O País – A verdade como notícia

O director-executivo da Casa do Agricultor considera que Moçambique não está a tirar vantagem da sua excelente localização geográfica para ser um dos maiores distribuidores de insumos agrícolas da região austral de África. Para conquistar tal posição, Rui Brandão defende a criação de redes de distribuição de insumos.

Foi em torno do tema “Desafios do Mercado de Distribuição de Insumos” que o director executivo da Casa do Agricultor, Rui Brandão, partilhou, durante cerca de 30 minutos, o seu pensamento sobre a partilha de insumos, um dos principais elementos para o desenvolvimento e sucesso agrícola.

Brandão começou por apontar a localização geográfica de Moçambique como um dos factores que tornaria o país, no maior distribuidor de insumos na região austral de África, mas que tal não é devidamente explorado.

“Nós devíamos importar um contentor de tratores, fertilizantes, agro-químicos concentrar aquilo tudo e depois dividir. Um camião de trator para Malawi, o outro para Zimbabwe e também ficar em Moçambique. Esse é, para mim, o principal factor de sucesso que nós não estamos a aproveitar”, indicou Rui Brandão, director-executivo da Casa do Agricultor.

Para aproveitar esse factor, que considera ser de sucesso, o director executivo da Casa do Agricultor defende o desenvolvimento de redes de distribuição de insumos agrícolas.

“Para conquistarmos esta posição, não temos dimensão, não temos escala para competir. Eu estou convencido que, quando chega um navio de 40 mil toneladas de fertilizantes, se calhar ficam três mil em Moçambique. Quem manda é quem tem o poder para comprar os outros 37 mil. Temos que inverter isso”, disse o director-executivo da Casa do Agricultor, num tom de indignação, exemplificando com o jogo de futebol que tem 90 minutos e que “nós ainda não chegámos a primeira parte”.

No contexto doméstico, em que os produtores estão, geograficamente, dispersos e faltam vias de acesso. Rui Brandão defende que a distribuição de insumos deveria ser subsidiada para garantir que estes cheguem aos locais mais recônditos.

“Não me choca que, em determinado momento, havendo uma estratégia de rentabilidade a longo prazo, que essa logística seja subsidiada, não me choca”, sublinhou Rui Brandão, acrescentando que “para já é preciso subsidiar os agricultores numa determinada zona porque as vias de acesso não são boas, mas há um plano para elas melhorarem durante esse período, não me choca. É uma medida, mas eu não sou político”.

A aposta na tecnologia, numa legislação que padronize a qualidade dos insumos e a capacitação dos produtores são alguns dos caminhos propostos pelo director executivo da Casa do Agricultor para que a agricultura no país esteja nos níveis desejados. Contudo, Rui Brandão não descarta os factores naturais que considera serem, igualmente, determinantes para uma boa produção agrícola.

 

Marcelino Botão, responsável pela banca agrícola no banco Absa, comentou ao “O País” as principais apostas em serviços e produtos financeiros oferecidos pela instituição a que está afecta, para impulsionar o crescimento do agro-negócio.

Não se faz negócio individualmente e com o sector agrícola não é diferente. Por isso, o Absa oferece soluções de crédito de forma integrada com base na rede de relações de uma empresa que seja cliente do banco.

“A ideia é criar capacidade financeira para o bloco inteiro, gerar produção e a renda que faça com o que negócio tenha sustentabilidade”, segundo explicou Marcelino Botão.

Para o entrevistado, é importante a bancar tomar em consideração todos os aspectos inerentes ao agro-negócio, ao se pensar em soluções financeiras para o sector, com destaque para a sazonalidade da produção.

“A nossa visão do agro-negócio é que a maior parte das actividades são sazonais. Então, os produtos financeiros que nos propomos para cada cliente têm em conta essa sazonalidade”, detalhou o interlocutor do “O País”.

Isto quer dizer que quando o cliente se aproxima ao banco, este faz um estudo do seu negócio para determinar em quais épocas o mesmo cliente terá a possibilidade de cumprir com o serviço da dívida.

Dentro do seu desiderato de impulsionar o crescimento do agro-negócio, o Absa firmou um acordo com a John Deer, fabricante e distribuidor de equipamentos agrícolas, de modo a fomentar a agricultura mecanizada.

