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O País – A verdade como notícia

O Presidente do Conselho Executivo do Banco Nacional de Investimento reconhece ser difícil financiar directamente a agricultura familiar devido aos riscos de perda de dinheiro a ela associados. Tomás Matola diz que só através dos grandes produtores e a indústria de agro-processamento é que estes podem beneficiar das linhas de crédito disponibilizados pelo BNI.

A agricultura é um dos pilares para o desenvolvimento económico do país. Só para se ter uma ideia, 20% do Produto Interno Bruto de Moçambique provem da actividade agrícola.

Para continuar a desempenhar esse papel importante na economia, a agricultura precisa de um estímulo financeiro. Foi assim que no último painel do segundo dia da MOZGROW subordinado ao tema “Financiamento da Transformação de Agronegócios”, o Presidente do Conselho Executivo (PCE) do Banco Nacional de Investimento, BNI, partilhou a sua opinião sobre as linhas de crédito para este sector.

“O papel da banca de desenvolvimento tem que ser, essencialmente, encontrar soluções que sejam ajustadas ao perfil de risco e retorno do sector do agronegócio, nomeadamente: financiar e assistir todos os intervenientes da cadeia de valor, encontrar soluções que permitam uma redução do risco de crédito que é perseguido e determinado pelos bancos comerciais, o que acaba afectando o nível de acesso ao financiamento bancário por parte dos projectos do agronegócio”, enumerou Tomás Matola, Presidente do Conselho Executivo.

Num outro desenvolvimento, Tomás Matola diz que é preciso procurar, para cada um dos intervenientes da cadeia, ver como financiar e como assisti-lo de modo que “não se quebre a cadeia. Que haja certeza de que cada interveniente na cadeia vai ter mercado e o banco ter a garantia de que ele vai conseguir gerir recursos para fazer face ao financiamento”.

Segundo PCE do Banco Nacional do Investimento, o acesso ao crédito bancário tradicional pelo sector agrícola no país é insignificante porque grande parte da população, cerca de 90%, ainda dedica-se à agricultura familiar, na qual o risco de perda de dinheiro é muito alto.

“A agricultura familiar, não mecanizada, que utiliza pouca semente certificada, o nível de produtividade é baixa e, consequentemente, o rendimento é baixo, o que eleva o risco de crédito”, constatou Tomás Matola, acrescentando que a outra fonte de risco é, depois da produção, não haver integração dos vários intervenientes da cadeia porque, “mesmo lhe financiando e produzindo, não havendo certeza de que vai colocar o produto, isso eleva o risco de negócio. A Terceira fonte tem a ver com a incapacidade dos produtores familiares de estruturação dos próprios projectos e, na ausência dessa capacidade, limita o seu acesso ao financiamento”.

E já na chamada agricultura mecanizada, mais do que financiar o processo de produção, o PCE do Banco Nacional de Investimento defende ser necessário custear toda a cadeia de valor até ao escoamento dos produtos.

“Se o investimento for apenas na produção, vamos ter o problema de super produção, mas se o investimento for, também, na integração dos outros intervenientes da cadeia de valor, refiro-me à produção, agro-processamento, distribuição, aí nós conseguimos mitigar esse risco ( de super produção)”, explicou PCE do Banco Nacional de Investimento.

Outro aspecto que Tomás Matola não deixou de lado é a questão das infra-estruturas. “Se continuarmos com dificuldades de acesso para chegar a alguns pontos de produção, aí o risco vai prevalecer. Significa que esses investimentos para a agricultura devem incorporar essa componente para financiar e assistir toda a cadeia”, observou Tomás Matola.

Por outro lado, Matola sublinha que é objectivo do executivo apoiar a agricultura familiar, através das várias linhas de financiamento, entretanto, considera ser difícil que tal investimento seja feito directamente aos produtores.

“O que nós fazemos é financiar os grandes produtores dos centros de produção e a indústria de agro-processamento a taxas de juro mais baixas e mais acessíveis, sob a condição de eles integrarem os produtores familiares, o que significa que os produtores familiares vão ter acesso a esse financiamento de forma indirecta”, esclareceu PCE do Banco Nacional de Investimento.

