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O sucesso da indústria nas suas relações com a agricultura depende, em parte, da formação dos agricultores, políticas claras para o sector, recursos para produzir mais e potenciar o mercado interno, defenderam os painelistas que esta quarta-feira reflectiram sobre a “Agro-indústria e o desenvolvimento local”, no contexto da segunda edição da MOZGROW.

O vice-presidente da Associação Industrial de Moçambique (AIMO), Francisco dos Santos, começou por fazer um enquadramento histórico da agro-indústria em Moçambique, “de onde vimos e onde estamos”, de modo a dar perspectiva do que pode ser opção das prioridades do país neste momento.

Olhando para o panorama mais regional, a industrialização em África é fraca e Moçambique não é excepção, disse o interlocutor, o primeiro a intervir no painel.

Para Francisco dos Santos, “talvez, a particularidade de Moçambique é ter tido um processo de independência que abriu muitas oportunidades e depois teve a infelicidade” de ser assolado por uma guerra que só cessou volvidos 16 anos.

Essa guerra não só significou um retrocesso, como também o país ficou estagnado “enquanto todo o mundo andava a uma velocidade rápida. Isto trouxe um preço muito alto para o país, que ainda hoje estamos a pagar”, afirmou o painelista.

Em termos de percentagem do Produto Interno Bruto, “a indústria manufactureira é muito diferente com a dos outros países da África, mesmo comparando com outros muito mais industrializados. Andamos a mais ou menos 7% do PIB. Mas como o PIB de Moçambique é absolutamente baixo, e per capita é baixíssimo e Moçambique continua a ser um dos países com menor renda” o sector da agro-indústria é fraco.

Entretanto, comparado com outros países como o Malawi (país do interior), Moçambique está em melhor posição, acrescentou Francisco dos Santos, salientando que Moçambique sempre teve um mercado interno muito pequeno, de base muito rural e com uma população pobre, a sobreviver como pode.

As indústrias baseadas fundamentalmente nos produtos de exportação como algodão, caju e chá mantiveram-se com altos e baixos.

“Penso que nunca foram promovidas com muita intensidade. Nunca houve” foco e “agressividade em crescer verdadeiramente esses produtos”, segundo Francisco dos Santos. Aliás, alguns deles como o caju passaram por “mementos muito complicados”. Todavia, o tabo tornou-se, nos anos 90, uma referência para Moçambique e a região da África Austral.

“Precisamos ter recursos para produzir mais e potenciar o mercado interno”, disse Francisco dos Santos, para quem “os custos do transporte de mercadorias continuam proibitivos” apesar da produção que o país regista. Sugere que deve haver “capacidade de mobilizar recursos”, sobretudo nesta altura em que “o mercado moçambicano tende a crescer” com o envolvimento de várias áreas de produção.

A Constituição da República diz que a agricultura é a base do desenvolvimento nacional. Será isso acontece na prática? Francisco dos Santos entende que não: “não nos devemos enganar, a agricultura está como uma prioridade na Constituição, mas essa prioridade deve ser traduzida em orçamento. E a agricultura não tem sido priorizada, nem a própria indústria do ponto de vista do orçamento”. Este é “alocado àquilo que na óptica do Governo tem sido prioridade, nomeadamente saúde, educação”, por exemplo.

DEVE HAVER UMA POLÍTICA QUE ENCORAJA BONS AGRICULTORES
Por sua vez, Rui Afonso, CEO do Grupo Agriterra, disse perceber, por vezes, que o produto nacional não é valorizado. Deu exemplo do milho produzido no Chimoio, província de Manica, que segundo explicou é comprado a 15 meticais o quilograma, para produção de farinha de milho, mas em Maputo as fábricas pagam 12 meticais a mesma quantidade para o milho importado da África do Sul. “O mercado prefere o produto mais barato” e de fora.

Os investidores na área do agro-negócio “pagam mais mas o consumidor não quer consumir mais”, além do facto de “nunca vamos competir com a África do Sul”.

