje estamos a pagar”, afirmou o painelista.

Em termos de percentagem do Produto Interno Bruto, “a indústria manufactureira é muito diferente com a dos outros países da África, mesmo comparando com outros muito mais industrializados. Andamos a mais ou menos 7% do PIB. Mas como o PIB de Moçambique é absolutamente baixo, e per capita é baixíssimo e Moçambique continua a ser um dos países com menor renda” o sector da agro-indústria é fraco.

Entretanto, comparado com outros países como o Malawi (país do interior), Moçambique está em melhor posição, acrescentou Francisco dos Santos, salientando que Moçambique sempre teve um mercado interno muito pequeno, de base muito rural e com uma população pobre, a sobreviver como pode.

As indústrias baseadas fundamentalmente nos produtos de exportação como algodão, caju e chá mantiveram-se com altos e baixos.

“Penso que nunca foram promovidas com muita intensidade. Nunca houve” foco e “agressividade em crescer verdadeiramente esses produtos”, segundo Francisco dos Santos. Aliás, alguns deles como o caju passaram por “mementos muito complicados”. Todavia, o tabo tornou-se, nos anos 90, uma referência para Moçambique e a região da África Austral.

“Precisamos ter recursos para produzir mais e potenciar o mercado interno”, disse Francisco dos Santos, para quem “os custos do transporte de mercadorias continuam proibitivos” apesar da produção que o país regista. Sugere que deve haver “capacidade de mobilizar recursos”, sobretudo nesta altura em que “o mercado moçambicano tende a crescer” com o envolvimento de várias áreas de produção.

A Constituição da República diz que a agricultura é a base do desenvolvimento nacional. Será isso acontece na prática? Francisco dos Santos entende que não: “não nos devemos enganar, a agricultura está como uma prioridade na Constituição, mas essa prioridade deve ser traduzida em orçamento. E a agricultura não tem sido priorizada, nem a própria indústria do ponto de vista do orçamento”. Este é “alocado àquilo que na óptica do Governo tem sido prioridade, nomeadamente saúde, educação”, por exemplo.

DEVE HAVER UMA POLÍTICA QUE ENCORAJA BONS AGRICULTORES
Por sua vez, Rui Afonso, CEO do Grupo Agriterra, disse perceber, por vezes, que o produto nacional não é valorizado. Deu exemplo do milho produzido no Chimoio, província de Manica, que segundo explicou é comprado a 15 meticais o quilograma, para produção de farinha de milho, mas em Maputo as fábricas pagam 12 meticais a mesma quantidade para o milho importado da África do Sul. “O mercado prefere o produto mais barato” e de fora.

Os investidores na área do agro-negócio “pagam mais mas o consumidor não quer consumir mais”, além do facto de “nunca vamos competir com a África do Sul”.

Para a fonte, este aspecto é chave quando se discute como incluir e incentivar o sector familiar em Moçambique. “Eu sinto”, por vezes, “que não há uma clareza daquilo que queremos como país. Sabemos que maior parte dos agricultores usa os lucros e o dinheiro que faz para pôr os miúdos na escola e construir casas” de modo a passar das rurais para as urbanas.

“Temos que decidir se queremos tirar ou manter as populações nas zonas rurais. Se for isso, como é que podemos fazer“, disse Rui Afonso, sugerindo que devia haver políticas bem claras que promovam o fomento da formação dos agricultores e criar interesse para entrarem na produção de escala.

“A ideia de termos 10 mil agricultores a produzir no meio hectare significa que nunca vamos chegar ao ponto de ser competitivos e entrar no mundo da globalização. Temos que ter uma política que encoraja aqueles que são bons, aumentando o meio hectare para 20, 50, 100 hectares” e as mesmas pessoas “tenham acesso a tecnologias necessárias” para obter rendimento.

O raciocínio de Rui Afonso na esgota aí. Segundo explicou, dos 10 mil agricultores a produzir no meio hectare, talvez só mil terão capacidade de produzir nos termos desejados e precisarão de mão-de-obra. Esta “vem dos vizinhos e da comunidade à volta deles”. Por sua vez, esses mesmos vizinhos tornam-se assalariados e com o dinheiro ganho suprimem as suas necessidades e com o tempo “tornam-se um mercado” com uma agro-indústria local.

É PRECISO MODERNIZAR E NÃO EXISTE OUTRA OPÇÃO

Roberto Albino, director-geral da Agência do Vale do Zambeze, disse que a agricultura é prioridade para a instituição que dirige. A agência actua na área de desenvolvimento de competências técnico-profissionais, alargamento da base produtiva, capacitando, sobretudo, o sector privado e os pequenos produtores.