Através dessa parceria, o banco torna possível aos agricultores adquirirem equipamentos com financiamento e descontos na taxa de juro, dependendo da percentagem de comparticipação. Ou seja, se o cliente comparticipa com 10% na compra do equipamento, tem direito a um desconto de 1% na taxa de juro, explicou Marcelino.

Sendo o Absa parceiro da segunda edição da MOZGROW, o líder da banca agrícola disse considerar esta plataforma um meio para “fomentar” a relação que existe com os produtores e parceiros estratégicos.

Marcelino concluiu a sua intervenção lançando um desafio para que as pequenas e médias empresas entrem com agressividade neste mercado, apelando, em especial, aos jovens e mulheres adultas.

A empresa moçambicana Ecofarm e a angolana Biocom entendem que potenciar as comunidades que vivem arredor das indústrias pode ser um dos melhores caminhos para o agronegócio e a transformação económica em África. As duas firmas produzem açúcar

Num dos painéis da segunda edição da MOZGROW, duas empresas que produzem açúcar falaram de suas experiências e a relação com o agronegócio e a transformação económica em África. Trata-se da angolana Biocom e a empresa moçambicana Ecofarm.

“Hoje a Biocom tem cerca de 26 mil hectares de cana plantada para a colheita. E a capacidade da Biocom é além dessa. As comunidades estão sendo mobilizadas para formar cooperativas”, disse Gerry Gombo, representante da firma localizada em Malanje, Angola, e que há cinco anos se ocupa na produção do açúcar convencional.

Gombo afirmou que a firma de que faz parte tem dedicado sua atenção ao diverso apoio às comunidades circunvizinhas onde a indústria se encontra, de modo a que tenham participação, ainda que de forma indirecta, no processo de produção do açúcar. O representante citou, por exemplo, a mobilização que está em curso de modo a dotar as famílias próximas da Biocom de capacidade técnica na produção da cana.

“Elas (as comunidades) terão todo apoio técnico de consultores para que possam produzir cana na qualidade que se espera, para que a Biocom possa comprar essa cana e, assim, puder além de valorizar a região e os agricultores, também gerar renda e emprego”, explicou.

Já a nível endógeno, a Ecofarm representada por Albano Leite destacou o potencial do país ao nível da produção do açúcar, ao lembrar a predominância no vale do Zambeze desde 1860, quando o produtor britânico Piter Hornung foi se estabelecer em Sena, depois em Mopeia, Luabo e Marromeu, respectivamente.

Entretanto, longe da história e em meio aos desafios actuais, para uma fórmula que permita eficaz o agronegócio e a consequente transformação económica, a Ecofarm fala de um desafio: “tornar a comunidade realmente parceira do projecto do nosso açúcar”, envolvendo-a em todos os níveis.

Uma vez que a Ecofarm também aglutina actividade pecuária, a empresa acredita que tornando parceria a comunidade, na produção da cana, bem como na produção do estrume (para o melhoramento genético de gado bovino), haverá eficácia para a transformação económica que se almeja com base no agronegócio.

De um modo geral, para o propósito da potenciação do sector do agronegócio no país, os dois painelistas expressaram que plataformas como a MOZGROW são necessárias.

“Vamos continuar a capacitar os nossos trabalhadores, buscar cada vez mais empregar qualidade nos resultados, e ter esse momento como o que a MOZGROW está a oferecer de troca de experiências e entender que existe um propósito colectivo que e de África”, disse Gerry Gombo.

De referir que a empresa Biocom é uma das maiores em Angola e produz açúcar e energia na base da biomassa. Já a moçambicana Ecofarm produz açúcar orgânico e tem na Europa o maior mercado.

O posicionamento foi deixado hoje pelo painel que discutiu o tema “Fome Oculta”, um problema evitável e que se negligenciado pode causar problemas de saúde graves.

 

Descrita como sendo a redução gradual de micronutrientes no organismo resultante do consumo insuficiente de alimentos ou falta de uma alimentação diversificada, a fome oculta, apesar de silenciosa, pode levar a complicações de saúde como explicou a nutricionista, Kátia Mangujo, do Ministério da Saúde.