Para a fonte, este aspecto é chave quando se discute como incluir e incentivar o sector familiar em Moçambique. “Eu sinto”, por vezes, “que não há uma clareza daquilo que queremos como país. Sabemos que maior parte dos agricultores usa os lucros e o dinheiro que faz para pôr os miúdos na escola e construir casas” de modo a passar das rurais para as urbanas.

“Temos que decidir se queremos tirar ou manter as populações nas zonas rurais. Se for isso, como é que podemos fazer“, disse Rui Afonso, sugerindo que devia haver políticas bem claras que promovam o fomento da formação dos agricultores e criar interesse para entrarem na produção de escala.

“A ideia de termos 10 mil agricultores a produzir no meio hectare significa que nunca vamos chegar ao ponto de ser competitivos e entrar no mundo da globalização. Temos que ter uma política que encoraja aqueles que são bons, aumentando o meio hectare para 20, 50, 100 hectares” e as mesmas pessoas “tenham acesso a tecnologias necessárias” para obter rendimento.

O raciocínio de Rui Afonso na esgota aí. Segundo explicou, dos 10 mil agricultores a produzir no meio hectare, talvez só mil terão capacidade de produzir nos termos desejados e precisarão de mão-de-obra. Esta “vem dos vizinhos e da comunidade à volta deles”. Por sua vez, esses mesmos vizinhos tornam-se assalariados e com o dinheiro ganho suprimem as suas necessidades e com o tempo “tornam-se um mercado” com uma agro-indústria local.

É PRECISO MODERNIZAR E NÃO EXISTE OUTRA OPÇÃO

Roberto Albino, director-geral da Agência do Vale do Zambeze, disse que a agricultura é prioridade para a instituição que dirige. A agência actua na área de desenvolvimento de competências técnico-profissionais, alargamento da base produtiva, capacitando, sobretudo, o sector privado e os pequenos produtores.

Como que dizer que o país não pode continuar a usar técnicas rudimentares no sector da agro-indústria, se almeja ter um desenvolvimento local sustentável, Roberto Albino afirmou que “nós não podemos continuar a caçar com fisga enquanto os vizinhos estão a usar mísseis. Temos que modernizar, não há outra opção”.

De acordo com o director-geral da Agência do Vale do Zambeze, outro trabalho desenvolvido consiste na aproximação entre produtores e consumidores, sempre tendo como meta a substituição de importações.

Ademais, é preciso desenvolver a industrialização a partir do local onde a produção acontece. “Se tenho que produzir arroz em Mopeia” para depois “processar em Nicoadala, quase 200 quilómetros” de um ponto para o outro, “só a logística de transporte da matéria torna o arroz não competitivo. Então, procuramos desenvolver a estratégia de agro-industrialização ao nível do sítio onde se produz a matéria-prima”, afirmou Roberto Albino.

Nesta óptica, “o distrito, em vez de exportar matéria-prima, começa a exportar produtos acabados” e, consequentemente, reduz custos de logística.

Relativamente à intervenção a ter na agro-indústria, Roberto Albino entende que o agricultor precisa desenvolver um espírito competitivo para poder produzir mais e melhor, a industrialização deve ser acompanhada de investimentos sérios, é necessário alargar o programa de investimentos e produção e há que implementar políticas consistentes capazes e atrair maior interesse pelo agro-negócio.

Kobus Botha, representante da Niassa Indústria Alimentar (NIA), disse que Niassa enfrenta problemas similares aos de outros pontos do país.

Para aumentar a produtividade de pequenos produtores é preciso haver financiamento, primeiro. Depois há que se criar rotas para os mercados de comercialização, disse Botha.

Especialistas em Nutrição alertam para perigos da má alimentação de crianças e mulheres grávidas, decorrentes de tabus criados pela sociedade. Os mesmos falavam durante o painel que tinha como tema desconstruindo tabus alimentares.

  

A desnutrição crónica em Moçambique manteve-se relativamente inalterada durante os últimos 15 anos. Níveis extremamente elevados de desnutrição crónica (43 por cento) em Moçambique afectam quase uma em cada duas crianças menores de 5 anos alerta a Unicef.