Assim, segundo Tomás Matola, os integradores vão distribuir insumos de produção, incluindo a própria tecnologia, os equipamentos sob forma de crédito “com a garantia de que, uma vez feita a produção, eles vão tomá-la. Aqueles produtores familiares vão ter acesso à tecnologia, insumos, equipamentos, assistência e vão produzir. Essa vai ser sua maior preocupação, produzir porque já têm mercado”.

É ambição do Banco Nacional de Investimento cobrir o mercado nacional e, num future próximo, expandir suas linhas de crédito para a regiões austral de África.

Segundo entendem os académicos que esta terça-feira debateram o tema Conhecimento e inovação como catalisador da transformação no agronegócio, na segunda edição da MOZGROW, é urgente que o Estado e o sector privado invistam na pesquisa com financiamento direcionado às instituições agrárias.

 

Em primeiro lugar, todos os convidados ao debate desta tarde, inserido na segunda edição da MOZGROW, foram unânimes ao assumir que a quantidade de tecnologia gerada no país é fraca. A razão é simples, há pouquíssimo investimento financeiro na investigação destinada ao sector agrário, quer por parte do Estado, quer por parte do sector privado. Logo Moçambique terá sempre dificuldades de fazer do conhecimento e da inovação catalisadores da transformação do agronegócio enquanto a pesquisa não for fomentada.

Segundo entende Rogério Chilulele, Director-Adjunto para Investigação na UNEM, as universidades estão a desempenhar o seu papel no processo de desenvolvimento do agronegócio, entretanto não nos níveis ideais. Por isso, Chilulele defendeu a necessidade de se envidar esforços para investigação, porque a área da agricultura é muito dinâmica. “É preciso que a pesquisa aconteça para responder à dinâmica agrícola”.

Na sua abordagem, o Director-Adjunto para Investigação na UNEM lembrou que uma boa parte do orçamento destinado à investigação no país é resultado de doações de entidades estrangeiras, o que em si é uma prova do fraco envolvimento do sector privado. De acordo com o Director-Adjunto para Investigação na UNEM há aqui um problema, até porque esses tais financiamentos externos são de curta duração, quando o conveniente seria uma aposta a longo prazo.

Ao mesmo tempo que o país necessita de financiamento à pesquisa, acrescentou o Director-Adjunto para Investigação na UNEM, precisa também de infra-estruturas para essa mesma investigação. E reforçou: “Precisamos de recursos para gerar tecnologias”.

No mesmo painel, no segundo dia da MOZGROW, esteve o Formador do Instituto Agrário de Boane, localizado no distrito com o mesmo nome, na província de Maputo. Na percepção de Rafael Alberto, as várias transformações que estão a ocorrer no mundo contemporâneo atingem a agricultura diariamente. Por isso mesmo, investir e partilhar conhecimentos com estudantes do sector agrário deve ser uma aposta permanente. “Mediante os programas actuais, conciliamos a partilha de conhecimento para que eles, os jovens, sejam fazedores da agricultura, percebendo os problemas locais com capacidade de desenvolver iniciativas próprias” adequadas. A seguir, o Formador do Instituto Agrário de Boane enalteceu que Moçambique deve ter a cultura de investigação desde as classes iniciais, continuada nos níveis seguintes. “Temos de ter iniciativa de investigar, porque, assim, a questão financeira até pode ser ultrapassada. Aliar a questão financeira à cultura de investigação é fundamental. Para aumentar a produção e produtividade. Para o efeito, é preciso conhecimento. Temos de adequar a tecnologia local ou importada a uma realidade concreta”.

Representando a Universidade Zambeze, esteve Tamara Sande, Directora da Faculdade de Ciências Agrárias. A académica começou por lembrar que as instituições do ensino superior tendencialmente versam sobre actividades que assentam em três pilares: a lecionação, a pesquisa e a extensão. Há sempre necessidade de desenvolver esses pilares, para que os estudantes saibam actuar nas áreas de pesquisa. O Papel do ensino superior não se limita na transmissão de conhecimentos, lembrou Sande, mas também na promoção de transferência de tecnologias. Logo, num contexto em que falta financiamento, o mínimo que se pode fazer é: “Devemos melhorar a coordenação das instituições que lidam com o sector agrário”. Não obstante, defendeu Tamara Sande: “É de extrema importância a necessidade de sermos nós a desenvolver as tecnologias e as novas abordagens na agricultura. Penso que as instituições vocacionadas à investigação devem estar melhor organizadas, com disponibilidade de instalações, recursos humanos qualificados e financiamento permanente. É importante que tenhamos clareza do que são os objectivos da investigação, considerando também o conhecimento empírico”.