“É muito difícil identificar que o indivíduo ou paciente tem problemas de micronutrientes, só no estado mais grave é que aparecem sintomatologias como manchas resultantes da pelagra, uma doença resultante da deficiência da Vitamina B3. O indivíduo pode apresentar ainda osteoporose que é uma doença metabólica do esqueleto na qual os ossos perdem a rigidez, tornando-se porosos causada pela deficiência do cálcio, mas isso só em casos em que as reservas do indivíduo ficaram esgotadas”, disse a profissional para depois falar da necessidade de todos fazerem exames regulares de saúde.

“Um exame detalhado pode descobrir essas situações, por isso, recomendamos que os indivíduos possam fazer exames detalhados de saúde duas vezes ao ano para aferir o funcionamento do seu organismo. Ademais, é importante ter uma alimentação saudável, equilibrada e que incorpore bastante frutas e verduras que é onde esses micronutrientes podem ser encontrados”, detalhou a profissional.

Todas as pessoas estão susceptíveis de ter fome oculta “mas há grupos mais vulneráveis, pois a manifestação dessa fome oculta pode resultar em morte. Falamos de mulheres grávidas e crianças com idades compreendidas dos zero aos cinco anos de idade”, terminou.

E por reconhecer a gravidade da situação da desnutrição crónica no país, em 2016 o Governo tornou obrigatória a fortificação de alguns produtos.

“O que temos que ter consciência é que alimentar-se não significa apenas ingerir alimentos, temos que ter conhecimento do valor nutricional desses alimentos que estamos a ingerir. Por isso que a fortificação aparece como uma estratégia para reduzir essas situações de desnutrição. Esse processo de fortificação depende de país para país. Em Moçambique temos doenças associadas a deficiência do iodo, por isso obrigamos a adicção do iodo no sal, a adicção da vitamina A no óleo alimentar e no açúcar. Temos ainda a adicção do ferro, zinco, ácido fólico e vitamina B12 nas farinhas de milho e trigo. As indústrias têm trabalhado connosco como parceiras dessa iniciativa e elas adicionam esses aditivos nesses produtos”, Eduarda Mungoi do Programa de Fortificação de Alimentos no Ministério da Indústria e Comércio.

A oradora falou ainda dos critérios que ditaram a escolha desses produtos para a fortificação obrigatória pelas indústrias.

“Primeiro houve uma fase voluntária que chamamos de experimento, mas depois tornamos a medida obrigatória. Normalmente, em todo o mundo, esta questão de fortificação olha-se para os alimentos considerados básicos. E esses produtos são considerados básicos no nosso país e regra-geral as famílias usam esses produtos para confecionar as suas refeições”, terminou.

Por seu turno, Maria Andrade que trabalhou 20 anos com o melhoramento genético da batata-doce, o que lhe valeu um prémio em 2016 defendeu que aposta da batata de polpa alaranjada tem garrado benefícios nas comunidades.

“Quando iniciamos o nosso trabalho de melhoria da batata-doce, que iniciou em 1999, com introdução de variedades de fora, verificamos que 69 porcento de crianças com idade inferior a cinco anos tinham deficiência da vitamina A, hoje em dia, estamos em 64 porcento. Hoje em dia, a batata de polpa alaranjada ficou uma cultura que é utilizada em todos os trabalhos de nutrição, através das ONGs, o governo. Ficou como uma cultura de rendimento e vários outros países do continente africano foram beneficiados por esse trabalho de Moçambique. Essas variedades vão para vários países de África e da Ásia”, terminou.

Os administradores de Angónia, Paulo Sebastião, e de Angónia, Edson Lino, estimulam camponeses com formações e melhoramento do processo produtivo de modo que sejam capazes de produzir culturas com padrão internacional em todo o período do ano.

91% da população de Angónia, um dos distritos férteis da província de Tete,  vive da agricultura. A informação foi revelada esta tarde, pelo Administrador de Angónia, Paulo Sebastião. Na verdade, a percentagem apresentada representa, de facto, que a agricultura é a principal actividade de subsistência nas várias zonas rurais do território nacional. Por isso, disse o Administrador de Angónia, o distrito têm dado muita atenção ao sector agrícola. “Temos um centro de treinamento de tecnologias agrárias, onde as pessoas são orientadas, assistidas, porque percebemos que a população está a trabalhar muito, mas que não produz como pretende, com perdas na ordem de 30%”.