A contribuir para estes números estão os aspectos sociais-culturais, entre eles as desigualdades, educação e os tabus. Foi tendo em conta este último elemento que foi conduzido o painel Mozgrow com tema desconstruindo tabus alimentares.

Para o painel a pergunta de partida era simples. É tabu ou verdade?

A resposta, esta, chegou também simples e ajustada ao tipo de alimento para cada grupo etário, a começar pelas crianças.

“As crianças estão em fase de desenvolvimento e para isso elas precisam de proteína porque ela participa na formação dos músculos e tecidos, e ovo é um alimento que podemos aproveitar de forma integral”, disse Milakishe, estudante finalista de nutrição, esclarecendo depois que “tudo no ovo pode ser aproveitado, a gema, a clara e a casca que contém o mineral cálcio”.

Em relação ao impedimento de crianças para o consumo de arroz, feijão e milho, os nutricionistas deixaram uma garantia. “É tabu porque estes alimentos não constituem perigo para ocorrência de cólicas na criança porque todos eles são alimentos naturais e todos nutrientes por eles fornecidos, o nosso organismo necessita” clarificou o docente Aleixo Luciano.

As crianças tem nas mães a sua primeira fonte de alimento, mas por diversas razões elas tem dificuldade para produzir o leite, recorrendo ao consumo de pratos contendo amendoim para estimular a produção deste líquido.

Milakishe Boane disse que não há evidências específicas da ligação entre o consumo de alimentos contendo amendoim e a produção de leite, mas disse que o amendoim possui gorduras naturais benéficas ao organismo humano e bons para o bebé.

Acrescentando, Aleixo Luciano apontou que a produção de leite pode ser estimulada também com o consumo de outros alimentos, tais são os casos da castanha, sementes de abóbora e gergelim.

Além de contribuir para mortes infantis e para uma má saúde da criança, a desnutrição crónica tem um impacto prejudicial no aproveitamento escolar, na renda familiar e perpetua o ciclo de privação intergeracional.

 

O uso de tecnologias, aposta na educação de jovens e políticas de permitam o acesso fácil à terra são apontadas como soluções para o desenvolvimento da agricultura em África. O posicionamento foi defendido hoje pelo painel que discutiu o tema: “Agricultura como Vector para a Inclusão e Crescimento Sustentável”

Num contexto em que a mecanização da agricultura tem sido preocupação dos governos africanos, para aumentar a produção e a produtividade, Daisry Mathias, Conselheira do Presidente da Namíbia para assuntos da Juventude defendeu que além da tecnologia, os governos devem aproveitar o facto de terem uma população jovem cada vez mais esclarecida.

“Em termos de oportunidades, existem duas alternativas que podem ajudar a região: a primeira é, claro, a quarta revolução industrial, disrupção digital, a tecnologia que nos permite imprimir eficiência mesmo na agricultura; a segunda é o facto de que a nossa região ser a mais nova e é a que regista o mais rápido crescimento económico no continente, a média da nossa idade situa-se nos 19 anos; estamos a aumentar em termos de população educada e estamos cada vez mais a nos urbanizarmos e a abraçar a tecnologia; tudo isto constitui uma oportunidade em termos de acesso ao mercado e ao consumo, 34% da população da SADC está abaixo dos 35 anos e isto faz com que tenhamos um imperativo político e económico de garantir que todos os jovens sejam incluídos no desenvolvimento económico e participem nos programas de desenvolvimento da região”, descreveu Daisry.

O acesso à terra constitui um dos entraves para o desenvolvimento da agricultura em África. Para a conselheira do presidente namibiano, cabe a cada país criar políticas que facilitem o acesso a espaços de cultivo, principalmente para os jovens.

“Penso que uma das formas que os governos africanos têm para potenciar esta prática é reduzir as barreiras excessivas que existem no acesso à terra, pois o custo de acesso a esse activo é alto no nosso continente. Temos que permitir que os jovens empreenderes possam desenvolver as suas ideias, isso pode ser feito através de créditos agrícolas, através de modelos comunitários de agricultura, não precisamos de grandes extensões de terra, porque isso requere custos elevados” detalhou a oradora para depois avançar que os planos de expansão das cidades deve prever essas áreas de cultivo.