Por fim, interveio Leonid Moisés, Director da Faculdade de Ciências Agrárias da UniLúrio. O académico mostrou-se a favor da pesquisa e da necessidade de as instituições agrárias contarem com financiamento do Estado e do sector privado, mas defendeu, igualmente, que as universidades devem se especializar, ao invés de todas fazerem tudo e a mesma coisa. “Cada universidade deve se concentrar em cada questão, respeitando todas as longas etapas do desenvolvimento tecnológico com inovações. O Estado tem que ter uma política. Temos de nos posicionar em relação ao que queremos em termos de políticas de pesquisa e definir em que aspecto o sector privado pode nos apoiar. O sector privado e as empresas devem se associar às universidades de modo que as tecnologias e a investigação possam favorecer o agronegócio”.

Na opinião do Director da Faculdade de Ciências Agrárias da UniLúrio, as universidades devem gerar conhecimento, tendo o Estado como regulador e como mobilizador de fundos. “As universidades devem trabalhar com outras instituições”.

Já a terminar a sua intervenção num debate moderado pelo jornalista António Tiua, e que durou 90 minutos, Leonid Moisés disse ainda que os políticos têm dificuldades de se aproximar às universidades. “As instituições de ensino devem ter o que dizer para que os políticos possam fazer a sua parte. Sinto que devemos melhorar nesse aspecto”.

“Conhecimento e inovação como catalisador da transformação no agronegócio” foi um dos temas de debate neste segundo dia da MOZGROW.

Os administradores de Magude e Vanduzi, nas províncias de Maputo e Manica, respectivamente, falaram das potencialidades e dos desafios locais na área do agro-negócio. Destacaram a necessidade de mais investimento na extensão agro-pecuária, esta terça-feira, no painel que discutiu sobre “Desenvolvimento local do agro-negócio”, no segundo dia da segunda edição da MOZGROW.

Magude por exemplo tem enorme potencialidade na criação e comercialização do gado bovino. Lázaro Mbambamba, administrador do distrito, indicou que deve haver mais assistência aos criadores de gado bovino de modo que a carne produzida tenha qualidade desejável.

O Governo projecta alargar a rede de extensionistas e Magude espera incrementar a qualidade que deseja e promover ainda mais a potencialidade do distrito, com eventos como o festival da carne que já organizou por quatro vezes.

Para Mbambamba, o festival da carne é uma marca, uma vez que “prova a dimensão e capacidade que Magude tem” de se comparar com “gigantes” na criação e comercialização bovina, como a África do Sul e Eswatine.

Vanduzi, em Manica, é também outro ponto do país com potencialidades para ampliar o agro-negócio.

O distrito tem registado considerável produção agrícola, mas o administrador, João Amade, considera haver um trabalho que urge realizar: “contínua assistência aos agricultores”, uma vez que a actual rede de extensionistas não permite tal desiderato, pelo número dos que participam na produção agrícola ser vasto.

Assim, os dois administradores foram unânimes que o alargamento da rede de extensionistas que se pretende – com a contratação de mais técnicos – vai dinamizar as potencialidades que seus distritos apresentam.

Os “Desafios da comercialização agrícola”. Os oradores de um dos painéis da segunda edição da MOZGROW apresentaram as lacunas e soluções de um sector cujas potencialidades estão à vista.

Para dar soluções, segundo Horácio Fernando, representante do Centro de Agregação e Valorização Agrária, “é preciso regular o mercado agrícola para evitar o excesso de mercadorias”.

De Portugal, chega a experiência do Clube de Produtores Continente. São 20 anos no mercado de comercialização agrícola, com aposta em parcerias estratégicas que garantem a retirada dos produtos da machamba até ao mercado.

Segundo Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente, a organização é fundamental para o desenvolvimento de toda cadeia agrícola.

Como replicar a experiência lusa no mercado moçambicano? O representante do Centro de Agregação e Valorização Agrária, Horácio Fernando, entende que ainda há muito por fazer.

Carlos Mucatchua é produtor e diz que o grande problema da comercialização agrícola em Moçambique prende-se na falta de organização dos mercados.

“Há produção, mas as falhas na comercialização comprometem o rendimento do produtor”, apontou Mucatchua.