De acordo com o administrador Paulo Sebastião, no distrito de Angónia existem 140 mil famílias produtoras, que precisam de estímulo para que possam alcançar o tão almejado nível de produção internacional. Nesse sentido, os camponeses organizaram-se em associações, o que lhes tem permitido produzir quantidades de milho, feijão e soja suficiente para o consumo local e para comercialização nas cidades de Nampula, Beira e Maputo, portanto, chegam às três regiões do país.

De modo a garantir que (em Angónia) seja uma realidade a produção com padrões internacionais, 2041 produtores foram formados nos centros de tecnologia. A grande aposta do distrito é atingir uma produção de qualidade de sementes, minimizar as perdas de produção e resolver o problema de escoamento. Em Angónia produz-se em séries, em todo o período.

Paulo Sebastião entende que Angónia está a crescer, resultado da disseminação de técnicas de produção que os líderes das associações replicam nessas mesmas associações, depois de formados. Actualmente, aquele distrito do norte de Tete está a formar 37 jovens em matérias agrárias, onde eles aprendem a produzir em compostos orgânicos através de velhos compostos. “Pensamos, como Governo, que devíamos potenciar alguns jovens. Os 37 jovens fomos escolhendo ao nível das comunidades, com a excepção de uma que é mais populosa, dois em cada. Quando estes jovens voltarem às suas zonas de origem, levarão o conhecimento como um ganho, pois vão ensinar aos outros o que estão a aprender. Assim, acreditamos que os 140 mil agricultotres que o distrito tem passarão a ter uma assistência directa durante a sua actividade. O curso é de três meses e alguns dias, para todo o tipo de culturas com um campo de demonstração, que os permite aprender rápido e com eficiência”.

Do que o distrito de Angónia produz, 25% vai para o consumo e o resto para comercialização. Nisso, o problema é a existência daqueles que, ao invés de ajudar, boicotam a rentabilidades dos camponeses: “os intermediários é que fazem com o produtor não tenha o ganho traduzido no seu esforço”. Por isso, defendeu Paulo Sebastião, além de apoiar com treinamento, há necessidade de as ONG ajudarem os camponeses no estabelecimento de links”.

Criar condições para que os camponeses consigam atingir um nível de produção internacional também é do interesse do distrito de Balama, na província de Cabo Delgado. É por essa razão que, à imagem de Angónia, Balama está a trabalhar na componenete da semente. “Queremos que os nossos agricultores tenham semente certificada, de modo que no fim do ciclo de produção os níveis produtivos seja sempre crescente. Estamos a introduzir semente híbrida, para que a produtividade seja a alemejada, com os padrões de colheita por hectare vs. toneladas. É esta a nossa visão, como Governo, assistir o agricultor de modo a ter um rendimento maior. Só assim podemos fazer com que o agricultor seja competitivo. Em termos de técnicas de producao, nós temos estado a buscar experiências em outros mercados agrícolas, para demonstrar qual é a melhor cultura para ser produzida em cada época”, explicou Edson Lino, Administrador de Balama.

Para Lino, a solução agrícola está perto do camponês, do produtor “e é essa a visão que nós, como Governo, estamos a fazer: criar um ciclo de assistência ao camponês. Ao invés dele sair da localidade ao centro do distrito, criarmos condições dele ter facilitadores perto de si, para baixar o nível de perdas de produção. Por isso, de acordo com a experiência que estamos a ter, a próxima época será ainda melhor”.

Ao falar de competitividade, Edson Lino disse que o que se pretende é que Balama consiga fornecer a cebola com a mesma qualidade que aquela que vem da África do Sul, com todos os critérios de qualidade de produção asseguradas, desde a preparação do solo ao processamento. “Agora, o grande desafio é fornecer a cebola de qualidade o ano todo, daí que necessitamos melhorar os níveis de conservação”, afirmou Edson Lino, acrescentando: “o que temos de fazer é transformar a nossa maneira de fazer as coisas e a nossa maneira de processar, para que sejamos competitivos em relação aos produtos que vêm de fora”.