“Temos uma tendência imergente que é a agricultura urbana, através da qual temos produtos agrícolas frescos a serem produzidos nas cidades como forma de aumentar a segurança alimentar doméstica. Por isso, defendo que os programas de reassentamento devem ter em conta essa particularidade”.

Por seu turno, Sara Mbango-Bhunu, Directora Regional da África Austral do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura defendeu a aposta, pelos países africanos, de um quadro legal que permita maior acesso a recursos financeiros à mulher para garantir sua inclusão efectiva no sector agrícola.

“Precisamos ter modelos, mulheres que sejam modelos na gestão de Pequenas e Médias Empresas. A transformação do género começa na família, as mulheres têm de ter capacidade e dinâmica de controlar os activos e tomar decisões. Penso que a adopção de uma abordagem múltipla é muito importante. A segunda área importante é o acesso ao capital, muitas mulheres não têm activos, e isso torna-se um grande desafio. No Quénia, por exemplo, recorre-se aos registos do seu telemóvel, e pelo movimento das transações que fazes tem-se uma ideia dos seus gastos, e isto traz confiança aos investidores que vêem capacidades nesta mulher que pretende iniciar-se no mundo dos negócios”, exemplificou para depois acrescentar que:

“Depois vêm os programas de mentoria. Este é um aspecto muito importante e não deve ser subestimado; ser empreendedor não é tarefa fácil, o individuo tem que ser capaz de gerir o pessoal, gerir bens, tem que ser capaz de interpretar o quadro legal em vigor, estas habilidades são muito importantes. Não basta dar formação vocacional à mulher, é preciso sim, formar a ela em matérias de gestão, liderança e confiança”.

Noutro desenvolvimento, a oradora disse ser importante potenciar a troca de experiências para que consigam ter mais ganhos na agricultura.

“Na minha instituição, nós apoiamos a partilha de conhecimentos e cooperação técnica sul-sul. Temos uma área que cuida desse aspecto, identificamos as áreas e fazemos a combinação. Por exemplo, temos estado a apoiar um intercâmbio entre a Etiópia e o Quénia, através do qual o governo Etíope está interessado em conhecer as políticas, os preços e todas as nuances à volta da agricultura no Quénia, que é uma referência nestas matérias. Temos também o exemplo  do Uganda e Quénia que também partilham informações, mas é importante realçar que este intercâmbio não se deve limitar só entre os países Africanos, deve ser extensivo a outros continentes”, terminou

 

O Presidente do Conselho Executivo do Banco Nacional de Investimento reconhece ser difícil financiar directamente a agricultura familiar devido aos riscos de perda de dinheiro a ela associados. Tomás Matola diz que só através dos grandes produtores e a indústria de agro-processamento é que estes podem beneficiar das linhas de crédito disponibilizados pelo BNI.

A agricultura é um dos pilares para o desenvolvimento económico do país. Só para se ter uma ideia, 20% do Produto Interno Bruto de Moçambique provem da actividade agrícola.

Para continuar a desempenhar esse papel importante na economia, a agricultura precisa de um estímulo financeiro. Foi assim que no último painel do segundo dia da MOZGROW subordinado ao tema “Financiamento da Transformação de Agronegócios”, o Presidente do Conselho Executivo (PCE) do Banco Nacional de Investimento, BNI, partilhou a sua opinião sobre as linhas de crédito para este sector.

“O papel da banca de desenvolvimento tem que ser, essencialmente, encontrar soluções que sejam ajustadas ao perfil de risco e retorno do sector do agronegócio, nomeadamente: financiar e assistir todos os intervenientes da cadeia de valor, encontrar soluções que permitam uma redução do risco de crédito que é perseguido e determinado pelos bancos comerciais, o que acaba afectando o nível de acesso ao financiamento bancário por parte dos projectos do agronegócio”, enumerou Tomás Matola, Presidente do Conselho Executivo.

Num outro desenvolvimento, Tomás Matola diz que é preciso procurar, para cada um dos intervenientes da cadeia, ver como financiar e como assisti-lo de modo que “não se quebre a cadeia. Que haja certeza de que cada interveniente na cadeia vai ter mercado e o banco ter a garantia de que ele vai conseguir gerir recursos para fazer face ao financiamento”.