Os desafios do sector transcendem a outros níveis. Os oradores defendem pacotes financeiros mais flexíveis, por forma a incrementar os níveis de produção agrícola.

Os painelistas terminam defendendo que o valor praticado no mercado na compra dos produtos dos agricultores é muito baixo quando comparado com os custos operacionais.

No tema “Ecossistema para o desenvolvimento do agro-negócio”, no segundo dia da plataforma MOZGROW, defendeu-se a necessidade de a cadeia de valor do agro-negócio ser sustentável. Contudo, a dificuldade de financiamento foi uma das questões consideradas condicionantes o sector agrário no país.

O responsável pela Banca Agrícola no Absa Bank, Marcelino Botão, disse que o ecossistema no agro-negócio permite criar um crescimento sustentável e contribuir para o desenvolvimento do país.

Falando no painel que discutiu o “Ecossistema para o desenvolvimento do agro-negócio”, Marcelino Botão defendeu que é preciso que a banca conheça o ecossistema e os respectivos mecanismos de negócio.

Sobre a inclusão financeira, a fonte disse que maior parte da cadeia do agro-negócio é constituído por pequenas e médias empresas que ainda enfrentam desafios. E olhando especificamente para os grandes desafios, tanto para banco como para os potenciais mutuários no agro-negócio há questões a serem avaliadas durante a solicitação do financiamento.

Uma dessas questões consiste em perceber, por exemplo, o tipo de cadeia de valor envolvidas para o financiamento. As cadeias de valor são diferentes e há os que estão completos. Outras com fraco desenvolvimento e outras ainda desintegradas. Das empresas com este tipo de cadeia de valor, algumas podem representar risco, segundo explicou a Marcelino Botão.

Aliás, se as cadeias de frangos estão constituídas e funcionam, pese embora enfrentem alguns problemas como legalização e mercado ilegal, há, segundo Botão, cadeias de valor como as do algodão que no certo momento no passado funcionaram plenamente. Contudo, de há tempos esta parte não apresentam um ambiente saudável.

Ao analisar a cadeia de valor, o Absa Bank toma em consideração aspectos como a produtividade, tecnologia, eficiência, entre outros para medir o financiamento a desembolsar. A este respeito, Botão entende que é preciso encontrar modelos de produção eficientes e consistentes para atrair financiamento dos bancos.

O Absa Bank tem apostado no financiamento ao sector do agro-negócio mas não basta, daí que, além de conceder crédito, “dá assistência aos produtos independentemente do seu nível de produção”.

Para Telma Comé, representante da Agência Para a Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), o sector agrário é de alto risco e a dificuldade de acesso ao financiamento condiciona a capacidade de produção e exportação. Em relação à “inclusão financeira” esta “é determinante para o desenvolvimento do agro-negócio”.

A PIEX é uma entidade do Estado tutelada pelo Ministério da Indústria e Comércio. Telma Comé referiu que o Agro-negócio depende, por exemplo da oferta de produtos. Além de considerar o sector agrário de alto risco e o acesso ao financiamento ser difícil, o que dificulta o desenvolvimento deste sector, a painelista apontou ainda o facto de este sector agrário depender das condições climáticas.

Segundo ela, deve haver políticas para colmatar estes problemas. A questão do para acesso os mercados internacionais também carece de melhorias, nas medida em que exige-se o cumprimento de requisitos pelas empresas. Esses requisitos, algumas firmas não reúnem.

Telma Comé falou ainda do analfabetismo nos agricultores, o que dificulta a elaboração de projectos para financiamento quando solicitados pelos bancos para efeitos de financiamento.

Entretanto, O Governo está adoptar políticas para estimular o sector agrário, entre elas o projecto Sustenta.

O antigo Ministro brasileiro da Agricultura, Roberto Rodrigues, levou à Segunda Edição da Mozgrow, as experiências do seu país, na transformação da produção familiar. Um dos exemplos que destacou é a introdução de uma política específica para este sector.

“Nós obtivemos esse grande crescimento por três razões internas e uma externa. A externa foi o crescimento do mercado, sobretudo nos países emergentes, como os países asiáticos todos, liderados pela China, o continente africano, Médio Oriente e países árabes, assim como os países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América e União Europeia, assim, o crescimento da demanda foi factor determinante para a nossa condição de aumentar a produção” explicou sobre a causa externa.