Outra questão que mereceu destaque do Administrador de Balama tem que ver com a satisfação do camponês, relacionada com os pagamentos, que, em muitos momentos, demoram a ser cedidos. Por exemplo, muitos camponeses estão a abandonar a cultura do algodão por preferirem gergelim. Nesta, a grande particularidade é que o pagamento é imediato. “Precisamos que o agicultor tenha os seus vencimentos sem demora, de modo que possa cuidar melhor da sua família”.

Os administradores de Balama, em Cabo Delgado, e de Angónia, em Tete, defenderam as suas posições no debate sobre “Desenvolvimento local do agronegócio”, na segunda edição da MOZGROW, este ano a acontecer no formato digital, com transmissão na Stv notícias, até sexta-feira.

Num painel a quatro e com o tema, “Transformar para competir”, a promoção do consumo nacional de carne foi a chave do debate da segunda edição da MOZGROW, que arrancou esta segunda-feira.

Os oradores defendem mais incentivos financeiros e fiscais para aumentar a produção e tornar a indústria de carnes mais competitiva. O gado e o frango produzidos em Moçambique são de alta qualidade.

Para o secretário-executivo da Associação da Indústria Avícola, Zeiss Lacerda, Moçambique reúne condições para ser auto-suficiente na produção do frango, apesar do Governo ter acordado uma quota anual de importação de três mil toneladas.

“Nós temos um compromisso que assumimos junto do Presidente da República em 2016, que até 2019 não faríamos importações. No ano passado, importamos na mesma, mas foi no final de Dezembro. Neste ano, as negociações que temos vindo a fazer com o Ministério da Indústria e Comércio ainda não houve nenhuma quota passada, e pelos vistos não haverá. O caminho é este…é parar com as importações e exportar”, apontou Zeiss Lacerda.

Entretanto, o secretário-executivo da Associação da Indústria Avícola indicou que o factor preço/qualidade é ainda um grande desafio para a indústria avícola no país.

“O nosso frango tem muita qualidade. O nosso frango é caro devido à escala e o custo das matérias-primas (milho e soja). Há os chamados ‘comerciantes de paraquedas’ que criam uma falsa escassez e disparam com os preços”.

Da avicultura à pecuária. Victor Filipe é criador de gado e apontou a informalidade e fraco financiamento como os principais problemas desta indústria.

“Moçambique é praticamente o único país onde a carne de vaca é mais barata que o frango. Ainda não há uma cultura de comer carne, isso porque a carne não tem também a qualidade que já consegue o frango moçambicano. Nós temos que ter incentivos para produção”, referiu Victor Filipe.

Participando via plataforma digital, Hélder Mabote, formador no Instituto Agrário de Marere, em Manica, defendeu a necessidade de diversificar as culturas agrícolas.

Já Mandela Cossa, da Empresa de Comercialização Agrícola (ECA) apontou três desafios para o desenvolvimento agronegócio em Moçambique, que compreendem a competitividade, questões socioeconómicas e ambientais.

Com vista a tornar a indústria de carnes mais competitiva em Moçambique, os oradores consideram ser necessário envolver toda cadeia produtiva.

Na abertura da segunda edição da MOZGROW, o Presidente do Conselho de administração (PCA) da Fundação SOICO (FUNDASO), Daniel David, disse que este projecto não se reduz apenas à agricultura e alimentação. É um programa abrangente, que vai da indústria ao consumidor final e induz desenvolvimento.

“MOZGROW é um programa amplo. Não é agricultura, não é alimentação. É mais abrangente que isso. Vai até a indústria, aos transportes, ao consumidor final e tudo aquilo que são infra-estruturas indutoras ao desenvolvimento”, afirmou Daniel David, partilhando painel com a representante e directora-geral do Programa Mundial de Alimentação (PMA) em Moçambique, Antonella D’Aprille.

O PCA da FUNDASO destacou o papel da comunicação na cadeia de valor da produção no país e considerou-a vital por ser através dela que se transmite o conhecimento entre os diferentes intervenientes dessa mesma cadeia.  Daniel David referia-se, especificamente, a uma série de reportagens sobre o MOZGROW que foram veiculadas na STV durante meses antes da concretização da presente edição desta plataforma que decorre até sexta-feira.