Segundo PCE do Banco Nacional do Investimento, o acesso ao crédito bancário tradicional pelo sector agrícola no país é insignificante porque grande parte da população, cerca de 90%, ainda dedica-se à agricultura familiar, na qual o risco de perda de dinheiro é muito alto.

“A agricultura familiar, não mecanizada, que utiliza pouca semente certificada, o nível de produtividade é baixa e, consequentemente, o rendimento é baixo, o que eleva o risco de crédito”, constatou Tomás Matola, acrescentando que a outra fonte de risco é, depois da produção, não haver integração dos vários intervenientes da cadeia porque, “mesmo lhe financiando e produzindo, não havendo certeza de que vai colocar o produto, isso eleva o risco de negócio. A Terceira fonte tem a ver com a incapacidade dos produtores familiares de estruturação dos próprios projectos e, na ausência dessa capacidade, limita o seu acesso ao financiamento”.

E já na chamada agricultura mecanizada, mais do que financiar o processo de produção, o PCE do Banco Nacional de Investimento defende ser necessário custear toda a cadeia de valor até ao escoamento dos produtos.

“Se o investimento for apenas na produção, vamos ter o problema de super produção, mas se o investimento for, também, na integração dos outros intervenientes da cadeia de valor, refiro-me à produção, agro-processamento, distribuição, aí nós conseguimos mitigar esse risco ( de super produção)”, explicou PCE do Banco Nacional de Investimento.

Outro aspecto que Tomás Matola não deixou de lado é a questão das infra-estruturas. “Se continuarmos com dificuldades de acesso para chegar a alguns pontos de produção, aí o risco vai prevalecer. Significa que esses investimentos para a agricultura devem incorporar essa componente para financiar e assistir toda a cadeia”, observou Tomás Matola.

Por outro lado, Matola sublinha que é objectivo do executivo apoiar a agricultura familiar, através das várias linhas de financiamento, entretanto, considera ser difícil que tal investimento seja feito directamente aos produtores.

“O que nós fazemos é financiar os grandes produtores dos centros de produção e a indústria de agro-processamento a taxas de juro mais baixas e mais acessíveis, sob a condição de eles integrarem os produtores familiares, o que significa que os produtores familiares vão ter acesso a esse financiamento de forma indirecta”, esclareceu PCE do Banco Nacional de Investimento.

Assim, segundo Tomás Matola, os integradores vão distribuir insumos de produção, incluindo a própria tecnologia, os equipamentos sob forma de crédito “com a garantia de que, uma vez feita a produção, eles vão tomá-la. Aqueles produtores familiares vão ter acesso à tecnologia, insumos, equipamentos, assistência e vão produzir. Essa vai ser sua maior preocupação, produzir porque já têm mercado”.

É ambição do Banco Nacional de Investimento cobrir o mercado nacional e, num future próximo, expandir suas linhas de crédito para a regiões austral de África.

Segundo entendem os académicos que esta terça-feira debateram o tema Conhecimento e inovação como catalisador da transformação no agronegócio, na segunda edição da MOZGROW, é urgente que o Estado e o sector privado invistam na pesquisa com financiamento direcionado às instituições agrárias.

 

Em primeiro lugar, todos os convidados ao debate desta tarde, inserido na segunda edição da MOZGROW, foram unânimes ao assumir que a quantidade de tecnologia gerada no país é fraca. A razão é simples, há pouquíssimo investimento financeiro na investigação destinada ao sector agrário, quer por parte do Estado, quer por parte do sector privado. Logo Moçambique terá sempre dificuldades de fazer do conhecimento e da inovação catalisadores da transformação do agronegócio enquanto a pesquisa não for fomentada.

Segundo entende Rogério Chilulele, Director-Adjunto para Investigação na UNEM, as universidades estão a desempenhar o seu papel no processo de desenvolvimento do agronegócio, entretanto não nos níveis ideais. Por isso, Chilulele defendeu a necessidade de se envidar esforços para investigação, porque a área da agricultura é muito dinâmica. “É preciso que a pesquisa aconteça para responder à dinâmica agrícola”.