Sobre os factores internos, o ex-ministro apontou “a tecnologia, a disponibilidade de terra e e a capacidade técnica da juventude de estar no campo” explicou.

O sector familiar contribui com uma considerável quota naquilo que é o desenvolvimento agrário brasileiro. Segundo o antigo governante, trata-se de um passo que atingiu, graças a políticas concretas para este segmento.

“A política para o sector familiar foi muito importante em relação ao crédito e recebeu bem mais subsídios do que o sector não familiar e isso fez com que a renda crescesse nesse segmento” disse.

Por outro lado, Rodrigues destaca a importância do subsídio e do seguro agrário, como fundamentais para dar sustentabilidade aos pequenos produtores.

O director-executivo da Casa do Agricultor considera que Moçambique não está a tirar vantagem da sua excelente localização geográfica para ser um dos maiores distribuidores de insumos agrícolas da região austral de África. Para conquistar tal posição, Rui Brandão defende a criação de redes de distribuição de insumos.

Foi em torno do tema “Desafios do Mercado de Distribuição de Insumos” que o director executivo da Casa do Agricultor, Rui Brandão, partilhou, durante cerca de 30 minutos, o seu pensamento sobre a partilha de insumos, um dos principais elementos para o desenvolvimento e sucesso agrícola.

Brandão começou por apontar a localização geográfica de Moçambique como um dos factores que tornaria o país, no maior distribuidor de insumos na região austral de África, mas que tal não é devidamente explorado.

“Nós devíamos importar um contentor de tratores, fertilizantes, agro-químicos concentrar aquilo tudo e depois dividir. Um camião de trator para Malawi, o outro para Zimbabwe e também ficar em Moçambique. Esse é, para mim, o principal factor de sucesso que nós não estamos a aproveitar”, indicou Rui Brandão, director-executivo da Casa do Agricultor.

Para aproveitar esse factor, que considera ser de sucesso, o director executivo da Casa do Agricultor defende o desenvolvimento de redes de distribuição de insumos agrícolas.

“Para conquistarmos esta posição, não temos dimensão, não temos escala para competir. Eu estou convencido que, quando chega um navio de 40 mil toneladas de fertilizantes, se calhar ficam três mil em Moçambique. Quem manda é quem tem o poder para comprar os outros 37 mil. Temos que inverter isso”, disse o director-executivo da Casa do Agricultor, num tom de indignação, exemplificando com o jogo de futebol que tem 90 minutos e que “nós ainda não chegámos a primeira parte”.

No contexto doméstico, em que os produtores estão, geograficamente, dispersos e faltam vias de acesso. Rui Brandão defende que a distribuição de insumos deveria ser subsidiada para garantir que estes cheguem aos locais mais recônditos.

“Não me choca que, em determinado momento, havendo uma estratégia de rentabilidade a longo prazo, que essa logística seja subsidiada, não me choca”, sublinhou Rui Brandão, acrescentando que “para já é preciso subsidiar os agricultores numa determinada zona porque as vias de acesso não são boas, mas há um plano para elas melhorarem durante esse período, não me choca. É uma medida, mas eu não sou político”.

A aposta na tecnologia, numa legislação que padronize a qualidade dos insumos e a capacitação dos produtores são alguns dos caminhos propostos pelo director executivo da Casa do Agricultor para que a agricultura no país esteja nos níveis desejados. Contudo, Rui Brandão não descarta os factores naturais que considera serem, igualmente, determinantes para uma boa produção agrícola.

 

Marcelino Botão, responsável pela banca agrícola no banco Absa, comentou ao “O País” as principais apostas em serviços e produtos financeiros oferecidos pela instituição a que está afecta, para impulsionar o crescimento do agro-negócio.

Não se faz negócio individualmente e com o sector agrícola não é diferente. Por isso, o Absa oferece soluções de crédito de forma integrada com base na rede de relações de uma empresa que seja cliente do banco.

“A ideia é criar capacidade financeira para o bloco inteiro, gerar produção e a renda que faça com o que negócio tenha sustentabilidade”, segundo explicou Marcelino Botão.

Para o entrevistado, é importante a bancar tomar em consideração todos os aspectos inerentes ao agro-negócio, ao se pensar em soluções financeiras para o sector, com destaque para a sazonalidade da produção.