Num outro desenvolvimento, Daniel David disse que a actuação da instituição que dirige acompanha os momentos que o país vive, daí que, apesar da pandemia do novo Coronavírus, a MOZGROW não podia falhar este ano. “Nós temos que estar sempre à altura das mudanças que a sociedade nos coloca”.

Por sua vez, a directora-geral do PMA em Moçambique, Antonella D’Aprille, reconheceu que o número de pessoas que dormem sem comer cresce sempre.

A dirigente alertou que a situação pode agravar-se por causa da pandemia da COVID-19 e das mudanças climáticas, “mas o mundo pode produzir alimentos para todas as crianças, mulheres e homens”.

Segundo Antonella D’Aprille, o problema da fome no mundo não tem a ver com a produção, mas sim com o acesso aos alimentos. “Infelizmente, perdemos, em Moçambique, 30% da colheita devido a técnicas ultrapassadas” e falta de meios apropriados para conservar os alimentos.

Se houver um trabalho em conjunto para reduzir a perda de alimentos após a colheita, assegurar a protecção social e fortalecer o sistema de cadeia de valores de alimentos, o problema da fome pode ser minimizado, de acordo com a directora-geral do PMA em Moçambique.

A presidente da instituição de solidariedade em Portugal, ENTRAJUDA, Isabel Jonet, iniciou a sua intervenção, no painel de abertura da MOZGROW, enaltecendo o facto de o PMA ter sido distinguido com o Prémio Nobel da Paz, semana finda. A distinção “é uma chamada de atenção para a importância que a alimentação tem, mais do que levar a comida à mesa de quem dela carece”.

Os bancos alimentares contra a fome, que em breve alargar-se-ão para Moçambique, no âmbito da parceria com a FUNDASO, lutam contra o “desperdício de alimentos” em diferentes fases da cadeia de produção. “Seja na agricultura, seja na distribuição, seja na indústria para os levar através de acordos” celebrados “com parceiros que no terreno conhecem situações de maior carência à mesa de quem precisa”.

“Os bancos alimentares trabalham sempre em parceria com as organizações sociais que conhecem cada caso e sabem como intervir sem criar desequilíbrios em todo o ecossistema à volta, mas que entregam os alimentos doados por empresas, importadores, exportadores” e outras entidades, segundo explicou Isabel Jonet.

Sobre esta matéria, o PCA da FUNDASO interveio esclarecendo o que levou à parceria com a ENTRAJUDA: “há um conhecimento e um saber fazer” e a instituição de solidariedade em Portugal tem e que pode ser útil para a realidade moçambicana.

“Ganhamos uma vantagem enorme em trabalhar com o Banco Alimentar de Portugal” e vai ajudar da estruturação do projecto que se pretende estabelecer em Moçambique, bem como na “metodologia de comunicação e dinamização da gestão das parcerias” envolvidas, destacou Daniel David, para quem neste projecto a FUNDASO “não vai trabalhar sozinha” e privilegia parcerias.

Para evitar a “grande dispersão da produção agrícola” deve haver “mecanismos que permitam a sua concentração, conservação em condições adequadas”, defendeu hoje o ministro da Indústria e Comércio, Carlos Mesquita, na abertura da segunda edição da plataforma MOZGROW.

O governante abordou o tema “agro-indústria e promoção de produtos e marcas nacionais”. O mesmo enquadra-se na agenda do Governo de promover o consumo de produtos nacionais com vista a estimular a produção, nutrição e valorização do produto nacional, segundo explicou o ministro.

Citando os resultados do estudo sobre o Custo da Fome em África (COHA, 2017), Carlos Mesquita disse que “a prevalência de 43% de desnutrição crónica em Moçambique em crianças menores de 5 anos equivale a uma perda de cerca de 11% do seu PIB anual”.

Esta taxa percentagem, corresponde a “1,6 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de 112 mil milhões de meticais por ano. Estima-se ainda que cerca de dois milhões” das crianças acima referidas “sejam afectadas por atraso de crescimento e fraco desenvolvimento cognitivo”, prosseguiu o ministro.