Como que dizer que o país não pode continuar a usar técnicas rudimentares no sector da agro-indústria, se almeja ter um desenvolvimento local sustentável, Roberto Albino afirmou que “nós não podemos continuar a caçar com fisga enquanto os vizinhos estão a usar mísseis. Temos que modernizar, não há outra opção”.

De acordo com o director-geral da Agência do Vale do Zambeze, outro trabalho desenvolvido consiste na aproximação entre produtores e consumidores, sempre tendo como meta a substituição de importações.

Ademais, é preciso desenvolver a industrialização a partir do local onde a produção acontece. “Se tenho que produzir arroz em Mopeia” para depois “processar em Nicoadala, quase 200 quilómetros” de um ponto para o outro, “só a logística de transporte da matéria torna o arroz não competitivo. Então, procuramos desenvolver a estratégia de agro-industrialização ao nível do sítio onde se produz a matéria-prima”, afirmou Roberto Albino.

Nesta óptica, “o distrito, em vez de exportar matéria-prima, começa a exportar produtos acabados” e, consequentemente, reduz custos de logística.

Relativamente à intervenção a ter na agro-indústria, Roberto Albino entende que o agricultor precisa desenvolver um espírito competitivo para poder produzir mais e melhor, a industrialização deve ser acompanhada de investimentos sérios, é necessário alargar o programa de investimentos e produção e há que implementar políticas consistentes capazes e atrair maior interesse pelo agro-negócio.

Kobus Botha, representante da Niassa Indústria Alimentar (NIA), disse que Niassa enfrenta problemas similares aos de outros pontos do país.

Para aumentar a produtividade de pequenos produtores é preciso haver financiamento, primeiro. Depois há que se criar rotas para os mercados de comercialização, disse Botha.

Especialistas em Nutrição alertam para perigos da má alimentação de crianças e mulheres grávidas, decorrentes de tabus criados pela sociedade. Os mesmos falavam durante o painel que tinha como tema desconstruindo tabus alimentares.

  

A desnutrição crónica em Moçambique manteve-se relativamente inalterada durante os últimos 15 anos. Níveis extremamente elevados de desnutrição crónica (43 por cento) em Moçambique afectam quase uma em cada duas crianças menores de 5 anos alerta a Unicef.

A contribuir para estes números estão os aspectos sociais-culturais, entre eles as desigualdades, educação e os tabus. Foi tendo em conta este último elemento que foi conduzido o painel Mozgrow com tema desconstruindo tabus alimentares.

Para o painel a pergunta de partida era simples. É tabu ou verdade?

A resposta, esta, chegou também simples e ajustada ao tipo de alimento para cada grupo etário, a começar pelas crianças.

“As crianças estão em fase de desenvolvimento e para isso elas precisam de proteína porque ela participa na formação dos músculos e tecidos, e ovo é um alimento que podemos aproveitar de forma integral”, disse Milakishe, estudante finalista de nutrição, esclarecendo depois que “tudo no ovo pode ser aproveitado, a gema, a clara e a casca que contém o mineral cálcio”.

Em relação ao impedimento de crianças para o consumo de arroz, feijão e milho, os nutricionistas deixaram uma garantia. “É tabu porque estes alimentos não constituem perigo para ocorrência de cólicas na criança porque todos eles são alimentos naturais e todos nutrientes por eles fornecidos, o nosso organismo necessita” clarificou o docente Aleixo Luciano.

As crianças tem nas mães a sua primeira fonte de alimento, mas por diversas razões elas tem dificuldade para produzir o leite, recorrendo ao consumo de pratos contendo amendoim para estimular a produção deste líquido.

Milakishe Boane disse que não há evidências específicas da ligação entre o consumo de alimentos contendo amendoim e a produção de leite, mas disse que o amendoim possui gorduras naturais benéficas ao organismo humano e bons para o bebé.

Acrescentando, Aleixo Luciano apontou que a produção de leite pode ser estimulada também com o consumo de outros alimentos, tais são os casos da castanha, sementes de abóbora e gergelim.

Além de contribuir para mortes infantis e para uma má saúde da criança, a desnutrição crónica tem um impacto prejudicial no aproveitamento escolar, na renda familiar e perpetua o ciclo de privação intergeracional.