Na sua abordagem, o Director-Adjunto para Investigação na UNEM lembrou que uma boa parte do orçamento destinado à investigação no país é resultado de doações de entidades estrangeiras, o que em si é uma prova do fraco envolvimento do sector privado. De acordo com o Director-Adjunto para Investigação na UNEM há aqui um problema, até porque esses tais financiamentos externos são de curta duração, quando o conveniente seria uma aposta a longo prazo.

Ao mesmo tempo que o país necessita de financiamento à pesquisa, acrescentou o Director-Adjunto para Investigação na UNEM, precisa também de infra-estruturas para essa mesma investigação. E reforçou: “Precisamos de recursos para gerar tecnologias”.

No mesmo painel, no segundo dia da MOZGROW, esteve o Formador do Instituto Agrário de Boane, localizado no distrito com o mesmo nome, na província de Maputo. Na percepção de Rafael Alberto, as várias transformações que estão a ocorrer no mundo contemporâneo atingem a agricultura diariamente. Por isso mesmo, investir e partilhar conhecimentos com estudantes do sector agrário deve ser uma aposta permanente. “Mediante os programas actuais, conciliamos a partilha de conhecimento para que eles, os jovens, sejam fazedores da agricultura, percebendo os problemas locais com capacidade de desenvolver iniciativas próprias” adequadas. A seguir, o Formador do Instituto Agrário de Boane enalteceu que Moçambique deve ter a cultura de investigação desde as classes iniciais, continuada nos níveis seguintes. “Temos de ter iniciativa de investigar, porque, assim, a questão financeira até pode ser ultrapassada. Aliar a questão financeira à cultura de investigação é fundamental. Para aumentar a produção e produtividade. Para o efeito, é preciso conhecimento. Temos de adequar a tecnologia local ou importada a uma realidade concreta”.

Representando a Universidade Zambeze, esteve Tamara Sande, Directora da Faculdade de Ciências Agrárias. A académica começou por lembrar que as instituições do ensino superior tendencialmente versam sobre actividades que assentam em três pilares: a lecionação, a pesquisa e a extensão. Há sempre necessidade de desenvolver esses pilares, para que os estudantes saibam actuar nas áreas de pesquisa. O Papel do ensino superior não se limita na transmissão de conhecimentos, lembrou Sande, mas também na promoção de transferência de tecnologias. Logo, num contexto em que falta financiamento, o mínimo que se pode fazer é: “Devemos melhorar a coordenação das instituições que lidam com o sector agrário”. Não obstante, defendeu Tamara Sande: “É de extrema importância a necessidade de sermos nós a desenvolver as tecnologias e as novas abordagens na agricultura. Penso que as instituições vocacionadas à investigação devem estar melhor organizadas, com disponibilidade de instalações, recursos humanos qualificados e financiamento permanente. É importante que tenhamos clareza do que são os objectivos da investigação, considerando também o conhecimento empírico”.

Por fim, interveio Leonid Moisés, Director da Faculdade de Ciências Agrárias da UniLúrio. O académico mostrou-se a favor da pesquisa e da necessidade de as instituições agrárias contarem com financiamento do Estado e do sector privado, mas defendeu, igualmente, que as universidades devem se especializar, ao invés de todas fazerem tudo e a mesma coisa. “Cada universidade deve se concentrar em cada questão, respeitando todas as longas etapas do desenvolvimento tecnológico com inovações. O Estado tem que ter uma política. Temos de nos posicionar em relação ao que queremos em termos de políticas de pesquisa e definir em que aspecto o sector privado pode nos apoiar. O sector privado e as empresas devem se associar às universidades de modo que as tecnologias e a investigação possam favorecer o agronegócio”.

Na opinião do Director da Faculdade de Ciências Agrárias da UniLúrio, as universidades devem gerar conhecimento, tendo o Estado como regulador e como mobilizador de fundos. “As universidades devem trabalhar com outras instituições”.