Porque o Governo reconhece a malnutrição como um grave problema de saúde pública, aprovou o Plano de Acção Multissectorial para a Redução da Desnutrição Crónica, que inclui, dentre várias estratégias, a fortificação de alimentos de consumo massivo como uma das estratégias para a redução das deficiências de micronutrientes, tais como as vitaminas B12, A e D e o Ácido Fólico para as crianças e mulheres, salientou Carlos Mesquita, apontando que “a grande dispersão da produção agrícola e o seu carácter sazonal no geral requerem a criação de mecanismos que permitam a sua concentração, conservação em condições adequadas”.

Carlos Mesquita falou ainda da necessidade de instalação de parques logísticos e mercados abastecedores, como polos de desenvolvimento do comércio de hortícolas e frutas nos grandes centros urbanos, nomeadamente cidades da Matola, Beira e Nampula.

“A comercialização agrícola desempenha um papel chave para o escoamento dos produtos agrícolas das zonas de produção para as zonas de consumo, e vice-versa”.

Na presente campanha de comercialização agrícola, está prevista a comercialização de 14.864.367.39 toneladas de produtos diversos, o equivalente a um incremento de 8.7%, comparativamente ao que foi comercializado na campanha de 2019, que foi de 13.578.155 toneladas. “Está igualmente a decorrer a monitoria da exportação das 200.000 toneladas de feijão bóer, cujo processo já vai em cerca de 50%”

Até ao primeiro semestre deste ano, segundo o ministro, foram comercializadas cerca de 6,5 milhões de toneladas de produtos diversos, o que representa um nível de realização de 45% em relação do planificado.

Para “garantir a disponibilidade de bens a preços acessíveis e serviços de qualidade”, o Executivo “está a implementar medidas adequadas e a promover maior interação entre as instituições públicas e privadas”.

Para fazer face aos desafios do mercado, as empresas têm que apostar na qualidade, protecção dos seus produtos (propriedade intelectual), na embalagem, marketing e na certificação como factores que contribuirão para melhorar a competitividade e internacionalização dos nossos produtos e serviços, disse Mesquita.

O distrito de Ribáuè, na província de Nampula, espera produzir 90 mil toneladas de hortícolas na presente época agrícola. Naquele ponto do país encontramos um agricultor que há 35 anos produz hortícolas e é um caso de sucesso.

São oito hectares de tomate que começa a amadurecer na machamba de Virgílio Mahulana, numa das zonas bastante ricas e propícias para a produção de hortícolas no distrito de Ribáuè, província de Nampula.

Há 35 anos que Mahulana vive de agricultura. Se tudo der certo, só nos oito hectares plantados o rendimento poderá chegar a um milhão e oitocentos mil meticais. A sua história é de evolução e sucesso.

“Consegui fazer 70 toneladas de tomate, mas consegui cerca de um milhão e setecentos mil meticais, dai que consegui comprar o meu carro” de caixa aberta. “Continuei a trabalhar e no segundo ano consegui comprar uma minibus”, anotou o agricultor ao falar do historial do seu início de carreira como agricultor.

Num outro campo, localizado noutro ponto do distrito de Ribáuè, o foco do nosso personagem é a produção de repolho. Neste momento tem uma variedade melhorada de um ciclo de crescimento de 4 meses, que se destaca pelo tamanho.

O sistema de irrigação é por gravidade, pois a água desce das montanhas e apenas é direccionada aos canteiros. “Quando o Presidente da República veio para o lançamento do Sustenta ele disse que tinha que levar o meu filho para o instituto para ser o meu técnico na machamba e levei o meu filho para o Instituto Agrário do distrito de Ribáuè, assim ele conseguiu lavrar a minha machamba com o tractor que fui atribuído pelo Sustenta numa área de sete hectares”.

O caso de Virgílio Mahulana é apenas um dos exemplos das potencialidades agrícolas que Ribáuè apresenta. “Estamos a alimentar o mercado grossista de Nampula que é o famoso Waresta. Nós temos a previsão de produzir 90 mil toneladas na campanha em curso, só de horticultura. O nosso grande desafio é continuar a produzir variedades em que numa área relativamente pequena possam ter um rendimento mais alto”, disse Emánuel Impissa, administrador do distrito de Ribáuè.

A assistência técnica por parte de extensionistas da Agricultura, assim como o investimento em tractores e alfaias agrícolas vai impulsionar ainda mais a produção agrícola no país.

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