 

O uso de tecnologias, aposta na educação de jovens e políticas de permitam o acesso fácil à terra são apontadas como soluções para o desenvolvimento da agricultura em África. O posicionamento foi defendido hoje pelo painel que discutiu o tema: “Agricultura como Vector para a Inclusão e Crescimento Sustentável”

Num contexto em que a mecanização da agricultura tem sido preocupação dos governos africanos, para aumentar a produção e a produtividade, Daisry Mathias, Conselheira do Presidente da Namíbia para assuntos da Juventude defendeu que além da tecnologia, os governos devem aproveitar o facto de terem uma população jovem cada vez mais esclarecida.

“Em termos de oportunidades, existem duas alternativas que podem ajudar a região: a primeira é, claro, a quarta revolução industrial, disrupção digital, a tecnologia que nos permite imprimir eficiência mesmo na agricultura; a segunda é o facto de que a nossa região ser a mais nova e é a que regista o mais rápido crescimento económico no continente, a média da nossa idade situa-se nos 19 anos; estamos a aumentar em termos de população educada e estamos cada vez mais a nos urbanizarmos e a abraçar a tecnologia; tudo isto constitui uma oportunidade em termos de acesso ao mercado e ao consumo, 34% da população da SADC está abaixo dos 35 anos e isto faz com que tenhamos um imperativo político e económico de garantir que todos os jovens sejam incluídos no desenvolvimento económico e participem nos programas de desenvolvimento da região”, descreveu Daisry.

O acesso à terra constitui um dos entraves para o desenvolvimento da agricultura em África. Para a conselheira do presidente namibiano, cabe a cada país criar políticas que facilitem o acesso a espaços de cultivo, principalmente para os jovens.

“Penso que uma das formas que os governos africanos têm para potenciar esta prática é reduzir as barreiras excessivas que existem no acesso à terra, pois o custo de acesso a esse activo é alto no nosso continente. Temos que permitir que os jovens empreenderes possam desenvolver as suas ideias, isso pode ser feito através de créditos agrícolas, através de modelos comunitários de agricultura, não precisamos de grandes extensões de terra, porque isso requere custos elevados” detalhou a oradora para depois avançar que os planos de expansão das cidades deve prever essas áreas de cultivo.

“Temos uma tendência imergente que é a agricultura urbana, através da qual temos produtos agrícolas frescos a serem produzidos nas cidades como forma de aumentar a segurança alimentar doméstica. Por isso, defendo que os programas de reassentamento devem ter em conta essa particularidade”.

Por seu turno, Sara Mbango-Bhunu, Directora Regional da África Austral do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura defendeu a aposta, pelos países africanos, de um quadro legal que permita maior acesso a recursos financeiros à mulher para garantir sua inclusão efectiva no sector agrícola.

“Precisamos ter modelos, mulheres que sejam modelos na gestão de Pequenas e Médias Empresas. A transformação do género começa na família, as mulheres têm de ter capacidade e dinâmica de controlar os activos e tomar decisões. Penso que a adopção de uma abordagem múltipla é muito importante. A segunda área importante é o acesso ao capital, muitas mulheres não têm activos, e isso torna-se um grande desafio. No Quénia, por exemplo, recorre-se aos registos do seu telemóvel, e pelo movimento das transações que fazes tem-se uma ideia dos seus gastos, e isto traz confiança aos investidores que vêem capacidades nesta mulher que pretende iniciar-se no mundo dos negócios”, exemplificou para depois acrescentar que:

“Depois vêm os programas de mentoria. Este é um aspecto muito importante e não deve ser subestimado; ser empreendedor não é tarefa fácil, o individuo tem que ser capaz de gerir o pessoal, gerir bens, tem que ser capaz de interpretar o quadro legal em vigor, estas habilidades são muito importantes. Não basta dar formação vocacional à mulher, é preciso sim, formar a ela em matérias de gestão, liderança e confiança”.

Noutro desenvolvimento, a oradora disse ser importante potenciar a troca de experiências para que consigam ter mais ganhos na agricultura.

“Na minha instituição, nós apoiamos a partilha de conhecimentos e cooperação técnica sul-sul. Temos uma área que cuida desse aspecto, identificamos as áreas e fazemos a combinação. Por exemplo, temos estado a apoiar um intercâmbio entre a Etiópia e o Quénia, através do qual o governo Etíope está interessado em conhecer as políticas, os preços e todas as nuances à volta da agricultura no Quénia, que é uma referência nestas matérias. Temos também o exemplo  do Uganda e Quénia que também partilham informações, mas é importante realçar que este intercâmbio não se deve limitar só entre os países Africanos, deve ser extensivo a outros continentes”, terminou

 

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