Já a terminar a sua intervenção num debate moderado pelo jornalista António Tiua, e que durou 90 minutos, Leonid Moisés disse ainda que os políticos têm dificuldades de se aproximar às universidades. “As instituições de ensino devem ter o que dizer para que os políticos possam fazer a sua parte. Sinto que devemos melhorar nesse aspecto”.

“Conhecimento e inovação como catalisador da transformação no agronegócio” foi um dos temas de debate neste segundo dia da MOZGROW.

Os administradores de Magude e Vanduzi, nas províncias de Maputo e Manica, respectivamente, falaram das potencialidades e dos desafios locais na área do agro-negócio. Destacaram a necessidade de mais investimento na extensão agro-pecuária, esta terça-feira, no painel que discutiu sobre “Desenvolvimento local do agro-negócio”, no segundo dia da segunda edição da MOZGROW.

Magude por exemplo tem enorme potencialidade na criação e comercialização do gado bovino. Lázaro Mbambamba, administrador do distrito, indicou que deve haver mais assistência aos criadores de gado bovino de modo que a carne produzida tenha qualidade desejável.

O Governo projecta alargar a rede de extensionistas e Magude espera incrementar a qualidade que deseja e promover ainda mais a potencialidade do distrito, com eventos como o festival da carne que já organizou por quatro vezes.

Para Mbambamba, o festival da carne é uma marca, uma vez que “prova a dimensão e capacidade que Magude tem” de se comparar com “gigantes” na criação e comercialização bovina, como a África do Sul e Eswatine.

Vanduzi, em Manica, é também outro ponto do país com potencialidades para ampliar o agro-negócio.

O distrito tem registado considerável produção agrícola, mas o administrador, João Amade, considera haver um trabalho que urge realizar: “contínua assistência aos agricultores”, uma vez que a actual rede de extensionistas não permite tal desiderato, pelo número dos que participam na produção agrícola ser vasto.

Assim, os dois administradores foram unânimes que o alargamento da rede de extensionistas que se pretende – com a contratação de mais técnicos – vai dinamizar as potencialidades que seus distritos apresentam.

Os “Desafios da comercialização agrícola”. Os oradores de um dos painéis da segunda edição da MOZGROW apresentaram as lacunas e soluções de um sector cujas potencialidades estão à vista.

Para dar soluções, segundo Horácio Fernando, representante do Centro de Agregação e Valorização Agrária, “é preciso regular o mercado agrícola para evitar o excesso de mercadorias”.

De Portugal, chega a experiência do Clube de Produtores Continente. São 20 anos no mercado de comercialização agrícola, com aposta em parcerias estratégicas que garantem a retirada dos produtos da machamba até ao mercado.

Segundo Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente, a organização é fundamental para o desenvolvimento de toda cadeia agrícola.

Como replicar a experiência lusa no mercado moçambicano? O representante do Centro de Agregação e Valorização Agrária, Horácio Fernando, entende que ainda há muito por fazer.

Carlos Mucatchua é produtor e diz que o grande problema da comercialização agrícola em Moçambique prende-se na falta de organização dos mercados.

“Há produção, mas as falhas na comercialização comprometem o rendimento do produtor”, apontou Mucatchua.

Os desafios do sector transcendem a outros níveis. Os oradores defendem pacotes financeiros mais flexíveis, por forma a incrementar os níveis de produção agrícola.

Os painelistas terminam defendendo que o valor praticado no mercado na compra dos produtos dos agricultores é muito baixo quando comparado com os custos operacionais.

No tema “Ecossistema para o desenvolvimento do agro-negócio”, no segundo dia da plataforma MOZGROW, defendeu-se a necessidade de a cadeia de valor do agro-negócio ser sustentável. Contudo, a dificuldade de financiamento foi uma das questões consideradas condicionantes o sector agrário no país.

O responsável pela Banca Agrícola no Absa Bank, Marcelino Botão, disse que o ecossistema no agro-negócio permite criar um crescimento sustentável e contribuir para o desenvolvimento do país.

Falando no painel que discutiu o “Ecossistema para o desenvolvimento do agro-negócio”, Marcelino Botão defendeu que é preciso que a banca conheça o ecossistema e os respectivos mecanismos de negócio.