“A nossa visão do agro-negócio é que a maior parte das actividades são sazonais. Então, os produtos financeiros que nos propomos para cada cliente têm em conta essa sazonalidade”, detalhou o interlocutor do “O País”.

Isto quer dizer que quando o cliente se aproxima ao banco, este faz um estudo do seu negócio para determinar em quais épocas o mesmo cliente terá a possibilidade de cumprir com o serviço da dívida.

Dentro do seu desiderato de impulsionar o crescimento do agro-negócio, o Absa firmou um acordo com a John Deer, fabricante e distribuidor de equipamentos agrícolas, de modo a fomentar a agricultura mecanizada.

Através dessa parceria, o banco torna possível aos agricultores adquirirem equipamentos com financiamento e descontos na taxa de juro, dependendo da percentagem de comparticipação. Ou seja, se o cliente comparticipa com 10% na compra do equipamento, tem direito a um desconto de 1% na taxa de juro, explicou Marcelino.

Sendo o Absa parceiro da segunda edição da MOZGROW, o líder da banca agrícola disse considerar esta plataforma um meio para “fomentar” a relação que existe com os produtores e parceiros estratégicos.

Marcelino concluiu a sua intervenção lançando um desafio para que as pequenas e médias empresas entrem com agressividade neste mercado, apelando, em especial, aos jovens e mulheres adultas.

A empresa moçambicana Ecofarm e a angolana Biocom entendem que potenciar as comunidades que vivem arredor das indústrias pode ser um dos melhores caminhos para o agronegócio e a transformação económica em África. As duas firmas produzem açúcar

Num dos painéis da segunda edição da MOZGROW, duas empresas que produzem açúcar falaram de suas experiências e a relação com o agronegócio e a transformação económica em África. Trata-se da angolana Biocom e a empresa moçambicana Ecofarm.

“Hoje a Biocom tem cerca de 26 mil hectares de cana plantada para a colheita. E a capacidade da Biocom é além dessa. As comunidades estão sendo mobilizadas para formar cooperativas”, disse Gerry Gombo, representante da firma localizada em Malanje, Angola, e que há cinco anos se ocupa na produção do açúcar convencional.

Gombo afirmou que a firma de que faz parte tem dedicado sua atenção ao diverso apoio às comunidades circunvizinhas onde a indústria se encontra, de modo a que tenham participação, ainda que de forma indirecta, no processo de produção do açúcar. O representante citou, por exemplo, a mobilização que está em curso de modo a dotar as famílias próximas da Biocom de capacidade técnica na produção da cana.

“Elas (as comunidades) terão todo apoio técnico de consultores para que possam produzir cana na qualidade que se espera, para que a Biocom possa comprar essa cana e, assim, puder além de valorizar a região e os agricultores, também gerar renda e emprego”, explicou.

Já a nível endógeno, a Ecofarm representada por Albano Leite destacou o potencial do país ao nível da produção do açúcar, ao lembrar a predominância no vale do Zambeze desde 1860, quando o produtor britânico Piter Hornung foi se estabelecer em Sena, depois em Mopeia, Luabo e Marromeu, respectivamente.

Entretanto, longe da história e em meio aos desafios actuais, para uma fórmula que permita eficaz o agronegócio e a consequente transformação económica, a Ecofarm fala de um desafio: “tornar a comunidade realmente parceira do projecto do nosso açúcar”, envolvendo-a em todos os níveis.

Uma vez que a Ecofarm também aglutina actividade pecuária, a empresa acredita que tornando parceria a comunidade, na produção da cana, bem como na produção do estrume (para o melhoramento genético de gado bovino), haverá eficácia para a transformação económica que se almeja com base no agronegócio.

De um modo geral, para o propósito da potenciação do sector do agronegócio no país, os dois painelistas expressaram que plataformas como a MOZGROW são necessárias.

“Vamos continuar a capacitar os nossos trabalhadores, buscar cada vez mais empregar qualidade nos resultados, e ter esse momento como o que a MOZGROW está a oferecer de troca de experiências e entender que existe um propósito colectivo que e de África”, disse Gerry Gombo.

De referir que a empresa Biocom é uma das maiores em Angola e produz açúcar e energia na base da biomassa. Já a moçambicana Ecofarm produz açúcar orgânico e tem na Europa o maior mercado.

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