Sobre a inclusão financeira, a fonte disse que maior parte da cadeia do agro-negócio é constituído por pequenas e médias empresas que ainda enfrentam desafios. E olhando especificamente para os grandes desafios, tanto para banco como para os potenciais mutuários no agro-negócio há questões a serem avaliadas durante a solicitação do financiamento.

Uma dessas questões consiste em perceber, por exemplo, o tipo de cadeia de valor envolvidas para o financiamento. As cadeias de valor são diferentes e há os que estão completos. Outras com fraco desenvolvimento e outras ainda desintegradas. Das empresas com este tipo de cadeia de valor, algumas podem representar risco, segundo explicou a Marcelino Botão.

Aliás, se as cadeias de frangos estão constituídas e funcionam, pese embora enfrentem alguns problemas como legalização e mercado ilegal, há, segundo Botão, cadeias de valor como as do algodão que no certo momento no passado funcionaram plenamente. Contudo, de há tempos esta parte não apresentam um ambiente saudável.

Ao analisar a cadeia de valor, o Absa Bank toma em consideração aspectos como a produtividade, tecnologia, eficiência, entre outros para medir o financiamento a desembolsar. A este respeito, Botão entende que é preciso encontrar modelos de produção eficientes e consistentes para atrair financiamento dos bancos.

O Absa Bank tem apostado no financiamento ao sector do agro-negócio mas não basta, daí que, além de conceder crédito, “dá assistência aos produtos independentemente do seu nível de produção”.

Para Telma Comé, representante da Agência Para a Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), o sector agrário é de alto risco e a dificuldade de acesso ao financiamento condiciona a capacidade de produção e exportação. Em relação à “inclusão financeira” esta “é determinante para o desenvolvimento do agro-negócio”.

A PIEX é uma entidade do Estado tutelada pelo Ministério da Indústria e Comércio. Telma Comé referiu que o Agro-negócio depende, por exemplo da oferta de produtos. Além de considerar o sector agrário de alto risco e o acesso ao financiamento ser difícil, o que dificulta o desenvolvimento deste sector, a painelista apontou ainda o facto de este sector agrário depender das condições climáticas.

Segundo ela, deve haver políticas para colmatar estes problemas. A questão do para acesso os mercados internacionais também carece de melhorias, nas medida em que exige-se o cumprimento de requisitos pelas empresas. Esses requisitos, algumas firmas não reúnem.

Telma Comé falou ainda do analfabetismo nos agricultores, o que dificulta a elaboração de projectos para financiamento quando solicitados pelos bancos para efeitos de financiamento.

Entretanto, O Governo está adoptar políticas para estimular o sector agrário, entre elas o projecto Sustenta.

O antigo Ministro brasileiro da Agricultura, Roberto Rodrigues, levou à Segunda Edição da Mozgrow, as experiências do seu país, na transformação da produção familiar. Um dos exemplos que destacou é a introdução de uma política específica para este sector.

“Nós obtivemos esse grande crescimento por três razões internas e uma externa. A externa foi o crescimento do mercado, sobretudo nos países emergentes, como os países asiáticos todos, liderados pela China, o continente africano, Médio Oriente e países árabes, assim como os países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América e União Europeia, assim, o crescimento da demanda foi factor determinante para a nossa condição de aumentar a produção” explicou sobre a causa externa.

Sobre os factores internos, o ex-ministro apontou “a tecnologia, a disponibilidade de terra e e a capacidade técnica da juventude de estar no campo” explicou.

O sector familiar contribui com uma considerável quota naquilo que é o desenvolvimento agrário brasileiro. Segundo o antigo governante, trata-se de um passo que atingiu, graças a políticas concretas para este segmento.

“A política para o sector familiar foi muito importante em relação ao crédito e recebeu bem mais subsídios do que o sector não familiar e isso fez com que a renda crescesse nesse segmento” disse.

Por outro lado, Rodrigues destaca a importância do subsídio e do seguro agrário, como fundamentais para dar sustentabilidade aos pequenos produtores.

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